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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O baixo nível da revista Sábado

Quem compra a revista Sábado e a lê com dois dedos de testa, já se deu conta de que essa revista está a querer conquistar mercado de leitores à TV Guia e à revista Maria. Os temas de capa oscilam, "grosso modo", entre quatro categorias: sexo, Igreja Católica (normalmente nos sub-temas Opus Dei, evangelhos secretos, revelação de segredos que a Igreja ocultou, códigos secretos, negócios ocultos, etc.), destinos de férias ou restaurantes, e finalmente, sexo (que inclui a sub-categoria "vida sexual dos padres e das freiras". Este tipo de literatura faz lembrar os bons velhos tempos panfletários da Primeira República e dos "papa-padres". Hoje em dia, os "media" são o pelourinho ideal para supliciar a Igreja Católica ao abrigo do último preconceito que a nossa sociedade tolera: o anticatolicismo. O Opus Dei, nos nossos tempos, cumpre a função outrora a cargo da Companhia de Jesus: ser o alvo das teorias da conspiração e de todo o tipo de traulitadas anticatólicas. O comunicado de imprensa emitido hoje pelo Opus Dei em Portugal é um documento muito educado, civilizado, e de uma elevação tal que chega a chocar quando contrastado com a falta de seriedade e o populismo rasca da revista Sábado.

domingo, 15 de maio de 2011

Halos e milagres

Fotografia: Agência Lusa

A notícia tem dado que falar. Na passada sexta-feira, no Santuário de Fátima, no momento em que se exibia um filme sobre o Beato João Paulo II, surgiu no céu um halo em torno do Sol. Trata-se de um fenómeno meteorológico bem conhecido, causado pela refracção dos raios solares em partículas de gelo, normalmente pertencentes a nuvens do tipo cirro. O fenómeno da passada sexta-feira causou comoção em vários peregrinos que estavam no Santuário, tendo alguns exclamado espontaneamente: "milagre!"
Assim que os "media" começaram a divulgar o sucedido, logo surgiram os corifeus do materialismo dito "científico", que se apressaram a soterrar as exclamações populares sob pilhas de suposta erudição científica. Falou-se, de forma arrogante e elitista, contra o "povo ignorante" que não saberia o que é um halo ou o que causa um halo. Ora, o mais elementar bom senso obriga-me a distinguir as coisas: até acredito que uma parte do povo não soubesse explicar o mecanismo que provoca o fenómeno meteorológico em discussão. Mas já não acredito que a maioria das pessoas presentes em Fátima nunca tivesse visto um halo, dado que sendo um fenómeno relativamente raro, não é assim tão raro que uma pessoa possa viver uma vida inteira sem o ver.
Eu, que não tenho formação universitária em Meteorologia, quando vi as fotografias não hesitei nem por um instante de que se tratasse de um halo solar. Não me recordo se alguma vez vi um "ao vivo", mas certamente que já tinha visto fotografias de halos, pelo que reconheci logo o fenómeno.
Assim, do grupo de pessoas que em Fátima gritaram "milagre!", será que nenhuma delas tinha visto antes um halo solar? Duvido. E no entanto, essas pessoas gritaram "milagre!". Estarão erradas?
Os auto-proclamados sábios do nosso tempo dizem que sim. Eles pontificam que, havendo uma explicação científica, então não podemos estar perante um milagre. E aqui é que se espalham ao comprido, revelando simultaneamente uma crassa ignorância, quer filosófica quer teológica.

Em primeiro lugar, vamos às definições: a palavra "milagre" vem do latim "miraculum", cuja raiz etimológica remete para o verbo latino "miror", que significa contemplar algo de maravilhoso, de deslumbrante, algo "admirável" (palavra com a mesma raiz que "milagre"). Assim, como se vê, o povo que gritou "milagre", eventualmente desconhecendo a raiz etimológica da palavra, não a aplicou mal, pois a beleza do fenómeno de um halo solar merece ser admirada, e é de facto deslumbrante. Vê-se então o primeiro erro dos opinadores anticristãos, que pelos vistos dominam mal o latim e não sabem de onde vêm as palavras que usam no dia-a-dia. Ora é sabido que a amnésia etimológica faz mal ao raciocínio: não conhecer a raiz e o significado de uma palavra é meio caminho andado para pensar mal, ou pelo menos para não se ser capaz de transmitir correctamente uma ideia. 

Em segundo lugar, vamos à tal objecção dos opinadores anticristãos, que pretendem que um dado fenómeno com explicação científica não pode ser milagroso. Teologicamente, um milagre é entendido como um fenómeno de efeito natural (sensorial, empírico, apreensível pelos sentidos) cuja causa primeira é sobrenatural. Ora se é certo que um fenómeno sem explicação científica pode (escrevi "pode" e não "deve") ter uma causa sobrenatural, e desse modo ser realmente milagroso, já não é verdade o oposto, ou seja, que um fenómeno com explicação científica não pode ter causa sobrenatural.
Defender que a presença de uma explicação científica elimina a presença de causas sobrenaturais implica dois erros filosóficos graves, a saber:
  1. Confundir "explicação" com "causa": nem sempre são a mesma coisa; por exemplo, um médico pode explicar ao seu paciente, através de sintomas e de resultados de exames, que ele padece de cancro, sem no entanto ser necessário, para essa explicação ser eficaz, que o médico explique a causa (ou causas) que geraram o cancro;
  2. Confundir "explicação natural (ou científica)" com "explicação pessoal": o filósofo Richard Swinburne (The Existence of God, 1979) distingue-as deste modo: enquanto que uma explicação natural (ou científica) deduz (como sugeriram Hempel e Oppenheim) um determinado estado (E) a partir de certas condições iniciais (C), e de uma ou mais leis naturais (L), uma explicação pessoal resulta, segundo Swinburne, da "acção intencional de um agente racional".
Enquanto que o primeiro erro é inegável, porque é facílimo encontrar inúmeros exemplos de explicações de fenómenos que não contêm, ou não esgotam, as suas causas, sendo no entanto explicações bastante boas desse fenómeno, já o segundo erro é mais subtil...
Penso que é útil recorrer a um exemplo do dia-a-dia: se eu, depois do almoço, vou ao quiosque da Olá buscar um Magnum Sandwich (algo que, comigo, acontece com uma regularidade quase científica), e se nesse dia me apetecer filosofar enquanto como o gelado, posso chegar aos dois tipos de explicação:
  • Explicação científica: o agregado biológico da espécie "Homo Sapiens", civilmente identificado como "Bernardo Motta", efectuou uma determinada trajectória com origem no assento do local onde almoçou e com destino no local exacto de determinado quiosque da Olá; chegado ao local, o agregado emitiu padrões sonoros que foram interpretados de certa maneira pelo outro agregado da espécie "Homo Sapiens" que estava dentro do quiosque, e na sequência, esse agregado movimentou um agregado feito de farinha, chocolate, leite, aroma de baunilha, e outros aditivos, à temperatura de cerca de -6 ºC, da arca frigorífica na qual se encontrava para a depositar na mão do primeiro agregado biológico, que por sua vez movimentou da sua carteira um conjunto de chapas metálicas (moedas) em direcção às mãos do segundo agregado; nota: não quis enjoar o leitor, mas esta explicação científica poderia ter muitíssimo mais detalhe, e estar repleta de sistemas de equações diferenciais; desse modo, os meus movimentos, os movimentos do vendedor de gelados, e os movimentos de todos os objectos inanimados envolvidos na cena, seriam descritos com adequado rigor físico e matemático;
  • Explicação pessoal: depois de meditar por breves instantes no tamanho da minha barriga, e começando a visualizar mentalmente um Magnum Sandwich fresquinho, levantei-me do local onde almocei e dirigi-me, com confiança e sem vergonha, na direcção do quiosque da Olá, e comprei o gelado; e sim: comi-o sem arrependimento (o arrependimento vem mais tarde, e requer uma balança, ou um cinto que estranhamente ficou pequeno).
O que é preciso compreender, com este simples exemplo, é que isto se aplica a todas as acções efectuadas por agentes livres e racionais. Assim, tais acções, mesmo que puramente mentais, têm uma explicação científica que se pode construir com base em modelos matemáticos. No entanto, essa explicação não é suficiente para justificar a acção humana de forma completa, e a explicação pessoal entra então em campo, a par da explicação científica, e frequentemente é bem mais útil que esta!
O que também é preciso compreender é que mesmo que eu tivesse a melhor e mais precisa das explicações científicas, eu não teria nada para explicar se o meu fito último não fosse o de comer o gelado, e se eu não tivesse decidido pôr em marcha o meu plano gastronómico. A causa última do fenómeno é a minha decisão, que eu vos garanto que é tomada livremente. Outras causas segundas entram no fenómeno, e então temos toda uma panóplia de leis físicas, pois como qualquer ser humano, sou um agente dotado de um corpo físico que está sujeito às restrições e às leis que regem os sistemas físicos.
Está claro que a existência de livre arbítrio, ou seja, da faculdade que todos temos de tomar decisões livres sem estarmos preocupados com o violar de leis da Natureza, é um facto inegável (a não ser pelos loucos dos materialistas), e que nos levaria, entre outras conclusões, à necessidade da existência da alma (ou mente), ou seja, de algo de imaterial em nós, sob pena de não termos real livre arbítrio. Tem que haver algo em nós que, sendo imaterial (e desse modo, fora do âmbito das leis da Natureza), nos permita agir livremente.
Está também claro que o louco do materialista, para negar a todo o custo a existência de coisas imateriais, ou a realidade do sobrenatural, está disposto a vender o seu livre arbítrio se isso for preciso. Para escapar à evidente capacidade que todos temos de tomar decisões livres, e de o fazer a toda a hora sem violar quaisquer leis da Natureza, o materialista vê-se obrigado ao supremo tiro no pé: negar que toma decisões livres, ou afirmar que o livre arbítrio que tomamos como real é uma mera ilusão. Necessariamente, nesse triste estado intelectual, o materialista deve, em coerência, afirmar que o seu próprio materialismo deve ser explicado pelas leis da Natureza, e que portanto, ele não tem qualquer razão para pretender ter razão.

