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quarta-feira, 6 de outubro de 2004

Editora de Dan Brown processada!

(publicado em simultâneo no Afixe)



É verdade, meus amigos! Demorou, mas aconteceu! Finalmente, alguns dos autores plagiados por Dan Brown decidiram-se a processar a obra do romancista americano.

Recordam-se do "Holy Blood, Holy Grail", aquele livro pseudo-histórico da autoria de Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh?
E que em Portugal já está a vender forte e feio com o título de "O Sangue de Cristo e o Santo Graal"?


Pois estes dois últimos amigos acabaram de lançar um processo contra o livro de Dan Brown, por plágio. Será processada a Random House, proprietária da editora Doubleday. Diz Michael Baigent, comentando o plágio, que "se a nossa hipótese está ou não correcta é irrelevante, o facto é que se trata de trabalho que nós montámos e no qual gastámos anos e anos a montar".

Leia-se o restante da notícia no London Sunday Telegraph (3 de Outubro de 2004).

O trio britânico até não tinha razões financeiras para se queixar de Dan Brown, porque este último, com o seu romance, relançou de novo as vendas das obras pseudo-históricas do trio. Qual é o problema deles? O problema é que eles querem receber mais algum. Querem tomar parte do filão de Dan Brown. Eles devem estar roidinhos de inveja: "Caramba, este gajo farta-se de vender às nossas custas, e a gente quase não vê cheta"?

Pois sim. Cá está a reacção que não surpreende. É bem vinda, para quem detesta e critica o "Código Da Vinci"? Claro que é.
Vejamos:

1. O processo de plágio, se for para a frente e os seus promotores vencerem, demonstrará que Dan Brown é, de facto, um plagiador descarado;

2. A reacção de cupidez de Baigent e Leigh (Lincoln fica de fora do processo alegando razões de saúde) demonstra que esta gente toda, de Lincoln a Brown, passando por Leigh, Baigent, Clive Prince, Lynn Picknett, e tantos tantos outros, quando chega a hora da verdade, não querem abdicar da maçaroca. Do pilim.

E os leitores?
São jogados para trás e para a frente.
Pagam, com a sua credulidade, as casas e as viagens de Lincoln, Baigent e Leigh, e as actividades maçónicas destes dois últimos.

Bernardo

terça-feira, 28 de setembro de 2004

"O Código Da Vinci" desmascarado



Os media têm coisas engraçadas.

Durante os últimos meses, tenho tentado desmascarar o embuste Dan Brown, com relativo insucesso. A grande percentagem das pessoas que leram as minhas críticas reagiram de forma muito negativa. Muitos rotularam-me de "padre Motta", ou "supranumerário Motta". Porque eu era uma voz isolada, poucos ligaram. Muitos insultaram. A certa altura, referi o artigo do Nouvel Observateur. Isso gerou algum gelo nos contestatários, mas, enfim, era um artigo em francês. Uma língua difícil para o tuga. Poucos leram. A treta continuou.

Esta semana, a Visão, em colaboração com o Nouvel Observateur, trouxe-nos um artigo bem apresentado, bem trabalhado, bem traduzido. Finalmente, num periódico de grande leitura, uma apresentação correcta e relativamente completa sobre este grande embuste.

Pela primeira vez, vem lá tudo: Pierre Plantard, o seu passado anti-semita, as suas associações pseudo-cavaleirescas, as suas falsificações dos "dossiers secretos", as suas amizades. A desmontagem é potente. E atinge um público considerável aqui em Portugal.

Certamente que agora as vozes contestatárias (pelo menos aquelas de Portugal, que leram a Visão), irão começar a desaparecer. Para nos dar alguma paz e descanso.
O que me entristece é que é preciso que isto venha numa revista como a Visão para que se acredite. Hoje em dia, mais que o discernimento crítico, mais que a pesquisa pessoal, mais que o bom senso, mais que a cultura geral, o que vence sempre é a letra mediática. É o que vem nas revistas, nos jornais.

Desta vez, dou total apoio à Visão, pela sua iniciativa em prol da verdade. Mas porque é que é preciso uma revista semanal dizê-lo para que, finalmente, as pessoas se dêem conta de que tudo isto é um embuste, e uma história sinistra?

Que poder impressionante, o dos media...

Bernardo

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Mais material sobre o Carmelo de Vintras...

(publicado em paralelo no Afixe)

Eugène Vintras

Encontrei, num site italiano, este trecho da obra "Satan - Études Carmelitaines" (1948) do carmelita Bruno de Jésus-Marie:

Non abbiamo voluto render pubblico il testo completo della Confessione di Boullan. Il lettore ce lo perdonerà, ma non ne avrebbe sopportato la lettura. Tranne i passi interessanti che abbiamo segnalato, essa provoca disgusto e noia. In questo campo conviene limitarsi, ed anche così si rischia di danneggiare i più sensibili. Boullan — scrive Drack Dusquesne — non è un isolato. Appar­tiene ad una razza che la storia delle aberrazioni religiose non ignora. Il suo caso getta anzi uno spiraglio di luce su alcune manifestazioni non bene note, inserendosi nella grande corrente dei misteri orgiastici che si ritrovano in tutte le religioni come una deviazione, una stortura del culto reso a la Sophia o Sapienza divina. Le sette gnostiche vedevano nello Spirito Santo il «principio fem­minile » della Divinità. Tutta la dottrina di Boullan si riallaccia in modo del tutto naturale e continua la corrente « paracletica » pseudo-mariale, pseudo-carisma­tica degli illuminati medievali (Fratelli e Sorelle del Libero Spirito, Beghards e Beguines, ecc.). Se a Boullan non mancano antenati “spirituali”, tanto meno mancano discendenti. Quando egli muore nel 1893, alcuni dei suoi fedeli se ne tornano ai loro paesi, sia in Moravia sia nella Polonia, allora austriaca; ed è appunto là che, verso il 1894, cominciano i vati­cini di Maria Francesca Kozlowska, suora francescana, chiamata più tardi la Matuchka (la mammina), il cui illuminismo, dopo aver sedotto ecclesiastici quali Kowalski, Prochniewksi, ed altri, infatuati di ascesi e di misticismo anarchico, terminò nel 1903 con la condanna formale del movimento «mariavita » (de Mariae vita) da parte di Pio X. I settari si staccano allora da Roma e fondano la chiesa maria-vita, il cui Patriarca, Kowalski, e i vescovi sono (validamente) consa­crati dall’episcopato vecchio cattolico (giansenista) d’Olanda nel 1909. Il sogno di Boullan è realizzato! Ma la dottrina e la pratica dei “matrimoni mistici” tolti come quasi tutto il resto dalla dottrina di Boullan e destinati a diffondere la procreazione senza condupiscenza (sic) di bambini nati, per conse­guenza, mondi da peccato originale (sic), provocano uno scandalo inaudito. La “poligamia spirituale” (sic) dei Mariaviti è divenuta così pubblica che il Congresso Vecchio-Cattolico internazionale di Berna del 1924 lancia la scomunica a tutta la Chiesa mariavita, che contava allora circa 600.000 fedeli! Dopo di che il Patriarca ed alcuni Vescovi hanno subito in Corte d’assise gravi condanne per offesa al buon costume. Si potranno trovare particolari sul mariavitismo, ridotto oggi-giorno a 100.000 fedeli, nella collezione Die Religion in Geschichte und Gegenwart. I lineamenti caratteristici della setta sono del più puro Boullan, aggiuntavi la parte speciale che si attribuì la Matuchka di “reincarnazione della Santa Vergine” e di preposta, in questo mulier amicta sole, alla salvezza del genere umano, non appena inco­minceranno gli Ultimi Tempi, ormai imminenti”

A página de onde tirei isto é estranha, tem uma coloração horrorosa, e não sei se é fidedigna. Nem conheço o autor deste site, Vittorio Fincati.
Ainda não consegui verificar se este trecho está correctamente transcrito (o original é evidentemente em francês). Mas a obra "Satan - Études Carmelitaines" existe mesmo, assim como foi escrita pelo carmelita Bruno de Jésus-Marie, cuja autoridade e competência historiográfica é incontestável.

Se o texto for fidedigno à obra do carmelita, então temos um relato rigoroso e valioso da forma como este historiador encaixa esta cadeia de movimentos orgiásticos resultantes do legado de Vintras na história do satanismo. Segundo Bruno de Jésus-Marie, o Carmelo de Vintras é uma extensão da heresia do gnosticismo.

