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sexta-feira, 27 de maio de 2011

A moral viscosa de Passos Coelho

É de se pasmar...
Passos Coelho, aquando da promulgação da Lei do Aborto, manifestou publicamente o seu apoio à dita. Agora, em entrevista dada recentemente à Rádio Renascença, mostra uma posição mais ambígua...

«O presidente do PSD recorda que esteve “há muitos anos do lado daqueles que achavam que era preciso legalizar o aborto - não era liberalizar o aborto, era legalizar a interrupção voluntária da gravidez -, porque há condições excepcionais que devem ser tidas em conta” e não se deve “empurrar as pessoas que são vítimas dessas circunstâncias para o aborto clandestino”.»

Está à vista a estratégia: Passos Coelho quer puxar para o PSD alguns votos do CDS. Mas os eleitores dotados de valores morais que estejam indecisos entre PSD e CDS não se podem deixar enganar. Passos Coelho, procurando passar a imagem de preocupação pela manifesta generalização ("liberalização") do aborto, pelos vistos insiste na sua legalização. Ou seja, insiste na ideia insana de quem um crime pode ser legal. Já para não falar nas famigeradas "condições excepcionais", pois se matar um ser humano inocente é um acto claramente imoral, não se vê onde estão as ditas condições de excepção, ou seja, não se entende quais são as circunstâncias que tornam legítimo matar um ser humano inocente.

Os eleitores não se podem deixar enganar. A moral de Passos Coelho é a mesma de José Sócrates. São políticos profissionais, relativistas, que consideram que a moral se define por consensos alargados e por referendos. Refugiam-se em chavões ambíguos, procuram ao mesmo tempo parecer modernos e responsáveis, e acabam por não ser nem uma coisa nem outra.

E, finalmente, fazem-nos de parvos. Ao que parece, segundo Passos Coelho, algumas mulheres, antes da famigerada lei de 11 de Fevereiro de 2007, eram "empurradas" para o aborto clandestino. Ou seja, não viam outra alternativa para as suas gravidezes senão a de as destruir, matando os seus filhos. E o Estado, que deve fazer, segundo Passos Coelho? Ora é claro: ajudá-las a matar os seus filhos. Isso sim, é serviço público. Não um aborto clandestino, um aborto sem o preenchimento do formulário DS-1845, um aborto sem a assinatura de uma junta médica, sem o carimbo da clínica da Yolanda. Um aborto decente tem todas essas formalidades e mais algumas. Isso é que é um aborto decente.

Assim, que deve o Estado fazer às mulheres que se sentem "empurradas" para o aborto? Ora, deve "empurrá-las" para o aborto legal! Está fora de questão prestar apoio à gravidez e à maternidade! Está fora de questão ajudá-las em questões jurídicas (quando são ameçadas por namorados, familiares ou patrões), ou dar-lhes fraldas e papa para o bebé. Isso não é moderno. Essas tarefas de apoio à maternidade ficam para aqueles grupos de extremistas católicos, para os "talibans da vida".

O Estado presta um nobre serviço: o aborto legal! A destruição legal de seres humanos inocentes, em ambiente hospitalar controlado, e tudo pago pelos contribuintes. Isso é que é modernidade! Mas Passos Coelho, o pós-moderno, para além de querer esse aborto moderno, quer regulamentá-lo mais um bocadinho. Torná-lo um bocadinho menos chocante para os eleitores mais sensíveis, talvez trocando alguns abortos à oitava semana com Mifepristone (RU-485) por abortos à primeira ou segunda semana com Levonorgestrel (vulgo, "pílula do dia seguinte")... Mas sobretudo, o que Passos Coelho quis, com esta entrevista calculista na Rádio Renascença, foi enganar uns quantos potenciais eleitores do CDS, levando-os a votar, de forma incauta, no PSD. Apesar de as sondagens o sugerirem, nem todos os eleitores são parvos.

Adenda (30 de Maio) : Após ler os comentários que foram feitos a este "post", sinto-me obrigado a clarificar o seguinte: este "post" visava criticar o oportunismo político de Passos Coelho, que está claramente a querer ir buscar mais uns quantos votos à direita do PSD, dando na entrevista à RR um ar de "conservador" que choca com o ar de "progressista" que ele quis dar há uns tempos, quando pela primeira vez se pronunciou sobre o tema do aborto. No entanto, este meu "post" não deve ser interpretado como um apelo ao voto no CDS, e vejo que alguns leitores assim o interpretaram (o meu texto permitia essa interpretação). Não critico as pessoas que, de boa consciência católica, queiram votar CDS por causa das várias posições pró-vida desse partido, mas eu não estou em condições de recomendar o voto no CDS, uma vez que não tenho a minha decisão ainda tomada nessa matéria. É sabido que há posições dentro do CDS que não são compatíveis com a Doutrina da Igreja, pelo que a questão não é fácil.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ateísmo - homeopatia para o intelecto

É possível ser-se naturalista sem se ser darwinista? É, claro que sim. Aliás, todos os naturalistas, antes de Darwin, forçosamente não eram darwinistas. Mas nos dias que correm é difícil encontrar um naturalista, ou seja, uma pessoa que negue a existência de uma parte sobrenatural (transcendente, imaterial, metafísica, etc.) da realidade, que não seja darwinista.

O sumo-sacerdote do naturalismo darwinista, Richard Dawkins, disse-o de forma contundente: "Although atheism migh have been logically tenable before Darwin, Darwin made it possible to be an intellectually fulfilled atheist" - The Blind Watchmaker (1986), p. 6.

Assim, Dawkins parece concordar que um naturalista contemporâneo é, para todos os efeitos, e salvo algumas excepções pontuais, um darwinista.

No entanto, o naturalismo darwinista é falso. Não por culpa do darwinismo, mas por culpa do naturalismo. O naturalismo é falso. Ponto final.

(Nota: algum leitor mais distraído poderia pensar que estou a atacar a teoria científica darwinista, ou neodarwinista. Não é, de todo, o caso. Considero que, apesar das fragilidades inerentes a uma teoria científica ainda em construção, a explicação neodarwinista é a melhor explicação científica que temos hoje em dia para a evolução das espécies. O que estou a criticar é o naturalismo darwinista, que é uma filosofia de vida que defende o naturalismo filosófico tentando suportar-se no darwinismo científico)

Porque razão se pode dizer, com confiança, que o naturalismo é falso? Noutros textos apresentei vários exemplos: o naturalismo é auto-refutatório por destruir qualquer conceito consistente de verdade, o naturalismo destrói o conceito de livre arbítrio (torna-o numa ilusão, o que destrói a responsabilização dos actos livres), o naturalismo não sustenta adequadamente a capacidade humana de raciocinar e de compreender a realidade, e assim por diante.

