Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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terça-feira, 10 de novembro de 2015
Deus existe?
O vídeo da minha conferência "Deus existe?", feita na passada Quinta-feira, 5 de Novembro de 2015.
Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
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segunda-feira, 17 de agosto de 2015
In memoriam - Stanley Jaki (1924-2009)
Hoje faria 91 anos Stanley Jaki (1924-2009), Padre beneditino e Professor de Física na Universidade de Seton Hall, em New Jersey. Duplamente doutorado em Teologia (Instituto Pontifício de Santo Anselmo, em Roma, 1950) e em Física (Fordham, 1958), o Padre Jaki deixou uma vasta e indispensável obra em História da Ciência e Filosofia da Ciência.
O seu primeiro livro em inglês, “The Relevance of Physics” (1966, University of Chicago Press), continua a ser hoje um insuperado “tour de force” de História da Ciência. Nesse livro, que contém uma impressionante recolha de citações pouco conhecidas dos principais cientistas da História, o leitor fica esmagado pela profundidade da pesquisa histórica feita pelo Padre Jaki, e pelo seu domínio interpretativo dos acontecimentos.
O Padre Jaki veio a Portugal algumas vezes, quer para investigar os acontecimentos de Fátima, com vista à publicação da sua obra de referência sobre o milagre do Sol (“God and the Sun at Fatima”, 1999), quer para fazer três conferências em 2001. Nessa altura, eu nunca tinha ouvido falar dele. Lamento não o ter conhecido pessoalmente. Comecei a ler vorazmente os seus livros quando ele já estava no fim da sua vida terrena. Devo-lhe imenso. Sei que vou usar os livros dele para aprender até morrer. A sua escrita é densa. Não porque Jaki utilize palavras eruditas naquela típica atitude de arrogância intelectual. Nada que se pareça. Mas porque condensa muita informação em poucas palavras, o que obriga a uma leitura muito atenta. Todo o tempo investido na obra de Jaki traz retorno, e multiplicado.
Aqui fica um exemplo: o artigo “The Physicist and the Metaphysician”, no qual o Padre Jaki comenta o diálogo pouco conhecido entre o físico Pierre Duhem (1861-1916) e o metafísico Réginald Garrigou-Lagrange (1877-1964).
(Duhem foi o historiador de Ciência cuja obra-prima “Le Système du Monde - Histoire des doctrines cosmologiques de Platon à Copernic” - dez volumes editados entre 1913-1959 - desenterrou o edifício da ciência medieval, mostrando as raízes medievais da Ciência moderna com base em documentação de primeira mão, arrancada arduamente do esquecimento com o trabalho de uma vida inteira. Esta sua incómoda obra, fatal para a “tese do conflito” entre a Igreja Católica e a Ciência, só estaria finalmente editada na sua totalidade em 1959, 43 anos depois da sua morte, graças ao esforço incansável da sua filha Helène. O dominicano Garrigou-Lagrange, por seu lado, é um colosso do tomismo do século XX: um dos melhores expositores e defensores da filosofia e da teologia de São Tomás de Aquino.)
Jaki analisa a correspondência entre Duhem e Garrigou-Lagrange acerca do tema do movimento inercial. Duhem explica o ponto de vista físico. Garrigou-Lagrange explica o ponto de vista metafísico. Essa correspondência mostra o valor do diálogo humilde entre dois especialistas.
Eis a conclusão do artigo do Padre Jaki:
Eis a conclusão do artigo do Padre Jaki:
“For physics after all deals with reality. Its different aspects can be separated in a conceptual way but they remain inseparable from one another in their actual existence. Things as far as they exist certainly witness to their being and becoming which are not quantitative notions as such. But any physical being and becoming is known through sensory perception which is never without quantitative contents. There is no purely ontological realm as far as material things are concerned, nor can their quantitative features be consistently spoken of as if they were not embedded in a broader and more fundamental kind of reality, the reality of being and becoming.
Therein lies the source of the perplexity or uneasiness of Garrigou-Lagrange, the metaphysician. He did not display sufficient awareness of a fundamental problem as he dealt with the question posed by the principle of inertia for the proof of the existence of God from motion. This is the perennial problem of the one versus the many, in the sense that one and the same thing or process has multiple aspects that are conceptually irreducible to one another.
