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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Deus existe?

O vídeo da minha conferência "Deus existe?", feita na passada Quinta-feira, 5 de Novembro de 2015.
Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Debate "Deus (não) existe?"

O debate da passada Quinta-feira, 21 de Novembro, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, colocou-me frente a frente com o Ricardo Silvestre. Eu defendi a existência de Deus usando argumentação científico-filosófica, enquanto que o Ricardo procurou defender a inexistência de Deus. Os meus "slides" podem ser encontrados aqui.
(este ficheiro PDF contém mais "slides" do que os que eu usei: na minha primeira parte, usei todos os "slides" até ao 19, mas saltei o slide 12; os restantes "slides" eram de reserva, e só mostrei alguns deles na minha segunda parte, quando foi necessário)

Na minha primeira intervenção, apresentei dois argumentos filosófico-científicos a favor da existência de Deus:

A1: Argumento Cosmológico (versão de Leibniz):
Demonstrei existir uma entidade:
  • Que tem em si mesma a sua razão de existir
  • Que não poderia não existir, e portanto é eterna (ou pelo menos perpétua)
  • Que é imaterial: não é feita de massa / energia

A2: Argumento Teleológico (versão de Robin Collins):
  • Apresentei diversos exemplos de que o nosso Universo está afinado para existir vida, e em alguns casos, está afinado para haver Química elementar (uma tabela de elementos suficientemente variada) e afinado para termos estabilidade atómica, essencial para toda a Química (e portanto, para a existência de qualquer forma de vida conhecida ou desconhecida):
    • Que as leis da Natureza estão afinadas
    • Que as constantes que figuram nas equações das leis da Natureza estão afinadas
    • Que as condições iniciais do nosso Universo estavam afinadas
  • Mostrei que a afinação do Universo é muitíssimo mais expectável dado o teísmo do que dado o ateísmo, e por isso, perante essa afinação, a atitude racional é acreditar que Deus existe
  • Expliquei que este argumento A2 aponta para a inteligência da entidade que o argumento A1 demonstrou existir, pela razão de que o nosso Universo está minuciosamente estruturado e afinado de forma inteligente
Perante estes argumentos, o Ricardo tinha que fazer duas coisas:
  1. Refutar os argumentos que apresentei em defesa da existência de Deus
  2. Apresentar argumentos seus em defesa da inexistência de Deus
Na sua primeira intervenção, o Ricardo colocou as seguintes objecções aos meus argumentos:

A1: Argumento Cosmológico de Leibniz: o Ricardo criticou a necessidade de terminar a regressão infinita de explicações / causas, alegando que era arbitrário fazer parar a regressão num primeiro ente, ou seja, numa "causa primeira".

A2: Argumento Teleológico: o Ricardo sugeriu o multiverso como a melhor explicação para a afinação do nosso Universo.

Na minha segunda intervenção, respondi da seguinte forma às objecções do Ricardo:

A1: Argumento Cosmológico de Leibniz
Este argumento parte de duas premissas:
  • Que é válido o Princípio da Razão Suficiente (PRS), que diz que toda a coisa C existente é explicada:
    • ou por algo já existente, e que explica a coisa C
    • ou pela própria coisa C, caso essa coisa C tenha em si mesma a sua razão de existir (C teria existência obrigatória)
  • Que o nosso Universo existe
Aceites as duas premissas, a conclusão segue-se inevitavelmente, se eu não tiver cometido erros de encadeamento lógico. O Ricardo não negou o PRS, nem negou que o nosso Universo existe. O Ricardo apontou para um eventual erro no meu raciocínio, dizendo que a regressão de explicações / causas poderia ser infinita, e que não é necessário parar numa explicação ou causa primeira.

Em resposta a esta objecção, regressei ao esquema do "slide" 8 e expliquei que, mesmo que existam várias coisas encadeadas entre o Universo e uma primeira coisa, uma primeira coisa tem que existir, e tem que ter em si mesma a explicação para a sua existência, ou seja, tem mesmo que ser uma "primeira" coisa, e não podemos ter uma regressão infinita de explicações / causas.

Aviso: o argumento de Leibniz também se aplica caso o Universo fosse eterno: as explicações para a existência do Universo fazem sempre falta, mesmo que o Universo seja eterno, porque se o Universo podia ser diferente do que é, então não tem existência obrigatória (não tem em si mesmo a sua razão de existir) e por isso requer uma explicação distinta dele mesmo. Por isso, quando digo "primeira coisa", falo em "primeira explicação", uma explicação fundamental que não requer mais explicações.

Vamos ver porquê, supondo que o Ricardo tinha razão. Vamos supor que há uma cadeia infinita de explicações das explicações das explicações, e assim por diante, cadeia essa que numa das direcções termina no Universo, mas que na outra direcção não tem fim: regride infinitamente. Se assim fosse, aplicaríamos o PRS a essa cadeia infinita para perguntar: porque é que existe esta cadeia infinita, em vez de nada? Porque é que esta cadeia infinita existe, e porque é que ela é como é? Como o Universo faz parte dessa cadeia, e o Universo podia ser diferente do que é, então a cadeia como um todo, mesmo sendo infinita, poderia ser diferente do que é. Então, a cadeia infinita não teria em si mesma a sua própria explicação para existir. Então, como vemos, a cadeia infinita necessitaria de uma explicação distinta dela mesma. Logo, caímos sempre na necessidade de uma primeira explicação, na necessidade de existir uma primeira coisa que tem em si mesma a sua razão de existir.

Sugerir uma cadeia infinita de explicações, como fez o Ricardo, é tentar fugir do PRS, para acabar por ter que voltar a recorrer ao PRS para confirmar que é forçoso existir uma "primeira coisa" de existência obrigatória. Uma primeira coisa distinta do Universo, que existe por si própria, que tem existência obrigatória, e que é imaterial, porque tudo o que é feito de matéria ou energia podia ser diferente do que é.

A2: Argumento Teleológico: o Ricardo sugeriu o multiverso como a melhor explicação para a afinação do nosso Universo. Contra esta resposta, argumentei:
  • Que o multiverso é ainda especulação sem suporte experimental
  • Que o multiverso não resolve a afinação das leis da natureza: apenas "transporta" o problema da afinação do nosso Universo para o patamar mais fundamental do multiverso
  • Que um eventual multiverso no qual são gerados os inúmeros universos teria que ser muito especial e afinado para produzir universos afinados para a existência de vida 
Em suma
  1. O Ricardo não conseguiu refutar os meus argumentos, pelo que eles permaneceram válidos durante todo o debate e até ao final da noite
  2. O Ricardo fez uma série de críticas à ideia de existir Deus, sobretudo à ideia de existir um Deus Bom, levantou várias questões, e eu apenas respondi a algumas delas
Uma das principais (e importantes) críticas que me fizeram, no rescaldo do debate, foi a de eu ter deixado sem resposta uma série de questões levantadas pelo Ricardo durante o debate. Na verdade, na fase de perguntas e respostas, pude interagir com algumas delas e refutá-las. Mas é verdade que várias questões do Ricardo ficaram sem resposta da minha parte. Na minha segunda intervenção da noite, optei por aprofundar a defesa dos dois argumentos que tinha levado, respondendo às objecções que o Ricardo levantou de forma pertinente contra esses argumentos. Poderia ter usado a minha segunda intervenção para responder às questões do Ricardo, mas optei por me manter no tema da noite: os melhores argumentos a favor da (ou contra a) existência de Deus.

Respostas às questões e objecções do Ricardo

Aproveito agora para deixar respostas resumidas e breves às questões e objecções importantes levantadas pelo Ricardo durante o debate, para as quais não dei resposta na altura, ou então respondi de forma incompleta por falta de tempo. Como se pode ver abaixo, a grande variedade de questões que o Ricardo levantou durante as suas comunicações mostra bem que, caso eu tivesse optado por responder ponto por ponto, o debate teria claramente descarrilado para fora do tema central.
  1. Há provas científicas de que Deus existe?
  2. O conhecimento científico de São Tomás de Aquino está ultrapassado.
  3. Porque não uma regressão infinita de explicações ou causas?
  4. Porque não uma regressão circular de explicações ou causas?
  5. Porque é que o multiverso não explica as evidências de afinação do nosso Universo?
  6. Porque é que o Universo é tão grande? Para quê?
  7. Porque é que há mal no Universo? Imperfeições? Doenças? Desastres naturais?
  8. Poderá Deus ser Bom? Paradoxo de Epicuro.
  9. Todas as alegações de milagres têm sido cientificamente refutadas.
  10. O livre-arbítrio é uma ilusão.
  11. A Igreja Católica limita a investigação científica com os seus dogmas morais.
  12. A alma é uma ficção.
  13. Uma pessoa de outra religião que teve o azar de não nascer na religião "certa" não se vai salvar?
  14. Se a mensagem do cristianismo é assim tão importante, porque é que Deus a não a torna mais óbvia? Porque é que Deus não se torna mais óbvio?
  15. Onde está a "assinatura" de Deus?
  16. Porque é que Deus deixou o Universo ao acaso?

sábado, 26 de maio de 2012

Alvin Plantinga - Ciência e religião teísta



Alvin Plantinga é um dos mais competentes filósofos analíticos da actualidade. E é a principal figura por detrás do regresso da filosofia cristã às universidades anglo-saxónicas (na Europa continuamos atolados, em boa parte, num pós-modernismo decadente). Mas ele é bem mais do que isso: é uma pessoa impecável, um excelente comunicador. Nesta palestra, Plantinga apresenta o seu mais recente livro sobre a relação entre ciência e religião: "Science and religion - where the conflict really lies". Nesse livro, Plantinga não defende apenas que o conflito entre cristianismo e ciência é ilusório ou superficial: ele defende que o conflito está entre ateísmo (o naturalismo materialista) e ciência. Nesta palestra, Plantinga apresenta o seu principal argumento: quando conjugadas, as teses do ateísmo materialista e do evolucionismo destroem a nossa confiança nas nossas capacidades cognitivas. Se tudo o que existe é matéria e se o evolucionismo é um processo não guiado, então as nossas faculdades cognitivas não são minimamente fiáveis. E por isso, a eventual crença de um ateísmo evolucionista e materialista auto-refuta-se. Vale a pena ver o vídeo várias vezes, com a calma e o tempo que ele merece.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Debate "Ciência e Cristianismo"


É já na próxima sexta-feira, dia 25 de Março, o meu debate com o Ricardo Silvestre, do Portal Ateu. Vai começar às 21h, e será no bar Oh Laurindinha!, gerido pelo Helder Sanches, também do Portal Ateu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Debate Craig vs. Hitchens



Este debate entre o filósofo evangélico norte-americano William Lane Craig e o jornalista ateu britânico Christopher Hitchens, que versou sobre o tema "Does God Exist?", encheu a 4 de Abril de 2009 um enorme auditório na Universidade de Biola, em Los Angeles, nos Estados Unidos, e foi seguido por milhares de pessoas. É um debate imperdível. Apesar do evidente charme e retórica de Hitchens, que periodicamente arrancava mais umas gargalhadas da plateia, fica patente a incapacidade deste ateu em conseguir debater argumentos filosóficos.