Visto do ponto de vista do naturalismo darwinista, pode-se fazer a seguinte refutação:

(1) Se o naturalismo darwinista é verdadeiro, então a moralidade humana é um produto do neodarwinismo (mutação, cruzamento, selecção natural)

(2) Se a moralidade humana é um produto do neodarwinismo, então não existem factos morais objectivos (verdades morais objectivas)

(3) Existem factos morais objectivos

(4) Logo, o naturalismo darwinista é falso

(Adaptado do capítulo "The Moral Argument", de Mark D. Linville, em "The Blackwell Companion to Natural Theology", p. 394)

Claro que isto é um argumento para refutar o naturalismo darwinista, e não um argumento para refutar o naturalismo como um todo; mas ateus como Dawkins seriam os primeiros a dizer-nos que isto refuta o naturalismo contemporâneo, uma vez que este é, maioritariamente, darwinista.

O naturalista pode contestar. Vai tentá-lo, certamente. Normalmente, procura atacar (3). Mas como o ateu contemporâneo, felizmente, acaba por ser moralista (é contra a homofobia, é contra o terrorismo, é contra o abuso de menores, etc.), ele repudia os relativismos morais "vividos" coerentemente, ou seja numa lógica do "vale tudo". O ateu contemporâneo indigna-se perante a certas injustiças e defende certos direitos humanos. Ele repudia a aplicação do darwinismo à moral humana, ou seja, rejeita a aplicação da lei do mais forte às sociedades humanas. O próprio Dawkins já rejeitou, várias vezes, a aplicação do darwinismo à moral.

Segue-se então o rol de tentativas de construção de uma moral naturalista, pois se é certo que temos que nos comportar de forma moral, a gigantesca tarefa é, para o naturalista que rejeita a vontade de Deus como normativa moral, explicar-nos porque é que nos devemos comportar moralmente. Porque razão, num universo material sujeito ao darwinismo, existiriam "deves" e "haveres"? Surgem então vias de escape para o naturalista: o utilitarismo ou pragmatismo, no qual o bem moral é o que resulta da maximização das vantagens do colectivo, ou o "overlapping consensus" de John Rawls, que pugna por uma ponderação alternada de certos bens morais em conflito, e assim por diante. Tudo formas de procurar defender um "comportamento moral", mesmo na completa ausência de fundamento filosófico para esse comportamento.

A atitude clássica teísta face à moral sempre foi algo do género:

(1) Se existirem verdades morais objectivas, o ser humano deve segui-las

(2) Existem verdades morais objectivas, fundamentadas nos mandamentos de Deus

(3) Logo, o ser humano deve segui-las

Assim, o naturalista tem que encontrar formas de justificar, para o ser humano, um comportamento moral sem correr o risco de entrar nas vielas escuras das verdades morais objectivas, que cheiram sempre a divino. É que, de facto, é complicado explicar que existam deveres morais num universo naturalista, sujeito exclusivamente às leis inexoráveis da matéria.

Uma das atitudes naturalistas mais bizarras consiste na defesa da ideia de "mentira nobre" ("noble lie"), proposta pelo filósofo norte-americano Loyal Rue. No texto de apresentação do seu livro "By the grace of guile" (Oxford University Press, 1994) encontramos isto:

«The nihilists are right, admits philosopher Loyal Rue. The universe is blind and aimless, indifferent to us and void of meaning. There are no absolute truths and no objective values. There is no right or wrong way to live, only alternative ways. There is no correct reading of a text or a picture or a dance. God is dead, nihilism reigns. But, Rue adds, nihilism is a truth inconsistent with personal happiness and social coherence. What we need instead is a new myth, a noble lie. Only a noble lie can save us from the psychological and social chaos now threatened by the spread of skepticism about the meaning of life and the universe.»

Com todo o respeito pela carreira filosófica do Prof. Rue, esta proposta é patética!
No fundo, Rue advoga que, perante a impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas no naturalismo, e perante a necessidade premente de convencer os seres humanos a se comportarem moralmente em sociedade (para evitar a anarquia e o colapso), o melhor que há a fazer é promover a "nobre mentira": apesar de não existirem verdades morais objectivas, vivamos como se estas existissem!

De certa forma, como diz William Lane Craig (a quem devo esta dica acerca da proposta de Loyal Rue), a "nobre mentira" funcionaria como uma espécie de placebo do intelecto: a "nobre mentira" dá a motivação psicológica de que o naturalista precisa para justificar o seu comportamento moral. Ao escutar isto, pensei imediatamente na louvável iniciativa anti-homeopática de alguns ateus. Algumas das recentes críticas anti-homeopáticas, como o texto da química Palmira Silva que desmonta a burla do Oscillococcinum, são verdadeiro serviço público. No entanto, não pude deixar de pensar que atitudes desesperadas como as de Loyal Rue acabam por ser uma espécie de homeopatia intelectual.

E, vendo bem, apesar de o caso de Rue ser mais gritante, todas as tentativas ateias ou naturalistas de localizar o fundamento filosófico para o comportamento moral do ser humano são tentativas baseadas em "nobres mentiras", mesmo que os seus defensores nem sempre o admitam. A razão é simples: o conceito de "dever" não tem sustento na cosmovisão naturalista. Bem podem procurá-lo no naturalismo. É bizarro falar dos "deveres" de uma máquina biológica evoluída, que é como o naturalista vê o ser humano. A alternativa para o naturalista, face à impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas na sua visão redutora da realidade, consiste em adoptar "nobres mentiras".

É viver na ilusão de que existiriam verdades morais objectivas. A necessidade premente de viver em sociedade força-nos a procurar viver moralmente. Mas, à falta de verdades morais objectivas, cai-se num utilitarismo moral. O certo já não existe em si mesmo, como verdade moral objectiva. O errado também não. Tudo depende do contexto, da maximização da felicidade, ou dos interesses, do colectivo. Isso leva a coisas bizarras como a defesa do direito a matar crianças não nascidas, que como sabemos, no nosso país, surgiu pela aplicação prática das teorias de John Rawls no acórdão do Tribunal Constitucional que legitimou o referendo de 7 de Fevereiro de 2007. Essa é uma das conclusões lógicas de quem já não acredita em verdades morais objectivas. O colectivo vota o direito ao aborto, numa tentativa de conciliar os interesses da mãe (prioritários até certa fase de gestação) com os interesses da criança (prioritários depois de certa fase da gestação) e isso cria a "nobre mentira" de que é moral abortar até certa fase da gestação. É o Rawls em acção.

