terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Modern Physics and Ancient Faith



Já não é propriamente recente, mas sucede que só descobri este livro (Modern Physics and Ancient Faith, University of Notre Dame Press, E.U.A., 2006) há pouco tempo, quando me foi emprestado por um amigo. A obra de Stephen M. Barr, físico de formação, investigador, professor universitário na Universidade de Delaware, e católico desde sempre, é fundamental. Contém uma argumentação estruturada e racional que defende a compatibilidade entre a religião cristã e a física moderna. Stephen M. Barr alude à teoria do "Big Bang", às inovadoras teorias cosmológicas que desafiam o modelo clássico do "Big Bang", à física quântica e aos seus desenvolvimentos mais recentes, e a muitas outras teorias para demonstrar como estas, longe de refutar a religião cristã, podem elucidar alguns dos seus aspectos.

A vantagem de Barr, para além de uma clareza invejável na escrita, e de uma capacidade incrível para explicar coisas complicadas de forma simples (veja-se o apêndice sobre os teoremas da incompletude de Kurt Gödel), está em que é duplamente competente, tanto em física como em religião cristã. Isso faz toda a diferença nesta obra indispensável.

Uma entrevista a Barr, feita por Mark Brumley a 25 de Setembro de 2006, pode ser lida aqui:

The Mythological Conflict Between Christianity and Science

quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Será que aprendemos com a História?

(Segue-se um texto do meu amigo José Maria André, cuja divulgação o autor agradece)

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Será que aprendemos com a História?
Para quando a verdade sobre a conferência de Ratzinger em 1990?


As recentes atitudes desagradáveis na «La Sapienza» recordaram-me um velho episódio no «Diário de Notícias», que deformou completamente a Conferência do Cardeal Ratzinger em Parma em 1990. Agora, deparei-me com o mesmo erro, desta vez no «Público», em 2008.

No dia 21 de Janeiro de 2008, a última página do «Público» trouxe um artigo azedo contra a Igreja e o Papa Bento XVI. O título, «No Index», prometia evocar as falhas mais desagradáveis da História da Igreja e o corpo do artigo satisfazia a expectativa, em sucessivas estocadas rápidas, à primeira vista fulminantes.

Só que o autor não conhecia bem o tema e não teve tempo de confirmar as frases e os episódios que criticou, pelo que o resultado foi apenas uma sequência de afirmações falsas, escritas num tom muito agreste.

A situação é fácil de compreender, porque os clichés que serviram de mote a cada estocada contra a Igreja tinham aparecido na Imprensa e, como se sabe, é frequente os jornalistas reproduzirem o que leram algures, sem verificar os factos. Pode acontecer a qualquer um, basear-se em referências erradas e tirar delas conclusões inválidas, por debilidade das premissas. E pode acontecer com mais facilidade e aparato a quem publica abundantemente, cultivando um estilo mordaz. Por isso, não custa perceber o percalço, apesar de o autor não ter tido intenção de faltar à verdade. Neste caso, a boa recordação de outras crónicas dele no «Público», sobre outros assuntos, pode ajudar-nos a relativizar a infelicidade daquele texto.

Quase todos os pontos de partida do artigo estavam errados, mas não interessa escalpelizar agora tantos erros factuais. Quero apenas fixar-me na referência directa àquela conferência do Cardeal Ratzinger:

«(...) Já em 1990, para comentar o caso Galileu, Ratzinger tivera de se socorrer das palavras de Paul Feyerabend (...). E foram as palavras do relativista Feyerabend, que o anti-relativista Ratzinger citava aprovadoramente quando pareciam desculpar a Inquisição no processo de Galileu, que agora voltaram para assombrar o anti-relativista Ratzinger diante de físicos (...)».

Como se sabe, Ratzinger não usou as palavras de Feyerabend a seu favor, nem as citou aprovadoramente. Pelo contrário, declarou bem claramente na conferência: «Seria ingénuo construir uma apologética improvisada, com base nestas afirmações; a fé não cresce a partir do ressentimento e de se pôr em questão a racionalidade, mas só cresce com um profundo apreço pela razão e com uma mais ampla compreensão intelectual (...)». E acrescentou: «Mencionei tudo isto só como um exemplo sintomático, que manifesta como é profunda hoje a problematização que a modernidade, a ciência e a técnica fazem de si mesmas».

Obviamente, a fonte deste disparate de pretender que «Ratzinger cita aprovadoramente Feyerabend...» não é o texto original, mas algum comentário, em segunda ou terceira mão, que os jornais publicaram nestes dias. Resolvi, por isso, enviar ao autor o texto da conferência, que ele tinha criticado sem conhecer, e alertá-lo para as outras incorrecções.

