Mostrar mensagens com a etiqueta Anti-cristianismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Anti-cristianismo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Mulheres, cristianismo e honra

Mário Soares, o actual presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, teceu hoje algumas considerações curiosas acerca de religião, mais específicamente das religiões judaica e cristã, fazendo algumas interpretações pessoais acerca do Antigo e do Novo Testamento.

O texto completo da notícia pode ser lido aqui.
Também lá estava Manuela Augusto, presidente do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas, que abriu o colóquio "Mulheres na Religião".

Citando passagens avulsas dos livros sagrados, diz Soares a certa altura:

Para demonstrar a «pouca estima que as religiões têm pela mulher», Soares recitou uma das mais famosas passagens da Bíblia: «Não cobiçarás a mulher do próximo...» e, depois de uma pausa, continuou ... «nem o escravo, o boi, o burro, nem nada que lhe pertença»
(...)
Para Mário Soares, que é o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, este mandamento sagrado demonstra a "posição de inferioridade" da mulher no mundo da religião, que a iguala ao "boi e ao burro".


Não é preciso grande esforço para ler isto correctamente.
Apesar do final da frase, "nem nada que lhe pertença", falamos de pertenças muito diferentes.
Podemos dizer, sem qualquer risco de excesso machista, que a mulher pertence ao seu marido.
Como podemos dizer, sem qualquer risco de excesso feminista, que o marido pertence à sua mulher.
São dom eterno de um para o outro.
É assim que ensina a mais rudimentar teologia cristã.
E no entanto, o matrimónio é entre homem e mulher, e não entram na equação bois ou burros...
Este mandamento, distorcido por Soares, diz afinal uma coisa bem simples, que ele não compreendeu (ou não quis compreender):
o matrimónio é demasiado sagrado e sério para ser destruído por pessoas de fora.
O decálogo, entre outras coisas, proíbe a cobiça de pertences, é certo, mas proíbe a pior cobiça de todas: cobiçar a "cara-metade" do próximo!

É, sem dúvida, curiosa a leitura muito pessoal que Soares faz deste trecho, e de outros.
Deixa também por explicar um tremendo paradoxo: como é possível que, sendo as mulheres a larga maioria dos fiéis, elas aceitem em larga medida, e voluntariamente, jogar este pretenso jogo judaico-cristão do "escravo", do "boi" e do "burro"...

Há várias possibilidades:

a) as mulheres crentes em geral não sabem ler
b) as mulheres crentes em geral sabem ler, mas desconhecem a Bíblia e nunca leram os trechos indicados
c) as mulheres crentes em geral leram os trechos e aceitam a comparação que é feita
d) as mulheres crentes em geral leram os trechos e não aceitam a comparação que é feita
e) os textos em questão não devem ser lidos através das lentes de Mário Soares e de Manuela Augusto

Eu cá voto apenas na última alínea!
E parece que os nossos Mário Soares e Manuela Augusto votariam nas primeiras quatro alíneas!
Curiosamente, temos que escutar Mário Soares, e a sua colega de evento, Manuela Augusto, para vermos duas pessoas a infantilizarem profundamente as mulheres crentes, e deste modo, a faltarem-lhes ao respeito.
Ao suporem que as mulheres crentes não sabem que o decálogo as compara a escravos, bois e burros, chamam-lhes ignorantes ou iletradas.
Ao suporem que as mulheres crentes aceitam serem comparadas a escravos, bois e burros, chamam-lhes submissas e de masoquistas.
Ao suporem que as mulheres crentes não aceitam serem comparadas a escravos, bois e burros, e nada fazem de eficaz de forma a contrariar tal situação, chamam-lhes ineficientes ou passivas!

Pois, segundo a leitura errada que ambos fazem do texto sagrado, as mulheres crentes são "escravas" ignorantes num mundo de homens!

Para ler qualquer texto, basta saber ler.
Mas para o interpretar, há que ter alguma competência, alguma formação mínima, algum contexto.
Dá jeito ter coisas como catequese, leitura, estudo, seminários, formação teológica, vivência pessoal da fé e da religião, e outras coisas que nos impedem de dizer tristes asneiras sobre religião.

É caso para perguntar quais são as qualificações que se exigem a um presidente da Comissão da Liberdade Religiosa...
Talvez... perceber de religião?
A leitura primária feita por Soares faria rir um adolescente de Seminário, ou uma jovem na catequese, que antes dos quinze anos já deve saber a elevadíssima importância da Mulher na religião cristã, e já deve saber que a Bíblia, EVIDENTEMENTE, não equipara a mulher a um escravo, a um boi ou a um burro...

Diz ainda Soares:

«Se a lição que se pode extrair do Antigo Testamento é a de que 'devemos evitar as mulheres', no Novo Testamento a mulher surge como 'objecto vergonhoso'».


Algo me deve ter escapado, porque nunca recebi tais lições...
Talvez tema para uma bela lição sobre religiões judaico-cristãs para Soares leccionar, numa qualquer Faculdade de Teologia, como Doutor "honoris causa"?

Manuela Augusto ainda nos reserva esta observação:

"Manuela Augusto lembrou ainda que, apesar de as mulheres constituírem a maioria dos fiéis, estão «afastadas dos lugares de honra e glória», sendo-lhe por vezes «vedada a celebração do culto religioso» e até «proibido partilhar com os homens o mesmo espaço de culto»." (negrito meu)


O caminho do sacerdote é um caminho de serviço, e não de honra.
É certamente um caminho honrado, porque é de serviço ao outro e a Deus (que serviço mais elevado existe?), mas não existe para lhe serem prestadas honras ou prestígios.
Ser sacerdote cristão é, inegavelmente, algo de honrado.
Mas resta por demonstrar de que forma é que a honradez de um sacerdote é superior à de uma Santa Rita de Cássia, de uma Santa Clara, de uma Santa Isabel, de uma Santa Teresinha do Menino Jesus, de uma Santa Catarina, de uma Santa Teresa de Ávila,
entre tantas e tantas outras, e sobretudo de uma Santa Maria, Mãe de Deus!

Toda esta comparação entre as "honras" dos sacerdotes e as das mulheres é uma patetice!

O sacerdote representa, na Eucaristia, a própria pessoa de Cristo.
Ora todos sabem que Cristo veio ao Mundo no género masculino. Logo, o sacerdote representa melhor a figura de Cristo se for do mesmo género, ou seja, masculino. É uma contingência do cristianismo, visto que o nosso Deus veio ao Mundo nesse género. Não é porque a mulher não é digna do sacerdócio que não o pode exercer. Não falta à mulher qualquer faculdade ou competência para tal, excepto o facto de não ser do mesmo género escolhido por Cristo para incarnar. É que Cristo não veio ao Mundo como mulher, veio como homem.

E, certamente, não há nessa decisão divina nenhuma vontade em a menosprezar ou minimizar... Nascendo em corpo humano, Cristo, teria que vir ao Mundo num dos géneros: homem ou mulher.

E quantas vezes é preciso repetir que foi uma mulher, Santa Maria Madalena, a primeira testemunha humana da Ressurreição?
Que foi ela quem trouxe a Boa Nova aos discípulos em primeira mão?
Se soubermos que a ressurreição de Cristo é o evento maior da fé cristã, e se soubermos que sem o "fiat voluntas tua" de Maria, Cristo não teria nascido, entenderemos um pouco melhor qual é o lugar de honra que Cristo consagrou, e o cristianismo consagra, à Mulher.

Para terminar, a expressão "lugar de glória", proferida por Manuela Augusto naquele contexto, é uma tragédia: lugar de Glória, no Cristianismo, é reservado a Deus, e a Deus apenas!

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Coincidência?

Eu tenho sempre a mania (involuntária) de entrar numa discussão quando ela já arrefeceu... O que é uma chatice, porque quando tenho coisas para dizer, a sala fica vazia! Mas, simplesmente, não tenho tempo para estar atento a toda a blogosfera, e é só muito de vez em quando que tropeço em coisas que chamam a minha atenção.

Ontem, deparei-me com isto, do Nuno Ramos de Almeida (do 5 dias):

Coincidências

É claro que não podia ficar calado quando se distorce, voluntaria ou involuntariamente, a verdade histórica. Mas até agora, nada! Como os comentários já estavam adormecidos, a razão do silêncio de Nuno Ramos de Almeida deverá ser a simples: ainda não leu os meus comentários. Por isso, para já, o silêncio deverá ser coincidência com o facto de que comentei já tarde. Vamos ver... O tempo dirá!

Não posso deixar de agradecer ao André, pela simpatia em me ter referido num seu comentário. Foi graças a esse comentário que descobri o texto em questão.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O vício da mentira

Quando as ideias intelectuais são definidas na mente de uma pessoa com base em ódios antigos, ou de estimação, daí só pode advir o erro e a mentira. Estes são os filhos do ódio. Digamos que a tarefa de discernir a verdade é das mais árduas que se depara à mente humana. E irmos para essa batalha intelectual munidos de ódio só pode dar asneira. Porque mesmo que não odiemos, a tarefa não deixa de ser árdua. O ódio só a torna pior...

Carlos Esperança, corifeu do Diário Ateísta, é um desses exemplos de um ateísmo imbuído de ódio, um ódio que derivará de uma ou várias experiências pessoais que lhe moldaram o carácter, e que não tem qualquer interesse discutir aqui. Mas há poucas coisas mais desgraçadas do que deixar que as experiências pessoais nos distorçam o intelecto. Do que permitir que um ou outro episódio pessoal nos destrua o acesso intelectual à verdade.

Esta semana, Carlos Esperança voltou a cair no vício da mentira. Faz-me um bocado confusão, esta forma peculiar de defesa do ateísmo que se vale exclusivamente da demolição da crença usando falsidades. Um ateísmo pela negativa, pela anulação do outro. Como se, para a edificação do ateísmo, fosse suficiente um punhado de cinzas resultantes da queima da crença.

Quando digo que Carlos Esperança é o "regente" do Diário Ateísta, quero com isto dizer que ele não está só nesta forma miserabilista de fazer mau ateísmo usando falsidades. Mas também, de entre os seus colegas de blogue, é ele quem se destaca, porque nele tudo é extremo.

Para ele, os fins (denegrir a fé) justificam plenamente os meios (mentir). É certo que há situações em que devemos mentir, quando está em jogo, por exemplo, salvar a vida a alguém. Quando valores mais altos se levantam, então mentir torna-se numa falta menor. Mas, no caso do Carlos, e de muitos outros no Diário Ateísta, mentir pelo ateísmo é um acto menor, com vista à causa maior.

