quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A bochecha de Serápis

A recente burla "hollywoodesca" que dá pelo nome de "Ágora", já aqui criticada, está montada para evocar e difundir a ideia de uma turba de cristãos fanáticos que, pelo seu excesso de zelo fanático, teriam destruído a Biblioteca de Alexandria, e com ela, toda a ciência antiga.

Por detrás da linda história de amor romanceada em torno da filósofa Hipátia, a "lição" que o senhor Amenábar nos quer dar com o seu filme é esta: o cristianismo é obscurantista, fanático e inimigo do conhecimento.

No entanto, o que a História nos diz é radicalmente diferente: para além de não ter qualquer suporte documental a teoria da destruição da Biblioteca de Alexandria pelos cristãos, o episódio importante da destruição dos templos pagãos em Alexandria não tem a ver com zelo anti-científico e obscurantista. Tem a ver precisamente com o oposto: com zelo anti-obscurantista.

Até um historiador como Gibbon, que sempre que pode dá a sua palmadazinha no cristianismo, escreve algo espantoso acerca da destruição do Serapeum, o templo dedicado a Serápis, na cidade de Alexandria:

«A estátua colossal de Serápis estava envolta na ruína do seu templo e religião. Um grande número de chapas de diferentes metais, juntas artificialmente, compunha a figura majestática da divindade, que tocava em ambos os lados as paredes do santuário. O aspecto de Serápis, a sua postura sentada, e o ceptro, que ele tinha na sua mão esquerda, eram extremamente similares às representações típicas de Júpiter. Ele distinguia-se de Júpiter pelo cesto colocado na sua cabeça, pelo emblemático monstro que ele tinha na sua mão direita, e pela cabeça e corpo de uma serpente bifurcada em três caudas, que estavam por sua vez terminadas por cabeças triplas de um cão, um leão e um lobo.

Afirmava-se com convicção que se alguma mão ímpia se atrevesse a violar a majestade do deus, os céus e a terra regressariam instantaneamente ao caos original. Um soldado intrépido, animado pelo zelo, e armado com um machado de guerra pesado, subiu a escada; e até a multidão cristã esperava, com alguma ansiedade, o evento do combate. Ele desferiu um golpe vigoroso contra a bochecha de Serápis; a bochecha caiu no chão; o trovão manteve-se silencioso, e ambos os céus e a terra continuaram a manter a sua ordem e tranquilidade costumeiras.

O soldado vitorioso repetiu os seus golpes: o gigantesco ídolo foi derrubado e partido em pedaços; e os membros de Serápis foram arrastados ignominiosamente pelas ruas de Alexandria. A sua carcaça desfigurada foi queimada no Anfiteatro, por entre os gritos da populaça; e várias pessoas atribuíram a sua conversão à descoberta da impotência da sua divindade titular.»


- Edward Gibbon, History Of The Decline And Fall Of The Roman Empire, cap. 28.

Talvez nos faça confusão, à nossa moderna e higienizada mentalidade, imaginar multidões de cristãos aos gritos, durante estes dias "agitados" em Alexandria. Cometeram-se excessos? É certo que sim: a morte violenta da filósofa Hipátia (crime de natureza política) é o melhor exemplo desse tipo de excessos cometidos pela populaça.

Mas muitas vezes, embriagados pela propaganda anticristã, não nos damos conta do facto capital: nesses dias conturbados, morria o mundo velho e começava um novo. As manifestações ruidosas de cristãos um pouco por toda a Alexandria, com o seu quê de eufórico, com o seu quê de histérico, reflectem um espírito de catarse, quando toda uma civilização "acorda" do torpor da multiforme superstição pagã para a Verdade do Deus Uno e Vivo, Criador de um Cosmos racional e estruturado.

A verdade dos factos é diametralmente oposta à mentira cinematográfica de Aménabar. A morte do paganismo não foi a morte da ciência, foi o seu nascimento...

23 comentários:

Anónimo disse...