Regressemos ao dito milagre do halo, da passada Sexta-feira, em Fátima. Foi um milagre? Em sentido lato, e de acordo com a etimologia do termo, sim, foi um fenómeno admirável, de rara beleza, e portanto, "miraculoso". No entanto, no sentido teológico estrito, só haverá milagre se Deus, através da Sua permanente soberania sobre toda a Criação, incluindo as "causas segundas", ou seja, as leis da Natureza por Ele criada, decidiu que tal fenómeno meteorológico deveria ter lugar no preciso momento em que se visionava um filme sobre o Beato João Paulo II. Como sabê-lo? Como saber se Deus quis deliberadamente fazer surgir um halo solar na passada sexta-feira àquela hora? Eu julgo que não temos forma de o saber com certeza...
Mas se, no caso de agentes humanos, certamente livres e racionais (uns mais que outros), uma explicação pessoal (da intencionalidade do agente) pode coexistir com uma explicação científica, então, por analogia, não poderia dar-se o caso de um determinado fenómeno, como por exemplo este halo, ter em simultâneo uma explicação pessoal (da intencionalidade de Deus) e uma explicação científica?
Claro que pode. E é esta conclusão filosófica que, em simultâneo, coloca em cautela aqueles que afirmam com total certeza a origem divina do fenómeno, e ao mesmo tempo, refuta os que negam dogmaticamente qualquer causalidade divina por detrás de fenómenos naturais.
O envolvimento do Sol e de cristais de gelo num fenómeno visível na Cova da Iria e arredores faz-nos recordar o muito mais espantoso e feérico fenómeno do 13 de Outubro de 1917. Também esse raríssimo fenómeno tem, julgo eu, uma explicação científica, como fenómeno meteorológico que tudo indica ter sido. No entanto, só mesmo um ateu para, perante a precisão espantosa da previsão (data, hora e local: veja-se que o fenómeno começou no exacto momento em que Lúcia pediu aos presentes para fecharem os chapéus de chuva), afirmar de forma irracional: "coincidência!" É típica a tentação em recorrer à palavra "coincidência" quando não se consegue encontrar, dentro de determinada visão amputada da realidade, uma explicação plenamente naturalista para determinado fenómeno extraordinário.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Um verdadeiro mártir


Shahbaz Bhatti, Ministro paquistanês para as Minorias, foi hoje assassinado em Islamabad. Bhatti era um dos mais notórios críticos da infame Lei da Blasfémia, que pune com a pena de morte o insulto ao Islão. Bhatti, um católico, fora recebido em Setembro do ano passado por Bento XVI. No local do crime, a polícia encontrou panfletos, supostamente da autoria de um grupo paquistanês com ligações à Al-Qaeda, nos quais se ameaça de morte os críticos da Lei da Blasfémia.

Este é um exemplo de um verdadeiro mártir. Devido ao terrorismo, vemos muitas vezes a palavra "mártir" surgir nos "media" em contextos totalmente desadequados. O mártir não é um tarado que mata em nome de Deus. É o exacto oposto. O mártir é aquele que não teme perder a sua vida por amor a Deus, para ser coerente e fiel a Cristo e à verdade de Cristo até ao fim, até ao dom da sua própria vida, se necessário. O martírio não é suicídio, nem é homicídio. O martírio é o gesto último e derradeiro de amor a Deus e ao próximo.

Vítima de uma morte cruenta, por causa das suas convicções cristãs e por causa da sua batalha por leis mais justas e pelos direitos humanos, Shahbaz Bhatti merece ser contado entre os justos de Deus. Sobre estes justos, falou Cristo nestes termos: "O Rei dirá, então, aos da sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo'» (São Mateus, 25:34).



Que os anjos te conduzam ao Paraíso,
Que os mártires te acolham à tua chegada
E te introduzam na cidade santa de Jerusalém.
Que o coro dos anjos te receba,
E com Lázaro, outrora pobre,
tenhas o eterno descanso.


(coro cisterciense da abadia de Heiligenkreuz, na Áustria)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A irreverência solvente

No vampiresco blogue Jugular, atirou-se recentemente, à queima-roupa, contra o uso de títulos honoríficos.

Isto vem a propósito de mais uma mania dos nossos tempos, mania essa popularizada pelo uso "ad nauseam" das palavras "irreverente" ou "irreverência". Sabe-se lá porque voltas maradas, essas palavras ganharam estatuto. Porque raio seria bom ser-se "irreverente"?

Trata-se de mais um exemplo do uso da distorção de certas palavras para provocar distorções mentais. Do mesmo modo que se chama "homossexualidade masculina" à sodomia, ou "interrupção voluntária da gravidez" ao abortamento, chama-se "irreverente" ao mal educado.

A irreverência, como a palavra indica, é a atitude que consiste em recusar, ou não demonstrar, reverência para com alguém. Usada pontualmente, para com uma pessoa que manifestamente não a merece, a irreverência pode ser justificada. No entanto, elevar a irreverência a filosofia de vida é uma estupidez: é advogar a falta de respeito. É ser-se mal educado.

A autora do texto mostra-se muito perturbada com o uso do título "Dom" para Bispos, juntamente com outros títulos usados, desde sempre, para com figuras eclesiásticas: "Sua Eminência" (só para Cardeais, Eng. Sócrates, só para Cardeais!) ou "Sua Santidade". Claro está que a autora é anticatólica, pois este tipo de guerrilha ideológica traz a marca do anticatolicismo.

Mas, para tentar disfarçar o seu anticatolicismo primário, a autora ataca também o uso de "Dom" para o representante da Casa Real de Portugal, D. Duarte de Bragança.

Segundo a autora, quando uma pessoa faz uso destes títulos honoríficos isso implica "a sua fidelidade e obediência a essa confissão". Logo, quem trata D. Duarte por "D. Duarte" teria que ser monárquico. Ou quem trata D. Manuel Clemente por "D. Manuel Clemente" teria que ser católico.

Ora isto é absurdo. A irracionalidade é proferida pela própria autora do texto: "os títulos religiosos só fazem sentido no contexto da confissão em causa e da respectiva hierarquia". Em que ficamos?

1) Ou os títulos "fazem sentido", pois são bem aplicados, ou seja, a pessoas que os merecem

2) Ou os títulos "não fazem sentido", pois a distinção que eles implicam é artificial ou falsa

A autora não se decide.
Prefere a via irracional do relativismo. Para a autora, o cristão faz bem em tratar com reverência a figura eclesiástica, pois vê nela algo de distinto e dotado de valor.
Mas já o não cristão faz bem em não tratar com reverência a figura eclesiástica, pois não vê nela nada de distinto ou dotado de valor.

Isto é contraditório. Ou a pessoa tem algo de distintivo e de valor, ou não tem. Para ser coerente, a autora deveria dizer que é absurdo um cristão tratar uma figura eclesiástica com reverência. Pois, em coerência, a autora deveria negar a razoabilidade dessa reverência.

Há também, na autora, uma confusão fatal entre Estado e Sociedade. A Sociedade não é o Estado, nem o Estado determina o que é a Sociedade. Essa confusão fá-la pensar que a adopção pública dos títulos honoríficos de algum modo comprometeria a laicidade do Estado (no caso da reverência a figuras da Igreja) ou o seu republicanismo (no caso da reverência à Casa de Bragança).

Ora é importante afirmar que, se o Estado é laico e não confessional, a Sociedade não tem que o ser. Está por demonstrar (boa sorte...) de que forma é que a sociedade portuguesa é laica, no sentido de não cristã.

Para além de serem um sinal de educação, de respeito, de dignidade, os títulos honoríficos fazem parte ainda do protocolo. Um exemplo basta: em linguagem diplomática, um Papa trata-se sempre, mas sempre, por "Sua Santidade", e isso não compromete, de forma alguma, a pessoa que o faz com o catolicismo. Para ser coerente, a autora deveria pedir a revogação imediata das ordens honoríficas portuguesas, sobretudo das "infames" (porque de origem cristã) Ordens de Avis, Cristo e Santiago e Espada. Achará a autora, em coerência com a sua posição, que estas três ordens honoríficas em particular, pela sua matriz cristã, denigrem o laico e republicano Estado Português?

Nas ideias da autora existe ainda, latente, mais uma distorção ideológica. A autora pretende defender uma visão anti-hierárquica da sociedade, mas isso é absurdo. Sem beliscar a inerente igual dignidade de todo o ser humano (dignidade que a autora contesta, ao defender o aborto, por exemplo), a sociedade humana é hierárquica. É a única forma de ser estruturada. Um juiz tem autoridade. Um médico também. Nas várias áreas de competência, a própria idade da pessoa serve como medida de autoridade. Regra geral, numa mesma área de competência, uma pessoa com mais idade deverá ter mais autoridade, sustentada na sua experiência de vida. Independentemente da sua profissão ou formação, todas as pessoas de idade avançada merecem o respeito e a reverência das pessoas mais novas.

Isto chama-se educação.
E idealmente recebe-se em casa, desde o berço.
É na família, estrutura eminentemente hierárquica (será que as filhas da autora mandam na mãe?), que tudo começa. Isso não implica, de forma alguma, que um pai é um ser humano de maior valor que o seu filho. Implica apenas que há uma ordem, uma estrutura, uma hierarquia.

A autora defende a irreverência solvente. A igualdade artificial que tudo destrói e que deixa a sociedade em cacos. Defende que a falta de educação deve ser elevada a qualidade, a algum tipo bizarro de imparcialidade. É a abolição da ordem.

Em relação às figuras eclesiásticas, elas merecem todo o respeito, consideração e reverência, por parte de qualquer pessoa bem educada. Qualquer ateu português bem formado, bem educado e patriota (esse pecado moderno), reconhecerá na Igreja Católica uma das mais enérgicas forças da formação da portugalidade, e uma coluna inabalável da cultura nacional. Não precisa de ser católico. Basta ser bem formado. Qualidade que, é certo, escasseia a olhos vistos...

A destruição da reverência terá como consequência a destruição da ordem.
A dinâmica é semelhante à da oferta-procura na economia de mercado. Um bem muito procurado ganha valor. Um bem pouco procurado deprecia-se. Se buscarmos a reverência, teremos uma sociedade melhor, mais educada, mais civilizada, mais respeitadora. Se buscarmos a irreverência termos a anarquia.

Mas, se tivesse que apontar o erro mais perigoso do texto em questão, seria o erro da confusão entre Sociedade e Estado. É típico das derivas totalitaristas o fazer desta confusão. Não creio que a autora a faça de forma consciente. Mas certamente que a sua "ética de esquerda" ficaria abalada se a dita autora se desse conta do totalitarismo que está, na prática, a advogar, ao querer, coercivamente, igualar a sociedade (longe de ser laica) ao Estado, ou seja, impor à sociedade (longe de ser laica) o laicismo de Estado.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Viver na ilusão

A Palmira Silva, no final de Novembro, rejubilou com a "cache" jornalística acerca das famosas declarações do Papa Bento XVI sobre o preservativo, no recente livro-entrevista de Peter Seewald intitulado "Luz do Mundo". Como sempre, reagindo a quente, e suportando-se apenas em notícias, Palmira comentou as declarações do Papa, por ela interpretadas como legitimando o uso do preservativo no combate à SIDA, da seguinte forma: "nunca se viu tamanha revolução na doutrina do Vaticano", "drástica alteração de posição em relação ao preservativo" e ainda "reviravolta revolucionária no combate à SIDA". A coisa chegou ao ponto de a Palmira chegar a escrever: "urge a aplicação no terreno desta nova doutrina". Apesar de que a doutrina que ela queria ver aplicada não era doutrina cristã, mas sim uma sua distorção, é bizarro ver um ateu apoiar a aplicação, "no terreno", de uma (qualquer) doutrina cristã.

Quando eu a tentei avisar de que ela estava errada na sua leitura distorcida das palavras do Papa, tive esta resposta: "recomendo que releia as explicações do Vaticano".

