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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A última fronteira...

... para o sinistro, perdão, ministro Correia de Campos está no Código Deontológico dos Médicos, mais concretamente no artigo n.º 47 do mesmo, que considera e bem que a prática de aborto por parte de um médico é uma "falha grave". Faz todo o sentido. Qualquer aluno de Medicina sabe a razão pela qual está a estudar: para salvar e não para matar. Daí a "falha grave". Elementar...

Mas já falta pouco para a hegemonia do aborto, para a vitória da sanha anti-ética do nosso Ministro da Saúde, que ficará na história de Portugal como uma figura de triste memória.

Mais cedo ou mais tarde (eu apostaria mais tarde), quando os excessos anti-éticos se tornarem mais notórios (podemos vê-los já aqui ao lado, em Madrid, mas mais vale calar estas coisas para não melindrarem os amigos do aborto), quando o país arregalar os olhos e olhar de frente para a miséria do crime do aborto, pode ser que a Ética volte a ser o que era no nosso país.

Por enquanto, estamos bem longe disso: no que diz respeito a experiências pseudo-éticas no campo do aborto livre, Portugal ainda é jovem, ainda tem muito para testar e ensaiar em termos ideológicos. Só agora estamos a viver o nosso "Roe vs. Wade", trinta anos depois dos americanos, e caramba, temos direito a isso! Não é, senhor ministro?

Assim, Correia de Campos sabe bem que só falta uma coisa depois de enganada a opinião pública no último referendo. Convencer o português a votar "SIM" ao aborto foi fácil. Mesmo com imensa abstenção, a propaganda funcionou perfeitamente. Com enorme tranquilidade, a reboque de uma pretensa eliminação da penalização do aborto, ei-lo agora legalizado e liberalizado.

O aparato está montado. Numa boa. As mortes já são conduzidas nas melhores condições de higiene e de tranquilidade. Apoio psicológico, ar perfumado, luz ambiente suave, lençóis lavados, até existirá música "new age" relaxante. Matar já não custa. O Estado até subsidia a "cura" para este novo tipo de doença chamado "gravidez".

Mas ainda falta uma coisinha na mente maquiavélica de Correia de Campos: aqueles chatos dos médicos, que passam quase uma década a instruirem-se para salvar vidas humanas. E não é bem chato ter que convencer um profissional da saúde a matar pessoas em vez de as salvar? É complicada a argumentação. Aquela maçada da "objecção de consciência" não vem nada a calhar, sobretudo quando o Código Deontológico ainda insiste na "falha grave" do aborto...

Para alcançar o "paraíso abortivo Correia de Campos", há que transformar os médicos objectores numa minoria de fanáticos ultra-conservadores. E só há uma forma de o conseguir: mudar a ética. Mudar o Código.

O leitor mais atento interroga-se:

"mas faz sentido que a lei condicione a ética?"

Não, não faz.

"não deveria ser ao contrário?"

Pois deveria.
Há leis que não são éticas (como a actual lei do aborto). Como algumas leis raciais e eugénicas do Terceiro Reich, que eram leis "legais" (passe o pleonasmo) e nada éticas.
O que é ético, por sua vez, deve ser legal.
Já o que não é ético pode ou não ser ilegal, dependendo do contexto e da gravidade.

Um exemplo simples: mentir não é ético. Todos concordamos.
Se eu mentir num café, numa conversa de amigos, inflamando os meus dotes de pescador, isso não é ético, mas é perfeitamente legal.
Se eu mentir num Tribunal, continua a não ser ético, mas lá se vai o legal.

Mas o ético está lá, sempre a servir de referência. Mentir é feio. E o povo entende bem isto, porque é brutalmente simples. Não é preciso ter um curso de Filosofia ou de Ética Aplicada para entender que mentir é feio. Como matar é feio. Não é ético aquilo que não se deve fazer. Abortar é algo que não se deve fazer. Porque é matar. Não é ético. Ponto final.
Já ser legal ou não depende da lei, dos desvarios dos políticos, e da eficácia da sua propaganda ideológica junto das massas votantes.

O que Correia de Campos quer, e vai conseguir, é alterar o certo ou errado na deontologia médica graças à nova lei. Ou seja, a partir da vitória da sua lei iníqua abortiva, o senhor ministro quer transformar o errado (abortar) em certo. Porque mudar um Código Deontológico é, afinal, mexer no certo e no errado. Deturpar a ética dos médicos é a última fronteira para se estabelecer a hegemonia abortista de Correia de Campos.

Poderíamos discorrer sobre o "quero, posso e mando" do senhor ministro. Sobre o seu autoritarismo e prepotência.
Poderíamos interrogar-nos se tais impulsos ideológicos não serão manifestações tardias de alguns fantasmas gonçalvistas à solta no escuro armário da sua psique.

Mas a melhor interrogação é esta: que raio faz um ministro, um político, a tentar mexer no Código Deontológico de uma classe eminentemente técnica e competente com a dos médicos?

E não parece uma suprema estupidez querer mudar, por razões políticas, uma deontologia mais de duas vezes milenar, que remonta a Hipócrates, que já advogava que o médico não serve para matar mas sim para preservar o vivos?

De facto é uma suprema estupidez. Correia de Campos quer agora corrigir Hipócrates. Afinal, sinais dos tempos! É o progresso! O certo passa a errado e o errado passa a certo! Já não é o certo e o errado que definem aquilo que é legal ou não. Já não é a Lei que emana da Ética, mas sim a Ética que passa agora a ser escrava da Lei.

Enfim, o clássico caminho satânico da tirania e do mal puro, essa estrada que tantos políticos ainda insistem em trilhar, como flautistas a encaminhar uma imensa sociedade indiferente ou confusa em direcção ao abismo...

E para quem ainda deposita esperanças em Pedro Nunes, no actual bastonário da Ordem dos Médicos, é melhor não investir muito nelas. Infelizmente, Pedro Nunes, opondo-se a Correia de Campos, não está numa sólida posição ética: opõe-se à alteração do código deontológico, mas dá uma má razão, ao afirmar que os médicos não estão contra o aborto, apenas querem alguma liberdade de objecção de consciência. Ao usar este tipo de argumentação, Pedro Nunes não parte de uma posição eticamente sólida. Logo, vai ser derrotado. E, nas próximas eleições para a Ordem, já parte em desvantagem. É o único dos três candidatos que se opõe à alteração.

Os outros dois candidatos também faltaram às aulas de Ética: Miguel Leão, perante o choque entre o Código Deontológico e a Lei do Aborto já decidiu qual vai ter que ir à vida. O Código, claro:

"Face à questão jurídica, o código deontológico deve ser revisto porque vai ao arrepio da legislação. E eu estou à-vontade, porque votei `não` no referendo", declarou à agência Lusa o candidato às eleições de 12 de Dezembro Miguel Leão.
"Não quer dizer que a Ordem não possa ter recomendações éticas que sejam contrárias à legislação do país, mas defendo que há uma contradição que deve ser resolvida", considerou.


Ainda bem que Miguel Leão está "à vontade". No bom espírito relativista, Miguel Leão lavou as suas mãos ao votar "Não" e não tem qualquer preocupação com as chatices do "certo" e do "errado": isso de debater o certo ou errado do aborto só dá amargos de boca. Mais vale alterar o artigozito que chateia o ministro! Bravo...

Vejamos o outro candidato, Carlos Santos, que também não entende que a Ética vem antes da Lei:

Também o candidato Carlos Santos considera que "o código deontológico da Ordem dos Médicos tem de respeitar a legislação actual", ao mesmo tempo que defende que podem haver recomendações éticas "para o caso de os profissionais não quererem realizar determinada intervenção".


Este caso é mais chocante: Carlos Santos chegou à idade adulta, com formação universitária numa das áreas mais exigentes em termos intelectuais, sem que lhe explicassem que a Ética precede a Lei!

Com estes "opositores", Correia de Campos tem razões de sobra para sorrir...

sábado, 25 de agosto de 2007

Verde miséria

O desregulamento intelectual das sociedades modernas traz ao de cima, como um dos seus mais preocupantes sintomas, a multiplicação dos paradoxos morais.
Recentemente, um bando de indigentes "ecoterroristas", que usam uma fachada de pseudo-ecologia para entrar em acções agressivas, subversivas e anárquicas, destruiu parte de uma plantação de milho transgénico.
Chamar este acto analfabeto de "activismo ecológico", não passa, certamente, de um "verde" eufemismo...

O assunto foi noticiado ad nauseam pela Imprensa, ao ponto de se tornar irrelevante discutir os detalhes. Sobretudo, é precoce discutir o facto de a polícia pouco ou nada ter feito, e de os nossos "ecoterroristas" não terem sido sancionados ou obrigados a pagar os estragos físicos e psicológicos, porque o problema encontra-se mais a montante.

Quer se queira, quer não, tornou-se socialmente aceitável usar da violência em nome de certas causas "politicamente correctas" como a ecologia, a protecção dos animais, ou mesmo essa vaga e intelectualmente confrangedora luta contra o "G-8".

Os nossos políticos, independentemente do seu quadrante (sendo certamente mais presentes na extrema esquerda a tendência para a apologia e mesmo patrocínio deste tipo de violência), começam a pouco e pouco a aceitar certos actos de violência como parte da liberdade de expressão.

Queimar viaturas passa a ter uma causa justa: a opressão económica do G-8 sobre o Mundo!
Conspurcar e vandalizar praças de toiros passa a ter uma causa justa: defender o pobre toiro da violência humana.
Destruir colheitas passa a ter uma causa justa: lutar contra os alimentos geneticamente modificados (independentemente do gene que é modificado, até porque tal gente não sabe bem o que é isso de genética).

Contudo, os mesmos activistas, apostando numa versão invertida e perversa de "causa justa", distorcem o real significado do que é uma luta por uma causa justa.

A ética mais justa e universal considera que é justo lutar (usar da violência) em auto-defesa, ou em defesa daqueles que temos à nossa responsabilidade.

Acima de todos os direitos está o direito à vida. Quando certos activistas anti-aborto atacam os matadouros onde se pratica o aborto "legal", os mesmos defensores da violência contra o milho transgénico ou da violência contra as praças de touros, indignam-se perante actos que, segundo eles, atentam contra direitos da mulher. Chegam a chamar de fanáticos aqueles que atentam contra tais "clínicas".

Estranha distorção de conceitos...
É certamente ilegítimo matar um "médico" abortista, mesmo que durante a prática do seu vil acto, se existir uma alternativa não cruenta. Contudo, é eticamente discutível se será assim tão errado tentar impedir um aborto provocando estragos materiais, sem atentar contra a vida de ninguém.

Destruir material médico, ou partir vidros de uma clínica, como estratégia para evitar a morte de um feto humano parece-me algo que dificilmente poderá ser visto como não ético, a não ser numa nova forma "moderna" de ética que dá mais valor ético aos vidros e aos aparelhos médicos do que ao ser humano.

Mas a essência desta minha interrogação está aqui: que raio de perversão intelectual viverá na mente daqueles activistas (e respectivos protectores políticos) que usam da violência para defender o milho natural e os toiros, mas que não se sentem minimamente apiedados pela vida humana fetal ou embrionária?

Aos olhos de certos políticos da esquerda radical (mas a doença também se alastra para a direita), faz parte da moderna "kulturkampf" valorizar mais a vida animal ou vegetal do que a humana... A verdade é que a corrente utilitarista, que hoje em dia campeia no estudo da Ética, com prejuízo para a clássica ética deontológica, tem cumprido a sua função de dissolução da hierarquia de valores.