"para além de não ter qualquer suporte documental a teoria da destruição da Biblioteca de Alexandria pelos cristãos"

Pudera, se queimaram tudo hahaha. É historico e há que seguir em frente. Obviamente está documentado. Os cruzados também eram bárbaros comparados com os muçulmanos e cometeram muitos excessos, so what? aconteceu! Na Idade média houve a inquisição e muitos exemplos de atropelos feitos pelo Cristianismo e em seu nome, é anti cristão relembrá-los e assumi-los, aprender e evoluir ou é anti cristão negá-los e reescrever a realidade e taxar deanti cristão quem assume os seus erros? Estas tentativas revisionistas da história fazem-me lembrar ditaduras comunistas e fascistas, a propaganda como ferramenta para convencer as massas. A mentira para proteger o que para uns é a verdade, mas que não passa de uma... enorme mentira! Para quem condena tanto o progresso e é adepto "quietista" convinha conhecer melhor a história e aceitar que felizmente o progresso trouxe pessoas mais tolerantes e que hoje são outros que andam a queimar bibliotecas e não os Cristãos. Ora aí está a prova cabal de que o progresso funciona. Quem pasou no tempo queima bibliotecas. Quem evolui constrói bibliotecas.

Duarte

Anónimo disse...

*quem parou no tempo

Cid, o Campeador disse...

"Pudera, se queimaram tudo hahaha. É historico e há que seguir em frente. Obviamente está documentado"

O que é que está documentado, Duarte? A destruição do templo do Serápis está certamente, assim como o assassínio de Hipátia. Agora, que fique bem claro que nenhuma das 5 fontes primárias que temos sobre a destruição do referido templo de Serápis em Alexandria (Sócrates Escolástico, Sozomeno, Rufino, Teodoreto e Eunápio de Sardis) menciona a destruição de quaisquer livros ou biblioteca, apenas ídolos e objectos de culto.

Mais informações aqui: "Agora" and Hypatia - Hollywood Strikes Again

Também recomendo a leitura deste livro: Hipátia de Alexandria

Cumprimentos e boas leituras!

Anónimo disse...

Ah, pois é!

Vítor Mácula disse...

Olá, Bernardo

Bem, o último parágrafo… como que um sentido central que atravessasse internamente todo o texto; corresponde à inversão da suposta afirmação do filme que não vi (o cristianismo ser constitutiva e endogenamente anti-científico) e parece-me tão falsa quanto esta.

O que é curioso é o Bernardo saber perfeitamente que de Pitágoras a Aristóteles, da interrogação socrática ao logos estóico, da navegação fenícia à matemática árabe, etc, há um imenso e intenso cruzamento de influências na constituição dos métodos racionais e experimentais da actividade humana (a palavra “ciência”, usada de modo tão historicamente alargado, parece-me que é assim que deve ser tratada).

Quanto ao método hipotético-dedutivo que caracteriza a ciência moderna, a sua relação histórica com a(s) Igreja(s) não assenta apenas numa conivência e dinâmica pacíficas e conformes, to say the least.

O pró-cristianismo a preto e branco é tão cego como o anti-cristianismo que lhe corresponde inversamente: ambos desprezam a verdade em nome dos seus interesses identitários, sociais, etc A propaganda é, de uma maneira ou de outra, a sua essência discursiva. Algo para o qual nós todos tendemos (é mais fácil e dá jeito psicologicamente). É a bode-expiação e “demonização” do outro no seu melhor, grandiloquente e sério.

abraço, bom fim-de-semana.

Espectadores disse...

Vítor,

«O pró-cristianismo a preto e branco é tão cego como o anti-cristianismo que lhe corresponde inversamente: ambos desprezam a verdade em nome dos seus interesses identitários, sociais, etc»

Espanta-me a facilidade com a qual o meu amigo entrega o ouro ao bandido!

Porque razão não se hão-de orgulhar os cristãos do contributo decisivo que a Igreja deu para o nascimento e sobrevivência da Ciência?