Craig avança com os seguintes argumentos filosóficos, sem recorrer a qualquer fundamentação religiosa ou teológica: Argumento Cosmológico, Argumento Teleológico, Argumento pela Moral e Argumento pelas evidências da ressurreição de Cristo. Logo na abertura do debate, Craig baliza a sua intervenção: argumentos filosóficos para defender que a tese da existência de Deus é mais forte e mais provável que a tese da inexistência de Deus. Mas Hitchens não só não mantém o debate em torno deste tópico central, que afinal correspondia na íntegra ao tema do debate, como não parece conseguir lidar com os argumentos de Craig.

Veja-se a leitura deste debate, feita pelo ateu Luke Muehlhauser, do blogue Common-sense Atheism:

«The debate went exactly as I expected. Craig was flawless and unstoppable. Hitchens was rambling and incoherent, with the occasional rhetorical jab. Frankly, Craig spanked Hitchens like a foolish child. Perhaps Hitchens realized how bad things were for him after Craig’s opening speech, as even Hitchens’ rhetorical flourishes were not as confident as usual. Hitchens wasted his cross-examination time with questions like, “If a baby was born in Palestine, would you rather it be a Muslim baby or an atheist baby?” He did not even bother to give his concluding remarks, ceding the time instead to Q&A.»

Num daqueles raros momentos em que Hitchens contestava, realmente, alguma das premissas dos argumentos avançados por Craig, o resultado era desanimador. Acerca do argumento cosmológico, Hitchens lançou a velha falácia de Dawkins: "Who designed the designer". Assim, o debate foi canja para Craig, que já confidenciou várias vezes que não gosta de debater argumentos filosóficos com pessoas sem trabalho académico na área. Do ponto de vista filosófico, o debate não chegou a existir, pois Hitchens não conseguia interagir nesse registo. Do ponto de vista mediático, o evento demonstrou a superficialidade deste representante do "novo ateísmo", e mostrou de forma cabal que autores como Dawkins, Harris, Hitchens e Dennett, apesar de venderem muitos milhares de livros, baseiam a sua argumentação em chistes e falácias superficiais, sem consistência, argumentação essa que não resiste ao embate com um filósofo profissional como Craig.

Fica então a questão: porque razão obras tão fracas e superficiais se tornam "best-sellers"? A questão é semelhante há que tantos fizeram aquando do romance mediático "The Da Vinci Code", do iletrado Dan Brown. E a resposta dada então parece-me permanecer válida. Juntem-se os seguintes ingredientes: vontade de fazer mega-dólares por parte dos editores e distribuidores, mega-investimentos na promoção destes produtos, tema apelativo (religião), escrita incendiária e falta de cultura e formação por parte dos consumidores deste tipo de produto.

PS: Por ser um marco em matéria de apologética, este vídeo fica disponível na nova secção "Debates", na barra lateral direita do blogue.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ateísmo - homeopatia para o intelecto

É possível ser-se naturalista sem se ser darwinista? É, claro que sim. Aliás, todos os naturalistas, antes de Darwin, forçosamente não eram darwinistas. Mas nos dias que correm é difícil encontrar um naturalista, ou seja, uma pessoa que negue a existência de uma parte sobrenatural (transcendente, imaterial, metafísica, etc.) da realidade, que não seja darwinista.

O sumo-sacerdote do naturalismo darwinista, Richard Dawkins, disse-o de forma contundente: "Although atheism migh have been logically tenable before Darwin, Darwin made it possible to be an intellectually fulfilled atheist" - The Blind Watchmaker (1986), p. 6.

Assim, Dawkins parece concordar que um naturalista contemporâneo é, para todos os efeitos, e salvo algumas excepções pontuais, um darwinista.

No entanto, o naturalismo darwinista é falso. Não por culpa do darwinismo, mas por culpa do naturalismo. O naturalismo é falso. Ponto final.

(Nota: algum leitor mais distraído poderia pensar que estou a atacar a teoria científica darwinista, ou neodarwinista. Não é, de todo, o caso. Considero que, apesar das fragilidades inerentes a uma teoria científica ainda em construção, a explicação neodarwinista é a melhor explicação científica que temos hoje em dia para a evolução das espécies. O que estou a criticar é o naturalismo darwinista, que é uma filosofia de vida que defende o naturalismo filosófico tentando suportar-se no darwinismo científico)

Porque razão se pode dizer, com confiança, que o naturalismo é falso? Noutros textos apresentei vários exemplos: o naturalismo é auto-refutatório por destruir qualquer conceito consistente de verdade, o naturalismo destrói o conceito de livre arbítrio (torna-o numa ilusão, o que destrói a responsabilização dos actos livres), o naturalismo não sustenta adequadamente a capacidade humana de raciocinar e de compreender a realidade, e assim por diante.

Visto do ponto de vista do naturalismo darwinista, pode-se fazer a seguinte refutação:

(1) Se o naturalismo darwinista é verdadeiro, então a moralidade humana é um produto do neodarwinismo (mutação, cruzamento, selecção natural)

(2) Se a moralidade humana é um produto do neodarwinismo, então não existem factos morais objectivos (verdades morais objectivas)

(3) Existem factos morais objectivos

(4) Logo, o naturalismo darwinista é falso

(Adaptado do capítulo "The Moral Argument", de Mark D. Linville, em "The Blackwell Companion to Natural Theology", p. 394)

Claro que isto é um argumento para refutar o naturalismo darwinista, e não um argumento para refutar o naturalismo como um todo; mas ateus como Dawkins seriam os primeiros a dizer-nos que isto refuta o naturalismo contemporâneo, uma vez que este é, maioritariamente, darwinista.

O naturalista pode contestar. Vai tentá-lo, certamente. Normalmente, procura atacar (3). Mas como o ateu contemporâneo, felizmente, acaba por ser moralista (é contra a homofobia, é contra o terrorismo, é contra o abuso de menores, etc.), ele repudia os relativismos morais "vividos" coerentemente, ou seja numa lógica do "vale tudo". O ateu contemporâneo indigna-se perante a certas injustiças e defende certos direitos humanos. Ele repudia a aplicação do darwinismo à moral humana, ou seja, rejeita a aplicação da lei do mais forte às sociedades humanas. O próprio Dawkins já rejeitou, várias vezes, a aplicação do darwinismo à moral.

Segue-se então o rol de tentativas de construção de uma moral naturalista, pois se é certo que temos que nos comportar de forma moral, a gigantesca tarefa é, para o naturalista que rejeita a vontade de Deus como normativa moral, explicar-nos porque é que nos devemos comportar moralmente. Porque razão, num universo material sujeito ao darwinismo, existiriam "deves" e "haveres"? Surgem então vias de escape para o naturalista: o utilitarismo ou pragmatismo, no qual o bem moral é o que resulta da maximização das vantagens do colectivo, ou o "overlapping consensus" de John Rawls, que pugna por uma ponderação alternada de certos bens morais em conflito, e assim por diante. Tudo formas de procurar defender um "comportamento moral", mesmo na completa ausência de fundamento filosófico para esse comportamento.

A atitude clássica teísta face à moral sempre foi algo do género:

(1) Se existirem verdades morais objectivas, o ser humano deve segui-las

(2) Existem verdades morais objectivas, fundamentadas nos mandamentos de Deus

(3) Logo, o ser humano deve segui-las

Assim, o naturalista tem que encontrar formas de justificar, para o ser humano, um comportamento moral sem correr o risco de entrar nas vielas escuras das verdades morais objectivas, que cheiram sempre a divino. É que, de facto, é complicado explicar que existam deveres morais num universo naturalista, sujeito exclusivamente às leis inexoráveis da matéria.

Uma das atitudes naturalistas mais bizarras consiste na defesa da ideia de "mentira nobre" ("noble lie"), proposta pelo filósofo norte-americano Loyal Rue. No texto de apresentação do seu livro "By the grace of guile" (Oxford University Press, 1994) encontramos isto:

«The nihilists are right, admits philosopher Loyal Rue. The universe is blind and aimless, indifferent to us and void of meaning. There are no absolute truths and no objective values. There is no right or wrong way to live, only alternative ways. There is no correct reading of a text or a picture or a dance. God is dead, nihilism reigns. But, Rue adds, nihilism is a truth inconsistent with personal happiness and social coherence. What we need instead is a new myth, a noble lie. Only a noble lie can save us from the psychological and social chaos now threatened by the spread of skepticism about the meaning of life and the universe.»

Com todo o respeito pela carreira filosófica do Prof. Rue, esta proposta é patética!
No fundo, Rue advoga que, perante a impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas no naturalismo, e perante a necessidade premente de convencer os seres humanos a se comportarem moralmente em sociedade (para evitar a anarquia e o colapso), o melhor que há a fazer é promover a "nobre mentira": apesar de não existirem verdades morais objectivas, vivamos como se estas existissem!

De certa forma, como diz William Lane Craig (a quem devo esta dica acerca da proposta de Loyal Rue), a "nobre mentira" funcionaria como uma espécie de placebo do intelecto: a "nobre mentira" dá a motivação psicológica de que o naturalista precisa para justificar o seu comportamento moral. Ao escutar isto, pensei imediatamente na louvável iniciativa anti-homeopática de alguns ateus. Algumas das recentes críticas anti-homeopáticas, como o texto da química Palmira Silva que desmonta a burla do Oscillococcinum, são verdadeiro serviço público. No entanto, não pude deixar de pensar que atitudes desesperadas como as de Loyal Rue acabam por ser uma espécie de homeopatia intelectual.