Algumas semanas depois, pareceu-me oportuno recordar ao autor a importância de ler a conferência do Cardeal e de repor aqueles factos mais mal noticiados no seu artigo, mas desta vez não houve resposta. Podem ter-se metido outras tarefas pelo meio, mas o facto é que os erros não foram corrigidos.

Assim, mais uma vez, a imagem da Igreja junto da Opinião Pública acumulou elementos falsos, sem se conseguir repor a verdade.

Algo de comparável ocorreu no século XVII e seguintes, quando as autoridades eclesiásticas não tiveram coragem de dizer imediatamente que o julgamento de Galileu tinha sido uma farsa. Passaram anos, à espera de que o assunto deixasse de ser importante e se «resolvesse» por esquecimento. Alguns jornais dos nossos dias actuam da mesma maneira.

Como sempre, Deus é a vítima das vaidades humanas. Assiste sem nenhum espírito de vingança aos nossos erros e à teimosia com que fugimos de os corrigir. Sofre as impertinências dos padres e as pesporrências dos leigos, as imprudências dos que estão afastados e a vaidade de todos. É caso para Lhe agradecer de todo o coração que o ar que respiramos não desapareça e cada manhã nos volte a oferecer o calor aconchegado do sol e a beleza da vida.

Escrevo estas páginas para repor (na medida do possível) a realidade que foi distorcida no artigo mencionado acima e também para ponderar sobre esta dificuldade imensa da natureza humana, de emendar o erro. Convinha-nos aprender da História e, mais ainda, convir-nos-ia aprender com a paciência de Deus.

José Maria C. S. André
Lisboa, 15 de Fevereiro de 2008

sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

"Católicas pelo direito de decidir"

Desde a aurora dos modernos "direitos abortivos", com o caso Roe vs. Wade nos E.U.A. em 1973, que todos os grupos e lobbies pró-aborto se têm deparado com um enorme problema e entrave: a Igreja Católica. Se, nalguma das sedes destes movimentos pró-aborto existir uma foto afixada numa parede que seja usada para atirar dardos para relaxar, essa foto será a de um Papa. Paulo VI era papa aquando do caso Roe vs. Wade e opôs-se firmemente ao aborto e aos métodos contraceptivos (são ambos imorais, mas há um fosso ético enorme entre a gravidade do primeiro e a gravidade dos segundos). João Paulo II fez o mesmo. Bento XVI segue na mesma linha. E porquê? Simples como a água: o quinto mandamento estabelece a imoralidade do homicídio. Desde que a Ciência compreendeu e explicou os processos da embriologia humana que se sabe que a vida de todo o ser humano principia na fertilização do óvulo pelo espermatozóide. A conjugação da lei moral anti-homicídio do quinto mandamento com os conhecimentos científicos acerca da embriologia humana leva à conclusão óbvia: o aborto, praticado em qualquer fase da vida humana intra-uterina, é um acto moral grave.

Em suma, a Igreja Católica, pela solidez dos seus ensinamentos, e pela tenacidade dos seus representantes e membros espalhados por todo o mundo, é um forte obstáculo à prossecução dos objectivos abortófilos.

Vive-se, hoje em dia, uma situação espantosa ao nível internacional: por um lado, o pedido para uma moratória das Nações Unidas pela protecção do direito à vida está a ganhar força e adeptos, mesmo oriundos de sectores laicos, agnósticos ou ateus. Este pedido da moratória anti-aborto é uma consequência lógica da moratória contra a pena de morte, que foi subscrita pelas Nações Unidas.

Contra o direito à vida, move-se o CEDAW, o Committee for the Elimination of All Forms of Discrimination Against Women, cujo nome ilusório dá a impressão de que estamos a falar de um Comité preocupado com as mulheres. Fundado em 1979, torna-se cada vez mais num bastião dos lobbies pró-aborto. Estes grupos movem-se com base em financiamentos milionários, tanto públicos como privados, e trabalham em duas vertentes: nos países sub-desenvolvidos, aplicam um malthusianismo disfarçado de luta pelos direitos da mulheres, invocando o aborto como solução para os problemas de sobrepopulação. Nos países desenvolvidos, procuram usar o aborto como arma de guerra contra os valores tradicionais da família, mais uma vez invocando hipocritamente a defesa dos direitos da mulher.

Mas parece-me especialmente interessante notar como é montada a estratégia destes grupos contra a Igreja Católica, o seu mais poderoso adversário. Um dos vectores da estratégia assenta neste argumento:

a) Existe uma diferença entre o catolicismo e a hierarquia da Igreja Católica
b) É possível ser-se católico e ser-se a favor do direito ao aborto
c) É possível ser-se católico e ter uma opinião pessoal sobre o aborto, se é certo ou errado; como se o catolicismo não tivesse nada a definir nesta matéria
d) A luta pelos direitos da mulher implica uma luta contra a hierarquia da Igreja, e não contra o catolicismo

Esta estratégia é brilhante, há que reconhecer. Para a implementar, foi criada uma panóplia de movimentos ditos "católicos" que pretendem representar movimentos de leigos católicos que exigem que a "antiquada" hierarquia não bloqueie o verdadeiro espírito do catolicismo, que defenderia, segundo eles, o direito a abortar, direito esse que a hierarquia não quereria reconhecer por ser machista e antiquada.