Tal como a opção pelos produtos homeopáticos, em detrimento dos medicamentos reais, pode colocar a saúde das pessoas em risco, também a opção pelo naturalismo pode ser vista como homeopática: está fundamentada no vazio moral (na ausência de verdades morais objectivas) e coloca riscos reais para a saúde das pessoas. Que o digam as crianças abortadas!

PS: Antecipando as críticas que aí vêm, afirmo desde já:

Não afirmei, de modo algum, que o ateu ou o naturalista não se comportam moralmente: aliás, fiz questão de dizer que muitos ateus ou naturalistas promovem certos comportamentos morais, e defendem certos direitos e deveres morais; por isso, é verdade que um ateu ou um naturalista podem viver vidas morais; a questão que critico é: no quadro do naturalismo, qual é o fundamento filosófico para esse comportamento?

terça-feira, 1 de março de 2011

Os sofistas do aborto mentem sobre a saúde mental da mulher

A Ana Matos Pires apresentou recentemente um estudo do New England Journal of Medical Science intitulado Induced First-Trimester Abortion and Risk of Mental Disorder. Esse estudo, publicado a 27 de Janeiro de 2011, apresenta conclusões muito cautelosas:

«The finding that the incidence rate of psychiatric contact was similar before and after a first-trimester abortion does not support the hypothesis that there is an increased risk of mental disorders after a first-trimester induced abortion.»

A metodologia seguida foi esta:

«We conducted a population-based cohort study that involved linking information from the Danish Civil Registration system to the Danish Psychiatric Central Register and the Danish National Register of Patients. The information consisted of data for girls and women with no record of mental disorders during the 1995–2007 period who had a first-trimester induced abortion or a first childbirth during that period. We estimated the rates of first-time psychiatric contact (an inpatient admission or outpatient visit) for any type of mental disorder within the 12 months after the abortion or childbirth as compared with the 9-month period preceding the event.»

Em suma: procurou-se verificar se existia correlação entre um abortamento de primeiro trimestre em mulheres sem registo prévio de problemas mentais, e um subsequente contacto entre essas mulheres e um psiquiatra.

Não me parece que o estudo tenha sido mal conduzido. O problema é que a conclusão do estudo é falaciosa. Segundo os autores do estudo, os resultados do mesmo "não sustentam a hipótese de que há um incremento no risco de problemas mentais após um aborto de primeiro trimestre". No entanto, usando lógica elementar, vê-se que os resultados do mesmo também não sustentam a hipótese contrária.

A conclusão do estudo poderia ser interpretada por algumas pessoas na forma de argumento "modus tollens":

1. Se o aborto de primeiro trimestre causar problemas mentais, as mulheres que se submetem a tal aborto tenderão a procurar ajuda psiquiátrica

2. As mulheres que fizeram parte do conjunto-alvo do estudo não manifestaram uma clara procura de ajuda psiquiátrica após o aborto de primeiro trimestre

Conclusão: O aborto de primeiro trimestre não parece causar problemas mentais

Este argumento é logicamente válido, mas a premissa 1 é muito discutível. Uma mulher que aborta mais depressa procura a ajuda de uma amiga ou de um familiar do que ajuda psiquiátrica. É que os efeitos psíquicos do aborto não são comparáveis com os de outros problemas mentais. O profundo sentimento de culpa da mulher que abortou (uma reacção, diga-se de passagem, perfeitamente normal e mentalmente salutar) leva-a, frequentemente, a preferir a privacidade ou a procurar apoio junto de pessoas do seu círculo próximo de confiança. Se uma pessoa que sofre problemas de depressão pode, naturalmente, procurar ajuda psiquiátrica ou psicológica, o mesmo não é linear com uma pessoa que sente um profundo sentimento de culpa e de remorso. Se uma mulher se sente culpada do aborto que procurou, é muito pouco provável que se vá apresentar a um psiquiatra. O peso da responsabilidade moral faz com que, instintivamente, a pessoa não confunda essa situação com a situação de uma doença ou perturbação mental, pois nestes últimos casos não faz sentido discutir culpas. Ninguém sente culpa por ter uma doença, física ou mental. Mas a situação psicológica de uma mulher que procurou um aborto pode ser radicalmente diferente pela presença da culpa.

A conclusão do estudo está redigida de forma a evitar o argumento "modus tollens": note-se como os autores dizem apenas que o estudo "não sustenta a hipótese de que há um incremento no risco de problemas mentais após um aborto de primeiro trimestre". Eles sabem bem que a premissa 1, na forma atrás apresentada, não é sustentável. Se tal premissa fosse sustentável, eles poderiam ter sido mais arrojados no estudo, declarando ter provado não existir correlação entre aborto provocado no primeiro trimestre e sequelas mentais: o argumento "modus tollens" seria perfeitamente válido.

Está aqui a fragilidade do estudo. Pela falta de consistência da suposta relação causal entre aborto provocado e procura de ajuda psicológica ou psiquiátrica, o estudo sai coxo e de pouco serve. Não é que seja impossível que uma mulher procure apoio psicológico após um aborto: isso pode acontecer. O que é inverosímil é que haja uma relação causal clara entre ter sequelas psicológicas derivada de um aborto e procurar, consequentemente, apoio profissional.

De forma análoga, seria um pouco como conduzir um estudo para medir quantas pessoas com problemas de alcoolismo procurariam ajuda profissional na sequência de recaídas graves. É de esperar que nem todas as pessoas com problemas de alcoolismo procurem tal ajuda. A sensação de culpa e de vergonha que assola uma pessoa com problemas de alcoolismo serve como bloqueio a que muitas pessoas nessa situação cheguem a procurar ajuda.

Questões técnicas à parte, o que me choca é a atitude de pessoas como a Ana Matos Pires. Aqui temos uma mulher que tem uma visão brutalmente errada acerca da dignidade de uma mulher grávida, e que aparentemente não se importa de sofismar para proteger a sua insustentável defesa do pretenso "direito" ao aborto. Num texto da sua autoria, ela chega ao ponto de apresentar efeitos psicológicos benéficos decorrentes de um aborto:

«Mas também não minto se afirmar que é, em simultâneo e para muitas mulheres, fonte de alívio, de eutimia e de normalização da reactividade emocional.»