Quem fez a Ciência vingar foram os católicos! É certo que houve ciência antes dos católicos, mas todas essas tentativas abortaram, não conseguindo criar uma ciência em progresso e duradoura. Isso só aconteceu no final da Idade Média, graças à mentalidade cristã.


Acho que o Vítor, na sua ânsia de parecer moderado e tolerante, acaba por ser injusto para com a sua própria religião.

É inegável o papel central do cristianismo no berço da ciência moderna. Para nos darmos conta disto mesmo, nada como tomar contacto com a obra do francês Pierre Duhem, que deverá conhecer.

Abraço,

Bernardo

Espectadores disse...

Uma última nota, Vítor.

Apontei o partir da bochecha de Serápis como o momento do nascimento da Ciência, mas não quis, obviamente, ser rigoroso nem literal.

A ideia que quis passar é simples e verdadeira: com a destruição da superstição pagã, acabaram-se os medos. Acabou-se o determinismo do destino, acabou-se a escravidão do Homem sob os caprichos de deuses malucos da cabeça e imprevisíveis.

O mundo aparece como ele é: a obra estável, transparente, autónoma, estruturada e racional de um Deus bom e racional.

Pela primeira vez, graças ao cristianismo, o Cosmos é distinguido claramente do Criador.

Pela primeira vez, graças ao cristianismo, matam-se as perigosas mentiras pagãs e gnósticas.

Essas mentiras, em várias culturas e várias partes do globo, que fundamentam uma cosmovisão panteísta, são uma das principais razões para o abortamento prematuro da ciência noutros tempos e locais.

Só quando o cristianismo "desligou" Criador de Criação, dando a esta última a autonomia de "coisa criada", é que o ser humano começou a esperar encontrar algum padrão estruturado no Cosmos, alguma previsibilidade, alguma liberdade (já defendida no Judaísmo) do Homem sobre a Criação.

A conversão de pagãos em massa, naqueles dias conturbados em Alexandria, é a prova de que a humanidade se libertava. Precisamente o oposto do que diz o mentiroso do Aménabar.

Abraço!

Vítor Mácula disse...

“Quem fez a Ciência vingar foram os católicos!”
Quem fez a Ciência (conhecimento racional e experimental) vingar foram os cientistas, católicos e não-católicos. Tem mesmo a certeza que Aristóteles e Hipócrates eram católicos? Pretender que a única cosmovisão que permite racionalidade e ordem natural é a católica, é de um simplismo histórico-filosófico confrangedor.

“Acho que o Vítor, na sua ânsia de parecer moderado e tolerante, acaba por ser injusto para com a sua própria religião.”
Não percebi muito bem esta. Parecer-me algo falso, esteja eu certo ou errado, não tem muito que ver com moderação e tolerância, que são categorias de sociabilidade. Reconhecer o contributo não-católico para a ciência não é uma questão de tolerância, caramba, é uma questão de sentido histórico. Um acontecimento histórico é algo de muito complexo. O facto de na Baixa Idade Média e no Renascimento se dar um desenvolvimento da ciência e do pensamento racional não se deve apenas à hegemonia socio-política católica aqui do burgo europeu, mas a uma série complexa de acontecimentos que vão do alargamento do mundo com as descobertas, uma renegação universitária de um certo escolasticismo, a ascensão da burguesia e do seu “praticismo” mercantil, um utilitarismo crescente, etc Por alguma razão se seguiram Reformas protestantes e católicas, revoluções francesas, etc Repare que não estou a negar a importância do cristianismo para o pensamento racional e experimental; renego a sua exclusividade; e renego o simplismo de considerá-lo como isento de influências e aculturações no seu devir histórico, assim como a superficialidade de considerar que por uma época e lugar ter uma representação político-religiosa X, todos os seus acontecimentos são consequências directa disso mesmo; muito pelo contrário, toda a época se constitui numa dinâmica de diversidades internas e externas; e o evolver do pensamento racional e experimental constituíu-se, no mundo ocidental, numa série de cruzamentos católicos e contra-católicos. Também o rigor histórico não se compadece com juízos e representações sumárias e simplistas.