Distinguishing them we can, but separate them we cannot. Unite them we must, for knowledge is a quest for unitary understanding. Yet that quest is always fraught with the risk that fusion becomes confusion. That there is no escape from this predicament is probably the deepest lesson to be drawn from the exchange of ideas between a great physicist and a great metaphysician on a basic question of physics which is also a basic question for metaphysics.”O movimento inercial é uma só realidade, como explica o Padre Jaki. Mas que, para ser compreendida, tem que ser analisada com competência sob os distintos aspectos da física e da metafísica. Isto implica, naturalmente, que o movimento não tem apenas um aspecto físico (quantitativo, científico), mas também um aspecto metafísico, relacionado com o "ser" (o que o corpo em movimento inercial é em cada instante) e com o "devir" (as sucessivas mudanças de posição no corpo que se move com movimento inercial). Só assim se recupera uma compreensão una do mesmo fenómeno real.
Fonte: Stanley Jaki, “The Physicist and the Metaphysician”, em: http://www.u.arizona.edu/~aversa/scholastic/The%20Physicist%20and%20the%20Metaphysician%20(Jaki).pdf
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Debate "Deus (não) existe?"
O debate da passada Quinta-feira, 21 de Novembro, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, colocou-me frente a frente com o Ricardo Silvestre. Eu defendi a existência de Deus usando argumentação científico-filosófica, enquanto que o Ricardo procurou defender a inexistência de Deus. Os meus "slides" podem ser encontrados aqui.
(este ficheiro PDF contém mais "slides" do que os que eu usei: na minha primeira parte, usei todos os "slides" até ao 19, mas saltei o slide 12; os restantes "slides" eram de reserva, e só mostrei alguns deles na minha segunda parte, quando foi necessário)
Na minha primeira intervenção, apresentei dois argumentos filosófico-científicos a favor da existência de Deus:
A1: Argumento Cosmológico (versão de Leibniz):
Demonstrei existir uma entidade:
A2: Argumento Teleológico (versão de Robin Collins):
Em resposta a esta objecção, regressei ao esquema do "slide" 8 e expliquei que, mesmo que existam várias coisas encadeadas entre o Universo e uma primeira coisa, uma primeira coisa tem que existir, e tem que ter em si mesma a explicação para a sua existência, ou seja, tem mesmo que ser uma "primeira" coisa, e não podemos ter uma regressão infinita de explicações / causas.
Aviso: o argumento de Leibniz também se aplica caso o Universo fosse eterno: as explicações para a existência do Universo fazem sempre falta, mesmo que o Universo seja eterno, porque se o Universo podia ser diferente do que é, então não tem existência obrigatória (não tem em si mesmo a sua razão de existir) e por isso requer uma explicação distinta dele mesmo. Por isso, quando digo "primeira coisa", falo em "primeira explicação", uma explicação fundamental que não requer mais explicações.
Vamos ver porquê, supondo que o Ricardo tinha razão. Vamos supor que há uma cadeia infinita de explicações das explicações das explicações, e assim por diante, cadeia essa que numa das direcções termina no Universo, mas que na outra direcção não tem fim: regride infinitamente. Se assim fosse, aplicaríamos o PRS a essa cadeia infinita para perguntar: porque é que existe esta cadeia infinita, em vez de nada? Porque é que esta cadeia infinita existe, e porque é que ela é como é? Como o Universo faz parte dessa cadeia, e o Universo podia ser diferente do que é, então a cadeia como um todo, mesmo sendo infinita, poderia ser diferente do que é. Então, a cadeia infinita não teria em si mesma a sua própria explicação para existir. Então, como vemos, a cadeia infinita necessitaria de uma explicação distinta dela mesma. Logo, caímos sempre na necessidade de uma primeira explicação, na necessidade de existir uma primeira coisa que tem em si mesma a sua razão de existir.