É claro que mente. Que tal sensação de "alívio" e de "eutimia" (ah, nada como usar termos técnicos para esconder erros argumentativos) seja sentida por algumas mulheres logo após o aborto até não surpreende. No instante imediato, é provável que algumas delas se sintam livres dos receios que tinham, receios esses derivados da gravidez (abandono do namorado, perda de emprego, problemas financeiros, etc.). O que interessa é o resto da vida dessas mulheres. O que é relevante, e que a Ana Matos Pires simplesmente descarta, não é a imediata "eutimia" mas sim o choque psicológico que vai acompanhar qualquer mulher mentalmente sã para toda a sua vida: "matei o meu filho!". Por isso, o aborto nunca pode ser "fonte de normalização da reactividade emocional". Que o aborto proporcione, no imediato, um sensação de alívio e de "eutimia" é algo que se espera: é sabido que as mulheres abortam, frequentemente, em situação de medo, de desespero, de pânico perante o futuro. Agora, dizer que o aborto é "fonte" de uma espécie de bem-estar normalizador é uma bruta mentira. Como se pode ignorar, de forma tão descarada, o facto óbvio de que o aborto é um acto de desespero? O facto óbvio de que, se lhes derem ajuda financeira e emocional, se lhes derem encorajamento, se elas não se sentirem ameaçadas com a perda iminente de emprego, com o abandono dos namorados, e outras ameaças do género, a esmagadora maioria das mulheres leva a gravidez para a frente?

Perante a brutalidade do aborto, que poucas mulheres conseguem ignorar durante muito tempo, qualquer mulher normal acaba, mais cedo ou mais tarde, por se dar conta do horror desse acto que pediu para lhe cometerem: filicídio. É de filicídio que estamos a falar! Qualquer pai ou mãe só pode ficar profundamente afectado quando se dá conta de que cometeu filicídio, e se isso acontece em filicídio acidental, quando um pai ou uma mãe mata o seu filho por acidente, quanto mais em situações como a do aborto, em que a vontade da mulher (nem sempre livre, porque muitas vezes é socialmente pressionada para abortar) foi decisiva na morte do seu filho ou filha.

E, perante o horror óbvio do filicídio, e perante a chaga, a marca psicológica indelével que tal mulher portará toda a vida, a Ana Matos Pires entrega-se ao exercício de sofismar. É espantoso! Como mulher que é, pois não sei se também será mãe, mas como mulher que é, ela deveria ter um bocadinho mais de consideração pela saúde mental das mulheres.

Que a causa do pretenso "direito" ao aborto é uma causa irracional, desumana e sustentada em argumentação falaciosa e anti-científica, já se sabe. Mas que uma mulher chegue ao cúmulo de negar o óbvio sofrimento de outras mulheres, invocando pseudo-argumentos e estudos científicos de conclusões tendenciosas, para fazer a desesperada defesa do indefensável, é algo que me parece espantoso e cruel.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

É espantoso!

Que esta personagem ainda continue à frente dos destinos do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, é algo que brada aos céus!
Há pessoas que não têm um pingo de vergonha.

Contra a mentira da morte...

A verdade da Vida!
A história por detrás deste vídeo fala por si. É um grito de verdade contra a mentira do aborto. Há quem insista, erradamente, em defender a antiga lei do aborto, a que vigorou em Portugal até à lei infame de 2007. Mas essa lei, seguramente melhor que a actual, previa a legalidade do aborto por malformações, uma situação que claramente não justifica matar uma criança. É compreensível que, anestesiados pelo asco de lei que temos hoje em dia, quase tenhamos saudades da lei anterior. É por isso que este vídeo serve de antídoto para recuperarmos a nossa humanidade, para darmos valor ao que é importante, para sermos melhores pessoas. Não há qualquer situação em que seja legítimo abortar. A única solução ética consiste na proibição total e completa do aborto.
Estes pais são um exemplo de vida. Mostram-nos o caminho certo. O caminho da verdade.


(descobri este vídeo no blogue Contra o Aborto)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Boa gente...

O menu do Abortadouro dos Arcos.
É tudo boa gente!

Festa de sangue

Neste blogue, celebra-se:

Celebra-se o quê?
Deve ser isto:

Quatro anos de matança



Faz hoje quatro anos que se institucionalizou a matança de crianças em Portugal. Basta a mãe da criança querer. Desde 11 de Fevereiro de 2007 que o Estado diz que sim. E paga. Mas quando o Estado paga, pagamos todos nós. Pagamos pela matança. Matança de crianças. Somos todos cúmplices. Todos ajudámos a matar, todos ajudamos a matar, mesmo que involuntariamente, com o dinheiro dos nossos impostos. Todos temos uma parte da culpa. Cada dia das nossas vidas que é vivido sem combatermos esta ignomínia é um dia de omissão. Omissão colaborativa. Quatro anos de matança. Uma destas crianças mortas podia ser um de nós. Podia ser um dos nossos filhos. Dá que pensar...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Razões para não votar Cavaco Silva - Parte III

A Lei da Exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez
(Lei n.º 16/2007, de 17 de Abril).


É um título horroroso para uma lei: "Exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez". Está escrito assim, de propósito, para não saltar aos olhos o horror de lei que é. Trocado por miúdos, trata-se da Lei do Aborto: da lei que legitima, legaliza, subsidia (e portanto, promove) o aborto "por opção da mulher", ou seja, do aborto sem perguntas. Do aborto porque sim. Do aborto "não tens nada a ver com isso".

Se dúvidas existissem de que a dita lei promove o aborto, bastaria verificar como os números apoiam a conclusão que se poderia fazer pela via do bom senso: no primeiro ano (Julho de 2007 a Junho de 2008) 15.370 abortos "por opção da mulher"; no segundo ano (Julho de 2008 a Junho de 2009) 18.856 abortos "por opção da mulher"; e no terceiro ano de vigência da lei (Julho de 2009 a Junho de 2010) 19.456 abortos "por opção da mulher".
(Fonte: Federação Portuguesa pela Vida)

Em 2007, por altura do referendo, despendi algum tempo e esforço na elaboração de um argumentário contra o pretenso direito a abortar. Esse argumentário ainda se encontra numa secção do lado direito deste blogue, intitulada "Artigos em PDF". Passados estes anos, chego à conclusão de que argumentários deste tipo de pouco valem. E sobretudo porque o outro lado da barricada, onde se encontram os defensores do pretenso direito a abortar, não quer um debate ético e racional sobre o tema "aborto". Eles querem que se possa abortar. Ponto final. Porque querem sexo livre, e às vezes a contracepção falha, e há que abortar. Faz tudo parte de um mesmo esquema maquiavélico: educação sexual para promover a promiscuidade, contracepção para promover a promiscuidade, aborto para resolver as falhas da contracepção. É uma indústria e ao mesmo tempo uma ideologia. Para esta gente, o nosso tempo gasto em argumentários é tempo desperdiçado. Quando muito, os argumentários serão úteis para quem, honestamente, tem dúvidas sobre a matéria. Os defensores do pretenso "direito" ao aborto não têm dúvidas. Muito menos honestas.

