quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Frei Bento - O incansável verdugo da Humanae Vitae

Frei Bento diz frequentemente coisas em contradição com o Magistério, e hoje em dia ninguém acha isso estranho. E, sobretudo, os "media" não se coíbem de lhe dar espaço, mesmo sendo evidente que se trata de um teólogo cuja doutrina não é ortodoxa. Não digo que os "media" devam evitar dar espaço de antena a católicos com ideias heterodoxas, mas que deveriam, em nome da neutralidade, dar espaço de antena, já agora, aos chatos dos católicos que gostam da coerência.

Diz a Lumen Gentium (Constituição Dogmática do Vaticano II):

«E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.»

Religiosa submissão da vontade e do entendimento!
Espantoso! Haverá dúvidas sobre este trecho?

Vejamos agora o que Frei Bento escreveu recentemente, no contexto da sua eterna guerra contra a Humanae Vitae de Paulo VI:

«3. Mesmo nos temas que não eram considerados dogmas de fé nem palavra infalível dos Papas – creio que desde João XXIII nunca mais se ouviu falar de nenhuma – caiu-se na armadilha de considerar muitas declarações importantes, para a orientação pastoral da Igreja, como definitivas e irreformáveis.», in Não há teologias definitivas.

Comparemos com a Lumen Gentium:


«Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes (78). As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo.»

É evidente que a Humanae Vitae de Paulo VI (repudiada e não aceite por Frei Bento) está dentro desta categoria, e o próprio Paulo VI deixa isso claro no texto da encíclica:

«Nenhum fiel quererá negar que compete ao Magistério da Igreja interpretar também a lei moral natural. É incontestável, na verdade, como declararam muitas vezes os nossos predecessores,(1) que Jesus Cristo, ao comunicar a Pedro e aos Apóstolos a sua autoridade divina e ao enviá-los a ensinar a todos os povos os seus mandamentos, (2) os constituía guardas e intérpretes autênticos de toda a lei moral, ou seja, não só da lei evangélica, como também da natural, dado que ela é igualmente expressão da vontade divina e que a sua observância é do mesmo modo necessária para a salvação.(3)»

Eu fico estupefacto com o atrevimento de Frei Bento, mas mais ainda fico com as pessoas que não vêem as gritantes contradições entre várias das ideias do Frei Bento e a doutrina católica ortodoxa. Este artigo foi publicado no jornal Público a 28 de Novembro de 2010. Um católico lê isto e interroga-se, com razão: "este senhor, teólogo e académico, continua a combater uma encíclica de um Papa, e ... não se passa nada!". Estamos perante um problema, como dizia o teólogo norte-americano Ralph McInerny, de um conflito entre dois magistérios: o Magistério autêntico da Igreja Católica, personificado no Papa e nos Bispos a ele unidos, e um magistério espúrio, falso e impostor, personificado em sacerdotes e teólogos que teimam em desobedecer ao Magistério, pretendendo constituir, para os fiéis leigos e para todo o Povo de Deus, como que um novo magistério, o magistério dos teólogos progressistas.



Senhor, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem...

7 comentários:

O Insuspeito disse...

Chegará a um ponto que teremos de rezar: "Perdoai-lhes, Senhor, porque SABEM o que fazem!"...

Muitos bem sabem o que fazem e mais não querem que instaurar plenamente a uma Nova Doutrina, Nova Fé, uma Nova Igreja... Um autêntico cancro que corromperia e mataria a Igreja Católica, se ela não fosse a Santa Igreja de Deus.

Sejamos nós os anticorpos a esse cancro maldito, para bem da Igreja e das almas!

Um abraço a todos!

Espectadores disse...

Pois... eu gosto sempre de pensar que o Frei Bento é apenas um iludido bem intencionado, que erra sem ter consciência disso... Mas isso é irrelevante para os efeitos nocivos das coisas que ele escreve. Ele desencaminha muitas almas, o que é precisamente o oposto do que se esperaria de uma pessoa de vida consagrada.

Um abraço!

Vítor Mácula disse...

Olá, Bernardo

« E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice (...) »

Bem, afirmar não é possibilitar...

Há duas formas de assentimento implícitas nesta afirmação: o do reconhecimento de sentido ou verdade pelo entendimento, sentimento, intuição; o de confiança e comunhão prévia de sentido(s) com quem(s) o enuncia.

Para um assentimento existencial e relacional, a contradição entre estas duas formas de assentimento, anula este: ou reconheço como falso ou sem sentido o enunciado, e a adesão é bloqueada pela incompreensão (como posso eu aderir a algo em que nem reconheço sentido ou verdade?); ou reconheço o sentido ou a verdade, não confiando ou não reconhecendo na « fonte » nenhuma afinidade geral, como quando reconheço num contexto de discordância, um ou outro ponto de concordância.

Como é evidente, uma integração religiosa exige ambas formas: mesmo nos mistérios, há uma adesão do entendimento, sentimento, intuição, mesmo que obscuras e tacteantes e « em reconhecimento de sentido ».

Enfim, pelo menos é o que se passa comigo.

Uma terceira forma de assentimento seria usar a vontade para aderir contra o entendimento, sentimento, intuição; mas tal parece-me uma violação tão flagrante do próprio dinamismo da conversão cristã, assim como do próprio dinamismo da psicologia humana, que nem me parece possível « totalmente ».