O ser humano moderno, viciado numa falsa intelectualidade, perdido na árdua batalha quotidiana para conseguir hierarquizar minimamente os seus valores éticos, está agora a ser convencido pela ética utilitarista moderna a abdicar totalmente desses mesmos valores, que são vistos pelos "novos pensantes" como algo semelhante a fósseis de uma antiga religiosidade caduca, que urge extinguir em nome do dogma do "Progresso".

quarta-feira, 18 de julho de 2007

A eficiência das fábricas da morte

Artigo 17.o
Resíduos hospitalares
Os estabelecimentos de saúde onde se realize a interrupção
cirúrgica da gravidez devem assegurar, por si
ou com recurso a serviços de terceiros, a organização
e gestão global dos resíduos sólidos hospitalares.


Isto está mesmo bem pensado.
Os "resíduos hospitalares", expressão tecnicista para "pirralhos destruídos e arrancados da barriga da mãe", devem ser "organizados" e "geridos" pelo "estabelecimento de saúde". Note-se a sofisticação da linguagem e a aparência de ciência e de técnica usada para tentar esconder a perfídia. "Organizam-se" seres humanos abortados. "Gerem-se" cadáveres. Aposto que o saudoso Dr. Adolf Eichmann, SS Obersturmbannführer do Terceiro Reich, também tinha prevista uma cláusula destas para que cada Campo de Concentração se encarregasse da organização e gestão global dos resíduos sólidos que gerasse...

Estalinismo médico

ANEXO V
Certificado de comprovação do tempo de gestação
(previsto no artigo 17.º—a integrar o processo clínico)
Estabelecimento de saúde
A preencher antes da intervenção
Eu ______________________________________________________(em maiúsculas),
observei a Sra. ______________________________________________________, com
o Processo clínico n.º __________________, e atesto, de acordo com ecografia realizada
a ___/___/______, que a gravidez, nesta data, não excede as 10 semanas de gestação.
Etiqueta identificativa do médico/a
Assinatura
Data ________/____/____


Note-se a frieza científica da palavra "intervenção". Kafka não escreveria melhor.
Só falta um toque de sofisticação. Antes da assinatura do médico, a comprovar que o pirralho não cumpre a idade mínima para poder viver, deveriam constar as palavras "Mate-se", após as quais, o médico abortista poderia então assinar alegremente, antes de dar largas à sua fruição infanticida.

O ódio aos médicos e à Ética

O actual ministro (melhor seria dizer "sinistro") Correia de Campos, na sua imparável campanha de ódio contra os médicos e sanha anti-ética, mereceu ontem uma esclarecida carta aberta do Prof. Gentil Martins no Público. Foi graças a esta carta aberta que me dei conta do que a seguir vou comentar.

Um dos maiores problemas com a nova lei do aborto, como esperado, é o obstáculo da ética médica, o grande problema que constitui, para um médico competente e responsável, o atropelo ético desta nova lei.

Até hoje, os médicos, na sua formatura, juram defender a vida humana desde o seu início, algo pouco compatível com esta nova "opção" da mulher em matar a vida no seu seio.

No entanto, as leis vão saindo, e as portarias também. As coisas acontecem demasiado depressa, para que o país não tenha tempo para pensar. Se queremos ver mesmo o ódio do ministro aos médicos, na sua plena expressão, nada como dar uma olhada à Portaria n.º 741-A/2007.

Nela se encontra, entre outras coisas horrorosas, o triste "Anexo III", com o formulário que o médico objector de consciência deverá preencher:

«Tenho conhecimento da minha obrigação de prestar a assistência necessária às mulheres cuja saúde esteja comprometida ou em risco, em situações decorrentes da interrupção da gravidez.»

O que aqui se pergunta é se o médico vai dar assistência médica a mulheres que venham a sofrer de complicações pós-aborto. Estranho pedido, visto que isso é que é ser médico: assistir pessoas com problemas de saúde, sejam eles quais forem. Não se pergunta a um médico se ele quer assistir um homicida ou a vítima de um suicídio falhado. Por muito que o próprio médico não seja homicida, e repudie o suicídio, não deixará de assistir a vítima. Do mesmo modo, não passa pela cabeça, a não ser como estratégia de humilhação, obrigar o médico objector a afirmar que tem conhecimento da mais elementar responsabilidade médica.

«Tenho conhecimento da minha obrigação de encaminhar as mulheres grávidas que solicitem a interrupção da gravidez para os serviços competentes, dentro dos prazos legais.»

Esta frase, por sua vez, é pura e dura tirania. É violação da objecção de consciência. É obrigar o médico que não quer abortar porque vê o aborto como um mal anti-humanitário, a pedir-lhe que colabore nesse mal, encaminhando a mulher para o carniceiro de serviço. Esta frase, por si só, atropela o direito constitucional à objecção de consciência. Se eu fosse médico, nunca concordaria com tal coisa. Esta obrigação é artificial, porque desprovida de direito. É uma tirania.

«Tenho conhecimento de que me encontro impossibilitado de participar na consulta prévia e no acompanhamento das mulheres grávidas durante o período de reflexão.»

Finalmente, em tirada de mestre, o atestado de incompetência profissional do médico objector, assinado pelo mesmo. Aqui se obriga o médico a reconhecer-se profissionalmente incapaz para acompanhar uma mulher grávida, não vá dar-se a possibilidade deste médico objector vir a convencer a mulher (ah, malvada opressão aos direitos da mulher!), e do pirralho vir a nascer!

A lata, a desfaçatez, a falta de pudor, a podridão ética, tudo isto tem um nome: Correia de Campos!

terça-feira, 12 de junho de 2007

Os números do "progresso"

Perante um relatório como o agora publicado pelo madrileno Instituto de Política Familiar, torna-se difícil ver os sinais de progresso resultantes das políticas anti-família defendidas pelo Parlamento Europeu e por tantos estados membros, entre os quais Portugal, que deu recentemente ao Mundo os seus sinais de "progressismo" com a liberalização do acesso ao aborto.

Segundo as estatísticas do relatório (ver pág. 18), em média, a cada 25 segundos, é abortada uma criança no espaço europeu (EU-27). Algo como 141 abortos por hora. Mas as restantes estatísticas não são menos alarmantes, como nos dá conta Samantha Singson, do C-FAM:

"According to the report, a child is aborted every 25 seconds, a rate that far exceeds any other external cause of death in Europe including traffic accidents, AIDS and suicide. The number of marriages has declined by 22.3% since 1980. Divorce rates are skyrocketing with one occurring every 30 seconds. One out of every three babies born in the EU is born out of wedlock. The report also underscores the changing face of Europe with a modest population growth rate that is attributable almost exclusively to immigration, an increasing aging population and a dwindling number of youth under the age of 14.", in European Parliament Urged to Support the Traditional Family.

Será isto o progresso?
Um aborto a cada 25 segundos?
Um divórcio a cada 30 segundos?
Deve ser...

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Paradoxos do aborto

Recentemente, foi noticiado que aproximadamente 75% dos profissionais a trabalhar no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, irão inscrever-se como objectores de consciência, recusando praticar o aborto a pedido.

Faz todo o sentido.
São pessoas com formação superior na área de Medicina, pessoas cientificamente elucidadas acerca do significado científico e ético de abortar: é perfeitamente normal que a esmagadora maioria dos profissionais desta instituição se recusem a matar seres humanos a pedido.

Seria desejável que os mesmos conhecimentos (se não científicos, pelo menos éticos) tivessem estado disponíveis à populaça ignorante que votou no passado referendo, evitando-se assim o resultado intelectualmente (e eticamente) desastroso.

Mas parece-me interessante notar aqui um paradoxo. Apesar de eu partilhar da ideia de que o ser humano tem uma tendência inata para o mal e para a asneira, a verdade é que o fenómeno homicida é minoritário na nossa espécie. Não é normal a tendência homicida, e quando ela se manifesta, é sempre em poucos elementos da nossa espécie.

A percentagem elevada de objectores de consciência denota uma tendência inata que temos para a protecção dos nossos, para a recusa terminante em dar a morte a um ser da nossa espécie. Contudo, uns bons 25% de médicos não têm quaisquer reservas éticas: atropelando o Juramento de Hipócrates, que hipocritamente proclamaram a viva voz no dia da sua graduação (talvez apenas para satisfazer o folcore ou "espírito de grupo"), irão sem quaisquer problemas executar diligentemente os abortos que lhes forem pedidos.

O Milfepristone já vem a caminho, juntamente com as belas máquinas de aspirar. O primeiro mata o embrião, fazendo com que este seja expelido para fora do útero. O segundo é mais intuitivo: trata-se de uma potente máquina de sucção, que arranca o embrião das vísceras maternas. Uma beleza, a técnica...
Os nossos governantes congratulam-se com a "limpeza" das modernas técnicas abortivas: de tal forma que não se preocupam minimamente com os objectores! Porque bastará um "médico" abortadeiro determinado para, munido destas belas ferramentas, "despachar" dezenas de embriões por dia. Note-se o fascínio triturador destes políticos modernos pelas comodidades da técnica, como eles são subjugados pelo poder esmagador do número e da máquina: um só abortador vale por centenas de objectores de consciência!

Mas ponho-me a pensar... Se não é frequente que nasçam homicidas, como justificar a elevada percentagem (ainda assim, 25%!) de médicos sem ética, que incluem o verbo "matar" no seu léxico profissional? Sou da opinião de que grassa, entre eles, um erro intelectual que pode explicar este fenómeno sem igual.

É, aliás, o mesmo fenómeno que explica a vitória do "sim" ao aborto livre. As pessoas não vêem problema ético na coisa. As pessoas não vêem o aborto como matar. Contudo, os mais acérrimos defensores da eticidade do aborto sabem que se mata alguma coisa. Por isso, ainda há aquelas mentes esclarecidas que sabem que se mata com o aborto, mas segundo eles, mata-se uma "coisa" não humana.

De novo, miopia intelectual. Já são aos milhares, aqueles que dizem que só nos tornamos humanos com o desenvolvimento cerebral. Não têm dúvidas de que, mesmo num adulto sem um rim, se está perante um ser humano. Não têm dúvidas de que, mesmo numa criança cujo coração foi transplantado, se está perante um ser humano (mesmo naquela fase da operação na qual o peito da criança está sem esse órgão). Contudo, para eles, o cérebro é o órgão decisivo: aquela peça de tecido esponjoso do "tudo ou nada". Tens, és humano. Não tens, és lixo orgânico.

Somos humanos desde a fertilização. A partir desse instante, não ganhamos nada de geneticamente relevante. Se não somos humanos enquanto ovo, como nos poderíamos tornar num?

O aborto, como fenómeno sociológico, permanece para mim injustificável, inexplicável. Como pudemos descer tão baixo?

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Tratamento voluntário da gravidez

Já está.
Basta ir ao Público, à secção dos Classificados, à página 32:

CLÍNICA DOS ARCOS
Tratamento Voluntário da Gravidez
(...)


Note-se o uso cínico do termo "clínica", como se naquele estabelecimento se praticassem actos clínicos. Depois, temos o belíssimo eufemismo: "tratamento voluntário da gravidez". À laia de "venha cá, que damos conta do assunto!".
Que belo tratamento...

Contraste total: na página 31 da mesma secção, encontramos:

Diz não ao «tratamento voluntário da gravidez» porque juntos encontramos a esperança.
800 20 80 90
Ponto de Apoio à Vida


As diferenças são enormes.
A «Clínica» dos Arcos vende serviços de morte.
O Ponto de Apoio à Vida oferece ajuda à vida.
De um lado: a morte vendida...
Do outro: a vida oferecida!
Cada qual que julgue por si mesmo quem tem a razão do seu lado.

A verdadeira ajuda que qualquer mulher grávida necessita é que a apoiem na gravidez e nos primeiros meses de idade do seu filho. Matar o filho de alguém não é ajudar coisíssima nenhuma. A sociedade portuguesa ainda não entendeu isto. Mas lá irá, com o tempo...

