É possível ser-se naturalista sem se ser darwinista? É, claro que sim. Aliás, todos os naturalistas, antes de Darwin, forçosamente não eram darwinistas. Mas nos dias que correm é difícil encontrar um naturalista, ou seja, uma pessoa que negue a existência de uma parte sobrenatural (transcendente, imaterial, metafísica, etc.) da realidade, que não seja darwinista.
O sumo-sacerdote do naturalismo darwinista, Richard Dawkins, disse-o de forma contundente: "Although atheism migh have been logically tenable before Darwin, Darwin made it possible to be an intellectually fulfilled atheist" -
The Blind Watchmaker (1986), p. 6.
Assim, Dawkins parece concordar que um naturalista contemporâneo é, para todos os efeitos, e salvo algumas excepções pontuais, um darwinista.
No entanto, o naturalismo darwinista é falso. Não por culpa do darwinismo, mas por culpa do naturalismo. O naturalismo é falso. Ponto final.
(Nota: algum leitor mais distraído poderia pensar que estou a atacar a teoria científica darwinista, ou neodarwinista. Não é, de todo, o caso. Considero que, apesar das fragilidades inerentes a uma teoria científica ainda em construção, a explicação neodarwinista é a melhor explicação científica que temos hoje em dia para a evolução das espécies. O que estou a criticar é o naturalismo darwinista, que é uma filosofia de vida que defende o naturalismo filosófico tentando suportar-se no darwinismo científico)
Porque razão se pode dizer, com confiança, que o naturalismo é falso? Noutros textos apresentei vários exemplos: o naturalismo é auto-refutatório por destruir qualquer conceito consistente de verdade, o naturalismo destrói o conceito de livre arbítrio (torna-o numa ilusão, o que destrói a responsabilização dos actos livres), o naturalismo não sustenta adequadamente a capacidade humana de raciocinar e de compreender a realidade, e assim por diante.
Visto do ponto de vista do naturalismo darwinista, pode-se fazer a seguinte refutação:
(1) Se o naturalismo darwinista é verdadeiro, então a moralidade humana é um produto do neodarwinismo (mutação, cruzamento, selecção natural)
(2) Se a moralidade humana é um produto do neodarwinismo, então não existem factos morais objectivos (verdades morais objectivas)
(3) Existem factos morais objectivos
(4) Logo, o naturalismo darwinista é falso
(Adaptado do capítulo "The Moral Argument", de Mark D. Linville, em "The Blackwell Companion to Natural Theology", p. 394)
Claro que isto é um argumento para refutar o naturalismo darwinista, e não um argumento para refutar o naturalismo como um todo; mas ateus como Dawkins seriam os primeiros a dizer-nos que isto refuta o naturalismo contemporâneo, uma vez que este é, maioritariamente, darwinista.
O naturalista pode contestar. Vai tentá-lo, certamente. Normalmente, procura atacar (3). Mas como o ateu contemporâneo, felizmente, acaba por ser moralista (é contra a homofobia, é contra o terrorismo, é contra o abuso de menores, etc.), ele repudia os relativismos morais "vividos" coerentemente, ou seja numa lógica do "vale tudo". O ateu contemporâneo indigna-se perante a certas injustiças e defende certos direitos humanos. Ele repudia a aplicação do darwinismo à moral humana, ou seja, rejeita a aplicação da lei do mais forte às sociedades humanas. O próprio Dawkins já rejeitou, várias vezes, a aplicação do darwinismo à moral.
Segue-se então o rol de tentativas de construção de uma moral naturalista, pois se é certo que temos que nos comportar de forma moral, a gigantesca tarefa é, para o naturalista que rejeita a vontade de Deus como normativa moral, explicar-nos porque é que nos devemos comportar moralmente. Porque razão, num universo material sujeito ao darwinismo, existiriam "deves" e "haveres"? Surgem então vias de escape para o naturalista: o utilitarismo ou pragmatismo, no qual o bem moral é o que resulta da maximização das vantagens do colectivo, ou o "overlapping consensus" de John Rawls, que pugna por uma ponderação alternada de certos bens morais em conflito, e assim por diante. Tudo formas de procurar defender um "comportamento moral", mesmo na completa ausência de fundamento filosófico para esse comportamento.
A atitude clássica teísta face à moral sempre foi algo do género:
(1) Se existirem verdades morais objectivas, o ser humano deve segui-las
(2) Existem verdades morais objectivas, fundamentadas nos mandamentos de Deus
(3) Logo, o ser humano deve segui-las
Assim, o naturalista tem que encontrar formas de justificar, para o ser humano, um comportamento moral sem correr o risco de entrar nas vielas escuras das verdades morais objectivas, que cheiram sempre a divino. É que, de facto, é complicado explicar que existam deveres morais num universo naturalista, sujeito exclusivamente às leis inexoráveis da matéria.
