quarta-feira, 14 de abril de 2010

A incoerência de Frei Bento Domingues

Sem tempo nem estômago para mais, queria tão somente destacar dois pontos de vista acerca da crónica de Frei Bento Dominges, A Ressurreição da Igreja, editada no Jornal Público a 4 de Abril passado.

O primeiro ponto de vista é um desabafo como católico.

Foram muitas as frases da dita crónica de Frei Bento que me incomodaram. Talvez a que mais me tenha chocado tenha sido esta:

«Depressa surgiu, neste clima, um documento fatal – a Humanae Vitae (1968) – acerca da concepção ética da vida sexual de solteiros e casados.»

É duro, muito duro, ver um "filho" de São Domingos (Frei Bento é Dominicano, ou seja, pertence à Ordem dos Pregadores) usar a expressão "documento fatal" acerca de um texto do Magistério petrino, acerca de um texto doutrinal emanado de um Santo Padre. Porém, na crítica de Frei Bento, é igualmente triste constatar que a crítica não se consubstancia em qualquer refutação, ou tentativa de refutação, do conteúdo da Humanae Vitae. Se até nas críticas aos nossos inimigos temos a obrigação de usar do rigor, e de criticar as ideias adversárias usando argumentação objectiva, e partindo das palavras dos nossos adversários, quanto mais um dominicano que critica o conteúdo de uma encíclica papal se deve referir ao seu conteúdo! Pois de Frei Bento, sobre o conteúdo concreto da Humanae Vitae, nem uma palavra. Erros apontados ao texto de Paulo VI? Nem um. Erros de raciocínio, falácias? Nem uma apontada.

Fica apenas a expressão, fatal: "documento fatal".
São Domingos deve estar a dar voltas na sepultura.

O segundo ponto de vista que queria destacar acerca desta crónica tem a ver com coerência. A certa altura diz Frei Bento:

«Volto, porém, ao primeiro ponto deste texto, à maior redescoberta da eclesiologia do Vaticano II: a hierarquia não é a Igreja. A hierarquia é um serviço indispensável à Igreja, na Igreja de todos.»

Realmente, a frase está escrita com cuidado. Mas está incompleta. Que serviço é esse, prestado à Igreja pela hierarquia? Ora é fácil saber: esse serviço está explicado na Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, documento certamente admirado e respeitado por Frei Bento. Citamos um trecho que tem a ver com uma parte importante desse serviço, o ministério episcopal de ensinar:

«25. Entre os principais encargos dos Bispos ocupa lugar preeminente a pregação do Evangelho (75). Os Bispos são os arautos da fé que para Deus conduzem novos discípulos. Dotados da autoridade de Cristo, são doutores autênticos, que pregam ao povo a eles confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida prática; ilustrando-a sob a luz do Espírito Santo e tirando do tesoiro da revelação coisas novas e antigas (cfr. Mt. 13,52), fazem-no frutificar e solicitamente afastam os erros que ameaçam o seu rebanho (cfr. 2 Tim. 4, 1-4). Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica. E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.

Embora os Bispos, individualmente, não gozem da prerrogativa da infalibilidade, anunciam, porém, infalivelmente a doutrina de Cristo sempre que, embora dispersos pelo mundo mas unidos entre si e com o sucessor de Pedro, ensinam autenticamente matéria de fé ou costumes concordando em que uma doutrina deve ser tida por definida (76).»

(negrito meu)

Diga-se, relativamente a este último parágrafo que citei, que Bispo algum se recusou a aceitar e a ensinar a Humanae Vitae de Paulo VI. Os Bispos tinham a lição do Vaticano II bem sabida. Os protestos e a contestação à Humanae Vitae nasceram de uma facção de teólogos dissidentes norte-americanos, entre eles o inevitável Charles Curran.

Ora, a incoerência de Frei Bento fica agora à vista. De que forma é que, apelidando a encíclica Humanae Vitae de "documento fatal" é que Frei Bento está em coerência com as palavras da Lumen Gentium? Onde é que está a "sincera adesão" de Frei Bento aos ensinamentos do magistério de Paulo VI, nomeadamente da Humanae Vitae?