Não sem alguma pena, assisti ao propagar recente de mais uma confrangedora mentira no Diário Ateísta. Imaginei que, com as devidas correcções, haveria a possibilidade de se repetir o fenómeno do "Juramento Jesuíta", ocorrido há uns dois anos, quando um colega de blogue do Carlos, o João Vasco propagou, sem querer, uma mentira. O João Vasco será uma nobre excepção neste blogue, uma vez que, não deixando de ser ateu, detesta a mentira. Deste modo, quando eu lhe fiz ver que o "Juramento Jesuíta" (baseado num documento forjado que daria conta de um juramento secreto que os noviços teriam que proclamar, jurando matar, espezinhar, queimar e destruir todos os seus inimigos) era uma grossa mentira, João Vasco, imediatamente, se prontificou a escrever um artigo para a corrigir. E fê-lo.

Nobre gesto, que infelizmente, nunca se verifica nem nunca se verificou com Carlos Esperança.
Vamos à questão em concreto. Eis a citação que Esperança atribui ao Papa Leão X (1475-1521):

«A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria ingénuo advertir os ignorantes do seu erro»

A princípio, a má fama do seu predecessor Rodrigo Bórgia (Papa Alexandre VI) poderia fazer pensar que Leão X, e se calhar outros Papas daquele período, teria sido também uma pessoa menos recomendável. Confesso que, quando estava em ignorância acerca deste Papa Leão X, até achei plausível que tal frase tivesse saído da sua boca. Lá está: a ignorância a ajudar ao preconceito.

Tendo a perfeita noção de que a infalibilidade papal apenas se aplica a proclamações papais "ex cathedra", também não tremeria na fé se uma asneira destas fosse dita por um Papa. Não é o homem-Papa que é infalível, mas sim o Papa. É o cargo que dá a infalibilidade, e não a virtude da pessoa. Por isso, e isto é suficiente para apontar a futilidade deste esforço de Carlos Esperança, mesmo que a frase fosse historicamente verídica, não colocaria a fé em risco, visto que não se tratava de uma frase "ex cathedra". No entanto, e falo por mim, a falsidade histórica irrita-me. Qualquer uma.

Um rudimentar estudo à vida e obra de Leão X deixa-nos, porém, imediatamente com grandes dúvidas acerca da veracidade da referida citação. E, no entanto, esta citação pulula em míriades de sites ateus, ateístas ou ateízantes (sobretudo nestes últimos). Esta citação também é usada e abusada por alguns "gurus" do New Age como a detestável Acharya S ("The Christ Conspiracy"), considerada ironicamente por um jornalista da nossa praça como uma especialista em espiritualidade...

Mas, afinal, o que é que interessa para uma citação?
O principal interesse de uma citação está no facto de que, sendo verdadeira, se trata de uma frase realmente proferida por uma certa pessoa.

A frase «A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria ingénuo advertir os ignorantes do seu erro» só tem interesse como citação, só é uma citação, se o pobre Papa Leão X realmente a proferiu. Ora não há qualquer dado histórico que o permita supor. Pelo contrário, há dados históricos que permitem supor que se trata de uma falsificação que data do tempo da rainha Isabel I de Inglaterra.

Um estudo de James Patrick Holding, bem como o próprio artigo da Catholic Encyclopedia, explica a história com o necessário cuidado, pelo que remeto os detalhes para estes locais. A referência mais antiga a esta falsa citação encontra-se no dramaturgo John Bale (1495-1563), um carmelita que mais tarde abandonou a fé católica para abraçar o protestantismo. Rapidamente, a sua vida e obra foi orientada para a demolição da Igreja Católica. A sua obra para teatro está recheada de pequenas sátiras e misérias escritas com vista à tentativa de destruição moral da Igreja através de propaganda difamatória.

Na sua obra The Paegant of Popes, Bale atribui a tal pseudo-citação ao Papa Leão X. Não estamos a falar de uma referência de historiador, mas sim de um dramaturgo, ainda por cima apóstata e anti-católico.

Assim morre a miserável pseudo-citação. Contudo, não morre, nem morrerá tão cedo, na opinião pública, na "vox populi". Os leitores do Diário Ateísta adoraram a citação, até devem estar desejosos por mais "pérolas" destas. Nenhum daqueles leitores entusiastas está interessado na verdade histórica, só querem mais porcarias destas para atirar à cara dos crentes que virem pela frente. Só para verem a cara do crente quando se lhe diz que um Papa proferiu tal frase. Só pelo deleite de poderem propagar a teoria conspiratória de que a Igreja Católica é uma gigantesca mentira inventada por poucos e aceite irracionalmente por muitos.

Carlos Esperança, quando confrontado com esta mentira, não seguiu a estrada nobre do seu colega de blogue João Vasco: não corrigiu a sua asneira. Ao invés, afirmou que, perante as "mentiras" da Igreja Católica, ele achava que dizia muitas menos. No fundo, para ele, mentir não está mal, desde que se coloquem as mentiras numa balança. Perde quem tiver mais... Um claro exemplo de uma ética deficitária e de um intelecto arruinado.

Assim, esta falsidade da pseudo-citação de Leão X vai parar ao mesmo saco das muitas outras mentiras do Diário Ateísta, de onde já sairam belas pérolas como as do "Papa de Hitler" (que seria Pio XII), a farsa da "Taxa Camarae" (documento espúrio alegando à suposta venda de perdão de pecados por parte da Igreja), ou ainda a teimosa insistência na veracidade histórica da falsificação da Donatio Constantini pela Igreja Católica, conhecida como a "Doação de Constantino" (suposta atribuição, por parte do Imperador, de privilégios e primazia ao Papa).

Mas não se pense que, ao propagar estas mentiras, o Diário Ateísta é original. Sê-lo-á apenas na língua portuguesa, uma vez que o conteúdo costuma ser composto com base na enjoativa repetição das eternas mentiras anti-católicas, já presentes em milhares de sites anti-católicos, e em muitos casos, mentiras com vários séculos de idade...

Mentir é mesmo muito feio...

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Citação de Stepinac - Pede-se ajuda

Entre 2005 e 2006, Palmira Silva, do Diário Ateísta (agora de estatuto promovido para o mais sério e mais lido De Rerum Natura), escreveu estes dois textos, que, do que pude apurar, contêm afirmações que importa esclarecer e que poderão ser falsas:

Propaganda ateísta?

A religião e o Holocausto: II

Neles, a prolífica investigadora ateísta atribuia a seguinte frase ao então Arcebispo de Zagreb, Alojzije Stepinac:

"God, who directs the destiny of nations and controls the hearts of Kings, has given us Ante Pavelic and moved the leader of a friendly and allied people, Adolf Hitler, to use his victorious troops to disperse our oppressors... Glory be to God, our gratitude to Adolf Hitler and loyalty to our Poglavnik [fuhrer], Ante Pavelic."


Logo a seguir, Palmira Silva supostamente ajuda-nos, "localizando" este trecho como pertencendo a uma presumida "Carta Pastoral de 1941 do Arcebispo de Zagreb Aloysius Stepinac". Infelizmente, depois de várias tentativas com o Google, usando palavras-chave que estão na citação da Palmira, como "Hitler", "Stepinac", "Poglavnik", "1941", "Pavelic", não consigo encontrar uma só fonte fidedigna que ateste a realidade histórica da dita citação!

Note-se que não assumo nenhum tipo de posição obscurantista! Eu QUERO mesmo ler o texto dessa carta pastoral, para ver o que é que o Arcebispo Stepinac lá escreveu. Por isso, que não se leia este meu texto como uma tentativa para esconder provas, mas sim precisamente o contrário. Alguém me ajuda, publicando o texto da dita carta pastoral, e indicando convenientemente a fonte?

Ora, tal citação em inglês, sem indicação de fonte, é a única presumida prova que Palmira apresenta nestes seus dois textos para apoiar a sua tese muito pessoal de que Stepinac era "um devoto de Hitler".

Nenhum historiador acostumado com o estudo da história moderna dos Balcãs ignora que Stepinac, e quase todo o clero católico, apoiou de forma entusiasta a formação do Estado Independente da Croácia em Abril de 1941, que seria liderado por Ante Pavelic. Só que tais historiadores também sabem que, escassos meses depois, tal apoio estava a deteriorar-se bastante, e também conhecem a enorme oposição de Stepinac ao regime Ustasi do ditador Pavelic. Mas essa parte, a Palmira decidiu não revelar aos seus leitores. Supressão de provas em contrário, típico da autora...

Não estou a negar a possibilidade de tal carta pastoral laudatória a Hitler ter alguma vez sido escrita pelo Arcebispo Stepinac. Ou, porventura, uma outra possibilidade: a carta existirá e terá sido mal traduzida para inglês, sendo a fonte usada pela Palmira uma fonte distorcida. Apenas considero tal carta pouco provável (foram raras as altas figuras da Igreja que alguma vez, em determinado contexto, louvaram Hitler oficialmente) e gostaria de encontrar alguma citação fidedigna.

Tudo o que me aparece no Google, usando as palavras de pesquisa atrás referida, remete para duas ou três obras de figuras anti-católicas sobejamente conhecidas, como o bom velho Avro Manhattan (prolífico autor anti-católico, obcecado com a ideia de que a Santa Sé queria impor ao Mundo uma Nova Ordem Mundial), ou o exótico Dave Hunt com o seu livro de "profecias", A Woman Rides the Beast: The Roman Catholic Church and the Last Days.

Será que nos pode ajudar, Palmira? De que obra historiográfica, de que monografia, de que arquivo histórico, de que resenha documental retirou essa citação? Pode indicar-nos uma fonte idónea?

É que não é para menos: pelo mesmo Google, consegui identificar pelo menos meia dúzia de blogues nacionais que levaram à letra o que a Palmira escreveu (asneira, isso nunca se faz) e trataram de propagar esta citação, referindo a fonte como sendo a Palmira (eles fizeram bem, indicaram a fonte, a Palmira é que não). Com o Google, já localizei esta situação em grupos de discussão no Brasil, que também terão lido os textos da Palmira!

Importa esclarecer isto de uma vez por todas! De onde vem esta citação?

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Dúvidas de fé

Ainda está para nascer, se é que alguma vez nascerá, o crente sensato que nunca teve dúvidas de fé. Que nunca duvidou da existência de Deus.

Existem, e existirão sempre, pessoas que não pensam sobre estas questões metafísicas. Crentes que são crentes sem pensar. Ateus que são ateus sem pensar. Agnósticos que são agnósticos sem pensar.