Sugerir uma cadeia infinita de explicações, como fez o Ricardo, é tentar fugir do PRS, para acabar por ter que voltar a recorrer ao PRS para confirmar que é forçoso existir uma "primeira coisa" de existência obrigatória. Uma primeira coisa distinta do Universo, que existe por si própria, que tem existência obrigatória, e que é imaterial, porque tudo o que é feito de matéria ou energia podia ser diferente do que é.
Uma das principais (e importantes) críticas que me fizeram, no rescaldo do debate, foi a de eu ter deixado sem resposta uma série de questões levantadas pelo Ricardo durante o debate. Na verdade, na fase de perguntas e respostas, pude interagir com algumas delas e refutá-las. Mas é verdade que várias questões do Ricardo ficaram sem resposta da minha parte. Na minha segunda intervenção da noite, optei por aprofundar a defesa dos dois argumentos que tinha levado, respondendo às objecções que o Ricardo levantou de forma pertinente contra esses argumentos. Poderia ter usado a minha segunda intervenção para responder às questões do Ricardo, mas optei por me manter no tema da noite: os melhores argumentos a favor da (ou contra a) existência de Deus.
Respostas às questões e objecções do Ricardo
Aproveito agora para deixar respostas resumidas e breves às questões e objecções importantes levantadas pelo Ricardo durante o debate, para as quais não dei resposta na altura, ou então respondi de forma incompleta por falta de tempo. Como se pode ver abaixo, a grande variedade de questões que o Ricardo levantou durante as suas comunicações mostra bem que, caso eu tivesse optado por responder ponto por ponto, o debate teria claramente descarrilado para fora do tema central.
(este ficheiro PDF contém mais "slides" do que os que eu usei: na minha primeira parte, usei todos os "slides" até ao 19, mas saltei o slide 12; os restantes "slides" eram de reserva, e só mostrei alguns deles na minha segunda parte, quando foi necessário)
Na minha primeira intervenção, apresentei dois argumentos filosófico-científicos a favor da existência de Deus:
A1: Argumento Cosmológico (versão de Leibniz):
Demonstrei existir uma entidade:
- Que tem em si mesma a sua razão de existir
- Que não poderia não existir, e portanto é eterna (ou pelo menos perpétua)
- Que é imaterial: não é feita de massa / energia
A2: Argumento Teleológico (versão de Robin Collins):
- Apresentei diversos exemplos de que o nosso Universo está afinado para existir vida, e em alguns casos, está afinado para haver Química elementar (uma tabela de elementos suficientemente variada) e afinado para termos estabilidade atómica, essencial para toda a Química (e portanto, para a existência de qualquer forma de vida conhecida ou desconhecida):
- Que as leis da Natureza estão afinadas
- Que as constantes que figuram nas equações das leis da Natureza estão afinadas
- Que as condições iniciais do nosso Universo estavam afinadas
- Mostrei que a afinação do Universo é muitíssimo mais expectável dado o teísmo do que dado o ateísmo, e por isso, perante essa afinação, a atitude racional é acreditar que Deus existe
- Expliquei que este argumento A2 aponta para a inteligência da entidade que o argumento A1 demonstrou existir, pela razão de que o nosso Universo está minuciosamente estruturado e afinado de forma inteligente
Perante estes argumentos, o Ricardo tinha que fazer duas coisas:
- Refutar os argumentos que apresentei em defesa da existência de Deus
- Apresentar argumentos seus em defesa da inexistência de Deus
Na sua primeira intervenção, o Ricardo colocou as seguintes objecções aos meus argumentos:
A1: Argumento Cosmológico de Leibniz: o Ricardo criticou a necessidade de terminar a regressão infinita de explicações / causas, alegando que era arbitrário fazer parar a regressão num primeiro ente, ou seja, numa "causa primeira".
A2: Argumento Teleológico: o Ricardo sugeriu o multiverso como a melhor explicação para a afinação do nosso Universo.