Pois, com algum atraso, mas com muito boa vontade, foi o que eu fiz ontem à noite. Mas eu não sou culpado pelo atraso, pois apenas ontem à noite saiu a Nota da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a banalização da sexualidade a propósito de algumas leituras de «Luz do Mundo»

Eis alguns excertos, mas recomendo a leitura da Nota na sua totalidade:


"Algumas interpretações apresentaram as palavras do Papa como afirmações em contraste com a tradição moral da Igreja; hipótese esta, que alguns saudaram como uma viragem positiva, e outros receberam com preocupação, como se se tratasse de uma ruptura com a doutrina sobre a contracepção e com a atitude eclesial na luta contra o HIV-SIDA. Na realidade, as palavras do Papa, que aludem de modo particular a um comportamento gravemente desordenado como é a prostituição (cf. «Luce del mondo», 1.ª reimpressão, Novembro de 2010, p. 170-171), não constituem uma alteração da doutrina moral nem da praxis pastoral da Igreja.
(...)
A propósito, o Santo Padre afirma claramente que os preservativos não constituem «a solução autêntica e moral» do problema do HIV-SIDA e afirma também que «concentrar-se só no preservativo significa banalizar a sexualidade», porque não se quer enfrentar o desregramento humano que está na base da transmissão da pandemia.
(...)
Alguns interpretaram as palavras de Bento XVI, recorrendo à teoria do chamado «mal menor». Todavia esta teoria é susceptível de interpretações desorientadoras de matriz proporcionalista (cf. João Paulo II, Encíclica Veritatis splendor, nn.os 75-77). Toda a acção que pelo seu objecto seja um mal, ainda que um mal menor, não pode ser licitamente querida. O Santo Padre não disse que a prostituição valendo-se do preservativo pode ser licitamente escolhida como mal menor, como alguém sustentou. A Igreja ensina que a prostituição é imoral e deve ser combatida. Se alguém, apesar disso, pratica a prostituição mas, porque se encontra também infectado pelo HIV, esforça-se por diminuir o perigo de contágio inclusive mediante o recurso ao preservativo, isto pode constituir um primeiro passo no respeito pela vida dos outros, embora a malícia da prostituição permaneça em toda a sua gravidade. Estas ponderações estão na linha de quanto a tradição teológico-moral da Igreja defendeu mesmo no passado."


Como se vê, nada mudou na doutrina da Igreja. Como todo o observador atento e instruído sempre tinha dito e defendido.

Antes de prosseguir, que fique claro que este meu "post" não materializa um ataque pessoal à Palmira Silva. Ela foi apenas uma de muitas pessoas que, profundamente desconhecedoras da realidade cristã, leram nas palavras do Papa aquilo que tanto queriam ler, em vez de lerem nas palavras do Papa o que o Papa realmente disse. Por esse mundo fora, e em Portugal também seria fácil encontrar centenas de exemplos, as vozes levantaram-se em júbilo: uma parte importante da moral cristã mudara! Um jornal chegou a exclamar: "Pope OK's condoms!". Surreal...

Claro que isso era impossível. Qualquer observador e conhecedor atento ao cristianismo, independentemente de ser cristão, agnóstico ou ateu, teria duvidado, imediatamente, da interpretação errada que os "media" propagaram. Por isso, o meu objectivo não é um ataque pessoal à Palmira. É um objectivo bem mais modesto, mas mais dirigido às ideias em si e não às pessoas. É que um anticristianismo suportado na ignorância não será eficaz, nem hoje, nem amanhã, nem nunca. De forma superficial, eu poderia ficar satisfeito quando muito do anticristianismo que se faz hoje em dia é deste calibre, feito com base na ignorância. Mas não fico. Porque a ignorância é contagiosa. Porque muita gente leu as leituras erradas das palavras do Papa. Porque muitos leram as observações ignorantes daqueles que se julgam conhecedores destes temas. Mas poucos, muito poucos, irão ler a importante Nota da Congregação para a Doutrina da Fé. Quem já vive segundo padrões morais errados vai ficar muito satisfeito com esta aparente "reviravolta" na moral da Igreja. E é tentador preferir uma mentira cómoda a uma verdade incómoda.

O erro tende a propagar-se como um vírus. Já a verdade é tramada de expor e defender.
Sinceramente, eu acredito que a Palmira Silva, e com ela muita gente, acreditou que a posição da Igreja tinha mudado. Por isso, não vejo má vontade alguma na reacção dela, e de muitos outros, a esta "polémica". Mas é uma reacção triste. É viver na ilusão, e levar outros com ela nessa ilusão.

É tempo de as pessoas apaixonadas pela causa anticristã aprenderem a lição: o cristianismo é uma coisa complexa, e não se ataca convenientemente um adversário sem o conhecer. A ignorância é uma espada romba. Pior: a ignorância pode ser um tiro no pé. Como neste caso.

Aproveito ainda esta oportunidade para lançar um aviso: aos anticristãos deparados com este tiro no pé, não vale a pena enveredar pela via clássica, pois ela já é velha e gasta. Refiro-me à tirada clássica da dicotomia anticristã que opõe um "Papa bom" a um "Inquisidor-mor mau". Essa tirada usou-se à saciedade aquando do papado de João Paulo II: o Papa era o "bom", e Ratzinger, o "Inquisidor-mor", era o mau da fita, que estava sempre a estragar as intenções boas do Papa João Paulo II.

Algum anticristão mais distraído poderia tentar essa jogada velha: Bento XVI, coitado, teria tentado mudar a doutrina arcaica da Igreja, mas aquele "Inquisidor-mor" malvado do William Levada teria destruído, com esta Nota repressiva, as intenções boas de Bento XVI. Mas isto, provavelmente, não vai acontecer. Porque poucos anticristãos sabem quem é William Levada...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Acreditar na existência do Diabo é irracional?

O Ricardo Silvestre acha que sim. Insistindo na generalização de determinados aspectos de determinadas religiões, o Ricardo considera que a crença católica na existência do Diabo é uma "irracionalidade religiosa". A generalização é perigosa, pois há muitas religiões que não acreditam na existência do Diabo, e é sempre arriscado adjectivar em bloco "as religiões" quando elas são muito diferentes entre si.

O que o Ricardo critica, neste seu texto, é a alusão recente de Bento XVI a Satanás como estando na origem do mal, alusão nada surpreendente, dado que a crença na existência do Príncipe do Mal é essencial ao credo cristão. O Ricardo acha irracional, essa crença.

O que não está explicado, no texto do Ricardo, é o porquê. Porque é que o Ricardo acha irracional acreditar que o Diabo existe? Será que é porque ele não se vê? É porque se trata de uma hipótese cientificamente indemonstrável? Ora bolas, mas o princípio lógico da não-contradição também é algo que não se vê e que não se demonstra cientificamente, e no entanto, é bem real.

Onde é que está a irracionalidade?
Será que se apoia no materialismo ateu? Já se sabe que os ateus são, regra geral (não todos), materialistas, ou seja, postulam a inexistência de seres imateriais (obviamente, a energia aceitam-na como existente, mas matéria e energia são aspectos de uma mesma realidade material).
Mas dado que não se demonstra cientificamente a inexistência de seres imateriais, só restaria ao ateu demonstrar a irracionalidade da existência de seres imateriais. E é aí que todo o ateu falha, quer por não tentar essa demonstração, quer não ter sucesso quando a tenta fazer.

Na Suma Teológica, o "expert" de razão cristã, São Tomás de Aquino, trata da questão da existência de seres incorpóreos, ou seja, imaterais:

«É necessário admitirem-se certas criaturas incorpóreas. Pois, o que Deus principalmente visa, nas coisas criadas, é o bem, que consiste ao assemelhar-se com Ele. Ora, a perfeita assimilação do efeito com a causa se dá quando aquele imita a esta segundo a virtude pela qual a causa produz o efeito; assim o cálido produz o cálido. Ora, Deus produz a criatura pelo intelecto e pela vontade, como já ficou dito. Donde, para a perfeição do universo se requer existam algumas criaturas intelectuais. Inteligir, porém, não pode ser ato do corpo, nem de nenhuma virtude corpórea, porque todo corpo está situado no lugar e no tempo. Por onde, é necessário admitir-se, para que o universo seja perfeito, a existência de alguma criatura incorpórea. Mas os antigos, ignorando a virtude intelectiva e não distinguindo entre o sentido e o intelecto, opinaram que nada existe no mundo, fora o que pode ser apreendido pelos sentidos e pela imaginação. E como a imaginação só percebe o corpo, opinaram que nenhum ente, além do corpo, pode existir, como diz o Filósofo. Donde procedeu o erro dos Saduceus dizendo que não há espírito (At 23, 8). Mas o fato mesmo de ser o intelecto superior ao sentido prova racionalmente que há certos seres incorpóreos compreensíveis só por aquele.» - Artigo 1º, Questão 50 da Primeira Parte.

Que há de irracional nisto?
Trocado para linguagem moderna, São Tomás explica que o intelecto, também presente no Homem, não pode ter origem material. Filosoficamente, isso está bem demonstrado. É impossível, filosoficamente, explicar aspectos centrais do intelecto humano, como a capacidade de raciocinar, a capacidade de pensamento abstracto, ou ainda o livre arbítrio, se não se postular que o ser humano é um "composto" de matéria e de intelecto. No que diz respeito ao cérebro material, este é necessário para o inteligir do Homem (como via para processar a informação sensorial, e também como "banco de memória"), mas não seria suficiente para explicar o intelecto. O cérebro, sendo material, não chega para explicar todas as faculdades do intelecto humano, pelo que tem que existir algo de imaterial no ser humano para as explicar.

Assim, é fácil, pensando filosoficamente, chegar à conclusão de que há, no ser humano, um aspecto imaterial que está presente, pelo menos, no seu intelecto. São Tomás, partindo do conceito cristão de Deus, faz o raciocínio certo: se Deus, puro e perfeito intelecto, cria as criaturas pelo Seu intelecto e vontade, então, na criação de algumas das criaturas poderá haver uma perfeita ligação entre causa e efeito, sendo que esse efeito (a criação das criaturas mais perfeitas), terá que ter algo semelhante à causa. É assim racional pensar que existirão criaturas dotadas de intelecto e de vontade, que dessa forma espelhem o intelecto e a vontade de Deus. O ser humano é uma dessas criaturas. Adicionalmente, tem na sua existência a componente corpórea. Mas porque não existiriam criaturas de intelecto e de vontade, mas sem a componente corpórea? Chama a tradição, a essas criaturas, "anjos".

Que há então de irracional nisto?
Os anjos, seres dotados de intelecto e de vontade, têm liberdade, uma das propriedades que decorrem da vontade. Terão maior liberdade quanto mais perto estiverem da perfeição divina, pois Deus é sumamente livre. Entenda-se aqui que, apesar de ser necessária a liberdade para cometer o mal, essa mesma opção traz como consequência a escravidão do agente moral, pois o acto maligno é um passo que reduz a liberdade da criatura. Os anjos terão também maior perfeição moral e espiritual quanto mais pertos estiverem de Deus, pois só Deus é sumamente perfeito.

Que é, então, um demónio?
É um anjo que usa a sua vontade livre para desobedecer a Deus.
Que é, então, o Diabo?
É, do conjunto dos demónios, aquele que exerce a liderança e a predominância nessa desobediência a Deus.

Isto é irracional? De que forma?
Muitos ateus vivem presos a uma visão mitológica do cristianismo. Como raramente estudam o cristianismo, ou a teologia cristã, ou mesmo conceitos elementares de Filosofia, agem sobre conceitos distorcidos de cristianismo. Já dizia o Papa João Paulo I:

«Io sono stato molto vicino, come vescovo, anche a quelli che non credono in Dio. Mi son fatto l'idea che essi combattono, spesso, non Dio, ma l'idea sbagliata che essi hanno di Dio.» - Papa João Paulo I, Insegnamenti di Giovanni Paolo I, Libreria Editrice Vaticana, Roma, 1978, citado aqui.

Devem supor o Diabo como um qualquer animal mitológico. Não vêem o Diabo como um ser incorpóreo dotado de intelecto e de vontade livre. Nem sequer entendem que a existência de seres incorpóreos dotados de intelecto e de vontade livre é algo de filosoficamente racional. Mesmo sem entrar no terreno da Teologia, a questão é filosófica e é racional.