Mais sobre isto em breve...

Bernardo

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Eugène Vintras, senhor Simon Cox?

(publicado em paralelo no Afixe)

Regresso de novo ao meu tema fetiche: o sub-mundo onde Dan Brown decidiu chafurdar no seu último romance, "O Código Da Vinci".

O que eu tenho para dizer ainda não merece ser lido como um "artigo", porque o que eu quero contar agora não é ainda uma posição sólida. É apenas um desabafo de preocupação. Estou ainda a pesquisar, e ainda não tenho provas contundentes em relação ao que vou escrever agora.

É bem conhecida a simpatia que Dan Brown nutre por Margaret Starbird, a teórica americana do "sagrado feminino":

http://www.telisphere.com/~starbird/

Eu costumo dizer que esta senhora é a inventora do "sagrado feminino", e de uma muito peculiar interpretação do conceito alquímico do "hieros gamos", ou "casamento sagrado". Mas se calhar, ela não é a "inventora" coisa nenhuma, porque hoje em dia já são poucas as coisas verdadeiramente novas...

Para resumir, Starbird afirma que o modelo máximo de divindade está na união sexual de Jesus com Madalena, ou seja, do "deus" com a "deusa".

Tudo isto parecerá pateta, mas se se reparar no site de Margaret Starbird, ela está a falar muito a sério: o número de palestras que ela dá por toda a América é surpreendente. Assim como o número de obras que ela já escreveu sobre o assunto.

Por isso, nada de mais natural do que Dan Brown ter usado esta "estrela em ascensão", para inserir mais um detalhe pitoresco e vigoroso no seu romance: o "hieros gamos".

Até aqui, toda a gente poderia sorrir, ou até dizer: "e qual é o mal, Bernardo, porque é que ficas sempre tão lixado com estas coisas?"

É que, com o passar dos anos a farejar estas porcarias, adquire-se um faro... E este meu faro sensível a este tipo de porcaria andava a chatear-me desde que tomei contacto com estas teorias do "hieros gamos". De onde tinha vindo tudo isto? Onde é que eu já tinha visto isto anteriormente?

Foi com a leitura do "Código Da Vinci Descodificado", de Simon Cox, que se fez luz na minha mente. Ora então diz este senhor a páginas tantas (no capítulo sobre o "Hieros Gamos"):

"Tentativas genuínas para obter um ramo mais «gnóstico» do Catolicismo, incorporando rituais sexuais sagrados e a restauração da monarquia francesa duma forma muito semelhante à dos dogmas do Priorado de Sião, podem ser encontradas num movimento chamado a Igreja do Carmelo..."

Foi como se se tivesse feito luz!
"Igreja do Carmelo"? Isto soava-me a "déjà vu". Logo depois de ter ficado chocado pelo aval de Simon Cox à seita satânica e orgiástica de Eugène Vintras, comecei a pesquisar sobre o assunto. E o que encontro? O mistico Vintras fundou o Carmelo porque acreditava que a santificação vinha da prática da "sexualidade sagrada". Cá está o elo até às teorias de Starbird que eu procurava!

Estou neste momento a fazer uma viagem bem suja ao sub-mundo do satanismo do século XIX e do início do século XX. Nomes como Clément de Saint Marcq, o padre Boullan, Eugène Vintras, e outros mais modernos como Jean (Joanny) Bricaud, podem ser estranhos a muita gente, mas quando eles começam a surgir, não se trata de coisa boa, acreditem...

E, para mais, não há semelhança alguma entre a mistificação do Priorado de Sião (invenção de Pierre Plantard) e as seitas orgiásticas de Vintras e Boullan! Porque raio assimila Simon Cox as duas coisas? Plantard não era tão perverso!

O Carmelo de Vintras (que foi continuado após a morte deste pelo infame padre Boullan) constituiu uma das situações mais exóticas e funestas de propagação do satanismo através de missas negras, com profanações como a prática de sexo em grupo e de masturbação em altares consagrados e em conventos. A febre orgiástica de Vintras espalhou-se como pólvora e foi complicado para a Igreja Católica conseguir contê-la e extinguir o movimento. Até os suspeitos ocultistas franceses do "fin de siècle" atacaram violentamente o movimento de Vintras e Boullan (como foi o caso de Stanislas de Guaita), que consideravam escandaloso e perverso.

Eis senão quando o século XXI assiste ao reaparecimento, devidamente sanitizado por Margaret Starbird (que se calhar, inocentemente, não imagina de onde lhe vem a sua "inspiração"), dos ideais do Carmelo de Vintras, através desta publicidade inaudita ao "casamento sagrado", ou "hieros gamos".

Ainda não estou em condições de escrever algo de sério. Faltam-me provas, e tenho que obter documentos originais. Mas tudo aponta para uma semelhança assustadora entre a recuperação do "hieros gamos" por Dan Brown e Margaret Starbird, e as heresias de perversão sexual de Eugène Vintras.

Mas a procissão ainda vai no adro, se se souber que Vintras era um seguidor do falso Louis XVII (Naundorff), que ele dizia que deveria subir ao trono de França, porque era o "Grande Monarca". Isto diz alguma coisa aos nossos leitores? Nostradamus? É que o mito do "grande monarca", falado pela primeira vez pelo vidente Michel de Notredame (Nostradamus), foi recuperado em pleno século XX, aquando do livro "Holy Blood, Holy Grail" do trio britânico, uma década antes de Dan Brown. O trio britânico via em Pierre Plantard o tão aguardado "grande monarca", futuro rei dos Estados Unidos da Europa.

E Dan Brown chafurda nisto tudo como gente grande!
Parece uma criança a brincar numa central nuclear abandonada!

Conclusão: Dan Brown está, à custa da psique hodierna e da ignorância dos leitores, a fazer dinheiro com um romance que é um autêntico barril de pólvora das maiores imundícies que o género humano alguma vez produziu, disfarçadas de "suspense" artístico-literário.

Estará Dan Brown consciente? Estará Margaret Starbird consciente? Saberão eles da sua "afinidade ideológica" com o Carmelo de Vintras? Eu não sei! O que sei é que Simon Cox chegou lá, e disse-o no "Código Da Vinci Descodificado", dando a Igreja do Carmelo de Vintras como um exemplo de "tentativa genuína para estabelecer um ramo mais «gnóstico» do catolicismo".

A ver vamos... Era só para levantar um pouco o véu às coisas que ando agora a pesquisar... Quando tiver algo de mais sólido não hesitarei em publicá-lo.

Bernardo

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

O Evangelho de Tomé e o "sagrado feminino"

Todos temos tido contacto recente com leitores do best-seller "O Código Da Vinci", de Dan Brown. Uma das "teorias" avançadas neste romance pouco inocente é o de que os evangelhos apócrifos são mais genuínos que os evangelhos canónicos de Mateus, Marcos, Lucas e João que foram incorporados no cânone do Novo Testamento. Além disto, os adeptos destas "teorias" (que frequentemente não as vêem como "teorias" mas sim como factos) costumam dizer que um importante conjunto destes evangelhos apócrifos, conhecido como "textos de Nag Hammadi" (local no Egipto onde foram descobertos em 1945), ou "evangelhos gnósticos", traz importante informação em relação ao que eles chamam de "sagrado feminino", ou "culto da Deusa", ou seja, que Jesus teria casado com Maria Madalena, e que esta teria sido escolhida para liderar a Igreja após a morte de Jesus. No seguimento desta "teoria", a Igreja Católica (evidentemente "malévola" ao ponto de querer "esconder a verdade") teria feito tudo para a substituir por Pedro, que se asseguraria de que o "culto da Deusa" ficaria sepultado para a posterioridade.

Mas um dos trechos dos evangelhos gnósticos que é menos citado pelos nossos entusiastas do "sagrado feminino" é este trecho do Evangelho de Tomé, que contradiz imediatamente a "teoria" de que o "culto da Deusa" está presente nestes evangelhos:

"Disse-lhes Simão Pedro: que Maria se aparte de nós porque as mulheres não são dignas da Vida. Disse-lhes Jesus: Vede, eu mesmo a guiarei, para fazer dela macho, para que também ela seja um espírito vivo, semelhante a vós machos, pois cada mulher que se tornar macho irá para o reino dos céus." - Evangelho de Tomé, 51:18 (660) a 51:26 (668).

