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quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Richard Leigh (1943-2007)


No passado dia 21 de Novembro, morreu em Londres o escritor Richard Leigh, ficcionista, cuja notoriedade se deve maioritariamente à sua obra Holy Blood, Holy Grail (Londres, Dell, 1982), escrita em co-autoria com Henry Lincoln e Michael Baigent.

A última aparição mediatizada de Leigh deu-se durante o processo que moveu em Fevereiro de 2006, juntamente com Baigent, contra o autor Dan Brown, alegando que a sua obra The Da Vinci Code plagiara a obra Holy Blood, Holy Grail.

A decisão do Juiz Peter Smith (7 de Abril de 2006) foi clara e justa: não havia matéria para plágio. Dan Brown inspirou-se, e de que maneira, na obra do trio. Sem a obra do trio, Dan Brown não teria escrito O Código da Vinci, porque não teria tido acesso à "tese" que estrutura o romance. Mas Dan Brown não copiou trechos da obra do trio, ou seja, não a plagiou materialmente. Se é certo que se deve ao francês Pierre Plantard (1920-2000) a autoria do mito moderno do Priorado de Sião, também é justo atribuir ao trio a autoria de uma das mais belas mistificações dos nossos tempos: a teoria do "sangue real", da pretensa descendência humana de Cristo por via de Maria Madalena.
Fazer de Madalena a "mulher" de Jesus e a mãe dos "seus filhos" é, sem dúvida, um dos grandes feitos desinformativos das últimas décadas. E deve-se a este trio.
Plantard não se promoveu a descendente de Cristo. Quem o fez foi o trio Lincoln, Baigent e Leigh (com grande indignação por parte de Plantard, diga-se de passagem).

Hoje em dia, são incontáveis os títulos que circulam no mercado literário, explorando aberta e descaradamente este filão, num novo género que surge com a designação de "história alternativa", sobretudo sob a forma de obras anglo-saxónicas.

Há muita gente em dívida para com Lincoln, Baigent e Leigh. Muitos autores, e sobretudo editores, que ganharam e ainda ganham a sua vida a explorar o filão do "sangue real", as modernas fantasias pseudo-históricas, anti-cristãs e anti-científicas.

Não sei quem terá estado presente no enterro de Leigh. Mas, certamente, muitas pessoas deveriam lá estar a prestar homenagem ao homem que deu tanto dinheiro a ganhar a tanta gente. Leigh deverá ter ficado arruinado após o desfecho do processo de 2006, gastando a simpática quantia que ganhara durante os anos oitenta e noventa com a venda do Holy Blood, Holy Grail. Duvido que o influxo positivo d'O Código da Vinci na venda da obra do trio nestes últimos anos tenha compensado a ruína dos custos judiciais. Não me espantaria se Leigh tivesse morrido deixando a família em dificuldades económicas, e talvez ainda com dívidas para pagar a advogados do processo e indemnizações da Dan Brown e à sua editora.

Contudo, a gigantesca hidra editorial continua viva, à margem destes processos, a capitalizar fortemente a invenção literária do trio.

Não basta apenas considerar a máquina financeira que alimenta e cresce sobre o filão da "tese" do "sangue real". Há também que ter em conta que influentes grupos maçónicos (não toda a Maçonaria, é certo) aproveitaram e aproveitam esta "tese". A pertença de, pelo menos, Michael Baigent à Maçonaria (presumimos que a uma filiação regular) é assumida pelo próprio. Olhando para a obra colectiva dos três, não é de estranhar a proximidade dos outros dois autores, Lincoln e Leigh, a meios maçónicos ou para-maçónicos.

A destruição do cristianismo romano, ou pelo menos, o combate à dogmática católica, continua a ser o horizonte de vida de muitos maçons. A génese da Maçonaria na Grã-Bretanha protestante (James Anderson, 1717), e o influxo jacobino durante a Revolução Francesa, explicam-no e demonstram-no cabalmente, mesmo que algumas poucas filiações maçónicas não tenham vivido, e não vivam hoje, da guerra contra Roma.

É ainda toda uma franja da sociedade, que é anti-cristã e fanaticamente laicizante, que ganha com a demolição histórica do cristianismo (com a distorção da verdade histórica), e por isso, esta franja tem que demonstrar uma dívida de gratidão para com aqueles bravos e valentes maçons que trabalharam e trabalham para construir uma "história alternativa" que sirva o actual statu quo e que promova a agenda propagandística dos nossos tempos.

Curiosamente, a "New Age" e os seus novos filões literários de "história alternativa", poderão estar a fazer bem mais pela demolição do legado de Cristo junto da maleável e influenciável opinião pública do que os esforços de Marx!

Enfim... Que Richard Leigh descanse em paz!
Foi uma figura charneira nesta agitação anti-católica do virar do século, mas não chegou a tirar todo o proveito (financeiro ou outro) da sua genial criação...
Ironias do destino.

sábado, 20 de novembro de 2004

Os falsos mistérios da Última Ceia

Andava à procura de um site, há muito tempo, que explicasse mais alguma coisa sobre a questão dos detalhes da Última Ceia.

Encontrei um site interessante:
http://www.lamelagrana.net/%C2%A5_letture/letture05/A001/A00011.html



Neste site italiano, encontramos a explicação para a tal "mão cortada", que toda a gente agora diz que é de ninguém, e que supostamente "flutua no ar". O site italiano mostra claramente que existe um estudo preliminar de Leonardo, onde se vê bastante bem que a mão não é flutuante, e que pertence ao apóstolo S. Pedro.