E, vendo bem, apesar de o caso de Rue ser mais gritante, todas as tentativas ateias ou naturalistas de localizar o fundamento filosófico para o comportamento moral do ser humano são tentativas baseadas em "nobres mentiras", mesmo que os seus defensores nem sempre o admitam. A razão é simples: o conceito de "dever" não tem sustento na cosmovisão naturalista. Bem podem procurá-lo no naturalismo. É bizarro falar dos "deveres" de uma máquina biológica evoluída, que é como o naturalista vê o ser humano. A alternativa para o naturalista, face à impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas na sua visão redutora da realidade, consiste em adoptar "nobres mentiras".

É viver na ilusão de que existiriam verdades morais objectivas. A necessidade premente de viver em sociedade força-nos a procurar viver moralmente. Mas, à falta de verdades morais objectivas, cai-se num utilitarismo moral. O certo já não existe em si mesmo, como verdade moral objectiva. O errado também não. Tudo depende do contexto, da maximização da felicidade, ou dos interesses, do colectivo. Isso leva a coisas bizarras como a defesa do direito a matar crianças não nascidas, que como sabemos, no nosso país, surgiu pela aplicação prática das teorias de John Rawls no acórdão do Tribunal Constitucional que legitimou o referendo de 7 de Fevereiro de 2007. Essa é uma das conclusões lógicas de quem já não acredita em verdades morais objectivas. O colectivo vota o direito ao aborto, numa tentativa de conciliar os interesses da mãe (prioritários até certa fase de gestação) com os interesses da criança (prioritários depois de certa fase da gestação) e isso cria a "nobre mentira" de que é moral abortar até certa fase da gestação. É o Rawls em acção.

Tal como a opção pelos produtos homeopáticos, em detrimento dos medicamentos reais, pode colocar a saúde das pessoas em risco, também a opção pelo naturalismo pode ser vista como homeopática: está fundamentada no vazio moral (na ausência de verdades morais objectivas) e coloca riscos reais para a saúde das pessoas. Que o digam as crianças abortadas!

PS: Antecipando as críticas que aí vêm, afirmo desde já:

Não afirmei, de modo algum, que o ateu ou o naturalista não se comportam moralmente: aliás, fiz questão de dizer que muitos ateus ou naturalistas promovem certos comportamentos morais, e defendem certos direitos e deveres morais; por isso, é verdade que um ateu ou um naturalista podem viver vidas morais; a questão que critico é: no quadro do naturalismo, qual é o fundamento filosófico para esse comportamento?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O ocaso do ateísmo filosófico

É uma ideia comummente aceite pela opinião pública: os ateus lideram no mundo académico. Alguns ateus, mais atrevidos, dão um salto em frente, e auto-intitulam-se "brights". A ideia aqui é simples: o ateu é o tipo inteligente. O crente é burro.

Vamos analisar um pouco essa ideia, não só porque ela é completamente falsa, mas porque quem a defende demonstra não conhecer nada da realidade actual do mundo académico.

A tal ideia-fantoche costuma basear-se nesta afirmação generalista: "a maioria dos cientistas não concorda com a tese da existência de Deus". Qual é o problema com esta ideia? É que a defesa da existência, ou inexistência, de Deus é uma questão que só pode ser abordada em duas áreas do saber humano: Filosofia ou Teologia. A Ciência é neutra em relação a teses metafísicas. Estão fora do seu alcance epistemológico.

Dada a altíssima compartimentação do saber humano actual, é discutível que um excelente cientista seja, automaticamente, um excelente (ou sequer bom) filósofo ou teólogo. Então, usar a expressão "a maioria dos cientistas não concorda com a tese na existência de Deus" como suposto argumento pró-ateísmo é uma treta. Equivale a afirmar algo como "a maioria dos juristas não concorda com o modelo cosmológico standard". Até poderia ser verdade: e daí?

Assim, o que há a fazer, se formos sérios, é analisar o "status quo" no mundo académico que trata da questão da existência de Deus como área de trabalho intelectual. Então, há que avaliar o "status quo" nos domínios específicos da Filosofia e da Teologia, pois as pessoas nesses ramos do saber é que estão profissionalmente preparadas para apresentar o estado-da-arte acerca da questão da existência de Deus.

Já quase que ouvimos a próxima crítica: os teólogos são parciais. Então fiquemos só pelos filósofos.

Quase um século depois da proposta do Círculo de Viena, o sonho do empiricismo lógico está morto e enterrado. No entanto, muita gente ainda julga, hoje em dia, que a Filosofia obliterou a discussão filosófica da existência de Deus, considerando que a tese da existência de Deus não tem sentido. Isto sucede, sobretudo, com alguns cientistas, ou entusiastas da Ciência, que sofrendo de uma distorção profissional (por ignorarem outras áreas do saber como a Filosofia), acham que uma tese só é racional (digna de ser provada ou refutada) se couber dentro do âmbito do método científico. Confundem "racional" com "cientificamente demonstrável".


O mundo mudou. Os grandes empiricistas lógicos estão mortos e enterrados. Infelizmente para o ateísta convicto, o mundo académico da Filosofia está em revolução há pelo menos quarenta anos, com um número cada vez maior de filósofos a abraçar o teísmo e a defender filosoficamente o teísmo. Num artigo para a revista Philo, o filósofo ateu Quentin Smith (Western Michigan University) afirmou-o categoricamente num artigo intitulado The Metaphilosophy of Naturalism. Smith começa por sublinhar o papel único da obra filosófica de Alvin Plantinga nos anos 60 e 70:

«The secularization of mainstream academia began to quickly unravel upon the publication of Plantinga’s influential book on realist theism, God and Other Minds, in 1967. It became apparent to the philosophical profession that this book displayed that realist theists were not outmatched by naturalists in terms of the most valued standards of analytic philosophy: conceptual precision, rigor of argumentation, technical erudition, and an in-depth defense of an original world-view. This book, followed seven years later by Plantinga’s even more impressive book, The Nature of Necessity, made it manifest that a realist theist was writing at the highest qualitative level of analytic philosophy, on the same playing field as Carnap, Russell, Moore, Grünbaum, and other naturalists.»

Smith descreve deste modo a viragem, no campo da Filosofia, que se verificou no que diz respeito ao teísmo (para os mais distraídos, sim, Quentin Smith é um filósofo ateu):

«But in philosophy, it became, almost overnight, “academically respectable” to argue for theism, making philosophy a favored field of entry for the most intelligent and talented theists entering academia today. A count would show that in Oxford University Press’ 2000–2001 catalogue, there are 96 recently published books on the philosophy of religion (94 advancing theism and 2 presenting “both sides”). By contrast, there are 28 books in this catalogue on the philosophy of language, 23 on epistemology (including religious epistemology, such as Plantinga’s Warranted Christian Belief), 14 on metaphysics, 61 books on the philosophy of mind, and 51 books on the philosophy of science.»

Smith afirma cabalmente: "God is not “dead” in academia; he returned to life in the late 1960s and is now alive and well in his last academic stronghold, philosophy departments". No entanto, não é esta a ideia que a opinião pública tem acerca do teísmo. A visão neo-ateísta pretende o inverso: se alguém é inteligente, acabará por se tornar ateu. A racionalidade estaria do lado do ateísmo. A sofisticação intelectual seria apanágio do ateu. A inteligência sofisticada e a posse de vastas quantidades de conhecimento seriam a marca do ateu. E finalmente, a visão neo-ateísta pretende inculcar este preconceito na cabeça das pessoas: a Universidade tornou-se ateia. Ora, no campo da Filosofia, nada poderia ser mais falso.

Smith queixa-se precisamente do oposto: do estado em que as coisas caíram, do ponto de vista do ateísmo filosófico. Segundo Smith, o lado do "adversário" está claramente a ganhar terreno:

«Due to the typical attitude of the contemporary naturalist (...) the vast majority of naturalist philosophers have come to hold (since the late 1960s) an unjustified belief in naturalism. Their justifications have been defeated by arguments developed by theistic philosophers, and now naturalist philosophers, for the most part, live in darkness about the justification for naturalism. They may have a true belief in naturalism, but they have no knowledge that naturalism is true since they do not have an undefeated justification for their belief. If naturalism is true, then their belief in naturalism is accidentally true. This philosophical failure (ignoring theism and thereby allowing themselves to become unjustified naturalists) has led to a cultural failure since theists, witnessing this failure, have increasingly become motivated to assume or argue for supernaturalism in their academic work, to an extent that academia has now lost its mainstream secularization.» (negrito meu)

A parte a negrito pareceu-me especialmente certeira. A marca do neo-ateísmo é, afinal de contas, o inverso do que nos contam. Segundo Smith, que insisto ser um filósofo ateu, a vasta maioria dos filósofos naturalistas não têm justificação (filosófica) para o seu naturalismo. Nesse cenário, o filósofo teísta ganha terreno. O que está, realmente, a suceder.

Será que estamos a assistir ao ocaso do ateísmo filosófico? Seria demasiado optimista. Certamente que estamos a assistir a um claro recuo do ateísmo filosófico perante o teísmo filosófico e a razão é simples: a ineficácia argumentativa do actual ateísmo filosófico perante a força argumentativa do actual teísmo filosófico.

Quem me lê pode estar espantado, pois os "media" retratam, um pouco por todo o lado, o aparente triunfalismo de neo-ateístas como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris ou Christopher Hitchens. Mas mesmo essa lista é enganadora: apenas Dennett é filósofo profissional! Dawkins é biólogo, Hitchens é jornalista e crítico literário. Harris tem uma licenciatura em Filosofia, mas a sua área de especialidade é a das neurociências, onde se doutorou. Harris nem sequer é muito coerente, ao procurar incorporar no seu ateísmo as espiritualidades orientais.

Mas estes famosos "quatro cavaleiros do apocalipse" ateísta, apesar do incrível número de obras que conseguiram vender, não representam, de forma alguma, o estado-da-arte em matéria de Filosofia. Pelo contrário: as suas obras não são académicas, são obras populares, escritas muitas vezes em tom inflamatório, mal argumentadas, e sobretudo, são obras que não lidam, nem sequer de perto, com o estado-da-arte das teses filosóficas teístas.

Têm-nos estado a vender a banha-da-cobra. Quentin Smith lançou o aviso. O problema existe: o ateísmo filosófico contemporâneo tem pés de barro. Há duas atitudes: ou a fuga para a frente, pretendendo (como Hawking e Mlodinow) que a Filosofia está morta (ou seja, ignorando o que dizem os filosófos, sejam eles ateus, agnósticos ou teístas), ou então pegando no problema: estudando os melhores argumentos teístas e procurando refutá-los, e em paralelo, montando bons argumentos ateístas que possam resistir a refutações teístas.