Fonte:
http://www.geocities.com/Athens/9068/log114.htm

(obter primeiro o ficheiro de fonte copta "coptic2.ttf", e colocar este ficheiro em c:\windows\fonts)

Antes de se pronunciarem sobre os evangelhos apócrifos em geral, e sobre os evangelhos gnósticos em particular, e antes de começarem a disparatar sobre os "segredos que a Igreja escondeu", algumas pessoas deveriam começar por se interrogar porque é que a Igreja recusou considerar estes textos como parte integrante do cânone bíblico.

As razões para esta recusa são:

a) razões teológicas, e
b) razões históricas.

Por um lado, o lado teológico, estes textos estão prenhes de heresia gnóstica (não me é possível desenvolver aqui e agora o que é esta heresia e porque é que é uma heresia), por outro lado, pelo lado histórico, estes textos estão temporalmente distantes da vida de Jesus (foram todos compostos a partir do século II d.C, ao contrário dos evangelhos canónicos que pertencem ao século I d.C., sendo S. João o mais tardio e que por vezes é datado até no máximo aos primeiros anos do século II d.C.), e por isso, os factos da vida de Jesus que lá vêm relatados são duvidosos e menos credíveis que os que foram (por essa razão e por outras) incluídos no cânone do Novo Testamento.

O Evangelho de Tomé pertence ao grupo de textos achados no Egipto, em Nag Hammadi, em 1945. Apesar de escritos em cóptico, não se faça confusão! Estes textos não pertencem à Igreja Copta, uma Igreja desde há séculos em cisma com a Igreja Católica, mas que nada tem a ver com a heresia do gnosticismo. Mais ainda, importantes membros e dirigentes da Igreja Copta tiveram um papel fundamental na luta contra as heresias gnósticas. Os evangelhos gnósticos foram muito provavelmente elaborados por seguidores de líderes gnósticos como Valentiniano, nascido em Alexandria por volta do ano 100 d.C. Deverão ter sido escritos em Alexandria ou em comunidades vizinhas. Alexandria foi um importante centro na difusão do gnosticismo.

A minha sugestão para todos os interessados seria:

1. Tentar aceder às fontes directas dos evangelhos apócrifos: há imensos sites na internet com o texto original em cóptico (caso dos textos de Nag Hammadi) e aramaico (caso dos textos de Qumran), e com as devidas transliterações e traduções para inglês;

2. Tentar aceder à documentação da Igreja Católica (textos conciliares, obras patrísticas, compêndios anti-heresia, etc.) para compreender quais foram as razões desta condenação da Igreja aos textos gnósticos, e a homens como Valentiniano.

Bernardo

quarta-feira, 7 de julho de 2004

Desabafos sobre a "religião do Diabo"...

Há coisas surpreendentes!
Então não é que um artigo do Timóteo Shel gerou, há pouco tempo, mais de uma centena de comentários, numa acesa discussão de crentes versus ateus?

Desta vez, os papéis inverteram-se... Era o Pedro Fontela quem defendia (sozinho) a equipa do "Diário de uns Ateus". E, sozinho, era zurzido por aquela boa gente toda!

Gostei do debate, e gostei de ter tanta gente tão clarividente e sensata a defender a causa dos crentes, dando assim umas salutares "palmadas" ao Pedro Fontela. Aposto que o Pedro descobriu muita coisa nova que nem suspeitava que existia...

Uma dessas coisas que o Pedro Fontela descobriu pela primeira vez foi a obra do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. O Marcus Pimenta citou uns quantos textos do filósofo, textos esses bem a propósito, que são tão claros quanto conclusivos face a uma série de falsas questões nas quais os nossos amigos do "Diário" tanto insistem.

O Olavo de Carvalho tornou-se, assim, numa pedra no sapato do Pedro Fontela. Não sei como vai ele tirá-la de lá... Porque as palavras de Olavo revestem-se de uma sobriedade, de um rigor linguístico, de uma cultura filosófica, e de uma precisão demonstrativa que torna as coisas complicadas para estes nossos amigos anti-católicos.

Um dos meus arqui-inimigos dessas bandas é o André Esteves, feroz ateu, que há pouco tempo me confessou que gostava dos satanistas. E como essa tirada veio tão a propósito do artigo do Timóteo! Essa "religião do Diabo", que é a dos ateus ressaibiados, é (apesar de eles negarem) uma forma de crença bastante cega pelo preconceito, e sobretudo pela ignorância generalizada e desconcertante face a tudo o que cheire a religião.

Neste momento, estarão o Pedro Fontela e os seus amigos a pensar: "de onde veio este Olavo de Carvalho"? Pois, meus caros, isso é o problema de quem se mete a falar sobre assuntos que não domina!

O rigor e o cuidado que apresentam muitos dos textos de Olavo de Carvalho, tem, julgo eu, uma forte e benéfica inspiração do trabalho de René Guénon, e de outros elementos importantes da corrente tradicionalista que rejuvenesceu o panorama intelectual do século XX (Schuon, Burckhardt, Nasr, Coomaraswamy, entre outros).

Repare-se que não estou com isto a assinar por baixo tudo o que Olavo escreveu ou disse. Estou apenas a dizer que, tendo ido beber à obra de René Guénon, Olavo encontra-se numa posição solidíssima, e é portanto natural que ele tenha escrito textos de uma clareza e de uma clarividência que surpreenda o comum ateu.

Meus caros ateus do "Diário", a realidade, infelizmente para o ateísmo, é BEM mais complexa do que vocês a vêem... Mas isso já se topava a milhas, bastando ver apenas a forma literalista e infantil como vocês lidavam com os textos sagrados do Islão ou do cristianismo...

Quando pela primeira vez mencionei aqui a existência deste reduto de ateus bloguísticos, afirmei que eles pareciam sofrer de uma profunda atrofia intelectual. A expressão era, sem dúvida, forte. E na altura, retraí-me dela. Mas não posso deixar de afirmar que, decorridos já vários confrontos em que se fez ver a estes senhores que o Mundo não era a caixa de areia em que eles brincavam (caixa de areia essa desenhada por "gurus" deles como Sagan ou Hawkins, ou Jay Gould), eles continuaram e teimaram em não reconhecer a estreiteza assustadora das suas ideias.

Em vão, eu tentei dizer que o ateísmo até podia ser muito mais do que aquilo que eles estavam a fazer passar! Imagine-se! Eu, a defender que o ateísmo poderia ser melhor do que o deles! Mas cheguei a esse ponto!

Não estou a tentar convertê-los! Acho isso impossível, em virtude da longa devastação intelectual a que estiveram e estão sujeitos (o facto de fazerem um grupo coeso, que se defende dos ataques da Verdade também não ajuda). Estou a tentar torná-los em melhores ateus! Sou atrevido? Imodesto? Caramba, estamos a falar das mesmas pessoas que disseram que ensinavam aos crentes coisas sobre religião que os próprios crentes desconheciam! Então, haverá melhor retribuição ao esforço de melhoria que eles fazem nos crentes, do que contribuirmos nós também para torná-los em melhores ateus? Melhores, intelectualmente dizendo, obviamente...

Agora, convertê-los? Para quê? Vanitas, vanitas...

Se "atrofia intelectual" é termo forte, deixem-me ao menos usar o de "miopia intelectual"! Ao menos, a miopia pode ser corrigida por prescrições oftalmológicas adequadas. Se ainda for a tempo!

Bernardo

P.S.: Caros ateus do "Diário"... Quando é que vocês vão sair da toca, arregaçar as mangas, e enfrentar o touro de frente? Já se sabe que a vossa reacção vai ser a de sempre: ignorar Olavo de Carvalho, ignorar René Guénon, como ignoraram S. Tomás de Aquino, ou Aristóteles. Face ao peso esmagador da erudição e da intelectualidade, o macaco esconde-se... Ou estarei enganado? Teremos ateus à altura?

segunda-feira, 5 de julho de 2004

Simon Cox junta-se a Dan Brown

Este fim-de-semana deparei-me, numa livraria em Lisboa, com um livro mesmo ao lado do "Código Da Vinci". Trata-se do livro de Simon Cox, "Cracking The Da Vinci Code: The Facts Behind The Fiction".



Dizem os críticos:
"The first non-fiction companion to Dan Brown's mega-selling novel The Da Vinci Code."

"Non-fiction"?
"Facts"?
Que lata... Estive a folhear o livro, e aquilo está cheio de tretas. Claramente, este livro foi escrito para emparelhar e dar mais força ao romance de Dan Brown. Quando as pessoas me julgavam paranóico por atacar aquilo que diziam ser "só um romance", não estavam a avaliar bem a natureza e os objectivos desta onda "brownesca", que não é coisa nem recente nem inocente.