Uma das atitudes naturalistas mais bizarras consiste na defesa da ideia de "mentira nobre" ("noble lie"), proposta pelo filósofo norte-americano Loyal Rue.
No texto de apresentação do seu livro "By the grace of guile" (Oxford University Press, 1994) encontramos isto:
«The nihilists are right, admits philosopher Loyal Rue. The universe is blind and aimless, indifferent to us and void of meaning. There are no absolute truths and no objective values. There is no right or wrong way to live, only alternative ways. There is no correct reading of a text or a picture or a dance. God is dead, nihilism reigns. But, Rue adds, nihilism is a truth inconsistent with personal happiness and social coherence. What we need instead is a new myth, a noble lie. Only a noble lie can save us from the psychological and social chaos now threatened by the spread of skepticism about the meaning of life and the universe.»
Com todo o respeito pela carreira filosófica do Prof. Rue, esta proposta é patética!
No fundo, Rue advoga que, perante a impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas no naturalismo, e perante a necessidade premente de convencer os seres humanos a se comportarem moralmente em sociedade (para evitar a anarquia e o colapso), o melhor que há a fazer é promover a "nobre mentira": apesar de não existirem verdades morais objectivas, vivamos como se estas existissem!
De certa forma, como diz William Lane Craig (a quem devo esta dica acerca da proposta de Loyal Rue), a "nobre mentira" funcionaria como uma espécie de placebo do intelecto: a "nobre mentira" dá a motivação psicológica de que o naturalista precisa para justificar o seu comportamento moral. Ao escutar isto, pensei imediatamente na louvável iniciativa anti-homeopática de alguns ateus. Algumas das recentes críticas anti-homeopáticas,
como o texto da química Palmira Silva que desmonta a burla do Oscillococcinum, são verdadeiro serviço público. No entanto, não pude deixar de pensar que atitudes desesperadas como as de Loyal Rue acabam por ser uma espécie de homeopatia intelectual.
E, vendo bem, apesar de o caso de Rue ser mais gritante, todas as tentativas ateias ou naturalistas de localizar o fundamento filosófico para o comportamento moral do ser humano são tentativas baseadas em "nobres mentiras", mesmo que os seus defensores nem sempre o admitam. A razão é simples: o conceito de "dever" não tem sustento na cosmovisão naturalista. Bem podem procurá-lo no naturalismo. É bizarro falar dos "deveres" de uma máquina biológica evoluída, que é como o naturalista vê o ser humano. A alternativa para o naturalista, face à impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas na sua visão redutora da realidade, consiste em adoptar "nobres mentiras".
É viver na ilusão de que existiriam verdades morais objectivas. A necessidade premente de viver em sociedade força-nos a procurar viver moralmente. Mas, à falta de verdades morais objectivas, cai-se num utilitarismo moral. O certo já não existe em si mesmo, como verdade moral objectiva. O errado também não. Tudo depende do contexto, da maximização da felicidade, ou dos interesses, do colectivo. Isso leva a coisas bizarras como a defesa do direito a matar crianças não nascidas, que como sabemos, no nosso país, surgiu pela aplicação prática das teorias de John Rawls no acórdão do Tribunal Constitucional que legitimou o referendo de 7 de Fevereiro de 2007. Essa é uma das conclusões lógicas de quem já não acredita em verdades morais objectivas. O colectivo vota o direito ao aborto, numa tentativa de conciliar os interesses da mãe (prioritários até certa fase de gestação) com os interesses da criança (prioritários depois de certa fase da gestação) e isso cria a "nobre mentira" de que é moral abortar até certa fase da gestação. É o Rawls em acção.
Tal como a opção pelos produtos homeopáticos, em detrimento dos medicamentos reais, pode colocar a saúde das pessoas em risco, também a opção pelo naturalismo pode ser vista como homeopática: está fundamentada no vazio moral (na ausência de verdades morais objectivas) e coloca riscos reais para a saúde das pessoas. Que o digam as crianças abortadas!
PS: Antecipando as críticas que aí vêm, afirmo desde já:
Não afirmei, de modo algum, que o ateu ou o naturalista não se comportam moralmente: aliás, fiz questão de dizer que muitos ateus ou naturalistas promovem certos comportamentos morais, e defendem certos direitos e deveres morais; por isso, é verdade que um ateu ou um naturalista podem viver vidas morais; a questão que critico é: no quadro do naturalismo, qual é o fundamento filosófico para esse comportamento?