O argumento é péssimo em termos lógicos porque, como se viu atrás, basta invocar o quinto mandamento para se compreender que o católico não pode concordar com o aborto (assim como não pode concordar com o aborto qualquer pessoa que considere que matar seres humanos inocentes é moralmente errado), mas é um argumento que funciona muito bem com um grande número de pessoas pouco ou mal informadas. Hoje em dia, abunda a noção de que o católico pode construir a sua opinião nesta matéria segundo a sua consciência, sem contradizer o seu catolicismo. Não poucos teólogos, curiosamente os mais requisitados para exposição mediática, têm contribuido para a confusão, defendendo o direito a abortar. Quando um leigo católico mal informado vê um teólogo católico a afirmar, à Comunicação Social, que o direito ao aborto não choca com o catolicismo, ou que este até levaria necessariamente à defesa do direito ao aborto, está o caldo entornado.

O Catholics for a Free Choice (CFFC, ou em português, Católicas pelo direito de decidir) nada tem de católico para além do nome. Hoje em dia é dirigido por Jon O'Brien, mas foi fundado e ainda se apoia imenso na obra da activista Frances Kissling. Kissling fundou há mais de 30 anos a CFFC, e numa entrevista à revista Mother Jones em 1989, declarou o seu objectivo:

"I spent twenty years looking for a government that I could overthrow without being thrown in jail. I finally found one in the Catholic Church."

Kissling tornou-se profissional no uso do pseudo-argumento atrás apresentado. Eis um exemplo da sua retórica:

"I know with every ounce of my being that you don’t have to agree with the positions of the church on issues of abortion and contraception to be Catholic."

A Crisis Magazine publicou em 2002 um artigo de Kathryn Jean Lopez, intitulado Aborting the Church - Frances Kissling & Catholics For A Free Choice, de onde extraímos este trecho:

The media love Frances Kissling. It's hard to blame them, really, given their general political agenda: Kissling wants abortion to remain legal, with no restrictions. She wants to boot the Vatican from the United Nations (UN). She wants bishops to tell Catholics it's okay to use condoms-even to distribute them. She wants RU-486, the abortion pill, to be cheaper. She wants Catholic hospitals to perform the whole gamut of "reproductive services," including abortion and sterilization. She wants "gender equity," even in the Roman Catholic priesthood.

And she's Catholic. Perfect.

Frances Kissling is president of the 29-year-old Catholics for a Free Choice (CFFC), an independent "Catholic" group with a solid funding base and perhaps all you really need to make an impact-a major media presence. CFFC's purpose is to promote abortion, "reproductive health," and gender equality, in line with what the CFFC calls a "social justice tradition."


Claro que se vê que esta organização nada tem de católico. Pretende ser uma espécie de Cavalo de Tróia, mas só com uma diferença: o cavalo está do lado de fora da "cidade católica". Só que, como é sabido, a "cidade católica" já não tem muralhas tão fortes como antigamente, e a confusão reinante em muitos movimentos e institutos católicos tem permitido a aproximação e infiltração de membros de organizações pseudo-católicas como estas.

Os objectivos anti-católicos de Kissling tornam-se evidentes em quase todas as suas actividades. Ela promove a iniciativa See Change da CFFC, cujo objectivo é retirar a Santa Sé da ONU, alegando que não se trata de um país mas sim de uma organização. É uma asneira diplomática óbvia negar que a Santa Sé é uma nação: basta, para cometer tal asneira, ignorar ou minimizar a problemática da Questão de Roma no final do século XIX e o facto histórico do Tratado de Latrão de 1929, que reconhece legamente a Santa Sé como estado, reconhecido neste momento por todos os estados.

Kissling quer a Santa Sé fora da ONU porque quer levar os objectivos abortófilos do CEDAW adiante, ao mesmo tempo que trabalha fora da ONU com a sua CFFC, travestida de suposta organização "católica".

Em Dezembro de 2006, Kissling deu uma entrevista ao jornalista Nuno Sá Lourenço, do Público, que vale a pena ler.

É também interessante ler o artigo do The New York Times, datado de Fevereiro de 2007, acerca da saída de Kissling do cargo de presidente da CFFC:

Backing Abortion Rights While Keeping the Faith

Regressando ao CEDAW, na ONU, a actual vice-presidente é uma brasileira, a jurista Sylvia Pimentel. Uma entrevista desta senhora à Globo diz-nos muito sobre ela e os seus objectivos:

Uma brasileira na ONU

Eis outra entrevista, desta vez para a Women's Human Rights:

An Interview with Silvia Pimentel

E, no entanto, pasme-se, ela é professora há 33 anos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo! É de bradar aos céus... Há uns tempos, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho já tinha alertado para a infiltração de abortófilos em movimentos e institutos católicos no Brasil:

Meras coincidências
Escolha o adjectivo
Católicas, uma ova!