Hoje em dia, e passados três anos de aborto livre em Portugal, e sabe-se lá quantas facturas da Yolanda passadas ao Estado Português (que tem que pagar a "clínicas" privadas para que estas o ajudem a matar portugueses), o negócio prospera. Com o aumento evidente do número de casos de aborto, fica patente como o aborto "legal" está longe de ser uma excepção, ou mesmo uma pretensa solução para o aborto clandestino. Além de que abortar é matar um ser humano. E é, realmente, secundário se o matamos clandestinamente ou "legalmente". A subtil distinção tem, mais uma vez, laivos de Terceiro Reich.

Desde a promulgação desta lei criminosa e assassina o aborto aumentou.
Mataram-se, "legalmente", e "por opção da mulher", 53.682 portugueses. Gente que, de outra forma, teria nascido. Gente que já teria hoje direito ao seu moderno "Cartão de Cidadão". Gente que teria um nome. Uma vida.

A única reacção natural, racional, lógica, estruturada, e bem formada a esta lei hedionda é a reacção de nojo. De asco. De repulsa. De vómito. De náusea. Em Portugal, e desde Julho de 2007, mataram-se mais de 50.000 bebés portugueses, quer em hospitais públicos, quer em clínicas privadas subsidiadas pelo Estado Português. Sim, senhor contribuinte, eu e o senhor, com os nossos impostos, ajudámos a matar uma destas crianças. Sim, senhora contribuinte, eu e a senhora, com os nossos impostos, ajudámos a matar uma destas crianças. Uma percentagem pequena do total, este nosso contributo, mas ajudámos ao total...

Felizmente para os "profissionais" da vampiresca indústria do aborto, a maioria destes crimes é perpetrada pela via do aborto químico, algo que deixa um rastro de pequenas dimensões (dada a tenra idade do ser humano em questão), sendo portanto um tipo de crime cujo efeito material é facilmente negligenciado pela sociedade... O pior rastro, esse, fica na consciência da mãe que matou o seu filho.

Cavaco Silva assinou esta monstruosidade a 10 de Abril de 2007. Está lá o nome dele. Só por esta razão, uma pessoa de bem não pode voltar a votar em Cavaco Silva. Mas, infelizmente, há mais razões...

(continua)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Razões para não votar Cavaco Silva - Parte II

A Lei da Procriação Medicamente Assistida
(Lei n.º 32/2006, de 26 de Julho).


Aníbal Cavaco Silva principiou o seu mandato presidencial a 9 de Março de 2006.
Ao ritmo curioso de uma lei revoltantemente imoral por ano, Cavaco Silva promulgou em 2006 a Lei da Procriação Medicamente Assistida, em 2007 a Lei do Aborto, em 2008 a Lei do Divórcio, em 2009 a Lei da Educação Sexual. Em 2010, os Portugueses tiveram direito a dose dupla: a Lei do Casamento Homossexual, e já no final do ano, à laia de festejo de "réveillon", a Lei que regula o Apoio do Estado aos estabelecimentos do ensino particular e cooperativo.

Nesta Segunda Parte, iremos abordar a Lei da Procriação Medicamente Assistida. Esta lei criminosa permite a destruição de seres humanos, mais concretamente, de embriões humanos. No ponto 5.º do Artigo 25.º, que regula o destino dos embriões, diz-se: "5 — Aos embriões que não tiverem possibilidade de ser envolvidos num projecto parental aplica-se o disposto no artigo 9.º". Bom, somos levados a esse magnífico Artigo 9.º, que diz: "3 — O recurso a embriões para investigação científica só pode ser permitido desde que seja razoável esperar que daí possa resultar benefício para a humanidade (...)".

Trocado por miúdos, vale quase tudo no que diz respeito a querer ter filhos: inclusive destruir embriões humanos, caso estes não possam "ser envolvidos num projecto parental". O requinte poético da linguagem do Legislador cai trágico numa lei criminosa e iníqua. Embrião: se ninguém te quiser "envolver" num "projecto paternal", estás tramado. Mas fica descansado: podes ser usado para experiências científicas. Faz lembrar a mítica citação do filme dos Monty Python, The Meaning of Life, na qual um pai de muitos anuncia o seguinte aos seus filhos, que ele não pode sustentar: "I'm afraid I have no choice but to sell you all for scientific experiments." Ao embrião quase a ser desmontado para experiências, a esse ser humano de curta vida e nenhuma voz social, resta o consolo de vir a ser mais um tijolo no nobre edifício da Ciência. Uma ciência estilo Terceiro Reich, é certo, mas ciência todavia!

É o Progresso, pá!

Cavaco Silva assinou assim, com data oficial de 26 de Julho de 2006, a criminosa Lei da Procriação Medicamente Assistida que regula, entre outras coisas edificantes, a forma científica como podem ser "legalmente" destruídos os seres humanos que não se encontrem "envolvidos num projecto paternal". Só por esta razão, uma pessoa de bem não pode voltar a votar em Cavaco Silva. Mas, infelizmente, há mais razões...

(continua)

PS: Há sempre uns engraçadinhos preparados para dizer que um embrião não é um ser humano. Brincam com coisas sérias. Nunca explicam porque é que um aluno do 6º ano arrisca reprovar num teste de Ciências da Natureza (se é que algum aluno ainda reprova) se não souber que a vida humana principia com a fertilização do óvulo humano pelo espermatozóide humano, e ao mesmo tempo, sete vetustos senhores do nobre Tribunal Constitucional alinhavam milhares de linhas para defender a legitimidade do homicídio de seres humanos cujo único azar é a sua pouca idade. Sete em treze juízes (aplaudam-se e respeitem-se os distintos seis juízes que votaram vencidos) invocaram, para se poder matar estes seres humanos, algo belo e erudito como isto: «A reflexão sobre valores numa sociedade democrática, pluralista e de matriz liberal quanto aos direitos fundamentais tem sido objecto privilegiado do pensamento filosófico contemporâneo. Tal reflexão exprime-se na ideia de um “consenso de sobreposição” (overlapping consensus) desenvolvida por JOHN RAWLS, em Political Liberalism, 1993, p. 133 e ss.».
Zigoto humano, embrião humano, feto humano, porque razão dizem eles que te podem matar?
É por causa do Rawls, pá! Vai ler o Rawls, pá!