A questão da faca é uma falsa questão:

a) ela tem dono (S. Pedro): o sketch de Leonardo prova-o;
b) ela tem uma razão de ser simples: S. Pedro estava a comer, e a faca dá jeito para comer;
c) ela tem uma razão mais complexa: a faca nas mãos de S. Pedro é uma prefiguração da espada que S. Pedro vai usar para cortar a orelha ao servo do Sumo Sacerdote, nos jardins de Getsemani, aquando da prisão de Jesus.

Q. E. D.
(será que é desta??)

P.S. (este PS é post scriptum, e não prioratus sionis!): Para os mais teimosos, dêem uma leitura rápida ao texto do arquitecto italiano Diego Cuoghi, disponível neste site:
http://www.renneslechateau.it/index.php?id=2&url=studi_cuoghi.php

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

Editora de Dan Brown processada!

(publicado em simultâneo no Afixe)



É verdade, meus amigos! Demorou, mas aconteceu! Finalmente, alguns dos autores plagiados por Dan Brown decidiram-se a processar a obra do romancista americano.

Recordam-se do "Holy Blood, Holy Grail", aquele livro pseudo-histórico da autoria de Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh?
E que em Portugal já está a vender forte e feio com o título de "O Sangue de Cristo e o Santo Graal"?


Pois estes dois últimos amigos acabaram de lançar um processo contra o livro de Dan Brown, por plágio. Será processada a Random House, proprietária da editora Doubleday. Diz Michael Baigent, comentando o plágio, que "se a nossa hipótese está ou não correcta é irrelevante, o facto é que se trata de trabalho que nós montámos e no qual gastámos anos e anos a montar".

Leia-se o restante da notícia no London Sunday Telegraph (3 de Outubro de 2004).

O trio britânico até não tinha razões financeiras para se queixar de Dan Brown, porque este último, com o seu romance, relançou de novo as vendas das obras pseudo-históricas do trio. Qual é o problema deles? O problema é que eles querem receber mais algum. Querem tomar parte do filão de Dan Brown. Eles devem estar roidinhos de inveja: "Caramba, este gajo farta-se de vender às nossas custas, e a gente quase não vê cheta"?

Pois sim. Cá está a reacção que não surpreende. É bem vinda, para quem detesta e critica o "Código Da Vinci"? Claro que é.
Vejamos:

1. O processo de plágio, se for para a frente e os seus promotores vencerem, demonstrará que Dan Brown é, de facto, um plagiador descarado;

2. A reacção de cupidez de Baigent e Leigh (Lincoln fica de fora do processo alegando razões de saúde) demonstra que esta gente toda, de Lincoln a Brown, passando por Leigh, Baigent, Clive Prince, Lynn Picknett, e tantos tantos outros, quando chega a hora da verdade, não querem abdicar da maçaroca. Do pilim.

E os leitores?
São jogados para trás e para a frente.
Pagam, com a sua credulidade, as casas e as viagens de Lincoln, Baigent e Leigh, e as actividades maçónicas destes dois últimos.

Bernardo

terça-feira, 28 de setembro de 2004

"O Código Da Vinci" desmascarado



Os media têm coisas engraçadas.

Durante os últimos meses, tenho tentado desmascarar o embuste Dan Brown, com relativo insucesso. A grande percentagem das pessoas que leram as minhas críticas reagiram de forma muito negativa. Muitos rotularam-me de "padre Motta", ou "supranumerário Motta". Porque eu era uma voz isolada, poucos ligaram. Muitos insultaram. A certa altura, referi o artigo do Nouvel Observateur. Isso gerou algum gelo nos contestatários, mas, enfim, era um artigo em francês. Uma língua difícil para o tuga. Poucos leram. A treta continuou.

Esta semana, a Visão, em colaboração com o Nouvel Observateur, trouxe-nos um artigo bem apresentado, bem trabalhado, bem traduzido. Finalmente, num periódico de grande leitura, uma apresentação correcta e relativamente completa sobre este grande embuste.

Pela primeira vez, vem lá tudo: Pierre Plantard, o seu passado anti-semita, as suas associações pseudo-cavaleirescas, as suas falsificações dos "dossiers secretos", as suas amizades. A desmontagem é potente. E atinge um público considerável aqui em Portugal.

Certamente que agora as vozes contestatárias (pelo menos aquelas de Portugal, que leram a Visão), irão começar a desaparecer. Para nos dar alguma paz e descanso.
O que me entristece é que é preciso que isto venha numa revista como a Visão para que se acredite. Hoje em dia, mais que o discernimento crítico, mais que a pesquisa pessoal, mais que o bom senso, mais que a cultura geral, o que vence sempre é a letra mediática. É o que vem nas revistas, nos jornais.

Desta vez, dou total apoio à Visão, pela sua iniciativa em prol da verdade. Mas porque é que é preciso uma revista semanal dizê-lo para que, finalmente, as pessoas se dêem conta de que tudo isto é um embuste, e uma história sinistra?

Que poder impressionante, o dos media...

Bernardo

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Mais material sobre o Carmelo de Vintras...