A infâmia de Simon Cox está em apresentar um livro pretensamente "factual", para que os leitores mal preparados (que serão quase todos) possam catalogar o "Código Da Vinci" como romance, e olhar para o livro de Simon Cox como os "factos" por detrás do romance. Boa estratégia!

Simon Cox, editor-chefe da revista pseudo-científica Phenomena, será uma das últimas pessoas a escolher para obter esclarecimentos. O negócio de Cox é a venda de revistas de fraco calibre científico sobre arqueologia e mistérios da antiguidade. Com muito menos qualidade, a revista segue a tónica da Atlantis de Paul le Cour dos anos sessenta. A Phenomena é uma espécie de "Super Interessante" da Arqueologia.

Bernardo

De novo Dan Brown e o Código Da Vinci

Decidi fazer uma busca rápida pela Internet, em sites de língua portuguesa, pelas palavras "Dan Brown"... Fiquei chocado!

Toda a gente está a ler o livro e a adorar... Era o que eu temia...
Ninguém, nem por um momento, duvida de Dan Brown, que é um autor e uma pessoa que eles nem conhecem! Não estamos a falar de Umberto Eco, cujos romances de conteúdo histórico deixam-nos sempre perplexos, a pensar no que é verdade e no que é mentira. Umberto Eco escreve e está connosco há décadas. E é uma pessoa séria...

E contudo, tantas vezes que vejo pessoas a compararem o "Código Da Vinci" ao "Nome da Rosa". Porquê? Porque é um romance sobre religião? É que não têm mais nada a ver!

Na firme esperança de que este comentário surgirá nos motores de busca, cá fica mais uma vez uma chamada de atenção para os leitores portugueses e brasileiros que estão fascinados com este livro:

1. Dan Brown é mal intencionado a partir do momento em que ele inicia o romance com a nota, nada inocente, de que os detalhes do romance são verídicos; nada é mais falso;

2. Dan Brown retirou material das obras de autores como Henry Lincoln, Michael Baigent, Richard Leigh, Clive Prince, Lynn Picknet, Margaret Starbird, entre tantos outros; estes autores não se queixam, porque escrevem todos o que escrevem com um mesmo objectivo comum;

3. Dan Brown não percebe nada de História: estamos a falar de um homem que acha que "Da Vinci" é o nome de Leonardo; de um homem que acha que os Templários foram queimados, e as suas cinzas lançadas ao Tibre, em Roma, quando o Papa Clemente V (que extinguiu os Templários), vivia no exílio em Avignon (França); de um homem que, ignorando que a Igreja Católica nem sempre esteve no Vaticano, insiste em chamar a Igreja Católica de "The Vatican"; de um homem que acha que Leonardo da Vinci pintou Maria Madalena ao lado de Cristo no mural da Última Ceia; de um homem que acredita que foi Constantino quem elevou Cristo a divindade (ignorando portanto profundamente o que foi e o que tratou o concílio de Niceia em 325); de um homem que acha que foram os Templários os construtores de igrejas na Idade Média; de um homem que acha que os Evangelhos Apócrifos foram escritos ao mesmo tempo (ou até antes!) dos Evangelhos Sinópticos; enfim, este texto poderia ocupar tantas páginas como as páginas do seu romance;

4. E por fim, e o que é mais grave, Dan Brown recuperou a mitologia de Rennes-le-Château! Como é possível que NENHUM dos seus adoradores aqui em Portugal conheça, sequer, o nome de Rennes-le-Château?? Quando foi precisamente a esta farsa de triste memória que Dan Brown foi buscar toda a sua inspiração?

Para quem não sabe, Rennes-le-Château é um lugarejo perdido no sul de França, onde teve lugar a criação de uma das mais longas, complexas, e terríveis farsas pseudo-históricas da modernidade. A lista de "grão-mestres" do pretensamente secular "Prieuré de Sion" que Dan Brown refere no romance foi retirada de um panfleto forjado, intitulado "Dossiers Secrets", que foi depositado na Biblioteca Nacional em Paris, nos anos sessenta, por Pierre Plantard, sob o pseudónimo de Henri Lobineau.

O "Prieuré de Sion" foi criado nos anos cinquenta, e que agruparia uma juventude "católica, monárquica e cavaleiresca" em torno de Pierre Plantard (que se auto-intitulava "Pierre de France"), o arrogante e pretenso "descendente" da Dinastia Merovíngia. Contudo, as origens bem mais modestas de Pierre Plantard, bem como a sua simpatia pelo regime de Vichy, a sua tendência anti-judaica, e o seu cadastro na polícia, são tudo coisas ocultadas da opinião pública.

Para quê ir mais longe? As pessoas que lêem Dan Brown nem sabem o que é Rennes-le-Château! Palavras para quê?! Por favor, informem-se. Até a Internet, que nestas coisas costuma não ser de fiar, está cheia de material refutatório...

A pior coisa é cair na esparrela do "génio criativo" de Dan Brown.

Para saber mais sobre Rennes-le-Château:
http://bmotta.planetaclix.pt

Para saber mais sobre o Prieuré de Sion:
http://www.priory-of-sion.com

Bernardo

quinta-feira, 24 de junho de 2004

Pobre apóstolo João...

Pois é... Nos dias que correm, nem mesmo os apóstolos que morreram há 2.000 anos estão a salvo do disparate...

Tenho estado envolvido nalguns comentários no blogue Afixe em torno da questão da pretensa "Maria Madalena" que agora, vários séculos depois, toda a gente consegue ver com tanta clareza no quadro da última ceia de Leonardo da Vinci.


Fresco pintado na parede do refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão



É um notável caso de milagre ocular! Durante séculos NINGUÉM viu à direita de Cristo outro senão o apóstolo S. João. Pois agora, em pleno século XXI, a deterioração que está a carcomer o mural de Leonardo, pelos vistos, parece estar a ajudar à nitidez! Nunca como agora tantas pessoas conseguem, de facto, ver no lugar de João, a figura feminina de Maria Madalena! É impressionante!

Claro que, nas ondas da paranóia "brownesca" e no rescaldo da pseudo-novidade do romance-lixo de Dan Brown "O Código Da Vinci", tudo agora parece "encaixar" como um puzzle.

Contudo, a estes novos "teóricos da tela" deve parecer "conspiratória" a opinião unânime dos peritos de arte dos últimos séculos, que insistem que S. João sempre foi pintado com traços efeminados, e que isso sempre foi prática comum entre os pintores. A eles, adeptos vorazes das teses "brownescas", pouco interessa saber as razões para esta característica de S. João. Razões essas que, escapando-lhes completamente, permitiriam compreender a verdade dos factos.

Ora sucede que S. João, como apóstolo, é o pólo oposto de S. Pedro.
S. Pedro é a "pedra":

"tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam " - Mateus 16, 18.

S. Pedro é força impetuosa, impulsiva, e extrovertida. É sobretudo uma força firme (veja-se o simbolismo da "pedra"), mas "exterior".
Por outro lado, S. João é o apostolo discreto, que na sua quietude melhor guarda os "segredos" de Cristo. É o fiel depositário da doutrina. É também firme, mas "interior". Recordemos que, conforme os textos evangélicos, era ele o apóstolo que Jesus mais amava. Isto explica a supremacia do lado interior face ao lado exterior.

S. João está "acima" de S. Pedro, porque está mais próximo do Mestre. Na escolha dos seus apóstolos, Jesus começou pela "pedra firme" que é Pedro, sobre a qual começou a construir a sua Igreja. E terminou na escolha do apóstolo João, que era quem Ele mais amava, e quem Lhe era mais próximo.

Tradicionalmente falando, é a dicotomia entre o "exoterismo" de Pedro e o "esoterismo" de João. Entre o carácter impulsivo e expansivo da "força exterior" e a quietude e discrição da "força interior". Por isso, é S. Pedro representado como um homem forte e destemido, e S. João como um homem físicamente mais débil, porque a sua força não está no "exterior" mas sim no "interior".

S. Pedro tem que ser exteriormente "forte" em virtude do seu papel.
S. João tem que ser interiormente "forte" em virtude do seu papel.

O uso, no meio artístico renascentista, de traços menos viris para S. João apenas demonstra claramente um conhecimento por parte dos pintores da dicotomia entre estes dois apóstolos.