PS: Veja-se, a propósito, William Lane Craig a dizer precisamente o mesmo que Quentin Smith:

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Esclarecimento ao Helder Sanches

Relativamente a um texto do Helder Sanches que já havia referido há uns dias atrás, Jesus e a frequência do diálogo, quero aproveitar para responder neste espaço ao Helder, porque poderá ser útil a outras pessoas.

O Helder abordava duas questões diferentes, a do Jesus histórico e a da Santíssima Trindade, e manifestou-se intrigado pelo facto de eu me indignar com as dúvidas acerca do Jesus histórico, e depois aceitar a Santíssima Trindade sem qualquer hesitação.

É uma questão muito importante, e diz respeito à dualidade essencial entre Razão e Fé. Crer para entender. Entender para crer. O Helder Sanches esperava de mim o uso de critérios históricos quando eu me referisse à Santíssima Trindade. Diz o Helder:

«Você não respondeu às minhas dúvidas com os mesmos argumentos que utilizou inicialmente para justificar a verdade histórica de Jesus.»

Mas claro que não.
A questão da Santíssima Trindade não é uma questão histórica, mas sim pística, ou seja, uma questão de fé na doutrina da Igreja Católica. Como poderia eu usar os mesmos argumentos? Não quer isto dizer que não se possa argumentar racionalmente sobre a Trindade (os primeiros concílios ecuménicos praticamente só se dedicaram a esta questão). Há uns tempos atrás, falei do texto do filósofo Boécio acerca da Trindade, texto esse que expõe o conceito do Deus uno em essência mas trino em pessoas (ver De Trinitate), usando apenas raciocínio filosófico e sem fazer referências à revelação das Sagradas Escrituras.
Só que as argumentações, filosóficas ou teológicas, feitas sobre matéria de Revelação, como é o caso da Trindade, só se fazem "a posteriori" de uma adesão pística. Não vale de nada trabalhar racionalmente o conceito de Trindade se não recebemos tal conceito como verdadeiro através da graça da Fé, dom gratuito de Deus.

Nunca é demais insistir nestas questões, porque um conhecimento imperfeito acerca destes importantes detalhes teológicos e doutrinais é infinita fonte de problemas e de confusões.

A Teologia é o estudo racional da Revelação. Apoia-se, sobretudo, nas Sagradas Escrituras e na Tradição oral da Igreja. Usa, como ferramenta, uma filosofia cristã especialmente adequada para o tratamento destes temas.
Mas de nada serve a Teologia se não há Fé, se não há uma adesão intelectual inquestionável à veracidade da Revelação. Como posso caminhar no sentido de compreender melhor a luz divina se não a reconheço, se não a sigo, se não aponto o meu intelecto para ela?

«Afinal, você considera as dúvidas sobre a existência de Jesus um logro uma vez que, no seu entender, existem provas suficientes e comprovadas da verdade histórica do mesmo; agora, em relação a Deus e ao Espírito Santo você diz-me que qualquer cristão acredita na trindade porque Jesus fala dela. Bem, em que ficamos, então? Já não são precisas confirmações históricas fidedignas?

É que são domínios radicalmente diferentes, apesar de compatíveis. Nenhuma verdade histórica ou científica contradiz a doutrina revelada. E nenhuma parte da doutrina revelada contradiz algum facto ou evidência científico-histórica. Mas são coisas diferentes. Para falar de História, não preciso da Fé. Bastam-me os documentos, as provas, as "pistas" presentes em obras de autores do tempo que estudo, basta-me o rigor do método de trabalho, o rigor das ferramentas de trabalho, etc.
Um historiador digno desse título não procura defender a tese de que Cristo não existiu. Mesmo sem ter provas do ADN de Jesus, o historiador pode olhar para a colossal recolha de testemunhos indirectos de Jesus, da sua vida e obra, e reconhecer que a tese da sua inexistência não se adapta aos dados.

Não se trata de fazer o historiador jurar que Jesus existiu. Em Ciência não se trabalha assim. O historiador, como cientista, procura adaptar a melhor tese aos dados disponíveis. Face a esses dados, é insensato defender a tese de que Cristo não existiu. Mas a tese oposta não está demonstrada de forma irrefutável. E atrevo-me a dizer que são poucas as teses históricas demonstradas de forma irrefutável. Porque os eventos passados não são reprodutíveis em laboratório.

No entanto, isso não faz com a que a História perca o seu racional poder explicativo dos factos passados. Perante as evidências colossais, para quê, se não para patrocinar certas agendas ideológicas, propor uma tese histórica que não se adapta aos dados?

O Helder escreve ainda:

«Basta-lhe a palavra de alguém em quem você acredita, sabendo que esse alguém é deveras contestado historicamente?»

Sim, basta-me a palavra de Jesus Cristo em quem acredito totalmente e plenamente. Porque o vejo (graças à Fé) como Filho de Deus, Deus de Deus, e Deus não falha nem engana.

As contestações históricas que alguns fazem à existência de Jesus são feitas à revelia do rigor histórico. É sintomático da prática de má ciência história que muitos desses historiadores se recusem a usar referências documentais cristãs. Essa recusa é motivada por razões ideológicas e não científicas. Trata-se de, num claro abuso do que é ser historiador, dizer assim: "estes textos foram escritos por crentes cristãos - logo, são inúteis e falsos, porque são propaganda". Isto não é rigoroso nem científico. E já para não falar da "turma" dos que distorcem os dados históricos. Aqueles pseudo-historiadores que procuram propagar a chamada "alternative history", com pseudo-teorias incoerentes, ou desprovidas de provas, acerca de linhagens sagradas, túmulos de Jesus, casamentos com Maria Madalena, descendência, etc... Pergunte a um historiador ateu o que acha destas teses... Perante a falta de evidências, nada como fabricá-las, como fizeram os promotores e criadores do documentário "Bloodline".

«Lamentavelmente, voltamos à estaca zero e eu volto ao meu argumento inicial: uma vez mais, não importa, também no caso da Santíssima Trindade, qualquer validação histórica. Desde que o conceito venda, o mercado está garantido.»

Mas que validação histórica quer o Helder fazer à Santíssima Trindade, um conceito do mais transcendente que existe, e que podendo ser de certa maneira entendido pelo intelecto humano, é incompreensível porque o nosso finito intelecto não abarca (não "compreende") a totalidade da sua realidade, porque esta é infinita?

O que eu me limitei a escrever foi o óbvio: acreditamos na Santíssima Trindade porque Cristo nos falou do Pai e do Espírito como sendo Deus, e no entanto, pessoas distintas do Filho. A ideia da Santíssima Trindade não tem nada a ver com propaganda: basta ver a eficácia do Islão, que não usa nenhum conceito parecido. Porque razão a Santíssima Trindade ajudaria a um qualquer tipo de propaganda religiosa? A ideia em si é tão profunda, transcedente e sofisticada que não pode ter origem humana.

Faço-lhe um desafio: que livro imagina o Helder que venderá mais numa livraria? Uma obra filosófica explicativa da Trindade, como o De Trinitate de Boécio, ou um livro a apresentar mais uma sepultura com ossadas de Cristo, ou mais uma suposta prova de uma filha de Jesus com Maria Madalena? O que é que, realmente, funciona em termos de propaganda?
Estamos todos fartos de saber que a mentira vende sempre mais que a verdade...

«Só um à parte para o corrigir, se me permite, numa afirmação que faz: “A distinção das três pessoas é feita por Cristo. E por isso mesmo, é aceite pelos cristãos”. Isto não é verdade. A Santíssima Trindade é aceite, mas não por todos. Existem diversas facções cristãs - algumas bastante populares - que não subscrevem a doutrina trinitariana. Mas isso, claro, deve dever-se a questões de tradução e nunca a questões de veracidade.»

Caro Helder, gostaria de pegar no debate por este ponto. De que facções cristãs fala? É relativamente complicado a qualquer cristão que preza as Sagradas Escrituras como palavra de Deus negar a Santíssima Trindade. Há certos grupos que o fazem, mas não apresentam boa argumentação. Pode explicitar que grupos cristão "bastante populares" são esses?

A tradução dos textos sacros é matéria complexa e que exige muito rigor. Invocar "problemas de tradução" é apelar ao absurdo para tentar explicar o que não se compreende. Como é que o Helder Sanches argumenta no sentido de dizer que a noção de Santíssima Trindade dá azo a dúvidas interpretativas que se prendem com problemas de tradução?

Eu tenho um palpite: sucede com o Helder o que sucede com todos nós. Quando rejeitamos uma doutrina em bloco (como é o caso: o Helder rejeita o Cristianismo em bloco), tendemos a relativizar tudo. Para quem rejeita uma doutrina em bloco, todas as facções dentro dessa doutrina parecem igualmente erradas e irrelevantes para a veracidade das questões. Nesse contexto, o Helder, ou a maioria das pessoas que se encontram fora do contexto cristão, não sentem qualquer interesse em discernir quais dos grupos têm a verdade, porque eles acham que nenhum deles diz coisas verdadeiras.

É o relativismo do "outsider"!

E alguns, não digo que necessariamente o Helder, usam esse relativismo subjectivista para tentar argumentar assim: "Se diferentes grupos cristãos dizem coisas antagónicas a respeito de X, então X é falso ou não existe". Esta é uma dedução que eu não compreendo nem consigo seguir logicamente. Apoia-se em que regras da lógica? Se A diz que X existe e B diz que X não existe, devo admitir que X não existe? Porquê?

E isto pode ser extrapolado para um dos maiores erros clássicos do ateísmo relativista: "se várias religiões dizem coisas diferentes de Deus, então Deus não existe". Espantosa dedução lógica...

Um abraço ao Helder, cuja resposta fico a aguardar, sem pressas!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Milagres e a ciência empírica

Recentemente, o Ludwig escreveu:

«Ora eu não sou ateu por princípio. Sou ateu em consequência da forma como avalio qualquer hipótese, comparando-a com as alternativas e optando por aquela que melhor corresponde à informação que tenho. É isto que me faz rejeitar o deus cristão, por exemplo. Omnipotente e omnisciente, pode fazer qualquer coisa que julguemos impossível, refutando toda a ciência moderna. É contraditório, pois sabe de certeza o que vai fazer amanhã mas pode fazer o contrário. E não há vestígio dele.»

É espantoso! Como (quase) sempre, estamos a falar de conceitos diferentes.
É como eu dizer "Eu acredito no Manuel!", e o Ludwig responder "Não, o João não pode existir. Eu não acredito no João!".