Na minha segunda intervenção, respondi da seguinte forma às objecções do Ricardo:
A1: Argumento Cosmológico de Leibniz:
Este argumento parte de duas premissas:
- Que é válido o Princípio da Razão Suficiente (PRS), que diz que toda a coisa C existente é explicada:
- ou por algo já existente, e que explica a coisa C
- ou pela própria coisa C, caso essa coisa C tenha em si mesma a sua razão de existir (C teria existência obrigatória)
- Que o nosso Universo existe
Em resposta a esta objecção, regressei ao esquema do "slide" 8 e expliquei que, mesmo que existam várias coisas encadeadas entre o Universo e uma primeira coisa, uma primeira coisa tem que existir, e tem que ter em si mesma a explicação para a sua existência, ou seja, tem mesmo que ser uma "primeira" coisa, e não podemos ter uma regressão infinita de explicações / causas.
Aviso: o argumento de Leibniz também se aplica caso o Universo fosse eterno: as explicações para a existência do Universo fazem sempre falta, mesmo que o Universo seja eterno, porque se o Universo podia ser diferente do que é, então não tem existência obrigatória (não tem em si mesmo a sua razão de existir) e por isso requer uma explicação distinta dele mesmo. Por isso, quando digo "primeira coisa", falo em "primeira explicação", uma explicação fundamental que não requer mais explicações.
Vamos ver porquê, supondo que o Ricardo tinha razão. Vamos supor que há uma cadeia infinita de explicações das explicações das explicações, e assim por diante, cadeia essa que numa das direcções termina no Universo, mas que na outra direcção não tem fim: regride infinitamente. Se assim fosse, aplicaríamos o PRS a essa cadeia infinita para perguntar: porque é que existe esta cadeia infinita, em vez de nada? Porque é que esta cadeia infinita existe, e porque é que ela é como é? Como o Universo faz parte dessa cadeia, e o Universo podia ser diferente do que é, então a cadeia como um todo, mesmo sendo infinita, poderia ser diferente do que é. Então, a cadeia infinita não teria em si mesma a sua própria explicação para existir. Então, como vemos, a cadeia infinita necessitaria de uma explicação distinta dela mesma. Logo, caímos sempre na necessidade de uma primeira explicação, na necessidade de existir uma primeira coisa que tem em si mesma a sua razão de existir.
Sugerir uma cadeia infinita de explicações, como fez o Ricardo, é tentar fugir do PRS, para acabar por ter que voltar a recorrer ao PRS para confirmar que é forçoso existir uma "primeira coisa" de existência obrigatória. Uma primeira coisa distinta do Universo, que existe por si própria, que tem existência obrigatória, e que é imaterial, porque tudo o que é feito de matéria ou energia podia ser diferente do que é.
A2: Argumento Teleológico: o Ricardo sugeriu o multiverso como a melhor explicação para a afinação do nosso Universo. Contra esta resposta, argumentei:
- Que o multiverso é ainda especulação sem suporte experimental
- Que o multiverso não resolve a afinação das leis da natureza: apenas "transporta" o problema da afinação do nosso Universo para o patamar mais fundamental do multiverso
- Que um eventual multiverso no qual são gerados os inúmeros universos teria que ser muito especial e afinado para produzir universos afinados para a existência de vida
Em suma:
- O Ricardo não conseguiu refutar os meus argumentos, pelo que eles permaneceram válidos durante todo o debate e até ao final da noite
- O Ricardo fez uma série de críticas à ideia de existir Deus, sobretudo à ideia de existir um Deus Bom, levantou várias questões, e eu apenas respondi a algumas delas
Respostas às questões e objecções do Ricardo
Aproveito agora para deixar respostas resumidas e breves às questões e objecções importantes levantadas pelo Ricardo durante o debate, para as quais não dei resposta na altura, ou então respondi de forma incompleta por falta de tempo. Como se pode ver abaixo, a grande variedade de questões que o Ricardo levantou durante as suas comunicações mostra bem que, caso eu tivesse optado por responder ponto por ponto, o debate teria claramente descarrilado para fora do tema central.
- Há provas científicas de que Deus existe?
- O conhecimento científico de São Tomás de Aquino está ultrapassado.
- Porque não uma regressão infinita de explicações ou causas?
- Porque não uma regressão circular de explicações ou causas?
- Porque é que o multiverso não explica as evidências de afinação do nosso Universo?