Quanto ao Aménabar, não vi este filme, mas “mentira” é uma ideia que contra-rima com o título do seu primeiro filme, “Abre los ojos”. Não sou no entanto suficientemente interpelado artisticamente pelo seu trabalho, para poder comentá-lo devidamente. Estou mesmo e apenas a comentar o teor histórico do seu post.

Espectadores disse...

Vítor,

Eu nunca disse que a ciência era coisa exclusiva de católicos.

É melhor ler com atenção, outra vez, porque isso não foi o que eu escrevi.

Disse que foi apenas com o cristianismo que a Ciência prosperou, e isso é um facto.

A ciência grega reduz-se a um punhado de génios que não conseguiram contagiar toda uma cultura, e por isso, a ciência grega "morreu", só tendo sido recuperada séculos mais tarde por outros povos.

A ciência árabe foi um caso diferente, mas mesmo assim, é um facto que se pode constatar que ela está extinta, e só sobrevive em obras valiosas.

E de pouco vale ir buscar as ciências hindu, chinesa e japonesa, pois tendo sido notáveis, não são essas as ciências que chegaram aos nossos dias, mas sim a ocidental de matriz cristã.

A única corrente científica que vigorou, prosperou e sobreviveu foi a fecundada em ambiente cristão.

E já dei as razões para tal: a visão realista do judaico-cristianismo, a paixão pela investigação científica vista como a leitura do "livro de Deus", entre outras razões importantes.

Na ânsia de sermos abertos ao outro e dialogantes, não me parece que seja obrigatório menosprezarmos as nossas qualidades, para tentarmos nivelar tudo de forma artificial.

O cristianismo deu um fôlego nunca antes visto ao trabalho científico, e ao contrário do que se diz, a ciência moderna nasce da escolástica medieval, e não APESAR da escolástica medieval.

Abraço!

オテモヤン disse...

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Vítor Mácula disse...

Bom dia, Bernardo.

Eu li mais ou menos atentamente o seu post; a referência directa a não-católicos era irónica, caramba.

Passa-se é que a bi-dimensionalidade não dá conta da problematicidade histórica: não ponha umas das faces da edra a polir, a excluir a outra ;)

É evidente que a ciência moderna - isto é, o método hipotético-dedutivo a partir de modelos conceptuais e observação/experimentação - se desenvolveu eminentemente no Ocidente e suas ramificações politico-culturais.

Isto põe um problema epistemológico, por um lado - qual o estatuto e limite de tal método; e outro histórico - quais as condições e motivos de tal se ter passado geografica e culturalmente assim.

Pretender à corta-mato que a ciência moderna é uma decorrência do cristianismo é não ter em conta muita coisa, nomeadamente a constituição da Europa colonizadora e mercantil.

A cosmovisão da natureza e vida serem um "livro de Deus", isto é, algo de ordenado e intencional, é tudo menos um exclusivo do cristianismo; e como sabe, a "ciência moderna" não tem em conta a intenção, mesmo no seu aspecto técnico de "causa final", relativamente aos fenómenos naturais de entes não-conscientes.


A "ciência moderna" desenvolveu-se sobretudo em "solos" não-católicos", é outro facto da modernidade. Daí a minha remissão para Reformas e Revoluções.

Não faça das minhas notas de rodapé, totalidades "pró e contra", faxavôr ;)

Um abraço

Vítor Mácula disse...

PS: segundo parágrafo, "edra": "pedra"; será um sinal que estou a tirar a primeira letra de Kefas enquanto sustentáculo da Igreja? (pequeno lol)

Espectadores disse...

Vítor,

Já sabemos que nestas caixas (e em quaisquer fóruns internéticos) há que ser muito objectivo, pois nem sempre se percebem as intenções dos comentadores. O meio de comunicação é bastante limitado.