Se Deus fosse como o "deus-à-Ludwig", eu não era crente. Mas, felizmente, o conceito que Ludwig usa para Deus não é o do Deus verdadeiro. É uma ideia errada de Deus.

Vamos por partes:

1. Deus é um ente metafísico: por definição, ele é O ENTE SUPREMO metafísico;

2. O possível metafísico é o real, ou seja, tudo o que é metafisicamente possível é real; o irreal não é rigorosamente nada, idem para o impossível; ou seja, não existem coisas impossíveis nem irreais, nem no mundo físico nem no metafísico;

3. Deus, não deixando de ser omnipotente, não faz o impossível, porque Deus não se ocupa a fazer o nada; o nada não foi feito, não vai ser feito, e não tem que ser feito: não existe;

4. Deus não é contraditório, nem pode ser contraditório, nem nada de contraditório tem existência real;

Argumentar que os pontos 2, 3 e 4 são limitações ao epíteto de "omnipotente" que se atribui a Deus, é insensato: Deus não é limitado de forma alguma por questões rigorosamente nulas. O "0" não limita a Possibilidade.

Deste modo, Ludwig está a negar um outro deus qualquer, o tal "deus-à-Ludwig", porque está na posse de uma definição metafisicamente incorrecta de Deus. Logo, está a falhar o alvo.

O Deus no qual acredito, o verdadeiro Deus, o Deus Criador de tudo o que existe, não viola o possível, não tem apetências pelo impossível, não é contraditório, nem ilógico (a violação das leis da lógica é um erro, e o erro é um puro nada, em termos ontológicos). Seria interessante evocar a palestra recente de Bento XVI em Regensburgo, na Alemanha. Curiosamente, o Papa referiu nessa palestra precisamente a questão que nos ocupa agora: será Deus compatível com violações à razão? Certamente que não, e o erro que mina a ideia que Ludwig faz de Deus não anda longe das confusões medievais de um Duns Escoto.

Ora, a imediata objecção que a confusa mente moderna levanta a esta exposição é: "e como justificar os milagres nos quais os crentes acreditam?".

Deus, ao contrário do que pretende o Ludwig, não refuta "toda a ciência moderna". Até podemos dizer, com toda a segurança, que Deus não refuta nem viola qualquer lei física.

Pegando num exemplo: os corpos físicos mais densos que a água não pairam sobre ela, logo é impossível um ser humano andar sobre a água. Logo, pela lógica ludwiguiana, Cristo não teria andado sobre a água.

Mas Cristo-Deus, o Deus incarnado num corpo humano, não é apenas um corpo físico. Cristo, como Ser metafísico supremo, é Senhor de tudo, inclusive da matéria.

Logo, especulando, Ele pode manifestar-Se, momentaneamente, num corpo em tudo idêntico ao corpo de um homem, mas com uma densidade inferior à da água. Ou pode, localmente, alterar a densidade da água sob os Seus pés. Ou pode, localmente, alterar as forças electromagnéticas em seu redor, para poder flutuar sobre as águas. As possibilidades são imensas, conquanto se entenda que estamos a falar de um ser que não está limitado às regras e às potencialidades estritas dos seres físicos.

Também é útil explicar o que é um milagre: trata-se de um fenómeno inesperado (tem que ser fenomenoménico, ou seja, empiricamente detectável) e extraordinário, cuja causa é metafísica.

Há três tipos diferentes de milagres (ver um estudo completo aqui), que poderíamos chamar de:

a) milagres sobre-naturais: efeitos extraordinários que seriam impossíveis a quaisquer forças naturais (por exemplo, o ressuscitar de um morto)

b) milagres extra-naturais: efeitos extraordinários que seriam possíveis a forças naturais, mas que envolvem um processo radicalmente diferente, ou mais rápido ou mais eficiente ou mais profundo (por exemplo, a cura imediata de um doente)

c) milagres contra-naturais: efeitos extraordinários que são possíveis a forças naturais, mas que se manifestam contra a tendência normal da natureza (por exemplo, andar sobre as águas, voar ou estar no meio das chamas sem perigo)

O exemplo que demos, no qual Cristo anda sobre a superfície das águas sem se afundar, é do terceiro tipo. Ao fazê-lo, Cristo não viola quaisquer regras físicas. O efeito seria o mesmo se utilizássemos estruturas compressoras que aumentassem drasticamente a pressão num dado metro cúbico de água: com a necessária pressão, e eventualmente com alterações químicas que produzissem maiores tensões superficiais no líquido, um homem poderia andar sobre a superfície dessa água. A diferença é que Cristo, ao fazê-lo, valeu-se de causas sobrenaturais que provocaram localmente um efeito contra-natural (mas sem violar as leis da física), ou seja, contrário ao comportamento esperado deste líquido na natureza, quando não estão presentes causas sobrenaturais.

A interação entre objectos físicos rege-se por equilíbrios e desequilíbrios de forças. Um ser humano pode participar, ou influenciar, essa interacção provocando ele mesmo forças de equilíbrio ou de desequilíbrio. Tais perturbações são então as causas naturais para os fenómenos físicos quotidianos, ou ordinários, provocados voluntariamente pelo Homem. Contudo, é perfeitamente possível que determinadas perturbações em sistemas físicos de forças sejam causadas metafisicamente, pela vontade de agentes metafísicos. É disso que estamos a falar neste caso.

Um cientista católico pode admitir, em teoria, uma tese metafísica como a do referido milagre de Cristo, e ao mesmo tempo, estudar dinâmica de fluidos sem entrar em incoerência intelectual. E com a plena certeza de que o Deus que venera não viola leis físicas quando produz milagres, directamente, ou através de outros seres humanos.

Para terminar: é certo que a ausência de provas empíricas, úteis para o método científico, de que tais fenómenos acontecem (de que Cristo andou sobre as águas) não nos permite ter a certeza científica da realidade dos mesmos. Mas tal ausência de provas não nos pode levar a, nem nos permite, negar a possibilidade teórica dos mesmos. Basta admitir a possibilidade de causas supra-empíricas (invisíveis, extra-sensoriais) para determinados fenómenos empíricos. Tal possibilidade não pode nunca contradizer os actuais postulados físicos.

É certo que a admissão de tal possibilidade não pode ser fortuita. No caso da Igreja, apoia-se em algo muito forte chamado Revelação. O Ludwig tem razão quando diz que o crente acredita por princípio. Esse princípio acabou de ser referido. A fé é um acto de confiança: não uma confiança no vazio mas sim no legado de Cristo e dos Apóstolos. Uma confiança na Santa Madre Igreja.

Por outro lado, a opção pística do Luwdig (é o que ela é), ao decidir-se pelo ateísmo, baseando-se, entre outras coisas, numa crença apriorística na impossibilidade de fenómenos que não são empiricamente reproduzíveis em laboratório, é então uma opção de princípio. O seu ateísmo é de princípio.

domingo, 23 de setembro de 2007

Filosofia para o ateu moderno

É bem sabido que a Filosofia pode servir de terreno fértil ao debate entre ateus e crentes, visto que pode bem ser a única área do saber que contém conceitos passíveis de serem aceites por ambos os lados.

No entanto, não tem sido fácil encontrar um diálogo filosoficamente fértil do lado de lá da barricada. Não sem uma ponta de esperança, dediquei uma referência a Boécio ao Ludwig Krippahl, que se limitou, enquanto vigiava um teste, a escamotear o texto e, por arrasto, toda a filosofia aristotélica.

Ludwig, não tanto pela incapacidade intelectual, mas sobretudo pela indisponibilidade temporal (ler Boécio enquanto se vigia um teste é uma má ideia, porque estudar Filosofia requer alguma concentração), achou por bem escamotear o meu convite ao debate filosófico.

E fê-lo de forma empobrecedora. Acerca do facto (incontestável) de que a categoria aristotélica de "relação" se aplica necessariamente a dois entes, Ludwig achou que era uma boa ideia usar a palavra "errado" em relação a este facto. Assim mesmo, sem apelo nem agravo. Como uma buzina num concurso televisivo, o veredicto ludwiguiano caiu a direito que nem uma espada sobre a cabeça de Boécio: "Errado", Boécio!

O que poderíamos dizer?
Que Ludwig não sabe que Boécio estudou Aristóteles? Que Boécio, ao usar a palavra "relação", não está a usá-la num contexto popular ou simplório, mas sim filosófico, no contexto da herança de Aristóteles? Os alunos de Filosofia sabem, desde cedo, e de cor, as dez categorias aristotélicas dos entes: lugar, tempo, relação, substância, quantidade, qualidade, estado, hábito, paixão (ou passividade) e acção (ou acitividade).

Boécio escreve, no início capítulo VI:

«Mas, como toda relação sempre se refere a outro, pois a predicação que se refere ao próprio sujeito é sem relação, a numerosidade da Trindade é garantida pela categoria relação, enquanto a unidade é preservada pelo fato de que não há diferen-ça de substância ou de operação ou de qualquer predicado substancial. Assim, a subs-tância é responsável pela unidade e a relação faz a Trindade.»

Ludwig refuta Boécio deste modo:

«A relação entre mim e os filhos do meu pai não é necessariamente uma relação que se refere a outro. Afinal, eu também sou filho do meu pai.»

Ninguém duvidará que o Ludwig tem que ser filho do seu pai, sem deixar de ser o Ludwig. Só que a categoria "relação" não é aplicada assim, entre entes e predicados. "Relação" é uma categoria aristotélica entre dois entes. E o Ludwdig, sendo obviamente um ente, não pode ter uma relação com o predicado "filhos do seu pai", porque tal predicado cabe-lhe a si enquanto ente. Da parte que me toca, eu não tenho uma relação com o meu umbigo, com os meus 73 quilogramas, ou com o meu cabelo.

Trocado por miúdos... Se eu digo "Bernardo" e também digo "homem de 30 anos", é evidente que este predicado é parte integrante do meu ser. Por isso, não há relação, em sentido aristotélico, entre "Bernardo" e "homem de 30 anos", porque este último não é um ente, mas sim um predicado que me corresponde (transitoriamente, até ao dia 28 de Outubro deste ano) a mim enquanto ente.

Será que o Ludwig não sabe o que é "relação" para Aristóteles (e correspondentemente para Boécio)? Se calhar...
Ou será que o Ludwig quis gozar com a Filosofia?
Se calhar...