Contudo, o próprio processo humano de pensar obriga à dúvida, à confrontação de ideias opostas, de respostas contraditórias para as questões essenciais da vida.

Toda a comunicação social está em êxtase com as revelações das dúvidas de fé de Madre Teresa de Calcutá. Grande choque! Tudo é hiperbolizado, como se fosse impossível que tal pessoa tivesse dúvidas de fé.

Mas quem não as tem? Só os tontos.

A atitude de fé é indissociável da confiança interpessoal. Se não confiamos em ninguém, não podemos ter fé. A fé amadurece, e aprofunda-se, partindo da semente que é a confiança, e usando da inteligência e da razão para a aprofundar.

Se repararmos, é exactamente, a mesma atitude (só o âmbito do conhecimento é diferente) que o cientista deve adoptar. Nenhum cientista tem tempo nesta vida para estudar tudo, para verificar individualmente os resultados de todos os seus colegas cientistas em todas as áreas do saber empírico moderno. Por isso, qualquer cientista tem que, dentro da razoabilidade, aceitar os resultados dos trabalhos de outros cientistas. Poderá, aqui e acolá, sobretudo se se tratar de um trabalho na sua área, querer reproduzir esse trabalho para averiguar acerca da sua justeza. Mas um especialista em biologia, por exemplo, não teria tempo suficiente na sua vida para estudar, em paralelo, tudo o que há de publicações científicas sobre meteorologia, geologia, matemática, física, química, história, geografia, entre outras.

A inteligência humana adquire conhecimento através de um processo sempre igual, e que, se seguido de forma diligente, dá normalmente bons resultados:

a) uma atitude de fé: numa pessoa, numa obra ou trabalho, numa organização

b) uma atitude de investigação e trabalho intelectual individual

As dúvidas de fé são tão legítimas, na mente do crente pensante, como as dúvidas do cientista. Não há progresso científico sem a ajuda preciosa da dúvida. E não haveria Igreja Católica como a conhecemos hoje, com a estabilidade doutrinal que esta apresenta, sem vinte séculos de dúvidas e debates intelectuais acerca de todos os mais ínfimos e infindáveis detalhes doutrinais.

domingo, 26 de agosto de 2007

Materialismo em estado puro

Parte I - Prelúdio

O Ludwig escreveu hoje uma sátira no seu blogue, sob a pena do alter-ego "Dom Mário Neto", que representa a ideia que o Ludwig faz de uma realidade que ele ainda não conhece nem compreende: a da Teologia (e do teólogo). "Dom Mário Neto" é aquilo que o Ludwig imagina ser um teólogo, e usa esse alter-ego para satirizar as crenças religiosas em geral, com especial incidência, por razões óbvias (culturais) no cristianismo.

A discussão começara ontem, quando o Ludwig satirizou um trecho do Primeiro Livro de Samuel. Os detalhes podem ser lidos aqui.

O início da discussão não é interessante por si mesmo (uma disputa acerca da tradução de um termo hebraico), mas sim pelas realidades que faz ressaltar. Devo confessar que até há um quarto de hora atrás, eu não tinha ainda compreendido a objecção do Ludwig: achava que ele queria simplesmente teimar num determinado suposto absurdo conceptual que ele teria encontrado num dos livros do Antigo Testamento. Compreensão lenta a minha, porque na realidade, o problema do Luwdig estava na eterna questão da relação entre os bens materiais e a religião. Juro que só agora é que entendi que este sempre foi o cerne da questão levantada pelo Ludwig no seu texto de Sábado.

Com este comentário do Ludwig, apresentado de seguida, fica-se com a ideia de que o capítulo em questão constitui, para ele, uma prova de algo de muito grave em termos da atitude religiosa de um crente:

«Este relato continua a revelar algo de profundamente ridículo e perturbante com estas crenças religiosas.»

Não pode ser coisa pouca!
Na mesma caixa de comentários, Ludwig escreveu:

«Mesmo com a sua explicação, cuja ideia já conhecia, a minha opinião mantém-se. Ninguém oferece os pecados. Hoje em dia oferece-se dinheiro e jóias, e antigamente era comida, dinheiro e jóias. Ou seja, coisas de valor e não as coisas más de que nos queremos livrar.
E isso é quase universal na religião humana porque todos temos uma grande costela de comerciante.»


Vemos então que, afinal, a questão sempre foi a do ouro, e não tinha propriamente a ver com problemas de tradução. Para Ludwig, o "desastre" revelado no capítulo 6 do Primeiro Livro de Samuel era o facto de que seres humanos (racionais), neste caso os Filisteus, ofereceram ouro a um deus para expiação de pecados.

Este pode bem ser definido como um dos grandes "pecados mortais" do ateísmo esclarecido. Aos olhos destes iluminados, estamos perante algo não menor do que suicídio racionalista. A morte do bom senso. O enterro da Razão.

Parte II - Uma aparente condenação do materialismo

Numa primeira abordagem, Ludwig escolhe um caminho já bem trilhado e pisado por muitos antes dele, nos últimos séculos. A crítica à relação da Igreja com os bens materiais (vou cingir-me ao cristianismo, mas sei que o Ludwig aponta para algo em sentido lato, algo que vise todas as principais religiões). Para o Ludwig, e penso não estar a fazer um juízo errado, toda a Igreja, tendo que existir (idealmente, não existiria no mundo perfeito imaginado por Ludwig, composto por pessoas inteligentes e racionais), deveria ser composta por "Sãos Franciscos", por pessoas totalmente mendicantes, que nunca tocassem em bens materiais. Só dessa forma, na cosmovisão ludwiguiana, a Igreja seria coerente com aquilo que professa.

Trocado por miúdos, esta é a catequese iluminista, defendida por Ludwig, e que hoje em dia se tornou num facto consumado para uma crescente parte dos nossos concidadãos, num verdadeiro mito moderno:

A. Deus não existe (axioma).

1. Os crentes são pessoas pouco cultivadas: uma pessoa com conhecimentos não precisa de Deus para nada.

2. Os crentes de antigamente procuravam consolo na religião porque tinham medo da morte, mas também porque não conseguiam explicar certos fenómenos, hoje explicados pela Ciência; a Ciência deveria ter tornado a Religião num fenómeno caduco e condenado a desaparecer.

3. Os crentes de hoje ainda procuram consolo na religião porque têm medo da morte, mas também porque precisam ainda de uma explicação fácil para as injustiças: a religião é, e sempre foi, uma atitude subjectiva porque totalmente sentimental.

4. As Igrejas são dirigidas por comerciantes, que trocam bens materiais por consolo psicológico.

Sem o axioma, tudo isto cai, certamente, por terra. É na firme certeza filosófica (pela sua natureza, não pode ser uma certeza científica) de que Deus não existe que eles radicam a sua visão de que a religião é um gigantesco engano (para alguns, o maior engano de todos). Há então os que enganam (o clero) e os que são enganados (o povo). A religião, vista como algo que Marx apelidou de "ópio do povo".

A luta da Ciência contra a Religião, levada a cabo por estes bravos lutadores pós-Iluminismo, é então a eterna luta da Luz racionalista contra as Trevas da religião.

Em suma, o ateu esclarecido tem a resposta na ponta da língua:

a) O que quer um papa ou um bispo?
OURO e PODER

b) O que quer o crente?
CONSOLO

Supor que existam altos dirigentes da Igreja que vivem uma vida de fé sincera e devota é algo de aberrante: um alto dirigente da Igreja só lá está pelo poder e pelo ouro.

Supor que existam padres com pouco poder e crentes pobres já é algo de compreensível: são pessoas ignorantes exploradas pelo "sistema" religioso.

Para uma pessoa como o Ludwig, um mártir (que dá a sua vida por Cristo) representa uma tragédia humana enorme, não pelo sacrifício pessoal mas pelo absurdo da causa. O mártir deverá ser, para Ludwig, o supremo da loucura: uma pessoa dar a sua vida (para eles, a única) para encher a barriga e os cofres da padralhada.

Esta visão, está claro, é preconceituosa e baseia-se na ignorância. E é errada. O que é terrível, sobretudo quando tal visão é defendida por espíritos inteligentes, que deveriam ter alguma capacidade para escapar às condicionantes sociais que nos impõem esses preconceitos diariamente...

Parte III - A profissão (inconsciente) do mais arreigado materialismo

A atitude do Ludwig, disse atrás, parece à primeira vista (e parecer-lhe-á a ele mesmo) uma crítica do materialismo da Igreja. Ou seja, uma posição que teria tudo para ser anti-materialista. O Ludwig não aceita que as oferendas a Deus (por intermédio da Igreja) possam ter um significado sofisticado ou metafísico, ou possam ser gestos razoáveis ou aceitáveis. Para o Ludwig, tais significados metafísicos são normalmente "cozinhados" pelo blinólogo Dom Mário Neto de serviço. Porque não há, para o Ludwig, nenhum mistério numa oferenda destas: é apenas um crente a ir na argolada da Igreja.

Para o Ludwig, quando uma pessoa crente como eu coloca uma moeda no cestinho do ofertório, durante a Missa, está a ser burlado: a trocar consolo por dinheiro. Do lado de lá do altar, está o supremo comerciante: o padreco, esse gatuno do trabalho dos outros.

Esta visão, tão típica (será das mais típicas) do Iluminismo, do Modernismo, e ainda viva nesta época pós-modernista, longe de ser anti-materialista, é, na realidade, uma visão no extremo máximo do materialismo.

Sem modelos nem referências transcendentais, o ateu radica a sua existência no hic et nunc, no "aqui e agora" utilitarista, na fruição da experiência existencial tal qual ela é, sem grandes interrogações ou suposições metafísicas.

Por isso, a vida do ateu é explicada de forma simples: "Trabalho para obter dinheiro; uso o dinheiro para obter comida; como para me manter vivo; morro. Ponto final.".

Neste sentido, os bens materiais são preciosos para o ateu: são o combustível que mantém em movimento toda a máquina existencial ateísta: o corpo humano, esse robô sofisticado que um dia, segundo eles, a Ciência não só emulará, mas melhorará infinitamente. O ateu luta arduamente para evitar a morte. Ficar vivo só porque sim, só para aproveitar a vida, os bens materiais desta vida, é isso que o ateu quer.

Haverá então maior pecado ateísta, maior violação ética ao código comportamental do ateu, do que desperdiçar bens materiais? Do que perder a vida? Do que não procurar a satisfação sensorial? Do que perder a oportunidade de fruir destes bens numa sofreguidão individualista e epicurista?