«Pretender à corta-mato que a ciência moderna é uma decorrência do cristianismo é não ter em conta muita coisa, nomeadamente a constituição da Europa colonizadora e mercantil.»

Evidente. Claro que há sempre inúmeros factores históricos. Mas a Grécia também era mercantil, e a China também. Não vejo de que forma é que o ímpeto colonizador seja crítico para o nascimento da ciência, mas será certamente para a sua disseminação.

Há razões filosóficas fortes para fazer do cristianismo a visão ideal do mundo para quem trabalha em Ciência. Já as apontei.

Porque razão a Ciência apenas prosperou no Ocidente cristão?…

- Visão judaico-cristã: Cosmos bom, estável, estruturado, obra de um Deus racional e fiel
- Distinção entre Criador e Criação: a Natureza tem as suas próprias leis
- Investigar a Natureza é “ler” a obra racional do Deus-Razão (do Deus-Logos)
- O enorme valor positivo dado à Criação e ao Homem: Deus Fez-Se Homem em Cristo
- Fim do Cosmos pagão: eterno e necessário (concepção cíclica e sem sentido)
- Início do Cosmos cristão: criado “ex nihilo” e contingente (com sentido, com história)

Eu mais não faço do que veicular especialistas na matéria, como Pierre Duhem, Stanley Jaki e Peter Hodgson.

Vou-lhe mandar já, por mail, uma série de artigos.

«A cosmovisão da natureza e vida serem um "livro de Deus", isto é, algo de ordenado e intencional, é tudo menos um exclusivo do cristianismo»

Ok, será um exclusivo do judeo-cristianismo. Já se sabe que também há algo disto no Islão (com a ressalva fatal de que Alá não é um "Logos"), mas isso explica-se porque o Islão inspirou-se imenso no judeo-cristianismo.

«A "ciência moderna" desenvolveu-se sobretudo em "solos" não-católicos", é outro facto da modernidade. Daí a minha remissão para Reformas e Revoluções.»

Esta frase tem muito que se lhe diga. Veja as obras de Duhem, Jaki e outros, para se dar conta de que os "frutos" científicos que surgiram em solo protestante foram precedidos de "frutos" que surgiram em solo católico, cujas raízes estão bem fundas na filosofia medieval.

Não é preciso dizer o que o Lutero achava da ciência (filosofia natural), pois não?

Abraço!

Vítor Mácula disse...

Sim, claro, a net-comunicação é o que é ;)

“Mas a Grécia também era mercantil, e a China também. Não vejo de que forma é que o ímpeto colonizador seja crítico para o nascimento da ciência, mas será certamente para a sua disseminação.”
O colonialismo mercantil, assim como o recrudescimento de contactos políticos e etc além-mar, desenvolveram enormemente um sentido de resultados técnicos imediatos, quantificáveis e concretos, assim como uma dessacralização e liberalização dos laços sócio-políticos, orientado pela defesa da negociação financeira, nacional e internacionalmente. “Nascimento” é uma palavra um pouco obscura, pois remete para as origens; refiro-me a recrudescimentos de certas actividades, e mudanças de paradigma epistemológico e cultural, assim como social e político. Outro aspecto importante é que, por uma série de motivos e factores, foi o Ocidente que melhor se internacionalizou mercantilmente; ou seja, as consequências “de facto” não são evidentemente as mesmas do que outras culturas mercantis com menos “êxito”.

“- Visão judaico-cristã: Cosmos bom, estável, estruturado, obra de um Deus racional e fiel”
Logos estóico, para dar apenas um exemplo próximo culturalmente, e já referido.