No entanto, gozos ludwiguianos à parte, a relação continua a ser uma categoria aristotélica, e continua a ser verdadeiro ontologicamente que a relação pressupõe dois entes. Era mais interessante, neste contexto intelectualmente turvo que constitui a intelectualidade hodierna, que esta verdade óbvia que acabei de referir fosse dita por um filósofo encartado, e não por mim. As pessoas que me lêem vão dar pouco crédito a isto, porque sou apenas um estudioso amador da Filosofia, sem formação académica.

Isto porque, para espíritos turvos incapazes de reconhecer uma verdade mesmo quando tropeçam nela, uma verdade torna-se sempre mais fácil de aceitar quando é dita por alguém com o canudo na mão.

Só gostava de encontrar um interlocutor interessado por Filosofia que gostasse de debater estas coisas de forma filosófica.

Por exemplo, se o Ludwig tivesse lido o texto de Boécio noutro contexto que lhe permitisse uma leitura mais atenta, poderia ter aproveitado a oportunidade para me retorquir, e levantar esta pertintente questão: "Se a relação é entre dois entes, então Boécio está a dizer que as pessoas da Trindade são entes diferentes entre si! Lá se vai a unidade!".

Mas Boécio também pensou nesta eventual contestação, e explica de forma clara que, sendo a relação sempre entre dois entes, isso não implica que tais entes sejam distintos em substância. Certamente que as criaturas, pela sua condição, são sempre distintas em substância. Já as pessoas da Trindade, possuindo relação entre si (é ela que origina a Trindade), não são entes substancialmente distintos. São entes iguais em substância.

Outro esforço para tentar refutar a Trindade, já com alguns meses, foi escrito pelo João Vasco, do Diário Ateísta. Só que o João Vasco, julgando que estávamos a falar de Matemática, limitou-se a referir o óbvio num contexto de lógica matemática. Que, aliás, se aplica à Trindade enquanto substância, curiosamente: A=B=C, enquanto Pai, Filho e Espírito Santo são idênticos e uma e a mesma substância divina.

No Instituto Superior Técnico, nobre instituição onde também me formei, ensina-se boa Matemática, e o João Vasco tem toda a razão na afirmação que faz, e que até explica a unidade das três pessoas divinas; só que ela não chega para compreender um conceito de âmbito filosófico como é o da relação, do qual deriva a trindade de pessoas divinas. E, infelizmente, faltam ao ensino da Engenharia e da Matemática umas boas bases rudimentares de Filosofia e Epistemologia, que valeriam ouro para qualquer aluno a estudar nestas faculdades.

Para o João Vasco compreender a Trindade, tem que saber o que é relação em sentido aristotélico. Ou seja, tem que compreender um conceito ontológico. Ou seja, tem que saber que estamos a falar de conceitos filosóficos e não matemáticos.

Desidério? Não nos quer dar uma mão? Como eu gostaria de ler uma refutação ao Boécio escrita pelo Desidério, usando metafísica modal...

domingo, 26 de agosto de 2007

Materialismo em estado puro

Parte I - Prelúdio

O Ludwig escreveu hoje uma sátira no seu blogue, sob a pena do alter-ego "Dom Mário Neto", que representa a ideia que o Ludwig faz de uma realidade que ele ainda não conhece nem compreende: a da Teologia (e do teólogo). "Dom Mário Neto" é aquilo que o Ludwig imagina ser um teólogo, e usa esse alter-ego para satirizar as crenças religiosas em geral, com especial incidência, por razões óbvias (culturais) no cristianismo.

A discussão começara ontem, quando o Ludwig satirizou um trecho do Primeiro Livro de Samuel. Os detalhes podem ser lidos aqui.

O início da discussão não é interessante por si mesmo (uma disputa acerca da tradução de um termo hebraico), mas sim pelas realidades que faz ressaltar. Devo confessar que até há um quarto de hora atrás, eu não tinha ainda compreendido a objecção do Ludwig: achava que ele queria simplesmente teimar num determinado suposto absurdo conceptual que ele teria encontrado num dos livros do Antigo Testamento. Compreensão lenta a minha, porque na realidade, o problema do Luwdig estava na eterna questão da relação entre os bens materiais e a religião. Juro que só agora é que entendi que este sempre foi o cerne da questão levantada pelo Ludwig no seu texto de Sábado.

Com este comentário do Ludwig, apresentado de seguida, fica-se com a ideia de que o capítulo em questão constitui, para ele, uma prova de algo de muito grave em termos da atitude religiosa de um crente:

«Este relato continua a revelar algo de profundamente ridículo e perturbante com estas crenças religiosas.»

Não pode ser coisa pouca!
Na mesma caixa de comentários, Ludwig escreveu:

«Mesmo com a sua explicação, cuja ideia já conhecia, a minha opinião mantém-se. Ninguém oferece os pecados. Hoje em dia oferece-se dinheiro e jóias, e antigamente era comida, dinheiro e jóias. Ou seja, coisas de valor e não as coisas más de que nos queremos livrar.
E isso é quase universal na religião humana porque todos temos uma grande costela de comerciante.»


Vemos então que, afinal, a questão sempre foi a do ouro, e não tinha propriamente a ver com problemas de tradução. Para Ludwig, o "desastre" revelado no capítulo 6 do Primeiro Livro de Samuel era o facto de que seres humanos (racionais), neste caso os Filisteus, ofereceram ouro a um deus para expiação de pecados.

Este pode bem ser definido como um dos grandes "pecados mortais" do ateísmo esclarecido. Aos olhos destes iluminados, estamos perante algo não menor do que suicídio racionalista. A morte do bom senso. O enterro da Razão.

Parte II - Uma aparente condenação do materialismo

Numa primeira abordagem, Ludwig escolhe um caminho já bem trilhado e pisado por muitos antes dele, nos últimos séculos. A crítica à relação da Igreja com os bens materiais (vou cingir-me ao cristianismo, mas sei que o Ludwig aponta para algo em sentido lato, algo que vise todas as principais religiões). Para o Ludwig, e penso não estar a fazer um juízo errado, toda a Igreja, tendo que existir (idealmente, não existiria no mundo perfeito imaginado por Ludwig, composto por pessoas inteligentes e racionais), deveria ser composta por "Sãos Franciscos", por pessoas totalmente mendicantes, que nunca tocassem em bens materiais. Só dessa forma, na cosmovisão ludwiguiana, a Igreja seria coerente com aquilo que professa.

Trocado por miúdos, esta é a catequese iluminista, defendida por Ludwig, e que hoje em dia se tornou num facto consumado para uma crescente parte dos nossos concidadãos, num verdadeiro mito moderno:

A. Deus não existe (axioma).

1. Os crentes são pessoas pouco cultivadas: uma pessoa com conhecimentos não precisa de Deus para nada.

2. Os crentes de antigamente procuravam consolo na religião porque tinham medo da morte, mas também porque não conseguiam explicar certos fenómenos, hoje explicados pela Ciência; a Ciência deveria ter tornado a Religião num fenómeno caduco e condenado a desaparecer.

3. Os crentes de hoje ainda procuram consolo na religião porque têm medo da morte, mas também porque precisam ainda de uma explicação fácil para as injustiças: a religião é, e sempre foi, uma atitude subjectiva porque totalmente sentimental.

4. As Igrejas são dirigidas por comerciantes, que trocam bens materiais por consolo psicológico.

Sem o axioma, tudo isto cai, certamente, por terra. É na firme certeza filosófica (pela sua natureza, não pode ser uma certeza científica) de que Deus não existe que eles radicam a sua visão de que a religião é um gigantesco engano (para alguns, o maior engano de todos). Há então os que enganam (o clero) e os que são enganados (o povo). A religião, vista como algo que Marx apelidou de "ópio do povo".

A luta da Ciência contra a Religião, levada a cabo por estes bravos lutadores pós-Iluminismo, é então a eterna luta da Luz racionalista contra as Trevas da religião.

Em suma, o ateu esclarecido tem a resposta na ponta da língua:

a) O que quer um papa ou um bispo?
OURO e PODER

b) O que quer o crente?
CONSOLO

Supor que existam altos dirigentes da Igreja que vivem uma vida de fé sincera e devota é algo de aberrante: um alto dirigente da Igreja só lá está pelo poder e pelo ouro.

Supor que existam padres com pouco poder e crentes pobres já é algo de compreensível: são pessoas ignorantes exploradas pelo "sistema" religioso.

Para uma pessoa como o Ludwig, um mártir (que dá a sua vida por Cristo) representa uma tragédia humana enorme, não pelo sacrifício pessoal mas pelo absurdo da causa. O mártir deverá ser, para Ludwig, o supremo da loucura: uma pessoa dar a sua vida (para eles, a única) para encher a barriga e os cofres da padralhada.

Esta visão, está claro, é preconceituosa e baseia-se na ignorância. E é errada. O que é terrível, sobretudo quando tal visão é defendida por espíritos inteligentes, que deveriam ter alguma capacidade para escapar às condicionantes sociais que nos impõem esses preconceitos diariamente...

Parte III - A profissão (inconsciente) do mais arreigado materialismo

A atitude do Ludwig, disse atrás, parece à primeira vista (e parecer-lhe-á a ele mesmo) uma crítica do materialismo da Igreja. Ou seja, uma posição que teria tudo para ser anti-materialista. O Ludwig não aceita que as oferendas a Deus (por intermédio da Igreja) possam ter um significado sofisticado ou metafísico, ou possam ser gestos razoáveis ou aceitáveis. Para o Ludwig, tais significados metafísicos são normalmente "cozinhados" pelo blinólogo Dom Mário Neto de serviço. Porque não há, para o Ludwig, nenhum mistério numa oferenda destas: é apenas um crente a ir na argolada da Igreja.

Para o Ludwig, quando uma pessoa crente como eu coloca uma moeda no cestinho do ofertório, durante a Missa, está a ser burlado: a trocar consolo por dinheiro. Do lado de lá do altar, está o supremo comerciante: o padreco, esse gatuno do trabalho dos outros.

Esta visão, tão típica (será das mais típicas) do Iluminismo, do Modernismo, e ainda viva nesta época pós-modernista, longe de ser anti-materialista, é, na realidade, uma visão no extremo máximo do materialismo.

Sem modelos nem referências transcendentais, o ateu radica a sua existência no hic et nunc, no "aqui e agora" utilitarista, na fruição da experiência existencial tal qual ela é, sem grandes interrogações ou suposições metafísicas.

Por isso, a vida do ateu é explicada de forma simples: "Trabalho para obter dinheiro; uso o dinheiro para obter comida; como para me manter vivo; morro. Ponto final.".