(publicado em paralelo no Afixe)

Eugène Vintras

Encontrei, num site italiano, este trecho da obra "Satan - Études Carmelitaines" (1948) do carmelita Bruno de Jésus-Marie:

Non abbiamo voluto render pubblico il testo completo della Confessione di Boullan. Il lettore ce lo perdonerà, ma non ne avrebbe sopportato la lettura. Tranne i passi interessanti che abbiamo segnalato, essa provoca disgusto e noia. In questo campo conviene limitarsi, ed anche così si rischia di danneggiare i più sensibili. Boullan — scrive Drack Dusquesne — non è un isolato. Appar­tiene ad una razza che la storia delle aberrazioni religiose non ignora. Il suo caso getta anzi uno spiraglio di luce su alcune manifestazioni non bene note, inserendosi nella grande corrente dei misteri orgiastici che si ritrovano in tutte le religioni come una deviazione, una stortura del culto reso a la Sophia o Sapienza divina. Le sette gnostiche vedevano nello Spirito Santo il «principio fem­minile » della Divinità. Tutta la dottrina di Boullan si riallaccia in modo del tutto naturale e continua la corrente « paracletica » pseudo-mariale, pseudo-carisma­tica degli illuminati medievali (Fratelli e Sorelle del Libero Spirito, Beghards e Beguines, ecc.). Se a Boullan non mancano antenati “spirituali”, tanto meno mancano discendenti. Quando egli muore nel 1893, alcuni dei suoi fedeli se ne tornano ai loro paesi, sia in Moravia sia nella Polonia, allora austriaca; ed è appunto là che, verso il 1894, cominciano i vati­cini di Maria Francesca Kozlowska, suora francescana, chiamata più tardi la Matuchka (la mammina), il cui illuminismo, dopo aver sedotto ecclesiastici quali Kowalski, Prochniewksi, ed altri, infatuati di ascesi e di misticismo anarchico, terminò nel 1903 con la condanna formale del movimento «mariavita » (de Mariae vita) da parte di Pio X. I settari si staccano allora da Roma e fondano la chiesa maria-vita, il cui Patriarca, Kowalski, e i vescovi sono (validamente) consa­crati dall’episcopato vecchio cattolico (giansenista) d’Olanda nel 1909. Il sogno di Boullan è realizzato! Ma la dottrina e la pratica dei “matrimoni mistici” tolti come quasi tutto il resto dalla dottrina di Boullan e destinati a diffondere la procreazione senza condupiscenza (sic) di bambini nati, per conse­guenza, mondi da peccato originale (sic), provocano uno scandalo inaudito. La “poligamia spirituale” (sic) dei Mariaviti è divenuta così pubblica che il Congresso Vecchio-Cattolico internazionale di Berna del 1924 lancia la scomunica a tutta la Chiesa mariavita, che contava allora circa 600.000 fedeli! Dopo di che il Patriarca ed alcuni Vescovi hanno subito in Corte d’assise gravi condanne per offesa al buon costume. Si potranno trovare particolari sul mariavitismo, ridotto oggi-giorno a 100.000 fedeli, nella collezione Die Religion in Geschichte und Gegenwart. I lineamenti caratteristici della setta sono del più puro Boullan, aggiuntavi la parte speciale che si attribuì la Matuchka di “reincarnazione della Santa Vergine” e di preposta, in questo mulier amicta sole, alla salvezza del genere umano, non appena inco­minceranno gli Ultimi Tempi, ormai imminenti”

A página de onde tirei isto é estranha, tem uma coloração horrorosa, e não sei se é fidedigna. Nem conheço o autor deste site, Vittorio Fincati.
Ainda não consegui verificar se este trecho está correctamente transcrito (o original é evidentemente em francês). Mas a obra "Satan - Études Carmelitaines" existe mesmo, assim como foi escrita pelo carmelita Bruno de Jésus-Marie, cuja autoridade e competência historiográfica é incontestável.

Se o texto for fidedigno à obra do carmelita, então temos um relato rigoroso e valioso da forma como este historiador encaixa esta cadeia de movimentos orgiásticos resultantes do legado de Vintras na história do satanismo. Segundo Bruno de Jésus-Marie, o Carmelo de Vintras é uma extensão da heresia do gnosticismo.

Mais sobre isto em breve...

Bernardo

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Eugène Vintras, senhor Simon Cox?

(publicado em paralelo no Afixe)

Regresso de novo ao meu tema fetiche: o sub-mundo onde Dan Brown decidiu chafurdar no seu último romance, "O Código Da Vinci".

O que eu tenho para dizer ainda não merece ser lido como um "artigo", porque o que eu quero contar agora não é ainda uma posição sólida. É apenas um desabafo de preocupação. Estou ainda a pesquisar, e ainda não tenho provas contundentes em relação ao que vou escrever agora.

É bem conhecida a simpatia que Dan Brown nutre por Margaret Starbird, a teórica americana do "sagrado feminino":

http://www.telisphere.com/~starbird/

Eu costumo dizer que esta senhora é a inventora do "sagrado feminino", e de uma muito peculiar interpretação do conceito alquímico do "hieros gamos", ou "casamento sagrado". Mas se calhar, ela não é a "inventora" coisa nenhuma, porque hoje em dia já são poucas as coisas verdadeiramente novas...

Para resumir, Starbird afirma que o modelo máximo de divindade está na união sexual de Jesus com Madalena, ou seja, do "deus" com a "deusa".

Tudo isto parecerá pateta, mas se se reparar no site de Margaret Starbird, ela está a falar muito a sério: o número de palestras que ela dá por toda a América é surpreendente. Assim como o número de obras que ela já escreveu sobre o assunto.

Por isso, nada de mais natural do que Dan Brown ter usado esta "estrela em ascensão", para inserir mais um detalhe pitoresco e vigoroso no seu romance: o "hieros gamos".