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Promulgação da lei do aborto - Parte II: o problema religioso

Assim, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste pão e beba deste vinho; pois aquele que come e bebe, sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação.
- 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios, 11, 27-29.

Quando encontramos um texto que consegue verter de forma clara e límpida as ideias que não conseguimos transmitir por palavras próprias sem ser de forma confusa, não vale a pena insistir. Citamos o texto na íntegra e passamos adiante!

Com um grande agradecimento aos autores, aqui citamos, na íntegra, o seu artigo:

Referendo do Aborto, Cânone 915 e Comunhão Eucarística

por Gonçalo Gomes Figueiredo e Nuno Serras Pereira
In Alameda Digital - Ano I - Nº 7, Março/Abril de 2007 -
http://www.alamedadigital.com.pt/n7/aborto_canone_915.php

Explicado magistralmente o valor e a origem do sacramento da Eucaristia como Dom de Deus celebrado na Nova Aliança do Sangue de Cristo Filho de Deus (I parte, números 6 a 15 da Exortação Apostólica, O Sacramento do Amor, do Papa Bento XVI), o Santo Padre reflecte nas consequências lógicas para a vida daqueles que celebram esse Mistério admirável da fé. Como Mistério de Comunhão, a Eucaristia diz respeito à comunhão intra-trinitária das Pessoas Divinas, à comunhão do crente com Cristo, de Cristo com a Igreja, e dos cristãos entre si. Donde introduzir qualquer divisão nestas relações é diminuir gravemente o valor da Eucaristia. Comungar as espécies eucarísticas é comungar com a Pessoa de Cristo e com a Igreja “Em comunhão com toda a Igreja” ou como afirma o Papa “um olhar contemplativo para «Aquele que trespassaram» (Jo. 19, 37) leva-nos a considerar a ligação causal entre o sacrifício de Cristo, a Eucaristia e a Igreja” (n.º 14), a sugestiva circularidade, entre a Eucaristia que edifica a Igreja e a própria Igreja que faz a Eucaristia, “um influxo causal da Eucaristia nas próprias origens da Igreja” (João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, 1).

Este dado, confirmado pela Tradição, reforça a consciência da indissolubilidade entre Cristo e a Igreja. “A unicidade e indivisibilidade do Corpo Eucarístico do Senhor implicam a unicidade do seu corpo místico, que é a Igreja una e indivisível” (Congr. para a Doutrina da Fé, Carta sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão Communionis notio (28 de Maio de 1992), 11). Donde se conclui que a Eucaristia estabelece objectivamente um forte vinculo de unidade entre a Igreja Católica.

Os baptizados, configurados com Cristo, incorporados na Igreja e feitos filhos de Deus, só podem celebrar a Eucaristia em Comunhão com a Igreja, o que quer dizer “em comunhão com o vosso servo o Papa, o nosso Bispo, e todos os Bispos que são fiéis à verdade e professam a fé católica e apostólica” (Missal Romano, Oração Eucarística I). Esta comunhão não é meramente afectiva, mas reclama a adesão da inteligência da fé a toda a doutrina da Igreja, no assumir de todas as verdades da fé.

“O mistério «acreditado» e «celebrado» possui em si mesmo um tal dinamismo, que faz dele princípio de vida nova em nós e forma da existência cristã” (Bento XVI, Sacramentum Caritatis [O Sacramento do Amor], 70) ao ponto de não ser já “o alimento eucarístico que se transforma em nós, mas somos nós que acabamos misteriosamente mudados por ele”. A exigência da conversão face à Eucaristia é uma evidência: “o sacrifício — sacrum facere, «tornar sagrado» — exprime aqui toda a densidade existencial que está implicada na transformação da nossa realidade humana alcançada por Cristo (Fil 3, 12)” (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 70).

Em cada momento da sua vida o cristão é desafiado a manifestar a concretização do mistério Eucarístico, configurando as suas opções com o que celebra, oferecendo assim um culto agradável a Deus na encarnação do homem novo. Sublinha-se a evidência da ligação entre a realidade eucarística e a vida cristã no seu dia-a-dia, a devoção eucarística abraça a vida inteira. E a Eucaristia torna-se o critério de valorização de tudo o que o cristão encontra nas diversas expressões culturais.

“Descoberta a beleza da forma eucarística da existência cristã, somos levados a reflectir também sobre as energias morais que, por tal forma, se desencadeiam em apoio da liberdade autêntica e própria dos filhos de Deus... Este apelo ao valor moral do culto espiritual não deve ser interpretado em chave moralista; é, antes de mais, a descoberta feliz do dinamismo do amor no coração de quem acolhe o dom do Senhor, abandona-se a Ele e encontra a verdadeira liberdade. A transformação moral, que o novo culto instituído por Cristo implica, é uma tensão e um anseio profundo de querer corresponder ao amor do Senhor com todo o próprio ser, embora conscientes da própria fragilidade.” (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 82)

Os padres sinodais tinham-se dado conta da discrepância entre a vida sacramental e moral como grave dano para a santidade da Eucaristia e prejuízo para a unidade da Igreja e consequente afastamento da santidade dos fiéis: “Não poucas respostas aos Lineamenta insistem no sentido pessoal e eclesial da Eucaristia em relação à vida moral, à santidade e à missão no mundo. A presença e acção permanentes do Espírito Santo, dom do Senhor ressuscitado, recebido através da Comunhão, são fonte do dinamismo da vida espiritual, da santidade e do testemunho dos fiéis.

Portanto, a Eucaristia e a vida moral são inseparáveis, já porque, alimentando-se do santo Sacramento, se obtém a transformação interior, já porque a Eucaristia leva o homem renascido no Baptismo a uma vida segundo o Espírito, uma nova vida moral, que não é segundo a carne. A Eucaristia reforça verdadeiramente o sentido cristão da vida, enquanto a sua celebração é um serviço a Deus e aos irmãos e leva a um testemunho dos valores evangélicos no mundo. Assim, as três dimensões da vida cristã, liturgia - martyria - diakonia, exprimem a continuidade entre o Sacramento celebrado e adorado, o empenho de testemunhar Cristo no meio das realidades temporais e a comunhão construída através do serviço da caridade, sobretudo em favor dos pobres... Diversas respostas insistiram na relação entre Eucaristia e vida moral, evidenciando uma notável tomada de consciência da importância do empenho moral derivado da comunhão eucarística. Não faltam referências ao facto de demasiados fiéis se abeirarem do Sacramento sem reflectir suficientemente sobre a moralidade da sua vida.

Há quem receba a Comunhão mesmo negando a doutrina da Igreja ou dando público apoio a opções imorais, como o aborto, sem pensar que estão cometendo actos de grave desonestidade pessoal e dando escândalo. Existem, de facto, católicos que não compreendem porque seja pecado grave apoiar politicamente um candidato abertamente favorável ao aborto ou a outros actos graves contra a vida, a justiça e a paz. Desse comportamento deduz-se, entre o mais, que o sentido de pertença à Igreja está em crise e que não é clara a distinção entre pecado venial e pecado mortal... É frequente separar as exigências específicas da vida moral da função da Igreja como mestra de vida, pensando que os ensinamentos desta tenham de passar pelo filtro da consciência individual... Insiste-se no dever dos fiéis de procurar a verdade e de formar uma consciência recta...

As respostas aos Lineamenta dão sugestões para superar a dicotomia entre o ensinamento da Igreja e o comportamento moral dos fiéis. Assinala-se, antes de mais, a conveniência de dar mais ênfase à necessidade da santificação e conversão pessoais e de insistir ainda mais na unidade entre o ensinamento da Igreja e a vida moral. Além disso, os fiéis deverão ser constantemente encorajados a se capacitar de que a Eucaristia é a fonte da força moral, da santidade e de todo o progresso espiritual. Por fim, considera-se de importância fundamental sublinhar na catequese a ligação entre a Eucaristia e a construção de uma sociedade justa, através da responsabilidade pessoal de cada um de participar activamente na missão da Igreja no mundo. Nesse sentido, especial responsabilidade cabe aos católicos que ocupam lugares de destaque na política e nas várias actividades sociais.” (Sínodo das Bispos, Instrumentum laboris, 72-74).

Estas preocupações e constatações dos Padres Sinodais foram magistralmente resumidas e assumidas pelo Santo Padre quando afirma: “o culto agradável a Deus nunca é um acto meramente privado, sem consequências nas nossas relações sociais: requer o testemunho público da própria fé. Evidentemente isto vale para todos os baptizados, mas impõe-se com particular premência a quantos, pela posição social ou política que ocupam, devem tomar decisões sobre valores fundamentais como o respeito e defesa da vida humana desde a concepção até à morte natural, a família fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher, a liberdade de educação dos filhos e a promoção do bem comum em todas as suas formas. Estes são valores não negociáveis. Por isso, cientes da sua grave responsabilidade social, os políticos e os legisladores católicos devem sentir-se particularmente interpelados pela sua consciência rectamente formada a apresentar e apoiar leis inspiradas nos valores impressos na natureza humana. Tudo isto tem, aliás, uma ligação objectiva com a Eucaristia (1 Cor 11, 27-29: “E, assim, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se cada qual a si mesmo e, então, coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que come e bebe, sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação.”)”. (BENTO XVI, Sacramentum Caritatis, 83).

Esta afirmação de Bento XVI encontra-se na mesma linha doutrinal do seu antecessor João Paulo II que na encíclica Evangelium Vitae afirmava: “O aborto e a eutanásia são … crimes que nenhuma lei humana pode pretender legitimar. Leis deste tipo não só não criam obrigação alguma para a consciência, como, ao contrário, geram uma grave e precisa obrigação de opor-se a elas... Desde os princípios da Igreja, a pregação apostólica inculcou nos cristãos o dever de obedecer às autoridades públicas legitimamente constituídas (cf. Rm 13, 1-7; 1 Ped 2, 13-14), mas, ao mesmo tempo, advertiu firmemente que «importa mais obedecer a Deus do que aos homens» (Act 5, 29)... Portanto, no caso de uma lei intrinsecamente injusta, como aquela que admite o aborto ou a eutanásia, nunca é lícito conformar-se com ela, «nem participar numa campanha de opinião a favor de uma lei de tal natureza, nem dar-lhe a aprovação com o próprio voto»” (JOÃO PAULO II, Evangelium Vitae, 73).

No entanto, se bem reparamos, enquanto o Papa João Paulo II fala principalmente do que nunca se pode fazer, sob pena de pecado mortal, o Papa Bento XVI, recorda a obrigação moral grave de agir pela positiva, isto é, não basta não apoiar leis injustas como é preciso “apresentar e apoiar leis inspiradas nos valores impressos na natureza humana” - como quem diz que o pecado mortal também pode ser de omissão. E mais adianta que: “Os bispos são obrigados a recordar sem cessar tais valores; faz parte da sua responsabilidade pelo rebanho que lhes foi confiado.” (BENTO XVI, Sacramentum Caritatis, 83).

Mas que fazer, se houver católicos, que de modo obstinado e público, não acolhem estas verdades sobre o amor, que o Magistério da Igreja ensina em nome de Jesus Cristo?

Este problema é esclarecido pela declaração que o Conselho Pontifício para os Textos Legislativos (ano 2000) - de acordo com a Congregação para a Doutrina da Fé e com a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos - , fez sobre a interpretação do cânon 915, do Código de Direito Canónico. Em síntese, diz o seguinte:

A proibição feita no cânon 915, por sua natureza, deriva da lei divina (1 Cor 11, 27-29) e transcende o âmbito das leis eclesiásticas positivas: estas não podem introduzir modificações legislativas que se oponham à doutrina da Igreja.