É, também, notório que a CFFC trabalha, em todo o mundo católico, lado a lado com outra organização, já bem conhecida, chamada We Are Church (Nós somos Igreja, em Portugal - note-se como o manifesto das "Católicas pelo Direito de Decidir" aparece logo no início da página), cujos objectivos são muito parecidos, e passam também pela demolição (por implosão) da Igreja católica e pela promoção do aborto como suposto "direito" da mulher. A consulta da página de "organizações relacionadas" no site da We Are Church é também muito interessante.

A pergunta óbvia é: o que é que será preciso fazer para resolver de vez o problema destes pseudo-católicos abortistas, que usam as instituições e o nome da própria Igreja Católica para promover o aborto, e pelo caminho, destruí-la por dentro? O problema não é só no Brasil, mas sim em todo o país onde o catolicismo é forte. Incluindo Portugal. Há que abrir os olhos e estar atentos. Aos leigos cabe o importante trabalho de desmascarar estes impostores e expor as suas "agendas".

quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

O Deus de Dawkins

(este texto foi aumentado após publicação)

Alister McGrath, ex-ateu, cientista, filósofo, e teólogo anglicano, defronta o cientista ateu Richard Dawkins:

http://video.google.com/videoplay?docid=6474278760369344626

Dawkins, cuja carreira começou brilhantemente como divulgador científico de grande argúcia e sentido pedagógico, tem insistido, nas últimas duas décadas, na vertente de ateísta prosélito, advogando que a explicação científica neo-darwinista impõe forçosamente o ateísmo como conclusão para todas as mentes racionais.

O vídeo é longo, o debate é muito interessante, e é certo que nenhuma das partes convence a outra. Mas não deixa de ser um debate apaixonante e informativo.

Vemos ao vivo, por exemplo, como Dawkins tem dificuldade em pensar no registo filosófico, apesar de ser um brilhante pensador no registo científico. A sugestão, feita por Dawkins, de que o próprio lidaria melhor com um Deus localizado no espaço e no tempo, estando até disposto a discutir essa tese, é um bom exemplo dessa incapacidade para pensar de forma filosófica abstracta.

Deus não tem existência num espaço ou num lugar próprio. Deus é a fonte de toda a existência, e por isso, não pode ser "achado" em parte alguma ou num qualquer instante temporal.

Dawkins não parece ter grande facilidade em compreender este conceito: logo, reduz esse conceito de Deus a uma espécie de "Deus à Dawkins", contra o qual ele pretende lutar com todas as suas forças, tal qual D. Quixote contra moinhos ilusórios.

O "Deus à Dawkins" é uma ilusão. Alister McGrath demonstra-o de forma cabal na sua obra "Dawkins' God", editada em português pela primeira vez em Janeiro deste ano pela Alêtheia, sob o título de "O Deus de Dawkins".

No entanto, o notável homem de Ciência que é Dawkins decide empregar os seus melhores anos intelectuais numa estranha guerra intelectual contra um estranho conceito fixista de "Deus relojoeiro" que só existiu nas mentes de certos pensadores pertencentes à cultura britânica vitoriana, e que hoje foi recuperado e é aceite de forma acrítica como constituindo uma visão rigorosa do que é Deus pela imensa família de admiradores de Dawkins. Como explica Alister McGrath na sua obra, o "relojoeiro cego" de Dawkins baseia-se nas críticas que Darwin fez ao conceito do "Deus relojoeiro", mas este fenómeno acaba por ser especificamente britânico. Darwin reagia às ideias de William Paley (1743-1805), que via na complexidade da Natureza a obra de um "Deus relojoeiro". Muito antes de Darwin contestar Paley, já o Cardeal John Henry Newman (1801-1890), talvez o maior teólogo britânico do século XIX, contestava as ideias de Paley, que lhe pareciam implicar uma má teologia. E assim é de facto. Por isso, a ideia que Dawkins faz de Deus provém de uma concepção de Paley, concepção essa que foi rejeitada logo no século XIX pelo Cardeal Newman.

O "Deus à Dawkins" não é o Deus cristão, muito menos o Deus católico. Curiosamente, também não é fácil encaixar o "Deus à Dawkins" no Iavé judaico, no Alá do Islão, ou no Brahma hindu. Que raio de conceito pretende Dawkins combater, com a ajuda do seu séquito de seguidores?
Como D. Quixote, Richard Dawkins combate uma ideia imaginária de Deus, que vive presentemente na sua cabeça.