Violar o carpe diem, este é o maior pecado do Homem aos olhos do ateu...

Isto é puro materialismo.
Como diz o Ludwig, o ser humano tem sempre algo de comerciante. O ateu radica a existência humana nos bens materiais, é deles que tudo parte, é para eles que tudo regressa. Os bens materiais explicam tudo. "Money makes the world go round!".

No fundo, na base da crítica que o Ludwig faz à existência de uma relação entre os bens materiais e a Igreja, está, paradoxalmente, um amor enorme (não confessado) aos bens materiais, essa bóia de salvação existencial, essa realidade tangível (para eles, o intangível é inútil, mais, é irreal) que dá aos ateus a sua sensação de segurança ontológica.

Parte IV - A religião e os bens materiais

Para o crente, que não sofre destes dilemas existenciais insolúveis, a coisa é relativamente simples:

1. Deus criou tudo. Rigorosamente tudo, incluindo os bens materiais.
2. A vida não pertence ao Homem, mas sim a Deus: é um dom de Deus para o Homem.
3. Os bens materiais não pertencem ao Homem: são colocados por Deus à disposição do Homem.
4. Os homens entregam o fruto do seu trabalho (em géneros ou dinheiro) em oferenda a Deus, colocando-o nas mãos daqueles que vivem exclusivamente para o serviço a Deus (o clero).
5. O clero fica responsável (depositário) de bens que não lhe pertencem, e que se destinam ao serviço divino.

Quando vemos um determinado prelado a viver uma vida de luxo desnecessário, podemos indignar-nos com razão: aquele homem está a esbanjar algo que não lhe pertence, não está a aplicar os bens que lhe foram confiados para servir a Deus.

Mas, e esta é a tragédia da incompreensão do Ludwig, há um abismo enorme entre esta atitude de cupidez humana, infelizmente demasiado frequente devido à nossa fraca natureza, e a atitude do prelado responsável, que gere bem os bens que lhe são confiados, e que os usa nas variadas vertentes do serviço a Deus, que passa pela ajuda aos que não têm, pelo trabalho de evangelização, pela defesa do património cultural do cristianismo, pela defesa da Igreja face aos seus agressores externos.

Quando eu entrego a minha dádiva no cesto, durante o Ofertório, tenho a perfeita consciência de que essa deve ser a menor parte da minha dádiva à sociedade, à Igreja, e a Deus enquanto cristão. Tenho muito mais que posso dar, e devo procurar oferecer, sobretudo, bens imateriais. Mas também tenho a consciência de que estou a depositar algo de material e que tem valor, à guarda de pessoas nas quais confio. Em muitos casos, porque o sacerdote costuma dizê-lo, até posso saber o destino dessa dádiva.

Se determinadas pessoas falham nessa minha confiança, se usam mal esses bens, serão elas a responder perante o Criador, e não eu. Acima de tudo, não é o acto de oferecer que está errado. Não é quem oferece que está errado. Oferecer está certíssimo. É a forma natural e racional de proceder.

Assim, como vemos, para o crente, os bens materiais devem fluir na sociedade, não só para a subsistência material da mesma, mas também para a maior glória de Deus. É nesse sentido que todo o crente razoável sabe que o trabalho de Deus nesta Terra também requer bens materiais. Em maior ou menor quantidade, consoante o destino dos mesmos. Esse destino tem é que ser justo e proporcional, mas isso é uma questão secundária e não central ao acto de dar.

A Igreja não é gnóstica: não há nada de maligno na Criação, nem nos bens, nem sequer no ouro, na prata, ou nas pedras preciosas. O que a Igreja ensina é algo de elementar e simples: quanto mais valioso é o bem, maior a responsabilidade do seu proprietário (ou do seu guardião) em dar-lhe bom uso.

Os bens servem o Homem. Mas isto tem muitas dimensões, para além da biológica, orgânica, psicológica ou social. Para o crente, o serviço dos bens ao Homem terá que passar, indiscutivelmente, por aproximá-lo de Deus. Logo, o destino mais elevado de um bem material é o de ser empregue para a glória de Deus, para fazer a ponte entre o Homem e Deus.

Na verdade, o bom crente dá um valor relativo aos bens materiais. Um valor não nulo, um valor positivo, mas incomparavelmente menor que o valor que um ateu lhes dá. Porque o crente sabe que a sua vida é finita. Que um dia acaba. E que nada de material, nem sequer o nosso corpo, se leva desta vida para a outra. Para o ateu, tudo o que há é para ser gozado nesta vida, que para eles é a única.

Assim, o ateísmo é, na verdade, um puro materialismo. Por definição.

Sobre a cupidez dos padres, muitos e santos homens escreveram afincadamente. Por exemplo, o nosso Santo António de Lisboa dedicou-lhes muitas e duras palavras (ver, entre muitos outros, o sermão do 5º Domingo depois da Páscoa, I, 663, sobre os vícios dos sacerdotes). O sacerdote que dá mau uso aos bens ao seu cuidado, e que não se arrependa a tempo, está perdido. Pobres de tais sacerdotes, indignos servidores de Deus, traidores na causa mais nobre. O mais triste é que tais pessoas estão reféns de um bloqueio intelectual que os faz servir o senhor errado. Servem o metal em vez de servir a Deus. Mas isso não faz do metal algo de mau, nem obriga a um divórcio entre os bens materiais e o serviço a Deus.

Este conceito que procurei explicar, o da utilidade e justeza do uso dos bens materiais no serviço a Deus, é incompreensível à "luz" (que raio de luz, esta, que escurece as mentes!) da distorcida cosmovisão do "ateísmo esclarecido", nascido da defesa dos novos dogmas decretados pela soi disant "Razão" contra Deus no século XVIII.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Sobre a fraude titânica

Jesus' Family Tomb Discovery is a Titanic Fraud

"Titanic" director James Cameron and Canadian TV-director Simcha Jacobovici are claiming they have evidence of a Jerusalem tomb that allegedly houses the remains of Jesus and his family. However the foremost archaeologists in Israel have slammed the claims as totally without foundation.

Israeli archeologist Amos Kloner, who was in charge of the 1980 investigation of the tomb which is the subject of the new claims by Cameron-Jacobovici, said "The claim that the burial site has been found is not based on any proof, and is only an attempt to sell." Kloner added, "I refute all claims and efforts to waken a renewed interest in the findings. With all due respect, they are not archeologists." Kloner said that while "it makes a great story for a TV film," there is "no likelihood" that Jesus and his relatives had a family tomb, and dismissed the claims as "impossible" and "nonsense."

(...)

Archeologist Joe Zias, who spent a quarter-century at the Rockefeller University in Jerusalem, said "Simcha has no credibility whatsoever."
(negrito meu)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Mini-glossário para o site "Jesus Family Tomb"

Está tudo muito agitado com este site, acerca do recente documentário de James Cameron:

Jesus Family Tomb

Deixemos Tim McGirk, do blogue "Middle East" da revista Time, explicar-nos o que é que se passa:

«Brace yourself. James Cameron, the man who brought you 'The Titanic' is back with another blockbuster. This time, the ship he's sinking is Christianity.

In a new documentary, Producer Cameron and his director, Simcha Jacobovici, make the starting claim that Jesus wasn't resurrected --the cornerstone of Christian faith-- and that his burial cave was discovered near Jerusalem. And, get this, Jesus sired a son with Mary Magdelene.

No, it's not a re-make of "The Da Vinci Codes'. It's supposed to be true.»
, Tales from the Crypt, 23 de Fevereiro de 2007.

Neste momento, e como é costume, o post de Tim McGirk acerca desta matéria já tem 3159 comentários. Como também é costume, quase todos estes comentários são perfeitos exemplos do enorme poder da Internet para dar voz aos ignorantes.

Para quem está curioso acerca deste novo documentário, nada como ir ao site original dos produtores, clicando no endereço dado acima. Segue-se um mini-glossário para orientação, visto que o jargão técnico usado no mesmo necessita de uma tradução mínima para evitar equívocos.

New Discoveries
Expressão usada para designar descobertas novas para James Cameron e para a sua equipa, velhas (feitas há 27 anos) para uma série de arqueólogos israelitas e de outras partes do globo

Alternative Theories
Leia-se: "Pseudo-história"

The Experts
Leia-se: "Os do costume"

Professor... Scholar... Expert...
Termos usados para designar os colaboradores desta obra de ficção realizada por James Cameron

Essential Facts
Secção criada para introduzir ideias erradas em mentes incultas, sob o disfarce dos métodos tradicionais de "divulgação popular"

Dan Brown
Nome de um dos historiadores de referência neste documentário

Back to Basics
Secção típica de uma triste atitude comum a alguns norte-americanos com espírito prosélito: a hipersimplificação mutiladora de uma realidade complexa

Early Christianity
A cristandade dos primeiros tempos magistralmente sintetizada em três parágrafos

Roman Empire
O Império Romano magistralmente sintetizado em quatro parágrafos

Jewish History
A História Judaica magistralmente sintetizada em três parágrafos

Evidence
Termo usado para designar manipulação de informação

Secret Symbols
Capítulo que não se percebe para que serve

Origins of Freemasonry
Tendo a Maçonaria surgido oficialmente em 1717, não se percebe o que terá a ver com isto, a não ser que o objectivo seja o de promover a antiguidade da Maçonaria

The Holy Bloodline
Sendo uma criação literária de Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, e datando do final dos anos setenta, não se percebe o que terá a ver com isto

The Knights Templar
Sendo uma ordem militar criada no século XII e extinta no século XIV, não se percebe o que terá a ver com isto

Secret Societies
Outro capítulo sobre temas que não têm nada a ver com isto: Illuminati, Skull & Bones, Maçonaria, Rosa-Cruzes - é indesculpável que se tenham esquecido da teoria de que Jesus era um extra-terrestre

Glossary
Tabela de asneiras

Theological Considerations
Considerações humorísticas sobre Teologia feitas pela equipa que produziu o documentário

Sossegue-se o crente mais assustado. Isto não passa de boa ficção!
Esta ficção vem na esteira de um caminho bem preparado e bem urdido.