Até aqui, toda a gente poderia sorrir, ou até dizer: "e qual é o mal, Bernardo, porque é que ficas sempre tão lixado com estas coisas?"

É que, com o passar dos anos a farejar estas porcarias, adquire-se um faro... E este meu faro sensível a este tipo de porcaria andava a chatear-me desde que tomei contacto com estas teorias do "hieros gamos". De onde tinha vindo tudo isto? Onde é que eu já tinha visto isto anteriormente?

Foi com a leitura do "Código Da Vinci Descodificado", de Simon Cox, que se fez luz na minha mente. Ora então diz este senhor a páginas tantas (no capítulo sobre o "Hieros Gamos"):

"Tentativas genuínas para obter um ramo mais «gnóstico» do Catolicismo, incorporando rituais sexuais sagrados e a restauração da monarquia francesa duma forma muito semelhante à dos dogmas do Priorado de Sião, podem ser encontradas num movimento chamado a Igreja do Carmelo..."

Foi como se se tivesse feito luz!
"Igreja do Carmelo"? Isto soava-me a "déjà vu". Logo depois de ter ficado chocado pelo aval de Simon Cox à seita satânica e orgiástica de Eugène Vintras, comecei a pesquisar sobre o assunto. E o que encontro? O mistico Vintras fundou o Carmelo porque acreditava que a santificação vinha da prática da "sexualidade sagrada". Cá está o elo até às teorias de Starbird que eu procurava!

Estou neste momento a fazer uma viagem bem suja ao sub-mundo do satanismo do século XIX e do início do século XX. Nomes como Clément de Saint Marcq, o padre Boullan, Eugène Vintras, e outros mais modernos como Jean (Joanny) Bricaud, podem ser estranhos a muita gente, mas quando eles começam a surgir, não se trata de coisa boa, acreditem...

E, para mais, não há semelhança alguma entre a mistificação do Priorado de Sião (invenção de Pierre Plantard) e as seitas orgiásticas de Vintras e Boullan! Porque raio assimila Simon Cox as duas coisas? Plantard não era tão perverso!

O Carmelo de Vintras (que foi continuado após a morte deste pelo infame padre Boullan) constituiu uma das situações mais exóticas e funestas de propagação do satanismo através de missas negras, com profanações como a prática de sexo em grupo e de masturbação em altares consagrados e em conventos. A febre orgiástica de Vintras espalhou-se como pólvora e foi complicado para a Igreja Católica conseguir contê-la e extinguir o movimento. Até os suspeitos ocultistas franceses do "fin de siècle" atacaram violentamente o movimento de Vintras e Boullan (como foi o caso de Stanislas de Guaita), que consideravam escandaloso e perverso.

Eis senão quando o século XXI assiste ao reaparecimento, devidamente sanitizado por Margaret Starbird (que se calhar, inocentemente, não imagina de onde lhe vem a sua "inspiração"), dos ideais do Carmelo de Vintras, através desta publicidade inaudita ao "casamento sagrado", ou "hieros gamos".

Ainda não estou em condições de escrever algo de sério. Faltam-me provas, e tenho que obter documentos originais. Mas tudo aponta para uma semelhança assustadora entre a recuperação do "hieros gamos" por Dan Brown e Margaret Starbird, e as heresias de perversão sexual de Eugène Vintras.

Mas a procissão ainda vai no adro, se se souber que Vintras era um seguidor do falso Louis XVII (Naundorff), que ele dizia que deveria subir ao trono de França, porque era o "Grande Monarca". Isto diz alguma coisa aos nossos leitores? Nostradamus? É que o mito do "grande monarca", falado pela primeira vez pelo vidente Michel de Notredame (Nostradamus), foi recuperado em pleno século XX, aquando do livro "Holy Blood, Holy Grail" do trio britânico, uma década antes de Dan Brown. O trio britânico via em Pierre Plantard o tão aguardado "grande monarca", futuro rei dos Estados Unidos da Europa.

E Dan Brown chafurda nisto tudo como gente grande!
Parece uma criança a brincar numa central nuclear abandonada!

Conclusão: Dan Brown está, à custa da psique hodierna e da ignorância dos leitores, a fazer dinheiro com um romance que é um autêntico barril de pólvora das maiores imundícies que o género humano alguma vez produziu, disfarçadas de "suspense" artístico-literário.

Estará Dan Brown consciente? Estará Margaret Starbird consciente? Saberão eles da sua "afinidade ideológica" com o Carmelo de Vintras? Eu não sei! O que sei é que Simon Cox chegou lá, e disse-o no "Código Da Vinci Descodificado", dando a Igreja do Carmelo de Vintras como um exemplo de "tentativa genuína para estabelecer um ramo mais «gnóstico» do catolicismo".

A ver vamos... Era só para levantar um pouco o véu às coisas que ando agora a pesquisar... Quando tiver algo de mais sólido não hesitarei em publicá-lo.