Este texto diz respeito primeiramente ao próprio fiel e à sua consciência como consta no cânon 916. Porém o ser-se indigno por se achar em estado de pecado põe também um grave problema jurídico na Igreja: precisamente ao termo «indigno» refere-se o cânon do Código dos Cânones das Igrejas Orientais que é paralelo ao cân. 915 latino: «Devem ser impedidos de receber a Divina Eucaristia aqueles que são publicamente indignos» (cân. 712). Com efeito, receber o Corpo de Cristo sendo publicamente indigno é um comportamento que atenta contra os direitos da Igreja e de todos os fiéis de viver em coerência com as exigências dessa comunhão. Deve-se evitar o escândalo, concebido como acção que move os outros ao mal. Tal escândalo subsiste mesmo se, lamentavelmente, um tal comportamento já não despertar admiração alguma: pelo contrário, é precisamente diante da deformação das consciências, que se torna mais necessária por parte dos Pastores, uma acção tão paciente quanto firme, que tutele a santidade dos sacramentos, em defesa da moralidade cristã e da recta formação dos fiéis.

2. Qualquer interpretação do cân. 915 que se oponha ao conteúdo substancial, declarado ininterruptamente pelo Magistério e pela disciplina da Igreja ao longo dos séculos, é claramente fonte de desvios. A fórmula: «e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto» é clara e deve ser compreendida de modo a não deformar o seu sentido, tornando a norma inaplicável. As três condições requeridas são:

a) o pecado grave, entendido objectivamente, porque da imputabilidade subjectiva o ministro da Comunhão não poderia julgar;
b) a perseverança obstinada, que significa a existência de uma situação objectiva de pecado que perdura no tempo e à qual a vontade do fiel não põe termo, não sendo necessários outros requisitos (atitude de desacato, admonição prévia, etc.) para que se verifique a situação na sua fundamental gravidade eclesial;
c) o carácter manifesto da situação de pecado grave habitual.

3. A prudência pastoral aconselha vivamente a evitar que se chegue a casos de recusa pública da sagrada Comunhão. Os Pastores devem esforçar-se por explicar aos fiéis envolvidos o verdadeiro sentido eclesial da norma, de modo que a possam compreender ou ao menos respeitar. Quando, porém, se apresentarem situações em que tais precauções não tenham obtido efeito ou não tenham sido possíveis, o ministro da distribuição da Comunhão deve recusar-se a dá-la a quem seja publicamente indigno, com firmeza, consciente do valor que estes sinais de fortaleza têm para o bem da Igreja e das almas.

4. Nenhuma autoridade eclesiástica pode dispensar em caso algum desta obrigação do ministro da sagrada Comunhão, nem emanar directrizes que a contradigam.

5. O dever de reafirmar esta impossibilidade de admitir à Eucaristia é condição de verdadeira pastoral, de autêntica preocupação pelo bem dos fiéis e de toda a Igreja. (A síntese e os destaques são nossos. O texto completo encontra-se aqui)

O Papa Bento XVI ao remeter no número 83 da sua exortação apostólica para a primeira carta de S. Paulo aos Coríntios (1 Cor 11, 27-29) quer relembrar-nos este texto, acabado de resumir, que ele enquanto Perfeito para a Congregação para a Doutrina da Fé aprovou.

Mais do que uma desobediência grave seria uma manifesta falta de amor verdadeiro continuar a dar a Sagrada Comunhão aos que perseveram publicamente em pecado mortal.

A fé verdadeira, o culto devoto e a vida santa, são três vertentes que não se podem separar sob o risco de se perder a coerência do sacramento, fazer grave dano à Igreja e perder o horizonte último de cada cristão que é a santidade, urge por isso “traduzir na vida o que celebramos no dia do Senhor” (BENTO XVI, Sacramentum caritatis, 95).

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Promulgação da lei do aborto - Parte I: o problema ético

Houve tempos em que ética e moral eram sinónimos. Ambos os termos referiam-se à licitude da conduta humana. Uma determinada conduta humana pode ser:

a) eticamente lícita, ou moralmente lícita;
b) eticamente ilícita, ou moralmente ilícita;
c) eticamente neutra, ou moralmente neutra.

Obviamente, em cada uma destas categorias, há um gradiente contínuo de maior ou menor licitude ou neutralidade.
Contudo, hoje em dia, a interpretação corrente destes dois termos "ética" e "moral" já divergiu de tal modo que cada vez são interpretados de forma mais distante.
Durante o Iluminismo, uma mão cheia de "intelectuais" procurou separar a "ética" da "moral", sendo que a ética passaria a abarcar a justeza da conduta humana fora de um contexto religioso, ficando a moral limitada a esse contexto.

Hoje, a mera referência ao termo "moral" faz pensar que se está a falar de religião. Dado o carácter conservador da religião, com a erosão intelectual iluminista e pós-iluminista, a categoria filosófica da Ética foi sendo esvaziada, enquanto que a categoria religiosa da Moral se manteve practicamente inalterada, tendo ambas partido em pé de igualdade na alta Idade Média.

Tomemos como exemplo os sete pecados capitais católicos:
1. Soberba
2. Avareza
3. Luxúria
4. Ira
5. Gula
6. Inveja
7. Preguiça

Estas sete categorias determinam um universo de comportamentos morais incorrectos. Todo o comportamento humano incorrecto cai numa destas categorias ou numa mistura ponderada de várias delas. É certo que se poderia ter chegado a um leque maior ou menor destas categorias, que a universalidade dos comportamentos não deixava de ser a mesma.
Com a procura de uma ética independente da religião, gerou-se, não só a tal separação conceptual entre ética e moral (que nunca deveriam ter sido separadas, uma vez que representam a mesma realidade), mas também o gradual empobrecimento da Ética religiosamente neutra.

Este era o ponto de vista medieval, intelectualmente coerente:
- A Ética/Moral determina se um dado comportamento humano é correcto, incorrecto ou neutro

Este passou a ser o ponto de vista moderno, intelectualmente incoerente:
- A Ética determina a aceitabilidade ou tolerância social de um determinado comportamento

Estou a ser, certamente, injusto, porque haverá bom trabalho ético, independente de postulados religiosos, que não restringe a Ética à sua dimensão social. Mas não há como negar: a Ética moderna tornou-se convenção social, ou pelo menos, é determinada por esta.
O Iluminismo trouxe então consigo o relativismo ético. Neste aspecto, a Democracia fez graves estragos: do mesmo modo que se passaram a votar leis por sufrágio popular, achou-se que a Democracia também poderia ser útil em Ética, e que passaria a ser a maioria a ditar (por convenção) a justeza ou injusteza dos comportamentos humanos em sociedade.

Ora isto é profundamente errado: o voto popular, mesmo maioritário, não altera a licitude ou ilicitude ética de um comportamento. Foi o que procurei demonstrar com o meu artigo acerca da ilicitude ética universal do aborto provocado. Deste modo, nenhuma maioria de plebiscito altera o quadro ético: o aborto é um crime abominável e um erro ético gravíssimo porque atenta contra o primeiro direito de todos: o direito à vida.

Vejamos ainda outro aspecto interessante, que se prende com um dos fenómenos que ajudou ao actual quadro de relativismo ético: a questão do confronto de culturas. A colonização da América (apenas um exemplo de entre vários) trouxe enormes transformações sociais, que não deixaram de apresentar inúmeros excessos. O contacto da sociedade europeia com as civilizações da América gerou um turbilhão intelectual que não fez pouco para o actual estado da Ética. Por um lado, um excesso de puritanismo dos sectores religiosos ou conservadores da sociedade fez ver a nudez dos indígenas como o factor civilizacional mais chocante e grave no choque entre a moral europeia e os hábitos indígenas. Ora é certo que a nudez, ou quase nudez, praticada por essas culturas seria o menor dos problemas éticos de tais culturas. Como qualquer sociedade humana, também as várias sociedades indígenas padeceriam de inúmeros problemas éticos e morais.
Por outro lado, surgiu um outro excesso do lado dos pensadores iluministas, que passaram a ver os indígenas de uma forma idílica. Rousseau, com o seu "mito" do "bom selvagem" popularizou a ideia de que tais culturas não padeciam de maleitas sociais, morais ou éticas, porque seria a própria civilização europeia a responsável pelo surgimento de tais maleitas. Deste modo, muitos passaram a ver a própria civilização europeia, durante séculos o garante da moralidade e da ética humana, como a fonte da corrupção do "selvagem primordial", essa criatura imaginada que seria sempre boa, desde que deixada no seu estado selvagem.
Claramente, falamos de pseudo-antropologia, uma vez que qualquer sociedade humana, tanto de ontem como de hoje, viva ela no centro da Europa como na distante Polinésia, padece sempre, em maior ou menor grau, dos defeitos éticos do próprio ser humano.

Regressando ao confronto de culturas, dá-se neste fenómeno social à escala global uma situação que promove o relativismo ético. A sociedade europeia passa a colocar em questão a sua matriz moral, e a procurar um "máximo denominador comum" de comportamento humano correcto que possa acomodar outras culturas. Isto gera dois fenómenos distintos e coetâneos:

a) o empobrecimento da Ética e da Moral
b) o surgimento do relativismo

Deveria ser evidente, e como estamos longe disso, que qualquer comportamento humano pode ser classificado como lícito, ilícito ou indiferente do ponto de vista ético ou moral, e essa classificação deve ser universal. Por exemplo, matar um ser humano é sempre um mal, mesmo que existam tribos remotas que recorram ainda ao sacrifício de seres humanos. Só mesmo uma pseudo-antropologia eticamente mediocre poderia suster que tais culturas deveriam ser respeitadas cada vez que actuam de forma eticamente inaceitável.
É, então, bem difícil para a Ética e para a Moral o confronto de cuturas, uma vez que não se afigura imediato harmonizar comportamentos sociais distintos. Mas há, ao mesmo tempo, a ajuda surpreendente de comportamentos análogos. O monge budista advoga um decoro em matéria de moral sexual análogo ao da moral sexual católica, por exemplo. É evidente que é apenas por "moda" (uma "moda" intelectualmente pobre) que um ocidental dos nossos dias vive fascinado pelo budismo, decorando frases inteiras de mantras em páli, enquanto abomina a moral sexual da Santa Sé e proclama impropérios acerca do uso do Latim na liturgia romana.

Defendo então que os juízos acerca do comportamento humano sejam matéria de âmbito universal, devendo ser aplicadas do mesmo modo em qualquer lugar ou tempo. E isto serve ainda para os comportamentos humanos fora da sociedade. O estatuto de eremita coloca graves problemas à Ética iluminista e pós-iluminista. Como ajuizar, à luz da Ética oitocentista, o comportamento de um anacoreta, de um indivíduo que vive isolado de qualquer contacto social?

Deveria ser evidente que o comportamento de um homem isolado também é alvo de tratamento por parte da Ética e da Moral. Contudo, a Ética moderna é de tal forma pobre e deturpada que já não serve para tais comportamentos. E isto porque a Ética moderna não passa hoje de um modelo comportamental definido pelo "consenso da maioria".

Olhando para as categorias morais demarcadas pelos sete pecados capitais do catolicismo, encontramos uma série de comportamentos incorrectos que um anacoreta pode assumir. Já a Ética moderna, pelo seu formato bizarro, não imagina uma só forma de um eremita agir de modo não ético.

Corrijo-me: imagina uma única forma de não agir eticamente. Se o eremita atentar contra a Natureza, então comporta-se de forma não ética! O que não deixa de ser paradoxal: a sociedade moderna passou a dar ao comportamento humano em relação à Natureza uma preponderância inaudita em detrimento do comportamento dos seres humanos entre si. Em três tempos se gera uma enorme compaixão por uma baleia alvo de predadores humanos, enquanto um ávido defensor dos direitos dos animais se pode encaminhar, sem problemas éticos, para uma cabine de voto para votar pela legalização do aborto.