1982 - Holy Blood, Holy Grail (Lincoln, Baigent e Leigh): teoria da "linhagem sagrada"
1994 - Turin Shroud (Lynn Picknett e Clive Prince): fantasias acerca do Sudário de Turim
1996 - The Tomb of God (Richard Andrews, Paul Schellenberger): Jesus estaria enterrado em Rennes-le-Château (França)
2003 - The Da Vinci Code (Dan Brown): romance lido por muitos como obra histórica, relançou a fantasia da "linhagem sagrada"
2006 - Evangelho de Judas: mais uma peça no puzzle anti-cristão moderno, desta vez patrocinada pela National Geographic Society
2007 - The Lost Tomb of Jesus (James Cameron, Simcha Jacobovici): o filme/documentário anti-cristão do ano

Estes são apenas alguns dos muitos (imensos) marcos nesta caminhada pelo surreal anti-cristianismo pós-moderno, o último dos preconceitos tolerados e promovidos nos nossos dias. O que tem isto a ver com Ciência? Com História?
Rigorosamente nada.

Mentir é feio (sobre a Taxa Camarae)



Pepe Rodríguez, o famoso mitómano anti-católico espanhol, é um dos ídolos no blogue Diário Ateísta. Possivelmente por falta de melhor tema, Carlos Esperança vai trazendo de novo à baila autores e livros que, de meses a meses, ele repesca para tentar criar uma aura de "actualidade" neste moribundo blogue.

Nada tenho contra a bajulação que ali é feita à pessoa desse mentiroso compulsivo que é Pepe Rodríguez, não fosse pelo facto de que, aparentemente, Carlos Esperança o leva a sério, pensando que a obra de Rodríguez, com o título académico de "Mentiras Fundamentais da Igreja Católica", tem alguma coisa a ver com História.

A obra de Rodríguez nem sequer é uma obra "de polémica".
É, pura e simplesmente, uma obra de mentira.
Carlos Esperança reproduz, para nosso gáudio, uma das páginas (infelizmente pouco absorventes, senão teriam outro uso) dessa magnum opus historiográfica do nosso caro Pepe:



A burla em questão é uma das mais famosas burlas anti-católicas, daquelas burlas que, de tempos a tempos, e ao longo dos séculos, são desenterradas. É que a memória popular é fraca, a cultura escasseia, e pelo sim pelo não, há que desenterrar estas criações fantasiosas para manter o ódio vivo.

A Taxa Camarae é um belo texto falsificado, atribuido ao Papa Leão X, que conteria os preços a pagar pela expiação dos mais variados e perversos (para ter mais piada) pecados. A lista em questão é particularmente exuberante e divertida pelos pormenores lúbricos e "picantes" que o seu autor escolheu para embelezar este suposto "documento papal".

Excepto quando se está contaminado intelectualmente pelo mais primário e redutor preconceito anti-católico, qualquer leitor normal, pelo simples contacto ocular com o texto de Pepe, fica com a impressão de que está a ser burlado. Fará aquilo algum sentido? Parece um texto que um Papa subscreveria?

O que é curioso, nessa magistral obra que é o "Mentiras Fundamentais", é que o pobre Pepe não consegue reproduzir ou identificar a dita Bula Papal, ou qualquer texto com a assinatura de Leão X, que possa, de alguma forma minúscula que seja, apoiar a pretensão de autenticidade desta famosa falsificação.

Então, no fim de contas, Pepe nunca pôs os olhos em tal documento?
Pepe não tem uma cópia? Uma copiazinha que seja? Uma mesmo jeitosa, com a assinatura e o selo papal de Leão X?
Ou pelo menos, uma daquelas cópias gastas, com a assinatura já ilegível? Nem isso?
Então, mas sem isso, esta treta da Taxa Camarae vale de pouco, não é?

Mais ou menos...
Para o público leitor frequente do Diário Ateísta, pouco dado a outras leituras que não Pepe Rodríguez, aquilo vale ouro.
Quem quiser ficar a saber mais sobre a farsa da Taxa Camarae tem muito por onde procurar.
Uma sugestão óbvia seria este site.

Para quem quiser seguir esta saga mais de perto, o nosso Pepe tem um site, no qual, curiosamente, dá mais informações do que as que surgem no livro:

«Advertencia al lector: la autenticidad de este documento ha sido cuestionada y debe ser reputado como dudoso hasta que no se documente fehacientemente su posible veracidad o falsedad. De ser una falsificación, quizá sería contemporánea de León X o algo posterior.»

Pena que esta frase não estivesse no início da "reprodução" da dita Taxa Camarae no seu livrito... Mas nada como ler as explicações (desculpas) dadas por Pepe no seu site. É a conversa do costume: sacerdotes anónimos, que lhe entregam fotocópias anónimas de documentos anónimos... Histórias de espiões, de princesas e dragões, "teólogos" e "historiadores" que dariam o aval ao documento, mas cujos nomes Pepe acha melhor não citar... Enfim, pura História!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

William Coulson tem uma história para contar...

Vale a pena ler com toda a atenção...
O tema nunca foi tão actual e abrangente.

Meet Dr. Bill Coulson

«Thoughts from the man who, together with Carl Rogers, pioneered the practice of "encounter groups."»

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Autismo? Talvez antes cinismo e oportunismo...

Fernanda Câncio, entusiasmada pela possibilidade de ter "tocado na ferida":

«o motivo é óbvio: josé policarpo causou grande consternação nas hostes do não. a sua mensagem (a primeira de cinco anunciadas, a segunda das quais se esperava para ontem e não apareceu no site do patriarcado -- e porquê?) mostra a profunda divisão da própria hierarquia da igreja católica.»

Depois da distorção materializada no seu artigo no DN, Fernanda insiste, pelos vistos naquilo que é insustentável: que ela interpretou bem o texto do Cardeal-Patriarca. Profunda divisão na hierarquia? Acerca do "não matarás"? De facto, é algo "confuso" e "polémico", a contestação do "não matarás" no seio da hierarquia da Igreja...

Mas isto continua!

«(...) as dúvidas (sic!) de policarpo, a sua preocupação com o aborto clandestino e portanto com os valores da vida real -- e não apenas da vida com v grande, abstracta e ideológica, que é a única coisa que parece ralar uma parte, a mais virulenta, dos apologistas do não -- honra-o e mostra que é acima de tudo um humanista (negrito meu)

Imagino a satisfação do Senhor Cardeal-Patriarca ao ser presenteado com este elogioso (mas sarcástico) epíteto de Fernanda Câncio... Note-se que a jornalista insiste no autismo, ao falar das "dúvidas de Policarpo", como se a sua manipulação de fontes não tivesse sido praticada no maior dos descaramentos.

Para quem gosta de desonestidade, cinismo, sarcasmo, sugiro a "pérola" final:

«policarpo não podia, sendo quem é e representando o que representa, dizer mais do que disse. o dilema moral que tão bem expõe no seu texto, pleno de contradições e com algumas passagens duvidosas (que indicação é aquela à polícia judiciária de que fala? quem a deu? e, a existir, como é que cardeal sabe dela?) é mais do que suficiente para revelar o que ele realmente pensa. voltarei a este assunto.»

Voltará ao assunto?
Mal podemos esperar...
Será mais um belo naco de material opinativo de primeira água, fiel às fontes, rigoroso, isento, nada oportunista, nada falso!

Carta aberta a Fernanda Câncio

Cara Fernanda Câncio,

É sempre uma tristeza ver alguém deturpar deliberadamente uma fonte.
Contudo, foi o que você fez, ao escrever o seu artigo de opinião no DN, "O Cardeal do dia seguinte". Vou assumir duas coisas em relação a si:

a) leu o texto do Cardeal-Patriarca de 7 de Janeiro, pois faz referência a ele

b) sabe ler em português corrente

O seu artigo no DN é uma bárbara demonstração do que é fazer uma citação descontextualizada.
Infelizmente, isto está longe de ser uma prática rara relativamente à hierarquia da Igreja Católica nos tempos que correm.
Como terá reparado, se leu o texto original, o Cardeal-Patriarca não está a invocar razões para votar "NÃO". Está, tão somente, a pegar numa das razões do "SIM", a tal razão de tentar "acabar com o aborto clandestino", para ver se essa razão vinga. O Cardeal-Patriarca está a emitir a sua opinião acerca de tal argumento, tentando chegar a uma noção mais equilibrada do que será o aborto clandestino, e da sua verdadeira dimensão (bem diferente da dimensão dos propagandistas). Vamos ler, para variar, o bloco em questão, conforme o Cardeal-Patriarca o escreveu, e não conforme a Fernanda o leu:

«2. Os motivos que parecem justificar esta proposta legislativa, vamo-nos apercebendo deles nas diversas declarações de governantes, de partidários da lei, de movimentos a favor do “sim”.
* Parece ser a busca de uma solução para o drama do aborto clandestino. Que ele existe e é um drama, é uma realidade. Mas qual a sua dimensão? O várias vezes anunciado estudo sobre esta realidade nunca foi realizado. O cruzamento dos métodos anticonceptivos com os métodos abortivos e as soluções químicas para a interrupção da gravidez fizeram diminuir a realidade do aborto de “vão de escada”. Esta nova realidade traz a decisão de abortar para o campo da liberdade pessoal e da consciência e não é razão para esta alteração na Lei. Não quero, com o que acabo de dizer, negar a realidade do “aborto clandestino”. Penso só que era preciso tipificar melhor a realidade, nas suas dimensões evolutivas, antes de propor à decisão dos portugueses uma tão grave alteração legal.»


A Fernanda sabe ler, não sabe? Então veja lá se não é claro que o texto à frente do "*" está a comentar uma das razões do "SIM".

Entende que comentar uma razão do "SIM" é diferente de argumentar pelo "NÃO"?

Entende que o Cardeal Patriarca não está a concordar com nenhum método anticonceptivo, com nenhuma solução química, com nenhum método abortivo?

Não vislumbro nenhumas "dúvidas" no texto do Cardeal Patriarca, nem sequer a antecipação do seu tão desejado "dia seguinte".

Só vislumbro as suas próprias dúvidas, Fernanda Câncio, e isto se eu quiser ser bem intencionado. Escreve que vale a pena dissecar as afirmações do Cardeal-Patriarca? No seu caso, dissecar rima com deturpar!

Se eu quiser ser mais maldoso (realista?), direi que a Fernanda não tem quaisquer dúvidas acerca do texto que leu. Apenas escreveu um péssimo e distorcido artigo de opinião. O objectivo?
Bem nítido: fazer mais pessoas confusas votarem "SIM", por vislumbrarem, no seu texto de opinião, umas inexistentes "dúvidas" do Cardeal-Patriarca, e uma inexistente expectativa pelo "dia seguinte", no qual a Igreja Católica irá pactuar com o aborto. Bem pode esperar sentada! O desespero aumenta à medida que caminhamos para 11 de Fevereiro, e com ele vem o "tudo por tudo", não é?
Mas também, as opiniões valem o que valem, certo? Contudo, o que deveria ter valor para si (e para qualquer pessoa) é o acto ético de citar correctamente uma fonte... Independentemente de uma referência distorcida e deturpada ao texto do Cardeal-Patriarca favorecer claramente o resultado que deseja.
Afinal, quantos dos leitores do DN é que irão diligenciar no sentido de ler o texto completo?