Outra coisa que raros ateus chegam a entender, porque simplesmente não procuram entender, é a relação entre Liberdade, por um lado, e Bem e Mal, por outro.
O Bem e o Mal só fazem sentido no contexto da Liberdade. Só quem é livre é capaz de fazer o Bem. Só quem é livre é capaz de fazer o Mal. A própria existência de algo a quem podemos chamar "Bem" ou "Mal" requer a existência de um ser necessário e perfeito, Deus, cuja vontade serve de normativa do "Bem", sendo que a desobediência a esta vontade constitui o "Mal" propriamente dito, como categoria de actos morais errados.

Uma pessoa que peca conscientemente, só o faz porque é livre. Associada a esta liberdade, está a inteligência. Apenas os seres dotados de razão são capazes de tomar decisões livres, ou seja, decisões com valor moral.

Na raiz do acto mau, está a liberdade do Homem. Dado que a própria ideia peregrina de desobedecer a Deus foi tida por uma criatura imaterial, antes de o Homem sequer existir, o Mal surgiu na Criação antes do Homem, e surgiu apenas graças à liberdade que Deus deu às primeiras criaturas inteligentes que criou.

Quando o Diabo, ou outro demónio, sugere, muitas vezes de forma imperceptível, a um ser humano a prática de um mal, essa sugestão é intelectual. O ser humano não ouvirá nada, não verá nada. Simplesmente, nesses casos, é sugestionado ao nível intelectual. Mas o Diabo não tem poder para forçar um ser humano a pecar. O ser humano que, sob sugestão maligna, comete o mal, está na realidade a colaborar com o Mal. Mas é uma colaboração livre. O ser humano continua "ao volante" da sua vontade, e será responsável pelos seus actos conscientes. A própria noção de pecado pressupõe consciência e liberdade na acção pecaminosa. Se alguém é forçado a cometer algo contra a sua vontade, não se pode falar em pecado cometido por essa pessoa.

Note-se que, nos actos humanos maus, nem todos serão influenciados ou motivados por espíritos malignos. Não se deve ir de um extremo (supor a inexistência, ou negar a influência destes seres) a outro (supor que todos os actos humanos malignos decorrem sob influência demoníaca).

Quando tento explicar o que é o Mal a um ateu, ou mesmo a um cristão que nega a existência do Diabo, recorro sempre ao filme 8 Milímetros.



O filme retrata a investigação conduzida por Tom Welles (Nicolas Cage), que a mando de uma viúva que encontrou, no legado do seu falecido marido, um horroroso filme (em película de 8mm) contendo cenas de violação e homicídio, procura os autores criminosos do referido filme. Na cena acima, Tom Welles seguiu a sua investigação até à casa do assassino, o "actor principal" do filme porno-homicida que a viúva lhe mostrou. Ele vai defrontar o assassino.

Na cena final, acima apresentada, o Mal, e o seu efeito no ser humano, estão bem retratados nas palavras da personagem pervertida e criminosa, o sinistro "The Machine", que no final do seu duelo com o investigador Tom Welles, revela-lhe porque razão ele viola e asssassina pessoas inocentes:

"There's no mystery. The things I do, I do them because I like them... because I want to!"

Não encontraria, facilmente, melhor exemplo da ligação profunda entre a prática do mal e a liberdade humana. Como esta história ficcional tão bem exemplifica, muitas vezes não há razões para o mal. Não é a existência do Diabo que é irracional, mas sim a prática do mal. Praticar o mal é irracional, mas é algo bem real, como todos sabemos.

Nesta cena cinematográfica notável, conseguiu-se mostrar a crueza do mal. O assassino parece-se com uma pessoa normal, vulgar, que veríamos na rua sem a temer, sem supormos que ele seria capaz dos actos que comete. Logo no início do excerto acima apresentado, vemos a mãe do assassino (porventura inocente dos crimes do filho) a entrar num autocarro de uma "Faithful Christian Fellowship". Já no final do excerto, durante a luta com Tom, e logo a seguir a retirar a máscara, diz o assassino ao estupefacto Tom: "What did you expect? A monster?". O detalhe magnífico da colocação atrapalhada de uns óculos "inofensivos" confere ao assassino umas aparentes fragilidade e inocência que parecem paradoxais.

Esta cena lembra-nos de que todos podemos praticar o mal, de que não estamos, de todo, imunes à prática do mal. Que a prática do mal, como acto que nasce do intelecto, pode não ter sinais externos facilmente detectáveis: não se julga a bondade ou maldade de uma pessoa pela sua aparência. Ao mesmo tempo, mostra-nos a gratuitidade do mal: o criminoso do filme, "The Machine", fez os crimes porque queria, e só por isso. Ele mesmo diz que não foi maltratado na infância, que não foi abusado sexualmente quando era menor:

"I wasn't beaten, I wasn't molested. Mommy didn't abuse me. Daddy never raped me."

Ele, numa penada, erradica as populares teses sociológicas (que remontam a Rousseau) que fazem do Homem um ser bom, mas que a sociedade por vezes perverte e transforma num ser mau. Este filme mostra o Mal na sua forma crua e bem real. O Mal, não como o produto de uma sociedade degenerada (que, obviamente, pode influenciar ou contextualizar certos actos malignos), mas sim como algo que nasce da liberdade de todo o ser humano.

Deste ponto de vista, há algo de genuinamente satânico, de demoníaco, no comportamento da personagem "The Machine". Não quero com isto dizer que será necessário um assassino deste calibre estar possuído pelo Diabo. Claro que pode estar, mas também pode não estar. Mesmo que não seja o caso de uma possessão demoníaca, a opção livre de um assassino cruel pela via do Mal é algo de genuinamente satânico e demoníaco, pois consiste, precisamente, em cometer o Mal pelo Mal em si mesmo. Pela supremacia da vontade livre sobre a vontade de Deus. Nestes casos, a vontade sobrepõe-se à Justiça, à Razão, à Verdade. A vontade é elevada a um estatuto primordial. A superação da dicotomia entre Bem e Mal, pelo triunfo da vontade humana, é o caminho proposto na modernidade por Nietzsche, mas trata-se do convite de sempre, do convite da serpente:

A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: "Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis"». A serpente retorquiu à mulher: «Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal»., Génesis 3, 1-5.

Até ao dia em que o Homem, pela primeira vez, agiu mal, o Homem não conhecia a distinção entre Bem e Mal. É interessante constatar que Adão e Eva não tinham especial interesse pelo fruto da Árvore do Bem e do Mal até que a serpente lhes prometeu vantagens. A serpente fez nascer em Adão e Eva a vontade de desobedecer a Deus para obterem proveito próprio (neste caso, a sabedoria prometida pela serpente). A serpente sabia bem o que fazia: o essencial não era, de todo, a maçã, ou outro fruto qualquer. O essencial era desobedecer a Deus. Porquê? Porque sim, porque para o Diabo, essa possibilidade é razão suficiente para motivar a transgressão.

Finalmente... porque razão quer Deus criaturas livres?
Porque razão deixou Deus que todas as coisas más acontecessem, e aconteçam?
Por causa do Amor. O amor só é tudo o que pode ser quando é exercido por criaturas livres. O Mal é, assim, um efeito indesejado por Deus, quando Este quer criar criaturas que O amem livremente, e sinceramente. A permissão da existência do Mal é um preço que Deus paga, e bem alto, em nome do Amor. Se Deus impedisse todo o Mal, e teria poder para isso, teria que eliminar, ou pelo menos mutilar seriamente, a liberdade das Suas criaturas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Há ateus que não se enxergam

Face à crescente onda de violência anticristã, há ateus que reagem assim:

SOS chrétiens !

E outros que reagem assim:

Totalitarismos e vitimização: a invenção da cristofobia

No primeiro caso, o ateu francês Bernard-Henry Lévy conclui:

«Permis de tuer quand il s’agit des fidèles du « pape allemand » ? Permis, au nom d’une autre guerre des civilisations non moins odieuse que la première, d’opprimer, humilier, supplicier ? Eh bien, non. Il faut, aujourd’hui, défendre les chrétiens.»

Que faz ele?
Simples: defender a ética. Bernard-Henry Lévy considera que matar seres humanos inocentes está mal. E tem razão. Mesmo se esses seres humanos inocentes forem fiéis seguidores do "papa alemão".

No segundo caso, a ateia Palmira Silva dispara:

«Esta nova onda de cristianovitimização que invade o espaço etéreo cristão (...) foi amplificada recentemente quer pela condenação à morte por blasfémia de Asia Bibi no Paquistão quer pelo ataque da al-Qaeda à Catedral de Nossa Senhora da Salvação em Bagdad, que vitimou 70 crentes.»

O massacre de 31 de Outubro é, aos olhos desta ateia militante, um factor ampliador da tal "onda de cristianovitimização", essa mania cristã de inventar mártires. Nojento.

Para mais, a autora nem se dá conta da "matemática" perversa que, de forma subliminar, está a defender:

«Ou que, numa guerra que já matou pelo menos um milhão de pessoas, de acordo com os únicos estudos peer-reviewed, dizer «Our people in Iraq today are persecuted, threatened and suffer martyrdom. Since 2005, 900 Christians have been killed, among them five priests and the archbishop of Mosul» é um insulto à memória das centenas de milhares que morreram nesta guerra abominável.»

É evidente que uma só morte de um inocente é uma morte horrorosa e injusta. É evidente que gritar bem alto uma só injustiça destas não ofende coisíssima nenhuma a memória de outras vítimas de injustiça. Será que os seres humanos se medem ao quilo? Raio de moral...

Juntamente com pontapés na moral, surge ainda este pontapé na razão:

«Claro que é completamente irrelevante que seja exactamente a religião a causa de ambas as barbáries»

É, obviamente, um disparate dizer que a religião, sequer a islâmica, foi a causa do massacre dos católicos siríacos na igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Badgade, no passado dia 31 de Outubro. A causa desse massacre está bem identificada: uma matilha de assassinos da al-Qaeda, que dificilmente será classificada por alguém racional como sendo uma organização religiosa.

Mas desçamos à suposição, para facilitar a desmontagem da anti-lógica da Palmira. Suponhamos que, em vez de sequazes da al-Qaeda, tínhamos a entrar pela igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Badgade, um séquito de monges beneditinos armados até aos dentes. Assim, em vez de os cristãos de Bagdade serem massacrados por terroristas da al-Qaeda, sê-lo-iam por monges beneditinos.

Diria a Palmira que a causa do crime era a religião? Causa por via das vítimas, ou causa por via dos atacantes? Qual seria a religião causadora da barbárie? O cristianismo dos que assistiam à missa (mais valia estarem em casa, se fossem ateus), ou o cristianismo dos atacantes? Seria uma eventual divergência teológica uma "causa religiosa" na anti-lógica da Palmira? Que pessoa mentalmente sã carrega num gatilho com base numa divergência teológica? Há contradição mais gritante?

Na verdade, não é assim que se usa o cérebro.
A barbárie de 31 de Outubro não se explica pela (suposta) religião islâmica dos terroristas que invadiram aquela igreja de Bagdade. A barbárie explica-se pelo facto de que aqueles terroristas eram bárbaros, muito, mas muito antes de pretenderem ser muçulmanos. Assim, a causa da barbárie está na barbaridade dos assassinos. Na sua crueldade. E aí, sociologicamente, encontraríamos o fio condutor que nos levaria a uma longa cadeia causal. Se há muçulmanos que não matam pessoas, e eles existem, então o Islão não é a causa das barbáries que alguns cometem em seu nome.