No vídeo acima referido, Dawkins consegue, a certa altura, encurralar McGrath na questão do Mal, que no entanto é uma questão demasiado complexa para ser abordada de forma segura num contexto destes. Dawkins pergunta a McGrath como é que ele explica, ao mesmo tempo, que Deus não é responsável pelas grandes catástrofes, como a do último grande tsunami asiático, e ao mesmo tempo, a teologia tende a ver a acção de Deus no milagre de salvar uma criança desta catástrofe, sem no entanto salvar todas. McGrath, conseguindo esgrimir alguns argumentos, debate-se de facto com um momento menos inspirado.

E, no entanto, era possível tecer uma argumentação neste sentido: o Mundo criado, Homem incluído, tem duas características interessantes para esta questão: imperfeição e liberdade. Se a imperfeição é indiscutível, mesmo para um ateu, a questão da liberdade merece ser vista com mais detalhe. Há, de certo modo, "liberdade" na natureza no sentido em que esta possui leis próprias que regem o seu funcionamento. A deriva das placas tectónicas explica os terramotos, que por sua vez explicam o tsunami. A construção humana junto à orla marítima, conjugada com a desgraça do tsunami, ajudam a entender o número elevado de mortos. Neste sentido, as leis da natureza constituem um conjunto de regras, dentro das quais o mundo natural segue livremente o seu curso, sem intervenção divina (apesar de Deus ser, obviamente, necessário para a existência do mundo e das leis que o regem). Assim, pode-se falar em "liberdade" na natureza, se bem que uma liberdade sem vontade. A liberdade humana, essa sim, possui vontade. Se as consequências "maléficas" das catástrofes naturais advêm de leis naturais num mundo onde o homem constrói habitações que nunca estão imunes ao risco, tais catástrofes não derivam de nenhuma vontade, nem da natureza nem de Deus. Deus criou um mundo como ele é, sujeito a leis próprias, e Deus não está permanentemente na regência de todos os fenómenos.

Já o Homem, quando procura e quer o Mal, é um agente livre dotado de vontade, seja para exercer esse mal usando ilicitamente a religião como método (o terrorista fanático-religioso) ou a ciência como método (sofisticadas armas nucleares, químicas e biológicas). Nesse sentido, McGrath poderia ter dito a Dawkins que Deus não impediu nem sabotou a viagem dos aviões contra as Torres Gémeas porque porventura tem um destino reservado para os terroristas bem diferente do que guarda para as suas vítimas. McGrath poderia ter dito só isto: Deus é justo mas a forma como ele exerce ou exercerá a Sua justiça é-nos desconhecida em grande medida.

No fundo, a desgraça do tsunami tem a ver com a liberdade e imperfeição inerentes à própria natureza criada por Deus, bem como com as opções livres do Homem que tem que optar por um local onde morar, sabendo à partida que nenhum local físico é perpetuamente seguro e à prova de catástrofes.

McGrath também poderia ter dito a Dawkins que as opções divinas de intervir ou não, para salvar este ou aquele, não nos mostram tudo o que Deus quer para nós. A justiça divina exerce-se neste e no outro mundo. Para quem apenas vê metade do "filme" como nós, é possível supor que a morte de inocentes numa catástrofe será compensada de outro modo qualquer por Deus. Por outro lado, a sobrevivência de uma ou outra pessoa de uma catástrofe natural pode obedecer a uma intenção específica de Deus para aquela pessoa: uma decisão divina de ainda não a chamar para junto de si, intervindo na natureza para evitar a sua morte.

O Deus cristão é um meio termo entre um ilusório "Deus relojoeiro" (que teria criado tudo e assistiria impávido a tudo sem intervir) e um ilusório "Deus tirano" (que roubaria à Criação a liberdade de acção). O Deus cristão intervém na natureza, sempre que assim o entende. É neste conceito que reside o sentido do "milagre", como acontecimento natural extraordinário cuja causa é sobrenatural.

Tudo isto é complicado, e nenhuma explicação racional que façamos é fechada. O que podemos é evitar as incoerências, como aquela de Dawkins dizer, mesmo no final do vídeo, que quer cortar a religião pela raiz porque ela é a "fonte de todo o mal", e porque ela pode ser usada para o mal. Que estranha incoerência: se a religião é a fonte de todo o mal, então não só ela pode ser usada para o mal como deverá sempre gerar o mal. Ao dizer que algo é a raiz absoluta do mal, torna-se necessário que tudo o que brote desse algo seja maléfico. É uma questão de lógica. E o mesmo Dawkins, que foi poupado tantas e tantas vezes neste debate por um manso e humilde McGrath, poderia ter sido fulminado com esta óbvia incongruência: a ciência também pode ser usada para o mal, e não é por isso que a vamos "cortar pela raiz"...