Para sua informação, aqui fica o dito:

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=41221

Cumprimentos,

Bernardo Sanchez da Motta

terça-feira, 6 de junho de 2006

Onde estava Deus?


(Fonte: Fox News)

Luís Grave Rodrigues revolta-se, muito chocado com as questões colocadas por Bento XVI durante o discurso que pronunciou em Auschwitz, no passado dia 28 de Maio.
Não é o único: a grande maioria da comunicação social revoltou-se com estas questões. Comentadores discorreram em torno desta citação do Papa, tantas vezes repetida:

«Onde estava Deus naqueles dias? Porque ficou Deus silencioso? Como pode Deus permitir este infindável massacre, este triunfo do mal?»


Um leitor mais distraído poderia pensar que Bento XVI teria ficado sem resposta. Que Bento XVI, de alguma forma, ignorando a resposta à sua pergunta de retórica, teria atirado a culpa da Shoa para Deus.
Ora sucede que o discurso do Papa foi ligeiramente mais longo do que aquilo que foi notificado pela Imprensa. É bem sabido que uma frase fora do contexto permite dar largas às mais fervilhantes imaginações. Sobretudo quando queremos, à viva força, encaixar os factos, espremer as curtas e cortadas palavras de outrém, nas nossas precipitadas conclusões já formuladas a priori dos acontecimentos que queremos comentar.
Foi o que sucedeu, julgo eu, como Luís Grave Rodrigues: comentou largamente um discurso do qual apenas tinha lido uma frase. O que é uma pena para si e para os seus leitores, que assim apenas tiveram acesso a uma frase do Papa fora de contexto e a uma série de comentários que não vinham a propósito por ignorarem o texto completo do discurso papal.
Porque há que informar, e informar de modo sério, vejamos o texto integral, que está perfeitamente acessível no site do Vaticano.
Versão em Inglês
Versão em Italiano

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Resposta da Prof. Helena Barbas

Com a autorização da Prof. Helena Barbas, apresento de seguida a sua resposta à minha carta aberta:

Caro Senhor: em resposta ao seu e-mail, queria agradecer a atenção que dispensou ao programa. Um programa de televisão é um programa de televisão. Relativamente às críticas que me faz, remeto-o para a minha tese de doutoramento publicada on-line desde Fevereiro de 2003 - http://www.fcsh.unl.pt/docentes/hbarbas/ em «dissertações».
Os meus cumprimentos
Helena Barbas

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Carta aberta à Prof. Helena Barbas

Ontem assisti, na RTP-N, a um interessante debate acerca da omnipresente obra polémica da Dan Brown. Foi um debate que me perturbou profundamente, sobretudo pela forma como a Professora Helena Barbas nele participou.
Assim, escrevo esta carta aberta à Professora Helena Barbas, pedindo-lhe que me elucide sobre certas questões que me ficaram no espírito durante e após o visionamento do dito debate. Com esta missiva, não tenho qualquer pretensão de provar o que quer que seja, apenas desejo manifestar publicamente as minhas dúvidas, aguardando ser esclarecido.

Exma. Senhora
Prof. Helena Barbas,

Manifestando desde já todo o respeito pelo seu estatuto de docente universitária, e em consideração pelo seu conhecido e reconhecido trabalho académico, venho por este meio, humildemente, comunicar-lhe algumas dúvidas que tenho acerca daquilo que disse no debate conduzido ontem, dia 24 de Maio, em directo no canal RTP-N acerca do livro de Dan Brown, "O Código da Vinci".
Apenas dependendo da minha memória, irei apontar as suas afirmações que me intrigaram, esperando ser fiel na sua reprodução:

A) Sobre a datação dos Evangelhos

Pareceu-me ter ouvido a senhora Professora afirmar que os Evangelhos Canónicos seriam largamente posteriores ao tempo de Jesus; se bem entendi, a senhora Professoria teria afirmado que o mais antigo dos evangelhos dataria de sessenta anos após a morte de Jesus; no entanto, tenho presente outros dados diferentes acerca da datação dos evangelhos. O Evangelho de São João, esse sim considerado o mais tardio, teria sido composto por volta dos anos 90-100 d.C., ou seja, mais ou menos sessenta anos após a morte de Jesus. Mas esse seria o mais tardio!
Em primeiro lugar, a senhora Professora saberá certamente que os Evangelhos ditos de Lucas, Marcos, Mateus e João não são vistos pela Igreja como tendo sido, necessariamente, escritos por estes autores. Pelo que a minha argumentação de antiguidade e historicidade será baseada no conteúdo destes textos, mais do que sobre a materialidade dos textos na forma escrita.
Este é um ponto importante: independentemente do escriba, da pessoa que os materializou pela primeira vez, o conteúdo destes textos respeitaria a tradição oral atribuída a Mateus, Marcos, Lucas e João. A palavra grega "kata", ou seja, "segundo" é aqui essencial: deve-se dizer "Evangelho Segundo S. Lucas", "Evangelho Segundo S. Marcos", etc., marcando claramente que se procura autenticar não tanto o autor físico e material dos textos (o escriba), mas sobretudo o seu inspirador. A tradição oral pré-existe à escrita e não pode ser desprezada do ponto de vista histórico, visto que há ampla evidência do seu relevo na tradição da Igreja. Bastaria recordar, mas não a desenvolverei aqui porque nos levaria demasiado longe, a essencial questão da "disciplina do arcano" e a influência desta no património doutrinal cristão (1).
Apenas para se obter um termo de comparação, a senhora professora saberá certamente que uma boa parte da tradição judaica se transmite por via oral, pelo que não é improvável que, nos primeiros séculos, os cristãos tivessem usado uma estrita e rigorosa tradição oral, pelo recurso à prática da memorização e repetição de textos de grande dimensão.
Posto isto, eis o que pude aprender acerca destes Evangelhos...
Sobre S. Mateus, é complicada a questão acerca de se saber se o texto original seria em aramaico e a versão grega seria posterior, ou se seria ao contrário. À parte destas questões, que são importantes certamente, a datação deste evangelho é maioritariamente consensual na escolha da década de 60 d.C. como a data mais tardia. Não encontro sustentação académica para as datações posteriores a esta década, conforme consta na obra de certos críticos (Weiss and Harnack datam em 70-75; Renan em 85, Réville, entre 69 e 96, Jülicher, entre 81 e 96, Montefiore, entre 90-100, Volkmar, em 110; Baur entre 130 e 34), de forma puramente conjectural, supondo que quando Jesus fala profeticamente acerca da perseguição aos cristãos isso seria prova de que a perseguição aos cristãos no primeiro século já teria ocorrido. Ou seja, a datação é feita por conjectura e não com base em dados mais concretos de estilística, análise lexical ou pelo cruzamento deste evangelho com os restantes.
Sobre São Marcos, a tradição cristã, pela via de autores bastante antigos e respeitáveis como Eusébio, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano, Santo Ireneu de Lião, e muitos outros, estabelece como altamente provável a tese de que este evangelista teria recebido os ensinamentos directamente de São Pedro, o que daria um cunho fortíssimo de historicidade e antiguidade a este evangelho.
Sobre S. Lucas, sabe-se que seria um grego (atestado pela análise da sua escrita - ele é também visto como o autor dos Actos dos Apóstolos) natural de Antioquia (Eusébio atesta-o nas sua História Eclesiástica - Livro III, iv, 6, e nas suas "Quæstiones Evangelicæ", IV, i, 270). Ao longo dos Actos dos Apóstolos, penso que se encontra ampla base para se supor que Lucas seria companheiro de São Paulo.
Sobre o Evangelho de São João, cuja historicidade é amplamente negada fora da Igreja Católica (chegando também a ser negada, dentro da Igreja, pelo modernista Loisy e por outros da mesma corrente), é difícil ter conclusões seguras na sua datação. A Igreja, baseando-se na tradição oral apostólica e na coerência doutrinal deste evangelho com os restantes três, mantém, por respeito a essa tradição, que o autor deste texto é o mesmo apóstolo S. João, o "discípulo amado".
Seja como for, o único evangelho que pode ser atribuido com segurança aos ditos sessenta anos após a morte de Jesus, como referiu a senhora Professora, parece-me ser o de São João, sendo que os restantes três seriam anteriores.
Para terminar, e esperando que a senhora Professora não partilhe desta tese "browniana", os textos canónicos não resultaram da política nem da escolha do imperador romano Constantino, uma vez que o Codex Muratori (datado de aproximadamente 180 d.C.) já traz uma compilação de textos muito próxima do actual Novo Testamento.