- Distinção entre Criador e Criação: a Natureza tem as suas próprias leis
Epicurismo para as leis próprias da Natureza, para dar apenas etc

“- Fim do Cosmos pagão: eterno e necessário (concepção cíclica e sem sentido)”
Esta é muito corta-mato. Primeiro, “pagão” é uma palavra muito problemática que reúne Aristóteles com o Iggy Pop, Confucius com o Grande Chefe Sentado dos Cherokees etc Não dá ;) Faço no entanto notar que eterno (ou melhor, sem início) não implica “concepção cíclica”; quanto à concepção trágica da existência tal como se configura helénicamente, de modo nenhum ela nega intrinsecamente a possibilidade de uma ordem natural estável, e por isso recorre ao sobrenatural para as vicissitudes práticas, existenciais e éticas da vida humana (tal como o cristianismo, aliás).

“Não é preciso dizer o que o Lutero achava da ciência (filosofia natural), pois não?”
Lutero achava que nada de natural ou culturalmente espontâneo operava a salvação; não negava à ciência nem às artes saber natural ou cultural, o que seria um disparate. Seja como fôr, a Reforma é um acontecimento sócio-religioso e político que extravasa enormemente o pobre monge agostiniano obcecado com a salvação.

De resto, e para esclarecer net-comunicações, o que o Bernardo refere é interessante e pertinente, como quase sempre, mesmo a parte mais propagandística da “sua” apologética; eu tenho tendência, ou parece-me geralmente mais interessante, focar nestas caixinhas o que me parece mais problemático, nomeadamente o “propagandístico”.

E para além disto tudo, sou um ignaro em ciências naturais; agradeço muito os artigos :)

Xiquinho disse...

Olá Bernardo,

Desculpe ser off topic, mas não tenho o seu email e pensei que enquanto não respondo aos seus últimos considerandos sobre Pius XII (tenho amanhã e depois 2 exames), talvez queira ocupar a sua pena com mais este inimigo do catolicismo:

http://www.xiquinho.com/post/2010/02/Carta-aberta-a-Bento-XVI.aspx

Cumprimentos do Xiquinho!!!

Espectadores disse...

Caro Xiquinho,

Obrigado pelo texto e por me dar a conhecer este jesuíta egípcio, que eu não conhecia.

Não sei porque razão o chama de "inimigo"... Os problemas que ele relata são muito reais e objectivos.

Não sei se alinho completamente nas soluções que ele propõe. Acho que ele usa linguagem um pouco vaga e subjectiva nas soluções propostas.

Quando ele fala em reformular a mensagem, refere-se à forma ou ao conteúdo?

O trecho acerca da doutrina moral da Igreja está perticularmente perigoso. Que advoga ele? Suavizar os erros morais?
Uma coisa é:

Dizer que algo está mal, mas dizê-lo de forma adequada à mentalidade moderna.

Isso estou totalmente de acordo.

Outra coisa é:

Evitar dizer que algo está mal, para não ferir a mentalidade moderna.

Isso estou radicalmente em desacordo.

Uma última nota: ele fala muito do Vaticano II, sem se perceber se ele se refere ao que lá foi decidido, ou ao que as pessoas JULGAM que o Vaticano II decidiu.

Há um enorme fosso aí. O papado de Bento XVI e o de João Paulo II, e o de Paulo VI, estão totalmente alinhados com o Vaticano II.

Este jesuíta parece-me, por vezes, defender uma hermenêutica de ruptura, ou seja, defender a ideia absolutamente errada (e absurda) de que o Vaticano II marcaria uma ruptura doutrinal com o passado, pois o exacto oposto é que é verdade. O Vaticano II conclui questões que não foram fechadas no Vaticano I, ao mesmo tempo que actualiza, numa linguagem adequada ao mundo moderno, as grandes questões da fé e da doutrina.

Uma hermenêutica de ruptura, que procurou, à revelia do Vaticano II, fazer dele um "esquecer o passado" é um caminho arriscado. E a desertificação de que ele fala ocorre ao mesmo tempo que muitos teólogos tentaram disseminar essa hermenêutica da ruptura.

E em que ficamos?
A desertificação deve-se à mensagem que a Igreja defende ou à hermenêutica da ruptura?

Abraço!

Espectadores disse...

Xiquinho,

Uma última nota, para que consiga entender o que está em jogo.