A moral católica recorda-nos ainda de que a eticidade se pode revestir de vários aspectos comportamentais:

a) pensamentos
b) palavras
c) actos
d) omissões

A ética moderna, no seu fanático pragmatismo, já abdicou de considerações éticas sobre pensamentos. Na ética dos nossos tempos, deixaram de existir pensamentos não éticos. Sobre as palavras, muito se perdeu, mas ainda restam alguns resquícios deste aspecto da classificação ética: é proibido, em muitos países dos nossos tempos, proferir palavras de cariz racista, bem como ainda é proibido mentir em muitas situações legais. A ética moderna centra-se quase exclusivamente nos actos (sobretudo contra outrém, porque a ética moderna dos actos de um indivíduo contra si mesmo desapareceu), se bem que nalguns aspectos também ainda considera algumas omissões como eticamente tratáveis (por exemplo, não pagar os impostos não é ético).

Mas deveria ser claro que todas estas quatro categorias, que a liturgia católica invoca do rito penitencial, são universais. É possível tratar de forma ética todas as quatro categorias, que envolvem as várias facetas do comportamento humano.

Deste modo, é fácil afirmar que, sendo errado cometer um determinado acto eticamente ilícito, também pode ser errado não cometer um acto lícito que impede um determinado mal. Por exemplo, se votar pela legalização do aborto é um mal ético, abdicar de votar contra a dita (com menor gravidade) também pode ser censurado em termos éticos. É certo que até o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa afirmou que, em caso de grave dúvida do votante, o melhor seria a abstenção no referendo. Mas tal situação, a de enorme dúvida, é confrangedora intelectualmente. Sobretudo para o católico, que tem acesso directo à verdade moral. O católico consciente, nos nossos dias, e mais do que o ateu ou o agnóstico, não tem razões para ter dúvidas acerca de o aborto ser um mal ético, pelo que todo e qualquer católico capaz deveria ter votado contra a actual lei iníqua.

Chegamos agora ao juízo ético do comportamento do Presidente da República, Prof. Cavaco Silva. Sendo certo que, por voto popular, o Presidente representa os portugueses, legitimado pela democracia que o elegeu, também é certo que os seus comportamentos pessoais, públicos ou privados, não deixam por essa razão de estar fora do alcance da Ética.
No fundo, isto é o essencial: nenhum comportamento humano, seja ele público, privado, social ou não social, gregário ou não gregário, contra outrém ou contra si mesmo, sai do âmbito da Ética, evidentemente com a ressalva de que há comportamentos neutros nesta matéria.

No que toca aos comportamentos eticamente neutros, o Presidente da República deve, no seu papel de consenso e representatividade, atender às várias sensibilidades. Nesta matéria, o Presidente pode procurar servir a maioria dos interesses pessoais e nacionais deste colectivo a que chamamos Portugal. E isto porque tratando-se de comportamentos eticamente neutros, estão abrangidos e caem na lógica da democracia: a maioria dita, por voto, os comportamentos eticamente neutros de um representante eleito.

Já o caso muda radicalmente de figura quando um determinado comportamento de um representante eleito cai na categoria de acto eticamente ilícito. Como referi no início, a maioria democrática não muda uma vírgula à eticidade de um acto. Não é pelo voto que se torna correcto um comportamento que é intrinsecamente incorrecto. E por isto é que o Presidente não tem qualquer legitimidade para violar a Ética alegando razões de representatividade democrática. Ou pior ainda, alegando razões de estabilidade política ou económica do país.

A promulgação da actual lei do aborto não é apenas uma omissão. Há omissão (erro ético comportamental) pelo facto de o Presidente da República não ter vetado a lei nem tomado outras medidas necessárias que impedissem a legalização da iniquidade do aborto provocado. Mas, com a sua assinatura, o Presidente dá um passo em frente na direcção da sua catástrofe ética: passa da omissão à colaboração. Mesmo que, pessoalmente, o Presidente nunca executasse um aborto, ele tinha poder para impedir uma iniquidade e não o exerceu.

Não duvidamos (alguns duvidam, mas ainda são minoritários) de que não é ético abdicar de ajudar pessoas em perigo. Se podemos fazer algo para impedir uma catástrofe, ou para salvar alguém, e não o fazemos, temos um caso de acto eticamente ilícito na forma de omissão.

Perante a concretização da morte em massa de embriões e fetos humanos, nas mãos de clínicas abortistas facínoras, o Presidente, em vez de agir para impedir tal catástrofe, assina o papel. É mais grave este acto presidencial que o dos votantes que se abstiveram no referendo do aborto. Na verdade, o comportamento ético do Presidente é equivalente ao dos que votaram "sim", aprovando implicitamente tal proposta de lei.

Vemos então que o acto do Presidente, ao promulgar uma lei desumana, bárbara e eticamente errada, é mais do que uma omissão eticamente grave, é também um acto eticamente ilícito e censurável. E isto de um ponto de vista estritamente neutro em termos religiosos. Deixarei a questão religiosa para um texto que se seguirá a este muito em breve.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Precisamos de sacerdotes com fé e coragem

Num gesto pouco surpreendente, tendo deixado passar o prazo para submeter a nova lei ao juízo do Tribunal Constitucional, o Presidente da República decidiu hoje promulgar a nova lei do aborto:

Presidente promulga nova lei da despenalização do aborto

Antes de mais, devo dizer que tenho o Presidente da República em grande consideração e estima, e não duvido por um instante das suas boas intenções e da tremenda dificuldade do problema que teve em mãos.

Por outro lado, sendo que o Prof. Cavaco Silva é católico, o que hoje sucedeu reveste-se de uma gravidade moral objectiva, uma vez que o Prof. Cavaco Silva não pode facilmente alegar o desconhecimento do erro moral do seu acto de promulgação de uma lei iníqua e assassina.

A lei que foi hoje promulgada legitima a morte de seres humanos com menos de dez semanas de idade. É uma lei injusta, criminosa, eticamente ilícita e inconstitucional.
O Presidente da República estava perante um grande dilema, e não há dúvidas de que a sua presidência ficaria gravemente em risco, caso decidisse vetar a lei.

As hipóteses alternativas à promulgação não eram muitas, mas eram as suficientes para que uma pessoa de bem tomasse uma decisão acertada. O Presidente da República poderia ter vetado a lei. Ela regressaria ao Parlamento, de onde poderia regressar ao Palácio de Belém (alterada ou não), desde que aprovada por maioria simples. Caso a redação final da lei persistisse no erro ético do aborto a pedido, então o Presidente tinha duas alternativas, qualquer uma delas muito difícil em termos políticos:

a) dissolver a Assembleia e convocar eleições antecipadas
b) demitir-se, por se recusar a pactuar com uma lei iníqua

É certo: ouviremos muitos católicos virem em socorro do Prof. Cavaco Silva, afirmando que estava em jogo a estabilidade do país. De novo, a confusão intelectual reinante impede que até os católicos mais atentos se dêem conta da trágica troca de prioridades. A estabilidade política ou económica do país não se deve apoiar na morte de seres humanos. É disso que estamos a falar, e de nada menor do que isso.

O acto do Presidente da República é grave para qualquer ser humano. É mais grave para um católico, que deveria estar ciente da gravidade moral intrínseca do seu acto. Sigamos as palavras do Padre Nuno Serras Pereira, que tem diligentemente trabalhado no sentido de que se compreenda melhor o catolicismo, e de que este seja praticado, vivido e defendido com mais coerência e maturidade:

«Esta “lei”, hoje promulgada, é gravemente injusta e o acto da sua promulgação consiste numa cooperação formal com o mal intrínseco do aborto provocado, tornando o Presidente Aníbal Cavaco Silva moralmente imputável por todos os homicídios/abortos, e demais consequências nefandas, praticados ao abrigo desta “lei”, isto é, desta violência crudelíssima.

No Juízo particular e no Juízo final, depois da morte, Aníbal Cavaco Silva terá de responder perante Deus, e não perante os votos e as maiorias, não se podendo escudar na obediência aos mecanismos formais da democracia, como se estes fossem substitutos da moralidade ou da consciência. Ser-lhe-ão pedidas contas de todos e cada um dos assassínios/abortos, e demais consequências negativas, cometidos ao abrigo da iniquidade promulgada.»
- boletim electrónico "Infovitae", 10 de Abril de 2007.

De nada vale invocar, como é hábito, o "mito Nuno Serras Pereira", essa distorção da realidade que consiste em retratá-lo como padre fanático que não é em vez de ser visto como padre católico que é. Até porque muitos mais sacerdotes, sem dúvida "alvos" não tão preferidos pela da Comunicação Social, pensam do mesmo modo, a começar, obviamente, pelo Papa.
Por outro lado, será sempre de censurar o sacerdote católico que, administrando a comunhão ao Prof. Cavaco Silva sem que ele se arrependa da promulgação desta lei, abdique deste modo da sua obrigação pastoral. Aceito de bom grado, dada a imagem que tenho do Prof. Cavaco Silva como uma pessoa de boas intenções, que é apenas por puro desconhecimento que ele arrisca incorrer, com este seu acto de hoje, em excomunhão latae sententiae (automática), o que o impediria de se aproximar da Eucaristia.

Portugal precisa de sacerdotes com fé e coragem.
De sacerdotes como o Padre Nuno Serras Pereira.

Tenho a firme convicção de que, vendo negado o seu acesso à eucaristia por um sacerdote corajoso, o Prof. Cavaco Silva, como homem inteligente que é, rapidamente se aperceberia da gravidade moral do seu acto, e certamente que se arrependeria dessa decisão, que coloca a imoralidade objectiva deste seu acto ao serviço da estabilidade política do país.

Seria insensato pensar que todos os católicos que comungam o fazem em pleno direito. Normalmente, o sacerdote não sabe se o comungante está ou não preparado. No caso de figuras públicas católicas, a coisa muda de figura: quando a tomada de posição pública, e os actos públicos, contradizem o Magistério, a perda de comunhão com a doutrina católica torna-se notória aos olhos do Mundo. Dar a comunhão, nestas situações, pode causar escândalo aos fiéis e, bem pior, constituir um uso abusivo da Eucaristia.

Ser católico coerente (aliás, ser coerente nesta vida) é tarefa dura e gera muita incompreensão.
Sei-o bem porque prevejo consequências, no meu círculo de amigos e conhecidos, desta minha tomada de posição em defesa da posição de católicos coerentes como o Padre Nuno Serras Pereira, em detrimento da posição de católicos incoerentes como o Prof. Cavaco Silva.
Mas o que sei é que a coerência é condição necessária para se estar certo.
Pode não ser suficiente, mas é necessária.

Não é possível manter-se uma verdade moral pessoal, enquanto se que tolera uma "verdade alternativa" votada por maioria democrática. O católico que acreditar que pode ter a sua moral pessoal, enquanto pactua (com o seu acordo, com a sua assinatura) com a antitética "moral" do Mundo (mesmo que democraticamente distorcida), incorre em heresia.

Levar as coisas às últimas consequências seria, para Cavaco Silva, abdicar do seu mandato. Uma decisão difícil e dura, como sucede a todos os católicos que combatem e que não se deixam vencer pelo Mal. Mas poderia tal decisão, mesmo que dura, comparar-se à dos santos mártires que deram a sua vida corpórea por Cristo?

Se o Prof. Cavaco Silva levasse a sua coerência católica às últimas consequências, então, como diz o Padre Nuno, «renunciava ao mandato, explicando, em qualquer dos casos, as razões porque o fazia, a saber, a impossibilidade moral de cooperar numa injustiça de tal gravidade, dando, deste modo, testemunho de uma consciência verdadeira e recta, e mostrando ser um homem de boa vontade. Posto o povo diante de tal verticalidade e desassombro, bem poderia despertar para a extrema gravidade do que estava em questão e haver um geral sobressalto mobilizador contra o aborto, a favor da vida.».