Bernardo

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

O Evangelho de Tomé e o "sagrado feminino"

Todos temos tido contacto recente com leitores do best-seller "O Código Da Vinci", de Dan Brown. Uma das "teorias" avançadas neste romance pouco inocente é o de que os evangelhos apócrifos são mais genuínos que os evangelhos canónicos de Mateus, Marcos, Lucas e João que foram incorporados no cânone do Novo Testamento. Além disto, os adeptos destas "teorias" (que frequentemente não as vêem como "teorias" mas sim como factos) costumam dizer que um importante conjunto destes evangelhos apócrifos, conhecido como "textos de Nag Hammadi" (local no Egipto onde foram descobertos em 1945), ou "evangelhos gnósticos", traz importante informação em relação ao que eles chamam de "sagrado feminino", ou "culto da Deusa", ou seja, que Jesus teria casado com Maria Madalena, e que esta teria sido escolhida para liderar a Igreja após a morte de Jesus. No seguimento desta "teoria", a Igreja Católica (evidentemente "malévola" ao ponto de querer "esconder a verdade") teria feito tudo para a substituir por Pedro, que se asseguraria de que o "culto da Deusa" ficaria sepultado para a posterioridade.

Mas um dos trechos dos evangelhos gnósticos que é menos citado pelos nossos entusiastas do "sagrado feminino" é este trecho do Evangelho de Tomé, que contradiz imediatamente a "teoria" de que o "culto da Deusa" está presente nestes evangelhos:

"Disse-lhes Simão Pedro: que Maria se aparte de nós porque as mulheres não são dignas da Vida. Disse-lhes Jesus: Vede, eu mesmo a guiarei, para fazer dela macho, para que também ela seja um espírito vivo, semelhante a vós machos, pois cada mulher que se tornar macho irá para o reino dos céus." - Evangelho de Tomé, 51:18 (660) a 51:26 (668).

Fonte:
http://www.geocities.com/Athens/9068/log114.htm

(obter primeiro o ficheiro de fonte copta "coptic2.ttf", e colocar este ficheiro em c:\windows\fonts)

Antes de se pronunciarem sobre os evangelhos apócrifos em geral, e sobre os evangelhos gnósticos em particular, e antes de começarem a disparatar sobre os "segredos que a Igreja escondeu", algumas pessoas deveriam começar por se interrogar porque é que a Igreja recusou considerar estes textos como parte integrante do cânone bíblico.

As razões para esta recusa são:

a) razões teológicas, e
b) razões históricas.

Por um lado, o lado teológico, estes textos estão prenhes de heresia gnóstica (não me é possível desenvolver aqui e agora o que é esta heresia e porque é que é uma heresia), por outro lado, pelo lado histórico, estes textos estão temporalmente distantes da vida de Jesus (foram todos compostos a partir do século II d.C, ao contrário dos evangelhos canónicos que pertencem ao século I d.C., sendo S. João o mais tardio e que por vezes é datado até no máximo aos primeiros anos do século II d.C.), e por isso, os factos da vida de Jesus que lá vêm relatados são duvidosos e menos credíveis que os que foram (por essa razão e por outras) incluídos no cânone do Novo Testamento.

O Evangelho de Tomé pertence ao grupo de textos achados no Egipto, em Nag Hammadi, em 1945. Apesar de escritos em cóptico, não se faça confusão! Estes textos não pertencem à Igreja Copta, uma Igreja desde há séculos em cisma com a Igreja Católica, mas que nada tem a ver com a heresia do gnosticismo. Mais ainda, importantes membros e dirigentes da Igreja Copta tiveram um papel fundamental na luta contra as heresias gnósticas. Os evangelhos gnósticos foram muito provavelmente elaborados por seguidores de líderes gnósticos como Valentiniano, nascido em Alexandria por volta do ano 100 d.C. Deverão ter sido escritos em Alexandria ou em comunidades vizinhas. Alexandria foi um importante centro na difusão do gnosticismo.

A minha sugestão para todos os interessados seria:

1. Tentar aceder às fontes directas dos evangelhos apócrifos: há imensos sites na internet com o texto original em cóptico (caso dos textos de Nag Hammadi) e aramaico (caso dos textos de Qumran), e com as devidas transliterações e traduções para inglês;

2. Tentar aceder à documentação da Igreja Católica (textos conciliares, obras patrísticas, compêndios anti-heresia, etc.) para compreender quais foram as razões desta condenação da Igreja aos textos gnósticos, e a homens como Valentiniano.

Bernardo

segunda-feira, 5 de julho de 2004

Simon Cox junta-se a Dan Brown

Este fim-de-semana deparei-me, numa livraria em Lisboa, com um livro mesmo ao lado do "Código Da Vinci". Trata-se do livro de Simon Cox, "Cracking The Da Vinci Code: The Facts Behind The Fiction".



Dizem os críticos:
"The first non-fiction companion to Dan Brown's mega-selling novel The Da Vinci Code."

"Non-fiction"?
"Facts"?
Que lata... Estive a folhear o livro, e aquilo está cheio de tretas. Claramente, este livro foi escrito para emparelhar e dar mais força ao romance de Dan Brown. Quando as pessoas me julgavam paranóico por atacar aquilo que diziam ser "só um romance", não estavam a avaliar bem a natureza e os objectivos desta onda "brownesca", que não é coisa nem recente nem inocente.

A infâmia de Simon Cox está em apresentar um livro pretensamente "factual", para que os leitores mal preparados (que serão quase todos) possam catalogar o "Código Da Vinci" como romance, e olhar para o livro de Simon Cox como os "factos" por detrás do romance. Boa estratégia!

Simon Cox, editor-chefe da revista pseudo-científica Phenomena, será uma das últimas pessoas a escolher para obter esclarecimentos. O negócio de Cox é a venda de revistas de fraco calibre científico sobre arqueologia e mistérios da antiguidade. Com muito menos qualidade, a revista segue a tónica da Atlantis de Paul le Cour dos anos sessenta. A Phenomena é uma espécie de "Super Interessante" da Arqueologia.