Colocar uma Maria Madalena à mesa da Última Ceia nem seria errado, porque é razoável supor que Maria Madalena acompanhava o Mestre para todo o lado. Mas há dois erros graves e crassos:

1. Colocá-la ao lado de Cristo, e no Seu lado direito, quando é certo e sabido que à direita se senta a pessoa mais importante a seguir a quem preside, e essa pessoa só podia ser o apóstolo João, que era aquele que Jesus mais amava;

2. E pior, fazer desaparecer S. João da mesa! Onde foi ele parar, caros adeptos de Dan Brown?

Para os novo-"teóricos" do "sagrado feminino", colocar Maria Madalena ao lado de Jesus seria uma forma evidente de realçar a importância dela como mulher-chave no plano salvífico de Cristo. Mas esquecem-se que é irrazoável, com tal substituição, fazer desaparecer o apóstolo mais amado!

Além de tudo isto, colocar Maria Madalena (que é todavia Santa e de direito), num papel chave na Redenção é menosprezar quem tem, de facto e plenamente, o direito a esse papel: Maria, Mãe de Deus e Co-Redentora.

Bernardo

quarta-feira, 19 de maio de 2004

O "Juramento Jesuíta" (continuação)

Qual será então a origem do texto do "juramento"?

O que se diz é que a inspiração para este texto parece provir de um romance de Charles Didier, chamado Rome Souterraine, que teve tradução para inglês alguns anos mais tarde após a sua publicação.

A publicação original ocorre em 1833. O escritor Victor Hugo conheceu bem Charles Didier, bem como este romance, que teve algum sucesso.
A tradução foi de facto obra de um jesuíta dissidente, Alberto Rivera, que a verteu para inglês, sendo a tradução editada em Nova Iorque em 1843. O Rome Souterraine é, sobretudo, um romance de intriga entre alguns carbonários e as forças papais. Charles Didier explica deste modo o contexto do seu romance:

«Deux éléments rivaux ont constitué pendant tout le moyen âge le corps italien : l’élément guelfe et l’élément gibelin. Né de la lutte même, et peu à peu détaché des deux autres, un troisième élément a fini par se dégager tout à fait ; c’est l’élément populaire, l’élément du progrès. […] chassé, il se réfugia dans les entrailles de la terre. Le carbonarisme fut dès lors appelé à le représenter en Italie.»
Fonte: Guermès, Sophie, "Les écrivains de langue française témoins du Risorgimento" - Resumo de uma participação no seminário "L'Écrivain Dans l'Histoire", Universidade Marc Bloch (Strasbourg II), onde a autora fala sobre Charles Didier e a sua obra Rome Souterraine.

Assim, sem ler o romance, é difícil saber se Charles Didier se baseou nalguma coisa de fiável para escrever o famoso "juramento". Contudo, se a obra é um romance, existe uma grande probabilidade de tudo se tratar de criação artística.

Qual é o meu palpite? É que pode haver diferenças grandes entre a postura do romancista Charles Didier, e o aproveitamento que Alberto Rivera poderá ter feito do romance Rome Souterraine. As opiniões de um dissidente valem o que valem. Tudo depende da honestidade do dissidente. Em relação ao European Institute for Protestant Studies, não estou qualificado para comentar a sua credibilidade. Posso apenas comentar, baseado no site e no pouco que conheço do seu criador.

Agora, parece-me muito suspeita e inadequada a forma como este instituto apresenta os factos, sem mencionar uma palavra sequer sobre a questão eleitoralista que explica a inclusão do "juramento" nos Congressional Records:

«[The following is the text of the Jesuit Extreme Oath of Induction as recorded in the Journals of the 62nd Congress, 3rd Session, of the United States Congressional Record (House Calendar No. 397, Report No. 1523, 15 February, 1913, pp. 3215-3216), from which it was subsequently torn out. The Oath is also quoted by Charles Didier in his book Subterranean Rome (New York, 1843), translated from the French original. Dr. Alberto Rivera, who escaped from the Jesuit Order in 1967, confirms that the induction ceremony and the text of the Jesuit Oath which he took were identical to what we have cited below. – A. N.]»

Ao que me parece, este pomposo Institute for Protestant Studies mais parece uma fachada para o movimento anti-católico de Ian Paisley, cujas mãos aparentam estar enfiadas bem fundo na negra questão do Ulster. O próprio facto do endereço do site do instituto ser o próprio nome de Ian Paisley faz parecer que é um "instituto" de uma pessoa só.

Bernardo

segunda-feira, 17 de maio de 2004

O "Juramento Jesuíta"

Há uns dias o João Vasco do Diário de uns Ateus publicava um artigo sobre o famoso "Juramento Jesuíta", que é uma farsa com mais de 100 anos de idade. A origem exacta do texto do "juramento" é difícil de precisar com exactidão, se bem que poderá estar parcial ou totalmente contida no romance de Charles Didier (1805-1864), Rome Souterraine.

A Internet está cheia de excertos e versões deste pretenso "juramento", sendo que as mais frequentemente citadas, com o título de "Jesuit Oath" ou "Jesuit Extreme Oath of Induction", correspondem a dois textos:

Texto depositado na Biblioteca do Congresso (Washington - EUA), índice de catálogo #66-43354
«I furthermore promise and declare that I will, when opportunity presents, make and wage relentless war, secretly or openly, against all heretics, Protestants and Liberals, as I am directed to do, to extirpate and exterminate them from the face of the whole earth; and that I will spare neither age, sex or condition; and that I will hang, burn, waste, boil, flay, strangle and bury alive these infamous heretics, rip up the stomachs and wombs of their women and crush their infants heads against the walls, in order to annihilate forever their execrable race. That when the same cannot be done openly, I will secretly use the poisoned cup, the strangulating cord, the steel of the poinard dignity, or authority of the person or persons, whatever may be their condition in life, either public or private, as I at any time may be directed so to do by any agent of the Pope or Superior of the Brotherhood of the Holy Faith, of the Society of Jesus.
In confirmation of which, I hereby dedicate my life, my soul and all my corporeal powers, and with this dagger which I now receive, I will subscribe my name written in my own blood, in testimony thereof; and should I prove false or weaken in my determination, may my brethren and fellow soldiers of the Militia of the Pope cut off my hands and my feet, and my throat from ear to ear, my belly opened and sulphur burned therein, with all the punishment that can be inflicted upon me on earth and my soul be tortured by demons in an eternal hell forever!

All of which I, M_______ N_______ , do swear by the blessed Trinity and blessed Sacrament, which I am now to receive, to perform and on my part to keep inviolably; and do call all the heavenly and glorious host of heaven to witness these my real intentions to keep this my oath.

In testimony hereof I take this most holy and blessed Sacrament of the Eucharist, and witness the same further, with my name written with the point of this dagger dipped in my own blood and sealed in the face of this holy convent.»


Escusado será dizer que se pode depositar o que se quiser na Biblioteca de Congresso dos E.U.A., bem como em muitas bibliotecas espalhadas por esse mundo fora. Basta preencher o formulário apropriado. Por isso, o facto deste texto se encontrar depositado na Library of Congress não prova nada. Faz lembrar a não menos mal-cheirosa história de uns Dossiers Secrets de um tal de Henri Lobineau, com uma lista de grão-mestres de uma "irmandade" chamada Prieuré de Sion, que tanta gente leva a sério só porque estes textos se encontram depositados na Bibliothèque Nationale em Paris, quando já se deveria saber bem que os textos foram escritos por Pierre Plantard e Phillipe de Chérisey, sendo o nome de Henri Lobineau apenas um pseudónimo.

Adiante... O texto do "juramento" também se encontra noutro local...