É que Dawkins pega no problema pelo lado oposto. A ambivalência da religião também serve para a ciência. Ambas podem ser bem empregues ou mal empregues, porque a opção moral está, afinal de contas, no Homem de ciência ou no Homem de fé. Se essa pessoa optar bem, usará bem a Ciência. Se optar bem, usará bem a Fé. Mas pode optar por usar qualquer uma delas para servir maus propósitos. Mais uma vez: a explicação para o mal encontra-se na imperfeição e na liberdade da Criação, Homem incluído. Deus não é a causa do mal. Note-se que o mal, no relato genesíaco, é introduzido pela opção livre do Príncipe dos Anjos, Satanás, que em supremo exercício da sua liberdade criatural, se revolta contra Deus. De novo, esta ideia: o mal nasce da liberdade da criatura finita e imperfeita, mas não é necessário nem desejado por Deus infinito e perfeito.

Dawkins constitui um triste exemplo de como o preconceito anti-religioso, aliado a uma espécie estranha de solipsismo, pode assombrar uma brilhante carreira intelectual e académica...

No entanto, o efeito propagandístico é potente: o cientista divulgador dá voz nova e forte a uma mentira já bem velha: a de que a Ciência destruiu o conceito de Deus. O comum dos mortais pode cair facilmente nesta esparrela, porque ele próprio confia no "Dawkins cientista" e não tem tempo para estudar estas questões com profundidade. Logo, não se dá conta de que o "Dawkins filósofo" é um logro...

terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Esclarecimento ao Helder Sanches

Relativamente a um texto do Helder Sanches que já havia referido há uns dias atrás, Jesus e a frequência do diálogo, quero aproveitar para responder neste espaço ao Helder, porque poderá ser útil a outras pessoas.

O Helder abordava duas questões diferentes, a do Jesus histórico e a da Santíssima Trindade, e manifestou-se intrigado pelo facto de eu me indignar com as dúvidas acerca do Jesus histórico, e depois aceitar a Santíssima Trindade sem qualquer hesitação.

É uma questão muito importante, e diz respeito à dualidade essencial entre Razão e Fé. Crer para entender. Entender para crer. O Helder Sanches esperava de mim o uso de critérios históricos quando eu me referisse à Santíssima Trindade. Diz o Helder:

«Você não respondeu às minhas dúvidas com os mesmos argumentos que utilizou inicialmente para justificar a verdade histórica de Jesus.»

Mas claro que não.
A questão da Santíssima Trindade não é uma questão histórica, mas sim pística, ou seja, uma questão de fé na doutrina da Igreja Católica. Como poderia eu usar os mesmos argumentos? Não quer isto dizer que não se possa argumentar racionalmente sobre a Trindade (os primeiros concílios ecuménicos praticamente só se dedicaram a esta questão). Há uns tempos atrás, falei do texto do filósofo Boécio acerca da Trindade, texto esse que expõe o conceito do Deus uno em essência mas trino em pessoas (ver De Trinitate), usando apenas raciocínio filosófico e sem fazer referências à revelação das Sagradas Escrituras.
Só que as argumentações, filosóficas ou teológicas, feitas sobre matéria de Revelação, como é o caso da Trindade, só se fazem "a posteriori" de uma adesão pística. Não vale de nada trabalhar racionalmente o conceito de Trindade se não recebemos tal conceito como verdadeiro através da graça da Fé, dom gratuito de Deus.

Nunca é demais insistir nestas questões, porque um conhecimento imperfeito acerca destes importantes detalhes teológicos e doutrinais é infinita fonte de problemas e de confusões.

A Teologia é o estudo racional da Revelação. Apoia-se, sobretudo, nas Sagradas Escrituras e na Tradição oral da Igreja. Usa, como ferramenta, uma filosofia cristã especialmente adequada para o tratamento destes temas.
Mas de nada serve a Teologia se não há Fé, se não há uma adesão intelectual inquestionável à veracidade da Revelação. Como posso caminhar no sentido de compreender melhor a luz divina se não a reconheço, se não a sigo, se não aponto o meu intelecto para ela?

«Afinal, você considera as dúvidas sobre a existência de Jesus um logro uma vez que, no seu entender, existem provas suficientes e comprovadas da verdade histórica do mesmo; agora, em relação a Deus e ao Espírito Santo você diz-me que qualquer cristão acredita na trindade porque Jesus fala dela. Bem, em que ficamos, então? Já não são precisas confirmações históricas fidedignas?