B) Sobre o Concílio de Niceia

Escutei, com grande espanto, a senhora Professora afirmar que a Igreja Católica, ao tempo do Concílio de Niceia (325 d.C.) teria sido constituída como instituição precisamente graças a este concílio, tendo tido a sorte de surgir, no meio das várias "seitas cristãs" (expressão sua, julgo eu), como a corrente considerada ortodoxa. Assim, graças a Constantino, a doutrina cristã oficial teria sido protegida por este imperador, e após ser retirada do universo das seitas e elevada à condição de ortodoxia, teria rotulado todas as restantes seitas de heterodoxas.
Antes de principiarmos, queria recordar a obra de Henri Lassiat, La Jeunesse de l'Église: la foi au IIe siècle (1979), referida por Jean Borella (ver nota no final do texto). Borella, o reputado filósofo francês especialista em cristianismo, afirma que Lassiat demonstra de forma "irrefutável" a existência de amplos testemunhos de que existia uma "regra de Fé" pré-Niceana, o que prova que a doutrina já estava bem definida (não na forma de um texto escrito, mas sim transmitida oralmente) entre os anos 100 e 200 d.C., o que inviabiliza a tese de que Constantino, ou mesmo o Concílio de Niceia, teria pervertido o legado crístico.
Pelo que a alegação da senhora Professora, no que diz respeito ao carácter de "seita" dos defensores da doutrina fixada formalmente em Niceia me parece ser uma alegação com pouco suporte documental. Se eu estiver a interpretar incorrectamente as suas afirmações, por favor, aponte-me as incorrecções, pois estou apenas a comentar com base na memória do que ouvi ontem.
Aproveito para fazer um parêntesis acerca do conceito de "dogma". É uma ideia frequentemente generalizada encarar os dogmas como uma criação exclusiva do Concílio de Niceia, e que estas formas autoritárias e rígidas seriam uma perversão do legado de Cristo. A História prova que esta ideia é falsa. A palavra grega "dogma", que significa "decreto", aplica-se desde as mais remotas origens do cristianismo às chamadas "verdades de Fé". Para vermos que não se tratam de imposições de carácter autocrático nascidas em Niceia, é importante saber qual era, e qual é, o significado genuíno destes "dogmas", ou seja, destes "decretos da fé cristã".
É útil recordar, como menciona Jean Borella, o legado de São Basílio de Cesareia, bispo da dita cidade, irmão de São Gregório de Nissa e amigo de São Gregório de Naziano. É que a obra de São Basílio é uma das mais importantes evidências da antiguidade da dita "disciplina do arcano": ou seja, falamos do preservar, sob a protecção do silêncio, as "verdades da fé", não só dos pagãos não baptizados, mas também dos catecúmenos, ou seja, dos "pré-cristãos" que aguardavam o baptismo e que para ele se preparavam longamente.
Nos primeiros séculos, ainda longe da generalização da prática do pedobaptismo, a administração deste sacramento (a palavra "sacramentum" é a fiel tradução latina do grego "mystérion", não esquecer) culminava um longo percurso de preparação, que hoje em dia ainda subsiste, chamado de "catecumenado". Ora a obra de São Basílio (destacando o "Tratado do Espírito Santo") explicita de forma clara a distinção entre o "dogma" e a "kérigma" ("proclamação"): aos não baptizados, estava vedado o conhecimento dos dogmas, ou seja, das verdades de fé. Assim, os primeiros pastores da Igreja, quando falavam publicamente, guardavam rigorosamente a "disciplina do arcano", vedando às plateias não preparadas (não baptizadas), a revelação da essência da fé, ou seja, dos dogmas. Nestes tempos muito recuados, sempre que falavam publicamente, os sacerdotes e os bispos usavam os "kérigmata", ou seja, "proclamações" públicas que evitavam a revelação generalizada das verdades písticas centrais ao cristianismo.
Assim, vemos que o significado da palavra "dogma" tem sido mal compreendido e mal estudado, visto que na origem revela algo cuja natureza é, surpreendentemente, mais "esotérica" do que se imaginaria, ou seja, de carácter mais interior e reservado do que se suporia.
Distinguindo "dogma" como algo de interior, de "kérigma" como algo de exterior, parece-me que não poderemos fazer leituras simplistas acerca do fenómeno de Niceia como se se tratasse de uma ditatorial e autoritária definição de regras que perverteriam o legado de Jesus Cristo para favorecer o Império e a Igreja.
Fechando este parêntesis, cara Professora Helena Barbas, sintetizo a minha dúvida deste modo: como é possível sustentar que não existia, desde o final do século I, uma regra de fé cristã bem solidificada, transmitida quase exclusivamente por via oral (os "dogmata" protegidos pela "disciplina do arcano"), que se manteria inalterada na sua essência até Niceia, quando em 325 d.C., os bispos cristãos reunidos em concílio decidiram formalizar a dita regra de fé no chamado Símbolo de Niceia?
É, até, curioso notar que a necessidade de formalização da fé neste primeiro concílio não nascera por vontade primordial da Igreja Católica mas sim como reacção ao fenómeno ariano, que naquele tempo alastrava com vigor. Vendo bem, atentando aos relatos que chegaram aos nossos dias, constatamos que fora o espírito filosófico grego imbuído na personalidade de Ário que o fizera procurar uma formulação metafísica nítida e clara para a relação entre o Pai e o Filho. Niceia é a reacção do mundo cristão à difusão generalizada das ideias metafísicas muito pessoais do próprio Ário. Essa reacção explica-se, na minha modesta opinião, pelo simples facto de que quem conhecia profunda e interiormente o legado apostólico, transmitido por via oral, via que as ideias de Ário, por muito "claras" que fossem, não eram compatíveis com o dito legado.
Mas tentemos ir à profundidade, dentro do possível, das motivações de Constantino: o imperador procurava, julga-se que suportado pelo Papa Silvestre I, juntar a Cristandade na definição clara da sua doutrina em Niceia, porque Constantino queria uma fé oficial sólida para o Império. O que o motivava era a união dos seus súbtidos sob uma mesma doutrina, fosse ela qual fosse, procurando o Imperador sempre aquela doutrina que pudesse gerar maior consenso, visto que a verdade acerca da mesma era algo que possuia para ele interesse secundário.
O Imperador não está dentro das subtilezas teológicas da questão: para Constantino, pouco importa o "homoousion" ou outras minúcias do género. A prova disso está no facto, que eu não vi a senhora Professora referir, de que poucos anos após ter promovido Niceia, Constantino estava activamente a promover a doutrina ariana: após 333, Constantino chama de volta os bispos arianos exilados e une os seus esforços a Ário. Esta reacção de Constantino, de verdadeiro retrocesso à sua política de protecção ao Concílio de Niceia, vai gerar consequências durante quase um século: toda a Europa, graças às políticas pró-arianas de Constantino, vai cair sob o fascínio desta heresia. Recordemos que é no ano de 358 que o exilado Papa Libério será obrigado a assinar uma profissão de fé muito duvidosa no dito Concílio de Sírmio. Mesmo depois do Concílio de Constantinopla (381), a europa permanecerá ariana durante muito tempo, em consequência deste verdadeiro volte face do Imperador, que infelizmente tão poucos comentadores modernos referem. Os Visigodos permanecerão arianos até ao baptismo de Clóvis no final do século V. Os Lombardos atrasarão o abandono do arianismo até meados do século VII.
Sinceramente, perante os factos históricos, não sei como é que se mantém, sem ser anacronicamente, a ideia de uma Igreja Católica escolhida de entre as seitas, e fortalecida graças à protecção de Roma.

C) Sobre as origens gnósticas da mortificação corporal

Fiquei surpreendido ao ver que a senhora Professora partilhava da opinião de que a penitência e o sofrimento corporal voluntários seriam algo de estranho ao cristianismo, encontrando as suas raízes no gnosticismo e no maniqueísmo. É inegável que a doutrina gnóstica considerava que a Criação era a obra maligna de um demiurgo, e que a matéria era intrinsecamente má. Contudo, é também inegável que essa era uma das principais razões pelas quais o cristianismo combateu o gnosticismo. Esse repúdio, essa malignidade da Criação, estavam (e estão) em total contradição com a tradição cristã e judaica (basta pensarmos no Génesis, por exemplo).
A tendência para uma valorização negativa da matéria sempre existiu no cristianismo, mas a sua génese nada tem de gnóstico! É pela noção do transcendente, pela elevação da condição espiritual acima da condição humana, que se pode abrir caminho para uma certa relativização da condição material, não enquanto maligna, mas enquanto inferior ao transcendente.
A abundância de exemplos da prática do ascetismo, a generalização dos testemunhos de eremitas e de vidas cristãs de grande penitência corporal, está presente no cristianismo desde as origens. O próprio martírio dos cristãos nas arenas romanas era já um bom exemplo desta entrega da vida às mãos dos carrascos romanos pela glória da defesa de uma verdade que transcendia este Mundo.
A mortificação corporal (nem sempre "auto-flagelação" como me pareceu que o debate de ontem pretendia concluir) não é uma prática do Opus Dei, mas sim do cristianismo desde sempre.
Não será, certamente, uma prática recomendada, mas ao mesmo tempo nunca tal prática se poderia condenar, desde que, dentro de certos limites, fosse mantido um respeito pelo corpo que impedisse a sua morte prematura (o que seria "contra natura").
Espero que concorde comigo quando aponto a diferença, cara Professora, entre o "endura" cátaro, a prática ultra-ascética do suícidio pela privação de alimentação, e o que a tradição cristã conta acerca, por exemplo, de um Santo Antão ou de outros santos que viveram como eremitas, alimentando-se de forma precária, procurando imitar Cristo (recordemos a estadia de Cristo no deserto) mas sem nunca procurar a gnóstica libertação da carne!
Para terminar, interrogo-me porque razão a senhora Professora não teria tido presente, no debate de ontem, uma evidência contrária às suas afirmações. Em S. Francisco, aliás, em toda a tradição franciscana, é difícil negar a presença da penitência corporal por via da privação dos bens e dos luxos da vida terrena. Ora, existirá hino mais anti-gnóstico, mais contrário à heresia gnóstica, do que o Cantico delle Creature, de São Francisco de Assis (2)?
Há, no cristianismo, um convívio generalizado com a penitência corporal, que também encontra raízes judaicas por via do jejum. Este convívio foi praticado e defendido sem qualquer relação causal com a heresia gnóstica. A mortificação corporal encontra a sua razão de existir na vontade, puramente pessoal, de certos crentes se identificarem com a Paixão de Cristo pela via do desconforto ou da penitência do próprio corpo, não porque este seria maligno, mas sim porque Cristo teria passado pelo mesmo tipo de situação,
É inegável que existiram, ao longo dos dois mil anos de história da Igreja Católica, vários exemplos de excesso, vários testemunhos de cristãos que levaram demasiado longe a relativização do corpo face ao espírito, e que, numa tentativa de fugir das "tentações da carne", procuravam na auto-flagelação uma solução para evitar cair em pecado. Este é, certamente, um caso de desvio do cristianismo, visto que de acordo com o legado cristão, o pecado resulta de uma decisão voluntária do Homem e não da malignidade do seu corpo, como defenderiam os gnósticos.
Conclusão: a mortificação corporal, como forma de imitação do sofrimento físico de Cristo, encontra o seu lugar na tradição cristã, sendo uma prática puramente pessoal, decidida e vivida opcionalmente na interioridade espiritual de cada um. A mortificação corporal como forma de expiação dos pecados é algo de excessivo e de seguramente posterior aos primeiros séculos do cristianismo, associando-se sobretudo à Idade Média e a um ambiente psicológico e social que a senhora Professora conhecerá certamente melhor do que eu, ao qual não é estranha a influência dos quiliasmos e dos sentimentos apocalípticos aliadas à vivência difícil de alguns dos séculos mais duros na História da Europa.

Falhando-me a memória para poder criticar outras afirmações proferidas pela senhora Professora Helena Barbas no referido programa televisivo, despeço-me com elevada consideração e respeito, não querendo de forma alguma manchar ou atacar a sua reputação académica, mas procurando sobretudo obter o esclarecimento das afirmações que aqui apontei e critiquei.