Neste sentido, os bens materiais são preciosos para o ateu: são o combustível que mantém em movimento toda a máquina existencial ateísta: o corpo humano, esse robô sofisticado que um dia, segundo eles, a Ciência não só emulará, mas melhorará infinitamente. O ateu luta arduamente para evitar a morte. Ficar vivo só porque sim, só para aproveitar a vida, os bens materiais desta vida, é isso que o ateu quer.

Haverá então maior pecado ateísta, maior violação ética ao código comportamental do ateu, do que desperdiçar bens materiais? Do que perder a vida? Do que não procurar a satisfação sensorial? Do que perder a oportunidade de fruir destes bens numa sofreguidão individualista e epicurista?

Violar o carpe diem, este é o maior pecado do Homem aos olhos do ateu...

Isto é puro materialismo.
Como diz o Ludwig, o ser humano tem sempre algo de comerciante. O ateu radica a existência humana nos bens materiais, é deles que tudo parte, é para eles que tudo regressa. Os bens materiais explicam tudo. "Money makes the world go round!".

No fundo, na base da crítica que o Ludwig faz à existência de uma relação entre os bens materiais e a Igreja, está, paradoxalmente, um amor enorme (não confessado) aos bens materiais, essa bóia de salvação existencial, essa realidade tangível (para eles, o intangível é inútil, mais, é irreal) que dá aos ateus a sua sensação de segurança ontológica.

Parte IV - A religião e os bens materiais

Para o crente, que não sofre destes dilemas existenciais insolúveis, a coisa é relativamente simples:

1. Deus criou tudo. Rigorosamente tudo, incluindo os bens materiais.
2. A vida não pertence ao Homem, mas sim a Deus: é um dom de Deus para o Homem.
3. Os bens materiais não pertencem ao Homem: são colocados por Deus à disposição do Homem.
4. Os homens entregam o fruto do seu trabalho (em géneros ou dinheiro) em oferenda a Deus, colocando-o nas mãos daqueles que vivem exclusivamente para o serviço a Deus (o clero).
5. O clero fica responsável (depositário) de bens que não lhe pertencem, e que se destinam ao serviço divino.

Quando vemos um determinado prelado a viver uma vida de luxo desnecessário, podemos indignar-nos com razão: aquele homem está a esbanjar algo que não lhe pertence, não está a aplicar os bens que lhe foram confiados para servir a Deus.

Mas, e esta é a tragédia da incompreensão do Ludwig, há um abismo enorme entre esta atitude de cupidez humana, infelizmente demasiado frequente devido à nossa fraca natureza, e a atitude do prelado responsável, que gere bem os bens que lhe são confiados, e que os usa nas variadas vertentes do serviço a Deus, que passa pela ajuda aos que não têm, pelo trabalho de evangelização, pela defesa do património cultural do cristianismo, pela defesa da Igreja face aos seus agressores externos.

Quando eu entrego a minha dádiva no cesto, durante o Ofertório, tenho a perfeita consciência de que essa deve ser a menor parte da minha dádiva à sociedade, à Igreja, e a Deus enquanto cristão. Tenho muito mais que posso dar, e devo procurar oferecer, sobretudo, bens imateriais. Mas também tenho a consciência de que estou a depositar algo de material e que tem valor, à guarda de pessoas nas quais confio. Em muitos casos, porque o sacerdote costuma dizê-lo, até posso saber o destino dessa dádiva.

Se determinadas pessoas falham nessa minha confiança, se usam mal esses bens, serão elas a responder perante o Criador, e não eu. Acima de tudo, não é o acto de oferecer que está errado. Não é quem oferece que está errado. Oferecer está certíssimo. É a forma natural e racional de proceder.

Assim, como vemos, para o crente, os bens materiais devem fluir na sociedade, não só para a subsistência material da mesma, mas também para a maior glória de Deus. É nesse sentido que todo o crente razoável sabe que o trabalho de Deus nesta Terra também requer bens materiais. Em maior ou menor quantidade, consoante o destino dos mesmos. Esse destino tem é que ser justo e proporcional, mas isso é uma questão secundária e não central ao acto de dar.

A Igreja não é gnóstica: não há nada de maligno na Criação, nem nos bens, nem sequer no ouro, na prata, ou nas pedras preciosas. O que a Igreja ensina é algo de elementar e simples: quanto mais valioso é o bem, maior a responsabilidade do seu proprietário (ou do seu guardião) em dar-lhe bom uso.

Os bens servem o Homem. Mas isto tem muitas dimensões, para além da biológica, orgânica, psicológica ou social. Para o crente, o serviço dos bens ao Homem terá que passar, indiscutivelmente, por aproximá-lo de Deus. Logo, o destino mais elevado de um bem material é o de ser empregue para a glória de Deus, para fazer a ponte entre o Homem e Deus.

Na verdade, o bom crente dá um valor relativo aos bens materiais. Um valor não nulo, um valor positivo, mas incomparavelmente menor que o valor que um ateu lhes dá. Porque o crente sabe que a sua vida é finita. Que um dia acaba. E que nada de material, nem sequer o nosso corpo, se leva desta vida para a outra. Para o ateu, tudo o que há é para ser gozado nesta vida, que para eles é a única.

Assim, o ateísmo é, na verdade, um puro materialismo. Por definição.

Sobre a cupidez dos padres, muitos e santos homens escreveram afincadamente. Por exemplo, o nosso Santo António de Lisboa dedicou-lhes muitas e duras palavras (ver, entre muitos outros, o sermão do 5º Domingo depois da Páscoa, I, 663, sobre os vícios dos sacerdotes). O sacerdote que dá mau uso aos bens ao seu cuidado, e que não se arrependa a tempo, está perdido. Pobres de tais sacerdotes, indignos servidores de Deus, traidores na causa mais nobre. O mais triste é que tais pessoas estão reféns de um bloqueio intelectual que os faz servir o senhor errado. Servem o metal em vez de servir a Deus. Mas isso não faz do metal algo de mau, nem obriga a um divórcio entre os bens materiais e o serviço a Deus.

Este conceito que procurei explicar, o da utilidade e justeza do uso dos bens materiais no serviço a Deus, é incompreensível à "luz" (que raio de luz, esta, que escurece as mentes!) da distorcida cosmovisão do "ateísmo esclarecido", nascido da defesa dos novos dogmas decretados pela soi disant "Razão" contra Deus no século XVIII.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Uma posição ateísta pelo Não

«Criticamos o Vaticano por afirmar que o preservativo não previne a 100% uma gravidez, e agora vimos sustentar a desresponsabilização do acto sexual pelo facto dos métodos contraceptivos não serem 100% eficazes?» - Ricardo Pinho, Diário Ateísta, Uma posição ateísta pelo Não.

Vale a pena ler na íntegra este excelente texto de Ricardo Pinho. Dadas as nossas profundas divergências, eu não me via facilmente a usar a expressão "excelente texto de Ricardo Pinho". Pois faço-o neste caso, mesmo que não faça noutros. Espero não ser acusado de oportunismo, visto que eu sempre defendi que a reprovação do aborto livre é uma questão de ética universal, que pode (e deve) ser defendida por qualquer pessoa, seja ela crente ou ateia.
O Ricardo Pinho demonstra, com esta posição em concreto, coerência de atitude, coragem e clareza de raciocínio. Seguramente que eu defendo o "não" de modo diferente do dele, mas são diferenças menores. Estamos de acordo no fundamental. Força, Ricardo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Crítica ao Diário Ateísta

(publicado em simultâneo no Afixe)

Criticarei, de novo, um artigo do Diário Ateísta.
Poderão alguns questionar-se acerca do porquê deste meu interesse pelo Diário Ateísta.
O interesse é já antigo. Pessoalmente, atraem-me as questões sociológicas que a leitura deste site suscita.
Deixei de intervir há largos meses com comentários no Diário Ateísta porque o diálogo se tornou, infelizmente, numa conversa de surdos.
Mas continua a parecer-me útil criticar alguns dos textos que surgem neste site ateísta. Infelizmente, é pela mediocridade que me sinto obrigado a tecer críticas a este site ateísta. Por isso, longe de querer que as minhas críticas sejam críticas ao ateísmo, estas críticas são puramente culturais e históricas, e não incidem sobre qualquer questão pística.
Não há proselitismo católico nas minhas críticas.
Tenho apenas uma intenção didáctica. A intenção de dirigir um convite à reflexão, ao estudo, e a um aprofundamento de cultura histórica e religiosa aos membros do Diário Ateísta.
Creio que, para se combater eficazmente um adversário, é pertinente conhecê-lo bem.
Creio também que não é o que sucede com o Diário Ateísta, onde todos os dias vemos demonstrações de lacunas culturais, que a meu ver, dado o número elevado de visitas ao Diário Ateísta, prejudicam a imagem do próprio ateísmo na Internet, pelo menos aos olhos dos visitantes mais cultos.

Vamos ao teor da crítica de hoje.
André Esteves é o autor de um artigo intitulado "Doutorados e Ignorantes".

Segundo André Esteves,
"Nalgumas igrejas evangélicas e fundamentalistas americanas tornou-se um valor comum não tirar cursos universitários, ou ser-se «intelectual» porque são coisas seculares ou da carne."

O passado evangélico de André Esteves poderá, parece-me, explicar o seu interesse pelos movimentos evangélicos norte-americanos. Sou da opinião que muitos desses movimentos cristãos têm posturas fanáticas (prefiro este termo ao termo "fundamentalista", uma vez que me parece bom ter-se fundamentos). Nisto concordo com o André Esteves.
Contudo, parece-me inadequado usar estes casos de fanatismo evangélico norte-americano para extrapolar conclusões gerais relativamente ao universo dos crentes.

Assim, a frase que se segue, de André Esteves, é para mim uma generalização inaceitável:

"O medo de se tornar num «liberal» é palpável entre os jovens crentes das igrejas, para os quais uma universidade reputada ou o prosseguimento de estudos além da licenciatura, se tornaram sinónimos da perdição espiritual."

Antes de mais, faz-me especial confusão que se use o termo "liberal" para classificar a opção pela formação académica complementar à licenciatura. É um "liberal" aquele que prossegue os seus estudos após o grau de licenciatura?

Depois, a generalização. Partindo dos evangélicos norte-americanos, André Esteves partilha da opinião de que certas posturas fanáticas são para generalizar aos "jovens crentes das igrejas".