Um frade franciscano ficou conhecido, na Segunda Guerra Mundial, pela sua requintada crueldade nos campos de concentração da Croácia. Será que a Palmira Silva considera que a formação fransciscana deste frade foi a causa para os seus actos cruéis?

Quando um cristão mata um inocente, e isso é fenómeno raro (estatisticamente mais raro do que o fenómeno de um ateu matar um inocente), fá-lo em traição aos princípios cristãos, e não numa relação de causa-efeito entre os princípios cristãos e o gesto criminoso.

Isso toda a gente sabe. Os honestos, como Bernard-Henry Lévy tiram daí as devidas ilações para os gestos e as atitudes do dia-a-dia. Mesmo que, em nome da coerência e dos princípios éticos, um ateu tenha que se ver conduzido, pela sua consciência, a agir em defesa de cristãos perseguidos. Como fez Lévy.

A defesa do ateísmo pode ser feita de forma civilizada, cordata, com base em princípios éticos. Não é o "vale tudo". A guerrilha anticristã não deve falar mais alto do que a defesa dos direitos humanos. Qualquer cristão digno desse nome deveria ter vergonha de si mesmo se não colocasse em segundo plano o debate fé-ateísmo para vir em defesa de um ateu inocente vítima de um assassinato bárbaro e cruel.

PS: Aqui fica uma vénia ao nosso caro Jairo, que nos alertou para o "post" inacreditável da Palmira Silva.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Falsos mártires e mártires verdadeiros


Certa corrente de ateísmo fanático sustenta que a religião é a causa, ou uma das principais causas, da violência no Mundo. Os seus porta-vozes advogam o fim da religião como forma de provocar o fim da violência. Os facínoras da Al-Qaeda, essa organização de malfeitores assassinos, parecem dar razão a essa corrente de ateísmo fanático, pois os seus actos violentos surgem sempre travestidos de religião, da religião islâmica.

Domingo, 31 de Outubro de 2010.
O dia do banho de sangue na igreja siríaco-católica de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Bagdade. Uma matilha de assassinos da Al-Qaeda cometeu, nesse dia, bárbaros crimes em nome do Islão. Somente um observador muito distraído é que acharia que a Al-Qaeda é uma organização religiosa. Evidentemente, é uma organização política e os seus motivos são políticos. Mais concretamente, são objectivos terroristas.

O que urge, nos dias que correm, é fazer ver ao Ocidente que o martírio cristão não parou, e não mostra sinais de parar. Contra a apatia ocidental, é preciso chamar a atenção para os crimes diários contra cristãos.

Um dos mais negros e brutais exemplos é o do massacre de dia 31 de Outubro.
Marco Pedersini escreveu um relato impressionante. Esse relato pode ser lido de várias formas. A leitura mais imediata dá-nos um retrato de horror, de crimes hediondos, e mostra-nos cenas de crueldade animalesca por parte dos facínoras da Al-Qaeda. Mas há uma leitura mais profunda...

Os assassinos retratam-se como sendo mártires. Dizem que, quando se fizerem explodir, irão para o Paraíso. Rezam a Alá no meio dos corpos de homens, mulheres, crianças e bebés que assassinaram sem piedade. "Infiéis", chamaram-lhes. Seria um insulto chamar "cães" a esses assassinos, pois a espécie canina não o merece, nem de perto nem de longe. A melhor forma de apelidar esses assassinos, e a mais realista, é chamar-lhes de "demónios", pois de tal forma estavam possuídos por forças demoníacas que estavam privados de tudo o que é realmente humano.

Nessa leitura mais profunda dos acontecimentos do massacre de 31 de Outubro, surge uma luminosa lição para os Hitchens, para os Dawkins, para os Harris, enfim, para os patetas do neo-ateísmo fanático: a lição acerca dos falsos mártires e dos mártires verdadeiros.

Leia-se com calma, sem pressas, o texto de Pedersini. Veja-se a diferença entre a atitude dos assassinos e das vítimas. Veja-se, sobretudo, o amor infinito a Cristo, esse amor que não pode ser sufocado, nem por balas, nem por sangue, nem por explosivos.

Nesse Domingo, antes do início do massacre, quando os fiéis assistiam, tranquilamente, ao início da Missa dominical, escutaram da boca de um dos prelados a seguinte passagem do Evangelho segundo São Mateus, capítulo 16:

Perguntou-lhes de novo: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Tomando a palavra, Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.»
Jesus disse-lhe em resposta: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu. Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.»


Nesse Domingo, pouco depois de escutarem este santo evangelho, aquela comunidade de católicos iraquianos viu abrir-se, à sua frente, as portas do Abismo. O sangue correu. Mas o amor, como sempre, venceu.

Três nomes destacam-se da cena trágica: os dos padres Wasim, Rafael e Thair. Sacerdotes dignos e heróicos, verdadeiros pastores do seu rebanho. No dia da sua ordenação, entregaram as suas vidas sob a forma do sacerdócio. No dia 31 de Outubro entregaram as suas vidas por amor a Deus e aos seus paroquianos. Essa foi a sua vitória sobre os assassinos. Essa é a forma de Cristo vencer.

sábado, 27 de novembro de 2010

Sim, sim, não, não

«Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal», Evangelho segundo São Mateus, 5, 37.

Dada a confusão que grassa em alguns meios anticatólicos, cá vai um rápido "catholic doctrine for dummies":

1. A moral católica é contra o preservativo?
Não.
A moral (em geral, não só a católica) incide sobre actos e não objectos.

2. A moral católica é contra o uso do preservativo para fins contraceptivos?
Sim.
A moral católica considera imoral qualquer tipo de acção que vise impedir a natural fertilidade humana.

3. A moral católica é contra as relações sexuais fora do contexto do matrimónio?
Sim.

A moral católica considera que a sexualidade humana tem a sua expressão natural e legítima apenas no contexto de uma união matrimonial fiel entre um homem e uma mulher: no amor total, fiel, exclusivo e fecundo entre um homem e uma mulher.

4. O Papa considera errado o uso do preservativo no combate à SIDA?
Sim.


4.a) Porque não é eficaz a combater o fenómeno: não reduz, e até aumenta, a frequência dos comportamentos de risco

4.b) Porque a SIDA dissemina-se, sobretudo, pela promiscuidade sexual, sendo que a moral católica considera imoral essa promiscuidade (ver ponto 3); a Igreja defende que o combate à SIDA passa pelo combate à promiscuidade sexual.

5. A moral católica considera imoral o uso de preservativos por prostitutas ou prostitutos?
Sim.


5.a) Porque a moral católica considera imoral a prostituição, e todo o sexo fora do contexto do matrimónio

5.b) Porque a moral católica também considera imoral o objectivo contraceptivo que possa existir nesse uso do preservativo

6. Bento XVI considerou justificado o uso de preservativos por prostitutas ou prostitutos?
Não.

Bento XVI considerou que, em certos casos, "a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer". Se o Papa falou em "um primeiro passo para a moralização" é sinal de que esse primeiro passo ainda não é moral, e que o comportamento do prostituto ou da prostituta é moralmente inaceitável.

7. Mas Bento XVI não usou a palavra "justificado" ao descrever a utilização do preservativo por um prostituto"?
Não.


7.a) Há um problema com a tradução do texto original alemão para português; a frase original, em alemão, é "Es mag begründete Einzelfälle geben, etwa wenn ein Prostituierter ein Kondom verwendet...", de onde se retira a palavra "begründete" que se deve interpretar como "fundamento"; ora "fundamento", no original, retira à frase todo o peso que ela teria se a palavra fosse "justificado", uma palavra com forte conotação moral; o fundamento ao qual o Papa alude está relacionado com esse uso ser "um primeiro passo para a moralização" (ver ponto 6).

7.b) Se o Papa diz, logo a seguir no texto, que "É evidente que ela [a Igreja] não a considera uma solução verdadeira e moral", então seria uma contradição ler a palavra "fundamento" como se fosse uma justificação moral, pois se uma solução (o uso do preservativo) não é nem verdadeira nem moral, não pode ser justificada.

PS: Ler o excelente artigo do Padre Joseph Fessio acerca deste problema de tradução: Guestview: Did the Pope “justify” condom use in some circumstances?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Adão e Eva

Num "post" do Ludwig, intitulado Treta da semana: o que a ciência não responde, vai um debate aceso acerca de um tema sem sentido: lá, a certa altura, discute-se se a Igreja Católica defende ou não defende a existência histórica de Adão e Eva.

Surpreende-me que, nesta era da Internet, se ande a discutir o sexo dos anjos horas e dias a fio, e ninguém se dê ao trabalho de uma simples pesquisa. É muito fácil encontrar a afirmação categórica do Magistério da Igreja acerca da existência histórica de Adão e Eva. O papa Pio XII, juntando-se a 2.000 anos de Magistério, voltou a reforçar esse ponto CENTRAL da doutrina cristã na sua encíclica Humanis Generis:

«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»

Ver: Encíclica Humanis Generis, de Pio XII (12 de Agosto de 1950).

Por isso, é inútil e infértil estar a discutir se os católicos acham ou não que Adão existiu. É por demais evidente que o catolicismo afirma isso categoricamente.

Querer negar isto é querer negar um facto. E não é preciso que concordem com a Igreja. Já seria um progresso no debate público se as pessoas que discordam da Igreja começassem por se dar conta do que é que a Igreja realmente diz.

É ainda totalmente inútil discutir se há ou não cristãos que não acreditam na existência histórica de Adão. É evidente que há cristãos que não acreditam nessa existência. E daí? O cristianismo não é a soma das fés pessoais dos cristãos. O cristianismo é hierárquico, como o próprio Cristo quis que fosse. O Magistério ensina doutrina. Não doutrina que inventou, mas sim doutrina que recebeu de Cristo. Logo, o cristianismo não é uma "democracia doutrinária", no qual a doutrina de todos seria um meio termo (uma média) da soma das ideias de todos os cristãos.

Nestas coisas, o que interessa não é se padre A ou católico B negaram Adão. Haverá sempre gente assim, como há comunistas fervorosos, filiados no Partido e tudo, e que vivem toda a vida com propriedade privada. A incoerência não traz informação nova.

O que interessa é:

1) A Igreja é hierárquica, ou seja, propõe doutrina de forma hierárquica? A resposta é SIM, e o proponente da doutrina é o Papa, e os Bispos unidos a ele

2) A Igreja, como mestra de doutrina, encabeçada pelo Papa e pelos seus Bispos, ensina que Adão e Eva têm existência histórica real? A resposta é SIM

O resto é conversa inútil. Só poderemos começar a debater a sério, católicos com não católicos, se todos soubermos de que é que estamos a falar.

Uma última nota, de teor racional... Visto que Cristo veio resgatar a Humanidade do pecado, pecado esse que a Igreja defende como sendo herdado de Adão e Eva, os primeiros seres humanos a pecar, é estranha a lógica que pretende que, sem Adão e Eva para pecar, ou seja, sem primeiro pecado, e portanto, sem pecado herdado (Pecado Original), que pecado viria Cristo resgatar?