Ora nem mais!
Esta oportunidade está perdida.
Mas ficamos, pelo menos, com um perfeito exemplo desta grande verdade milenar da Igreja: quando o sacerdote vacila e perde coragem ou a fé (a perda de uma acarreta a da outra), fracassando nos seus deveres pastorais, é toda a humanidade (não só a comunidade católica) que perde, seja pela falta de exemplo, seja pelo mau exemplo.
Mais um dia triste, este...

terça-feira, 13 de março de 2007

Luís Graça e os "pequenos cérebros"

Um dos adágios populares que mais aprecio é aquele que diz assim:

"A ignorância é muito atrevida"

Vem isto a propósito de um artigo saído no Expresso, no passado dia 10 de Março, intitulado "CUF proíbe pílula do dia seguinte":

«Em nome do “respeito absoluto pela vida humana”, o Código de Ética dos hospitais da CUF, do grupo José de Mello, impõe a todo o pessoal hospitalar regras de prática clínica que vão muito para lá da proibição da prática de aborto.

De acordo com o documento a que o Expresso teve acesso, “a vida humana, desde a sua origem no zigoto até à morte natural, é inviolável”. Por isso, além da prática de aborto, é vedado a todos os profissionais de saúde do grupo CUF “a prática de procriação medicamente assistida, a esterilização definitiva da mulher (laqueação de trompas), a esterilização definitiva do homem (vasectomia) e a prática de anticoncepção abortiva (pílula do dia seguinte)”. A justificação para estas normas vem logo a seguir onde se diz que “a maternidade e a paternidade são o suporte natural e necessário à fertilidade”.»


Até aqui, tudo bem. Aliás, tudo óptimo. Não só era um direito da CUF, sendo uma organização privada, não alinhar nas novas "modas", como a CUF deu um excelente exemplo de integridade, ética médica e coerência de princípios, visto que o objectivo da prestação de serviços de saúde médica a seres humanos não deve incluir atropelos éticos a estes, sob pena de se ferir o exacto bem que se quer servir.

«Contactado pelo Expresso, o ministro da Saúde recusou pronunciar-se sobre este Código de Ética alegando que “até à entrada em vigor da Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez aprovada esta semana no Parlamento, o ministro não faz declarações sobre essas matérias”.»


Aqui, vemos o Ministro da Saúde a guardar-se para mais tarde, ele que terá certamente qualquer coisa na manga para os privados e para os objectores de consciência em geral. A coisa não vai ficar apenas pela privação do aconselhamento prévio para objectores. Isso é só um prelúdio do Senhor Ministro...

«Já o bastonário da Ordem dos Médicos lembrou que, ao contrário das normas éticas impostas pelos hospitais da CUF, “o Código Deontológico não levanta restrições à utilização da pílula do dia seguinte”. Pedro Nunes considerou ainda que “esse código numa unidade pública de saúde seria inaceitável, mas no sector privado prevalece o princípio de que ninguém é obrigado a ser tratado nessa instituição”. O bastonário acrescentou ainda que no sector privado as regras podem ser estabelecidas autonomamente mas “o que os médicos devem fazer é encaminhar as pessoas para um hospital com outras regras ou para o sector público”.»


O senhor bastonário, com todo o respeito, toma uma posição precipitada e injustificada. O Código Deontológico é incompatível com o aborto (terá que ser mudado em breve, devido à nova lei), e se é certo que a pílula do dia seguinte pode ter efeitos abortivos (se impedir a nidação do ovo fertilizado), é evidente que o uso deste tipo de fármaco constitui uma zona eticamente "nebulosa", uma vez que a mulher que o toma não sabe se, na prática, está a cometer um aborto ou não na altura da toma. Saberá certamente a posteriori, visto que os efeitos do Levonorgestrel são bem diferentes nos casos em que actua de forma abortiva e nos casos em que actua de forma anovulatória. Só que aí, havendo asneira ética, o mal já estará feito!

Mas vejamos agora o que diz o senhor Luís Graça:

«Mais contundente, Luís Graça, o presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, considerou “um absurdo que uma estrutura administrativa adopte medidas que fazem parte das práticas de ginecologia e obstetrícia. É um abuso da interpretação relativamente ao exercício da medicina”.
Sobre o facto de o Código de Ética dos hospitais da CUF proibir os médicos de prescreverem a pílula do dia seguinte, Luís Graça não poupa nas críticas: “A pílula do dia seguinte é perfeitamente legal e não tem nada a ver com o que ‘esses pequenos cérebros’ acham que provoca aborto. A pílula do dia seguinte não é um método abortivo: ela impede a nidação de um ovo”
(negrito meu)


Dificilmente é possível dizer-se mais asneiras em poucas frases. Luís Graça parece estar em competição com o Dr. Albino Aroso, de quem falei num texto há uns dias atrás. O senhor Luís Graça diz que a CUF está a cometer "um abuso de interpretação"? É curioso: sempre achei que o acomodar do aborto no Juramento de Hipócrates é que seria um abuso de interpretação. O mundo está, de facto, a ficar virado de pernas para o ar. Pelos vistos, no novo quadro mental que emergiu de 11 de Fevereiro último, agora, a recusa da prática do aborto é um "abuso de interpretação relativamente ao exercício de medicina".

A recusa da CUF é simples e lógica: evitar a prática de um acto (a toma de Levonorgestrel) que pode ter efeitos abortivos, quando impede a nidação de um ovo fertilizado, ou seja, de uma gravidez em curso. Ou seja, quando impede a nidação, a "pílula do dia seguinte" provoca um aborto. Isto é tudo muito bonito quando as palavras saem da boca para fora para os jornalistas apontarem: mas todas as mulheres que já tomaram Levonorgestrel depois da fertilização sabem bem o efeito que este fármaco produz. Elas sabem bem quando é que ocorreu um aborto ou quando é que a ovulação foi simplesmente anulada.

Depois, Luis Graça comete a crassa confusão mental entre "legalidade" e "eticidade". Um acto legal não tem que ser sempre um acto ético. E um acto ético não tem que ser sempre um acto legal. Por isso, invocar a legalidade do uso do Levonorgestrel não influi uma vírgula na eticidade do seu uso. De nada serve. Mas o mais divertido, nas palavras de Luís Graça, é o uso da expressão "pequenos cérebros". Evidentemente, a dimensão craniana não influi necessariamente na inteligência, e a inteligência de cada um mede-se pela capacidade de gerar raciocínios lógicos, coerentes e acertados, e não pelo volume da massa cinzenta. Nesta medida, dir-se-ia que é precisamente Luis Graça que não está nada em boa situação de comparação, devido a estas suas palavras incoerentes e erradas, que denotam um raciocínio pouco apurado e pouco acostumado a pensar em termos Éticos.
Veja-se esta pérola de contradição:

«A pílula do dia seguinte não é um método abortivo: ela impede a nidação de um ovo»

Hmmm...
Impede a nidação de um ovo... Ovo esse que, não podendo nidar, morre. Morte essa que costuma ser chamada de... aborto!

Na sua incauta arrogância, Luís Graça lá acaba por ter a sua graça e ser um bom exemplo do acerto do adágio popular com o qual comecei este texto.

Terminemos, para desenjoar de tanta asneira, com as palavras sensatas de Daniel Serrão:

«Daniel Serrão, consultor de Ética dos hospitais CUF, garantiu ao Expresso que o Código assenta “nos valores da ética personalista”. O médico contesta ainda que a pílula do dia seguinte não seja abortiva, uma vez que “impede o desenvolvimento do embrião”.»

sexta-feira, 9 de março de 2007

Albino Aroso

Antes de principiar, convém ter bem presente alguns pontos essenciais. As críticas que se seguem são ao quadro intelectual defendido pelo Dr. Aroso, e não à sua pessoa. Infelizmente, poucos conseguem fazer a distinção entre a ideia errada e a pessoa que a defende. Pouco me interessam as críticas pessoais ou a depreciação de uma pessoa em concreto. O que tem interesse é o apontar dos erros intelectuais que certas pessoas defendem, sobretudo quando tais pessoas alcançaram um elevado estatuto de reconhecimento social. O perigo de situações destas é nítido: quanto mais elevado o estatuto e o reconhecimento social, maior a responsabilidade de tais pessoas, e mais gravosos e danosos se tornam os seus erros intelectuais.

O Dr. Albino Aroso ganhou o Prémio Nacional de Saúde. Só a sua idade e carreira em prol da saúde obrigam a um respeito à sua pessoa. Não obstante, ele defende uma série de ideias erradas acerca da vida intra-uterina e do aborto que merecem destaque. Evidentemente, este texto é uma minúscula crítica a uma entrevista em concreto, e não tem a pretensão de abarcar toda a acção intelectual do Dr. Aroso nesta matéria.

Trata-se de um artigo do Jornal de Notícias, datado de 13 de Janeiro último. Irei comentá-lo por trechos...

«Dr. Albino Aroso: Aborto é uma coisa morta, é aquilo uma mulher elimina espontaneamente, ou que é provocado, e que sai do útero, morrendo cá fora. Nós não estamos a discutir isso - estamos a discutir uma coisa extremamente simples, que é saber se a sociedade portuguesa deve continuar, ou não, a considerar a interrupção voluntária da gravidez em início (aquela em que a maior parte dos cientistas considera não haver ainda um ser humano) um crime.»

Duas falsidades:

a) A "maior parte" dos cientistas (belo rigor estatístico) não tem problemas em ver aquele ser como humano; o probema não é o de saber que se trata, biologicamente, de um ser humano: esse problema não existe, porque tal ser só pode ser humano; o problema está no estatuto ético desse ser, saber se tal ser humano tem o mesmo estatuto ético que tem um ser humano nascido ou numa fase mais avançada da gravidez; um pouco de rigor ajuda sempre;

b) O referendo não era, seguramente, para apenas despenalizar; esta era uma das várias consequências, sendo as restantes: legalizar o aborto (o aborto poderia ter sido reduzido de crime a contra-ordenação, mas foi passado a acto legal), e liberalizar o acesso ao aborto (mediante a prestação subsidiada de serviços abortivos aos utentes do SNS); mentir é feio.

«Entrevistador: O que está em causa no dia 11 de Fevereiro (data do referendo) não é também saber quando começa a vida humana?

Dr. Albino Aroso: No mundo civilizado, há dois tipos de mentalidades. Nos EUA encontramos os criacionistas, que acreditam que Deus criou tudo como está. Ou seja a vida humana começa na fecundação.»


Este é um perfeito e paradigmático exemplo da falácia ignoratio elenchi, ou seja, em português corrente, "fugir do assunto". A resposta nada tem a ver com o início da vida humana nem com a sua definição científica ou ética. A resposta dada reflecte uma série de coisas:

a) Visão simplista das teorias criacionistas como sendo uma só coisa: ignorância acerca destas várias teorias e das enormes diferenças entre elas;

b) Transformação do aborto numa questão de base religiosa: clara falácia, porque há argumentos contra o direito ao aborto que não invocam razões religiosas;

c) Preconceito anti-americano: há criacionistas em várias partes do globo;

d) Falta de coerência lógica: mesmo que os criacionistas fossem todos como descrito pelo Dr. Aroso, não se percebe esta conclusão partindo dessa premissa: "Ou seja a vida humana começa na fecundação"; a conclusão está certa, mas não tem nada a ver com a premissa.

«Entrevistador: Mesmo sem acreditar em Deus não é possível acreditar nisso?

Dr. Albino Aroso: Entre a fecundação e a chegada ao útero, 30 a 40% dos embriões iniciais desaparecem. São vidas humanas que se perdem, alguém comunica à sociedade que se perderam essas vidas humanas?»