Tudo isto põe um evidente problema ao advérbio usado: como se adere « religiosamente » a algo que não reconhecemos como verdadeiro e com sentido? Se fôr « de boca », não nos re-ligará na verdade a nada a não ser, quanto muito, ao seu hipócrita contrário, ou a um desiquilíbrio interno entre vontade e sentido.

O problema do argumento de autoridade, relativamente a adesões de sentido, é técnico: estas nunca são « exteriores », mas movimentos « internos » do próprio sujeito; a liberdade é uma determinação intrínseca da verdade e do sentido, não é uma concessão qualquer extrínseca a estes.

Um abraço

Espectadores disse...

Olá Vítor!

O teu comentário é muitíssimo pertinente e bem-vindo. Eu vou-te dizer como vejo a questão que colocas...

1) Tens toda a razão em dizer que não faz sentido um assentimento "de boca": não se pode dizer uma coisa e pensar outra oposta

2) Assim, eu acho que o assentimento que é pedido ao católico na Lumen Gentium do Vaticano II tem que ser um assentimento convicto: o mesmo assentimento da fé em algo que não se compreende, ou só se compreende parcialmente

3) Perante a necessidade de, como católico coerente, termos que assentir a coisas que não compreendemos de todo, ou mesmo a coisas que inicialmente (antes de conhecermos a posição do Magistério) rejeitávamos, eu só vejo uma solução: a humildade de quem se reconhece ignorante, e de quem aceita uma verdade recebida de alguém que tem autoridade para no-la dar.

Em suma: ser humilde e aceitar como verdadeiro algo que o Magistério ensina. Então, a nossa discordância original tem que ser convertida, sinceramente, na atitude de reconhecer que a nossa posição tem que estar errada, dado que a do Magistério é a oposta e está certa por definição. Não vejo outra forma!

A compreensão poderá vir depois, e no meu caso, a compreensão é algo que me faz uma falta enorme. Há pessoas, certamente mais humildes que eu, que obedecem ao Magistério sem problemas e não se preocupam se não compreenderem a doutrina como ela é. Eu preciso quase desesperadamente de a compreender, mas a meu ver, isso só deve vir depois. Primeiro, vem o assentimento. Aliás, é a mesma dinâmica da fé.

Um abraço!

Espectadores disse...

Uma última nota: o assentimento que referi em nada fere a liberdade. Dar o nosso assentimento a algo, ou a alguém, é um acto de fé.

E como acto de fé que é, é uma decisão livre. Se eu decido confiar no Magistério, mesmo não compreendendo certa doutrina, mesmo discordando inicialmente de certa doutrina, essa decisão é livre.

Anonimo disse...

“Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado”

Inacio de loyola

Se eu decido confiar no Magistério, mesmo não compreendendo certa doutrina, mesmo discordando inicialmente de certa doutrina, essa decisão é livre.

bernardo

Vítor Mácula disse...

O “compreender em parte” permite evidentemente adesão: é aliás o caso “em parte” de todo o tipo de compreensão ;) O problema é quando não se compreende de todo, ou se compreende enquanto errado ou na contramão do sentido pretendido.

“(…) que tem autoridade para no-la dar.” “(…)está certa por definição”
O problema aqui põe-se quando alguém com autoridade diz algo que vai manifestamente contra o sentido da sua autoridade: o meu médico receitar-me café com cocaína três vezes ao dia depois de um enfarte, por exemplo. A autoridade não depende só da definição (a medecina é o mantimento e protecção da saúde) mas também da comprovação concreta (o que o médico diz e faz em cada caso). Por outro lado, não há autoridades absolutas, nem nos médicos religiosos.

“não se pode dizer uma coisa e pensar outra oposta”
Isto é grave eticamente. Mas ainda pior, porque grave existencialmente, é tentar forçar-se a pensar algo em contrário ao seu próprio pensamento. Outra coisa é crescer neste a partir da fé e da comunhão, isto é, confrontando-se e pondo-se em questão a partir da relação com Deus e com os outros.

“Primeiro, vem o assentimento. Aliás, é a mesma dinâmica da fé.”
A fé, essa relação directa com o Deus vivo, é evidentemente anterior, enquanto vivência e experiência, à conceptualização de si (como o é todo o vivido); mas a fé não trata da relação com enunciados magisteriais ou outros da “cristandade”: é a comunhão de fé, em concordâncias e discordâncias doutrinais, que trata dessa relação. Eu não tenho fé “no” magistério: tenho fé em Deus “com” o magistério, na remissão e re-ligação com Deus que se quer dinamizar. O facto de primeiro vir o “sim” ao apelo de Deus para a conversão, não implica obediência cega a qualquer autoridade humana, mas antes pelo contrário, autonomia perante todas elas, inclusive as religiosas. Autonomia não significa oposição ou desligamento mas relação reflectida, crítica e consciente, que mantenha viva e autêntica a comunhão.

O ponto inicial, puramente técnico, pode refrasear-se assim, deslocando-o para as suas consequências existenciais: uma obediência cega nunca é uma adesão a algo enquanto verdadeiro, pois a verdade só se dá no seu reconhecimento; e uma obediência cega não é nunca uma relação de confiança: confiança, em termos de relação humana, é saber que posso pôr todas as minhas dúvidas, discordâncias e perplexidades, e que nessa autenticidade relacional se cresce em mútuo conhecimento de si, do outro, da vida, etc