É inconsistente ser cristão e negar o Pecado Original. Se sem Adão e Eva não há Pecado Original, então o cristão não pode negar Adão e Eva. Trocado por miúdos, é o que Pio XII diz no trecho que citei.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Papa e os ateístas

Mesmo comentadores ateus moderados e ponderados com o Ludwig caem, frequentemente, numa situação de falta de objectividade quando se trata de criticar a Igreja Católica.

Há um pressuposto, um "parti pris" anticatólico, que tolda a visão mesmo do ateu mais esclarecido e ponderado.

No seu blogue, o Ludwig criticou recentemente as palavras do Papa Bento XVI na sua visita ao Reino Unido. E é espantoso verificar como, num texto que o Ludwig intitulou de Treta da semana: papal disparatismo, o Ludwig se entala em várias tretas e disparates. Sem dúvida, todos não desejados. Não se trata de questionar a honestidade do Ludwig, mas sim a sua falta de objectividade quanto se trata de comentar este tipo de temas.

Vejamos disparate a disparate.
Ou se preferirmos, vejamos treta a treta...

1. Bento XVI teria classificado o nazismo de ateu

Este é, claramente, um problema de leitura. Ou se quisermos, de interpretação do texto lido. Diz o Ludwig:

«Criticando o que chama de “secularismo agressivo”, o Papa recordou aos britânicos a sua luta corajosa «contra uma tirania Nazi que queria erradicar Deus da sociedade»(3). Isto porque, de outra forma, os britânicos só se recordariam dos bombardeamentos e das invasões, esquecendo que o maior perigo da segunda grande guerra foi o ateísmo»

Ora isto é totalmente um tiro ao lado. Bento XVI, homem culto, não está a chamar Hitler de ateu nem está a classificar o Terceiro Reich de projecto ateísta. Eis as palavras do Papa, que raramente são lidas na fonte pelos seus críticos (Ludwig faz o típico: cita jornais):

«Também na nossa época podemos recordar como a Grã-Bretanha e os seus chefes se opuseram a uma tirania nazista que tinha no ânimo desenraizar Deus da sociedade e negava a muitos a nossa comum humanidade, sobretudo aos judeus, que eram considerados como não dignos de viver.»

O que quer o Papa dizer com o objectivo nazi de "desenraizar Deus da sociedade"? Estará o Papa a culpar o ateísmo pelos crimes nazis? Não se vê como... O Papa refere-se ao objectivo nazi de descristianizar a sociedade alemã, e por arrasto, a Europa. O plano nazi passava por remover a doutrina e a moral cristã da "weltanschauung" do comum dos mortais. E substituí-la pela cosmovisão nazi. Era ateia, essa cosmovisão? Não: era de tipo pagão, apesar de também ter o ateísmo como um dos seus ingredientes. Era uma mistura de mitos nórdico-germânicos com esoterismo "à la carte" (teosofista, neognóstico, neotemplário, ocultista, etc.) e com o ateísmo de Nietzsche. A doutrina nazi era uma mistura algo indigesta, mas seria pouco rigoroso classificá-la de ateísta.

Bento XVI está a afirmar algo que é bem sabido: Hitler queria desalojar Cristo, o Deus dos Cristãos, da cultura. Há aliás inúmeras citações de Hitler, de Himmler, ou de Goebbels a dizer precisamente isso. Basta aliás ler o "Mein Kampf" para se ver todo o programa de descristianização da sociedade.

Diz ainda o Ludwig sobre esta questão:

«Além das incorrecções históricas, a ligação entre o ateísmo e o nazismo é falaciosa. Mesmo que Hitler tivesse sido ateu, coisa que estava longe de ser, não se podia inferir daí que o problema do nazismo era o ateísmo.»

É caso para perguntar: e o Papa diz isso? Diz que Hitler era ateu, ou que o problema do nazismo era o ateísmo? É caso para recomendar ao Ludwig: "Lê o texto do Papa!". Não seria mais interessante criticar as palavras do Papa em vez de criticar a leitura que um jornalista da BBC fez sobre essas palavras?

Depois, segue-se a segunda argolada do Ludwig:

2. O nacional-socialismo teria uma base cristã

Diz o Ludwig: «Ratzinger esqueceu, no entanto, a base cristã do nacional socialismo.». Isto dá vontade de rir, mas o melhor era chorar.

O Ludwig não explica como é que o nazismo, essa ideologia do ariano nórdico montada sobre mitos e ideias de força, de supremacia do poder, se concilia com a doutrina cristã do pobre, manso e humilde Cristo. De tal forma o nazismo não pega com o cristianismo que Hitler se viu obrigado a inventar uma pseudo-igreja alemã intitulada "Deutsche Christen", sustentada numa patética deturpação do cristianismo, na qual Cristo seria ariano e não judeu.

Mas por detrás da confusão do Ludwig, há uma verdade. Hitler, realmente, capitalizou sobre os sentimentos antisemitas dos alemães e dos austríacos. Hitler, aliás, esteve mergulhado desde novo nesses sentimentos. E é sabido que esses sentimentos, alguns velhos de séculos, antes de serem racistas foram teológicos, inspirando-se naqueles que diziam que os Judeus eram os assassinos de Cristo. Só que uma coisa é má teologia, e outra coisa é a doutrina racista que se constrói em cima dessa má teologia, e sobretudo quando essa construção se faz noutro século e noutro contexto. O teólogo que, com fins de "propaganda fide", diz que o Judeu é pérfido porque não reconhece Cristo tem um problema teológico com o Judeu. Obviamente, essa não é a mesma pessoa que, séculos mais tarde, por causa da crise económica e da inveja, vai desenterrar velhos ódios antijudaicos para os transformar numa doutrina de ódio racial, suportada em ideias eugénicas e estruturada sobre a aplicação ilícita do darwinismo ao melhoramento da raça humana.

Agora a terceira treta...

3. A Igreja Católica apoiou Hitler

Enterra-se o Ludwig com esta frase: "E Ratzinger omitiu também o apoio da Igreja Católica a Hitler". A frase está sustentada na nota de rodapé número (5). Entusiasmado, salto para a nota, à procura de uma citação de um Harold Deutsch, de um Rhodes, de um Gilbert, ou mesmo de uma erudita adversária da Igreja como uma Susan Zuccotti. Teria sido muito simples ir buscar frases a mais historiadores críticos da atitude da Santa Sé durante a Guerra: haveria um Carlo Falconi ou um Saul Friedlander, ou ainda um Guenter Lewi para socorrerem à causa anticatólica. Mas em vez destes investigadores com obra feita, que encontro? Está isto na nota (5): "Por exemplo, o Ricado Alves...", e já nem é preciso ler mais... O Ludwig, na sua cabal acusação à Igreja Católica, a forte acusação de colaboração com os nazis, sustenta-se na propaganda anticatólica do Ricardo Alves, cujos pseudo-argumentos não têm o menor vislumbre de suporte documental, e que se apoiam, fragilmente e de forma auto-contraditória em vários locais, sobre uma leitura deturpada e multiplamente equivocada dos dados históricos.

Evito aprofundar mais uma óbvia treta, mas não queria deixar de a referir "en passant": a dos preservativos em África, pois sai do tema. O Ludwig preferiu misturar preservativos e SIDA ao nacional-socialismo. Entende-se, quando o objectivo é atirar lama à Igreja Católica. Aliás, faz parte da cartilha, e o Ludwig, com algum esforço e não pouco talento, seria capaz de lá meter o Galileu. E um Torquemada. Mas já debati a questão da SIDA com ele várias vezes, e infelizmente o diálogo não progride perante o preconceito.

Deixo apenas uma pergunta, perante a tese que pretende que a Igreja Católica é a responsável pela não eficácia do combate à SIDA. Um africano infiel à sua mulher usa, evidentemente, preservativo para evitar as consequências óbvias da sua infidelidade. Logo, o preservativo sustenta o seu comportamento infiel e é fundamental para um estilo de vida promíscuo e para o aumento de situações de risco de contágio. Isto é evidente, mas o Ludwig nega. Mas pergunto: faz sentido supor que o africano médio obedece à Igreja na questão do preservativo e desobedece na questão da fidelidade? Está para nascer o anticatólico que me explique esta contradição na simplista teoria que liga a Igreja à proliferação da SIDA.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Os exegetas amigos do Diabo

O padre Anselmo Borges diz-nos que o Diabo não está no Credo.

Só este título já é um sintoma. Um sintoma de que Anselmo Borges julga que a última instância em matéria de doutrina é o Credo. Ora nenhum católico diz semelhante asneira. A última instância em matéria de doutrina é o Magistério.

O Diabo pode não estar no Credo, mas está no Pai Nosso, a oração que Nosso Senhor nos ensinou, e que termina assim: "Mas livrai-nos do Mal". A oração do Pai Nosso surge no Evangelho de São Mateus. Segundo a tradição, este evangelho foi escrito inicialmente em aramaico, o chamado "Evangelho dos Hebreus", um documento que não deixou rasto. O texto de Mateus chega-nos ao presente em grego, e no texto grego de Mateus 6, vs. 9-13 temos a oração do Pai Nosso, que termina assim: "ἀπὸ τοῦ πονηροῦ" (literalmente, "de o Mal", ou "do Mal").

De forma consistente, a Vulgata traduziu a petição final para "sed libera nos a Malo". A tradição cristã sempre interpretou esta petição do Pai Nosso como sendo, ao mesmo tempo, uma petição pela libertação dos males que afligem e tentam o Homem, mas também uma petição pela libertação do Maligno, ou seja, do Diabo.

Diz Anselmo Borges, referindo-se ao exorcista espanhol, Padre Fortea, que veio recentemente a Portugal falar sobre a edição da sua valiosa "Summa Daemonologica":

«Para ele, os demónios são "seres espirituais de natureza angélica condenados eternamente"»

Anselmo Borges insere a fatal expressão "para ele", como se o Padre Fortea estivesse, nesta citação, a emitir uma opinião pessoal. Ao que parece, também é a "opinião" de Joseph Ratzinger, quando este liderava a Congregação para a Doutrina da Fé, o órgão máximo, logo a seguir ao Papa, em matéria de doutrina e de moral:

«3. Por fim, pelas mesmas razões, os srs. Bispos são solicitados a que vigiem para que - mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica - pessoas não devidamente autorizadas não orientem reuniões nas quais se façam orações para obter a expulsão do demônio, orações que diretamente interpelem os demônios ou manifestem o anseio de conhecer a identidade dos mesmos.

A formulação destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis de rezar para que, como Jesus nos ensinou, sejam livres do mal (cf. Mt 6,13). Além disso, os Pastores poderão valer-se desta oportunidade para lembrar o que a Tradição da Igreja ensina a rrespeito da função própria dos Sacramentos e a propósito da intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos na luta espiritual dos cristãos contra os espíritos malignos.»


Ratzinger assina esta Instrução sobre o exorcismo, de 24 de Setembro de 1985, na qualidade de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Terá Ratzinger perdido o juízo para falar desta maneira desse Diabo que, segundo Anselmo Borges, é apenas simbólico?

Anselmo Borges, que já nos tem habituado às suas posições heréticas, cita o Padre Carreira das Neves, que por sua vez, "massacra" o Padre Fortea, cujas únicas culpas parecem ser as da sua fidelidade a Cristo e ao Magistério (que são dois tipos equivalentes de fidelidade), e a do auxílio valioso que o Padre Fortea presta enquanto exorcista. Mas para o Padre Carreira das Neves, o "pecado" do Padre Fortea é este:

«Quem não poupou críticas foi o eminente exegeta padre J. Carreira da Neves, apresentador do livro, confessando mesmo a António Marujo: "Se tivesse lido o livro antes de aceitar o convite, não o teria feito." "A fundamentação bíblica é fortuita, muito pobre, até porque o autor não é exegeta."»