Texto publicado nos Registos do Congresso, ano 1913, página 3216
«I do further promise and declare that I will, when opportunity presents, make and wage relentless war, secretly and openly, against all heretics, Protestants and Masons, as I am directed to do, to extirpate them from the face of the whole earth; and that I will spare neither age, sex nor condition, and that will hang, burn, waste, boil, flay, strangle, and bury alive these infamous heretics; rip up the stomachs and wombs of their women, and crush their infants' heads against the walls in order to annihilate their execrable race. That when the same cannot be done openly I will secretly use the poisonous cup, the strangulation cord, the steel of the poniard, or the leaden bullet, regardless of the honour, rank, dignity or authority of the persons, whatever may be their condition in life, either public or private, as I at any time may be directed so to do by any agents of the Pope or Superior of the Brotherhood of the Holy Father of the Society of Jesus.
In confirmation of which I hereby dedicate my life, soul, and all corporal powers, and with the dagger which I now receive I will subscribe my name written in my blood in testimony thereof; and should I prove false, or weaken in my determination, may my brethren and fellow soldiers of the militia of the Pope cut off my hands and feet and my throat from ear to ear, my belly be opened and sulphur burned therein with all the punishment that can be inflicted upon me on earth, and my soul shall be tortured by demons in eternal hell forever. That I will in voting always vote for a Knight of Columbus in preference to a Protestant, especially a Mason, and that I will leave my party so to do; that if two Catholics are on the ticket I will satisfy myself which is the better supporter of Mother Church and vote accordingly. That I will not deal with or employ a Protestant if in my power to deal with or employ a Catholic. That I will place Catholic girls in Protestant families that a weekly report may be made of the inner movements of the heretics. That I will provide myself with arms and ammunition that I may be in readiness when the word is passed, or I am commanded to defend the Church either as an individual or with the militia of the Pope.
All of which I,_______________, do swear by the blessed Trinity and blessed sacrament which I am now to receive to perform and on part to keep this my oath.

In testimony hereof, I take this most holy and blessed sacrament of the Eucharist and
witness the same further with my name written with the point of this dagger dipped in my
own blood and seal in the face of this holy sacrament.»


Os Congressional Records são os Registos do Congresso dos E.U.A.! Não são, como diz erradamente o João Vasco, nada que se pareça com um "Congressional de Relatórios", que é uma tradução livre e imaginativa que alguém fez da expressão "Congressional Records".

Então de onde vem tudo isto? Como é que estes dois textos, relacionados propositadamente com os Jesuítas em tantos e tantos sites na Internet, vêm parar aos Congressional Records?

Temos que regressar às eleições norte-americanas de 1912, onde para a Pensilvânia concoriam os dois candidatos Eugene C. Bonniwell (democrata) e Thomas S. Butler (republicano). O candidato Bonniwell perdeu, e objectou contra a eleição de Butler em representação do estado da Pensilvânia.
O Comité Eleitoral investigou as objecções de Bonniwell e produziu o relatório 1523 (House Report 1523). Este relatório foi submetido a 15 de Fevereiro de 1913, e a pedido do congressista Olmsted, foi incluido no Congressional Record.

Entre outras objecções, o Eugene Bonniwell fazia menção a uma querela religiosa com os apoiantes de Thomas Butler. Eis os detalhes (no original em inglês):

«The West Chester Village Record is a local newspaper largely owned and controlled by T. L. Eyre, Republican boss of Chester County, and personal representative of Thomas S. Butler. The Chester Republican is a local paper largely owned and controlled by Senator William C. Sproul, a Republican boss, and personal representative of Thomas S. Butler in Delaware County. On August 15, 1912, the West Chester Village Record published the following editorial:

"The Hon. Thomas S. Butler, the Republican nominee for Congress, was born and reared in the Society of Friends, and is proud of his Quaker ancestry. His opponent, Eugene C. Bonniwell, is a Roman Catholic."

On August 28, 1912, the Chester Republican reprinted this editorial. Coincident with the two said editorials messengers in the employ of supporters of Thomas S. Butler traversed the district, having in their possession and circulating a blasphemous and infamous libel, a copy of which is hereto attached, pretended to be an oath of the Knights of Columbus, of which body the contestant [Bonniwell] is a member. So revolting are the terms of this document and so nauseating its pledges that the injury it did not merely to the contestant but also to the Knights of Columbus and to Catholics in general can hardly be measured in terms.

I charge that the circulation of this oath and the publication of the two editorials herein referred to were part of a conspiracy . . . for the purpose of arousing religious rancor and of defeating the Democratic nominee. The Constitution of the United States prohibits any religious test for office. The organization supporting Thomas S. Butler created such a test, blazed bigotry in the hearts and minds of the ignorant, and slandered and vilified a great body of honorable men.

I file no complaint because of adverse election returns. The Democracy of Pennsylvania is inured to adversity. Nor is this complaint registered because of defeat resultant upon faith or race. In these things I own a just pride and do not protest if, because of either, political honors are to be denied men. But when a calumnious, viperish attack upon either faith or race is launched, injecting religious bigotry into the political affairs of this Nation, then this protest is made in the certain confidence that all patriotic men, mindful of the religious as well as the political liberty that the forefathers designed should be our heritage, will rise and strike down the beneficiary of such a treacherous and dastardly movement.

For myself I make no appeal to your honorable body that I may be seated... This I do maintain, that this man, receiving his election under these circumstances, adding the felonies of forged papers, perjured acknowledgements, and violated grand jury to the more wicked crime of religious slander, ought not to be tolerated in the House of Representatives.»


A este texto, Bonniwell anexou um panfleto chamado "Knights of Columbus Oath". Este novo "juramento" é só uma versão expandida do texto panfletário chamado "Juramento Jesuíta" já nosso conhecido.
Nesta página, podemos ver as diferenças entre as várias versões:
http://www.shasta.com/sphaws/jesuitoath.html

O que é curioso é que o panfleto dos apoiantes republicanos do candidado Thomas Butler não falava nos Jesuítas, mas sim numa sociedade chamada Knights of Columbus. À parte deste detalhe, o texto era o mesmo.

Thomas Butler afirmou, na sua carta de resposta, que não acreditava na veracidade do panfleto, e que não era responsável por ele:

«I do not believe in its truthfulness, and so stated my judgment concerning it on November 4, 1912 (as soon as complaint was made to me of its general circulation), through the columns of the West Chester Daily Local News...»

Porque fez parte de uma batalha eleitoral escaldante, o infame texto foi incluido nos Congressional Records. Claro que ninguém sensato assumiria que o Congresso, ao incluir o texto difamatório, o estaria a sancionar ou a validar. Contudo, é o que fazem centenas de pessoas pouco sensatas em vários locais da Internet.

Várias páginas anti-católicas socorrem-se deste pretenso "juramento", sem o enquadrar com o obscuro episódio eleitoral do qual ele fez parte. É o caso do autor Ian Paisley, em The Jesuit Oath Exposed.

Tanta falta de seriedade é chocante. Sobretudo quando o senhor Paisley deveria saber que o texto, conforme aparece nos Congressional Records, menciona uma sociedade chamada Knights of Columbus, e não os Jesuítas. Ao que parece, este texto forjado tem sido útil a muita gente. Por exemplo, uma subtil, mas importante, diferença entre as duas versões está na palavra "Masons" e "Liberals". Ou seja, quando os maçons queriam usar este texto, usavam-no na versão "masons", quando eram os liberais que o queriam aproveitar, trocavam a palavra.

Espero ter tempo para encontrar a origem verdadeira do texto, recorrendo se conseguir ao romance de Charles Didier, Rome Souterraine, que ao que parece, serviu de inspiração para muita gente.

O João Vasco estudou mal as fontes deste libelo difamatório.
Ao fazê-lo, participou na onda difamatória. A evidência de que não devemos acreditar cegamente naquilo que encontramos na Internet, mesmo que nos seja conveniente. Uma simples pesquisa como esta teria permitido ao João Vasco descartar este falso "argumento ateu". Tenho pena, porque na mediocridade intelectual do site Diário de uns Ateus, o João Vasco parece ser, de longe, o mais inteligente, abrangente e culto. Espero que ele me perdoe o atrevimento desta demonstração, porque também eu não sou um perito na matéria, e que seja capaz de aceitar a validade destes argumentos de refutação.

Que a infâmia do "Juramento dos Jesuítas" desapareça de vez.

Bernardo

Fontes:
Jesuit Oath
The Jesuit Oath Debunked
Jesuit apologetic
Guermès, Sophie, "Les écrivains de langue française témoins du Risorgimento"
Resumo de uma participação no seminário "L'Écrivain Dans l'Histoire", Universidade Marc Bloch (Strasbourg II), onde a autora fala sobre Charles Didier e a sua obra Rome Souterraine.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

A paranóia deste espectador

Serei paranóico sobre Dan Brown e o seu livro?

Não me parece...
Também é certo que os paranóicos não se vêem como tal.
Tem-me sido sugerido frequentemente, desde que eu instaurei o sistema de comentários nos "Espectadores", que eu deveria ocupar o meu tempo de melhor forma.

É uma maneira um pouco deselegante de se dizer que se discorda de uma opinião.
Convenhamos...

Perante este crescendo de anti-catolicismo, que para tanta gente passa despercebido, não sou capaz de reagir de outra forma senão esta.