Bernardo

De novo Dan Brown e o Código Da Vinci

Decidi fazer uma busca rápida pela Internet, em sites de língua portuguesa, pelas palavras "Dan Brown"... Fiquei chocado!

Toda a gente está a ler o livro e a adorar... Era o que eu temia...
Ninguém, nem por um momento, duvida de Dan Brown, que é um autor e uma pessoa que eles nem conhecem! Não estamos a falar de Umberto Eco, cujos romances de conteúdo histórico deixam-nos sempre perplexos, a pensar no que é verdade e no que é mentira. Umberto Eco escreve e está connosco há décadas. E é uma pessoa séria...

E contudo, tantas vezes que vejo pessoas a compararem o "Código Da Vinci" ao "Nome da Rosa". Porquê? Porque é um romance sobre religião? É que não têm mais nada a ver!

Na firme esperança de que este comentário surgirá nos motores de busca, cá fica mais uma vez uma chamada de atenção para os leitores portugueses e brasileiros que estão fascinados com este livro:

1. Dan Brown é mal intencionado a partir do momento em que ele inicia o romance com a nota, nada inocente, de que os detalhes do romance são verídicos; nada é mais falso;

2. Dan Brown retirou material das obras de autores como Henry Lincoln, Michael Baigent, Richard Leigh, Clive Prince, Lynn Picknet, Margaret Starbird, entre tantos outros; estes autores não se queixam, porque escrevem todos o que escrevem com um mesmo objectivo comum;

3. Dan Brown não percebe nada de História: estamos a falar de um homem que acha que "Da Vinci" é o nome de Leonardo; de um homem que acha que os Templários foram queimados, e as suas cinzas lançadas ao Tibre, em Roma, quando o Papa Clemente V (que extinguiu os Templários), vivia no exílio em Avignon (França); de um homem que, ignorando que a Igreja Católica nem sempre esteve no Vaticano, insiste em chamar a Igreja Católica de "The Vatican"; de um homem que acha que Leonardo da Vinci pintou Maria Madalena ao lado de Cristo no mural da Última Ceia; de um homem que acredita que foi Constantino quem elevou Cristo a divindade (ignorando portanto profundamente o que foi e o que tratou o concílio de Niceia em 325); de um homem que acha que foram os Templários os construtores de igrejas na Idade Média; de um homem que acha que os Evangelhos Apócrifos foram escritos ao mesmo tempo (ou até antes!) dos Evangelhos Sinópticos; enfim, este texto poderia ocupar tantas páginas como as páginas do seu romance;

4. E por fim, e o que é mais grave, Dan Brown recuperou a mitologia de Rennes-le-Château! Como é possível que NENHUM dos seus adoradores aqui em Portugal conheça, sequer, o nome de Rennes-le-Château?? Quando foi precisamente a esta farsa de triste memória que Dan Brown foi buscar toda a sua inspiração?

Para quem não sabe, Rennes-le-Château é um lugarejo perdido no sul de França, onde teve lugar a criação de uma das mais longas, complexas, e terríveis farsas pseudo-históricas da modernidade. A lista de "grão-mestres" do pretensamente secular "Prieuré de Sion" que Dan Brown refere no romance foi retirada de um panfleto forjado, intitulado "Dossiers Secrets", que foi depositado na Biblioteca Nacional em Paris, nos anos sessenta, por Pierre Plantard, sob o pseudónimo de Henri Lobineau.

O "Prieuré de Sion" foi criado nos anos cinquenta, e que agruparia uma juventude "católica, monárquica e cavaleiresca" em torno de Pierre Plantard (que se auto-intitulava "Pierre de France"), o arrogante e pretenso "descendente" da Dinastia Merovíngia. Contudo, as origens bem mais modestas de Pierre Plantard, bem como a sua simpatia pelo regime de Vichy, a sua tendência anti-judaica, e o seu cadastro na polícia, são tudo coisas ocultadas da opinião pública.

Para quê ir mais longe? As pessoas que lêem Dan Brown nem sabem o que é Rennes-le-Château! Palavras para quê?! Por favor, informem-se. Até a Internet, que nestas coisas costuma não ser de fiar, está cheia de material refutatório...

A pior coisa é cair na esparrela do "génio criativo" de Dan Brown.

Para saber mais sobre Rennes-le-Château:
http://bmotta.planetaclix.pt

Para saber mais sobre o Prieuré de Sion:
http://www.priory-of-sion.com

Bernardo

quinta-feira, 13 de maio de 2004

A paranóia deste espectador

Serei paranóico sobre Dan Brown e o seu livro?

Não me parece...
Também é certo que os paranóicos não se vêem como tal.
Tem-me sido sugerido frequentemente, desde que eu instaurei o sistema de comentários nos "Espectadores", que eu deveria ocupar o meu tempo de melhor forma.

É uma maneira um pouco deselegante de se dizer que se discorda de uma opinião.
Convenhamos...

Perante este crescendo de anti-catolicismo, que para tanta gente passa despercebido, não sou capaz de reagir de outra forma senão esta.

Dan Brown é um pobre coitado. Não é ninguém.
Ele nem é a questão central. Frequentemente os joguetes das forças anti-tradicionais nem sabem que o são. Já falei disso em tempos... Trata-se de anti-tradicionalismo inconsciente.

Mas alguns de nós, apesar das nossas limitações de espectadores que tentam estar atentos, simplesmente reagem com repúdio e revolta à infâmia, à mentira e à difamação.