5 comentários:

Anónimo disse...

Caro Bernardo

«Depressa surgiu, neste clima, um documento fatal – a Humanae Vitae (1968) – acerca da concepção ética da vida sexual de solteiros e casados.»

É em minha opinião e de muitos Cristãos incluindo muitos católicos um comentário de uma extraordinária acutilância vindo de um membro do Clero. Alguém que pelos vistos bem melhor que muitos leigos sabe quais as dificuldades de quem de repente se FATALMENTE liquidado pela Igreja em termos de vivência sadia dentro desta. Pode como outra muita gente não concordar, mas não deve por uma questão de humanidade criticar de forma tão severa um Dominicano que teve a genialidade de se colocar ao lado de quem sofre. É essa característica que o bernardo se esqueceu de mencionar. Ou seja ofende-se com algo que nem o toca directamente mas não se preocupa com os ofendidos, homens e mulheres com virtudes e defeitos tal como o Bernardo também os terá. Fala em "erros" que Frei Bento não identificou... isso é uma forma pouco normal de abordar a questão. Que mais erros se não a própria fatalidade do documento!? quer mais doq ue isso? é um documento agressivo que ataca os direitos de seguramente uma enorme parte dos católicos. Se o bernardo quer continuar partidário e solidário com a Humanae Vitae faça-me o obséquio e a muitos dos seus semelhantes de discordarmos com o mesmo Documento cuja fatalidade o condenou à nascença (na opinião de muitos). No entanto quer que lhe aponte erros? A atitude da Igreja face aos divorciados, face ao sexo são dois assuntos que dão panos para mangas e que estão feridos desde o início pelo conteúdo da Humanae Vitae.

Duarte

Espectadores disse...

Duarte,

1) Quer ser específico, e dizer-me exactamente qual é o conteúdo da Humanae Vitae que contesta? Ou vai-se ficar por generalidades pouco objectivas? Leu o texto da Humanae Vitae? Se leu, deve ter facilidade em apontar as "fatais" falhas desse texto

2) Escreveu: "ofende-se com algo que nem o toca directamente"; pode explicar-me de que forma é que a Humanae Vitae não me toca directamente, enquanto católico casado?

Cumprimentos

J.AO disse...

Já há bastantes anos que o frei Bento Domingues se mantém neste registo.

De certo modo compreendemos que tenha necessidade de falar assim; muitos são os "praticantes" que mais não conseguem do que partilhar sobre o assunto nestes termos.

No fundo, com poucos testemunhos deslumbrosos da coragem que está nos leigos casados a viverem segundo Deus quer, não aceita nada que a Humanae Vitae seja de facto a resposta à notinha de rodapé na Gaudium et Spes 52. Quando o é, de facto, como a encíclica Evangelium Vitae, entre outras o veio a repetir (97), e quando não é segredo para ninguém de que se está para continuar.

Vejam-se outros dominicanos menos desencorajados:

http://www.op-stjoseph.org/

http://www.3op.org/

Às vezes nem parece que são a mesma ordem, mas é a "pobrezazinha" que temos em Portugal, quando devíamos ter mais juízo.

Um grande grande abraço ao Bernardo por ser precisamente exemplo de coragem e a todos os que me lêem.

J.AO disse...

Esqueci-me de ilustrar o meu comentário anterior com a "teologia do corpo" (ou mais propriamente da dimensão esponsal do corpo, celibato e matrimónio).

É uma resposta teológica que procura apaziguar-nos quanto a este estranho modo de vida em que mais se renuncia para mais autenticamente se dar de nós mesmos. Trocamos a gratificação fácil pelo amadurecimento, o abuso pela bondade mais "romântica", e assim crescemos mais, temos mais fé, somos mais livres, mais felizes. (era o cathpilars, tinha de actualizar o perfil)

J.AO disse...

Perdão, a referência da Gaudium et Spes é a 51, nota 14. (não 52) Ler os parágrafos 49-52 fortalece-nos, é aí que está o verdadeiro espírito do Vaticano II no seu entendimento da sexualidade, ao qual o Bernardo aludiu ser aceite pelos Bispos.