PPS: O raciocínio ético que leva qualquer cérebro operacional à conclusão de que são seres humanos válidos, quer um zigoto, quer um embrião, quer um feto da espécie Homo Sapiens, é um raciocínio simples e claro. Tão simples que uma criança lúcida (como elas costumam ser) é capaz de o fazer. Eis um dos muitos exemplos de argumento, escrito por mim há uns meses: O estatuto ético do zigoto humano. O raciocínio contrário nem merece ser chamado de raciocínio: a defesa do pretenso "direito" a matar seres humanos inocentes de tenra idade estrutura-se numa prevalência da vontade tirana sobre a razão e a verdade morais. Num utilitarismo unilateral (desprezando-se a negativa utilidade do aborto para o próprio do ser humano abortado), aborta-se porque sim. Porque dá jeito. E se for necessário, para afirmar esse pretenso direito, invocar as glórias da Ciência (como a Lei da Procriação Medicamente Assistida), os louros da Liberdade, ou pura e simplesmente a Mentira, então faça-se!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A agenda anti-vida de Tony Blair


Importantíssimo artigo acerca da agenda anti-vida de Tony Blair, revelada de forma clara no seu recente livro de memórias, "A Journey". Já há muito se sabia que este católico "soi disant" usava o seu recente catolicismo para veicular as suas convicções de sempre:

Tony Blair's Memoirs Reveal Dishonesty Was Dark Heart of His Anti-Life/Anti-Family Rule

A ideia é sempre a mesma: tendo-se tornado um católico de fachada, Tony Blair usa agora a sua força política para tentar distorcer a doutrina católica e forçar a doutrina da Igreja a mudar. É a estratégia do Cavalo de Tróia. Em analogia com a informática, poderíamos dizer que Blair é um vírus "trojan" que se tenta infiltrar nos meios católicos para os envenenar.

Tony Blair é uma farsa. E como muitas farsas com poder, é uma farsa perigosa.

(recebi esta notícia via Infovitae)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Living within the Truth - Arcebispo Chaput (EUA)

É cada vez mais sabido que os EUA estão bem fornecidos de Bispos de categoria. Tenho citado neste blogue vários bons exemplos. Eis mais um texto lúcido e importante do Arcebispo de Denver, Charles Chaput, do qual tomei conhecimento via Infovitae.

Living within the truth: Religious liberty and Catholic mission in the new order of the world

Eis um excerto deste texto poderoso:

«This diagnosis helps us understand one of the foundational injustices in the West today -- the crime of abortion.

I realize that the abortion license is a matter of current law in almost every nation in the West. In some cases, this license reflects the will of the majority and is enforced through legal and democratic means. And I’m aware that many people, even in the Church, find it strange that we Catholics in America still make the sanctity of unborn life so central to our public witness.

Let me tell you why I believe abortion is the crucial issue of our age.

First, because abortion, too, is about living within the truth. The right to life is the foundation of every other human right. If that right is not inviolate, then no right can be guaranteed.

Or to put it more bluntly: Homicide is homicide, no matter how small the victim.

Here’s another truth that many persons in the Church have not yet fully reckoned: The defense of newborn and preborn life has been a central element of Catholic identity since the Apostolic Age.

I’ll say that again: From the earliest days of the Church, to be Catholic has meant refusing in any way to participate in the crime of abortion -- either by seeking an abortion, performing one, or making this crime possible through actions or inactions in the political or judicial realm. More than that, being Catholic has meant crying out against all that offends the sanctity and dignity of life as it has been revealed by Jesus Christ.

The evidence can be found in the earliest documents of Church history. In our day -- when the sanctity of life is threatened not only by abortion, infanticide and euthanasia, but also by embryonic research and eugenic temptations to eliminate the weak, the disabled and the infirm elderly -- this aspect of Catholic identity becomes even more vital to our discipleship.

My point in mentioning abortion is this: Its widespread acceptance in the West shows us that without a grounding in God or a higher truth, our democratic institutions can very easily become weapons against our own human dignity.

Our most cherished values cannot be defended by reason alone, or simply for their own sake. They have no self-sustaining or “internal” justification.

There is no inherently logical or utilitarian reason why society should respect the rights of the human person. There is even less reason for recognizing the rights of those whose lives impose burdens on others, as is the case with the child in the womb, the terminally ill, or the physically or mentally disabled.

If human rights do not come from God, then they devolve to the arbitrary conventions of men and women. The state exists to defend the rights of man and to promote his flourishing. The state can never be the source of those rights. When the state arrogates to itself that power, even a democracy can become totalitarian.

What is legalized abortion but a form of intimate violence that clothes itself in democracy? The will to power of the strong is given the force of law to kill the weak.»

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Inês Pedrosa e as "mulherzinhas"

Num extenso exercício de "non sequiturs", Inês Pedrosa veio em ataque daquelas raras pessoas que, na nossa sociedade, se preocupam e batalham pelo reconhecimento do direito à vida do ser humano em fase de desenvolvimento intra-uterino.

Vejamos: vivemos numa sociedade que mata seres humanos por conveniência. Essa mesma sociedade tolera esses crimes, considera-os legais, financia os ditos crimes, procura coagir os funcionários do sistema de saúde a perpetrá-los abusando da liberdade de consciência, e propagandeia a viva voz que esse crime é "um direito".

Ora nessa sociedade, existe um punhado de lutadores e de lutadoras que gritam "basta" e que batalham por uma sociedade mais justa, com menos crimes. E a Inês Pedrosa, advogando que o tal crime é "direito", combate quem tem razão. Ora, pelas regras inflexíveis da lógica, não pode ter razão quem combate os que têm a razão do seu lado.

Claro que Inês Pedrosa não explica como é que o aborto, esse crime hediondo, é um "direito". Ela assume isso. E claro que, então, todo o seu texto sofre da falácia da petição de princípio: está assente sobre o vazio ético da falta de razões decentes para se legitimar a destruição de seres humanos inocentes.

Vejamos alguns dos aspectos errados do dito artigo:


«Há dias, na televisão, uma senhora de uma associação que se opôs ao direito à interrupção da gravidez fazia o balanço dos três anos da lei nesse astuto tom de luta em prol dos direitos das mulheres.»

Cá está a falácia da petição de princípio. De forma descarada, Inês Pedrosa insere a expressão "opôs ao direito", assumindo que o aborto é um direito. Obviamente não é, pois nenhum crime é direito, mas a autora não explica porque razão considera que matar um ser humano inocente é um direito.

«A ideia que se pretende passar é essa: ser contra a lei que permite a interrupção da gravidez é ser-se feminista. Porquê? Porque, desde que existe a lei, "as mulheres" ficaram mais "sozinhas" e são "obrigadas" a abortar. Quando o médico presente tentava demonstrar a insensatez do argumento, a senhora contra-atacava, repetindo: "Eu estou no terreno, eu oiço as mulheres." Ora, no terreno estamos todos: e ninguém no seu perfeito juízo pode acreditar que um brutamontes qualquer arraste a mulher (ou a filha, ou a amante) pelos cabelos para o centro de saúde - ao contrário do que podia fazer, em total impunidade, quando se tratava de a levar para a abortadeira clandestina.»