É que são domínios radicalmente diferentes, apesar de compatíveis. Nenhuma verdade histórica ou científica contradiz a doutrina revelada. E nenhuma parte da doutrina revelada contradiz algum facto ou evidência científico-histórica. Mas são coisas diferentes. Para falar de História, não preciso da Fé. Bastam-me os documentos, as provas, as "pistas" presentes em obras de autores do tempo que estudo, basta-me o rigor do método de trabalho, o rigor das ferramentas de trabalho, etc.
Um historiador digno desse título não procura defender a tese de que Cristo não existiu. Mesmo sem ter provas do ADN de Jesus, o historiador pode olhar para a colossal recolha de testemunhos indirectos de Jesus, da sua vida e obra, e reconhecer que a tese da sua inexistência não se adapta aos dados.

Não se trata de fazer o historiador jurar que Jesus existiu. Em Ciência não se trabalha assim. O historiador, como cientista, procura adaptar a melhor tese aos dados disponíveis. Face a esses dados, é insensato defender a tese de que Cristo não existiu. Mas a tese oposta não está demonstrada de forma irrefutável. E atrevo-me a dizer que são poucas as teses históricas demonstradas de forma irrefutável. Porque os eventos passados não são reprodutíveis em laboratório.

No entanto, isso não faz com a que a História perca o seu racional poder explicativo dos factos passados. Perante as evidências colossais, para quê, se não para patrocinar certas agendas ideológicas, propor uma tese histórica que não se adapta aos dados?

O Helder escreve ainda:

«Basta-lhe a palavra de alguém em quem você acredita, sabendo que esse alguém é deveras contestado historicamente?»

Sim, basta-me a palavra de Jesus Cristo em quem acredito totalmente e plenamente. Porque o vejo (graças à Fé) como Filho de Deus, Deus de Deus, e Deus não falha nem engana.

As contestações históricas que alguns fazem à existência de Jesus são feitas à revelia do rigor histórico. É sintomático da prática de má ciência história que muitos desses historiadores se recusem a usar referências documentais cristãs. Essa recusa é motivada por razões ideológicas e não científicas. Trata-se de, num claro abuso do que é ser historiador, dizer assim: "estes textos foram escritos por crentes cristãos - logo, são inúteis e falsos, porque são propaganda". Isto não é rigoroso nem científico. E já para não falar da "turma" dos que distorcem os dados históricos. Aqueles pseudo-historiadores que procuram propagar a chamada "alternative history", com pseudo-teorias incoerentes, ou desprovidas de provas, acerca de linhagens sagradas, túmulos de Jesus, casamentos com Maria Madalena, descendência, etc... Pergunte a um historiador ateu o que acha destas teses... Perante a falta de evidências, nada como fabricá-las, como fizeram os promotores e criadores do documentário "Bloodline".

«Lamentavelmente, voltamos à estaca zero e eu volto ao meu argumento inicial: uma vez mais, não importa, também no caso da Santíssima Trindade, qualquer validação histórica. Desde que o conceito venda, o mercado está garantido.»

Mas que validação histórica quer o Helder fazer à Santíssima Trindade, um conceito do mais transcendente que existe, e que podendo ser de certa maneira entendido pelo intelecto humano, é incompreensível porque o nosso finito intelecto não abarca (não "compreende") a totalidade da sua realidade, porque esta é infinita?

O que eu me limitei a escrever foi o óbvio: acreditamos na Santíssima Trindade porque Cristo nos falou do Pai e do Espírito como sendo Deus, e no entanto, pessoas distintas do Filho. A ideia da Santíssima Trindade não tem nada a ver com propaganda: basta ver a eficácia do Islão, que não usa nenhum conceito parecido. Porque razão a Santíssima Trindade ajudaria a um qualquer tipo de propaganda religiosa? A ideia em si é tão profunda, transcedente e sofisticada que não pode ter origem humana.

Faço-lhe um desafio: que livro imagina o Helder que venderá mais numa livraria? Uma obra filosófica explicativa da Trindade, como o De Trinitate de Boécio, ou um livro a apresentar mais uma sepultura com ossadas de Cristo, ou mais uma suposta prova de uma filha de Jesus com Maria Madalena? O que é que, realmente, funciona em termos de propaganda?
Estamos todos fartos de saber que a mentira vende sempre mais que a verdade...

«Só um à parte para o corrigir, se me permite, numa afirmação que faz: “A distinção das três pessoas é feita por Cristo. E por isso mesmo, é aceite pelos cristãos”. Isto não é verdade. A Santíssima Trindade é aceite, mas não por todos. Existem diversas facções cristãs - algumas bastante populares - que não subscrevem a doutrina trinitariana. Mas isso, claro, deve dever-se a questões de tradução e nunca a questões de veracidade.»

Caro Helder, gostaria de pegar no debate por este ponto. De que facções cristãs fala? É relativamente complicado a qualquer cristão que preza as Sagradas Escrituras como palavra de Deus negar a Santíssima Trindade. Há certos grupos que o fazem, mas não apresentam boa argumentação. Pode explicitar que grupos cristão "bastante populares" são esses?