Ora cá esta: o Padre Fortea não é exegeta. Logo, os cristãos têm que deixar de seguir o Magistério da Igreja, pois em matéria de Bíblia, quem tem autoridade para ensinar é o exegeta! Grande treta, Padre Carreira das Neves! Eis o que diz o Catecismo sobre a Queda:

«391. Por detrás da opção de desobediência dos nossos primeiros pais, há uma voz sedutora, oposta a Deus (266), a qual, por inveja, os faz cair na morte (267). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo (268). Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali – De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus» (269).» - Catecismo da Igreja Católica, Primeira Parte, Segunda Secção, Capítulo Primeiro.

Com a sua escrita redondinha, o Padre Anselmo Borges julga poder esquivar-se à justificação das suas afirmações. A primeira pergunta que qualquer católico lhe deve fazer, a ele e ao Padre Carreira das Neves, "eminente exegeta", é a incómoda pergunta do homem e da mulher comuns: "Então e o Catecismo? Estará errado?". Ou outra pergunta incómoda: "E o Santo Padre? Não acredita ele na realidade do Diabo?". E outras perguntas incómodas: "E então porque é que todos os Padres da Igreja, desde os primórdios, acreditam e defendem a existência do Diabo?". Será por não serem "eminentes exegetas"?

Mas Anselmo Borges puxa de mais uma "arma" supostamente académica:

«Já na década de 60 do século passado, um dos maiores exegetas católicos, professor da Universidade de Tubinga, Herbert Haag, escreveu uma obra justamente célebre Abscied vom Teufel (Adeus ao diabo), mostrando que não há qualquer fundamento para a crença no demónio.»

Para além do fascínio pelos superlativos elogiosos ("um dos maiores exegetas católicos"), que vincam insistentemente a ideia de que só é grande exegeta e grande teólogo aquele que rejeita a tradição cristã, o que choca é a aparente contradição, que Anselmo Borges não resolve: Ratzinger andou por Tubinga! Não terá lido ele a magnífica obra de Haag? Não terá o actual Papa compreendido a refutação definitiva do eminente Haag? Ah, é que se calhar o actual Papa não é exegeta... Nem Paulo VI, que referiu o Diabo de forma eloquente, nem João Paulo II, que fez exorcismos, nem todos os Papas da História da Igreja... Não eram exegetas!

«Por que é que Deus não acabou com o diabo?»

É a dúvida do Padre Anselmo Borges. Este tipo de dúvidas infantis são inexplicáveis. Não saberá Anselmo Borges que Deus não destrói criaturas? Que Deus não destrói a liberdade da criatura? Que Deus permite ao Diabo que este faça o mal para que Deus possa ser coerente com o seu desejo de criar criaturas livres?

Isto é teologia básica. E o livro do Padre Fortea, ainda por cima escrito sob a forma de perguntas e respostas, dá precisamente resposta às dúvidas do Padre Anselmo Borges.

E permitam-me mais uma estupefacção. Terá Anselmo Borges lido o livro do Padre Fortea? Não era mais justo e mais honesto citar o dito do livro e procurar refutá-lo? Se as respostas do Padre Fortea, que recorde-se, não é um exegeta, estão supostamente erradas, porque não as tenta refutar o académico Anselmo Borges? Porque não refuta o eminente Padre Carreira das Neves a obra desse pobre exorcista não exegeta que é o Padre Fortea?

«E há uma outra pergunta: Quem tentou os anjos, para que eles, de bons, se transformassem em demónios? Colocar o diabo ao lado de Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, é uma contradição. O diabo não explica nada. O mal é inevitável por causa da finitude.»

Os anjos seguiram o mal porque foram livres de o fazer. O mal nasce da liberdade.
O que quererá dizer Anselmo Borges com a expressão "o mal não é inevitável por causa da finitude"? Que raio quer isso dizer?

Anselmo Borges é que não explica nada. A doutrina cristã diz que o mal resulta da acção livre de certos anjos que se rebelaram contra Deus. Não há ponta de dualismo maniqueu, e Anselmo Borges sabe bem a diferença, mas brinca com os seus leitores menos instruídos. No dualismo maniqueu, há dois princípios divinos, o Bem e o Mal. No cristianismo, Satã é uma criatura, finita e não divina. Onde está o maniqueísmo?

A explicação cristã para o surgimento do Mal sempre foi a mesma: a Queda de Satanás. O Pecado Original. A Queda do Homem. Esta explicação também é boa para explicar porque incarnou Deus em Jesus Cristo. Sem Queda, a Incarnação não faz sentido.

«É verdade que nos Evangelhos Jesus aparece a expulsar os demónios», diz Anselmo Borges.

Ah, pois é!

«Certamente participou da crença do seu tempo, que atribuía as doenças ao demónio.»

Um teólogo que se diz católico e que abandonou a crença na divindade de Cristo é uma coisa deplorável. É de se bradar aos céus! Então Cristo, Deus, Filho de Deus, engana-se no diagnóstico? Cristo engana-se, tentando exorcisar pessoas que estavam apenas psiquicamente doentes?

Depois, há a falácia: e uma pessoa não pode estar, ao mesmo tempo, possessa, ou sob influência demoníaca, e também a padecer de uma doença psicológica? Porque razão será que Anselmo Borges não respeita as regras da argumentação?

«Hoje sabemos que se tratava de pessoas com ataques epilépticos ou sofrendo de histeria, de doenças do foro psiquiátrico.»

Sabemos, sabemos. Olhámos para o passado, com a nossa máquina do tempo, e vimos. É que nós somos "exegetas modernos". Só não somos é cristãos, mas somos "exegetas modernos".

«E não se pode esquecer a linguagem simbólica.»

Anátema para aquele que se esquecer da linguagem simbólica!

Contra tudo e contra todos, Anselmo Borges proclama o impossível: «O diabo não faz parte do Credo cristão». Espantoso! Ele está a lutar contra toda a tradição cristã. Não seria mais fácil abandonar a tradição cristã de vez?

«O diabo não pode ser apresentado como concorrente de Deus, uma espécie de Anti-Deus, nem faz sentido pensar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas. Não há possessos demoníacos, mas apenas doenças e doentes de muitas espécies, que é preciso ajudar.»

Mas será que ele leu os testemunhos de exorcistas como Fortea ou Amorth? Serão mentirosos, esses exorcistas?

Padre Anselmo Borges: os seus textos, salvo rara excepção, são exercícios perversos de destruição da ortodoxia cristã. Perversão involuntária? Quem sou eu para julgar os seus motivos: se calhar, escreve os erros que escreve com a melhor das intenções, mas permita-me: de boas intenções está o Inferno cheio, esse Inferno que o senhor julga ser também ele figurativo.

Os seus textos confundem os fiéis, são actos de desafio ao Magistério, são actos de insensata rebelião intelectual, são actos de desobediência, e finalmente, talvez o que mais me aflija, são actos irracionais, pois as suas posições não tem qualquer consistência intelectual. Um cristão incoerente já está errado, pois a incoerência é sinal infalível de erro. Se o que é coerente pode ser ou não verdadeiro (a coerência é condição necessária para a verdade), já o que é incoerente é sempre falso (a incoerência é condição suficiente para a falsidade).

Explique, por favor, a mim que sou simples crente, e que não tenho a sorte de ser bafejado pela gnose do exegeta, porque é que a Igreja me tem ensinado tudo mal? Tenho sido enganado pela Igreja? Não disse Cristo que a Igreja não sucumbiria? Cristo enganou-se? Outra vez? Ah, é que Cristo não é... exegeta!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Mais sobre a "papisa Joana"

(Foto: © Constantin Film)

Como todas as boas histórias de ficção, a lenda da "papisa Joana" sobrevive, hoje mais do que nunca graças a um generalizado ambiente anticatólico nos agentes mediáticos (jornais, televisões, cinema, etc.), conjugado com uma invencível ignorância (não direi que a perfídia é generalizada) desses mesmos agentes acerca da História da Igreja e de antigas polémicas, há muito refutadas, mas que teimam em vir à superfície.

Atrás, reproduzi o artigo de Elizabeth Lev, da Zenit.
E agora, trago mais alguma informação pertinente para este tema.

Numa altura em que os protestantes, na sua generalidade, regozijavam-se com toda a boa historieta que manchasse a reputação de Roma, dois protestantes de notável erudição levantaram as suas vozes contra esta farsa, David Blondel e Pierre Bayle.

O francês David Blondel (1591-1655), escreveu uma obra inteira, que fez polémica entre os adeptos da lenda, intitulada De Joanna Papissa (póstuma, Amsterdão, 1657).

Por sua vez, o francês Pierre Bayle (1647-1706), no tomo dezasseis do seu Dictionnaire historique et critique, na entrada "PAPESSE" (pág. 501), usa os termos "conte" e "fable" para se referir à lenda da "papisa Joana".

Se não bastavam dois pesos pesados da erudição protestante, insuspeitos de qualquer proselitismo papal, ainda se podiam ir buscar mais exemplos de rejeição desta lenda, mas fica sempre bem ir buscar uma citação de Edward Gibbon, esse zeloso crítico do cristianismo, que na sua obra The decline and fall of the Roman Empire (1776-1788), refere-se à historieta da "papisa" como "the fable of a female pope". Veja-se o que o britânico escreve nas nota 139 e 140 da página 818 (cap. XLIX):

«139. As false, it deserves that name; but I would not pronounce it incredible (...)»

Mas é claro, Gibbon! Porque razão se diria que a história não poderia ter acontecido? O que interessa, realmente, para quem gosta da verdade, é saber se a história aconteceu mesmo! Gibbon não tem dúvidas: "as false, it deserves that name". Vinda de alguém que não perde uma oportunidade para denegrir o cristianismo, esta frase é valiosa. Vejamos agora a nota 140:

«140. Till the Reformation, the tale was repeated and believed without offense; and Joan's female statue long occupied her place among the Popes in the cathedral of Sienna (Pagi, Critica, tom. iii., p. 624-626). She has been annihilated by two learned Protestants, Blondel and Bayle (Dictionnaire Critique, Papesse, Polonus, Blondel); but their brethen were scandalized by this equitable and generous criticism. Spanheim and Lenfant attempt to save this poor engine of controversy; and even Mosheim condescends to cherish some doubt and suspicion (p. 289).»

"Poor engine of controversy", é assim que Edward Gibbon intitula a historieta da "papisa Joana". Pena é que, tanto Donna Woofolk Cross, a autora do livro Pope Joan que alimenta o recente filme Die Päpstin (2009), como o guionista do dito filme, Heinrich Hadding, não estejam na posse destes conhecimentos básicos, e usem a literatura e a sétima arte como veículos de mentira e de propaganda. Espero que inconscientemente, e apenas por causa da sua ignorância histórica.