Outro belo exemplo do uso da ignoratio elenchi. Por favor, alguém pode fornecer ao Dr. Aroso um manual rudimentar de Lógica?
A pergunta era bem clara: será que não se pode defender que a vida humana principia na fecundação sem invocar argumentos religiosos? A resposta deveria ser "sim" ou "não". Que responde o Dr. Aroso? Desvia o tema, não responde, e termina devolvendo uma pergunta de retórica. Deveria ser evidente que quem defende que a vida humana principia na fecundação também defende que os abortos espontâneos (naturais) são vidas humanas que se perdem.
Também seria útil dar ao Dr. Aroso um manual de Ética, bastaria um rudimentar. Pelos vistos não sabe, ou não quer, distinguir entre estas duas situações:

a) aborto espontâneo ou natural: problema exclusivamente médico ou biológico; não tem consequências éticas, nem tem qualquer peso ético porque é o resultado de um processo natural que não foi provocado por nenhum agente humano; está fora do alcance da Ética;

b) aborto provocado: resultado decorrente de uma acção humana propositada; tudo o que tem a ver com a conduta humana, com o ethos, pertence à esfera da Ética e deve ser avaliado e classificado nessa esfera.

«Entrevistador: É católico?

Dr. Albino Aroso: Sou. Porquê?»


Parte humorística da entrevista.
Para o Dr. Albino Aroso, a incoerência intelectual, pelos vistos, não é um problema para si. Pelos vistos, tolera bem a coexistência no seu intelecto de conceitos, convicções e noções totalmente incompatíveis entre si. Será que tal incoerência pode alguma vez dar bom resultado, em termos de afirmações intelectualmente válidas nestas matérias? É certo que só pode dar mau resultado...
É impossível a coexistência coerente, num mesmo intelecto, de uma doutrina católica completa e genuína, juntamente com a defesa do aborto provocado. Isto é matéria de facto, e não de opinião.

«Dr. Albino Aroso: A Sociedade Americana de Obstetrícia e Ginecologia distribui por todos os membros, há uns anos, uma frase que dizia assim "A vida é um processo contínuo". Isto ninguém pode discutir. Do ponto de vista científico, não é possível dizer quando se inicia a vida humana, somente do ponto de vista religioso, moral ou teológico. Aqui está um problema fundamental de que as pessoas têm que ter consciência. Quando se discutiu na Europa, sobretudo em França, este problema, os cientistas concluíram que não era vida humana o embrião. Ou seja: não seria crime interromper essa vida enquanto não estava formado o sistema nervoso central. Que valor tem a eliminação espontânea?»

O Dr. Albino Aroso insiste em confundir Biologia com Ética. Biologicamente, o zigoto já é um ser humano totipotente, dotado de todo o genoma que faz dele um espécime Homo Sapiens. Darwin, nada suspeito em matéria de religião, não teria dúvidas a este respeito... Outra questão mais melindrosa diz respeito ao estatuto ético do zigoto, do embrião, do feto. Mas, enfim, nem vale a pena prosseguir, porque a confusão do Dr. Aroso está num nível anterior, está em não ser capaz de distinguir o carácter biológico humano do embrião do carácter ético humano do mesmo.

«Entrevistador: No seu entender, tem o mesmo que a eliminação voluntária?

Dr. Albino Aroso: Nós seremos um país moralmente mais avançado que os países nórdicos, que já tiraram da sua legislação a incriminação das mulheres? Estamos numa fase em que ainda aceitamos que Deus é o responsável pelas gravidezes, ou isso é totalmente da responsabilidade das mulheres?»


De novo, ignoratio elenchi. Parece que o Dr. Aroso procura bater um recorde no uso deste tipo de falácia em poucas frases. O Dr. Aroso insiste em não responder à pergunta ética que lhe é feita, e que é bastante simples e objectiva. Eticamente, é ou não o mesmo um aborto provocado ou um não provocado? A resposta deveria ser clara: são coisas distintas. Onde não há acção humana (aborto espontâneo) não há problema ético.
O Dr. Aroso invoca a sempre presente protecção dos irmãozinhos mais velhos nórdicos, esses que estão sempre à frente em tudo, a julgar pela fé popular e pela opinião pública do "diz que disse". A frase final sobre a responsabilidade é uma perfeita asneira: nenhum crente inteligente diz que a gravidez é responsabilidade de Deus. Deus não obriga ninguém ao acto sexual, pelo que toda e qualquer gravidez é sempre responsabilidade dos progenitores. Por isso mesmo, a mulher que mata ou pede que lhe façam um aborto deve ser responsabilizada pelo erro ético desse acto, que termina com a vida de um ser humano com direito a ela.

«Entrevistador: Em que fase estamos?

Dr. Albino Aroso: Depende. Nós dizemos uma coisa, mas fazemos outra. As sociedades fazem hoje, rigorosamente, tudo aquilo que é da sua responsabilidade, não fazem caso nenhum da intervenção de Deus. Somos totalmente responsáveis por aquilo que fazemos.»


Esta resposta é incompreensível. O conceito de responsabilidade também está presente quando a Justiça tem que lidar com um assaltante ou com um homicida. Ambos têm responsabilidades sociais e humanas. Ninguém as nega. Não se entende como é que este discurso em prol da responsabilização (que é louvável enquanto tal) pode alguma vez legitimar dar a morte a um feto, um embrião ou um zigoto humano. Pelo contrário, a interdição da destruição de uma gravidez deveria ser uma clara marca de que o acto sexual deve ser responsabilizado. Se os meios para evitar tal gravidez falham, como se costuma dizer, "azar"! Há que ser responsável e aceitar a gravidez como um facto. O aborto nunca será um método contraceptivo ou de regulação da gravidez, porque a gravidez já é um facto. E "interrompê-la" é só uma forma maciazinha de dizer "exterminá-la".

«Entrevistador: Somos o quarto país do Mundo com a mais baixa taxa de mortalidade infantil.

Dr. Albino Aroso: Tudo isso tem os seus antecedentes. Estamos a falar no planeamento familiar

Entrevistador: Planeamento familiar que a associação que o senhor criou lançou em 1969…

Dr. Albino Aroso: A primeira consulta pública e gratuita foi dada no Hospital e S. António, no Porto, em 1969. Nessa altura não era ainda possível anunciar contraceptivos, nem receitar com essa finalidade»


O Dr. Aroso parece insinuar que a censura moral aos contraceptivos tem a mesma razão de ser da censura moral ao aborto provocado.
Isto é um estratagema clássico: considerar a moralidade da contracepção como sendo equivalente à moralidade do aborto. É certo que a moral religiosa considera imoral o recurso à contracepção artificial, e não vale a pena negá-lo porque as coisas são assim e devem ser assim. Mas também é certo que o erro moral de abortar é dramaticamente mais grave que o erro moral de usar um método contraceptivo:

a) Quando uma pessoa usa um método contraceptivo, aos olhos da moral católica (por exemplo), está a cometer um acto imoral porque distorce a finalidade última da relação sexual; mas seguramente, não mata ninguém nem acomete contra a vida de ninguém: quando muito, enfraquece a sua fortaleza moral;

b) Quando uma pessoa aborta ou ajuda a abortar, aos olhos de uma moral universal (portanto, neutra em termos religiosos), está a cometer um acto imoral porque mata um ser humano com direito a viver.

«Entrevistador: Como é que se fazia?

Dr. Albino Aroso: Era possível receitar os mesmos produtos para regularizar os ciclos. Todas as mulheres tinham ciclos irregulares. O que nós queríamos é que as mulheres tivessem os filhos que elas quisessem ter, e quando pudessem. Nós dizíamos que a mulher tinha o direito - e não o dever - de ter os filhos. A sociedade evoluiu rapidamente e a mulher ascendeu rapidamente, por via dessa política social, a todos os lugares públicos. A gravidez torna-se um problema extremamente complicado para a mulher que trabalha, que estuda e que sai de casa às oito da manhã.»


Bom, esta é a clássica retórica feminista, e não vale a pena repisar mais sobre ela. A mulher realiza-se, certamente, de muitas formas para lá da maternidade. Mas se lhe dão o falso direito a matar, isso é o mesmo que uma mulher tentar negar (porque não consegue fugir dela) a sua maternidade enquanto mulher grávida. Isso é contrasenso. A mulher grávida já é mãe. O aborto é um atentado contra a essência da mulher enquanto mãe. Se a mulher, hoje em dia, tem menor disponibilidade para a maternidade, isso não pode ser visto como uma coisa boa: é uma coisa má, que traz consequências nefastas para todos. Está na altura de atirar para o lixo a retórica feminista extremista, e procurar regressar ao simples bom senso. Sem mães, não há crianças, e sem crianças, não há Humanidade. Por isso é que dá algum jeitinho, enfim, é cómodo, que o conceito de mulher não esteja assim tão radicalmente separado do conceito de mãe.

«Entrevistador: Concorda com o referendo?

Dr. Albino Aroso: É-me indiferente. A questão é se isto é problema essencialmente feminino, porque não ouvir só as mulheres? Só que a maior parte das mulheres é contra as mulheres. E os homens que são normalmente responsáveis, colocam-se de fora e ainda são capazes de culpar as mulheres. Convém não esquecer que somos o país educacionalmente mais atrasado da Europa civilizada. Não admira que só agora estejamos a repetir o referendo que se fez em 1998 em que o "Sim" perdeu. Em relação a esta despenalização, defendo a existência, à semelhança do que faz a Alemanha, de um interrogatório à pessoa que quer interromper a gravidez, no sentido de saber por que é que ela engravidou: é culpa do Estado, é culpa da sociedade, não há o fornecimento atempado de contraceptivos, a culpa é do médico, o que é que falhou?»


Tudo isto é uma embrulhada de asneiras:

a) O problema do aborto não é "essencialmente feminino", enquanto não se provar que o estatuto ético da vida humana intra-uterina é rigorosamente zero; onde está a prova, a demonstração científica e filosófica, Dr. Aroso?

b) «A maior parte das mulheres é contra as mulheres»: nem vale a pena comentar este disparate, puro flatus voci, uma frase de guerrilha, precipitada, sem conteúdo intelectual, puramente gratuita, absurda e indemonstrável;

c) "Os homens colocam-se de fora": veremos agora, com o aborto legal, se os homens não o irão usar para impor violência pró-aborto às suas mulheres, filhas, namoradas, etc.;

d) "Somos o país educacionalmente mais atrasado": a mesma óptica miserabilista, que considera que tudo, rigorosamente tudo, o que é estrangeiro é bom; seja a técnica, sejam os serviços sociais, seja a ética, tudo o que é estrangeiro é bom e tudo o que é nacional é mau; nova frase gratuita, e que nada traz ao debate ético do aborto;

e) "Não admira que só agora estejamos a repetir o referendo...": de novo, o mito não demonstrado, e omnipresente, do Progresso, ou seja, a ideia insensata de que as mudanças (boas ou más, é indiferente) devem ser feitas quanto antes, para que permitam acelerar essa grande coisa que é o Progresso; curiosamente, alguns países pioneiros em matéria de aborto livre (o caso mais flagrante é o dos EUA) estão a rever as suas decisões de há trinta anos nesta matéria; mas o progresso dos EUA nesta matéria, ou seja, o recente repensar de restrições ao aborto legal (que está a ser proposto mesmo pelos Democratas norte-americanos) agora, já não interessa, certo, Dr. Aroso?

A sua defesa final do "interrogatório" à mulher é verdadeiramente notável, e é o corolário de uma entrevista intelectualmente deprimente. É esta uma das versões do "aconselhamento prévio" de que tantos defensores do "sim" falaram? Repare-se a ironia da coisa: o real erro ético (abortar, matar) não é problemático para estes senhores, porque no final do "interrogatório", o senhor doutor lá vem com os forceps ou com as pastilhas de RU-485. O aborto não está em causa, repare-se! É como interrogar uma criança para lhe perguntar quem fez a asneira, prometendo um rebuçado no fim.
Curiosamente, a "asneira" parece ser "engravidar", que é uma função biológica natural e normal.
E mais curiosamente ainda, o "rebuçado" parece ser "abortar", que é uma aberração ética, que viola a mais básica e rudimentar deontologia médica, que priva um ser humano da sua vida futura, e que mata psicologicamente a mulher que se submete a tal intervenção grotesca e bárbara.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Os surreais reais no país do aborto livre

Hoje, Dia da Mulher, a coisa propiciava uma série de disparates avulsos a propósito de aborto livre.

