domingo, 4 de abril de 2004

Argumentos ateus

Como seria de esperar, a minha última mensagem no blogue gerou logo polémica.
É o que sucede quando se traz à luz o trabalho de S. Tomás de Aquino, que é incómodo porque é um trabalho solidíssimo, fortíssimo, e tão difícil de refutar. E mais, porque é um trabalho redigido em termos filosóficos.

Neste site encontram-se argumentos de ateus, que infelizmente demonstram pouco trabalho de pesquisa.
Comecemos por refutar alguns deles. Se esta mensagem se tornar extensa, continuarei numa próxima.

http://www.ateus.net/artigos/critica/doze_provas_da_inexistencia_de_deus.html

Estes argumentos foram escritos pelo ateu Sebastien Faure (1858-1942).

1º Argumento: "O gesto criador é inadmissível"

Diz o autor que nada pode surgir do nada. Trata-se de uma incompreensão do conceito de Criação.
Deus não criou o Mundo a partir de algo que lhe fosse exterior. E não criou o Mundo a partir de alguma matéria pré-existente.
A substância do Mundo, que não resulta de nenhuma transferência de substância, foi criada por Deus num acto imediato. O tempo e o espaço, dimensões intrínsecas do nosso Mundo, foram criadas de forma coexistente com o Mundo. Por isso, nenhuma parte do nosso Mundo, nenhum elemento existia "antes" deste acto criador. "Antes" compreendido de forma causal, e não temporal, visto que o próprio tempo foi criado conjuntamente com o Mundo.
A criação a partir do nada, "ex nihilo", é a constatação de que nada deste Mundo existia antes da Criação.

2º Argumento: "O “puro espírito” não podia determinar o Universo"

Para demonstrar que Deus não pode determinar o Universo, lê-se a páginas tantas:

"De duas, uma: ou a matéria estava fora de Deus, ou era o próprio Deus (a não ser que lhe queiram dar um terceiro lugar). No primeiro caso, se a matéria estava fora de Deus, Deus não teve necessidade de criá-la, visto que ela já existia; e, se ela coexistia com Deus, estava concomitantemente com ele, do que se depreende que Deus não é o criador. No segundo caso, se a matéria não estava fora de Deus, encontrava-se no próprio Deus."

Bom, para já, estas linhas demonstram um materialismo excessivamente primário. O Universo não é só matéria. Mas enfim, interpretemos "matéria" como "substância" em termos aristotélicos e até se poderia aceitar o termo.

A substância do Universo não estava fora de Deus. Nada está fora de Deus. Deus é o limite ontológico.
A substância do Universo não estava no próprio Deus.
Por isso, nenhuma das duas hipóteses apresentadas é correcta.
Automaticamente, caem por terra as duas conclusões tiradas a partir destas duas hipóteses.

A Criação fez-se através do Verbo proferido por Deus Pai. Sem compreender a Trindade, dentro de um contexto católico, dificilmente se compreende a Criação. Deus Filho é o Verbo, que se torna Palavra "proferida" pelo Pai no gesto criador.
Assim, a Criação dá-se quando o Verbo ainda não proferido, mas já "pensado" pelo Pai, se concretiza ontologicamente, ou seja, "é proferido", dando-se a manifestação de "todas as coisas visíveis e invisíveis".

A metáfora da linguagem é aqui utilíssima. Uma palavra já existe no nosso intelecto antes de a proferirmos. Ao ser proferida, a palavra reveste-se de um carácter externo que é a dimensão sonora.

Assim também se deve entender a Criação. O proferir do Verbo, que habitava inicialmente no intelecto divino, concretiza o momento criador, em que o Verbo é "vocalizado". Daqui se compreende o significado da expressão do Credo: "nascido do Pai antes de todos os séculos", ou seja, o Verbo já habitava no intelecto de Deus Pai (causalmente) antes da Criação.

Este texto já vai longo.
Continuarei noutra mensagem a refutação destes argumentos ateus.

Bernardo

1 comentário:

varcomplex2010_1 disse...

Em primeiro lugar, parabéns pelo seu blog. Eu segundo lugar, permita-me refutar mais argumentos sobre as doze provas que não provam nada da inexistência de Deus.
1º Argumento: "O gesto criador é inadmissível"
O autor esqueceu o fator principal sobre criar: Criatividade. Da criatividade surgiu todos os objetos que existem ao nosso redor.

"podemos dizer que uma casa foi criada? Não, foi construída" Podemos dizer que há 300 anos atrás um avião poderia ser construído? Não, pois na época não existia avião. Então o avião veio do nada?

2º argumento: O “puro espírito” não podia determinar o Universo"

"O puro espírito não tem forma nem corpo, nem linha, nem matéria, nem proporções, nem extensão, nem dureza, nem profundidade, nem superfície, nem volume, nem cor, nem som, nem densidade. "
Da mesma maneira que a energia.

3º argumento: O perfeito não pode produzir o imperfeito

É claro que pode. Deus é perfeito. O universo não é simplesmente pelo fato de não ser Deus.

4º argumento: O ser eterno, ativo, necessário, não pode, em nenhum momento, ter estado inativo ou ter estado inútil.
O fato de Deus ser eterno não tem nenhuma relação direta de ser ativo e necessário. Deus criou o universo porque quis. E antes disso, não podemos afirmar que Deus era inútil.
Deus sempre existiu, com ou sem universo.
O universo precisou de Deus para ser criado, mas Deus não precisou ter criá-lo.

5º argumento: O ser imutável não criou

"Deus criou, dizeis vós, crentes. Então modificou-se duas vezes: a primeiro, quando se determinou a criar; a segunda, quando resolveu por em prática sua determinação, completando o gesto criador"

Em primeiro lugar, Deus é imaterial. Ou seja, as mudanças que ocorrem na matéria não podem afetá-lo. Logo, Deus é imutável.
Deus não mudou quando determinou a criar e quando resolveu colocar em prática sua determinação. Isso não é mudança. É lógica. Alguém muda quando está determinado de compor uma música?