A mensagem da Igreja é uma mensagem de salvação. Essa salvação, de âmbito muito vasto (transcende a vida terrena), só é possível mediante a mudança (transformação) da nossa vida, adequando-a à verdade sobre nós mesmos. Essa verdade, custodiada pela Igreja, e recebida de Cristo, é uma verdade de dupla natureza:

a) doutrinal: respeitante às verdades acerca da Criação, da Queda, da Redenção e da Salvação dos homens

b) moral: respeitante às verdades acerca da recta conduta do ser humano

Vejamos...
Acerca da alínea a), Deus é o mesmo Deus ontem, hoje e amanhã. Logo, as verdades que Deus revela acerca da Criação, da Queda, da Redenção, e da Salvação, são verdades de sempre.

Por outro lado, acerca da alínea b), o Homem é sempre "homo sapiens", ou seja, é sempre a mesma criatura. Os costumes e as modas, a história e o progresso técnico, não mudam a essência do que o Homem é, quer biológica, quer psicológica quer espiritualmente. Logo, a moral, ou seja, a verdade acerca da recta conduta do ser humano, a verdade acerca do bem e do mal, é sempre a mesma e imutável.

Isto tudo diz respeito, então, à imutabilidade absoluta das verdades da doutrina e da moral.

Outra coisa completamente diversa é a FORMA. Ou seja, a escolha da linguagem e da simbologia mais adequada a comunicar as verdades acima referidas ao Homem dos nossos dias. Esse foi o desafio, a meu ver superado, do Vaticano II.

Por outro lado, o Vaticano II já foi há 40 anos. Os católicos de hoje, e não só a hierarquia, devem procurar sistematicamente formas mais actuais de espalhar a Boa Nova, sem contudo desvirtuar a mensagem recebida.

O Xiquinho alguma vez jogou ao jogo do Telefone Avariado? Se alguém distorce a mensagem antes de a passar ao próximo, o que acontece?

No entanto, uma mesma mensagem não distorcida, pode ser colocada em várias formas diferentes (texto, imagem, música, hipertexto, teatro, etc.), seguindo estilos e estéticas diferentes, adequando-se a culturas diferentes, sem no entanto DISTORCER o conteúdo da mensagem.

Esse é o desafio.

Os que defenderam, e defendem, a hermenêutica da ruptura, ou seja, aqueles que erradamente acham que o problema está TAMBÉM no conteúdo da mensagem da Igreja, então esses vêem-se forçados a cortar as suas próprias raízes católicas, deitando fora 1964 anos de vida da Igreja, para fingir que a Igreja Católica só começa no pós-Vaticano II, e pior ainda, partindo de uma interpretação distorcida e errónea da mensagem do Vaticano II.

O Vaticano II nunca foi um Concílio de ruptura, mas sim de continuidade. Todos os Santos Concílios sempre foram Concílios de continuidade, e não de ruptura.

O "aggiornamento" refere-se, ou deve referir-se, à forma e não ao conteúdo.

Abraço!

Pedro, o cristao calmo disse...

Há uma imagem nesse filme que demonstra bem o grau de integridade do respectivo realizador: sensivelmente a meio d aparece uma imagem da loba capitolina com Remo e Rómulo, o sarilho é que as figuras dos dois gémeos apenas foram introduzidas no séc. XVI, sensivelmente 1000 anos após o renhónhónhó que se pretende relatar...

Por último Amenábar é um activista gay e quem quiser fazer de anjo que o faça...

Anónimo disse...

Isto está muito cinzento, aqui vai um toque humoristico (sem malicia)

http://www.youtube.com/watch?v=5HkXmOIwpkQ

sagara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sagara disse...

A proibição do culto dos pagãos foi apenas o início da imposição de uma outra superstição.

Pedro, o cristao calmo disse...

Sagara, no teu caso foi alguma imposiçao ou nasceste assim?

Jose disse...

É "isto" o que o Cristianismo de hoje tem para dizer aos problemas que a sociedade atravessa?
Foge!