“A Papisa”, História de um Papa que jamais existiu

Por Elizabeth Lev
ROMA, quarta-feira, 7 de julho de 2010 (ZENIT.org) - «Desde a antiguidade, os romanos sempre adoraram uma boa farsa. De Plauto a Neri Parenti, mulheres fantasiadas de homens, personagens de clichê e bufões têm deleitado os habitantes da Cidade Eterna.
O novo filme alemão “A Papisa”, que estréia nesta semana nos cinemas italianos, porém, esquivou-se do âmbito da comédia para apresentar a história fictícia de um Papa do sexo feminino, numa narrativa longa e cansativa que nos faz lembrar os Monty Python com nostalgia.
“A Papisa” baseia-se no livro homônimo da escritora norte-americana Donna Woolfolk Cross. Publicado em 1996 após “sete anos de pesquisas”, narra uma fábula com suficientes viradas grotescas para ser digna dos irmãos Grimm.
A história gira em torno de Joana, uma jovem criada na Alemanha do século IX por um sacerdote que se recusava a reconhecer suas qualidades intelectuais, uma vez que “sob a perspectiva católica”, as mulheres seriam inferiores.
Este último aspecto, destacado pelos múltiplos maus-tratos sofridos pela protagonista, evidencia a convicção pessoal da autora da “evidente carência da Igreja católica” de um toque feminino.
Joana cresce travestida de homem, e mediante uma série de incidentes providenciais, chega a Roma, onde, graças às suas aptidões médicas únicas, seu alter ego, "Giovanni Anglicus", torna-se confidente do Papa Sérgio II (844-847). Com a morte prematura do Pontífice, provocada por intrigas, "Giovanni Anglicus" torna-se Papa por aclamação popular.
Joana dedica-se então a uma série de reformas, que incluem a implementação das “escolas catedrais” para mulheres (ainda que, na verdade, tais escolas só fossem surgir dois séculos mais tarde), a reforma dos aquedutos e melhorias na vida cívica. Obviamente, a missa, a oração e os sacramentos não tem lugar na vida atarefada de Joana, e o filme não faz menção a uma possível ordenação de "Giovanni Anglicus".
Seu breve pontificado encerra-se com sua morte, durante a procissão do Domingo de Páscoa, em razão de um aborto. Seu nome teria sido então apagado do Liber Pontificalis por vingança.
O filme apresenta uma típica visão do pontificado como uma corporação, na qual uma mulher pode exercer o papel de “diretora executiva” como qualquer homem. As cenas sensuais que retratam a relação de Joana com seu amante, o Conde Gerold (interpretado por David Wetham, o “Faramir” de “O Senhor dos anéis”), lembram cenas de “Sex in the City”.
A lenda da Papisa Joana nasceu há cerca de 800 anos, e é atribuída aos hereges cátaros. Há muitas discrepâncias nas diferentes versões: algumas dizem que teria sido eleita em 847, outras falam em 1087; algumas afirmam que seu nome era Joana (Giovanna), outras Agnese ou Giberta; o que é certo é que não há registros anteriores a 1250 da história, quando a Crônica Universal de Menz a menciona pela primeira vez.
O mito foi retomado pelos protestantes no século XVI e divulgado a fim de danificar a imagem do pontificado. David Blondel demonstrou a falsidade da história em uma série de estudos publicados em Amsterdã em 1650.
Como a maior parte dos filmes anti-católicos, “A Papisa” faz uso livre das palavras de São Paulo sobre as mulheres, a fim de sustentar que a Igreja as tem oprimido desde as origens. Ignora, por exemplo, que a mais antiga universidade do ocidente - a Universidade de Bolonha - já admitia estudantes mulheres desde o início de suas atividades, em 1088.
O filme se toma muito a sério, mas o resultado são 2 horas e 19 minutos de tédio. Na tentativa de resgatar o expectador do estado de torpor, quando a história é transportada para Roma, as cenas rurais desaparecem para dar lugar à suntuosa corte papal, enquanto os aposentos (situados erroneamente em São Pedro e não em São João Latrão) ostentam brilhantes colunas de mármore negro e um leito papal faraônico, com cortinas de veludo e estátuas douradas.
Embora o filme ainda não tenha encontrado um distribuidor nos EUA, estreou na telas italianas a tempo para as comemorações de São Pedro e São Paulo; e enquanto o mundo celebrava o testemunho daquele que foi o primeiro Papa, seus expectadores puderam acompanhar a história de um papa que jamais existiu.»

domingo, 20 de junho de 2010

Contra a bajulação sufocante...

... uma lufada de ar fresco!

«Saramago è stato dunque un uomo e un intellettuale di nessuna ammissione metafisica, fino all'ultimo inchiodato in una sua pervicace fiducia nel materialismo storico, alias marxismo. Lucidamente autocollocatosi dalla parte della zizzania nell'evangelico campo di grano, si dichiarava insonne al solo pensiero delle crociate, o dell'inquisizione, dimenticando il ricordo dei gulag, delle "purghe", dei genocidi, dei samizdat culturali e religiosi.»

excerto do artigo L'onnipotenza (presunta) del narratore, in Osservatore Romano, edição quotidiana, 20 de Junho de 2010.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Os anúncios da Adecco...

Nas últimas horas os ditos anúncios têm sido apagados de vários sites de emprego (basta abrir o Google e procurar por "Adecco Papa" e verificar que a maioria dos anúncios desapareceu), mas ainda se pode ver o anúncio em alguns deles. Por exemplo, às 18 horas de hoje, neste site e neste site, ainda se pode ler o seguinte:

«A Adecco, Líder Mundial de Recursos Humanos, no seguimento da sua política de desenvolvimento e expansão, pretende recrutar Apoiantes (M/F) ao Papa Bento XVI na sua missão a Lisboa no dia 11 de Maio de 2010:

Local: Praça do Comércio.
Horário de trabalho: Manhã e/ou tarde

Requisitos:
- Muito boa apresentação;
- Gosto pelo contacto com o público;
- Dinamismo e responsabilidade;
- Resistência Física.

Entregamos:
- 1 T-shirt alusiva ao evento (ficará para os participantes)
- 1 Bandeira ou 1 Faixa alusiva ao evento (a devolver a agência)

Se reúne os requisitos, envie já o seu Curriculum Vitae para: merchandising@adecco.com com a REF:APB.»


Mas o mais provável é que estes anúncios sejam em breve apagados, assim que as empresas responsáveis pelos respectivos sites se dêem conta e apaguem os ditos.

O que está a acontecer?

1) Se o anúncio é a sério, porque é que está a ser retirado dos vários sites de emprego? Já preencheram todas as vagas?

2) Alguém acredita que os organizadores da Visita do Papa recorreriam à medida desonesta, imoral e desesperada de pagar "apoiantes"?

3) Alguém acredita que são precisos mais "apoiantes" para encher as ruas, avenidas e praças de Lisboa, Fátima e Porto, que vão ser poucas e apertadas para acolher todos os católicos que irão ver o Papa?

Não é difícil entender para que é que serve um anúncio destes.
Serve, entre outros propósitos, para isto e para isto.

E, é claro, serve para lançar ainda mais alto o papagaio da "imoralidade" da Igreja Católica. «Que raio de gente, estes católicos, hã? Andam por aí, a aproveitar-se do desemprego para comprar "apoiantes"? Que vergonha...»

Mas não terá sido "atrevido" da parte dos autores do anúncio a expressão "Muito boa apresentação"? Alguém acredita que a religião do Cristo crucificado, a religião do Bom Samaritano, iria pedir "boa apresentação"? O anúncio já era arriscado (pretender que a Igreja Católica compraria "apoiantes"), mas não terá sido arriscado demais meter a frase da "muito boa apresentação", deixando assim a cauda de fora?

O que dirá este gente quando vir o banho de multidão?
Que a Adecco está a facturar em grande com a vinda do Papa?

domingo, 25 de abril de 2010

O teólogo mentiroso falou de novo...

O mentiroso, tão sensível aos microfones, às câmaras e aos holofotes, falou de novo:

Carta aberta de Hans Kung aos Bispos católicos

Porcarias deste calibre foram, mais uma vez, privilegiadas pelos "media": por cá, o Público transcreveu a cartinha toda. E muitos dos que lêem o Público acreditarão, desgraçados, nas mentiras do Küng.

Trata-se talvez do maior chorrilho de mentiras e difamações contra Bento XVI, desta feita pelo seu velho "amigo" alemão, Hans Küng. Com amigos destes, Bento XVI não precisa de inimigos. Também é verdade que o insulto não é novidade em Küng: basta recordar que nas suas memórias, o teólogo alemão insultou as capacidades intelectuais de João Paulo II. Mas esta carta aberta está demais...

Talvez a frase mais horrorosa e mais mentirosa seja a que está logo no topo:

«There is no denying the fact that the worldwide system of covering up cases of sexual crimes committed by clerics was engineered by the Roman Congregation for the Doctrine of the Faith under Cardinal Ratzinger (1981-2005)» (negrito meu)

Que Küng faça uma destas ao seu velho colega, a alguém que mais do que uma vez lhe deu a mão, a alguém que tem tido para com ele uma paciência inesgotável, é algo que me parece incompreensível. Que ultrapassa até a fronteira da boa educação e da cortesia, entrando no insulto rasca e rasteiro. Dawkins não conseguiria ser mais desagradável com Bento XVI.

Penso que a única explicação estará no desespero do próprio Küng: está só. Nunca teve razão. Está cada vez mais próximo do fim, e vê a sua causa a ruir. A Igreja Católica recuperou da crise dissidente dos anos 60, 70 e 80. Hoje em dia, novas gerações de católicos fiéis ao Magistério já nem sabem quem é Küng. Esta carta é uma medida de desespero. Esta carta aberta já não tem o vigor das antigas operações mediáticas que ele montava, criando um estilo próprio, o do dissidente mediático. Quando Küng entra no golpe baixo, na mentira reles, e no ataque pessoal descarado, é porque está perto do fim.

Bem dizia o Cardeal Ratzinger, quando estava à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, que a sua função era a de proteger a fé cristã simples do poder dos intelectuais. Küng é o protótipo do intelectual poderoso e perigoso: todo ele é uma mentira: um teólogo que mente é uma contradição nos termos, e se for popular (ou popularizado) arrasta inevitavelmente muitos crentes com ele para o caminho da mentira. Em vez de ser teólogo no serviço à verdade, na explicação do Deus-Verdade aos homens e mulheres do seu tempo, Küng é um dissidente "superstar", amado pelos "media", mas progressivamente alheado da tradição cristã. Enquanto a teologia dissidente encabeçada por ele, e pelos Currans e Boffs desta vida, tinha força e vigor, ele brilhou. Mas a mentira tem sempre um prazo de validade curto.

Os seminários, nos anos 70 e 80, começaram a ficar vazios. As vocações não surgiam. Os escândalos (que vêm hoje ao de cima) começaram a tornar-se frequentes. As imoralidades e a heresia contaminaram o espaço católico. Católicos a favor do aborto e da homossexualidade. Famílias destruídas pela infidelidade e pelo divórcio. Tudo isto é, evidentemente, efeito da teologia dissidente dos adeptos da "hermenêutica da ruptura" que afirma que o Vaticano II decidiu romper com o passado (uma mentira, é claro).

Hoje, Küng já não beneficia da influência que teve em tempos sobre muitos católicos. O seu movimento "progressista" morreu. Küng é um teólogo falhado, um teólogo que se perdeu, um teólogo que poderia ter sido. É um triste. Será recordado como um herege. As coisas boas e ortodoxas que deu à teologia cristã vão-se perder, arrastadas pela lama das coisas más e heréticas que ele gerou.

Deus tenha pena da sua alma.

PS: George Weigel, com uma educação e cortesia que Küng não tem nem merece, massacra-o neste artigo: An open letter to Hans Kung.