Hei-de reagir a este tipo de manifestações anti-tradicionais enquanto me sentir com forças para tal. O resto é conversa...

Bernardo

PS: Sinceramente não percebo: se estes temas não interessam a ninguém, porquê os comentários a sugerir-me que "mude de vida"? Será que as pessoas que escrevem estes comentários não têm mais nada para fazer?

A Internet é muito grande!
Vão pregar para outra freguesia.

sexta-feira, 7 de maio de 2004

"O Cómico Da Vinci"

Se não fosse a postura convicta do autor, Dan Brown, o livro The Da Vinci Code até poderia parecer uma sátira literária. Mas não é! É um romance, para o qual o próprio autor admite ter-se baseado em factos reais.

Em Portugal, a polémica em torno desta novela ainda vai no início.
Contudo, e bem, a Agência Ecclesia antecipa-se com algumas explicações que vale a pena seguir:

"O Código Da Vinci" - Quando o objectivo é vender

Apenas discordo do título do artigo.
A Bertrand, acredito-o sinceramente, tem como objectivo único vender e fazer dinheiro.
Não acredito que haja o descaramento por parte da Bertrand de afirmar que o livro traz algo de culturalmente relevante.
Agora, da parte de Dan Brown, já não me parece que haja só vontade de fazer dinheiro, apesar desta poder ser a principal motivação.

Há, em todas as palavras de Dan Brown, um sentimento fortemente anti-católico.
Uma pulsão de niilismo que visa arremeter com todas as forças contra a Igreja Católica, que ele chama infantilmente de "The Vatican". Como se a Igreja se pudesse confundir com a residência do Santo Padre.

Mas o que não falta são confusões na cabeça de Dan Brown. Vários comentadores afirmaram que o próprio título é risível: dizer "O Código Da Vinci", é tão estúpido como dizer "O Evangelho De Nazaré", referindo-se aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Enfim, para quem não vê nada de novo na temática escolhida por Dan Brown, tudo isto encontra a sua base nas lendas criadas pelo mitómano Pierre Plantard e o seu amigo Phillipe de Chérisey. Uma "clique" de seguidores alargou o caudal de uma das mais extraordinárias farsas contemporâneas, que é a do Prieuré de Sion, essa pretensa "irmandade" com 900 anos de idade, feita para preservar a "verdadeira fé" no Divino Feminino (ou seja, Maria Madalena - Deus no feminino) e a "linhagem sagrada" dos descendentes (sic) de Jesus e Maria Madalena.

Que quer Dan Brown?
O mesmo que Pierre Plantard... Vingar-se da Igreja Católica vertendo o seu ódio anti-católico na escrita e propagação de mentiras de venda fácil. Aproveitar-se da ignorância generalizada das massas.

O que pode fazer o português que se veja com o romance de Dan Brown nas mãos? Tem três hipóteses:

1. Devolvê-lo à livraria onde o adquiriu ou processar a Bertrand (preferível, mas trabalhoso);
2. Usá-lo para papel higiénico (se a primeira falhar).
3. Lê-lo (boa sorte), e tentar informar-se das "fontes" de Dan Brown. Com algum esforço, tudo o que Dan Brown nos "revela" cai por terra com facilidade ao final de alguns dias de pesquisa.

Bernardo

P.S. Lista resumida dos autores que Brown pilhou:
Henry Lincoln, Michael Baigent, Richard Leigh, Lynn Pickett, Clive Prince, Margaret Starbird, entre tantos, tantos outros...
Contudo, a "propriedade intelectual" da farsa do Prieuré de Sion pertence ao já morto e enterrado Pierre Plantard.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Afinal vai ser a Bertrand...

Em Dezembro, eu perguntava qual seria a editora vampiresca que se iria atirar à publicação do romance-lixo de Dan Brown The Da Vinci Code...

O Independente, na passada quinta-feira, trouxe a resposta, num longo artigo sobre o livro e o seu autor.
Já temos um vencedor! É a Bertrand!
Parabéns à editora por um fantástico favor que faz à mediocridade e à pobreza intelectual. Após milhões de vendas no estrangeiro, finalmente chega a Portugal o best seller de Dan Brown!

O Código Da Vinci

É este o título da obra (?) que vamos encontrar à venda nas livrarias dentro de uma ou duas semanas.
Fica desde já aqui o aviso de que este romance pseudo-histórico, de histórico só tem a inspiração fantasiosa. Remeto os interessados, e aqueles que ficarem empolgados pelas afirmações e hipóteses lançadas por Dan Brown, para o trabalho sobre Rennes-le-Château que tenho publicado no site http://bmotta.planetaclix.pt.

Neste site encontra-se muito material informativo e muitas provas, que permitem detectar a fraude literária de Dan Brown, e deitar por terra as suas (que nem são só suas) fantasias. Aviso desde já de que o romance de Dan Brown é bem mais empolgante do que o meu site. Por isso, só recomendo uma visita a quem se empolgar mais com a verdade.

Bernardo

quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

A Time dá uma ajuda a Dan Brown

Na edição desta semana, a Time traz o seguinte artigo: "The Lost Gospels".
Fala-se no artigo da crescente popularidade dos "evangelhos proibidos", os apócrifos. O artigo discorre sobre a forma como o universo multimédia está cada vez mais a ressuscitar velhas heresias como o gnosticismo. E dá dois exemplos: a trilogia cinematográfica "Matrix" dos irmãos Wachowsky, e o inevitável best-seller instantâneo "The Da Vinci Code" de Dan Brown.