Dan Brown é um pobre coitado. Não é ninguém.
Ele nem é a questão central. Frequentemente os joguetes das forças anti-tradicionais nem sabem que o são. Já falei disso em tempos... Trata-se de anti-tradicionalismo inconsciente.

Mas alguns de nós, apesar das nossas limitações de espectadores que tentam estar atentos, simplesmente reagem com repúdio e revolta à infâmia, à mentira e à difamação.

Hei-de reagir a este tipo de manifestações anti-tradicionais enquanto me sentir com forças para tal. O resto é conversa...

Bernardo

PS: Sinceramente não percebo: se estes temas não interessam a ninguém, porquê os comentários a sugerir-me que "mude de vida"? Será que as pessoas que escrevem estes comentários não têm mais nada para fazer?

A Internet é muito grande!
Vão pregar para outra freguesia.

sexta-feira, 7 de maio de 2004

"O Cómico Da Vinci"

Se não fosse a postura convicta do autor, Dan Brown, o livro The Da Vinci Code até poderia parecer uma sátira literária. Mas não é! É um romance, para o qual o próprio autor admite ter-se baseado em factos reais.

Em Portugal, a polémica em torno desta novela ainda vai no início.
Contudo, e bem, a Agência Ecclesia antecipa-se com algumas explicações que vale a pena seguir:

"O Código Da Vinci" - Quando o objectivo é vender

Apenas discordo do título do artigo.
A Bertrand, acredito-o sinceramente, tem como objectivo único vender e fazer dinheiro.
Não acredito que haja o descaramento por parte da Bertrand de afirmar que o livro traz algo de culturalmente relevante.
Agora, da parte de Dan Brown, já não me parece que haja só vontade de fazer dinheiro, apesar desta poder ser a principal motivação.

Há, em todas as palavras de Dan Brown, um sentimento fortemente anti-católico.
Uma pulsão de niilismo que visa arremeter com todas as forças contra a Igreja Católica, que ele chama infantilmente de "The Vatican". Como se a Igreja se pudesse confundir com a residência do Santo Padre.

Mas o que não falta são confusões na cabeça de Dan Brown. Vários comentadores afirmaram que o próprio título é risível: dizer "O Código Da Vinci", é tão estúpido como dizer "O Evangelho De Nazaré", referindo-se aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Enfim, para quem não vê nada de novo na temática escolhida por Dan Brown, tudo isto encontra a sua base nas lendas criadas pelo mitómano Pierre Plantard e o seu amigo Phillipe de Chérisey. Uma "clique" de seguidores alargou o caudal de uma das mais extraordinárias farsas contemporâneas, que é a do Prieuré de Sion, essa pretensa "irmandade" com 900 anos de idade, feita para preservar a "verdadeira fé" no Divino Feminino (ou seja, Maria Madalena - Deus no feminino) e a "linhagem sagrada" dos descendentes (sic) de Jesus e Maria Madalena.

Que quer Dan Brown?
O mesmo que Pierre Plantard... Vingar-se da Igreja Católica vertendo o seu ódio anti-católico na escrita e propagação de mentiras de venda fácil. Aproveitar-se da ignorância generalizada das massas.

O que pode fazer o português que se veja com o romance de Dan Brown nas mãos? Tem três hipóteses:

1. Devolvê-lo à livraria onde o adquiriu ou processar a Bertrand (preferível, mas trabalhoso);
2. Usá-lo para papel higiénico (se a primeira falhar).
3. Lê-lo (boa sorte), e tentar informar-se das "fontes" de Dan Brown. Com algum esforço, tudo o que Dan Brown nos "revela" cai por terra com facilidade ao final de alguns dias de pesquisa.

Bernardo

P.S. Lista resumida dos autores que Brown pilhou:
Henry Lincoln, Michael Baigent, Richard Leigh, Lynn Pickett, Clive Prince, Margaret Starbird, entre tantos, tantos outros...
Contudo, a "propriedade intelectual" da farsa do Prieuré de Sion pertence ao já morto e enterrado Pierre Plantard.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Afinal vai ser a Bertrand...

Em Dezembro, eu perguntava qual seria a editora vampiresca que se iria atirar à publicação do romance-lixo de Dan Brown The Da Vinci Code...

O Independente, na passada quinta-feira, trouxe a resposta, num longo artigo sobre o livro e o seu autor.
Já temos um vencedor! É a Bertrand!
Parabéns à editora por um fantástico favor que faz à mediocridade e à pobreza intelectual. Após milhões de vendas no estrangeiro, finalmente chega a Portugal o best seller de Dan Brown!

O Código Da Vinci

É este o título da obra (?) que vamos encontrar à venda nas livrarias dentro de uma ou duas semanas.
Fica desde já aqui o aviso de que este romance pseudo-histórico, de histórico só tem a inspiração fantasiosa. Remeto os interessados, e aqueles que ficarem empolgados pelas afirmações e hipóteses lançadas por Dan Brown, para o trabalho sobre Rennes-le-Château que tenho publicado no site http://bmotta.planetaclix.pt.

Neste site encontra-se muito material informativo e muitas provas, que permitem detectar a fraude literária de Dan Brown, e deitar por terra as suas (que nem são só suas) fantasias. Aviso desde já de que o romance de Dan Brown é bem mais empolgante do que o meu site. Por isso, só recomendo uma visita a quem se empolgar mais com a verdade.

Bernardo

segunda-feira, 1 de março de 2004

Skeptic's Annotated Bible (and Quran)

Os nossos críticos ateus do www.ateismo.net enviaram-nos uma sugestão de leitura:

Skeptic's Annotated Bible (and Quran)

Devo dizer que foram muito divertidos os 3 minutos que perdi naquele site. Claro que o site não me foi recomendado como sendo algum tipo de argumentação ateia, ou refutação do teísmo, mas sim como um tipo de graçola.

O site é, sem dúvida, impressionante pela enorme quantidade de trabalho que lá se encontra.
Falamos de imenso trabalho. Horas e horas. Comentar toda a Bíblia e todo o Corão é um trabalho que mete respeito. Mas respeito pela sua dimensão, não pela sua qualidade.

A utilidade do trabalho é quase nula.
Os preconceitos dos comentários são gritantes.
A ignorância dos significados e do simbolismo é quase total.

É como se alguém se decidisse a anotar a lista telefónica de Lisboa, escrevendo em todas as entradas uma laracha sobre a pessoa em questão.

Fez-me lembrar uma tirada genial do filme "Um Peixe Chamado Wanda".

Wanda está a insultar Otto, dizendo-lhe que ele é como um macaco. Já não me recordo da forma concreta do insulto...
E Otto responde-lhe, com um ar pomposo:

"Apes don't read philosophy!"

Ao que Wanda retorque:

"Yes they do, Otto! Yes, they do... They just don't understand it..."

Bernardo

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004

Ai o ateísmo...

Encontrei há pouco na internet este site, cuja visita recomendo, porque é didáctica:

http://www.ateismo.net

Esta questão do ateísmo está um pouco fora de moda, e este site é uma viva prova disso. Lembra os velhos chavões do positivismo, racionalismo, evolucionismo, darwinismo, cartesianismo, mecanicismo, materialismo, enfim, todos os típicos "-ismos" destes "livres pensadores". O que é curioso é que tanta liberdade de pensar culmina, no limite, com não pensar de todo.

Enfim, o site é intelectualmente medíocre, o que é entristecedor para a causa ateísta.

No meio do caos intelectual em que mergulhou o mundo moderno, não deixo contudo de apontar que acho estes senhores muito menos perigosos do que aqueles que defendem pseudo-espiritualidades. Perfiro a mente céptica de um bom e feroz ateísta aos perigosos delírios das novas tendências "new age".

Talvez o diálogo seja difícil com um ateísta. Mas o diálogo com adeptos do espiritismo, da cientologia, da teosofia, do ocultismo, é simplesmente impossível.

Bernardo

domingo, 4 de janeiro de 2004

A "linhagem" de Jesus

Deu hoje no Canal História um documentário, que suponho seja já antigo e repetido, sobre a eterna especulação em torno das hipóteses fantasiosas de uma descendência humana de Jesus.

Pergunto-me quantos foram os espectadores, sentados no conforto de suas casas, que se deram conta do fraquíssimo conteúdo histórico deste documentário? Não terá o Canal História como objectivo a divulgação da (verdadeira) História?