A professora Manuela Tavares, conhecida e antiga defensora daquela categoria lata de "direitos" das mulheres, falou hoje na rádio para afirmar que este Dia da Mulher, de 2007, era importante por coincidir com a aprovação parlamentar da nova lei do aborto.

Esta senhora, cujo esforço incansável pelos seus ideais (quase todos errados, por sinal) merece sempre respeito, defende, contudo, ideias erradas que não merecem respeito algum. Elogiando este novo "direito" a matar por parte das mulheres grávidas portuguesas, ela aproveitava para o colocar na linha de uma série de direitos conquistados a pulso. Já não me recordo das palavras exactas, mas no final da peça radiofónica afirmava que, hoje, ainda há pessoas que não aceitam que uma mulher possa ser competente para ocupar um alto cargo de chefia...

Eu ouvia isto, boquiaberto, consciente de que existiriam, infelizmente, poucos portugueses chocados como eu. O que é que tem a ver uma coisa com a outra? O direito a ocupar um cargo de chefia com o direito a matar um feto? Não contesto que uma mulher, demonstrando competência (como um homem), pode ocupar um lugar de chefia. Como contestar? Se um lugar de chefia, normalmente, deve pertencer a quem é competente, que interessa se tal competência vem no feminino ou no masculino?

Porque raio é que o aborto é ainda visto por tanta gente como um direito da mulher? Será apenas analfabetismo em matéria de Ética? Sim, esse analfabetismo existe, e é fácil de detectar. Muitos filósofos pró-escolha de referência aceitam que há, no aborto, um conflito de direitos: o direito da mulher ao seu corpo colide com o direito à vida do feto. Na generalidade, os filósofos pró-escolha, perante esse conflito, optam pela mulher, legitimando eticamente o aborto. Mas há filósofos que, perante esse conflito, não permitem à mulher matar.

Seja qual for a nossa posição no terreno da Ética, a verdade é que não se pode encarar o aborto como um puro direito da mulher, sob pena de reduzir o valor do direito à vida do feto a um redondo zero.

Porque é que a professora Manuela Tavares, com anos de experiência nestas lides, não parece ter pensado nisto nestes termos? Um recente artigo seu, tristemente intitulado Vencer o défice democrático para além dos "valores", pode apontar para uma explicação...

«Os partidos devem pronunciar-se sobre o défice democrático que representa o julgamento de mulheres por interromperem uma gravidez que não desejam. Ao tomarem esta decisão as mulheres estão a exercer um direito de cidadania que não pode ser negado- o da escolha de uma maternidade livre e consciente.»

Está comprovado. Não só a professora Manuela Tavares ignora completamente a existência ética do embrião/feto, como podemos ainda detectar um problema lógico nesta frase.

«escolha de uma maternidade»

Só que a maternidade apenas se escolhe antes de se ser mãe. Uma mulher que já é mãe não pode "escolher" não ser, sob pena de matar, o que é um erro ético. A escolha é feita ao nível da prevenção da gravidez, do tentar evitá-la. Se ela já ocorreu, então a maternidade, nessa mulher, já é um facto, e contra factos não há argumentos.

Depois, poderíamos ainda questionar o próprio título do seu artigo. Será que a democracia deve ir "para além dos valores"? Mas a democracia não pretende estar fundada sobre valores? Que raio de confusão de conceitos é esta?

De onde vem esta corrupção da intelectualidade, que faz com que pessoas adultas aparentemente racionais não sejam capazes de tecer considerações racionais?

Infelizmente, o dia de hoje está cheio de disparates para comentar. Nessa mesma emissão radiofónica, tive o desprazer de escutar também a voz do Dr. Albino Aroso, que questionado acerca do problema logístico das unidades hospitalares serem capazes de fazer face aos pedidos de aborto legal, ele afirmava categoricamente, menosprezando esse real problema, que o aborto era "um fenómeno raro" nos dias de hoje. Esta frase inexplicável, dita sem pensar aos microfones da rádio, faz sentido no seu contexto de tentar capitalizar uma vida inteira dedicada à contracepção artificial, ao ponto de ser considerado por muitos (e pela jornalista) como o "pai" português do planeamento familiar (será isto um elogio? deve ser!). Curiosa frase sua, quando em plena campanha, as forças políticas pelo "sim" afirmavam, em plenos pulmões, querer acabar com o "flagelo", o "drama", a "calamidade" do aborto clandestino. Será que um "fenómeno raro" pode ser apelidado de "flagelo", "drama" ou "calamidade"? Mas do Dr. Aroso, tratarei mais tarde...

terça-feira, 6 de março de 2007

Aborto obrigatório para os médicos?

A cada dia que passa, as forças "pró-escolha" concentram-se na nova frente da guerra pelo aborto. Agora que o aborto está practicamente legalizado em todo o mundo ocidental, o esforço centra-se na eliminação da objecção de consciência por parte do pessoal médico.

Um recente editorial do New York Times, de 13 de Fevereiro, tragicamente intitulado Doctors Who Fail Their Patients, é um bom exemplo de como grande parte dos media estão milimetricamente sincronizados com os movimentos pró-aborto e com as grandes organizações de saúde como a OMS ou a WMA.

«It was bad enough when pharmacists who call themselves pro-life refused to fill prescriptions for morning-after pills and an emergency medical technician refused to help drive a woman to an abortion clinic.»

Não se percebe a frase. Um farmacêutico que se recusa a vender medicamentos com potencial efeito abortivo está, coerentemente, a defender a vida humana. Os técnicos de saúde que se recusam a colaborar num aborto, mesmo que seja sob a forma de transporte de uma mulher para o local onde ela vai abortar, estão a ser coerentes.

«Now a new survey has revealed that a disturbing number of doctors, at the presumed pinnacle of the health professions, feel no responsibility to inform patients of treatments that the doctors deem immoral or to refer them to other physicians for care.» (negrito meu)

Note-se como os editores usam a palavra "treatment" ("tratamento") para se referirem a medidas como o aborto. Mas veja-se que esta mesma má argumentação também poderia (e muitos o fazem) ser usada em abono da eutanásia. É evidente que nenhum médico tem o direito de se recusar a tratar um doente: faz parte do seu código de conduta e da sua obrigação profissional. Outra coisa completamente diferente diz respeito a estes novos "tratamentos" feitos para pessoas que não estão doentes, como o aborto, ou para pessoas cujo suposto "tratamento" vai, na prática, matá-los. É certo e claro que um médico pode ser objector de consciência em relação aos dois "tratamentos", visto que nenhum deles faz parte da sua obrigação deontológica profissional.

«Although the close-mouthed doctors claim a right to follow their consciences, they are grievously failing their patients and seem to have forgotten the age-old admonition to “do no harm.”»

"Do no harm"...
Custa a perceber, à primeira vista, se o editorial é satírico ou se eles estão mesmo a falar a sério. Será que um médico está mesmo a "falhar gravemente" aos seus doentes, ao se recusar a aplicar pseudo-"tratamentos" que não visam nenhuma doença em concreto, que visam apenas uma solução facilista que vai contra a ética do médico profissional?
Se a expressão "do no harm" parecia estranha perante um aborto, visto que o médico que aborta faz objectivamente mal à mãe e ao filho, então no caso da eutanásia, a expressão torna-se definitivamente patética.

É melhor esmiuçar um pouco esta questão da ética médica. É evidente que nenhum médico pode defender dois sistemas éticos contraditórios, ou defender uma ética viciada com contradições internas. Se um médico fez o Juramento, está comprometido com a obrigação de defender a vida e de dar assistência ao tratamento de doentes, pelo que não poderá invocar a objecção de consciência para, por exemplo, negar o tratamento a um criminoso.
Por outro lado, visto que nem o aborto nem a eutanásia fazem parte das obrigações dos médicos, não há mal algum em que tais médicos possam ser objectores de consciência. No caso do aborto, não há nenhum doente em questão, há apenas um utente do sistema de saúde que não está doente e que se quer ver livre de uma criança. No caso da eutanásia, a sua prática corresponde precisamente ao oposto da função do médico: matar em vez de salvar ou tratar um doente.

Há que explicar, e ninguém parece interessado em fazê-lo do ponto de vista ético, porque razão é que matar (no caso do aborto ou da eutanásia) deveria fazer parte da carteira de serviços obrigatórios para um médico.

«The survey, by researchers at the University of Chicago, was published last week in The New England Journal of Medicine. The researchers mailed questionnaires to some 2,000 doctors asking whether they had religious or moral objections to three controversial practices. Of the 1,144 who responded, only 17 percent objected to “terminal sedation” to render dying patients unconscious, but 42 percent objected to prescribing birth control for adolescents without parental approval, and 52 percent opposed abortion for failed contraception.
The encouraging news is that substantial majorities thought that doctors who objected to a practice nevertheless had an obligation to present all options and refer patients to someone who did not object. But that left 8 percent who felt no obligation to present all options and an alarming 18 percent who felt no obligation to refer patients to other doctors. Tens of millions of Americans probably have such doctors and are unaware of their attitudes.»
(negrito meu)

Este imbecil e autista editorial insiste em escrever frases absurdas como se fossem verdades incontestáveis. Porque razão seria um médico obrigado a apresentar "opções" de pseudo-tratamentos a pessoas que não estão doentes (no caso do aborto)? Porque razão deveria sugerir a morte a um doente (no caso da eutanásia)? Porque razão deveria, nestes casos, estar obrigado a encaminhar esta pessoa para um médico de "ética flexível"?
Sinceramente, considero que os médicos objectores que, recusando-se a cometer os actos que reprovam, insistem em apresentar opções deste tipo, estão a ser incoerentes. Se consideram que tais opções são más, é porque as vêem como más em absoluto, ou seja, não só não resolvem mal algum como também não trazem benefícios (e podem mesmo trazer malefícios, como no caso do aborto e da eutanásia).
Ou seja, o médico objector que se recusa a dar informação desse tipo é um médico profissional e intelectualmente coerente.

«The researchers put the burden on patients to question their doctors upfront to learn where they stand before a crisis develops. But that lets doctors off the hook.»

"Off the hook"?
Esta expressão dá a ideia de que o médico se quer "safar" das suas responsabilidades, quando estas são inexistentes e não fazem parte do seu código deontológico nem das suas obrigações profissionais.

«Physicians have a right to shun practices they judge immoral (...)»

Pelo resto do texto do editorial, é quase anedótico que tenham escrito esta frase...

«(...) but they have no right to withhold important information from their patients. Any doctors who cannot talk to patients about legally permitted care because it conflicts with their values should give up the practice of medicine (negrito meu)

Veja-se bem como este editorial termina. "Legally permitted care", é o termo usado para o aborto, mas também poderia ser usada, do mesmo modo, para a eutanásia. Acho que a palavra "care" está terrivelmente mal empregue, e sobretudo no contexto do aborto ou da eutanásia (morte provocada de um ser humano) a palavra ganha contornos sinistros e macabros. "Care"?

Mas veja-se a admoestação: "should give up the practice of medicine"!
É para isto que caminhamos, dia após dia.
É mesmo só uma questão de tempo. A classe médica está, neste momento, a ser posta à prova no teste ético mais importante da História da Medicina.
Esperemos que os nossos médicos não se comportem como muitos "médicos" dos negros tempos do Terceiro Reich... Mais vale perder o emprego que a dignidade e a honra profissional e humana.