A tradução dos textos sacros é matéria complexa e que exige muito rigor. Invocar "problemas de tradução" é apelar ao absurdo para tentar explicar o que não se compreende. Como é que o Helder Sanches argumenta no sentido de dizer que a noção de Santíssima Trindade dá azo a dúvidas interpretativas que se prendem com problemas de tradução?

Eu tenho um palpite: sucede com o Helder o que sucede com todos nós. Quando rejeitamos uma doutrina em bloco (como é o caso: o Helder rejeita o Cristianismo em bloco), tendemos a relativizar tudo. Para quem rejeita uma doutrina em bloco, todas as facções dentro dessa doutrina parecem igualmente erradas e irrelevantes para a veracidade das questões. Nesse contexto, o Helder, ou a maioria das pessoas que se encontram fora do contexto cristão, não sentem qualquer interesse em discernir quais dos grupos têm a verdade, porque eles acham que nenhum deles diz coisas verdadeiras.

É o relativismo do "outsider"!

E alguns, não digo que necessariamente o Helder, usam esse relativismo subjectivista para tentar argumentar assim: "Se diferentes grupos cristãos dizem coisas antagónicas a respeito de X, então X é falso ou não existe". Esta é uma dedução que eu não compreendo nem consigo seguir logicamente. Apoia-se em que regras da lógica? Se A diz que X existe e B diz que X não existe, devo admitir que X não existe? Porquê?

E isto pode ser extrapolado para um dos maiores erros clássicos do ateísmo relativista: "se várias religiões dizem coisas diferentes de Deus, então Deus não existe". Espantosa dedução lógica...

Um abraço ao Helder, cuja resposta fico a aguardar, sem pressas!

sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

A caça ao Rei e ao Príncipe

Naquela manhã fria de 1 de Fevereiro de 1908, dois selvagens levantaram-se da enxerga onde dormiam para viver o seu grande dia: o dia da caçada à Família Real. Alfredo Costa e Manuel Buíça, ardentes republicanos treinados nas artes da oratória e da argumentação, decidiram acabar com a Monarquia da forma mais eloquente de todas: o fuzil.

Pelas 17 horas desse dia, morriam às mãos destes dois selvagens Sua Alteza o Rei D. Carlos I e o Principe Real, D. Luís Filipe. Foram caçados. Ao virar do Terreiro do Paço para a Rua do Arsenal, e aos olhos de toda a gente que assistia chocada, foram disparados os tiros certeiros que resolveram o "problema" monárquico de forma definitiva: erradicando os representantes máximos da Nação.

A República não começa a 5 de Outubro de 1910. Essa é só a data oficial. Começa a 1 de Fevereiro de 1908, em cima do sangue real derramado pelos dois selvagens Costa e Buíça. Por muito que os republicanos de 1910 tenham querido repudiar publicamente o crime de 1908, sempre souberam bem que sem este crime não teria havido margem de manobra para uma troca de regime.

As altas esferas do moralismo republicano repudiaram o regicídio. O maçon Sebastião Magalhães Lima, que chegou à categoria de Grão-Mestre, nunca se quis associar ao crime, e assim tem acontecido com os maçons do Grande Oriente Lusitano desde então: olhar para o regicídio como um acto isolado, uma acção desesperada de um pequeno grupelho de carbonários, uma medida tomada sem a autorização dos grandes aventais.

Veja-se este elegante exemplo de retórica maçónica:

A Maçonaria condenou o regicídio de 1908

Podemos dizer que foi tudo um acto isolado de uma insignificante carbonária. Podemos fingir que não houve conspiração a alto nível. Podemos considerar como "boatos infundados" os testemunhos de que o próprio Aquilino Ribeiro (há pouco tempo trasladado em honras para o Panteão) estaria com um grupo de assassinos à espera, no Corpo Santo, caso o grupo do Terreiro do Paço não desse conta do recado.

Tem sido sempre assim: olhar para o regicídio como acto isolado da Carbonária tem sido a forma escolhida para tentar limpar a boa moral republicana neste Portugal que se sente tão satisfeito com a República e que sente tanto desdém pelos nossos sete séculos de Monarquia.

A República é um sistema de governo bastante razoável. Não é isso que está em causa. Mas a história da República em Portugal tem sangue. E a ferida está aberta. O republicano dos dias de hoje não pode fingir que esta ferida não existe: reconhecer que a República começou com o pé esquerdo é reconhecer o óbvio. Em 1908, não houve espaço para um debate sereno acerca de modelos alternativos para a governação. Eu sou monárquico, e tenho as minhas razões, mas estou sempre disposto a ouvir a argumentação de um republicano. Em 1908, o que se ouviu no Terreiro do Paço foi o som implacável dos tiros, que matou não só a argumentação como os adversários naturais do republicanismo. Literalmente.

Recordemos, hoje, os caídos às mãos dos assassinos.