Por fim, chegamos ao ponto onde me parece se revelar com mais nitidez a lacuna cultural que me fez escrever esta crítica:

"Por cá, Deus demonstra-se complicado: a Conferência Episcopal definiu que para se ser bispo em Portugal tem que se ser doutorado. Antigamente aos desígnios de Deus para serem compreendidos bastavam a tonsura e aljubeta. Agora o capelo também se torna necessário."



É curiosa esta afirmação, que revela que André Esteves desconhece a obra e vida dos doutores da Igreja, sobretudo a de S. Tomás de Aquino. O aquinate é uma figura incontornável no reavivar da vida universitária medieval. Usando como tema central da sua actividade intelectual a conciliação entre o saber clássico grego (nomeadamente, a obra de Aristóteles) e a revelação cristã, S. Tomás de Aquino revolucionou a vida académica, dando um significado rejuvenescido e profundo ao que é o trabalho "universitário".
As "quaestiones disputatae" de S. Tomás primam por um esforço de rigor dialético e argumentativo, no qual uma tese é colocada em análise, sendo fornecidos argumentos a favor, e argumentos em contrário.

Todo o processo de uma "quaestio" é conduzido de forma a fazer surgir a conclusão de modo natural e justo, considerando todos os dados relevantes no processo.
A universidade moderna não seria igual ao que é hoje sem S. Tomás de Aquino. Parece-me pertinente conhecer apenas as linhas gerais da vida e obra desta figura chave da intelectualidade europeia, para que se possam evitar considerações destas, que revelam da parte do senhor André Esteves uma postura proselitista duvidosa, que só pode funcionar com uma audiência desprovida das mais elementares referências culturais.
Para saber mais sobre S. Tomás, recomendo vivamente o texto introdutório do professor Luiz Jean Lauand.

Bernardo

quarta-feira, 14 de julho de 2004

Sobre o politeísmo...

Tenho-me confrontado com alguns ateus que, na sua "imparcialidade" anti-religiosa, não compreendem porque é que Deus havia de ser Uno. Eles recusam Deus liminarmente, sem apelo nem agravo. E como não aceitam qualquer tipo de argumento abonatório da existência de Deus, optam por negar em pé de igualdade tanto o monoteísmo como o politeísmo.

Há dias, tentei explicar a um deles que o politeísmo era um erro. Ao que o dito ateu me retorquiu que, na impossibilidade de provar que Deus existia, era impossível saber se existia apenas um Deus, ou vários deuses!
É surpreendente! Não é possível ser-se mais "imparcial" na recusa de Deus!

Assim, nada como deixar aqui estas palavras de René Guénon, retiradas de um texto sobre o Demiurgo, que foram escritas em 1909, quando Guénon tinha apenas 22 anos:

"Alguns julgaram que deveriam admitir dois princípios distintos, opostos um ao outro, mas esta hipótese está descartada pelo que referi anteriormente. Com efeito, estes dois princípios não podem ser ambos infinitos, porque então se excluiriam ou se confundiriam; se só um fosse infinito, este seria o princípio do outro; e, se ambos fossem finitos, não seriam verdadeiros princípios, já que dizer que aquilo que é finito pode existir por si mesmo, é admitir que algo pode sair do nada, posto que todo o finito tem um princípio lógico senão cronológico. Neste último caso, em consequência, um e outro, sendo finitos, devem proceder de um princípio comum, que é infinito, o que nos leva à consideração de um Princípio único. Adicionalmente, muitas doctrinas que observamos como dualistas, não o são senão em aparência; no Maniqueísmo, como na religião de Zoroastro, o dualismo não é mais do que uma doutrina puramente exotérica, encobrindo uma verdadeira doutrina esotérica da Unidade: Ormuz e Ahrimán são os dois engendrados por Zervané-Akérêné, e devem fundir-se com ele no final dos tempos. A Dualidade é então necessariamente produzida pela Unidade, pois não pode existir por si mesma" - René Guénon, "O Demiurgo", publicado na resenha póstuma "Mélanges", Capítulo I, Parte I - Edições Gallimard, Paris, 1976.

Bernardo

quarta-feira, 30 de junho de 2004

Pseudo-intelectualidade serôdia...

... é o que se pode encontrar neste artigo do "Diário de uns Ateus", da autoria do nosso arqui-inimigo André Esteves.

Bem sei que estes senhores não podem representar o pensamento ateu, mas nem tão-pouco o pensamento ateu português! Porquê? Porque estes senhores não sabem (nem sentem) bem o que é isso de nacionalismo.

Para eles, rima com "fascismo" e com "patriotismo".
É este um dos grandes perigos de alienação intelectual do ateísmo. É que, na sua voragem "uniformizadora", cujo objectivo máximo é ateizar todo o Universo (Deus incluído), estes senhores não vêem interesse algum em posturas nacionalistas.

Por isso, vêm para a blogosfera criticar aqueles pobres medíocres coitados que andam pelas ruas a festejar as vitórias futebolísticas do Euro 2004. Que triste exemplo nos dão estes senhores armados em intelectuais e (bem pior) defensores da intelectualidade.

Por isso, nas noites de vitória de Portugal, ficam em casa a ler autores ateus, a escrever para blogues ateus, a trocar mails com OUTROS ateus, enfim, numa doentia e medíocre embriaguez ateia.

Pois sim: eu estive na rua a festejar TODAS as vitórias de Portugal. E berrei, e saltei, e corri, e festejei, e tudo o que convém e é salutar a qualquer português que se preze. Porque, caros senhores do "Diário", esses jogadores de futebol (oh, tão intelectualmente incapazes que eles são) defendem bem melhor o País do que vossas excelências. Mas enfim, para quem não vê o interesse neste tipo de coisas "patrióticas" (palavra que para eles ainda cheira a Salazar), todo este discurso é escusado.

Meus caros ateus "uniformizadores", para já, nem todos os ateus pensam como vocês (graças a Deus!). Há por aí ateus patriotas, que eu sei. Conheço alguns, bons.
Mas já se sabe que o perigo da postura ateia está na ausência total de princípios metafísicos. Esta ausência total cria um vácuo intelectual, e é preciso uma mente mais exercitada para conseguir ocupar eficientemente este vácuo. Estes senhores, que no seu preconceito aglutinam conceitos como Deus e Pátria, julgam que ao negar o primeiro, têm que recusar o segundo. E por isso ficam em casa.

Obviamente que me preocupo com as desgraças políticas que se abateram sobre o nosso país. Obviamente que condeno fortemente os últimos tristes acontecimentos provocados pelo nosso (des)Governo. Sinto uma profunda vergonha pelos políticos que servem o nosso país.

Mas sinto um profundo orgulho na nossa selecção.
O erro seria dizer que Portugal está bem graças ao futebol!
Portugal não está bem, está MAL. Muito MAL.
Mas, no futebol, está muito bem, e de parabéns!
Este país investiu muito esforço pessoal e institucional no Euro 2004. Eu sempre fui contra esta opção de investimento, porque sempre achei e acho que era um erro de prioridades. Mas agora que já se investiu, não querer tirar o máximo do Euro 2004 a todos os níveis é não ter consciência patriótica.

Triste seria ter que dizer:
"Só eu sei porque não fico em casa"

Mas, graças a Deus, não tenho que dizer tal frase, porque 10 milhões de portugueses, quando saem à rua a festejar, sabem bem porque é que não ficam em casa.

Desculpem-me o tom ligeiramente demagógico deste texto, mas achei importante partilhar a minha viva e decidida repulsa por este tipo de posturas tristes, serôdias, e pseudo-intelectuais.
Para terminar, um recado para alguns dos comentadores do artigo que referi: para ser "intelectual" à vossa maneira, não basta recusar Deus! Já agora, para ser intelectual, ajuda ter alguma cultura e (porque não?) escrever bem em português e sem erros ortográficos e gramaticais!

Bernardo

terça-feira, 11 de maio de 2004

Ateísmo e presunção, Kaballah e Islão

O nosso amigo José do Guia dos Perplexos perdoar-me-á o quase plágio do título do seu último artigo, mas não resisto a fazer coro com ele.

De facto, tenho dedicado parte do meu curto tempo livre a trocar umas impressões com a pandilha do "Diário de uns Ateus". À parte do João Vasco, que é claramente a carta fora do baralho, o panorama é desolador em termos de presunção pseudo-intelectual.

Como diz o José, também eu "tive frequentemente a estimulante sensação de o meu ocasional interlocutor me considerar um idiota chapado".

Eu não diria que a sensação era estimulante. Para mim é mais frustrante. Uma sensação de tempo perdido...
Mas ao mesmo tempo, é também uma sensação de ironia...

Explico porquê.

René Guénon, que como sabem é como se fosse um meu "guru", explica que a intelectualidade das ciências modernas (verdadeira Terra Prometida destes nossos amigos ateus), não passa de uma pseudo-intelectualidade. Assim, é claro que esta gente fica furiosa quando eu digo que, para René Guénon, bem como para todo o homem plenamente tradicional, a espiritualidade e a intelectualidade podem andar de mãos dadas.

Para estes senhores, as enumerações divinas "hokmah" (sabedoria) e "binah" (inteligência) que se encontram na árvore dos zéfiros da Kaballah hebraica deverão ser mera retórica... Ou delírios esotéricos...

Uma curta nota sobre o termo "zéfiro", aplicada à árvore da Kaballah: este termo, como explica Guénon, vem do hebreu "sepher" (que também dá o árabe "çifr"), que é a origem etimológica da palavra "cifra" e do verbo "contar". Assim, "cifra" deve ser aqui interpretada não como "código" mas sim como "número" ou como a operação de contar.

Os "zéfiros" da árvore são as "enumerações divinas", ou por outras palavras, a enumeração dos atributos divinos.

A riqueza e complexidade do Islão, que salvou para a posteridade os clássicos gregos do esquecimento, e que rejuvenesceu a filosofia, as artes e as ciências na Idade Média, torna-se bem patente na complexidade do sufismo, e na surpreendente concordância deste com as linhas do esoterismo judaico. Espelhos de Verdade e de Intelectualidade que voam bem acima dos cinzentos e limitados racionalismos, cartesianismos e positivismos dos nossos amigos ateus.

Eles, em contrapartida, falam-nos do Islão como um exército de Bin Ladens... Lembram-nos vezes sem conta que a biblioteca de Alexandria foi queimada em nome de Allah. Como se se pudesse meter tudo no mesmo saco. Como se esse gesto criminoso, grunho e tresloucado, representasse a totalidade do ser islâmico. No meio de tanta pobreza cultural e intelectual, no meio de tanta estreiteza de vistas, o diálogo é difícil.

Bernardo