Na teatralidade encenada para dar ar de solidez a argumentos vácuos, Inês Pedrosa fala numa hipotética e improvável cena teatral do machista bruto que arrasta as mulheres pelos cabelos para abortar. Claro que ela omite, astuciosamente, os casos frequentes de poderio que oprimem a mulher do nosso tempo. Situações abundantes como a do patrão que diz à sua empregada grávida que ela "tem que resolver o assunto". Inês Pedrosa não conhece esses casos. Então é porque não existem!

«Chamo-lhe delírio, porque as gravidezes interrompidas não deixariam de existir se não houvesse a lei.»

Eis agora a falácia da inevitabilidade do aborto. Abortar é tão inevitável como respirar. Temos que respirar como temos que abortar. Claro está que esta falácia consiste em erradicar alternativas válidas ao aborto. À luz da filosofia da inevitabilidade do aborto, a mulher atrapalhada com uma gravidez indesejada não pode optar por não abortar, e o Estado não pode também optar por financiar as grávidas em dificuldades! O aborto aparece como uma inevitabilidade. Sendo inevitável, tanto como o sol nascer amanhã de novo, há que providenciar então condições para ele ser executado. Mas porque razão seria o aborto inevitável? Inês Pedrosa risca do cenário das possibilidades um Estado que apoie a maternidade, um estado que permita à mulher que é mãe ser mãe. Isso é triste. É desumano. E falacioso.

«A mim, esse crescimento dá-me satisfação: significa que o aborto clandestino está a desaparecer.»

A coisa boa do aborto clandestino, para usufruto de opinadores como Inês Pedrosa, é que é clandestino. Se não há números do aborto clandestino, podemos dizer que o aumento do número de abortos "legais" se deve à redução do clandestino. Pode-se dizer o que se quiser: é clandestino.

«Como é lógico, não basta que a lei entre em vigor para que as mulheres corram para os hospitais. Têm medo de ser vistas.»

Medo. Muito medo. E medo de voltar vezes e vezes seguidas, como indicam as estatísticas de múltiplos abortos por mulher.

«É preciso dar tempo para que as mulheres ganhem confiança no sistema de saúde.»

Exacto: mães, ganhem confiança naqueles que vos destroem os vossos filhos. Confiem nos abortadores. Nada como confiar em pessoas que destroem seres humanos.

«Eu também me lembro. Conheci demasiadas mulheres que perderam a saúde e a vida por abortos miseravelmente feitos.»

Nova falácia: um crime clandestino e medicamente perigoso é coisa má. Mas já um crime "legal" e medicamente perfeito seria coisa boa. Isto está errado. Há que ver que o problema ético do aborto não está nas circunstâncias do acto de abortar. O problema está mesmo no acto de abortar!

«Nenhuma mulher interrompe uma gravidez por ordem de outrem»

Como é que tem tantas certezas? Conhece todas as mulheres? Todos os casos? Frases começadas por "nenhum" ou "nenhuma" são afirmações absolutas. Devem ser usadas com cautela. E os casos de coacção que referi atrás? Não existem? Nenhum? O patrão que ameaça despedimento? O namorado que ameaça ir à sua vida? O pai ou a mãe que ameaçam colocar a adolescente fora de casa?

«O que realmente perturba os controleiros da moral dos outros»

É preciso explicar a Inês Pedrosa que não estamos a falar da moral dos outros! Isto é A MORAL. A moral de todos nós. Se a Inês Pedrosa preferir, estamos a falar da ética de todos nós. Essa coisa pública e de todos. Se matar está mal, se matar não é ético, uma sociedade civilizada não pode tolerar o aborto, entende? Se não avançar com um só argumento a legitimar, eticamente, a destruição deliberada de seres humanos inocentes, então o seu artigo é um vazio argumentativo. É uma interminável lista de "non sequiturs" e de falácias, sustentadas no vazio ético.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O estatuto ético do zigoto humano

Com vista ao enriquecimento do debate ético em torno do estatuto ético do zigoto humano, e na defesa do direito à vida do ser humano deste a sua concepção (fertilização do óvulo pelo espermatozóide) até à morte, apresento do lado direito deste blogue, na secção "Artigos em PDF", um pequeno texto de três páginas intitulado O estatuto ético do zigoto humano.

É um texto curto, que não está preparado para responder a todas as objecções provenientes dos defensores do direito ao aborto em geral. Para responder a essas objecções, já existem, na mesma secção "Artigos em PDF", outros textos extensos e detalhados.

Este novo texto pretende ser uma síntese do direito à vida desde a concepção, centrada no reconhecimento do direito à vida do zigoto humano, e baseada apenas em argumentação racional (científica e filosófica).

O texto pode ser útil para:

a) rebater a má argumentação dos defensores do direito ao aborto

b) rebater a má argumentação dos defensores da legitimidade da destruição de zigotos e embriões humanos

c) rebater todos aqueles que dizem que a defesa do direito à vida desde a concepção é sempre feita com base em argumentação religiosa ou teológica, e que não há argumentos científicos ou filosóficos para sustentar essa posição: como se vê, isso é falso

Como sempre, agradeço aos pacientes leitores deste novo texto toda a sugestão de correcção ou melhoramento que me queiram fazer.

PS: Aqui há tempos, escrevi um texto para rebater a ideia errada de que a defesa do direito à vida desde a concepção implicaria o direito à vida de todo o tipo de célula humana. Aqui fica, por comodidade, o dito texto: Aborto e clonagem.

PS2: Hoje, dia 2 de Julho, actualizei a versão do artigo O estatuto ético do zigoto humano, com pequenas correcções e melhorias na linguagem.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Abortion Blackout

Nova campanha "online" norte-americana: acabar com o flagelo do aborto até 2010.
É possível? Claro que sim. Os EUA já estão em contra-ciclo, pois o aborto como pretenso "direito" está a cair em apoio popular. Os números do flagelo do aborto, nos EUA, falam por si. Só cá em Portugal, e em Espanha, e em mais meia dúzia de países governados por políticos sem ética é que o ciclo está em crescendo a favor do crime de aborto, entendido pelos "progressistas" como um novo "direito" a matar.

O primeiro obstáculo a vencer é o da propaganda das multi-nacionais que enriquecem matando seres humanos, como a International Planned Parenthood Federation.

Quando as pessoas se derem conta da dimensão do genocídio, sentirão aquele salutar arrepio na espinha: é o arrepio da vergonha e da indignação.