Com estima,

Bernardo Sanchez da Motta

(1) Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, Delphica, 1997, Lausanne.
(2) Ver o texto completo desta composição de São Francisco aqui: http://www.crs4.it/Letteratura/CanticoCreature/CanticoCreature.html
Nota: consultei amplamente, na redacção deste texto, a enciclopédia católica on-line "New Advent", em http://www.newadvent.org

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Crítica ao Diário Ateísta

(publicado em simultâneo no Afixe)

Criticarei, de novo, um artigo do Diário Ateísta.
Poderão alguns questionar-se acerca do porquê deste meu interesse pelo Diário Ateísta.
O interesse é já antigo. Pessoalmente, atraem-me as questões sociológicas que a leitura deste site suscita.
Deixei de intervir há largos meses com comentários no Diário Ateísta porque o diálogo se tornou, infelizmente, numa conversa de surdos.
Mas continua a parecer-me útil criticar alguns dos textos que surgem neste site ateísta. Infelizmente, é pela mediocridade que me sinto obrigado a tecer críticas a este site ateísta. Por isso, longe de querer que as minhas críticas sejam críticas ao ateísmo, estas críticas são puramente culturais e históricas, e não incidem sobre qualquer questão pística.
Não há proselitismo católico nas minhas críticas.
Tenho apenas uma intenção didáctica. A intenção de dirigir um convite à reflexão, ao estudo, e a um aprofundamento de cultura histórica e religiosa aos membros do Diário Ateísta.
Creio que, para se combater eficazmente um adversário, é pertinente conhecê-lo bem.
Creio também que não é o que sucede com o Diário Ateísta, onde todos os dias vemos demonstrações de lacunas culturais, que a meu ver, dado o número elevado de visitas ao Diário Ateísta, prejudicam a imagem do próprio ateísmo na Internet, pelo menos aos olhos dos visitantes mais cultos.

Vamos ao teor da crítica de hoje.
André Esteves é o autor de um artigo intitulado "Doutorados e Ignorantes".

Segundo André Esteves,
"Nalgumas igrejas evangélicas e fundamentalistas americanas tornou-se um valor comum não tirar cursos universitários, ou ser-se «intelectual» porque são coisas seculares ou da carne."

O passado evangélico de André Esteves poderá, parece-me, explicar o seu interesse pelos movimentos evangélicos norte-americanos. Sou da opinião que muitos desses movimentos cristãos têm posturas fanáticas (prefiro este termo ao termo "fundamentalista", uma vez que me parece bom ter-se fundamentos). Nisto concordo com o André Esteves.
Contudo, parece-me inadequado usar estes casos de fanatismo evangélico norte-americano para extrapolar conclusões gerais relativamente ao universo dos crentes.

Assim, a frase que se segue, de André Esteves, é para mim uma generalização inaceitável:

"O medo de se tornar num «liberal» é palpável entre os jovens crentes das igrejas, para os quais uma universidade reputada ou o prosseguimento de estudos além da licenciatura, se tornaram sinónimos da perdição espiritual."

Antes de mais, faz-me especial confusão que se use o termo "liberal" para classificar a opção pela formação académica complementar à licenciatura. É um "liberal" aquele que prossegue os seus estudos após o grau de licenciatura?

Depois, a generalização. Partindo dos evangélicos norte-americanos, André Esteves partilha da opinião de que certas posturas fanáticas são para generalizar aos "jovens crentes das igrejas".

Por fim, chegamos ao ponto onde me parece se revelar com mais nitidez a lacuna cultural que me fez escrever esta crítica:

"Por cá, Deus demonstra-se complicado: a Conferência Episcopal definiu que para se ser bispo em Portugal tem que se ser doutorado. Antigamente aos desígnios de Deus para serem compreendidos bastavam a tonsura e aljubeta. Agora o capelo também se torna necessário."



É curiosa esta afirmação, que revela que André Esteves desconhece a obra e vida dos doutores da Igreja, sobretudo a de S. Tomás de Aquino. O aquinate é uma figura incontornável no reavivar da vida universitária medieval. Usando como tema central da sua actividade intelectual a conciliação entre o saber clássico grego (nomeadamente, a obra de Aristóteles) e a revelação cristã, S. Tomás de Aquino revolucionou a vida académica, dando um significado rejuvenescido e profundo ao que é o trabalho "universitário".
As "quaestiones disputatae" de S. Tomás primam por um esforço de rigor dialético e argumentativo, no qual uma tese é colocada em análise, sendo fornecidos argumentos a favor, e argumentos em contrário.

Todo o processo de uma "quaestio" é conduzido de forma a fazer surgir a conclusão de modo natural e justo, considerando todos os dados relevantes no processo.
A universidade moderna não seria igual ao que é hoje sem S. Tomás de Aquino. Parece-me pertinente conhecer apenas as linhas gerais da vida e obra desta figura chave da intelectualidade europeia, para que se possam evitar considerações destas, que revelam da parte do senhor André Esteves uma postura proselitista duvidosa, que só pode funcionar com uma audiência desprovida das mais elementares referências culturais.
Para saber mais sobre S. Tomás, recomendo vivamente o texto introdutório do professor Luiz Jean Lauand.

Bernardo

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Déjà vu?

(publicado em simultâneo no Afixe)

De Philip Jenkins, o CESNUR publica um estudo interessantíssimo intitulado "Le Jésus des sectes - Comment le Christ ésotérique devint le Christ des universitaires". É extenso, mas muito esclarecedor!

"Il y a cent ans, pratiquement toutes les idées présentées aujourd’hui comme le dernier cri chez les universitaires travaillant sur le sujet de Jésus étaient déjà largement connues, bien qu’elles le fussent moins des chercheurs en matière biblique que des membres de nouvelles religions, écoles marginales occultes et ésotériques et des mouvements qui étaient déjà connus en tant que "sectes". Les excentricités sectaire des années 1900 sont devenues les références orthodoxes universitaires des années 2000."

A tese central: os delírios neo-gnósticos dos movimentos esotéricos nascentes no final do século XIX e início do século XX, foram-se transformando, a pouco e pouco, na "ortodoxia" universitária, conforme veiculada por entusiastas académicas do gnosticismo, como a autora Elaine Pagels.
É fascinante e revelador, através deste texto, ver como os ideais da Sociedade Teosófica, fundada por Helena P. Blavatsky no século XIX, foram, a pouco e pouco, passando do domínio da seita esotérica para o domínio académico do estudo das origens do cristianismo.

Bernardo

sábado, 20 de novembro de 2004

Os falsos mistérios da Última Ceia

Andava à procura de um site, há muito tempo, que explicasse mais alguma coisa sobre a questão dos detalhes da Última Ceia.

Encontrei um site interessante:
http://www.lamelagrana.net/%C2%A5_letture/letture05/A001/A00011.html



Neste site italiano, encontramos a explicação para a tal "mão cortada", que toda a gente agora diz que é de ninguém, e que supostamente "flutua no ar". O site italiano mostra claramente que existe um estudo preliminar de Leonardo, onde se vê bastante bem que a mão não é flutuante, e que pertence ao apóstolo S. Pedro.

A questão da faca é uma falsa questão:

a) ela tem dono (S. Pedro): o sketch de Leonardo prova-o;
b) ela tem uma razão de ser simples: S. Pedro estava a comer, e a faca dá jeito para comer;
c) ela tem uma razão mais complexa: a faca nas mãos de S. Pedro é uma prefiguração da espada que S. Pedro vai usar para cortar a orelha ao servo do Sumo Sacerdote, nos jardins de Getsemani, aquando da prisão de Jesus.

Q. E. D.
(será que é desta??)

P.S. (este PS é post scriptum, e não prioratus sionis!): Para os mais teimosos, dêem uma leitura rápida ao texto do arquitecto italiano Diego Cuoghi, disponível neste site:
http://www.renneslechateau.it/index.php?id=2&url=studi_cuoghi.php

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Andam a gozar connosco...

(publicado em simultâneo no Afixe)

Pois andam... E nós nem damos por isso.
Há dias, todos nos revoltámos por duas notícias que vieram a lume em vários órgãos de comunicação social, a saber:

1. O desacordo da Santa Sé pela recepção, no Santuário de Fátima, de representantes de outras religiões, de entre os quais o próprio Dalai Lama; as "fontes seguras" dos órgãos informativos garantiriam que o Vaticano estaria a tentar controlar o Santuário, e que desejaria ver remodeladas algumas figuras de proa da Direcção do mesmo;

2. A proibição da execução de concertos, e de música não liturgica, em Igrejas e outros edifícios religiosos.

Estas duas notícias tinham funções claras:

A) Provocar a revolta de todos os sectores da sociedade, dos crentes aos não crentes

B) Espalhar a ideia de que uma tendência conservadora dentro do Vaticano estaria a assumir contornos de fanatismo e de exagero autoritário

As funções foram alcançadas. Eu próprio acreditei nas notícias. Só que sucede que eram ambas falsas. É verdade.

Não vou, para já, divagar à procura de explicações para o surgimento simultâneo de uma mesma notícia falsa em vários órgãos informativos. De teorias da conspiração já andamos todos fartos. Isto é apenas uma chamada de atenção. Eu caí na esparrela. Não me enganam tão facilmente da próxima vez...

Aqui ficam algumas pistas:

Esclarecimento do Santuário de Fátima
D. José Policarpo desmente desentendimentos entre o Vaticano e a Conferência Episcopal por causa do Santuário de Fátima
Bispo de Leiria-Fátima quer acabar com mal-entendidos
Vaticano aprova iniciativas inter-religiosas em Fátima

Termino com um excerto das palavras lúcidas e sérias do Cardeal Patriarca, relativa à falsa questão da proibição dos concertos nas Igrejas:

O Cardeal considerou ainda descabida a informação vinda a público de que a CEP iria proibir os concertos nas Igrejas
“Não há nenhum novo regulamento em vista, essa é mais uma ‘falsa questão’ inventada não sei por quem”, atirou.
Para D. José Policarpo, “a linha que temos seguido é correcta, baseada nas normas feitas pela própria Santa Sé, e que procura conciliar desejos legítimos: o da Igreja de salvaguardar o carácter sagrado dos templos, não deixando deslizar a opinião pública para uma consideração apenas cultural do seu sentido e da sua utilização; mas também reconhecer o valor espiritual e pastoral da expressão artística, também ela linguagem do sagrado; o respeito pela comunidade que celebra a fé naquele templo”.