Contudo, como sempre, a Time dá os seus tí­picos "toques" de parcialidade. A certa altura, o artigo cita um excerto do Evangelho de Pedro, um dos apócrifos. Após a citação, vem este trecho:

«You probably haven't heard of [The Gospel of] Peter because by A.D. 350 church fathers had tarred it as heresy, along with dozens of other early Scriptures with names like the Gospel of Mary, the Acts of John, the Homilies of Clement, and the Gospel of Truth. Thus Peter and the others languished in ignominy, more or less forgotten.»

Não percebo qual é o problema que alguma mentalidade moderna tem com a questão das heresias e dos textos apócrifos.
Do mesmo modo que, no trabalho cientí­fico moderno, se rebatem teses absurdas, eliminando-as para subsistirem as mais válidas, também em Teologia se fez este importante trabalho de destrinçar a falsidade da verdade.
O facto de estes erros terem sido condenados há 1.700 anos, sem nunca mais terem sido readmitidos, deveria servir de comprovativo da estabilidade da doutrina.

O preconceito anti-clerical revolve frequentemente em torno da ideia de que a religião católica funciona com base no binómio "poder das autoridades" versus "massa de fiéis ignorantes e crédulos". Por isso, sucede que, de vez em quando, lá temos que suportar estas posturas pseudo-intelectuais de quem diz vir em socorro dos fiéis, enganados por uma Igreja tirana, falsa e déspota.

Não vou sequer debruçar-me sobre o tema da sexualidade de Jesus.
É bem sabido que alguns textos apócrifos mencionam, com margem para dúvidas, uma relação entre Jesus e Maria Madalena. Contudo, não foi tanto por isso que a Igreja Católica os rejeitou, mas sobretudo pelos seus erros teológicos.

Mais adiante no artigo, a Time "recupera" algumas posturas heréticas: a dos Ebionitas, a dos Marcionitas, e sobretudo a dos Gnósticos, que é a mais popular nos dias que correm.

Numa mensagem posterior, escreverei sobre estas heresias, para explicar sucintamente porque é que elas constituem graves erros teológicos, e porque é que os textos que as reflectiam não foram incluí­dos no cânone da Igreja.

Bernardo

terça-feira, 16 de dezembro de 2003

De novo à carga...

Depois de uma longa ausência, justificada pelos melhores motivos, regresso com uma referência a um artigo que surgiu na edição desta semana da revista "U.S News", intitulado "The Jesus Code - Americans may be unique in revising the Christ story to get back to the original human preacher".

É um artigo muito preocupante, mas que só espanta os mais distraídos.
Tudo gira à volta de um romance de Dan Brown, que se está a tornar rapidamente num best-seller, chamado "The Da Vinci Code". Para quem conhece os meandros do mistério de Rennes-le-Château, tudo isto não será novo. Durante largos anos dediquei-me, e ainda o faço, a este mistério. Por isso, livros como o de Dan Brown, francamente, têm um estilo que já me enjoa. Já não se pode mais com as teorias do "segredo que a Igreja ocultou", do Jesus que casou com Maria Madalena, do Jesus que teve filhos, enfim, com a típica lista interminável de hipóteses revisionistas, feitas para causar escândalo, provocar o êxodo em massa dos crentes que ainda restam, e para gerar lucros aos autores e editores.

Dan Brown é tudo menos inovador. Há duas décadas atrás, o trio Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh, autores do explosivo "The Holy Blood and the Holy Grail", avançava com exactamente as mesmas teorias, mas na forma de obra documental, o que é consideravelmente mais grave.
O livro de Dan Brown é um romance. Por isso, o autor pode escudar-se atrás do argumento de que a obra é ficcional.
O enredo, confesso que não o conheço com detalhe, gira à volta do tal segredo que a Igreja Católica ocultou. Na trama de Brown, a protecção e ocultação deste segredo está a cargo do Opus Dei. Como se lê no referido artigo, o "timing" é muito oportuno, numa altura em que os Estados Unidos estão a braços com os escândalos da Igreja Católica norte-americana. Mas não há qualquer base real na trama deste romance, o que o torna muito perigoso para os 4,3 milhões (número de cópias a colocar à venda) de potenciais compradores pelo mundo fora.
Insinua-se gratuitamente que a Igreja Católica é um covil de farsários, que se dedicam há 2 milénios a uma profunda e sofisticada fraude sobre a pessoa de Jesus. Ainda bem que surgiu o cérebro evoluido do senhor Dan Brown para, finalmente, depois de 2 mil anos de enganos e ilusões, ser detectada esta grande fraude.

Bem sei que estamos a falar de um romance, mas este deveria ganhar um prémio de subtileza. As hipóteses usadas por Brown na sua trama são tão subtis como um elefante numa loja de cristais.

Ao longo dos próximos dias regressarei a este tema, visto que considero o livro de Dan Brown tão perigoso que nunca será demais falar sobre o assunto. Até porque este best-seller será eventualmente publicado em português dentro de pouco tempo.

Para terminar, um aviso: o já velhinho livro de Baigent, Leigh e Lincoln foi recentemente reeditado em português. É uma obra a evitar, a não ser pelos interessados no pitoresco universo alucinado criado pelos seus autores. Trata-se de uma obra cujos danos intelectuais demorarão décadas a recuperar. O recente livro de Dan Brown piora, obviamente, ainda mais esta triste situação.

Concordo com o U.S. News, "americans are unique". Então em matéria de religião...

Bernardo