Campanhas como esta, baseadas em factos claros e duros, ajudam e muito!

Abortion Blackout

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Young Catholics For Choice

Cá está mais um exemplo de pessoas que brincam com palavras como "católico"...

Milwaukee Archbishop: You Can’t Call Yourself Catholic and Support Contraception

By John-Henry Westen
MILWAUKEE, December 15, 2009 (LifeSiteNews.com) - The incoming Archbishop of Milwaukee, Jerome Listecki, has responded to a campaign by "Young Catholics for Choice" to promote use of contraception and abortion among Catholic youth.

Using media advertising the group is, says the Archbishop-Designate, "attempting to convey the message that Catholics can disregard Church teaching regarding contraception, abortion and human sexuality in general and remain Catholics in good standing." However, "Nothing could be further from the truth."

"While people can call themselves whatever they want, it is my duty as a bishop to state clearly and unequivocally that by professing and disseminating views in grave contradiction to Catholic teaching, members of organizations like 'Young Catholics for Choice' in fact disown their Catholic heritage, tragically distancing themselves from that communion with the Church to which they are called," added the archbishop.

Using language first employed by Catholic dissenters to Humanae Vitae, YCFC calls on Catholics to use an "informed conscience" to decide to use birth control and the morning-after-pill, also called "emergency contraception."

Their ad campaign states: "Young Catholics are having sex. We are using contraception and condoms. We are having abortions. We are bisexual, gay, lesbian, straight and transgender. And none of this makes us any less Catholic than conservative Catholics who speak out against us.

"The truth is, they don't represent what the majority of Catholics - especially those of us in our 20s and 30s - think about sex. It comes down to Catholic teaching on conscience. Basically, every individual has the right and responsibility to follow his or her own conscience - and respect others' right to do the same. With conscience and respect, good Catholic sex is not only possible, it's already happening. "

The group, claiming to be a youth wing of "Catholics for Choice," admits that it's mandate is to "take action to counter the bishops' impact both in the United States and around the world. "

Archbishop Listecki concluded his statement calling for prayers for the YCFC members. "We pray that they may reconcile their position which is contrary to the Catholic Faith they claim to profess."

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Um Bispo colossal

A 29 de Outubro de 2009, o congressista Patrick Kennedy fez a seguinte afirmação:

“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.”

Teve a resposta que merecia do Bispo de Providence, Monsenhor Thomas Tobin:

«Since our recent correspondence has been rather public, I hope you don’t mind if I share a few reflections about your practice of the faith in this public forum. I usually wouldn’t do that – that is speak about someone’s faith in a public setting – but in our well-documented exchange of letters about health care and abortion, it has emerged as an issue. I also share these words publicly with the thought that they might be instructive to other Catholics, including those in prominent positions of leadership.

For the moment I’d like to set aside the discussion of health care reform, as important and relevant as it is, and focus on one statement contained in your letter of October 29, 2009, in which you write, “The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” That sentence certainly caught my attention and deserves a public response, lest it go unchallenged and lead others to believe it’s true. And it raises an important question: What does it mean to be a Catholic?

“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” Well, in fact, Congressman, in a way it does. Although I wouldn’t choose those particular words, when someone rejects the teachings of the Church, especially on a grave matter, a life-and-death issue like abortion, it certainly does diminish their ecclesial communion, their unity with the Church. This principle is based on the Sacred Scripture and Tradition of the Church and is made more explicit in recent documents.

For example, the “Code of Canon Law” says, “Lay persons are bound by an obligation and possess the right to acquire a knowledge of Christian doctrine adapted to their capacity and condition so that they can live in accord with that doctrine.” (Canon 229, #1)

The “Catechism of the Catholic Church” says this: “Mindful of Christ’s words to his apostles, ‘He who hears you, hears me,’ the faithful receive with docility the teaching and directives that their pastors give them in different forms.” (#87)

Or consider this statement of the Church: “It would be a mistake to confuse the proper autonomy exercised by Catholics in political life with the claim of a principle that prescinds from the moral and social teaching of the Church.” (Congregation for the Doctrine of the Faith, 2002)

There’s lots of canonical and theological verbiage there, Congressman, but what it means is that if you don’t accept the teachings of the Church your communion with the Church is flawed, or in your own words, makes you “less of a Catholic.”

But let’s get down to a more practical question; let’s approach it this way: What does it mean, really, to be a Catholic? After all, being a Catholic has to mean something, right?

Well, in simple terms – and here I refer only to those more visible, structural elements of Church membership – being a Catholic means that you’re part of a faith community that possesses a clearly defined authority and doctrine, obligations and expectations. It means that you believe and accept the teachings of the Church, especially on essential matters of faith and morals; that you belong to a local Catholic community, a parish; that you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly; that you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially.

Congressman, I’m not sure whether or not you fulfill the basic requirements of being a Catholic, so let me ask: Do you accept the teachings of the Church on essential matters of faith and morals, including our stance on abortion? Do you belong to a local Catholic community, a parish? Do you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly? Do you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially?

In your letter you say that you “embrace your faith.” Terrific. But if you don’t fulfill the basic requirements of membership, what is it exactly that makes you a Catholic? Your baptism as an infant? Your family ties? Your cultural heritage?

Your letter also says that your faith “acknowledges the existence of an imperfect humanity.” Absolutely true. But in confronting your rejection of the Church’s teaching, we’re not dealing just with “an imperfect humanity” – as we do when we wrestle with sins such as anger, pride, greed, impurity or dishonesty. We all struggle with those things, and often fail.

Your rejection of the Church’s teaching on abortion falls into a different category – it’s a deliberate and obstinate act of the will; a conscious decision that you’ve re-affirmed on many occasions. Sorry, you can’t chalk it up to an “imperfect humanity.” Your position is unacceptable to the Church and scandalous to many of our members. It absolutely diminishes your communion with the Church.

Congressman Kennedy, I write these words not to embarrass you or to judge the state of your conscience or soul. That’s ultimately between you and God. But your description of your relationship with the Church is now a matter of public record, and it needs to be challenged. I invite you, as your bishop and brother in Christ, to enter into a sincere process of discernment, conversion and repentance. It’s not too late for you to repair your relationship with the Church, redeem your public image, and emerge as an authentic “profile in courage,” especially by defending the sanctity of human life for all people, including unborn children. And if I can ever be of assistance as you travel the road of faith, I would be honored and happy to do so.

Sincerely yours,

Thomas J. Tobin

Bishop of Providence»

- Bishop Tobin's Public Letter to Rep. Kennedy

Quem fala assim não é gago.
Em Portugal, há muito político "católico" a precisar de ouvir coisas destas...