Todo o documentário gira à volta de expressões como "diz-se que..." ou "pensa-se que...". Mas quem diz? Quem pensa?

Ao que parece, ninguém "pensa" neste documentário, visto estar cheio de falsidades.

Eis apenas algumas:

Jesus casou com Maria Madalena e teve descendência. Esta descendência, a chamada "linhagem sagrada", veio dar origem à primeira dinastia da actual França, os Merovíngios. Os cavaleiros Templários, eternamente arrastados para todo o tipo de especulações pseudo-esotéricas, teriam como principal função a "protecção da linhagem".
Os erros grosseiros do documentário são tantos que demoriaria muito mais tempo a corrigi-los que deu a cometê-los.
Godofredo de Bulhão, campeão da Cruzada que tomou Jerusalém em 1099, surge como figura de proa na tomada de Jerusalém, segundo o documentário, porque "era da linhagem de Jesus".

Claro que a Igreja Católica, o eterno inimigo, quando ataca os hereges cátaros no século XIII está, segundo o documentário, a atacar a "linhagem", verdadeira ameaça para o poder católico instituido.

Chega-se ao ponto de sugerir que o trovador germânico Wolfram von Eschenbach (séc. XIII), no seu Parzival, aludia à "linhagem sagrada" quando falava nos cavaleiros do Graal.

Numa deturpação abusiva, "santo graal" passa a "sangraal" ou seja "sang raal". Daqui, salta-se para "sang real".
Assim, o Graal seria o "sangue real" de Jesus, a sua dinastia perpetuada secretamente através de 2.000 anos de História. E o inimigo desta dinastia seria, claro, a Igreja Católica, usurpadora do poder que pertenceria por direito a esta "linhagem sagrada". Como não ver nestas teorias, para além do interesse económico de editoras e canais televisivos sem escrúpulos, uma agenda anti-católica clara e evidente? Baseada na ignorância generalizada da opinião pública em relação a estes assuntos?

Tudo isto transpira, é claro, às fantasias modernas do Prieuré de Sion e da mitologia moderna de Rennes-le-Château. Todo o suporte pseudo-histórico deste documentário foi inventado há menos de 50 anos atrás.

Fica aqui o aviso: cuidado com a péssima qualidade dos documentários do Canal História. Pergunto-me que objectivos terá o Canal História para permitir que material de tão má qualidade e tão tendencioso possa ter direito a aparecer num Domingo à tarde, como documentário para toda a família assistir...

Enfim, já quase não há nada no cenário audiovisual moderno em que se possa verdadeiramente confiar e que esteja isento de "agendas"...

Bernardo

quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

A Time dá uma ajuda a Dan Brown

Na edição desta semana, a Time traz o seguinte artigo: "The Lost Gospels".
Fala-se no artigo da crescente popularidade dos "evangelhos proibidos", os apócrifos. O artigo discorre sobre a forma como o universo multimédia está cada vez mais a ressuscitar velhas heresias como o gnosticismo. E dá dois exemplos: a trilogia cinematográfica "Matrix" dos irmãos Wachowsky, e o inevitável best-seller instantâneo "The Da Vinci Code" de Dan Brown.

Contudo, como sempre, a Time dá os seus tí­picos "toques" de parcialidade. A certa altura, o artigo cita um excerto do Evangelho de Pedro, um dos apócrifos. Após a citação, vem este trecho:

«You probably haven't heard of [The Gospel of] Peter because by A.D. 350 church fathers had tarred it as heresy, along with dozens of other early Scriptures with names like the Gospel of Mary, the Acts of John, the Homilies of Clement, and the Gospel of Truth. Thus Peter and the others languished in ignominy, more or less forgotten.»

Não percebo qual é o problema que alguma mentalidade moderna tem com a questão das heresias e dos textos apócrifos.
Do mesmo modo que, no trabalho cientí­fico moderno, se rebatem teses absurdas, eliminando-as para subsistirem as mais válidas, também em Teologia se fez este importante trabalho de destrinçar a falsidade da verdade.
O facto de estes erros terem sido condenados há 1.700 anos, sem nunca mais terem sido readmitidos, deveria servir de comprovativo da estabilidade da doutrina.

O preconceito anti-clerical revolve frequentemente em torno da ideia de que a religião católica funciona com base no binómio "poder das autoridades" versus "massa de fiéis ignorantes e crédulos". Por isso, sucede que, de vez em quando, lá temos que suportar estas posturas pseudo-intelectuais de quem diz vir em socorro dos fiéis, enganados por uma Igreja tirana, falsa e déspota.

Não vou sequer debruçar-me sobre o tema da sexualidade de Jesus.
É bem sabido que alguns textos apócrifos mencionam, com margem para dúvidas, uma relação entre Jesus e Maria Madalena. Contudo, não foi tanto por isso que a Igreja Católica os rejeitou, mas sobretudo pelos seus erros teológicos.

Mais adiante no artigo, a Time "recupera" algumas posturas heréticas: a dos Ebionitas, a dos Marcionitas, e sobretudo a dos Gnósticos, que é a mais popular nos dias que correm.

Numa mensagem posterior, escreverei sobre estas heresias, para explicar sucintamente porque é que elas constituem graves erros teológicos, e porque é que os textos que as reflectiam não foram incluí­dos no cânone da Igreja.

Bernardo

terça-feira, 16 de dezembro de 2003

De novo à carga...

Depois de uma longa ausência, justificada pelos melhores motivos, regresso com uma referência a um artigo que surgiu na edição desta semana da revista "U.S News", intitulado "The Jesus Code - Americans may be unique in revising the Christ story to get back to the original human preacher".

É um artigo muito preocupante, mas que só espanta os mais distraídos.
Tudo gira à volta de um romance de Dan Brown, que se está a tornar rapidamente num best-seller, chamado "The Da Vinci Code". Para quem conhece os meandros do mistério de Rennes-le-Château, tudo isto não será novo. Durante largos anos dediquei-me, e ainda o faço, a este mistério. Por isso, livros como o de Dan Brown, francamente, têm um estilo que já me enjoa. Já não se pode mais com as teorias do "segredo que a Igreja ocultou", do Jesus que casou com Maria Madalena, do Jesus que teve filhos, enfim, com a típica lista interminável de hipóteses revisionistas, feitas para causar escândalo, provocar o êxodo em massa dos crentes que ainda restam, e para gerar lucros aos autores e editores.

Dan Brown é tudo menos inovador. Há duas décadas atrás, o trio Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh, autores do explosivo "The Holy Blood and the Holy Grail", avançava com exactamente as mesmas teorias, mas na forma de obra documental, o que é consideravelmente mais grave.
O livro de Dan Brown é um romance. Por isso, o autor pode escudar-se atrás do argumento de que a obra é ficcional.
O enredo, confesso que não o conheço com detalhe, gira à volta do tal segredo que a Igreja Católica ocultou. Na trama de Brown, a protecção e ocultação deste segredo está a cargo do Opus Dei. Como se lê no referido artigo, o "timing" é muito oportuno, numa altura em que os Estados Unidos estão a braços com os escândalos da Igreja Católica norte-americana. Mas não há qualquer base real na trama deste romance, o que o torna muito perigoso para os 4,3 milhões (número de cópias a colocar à venda) de potenciais compradores pelo mundo fora.
Insinua-se gratuitamente que a Igreja Católica é um covil de farsários, que se dedicam há 2 milénios a uma profunda e sofisticada fraude sobre a pessoa de Jesus. Ainda bem que surgiu o cérebro evoluido do senhor Dan Brown para, finalmente, depois de 2 mil anos de enganos e ilusões, ser detectada esta grande fraude.

Bem sei que estamos a falar de um romance, mas este deveria ganhar um prémio de subtileza. As hipóteses usadas por Brown na sua trama são tão subtis como um elefante numa loja de cristais.

Ao longo dos próximos dias regressarei a este tema, visto que considero o livro de Dan Brown tão perigoso que nunca será demais falar sobre o assunto. Até porque este best-seller será eventualmente publicado em português dentro de pouco tempo.

Para terminar, um aviso: o já velhinho livro de Baigent, Leigh e Lincoln foi recentemente reeditado em português. É uma obra a evitar, a não ser pelos interessados no pitoresco universo alucinado criado pelos seus autores. Trata-se de uma obra cujos danos intelectuais demorarão décadas a recuperar. O recente livro de Dan Brown piora, obviamente, ainda mais esta triste situação.

Concordo com o U.S. News, "americans are unique". Então em matéria de religião...

Bernardo