- Porque é que o Universo é tão grande? Para quê?
- Porque é que há mal no Universo? Imperfeições? Doenças? Desastres naturais?
- Poderá Deus ser Bom? Paradoxo de Epicuro.
- Todas as alegações de milagres têm sido cientificamente refutadas.
- O livre-arbítrio é uma ilusão.
- A Igreja Católica limita a investigação científica com os seus dogmas morais.
- A alma é uma ficção.
- Uma pessoa de outra religião que teve o azar de não nascer na religião "certa" não se vai salvar?
- Se a mensagem do cristianismo é assim tão importante, porque é que Deus a não a torna mais óbvia? Porque é que Deus não se torna mais óbvio?
- Onde está a "assinatura" de Deus?
- Porque é que Deus deixou o Universo ao acaso?
sábado, 26 de maio de 2012
Alvin Plantinga - Ciência e religião teísta
Alvin Plantinga é um dos mais competentes filósofos analíticos da actualidade. E é a principal figura por detrás do regresso da filosofia cristã às universidades anglo-saxónicas (na Europa continuamos atolados, em boa parte, num pós-modernismo decadente). Mas ele é bem mais do que isso: é uma pessoa impecável, um excelente comunicador. Nesta palestra, Plantinga apresenta o seu mais recente livro sobre a relação entre ciência e religião: "Science and religion - where the conflict really lies". Nesse livro, Plantinga não defende apenas que o conflito entre cristianismo e ciência é ilusório ou superficial: ele defende que o conflito está entre ateísmo (o naturalismo materialista) e ciência. Nesta palestra, Plantinga apresenta o seu principal argumento: quando conjugadas, as teses do ateísmo materialista e do evolucionismo destroem a nossa confiança nas nossas capacidades cognitivas. Se tudo o que existe é matéria e se o evolucionismo é um processo não guiado, então as nossas faculdades cognitivas não são minimamente fiáveis. E por isso, a eventual crença de um ateísmo evolucionista e materialista auto-refuta-se. Vale a pena ver o vídeo várias vezes, com a calma e o tempo que ele merece.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
O ocaso do ateísmo filosófico
É uma ideia comummente aceite pela opinião pública: os ateus lideram no mundo académico. Alguns ateus, mais atrevidos, dão um salto em frente, e auto-intitulam-se "brights". A ideia aqui é simples: o ateu é o tipo inteligente. O crente é burro.
Vamos analisar um pouco essa ideia, não só porque ela é completamente falsa, mas porque quem a defende demonstra não conhecer nada da realidade actual do mundo académico.
A tal ideia-fantoche costuma basear-se nesta afirmação generalista: "a maioria dos cientistas não concorda com a tese da existência de Deus". Qual é o problema com esta ideia? É que a defesa da existência, ou inexistência, de Deus é uma questão que só pode ser abordada em duas áreas do saber humano: Filosofia ou Teologia. A Ciência é neutra em relação a teses metafísicas. Estão fora do seu alcance epistemológico.
Dada a altíssima compartimentação do saber humano actual, é discutível que um excelente cientista seja, automaticamente, um excelente (ou sequer bom) filósofo ou teólogo. Então, usar a expressão "a maioria dos cientistas não concorda com a tese na existência de Deus" como suposto argumento pró-ateísmo é uma treta. Equivale a afirmar algo como "a maioria dos juristas não concorda com o modelo cosmológico standard". Até poderia ser verdade: e daí?
Assim, o que há a fazer, se formos sérios, é analisar o "status quo" no mundo académico que trata da questão da existência de Deus como área de trabalho intelectual. Então, há que avaliar o "status quo" nos domínios específicos da Filosofia e da Teologia, pois as pessoas nesses ramos do saber é que estão profissionalmente preparadas para apresentar o estado-da-arte acerca da questão da existência de Deus.
Já quase que ouvimos a próxima crítica: os teólogos são parciais. Então fiquemos só pelos filósofos.
Quase um século depois da proposta do Círculo de Viena, o sonho do empiricismo lógico está morto e enterrado. No entanto, muita gente ainda julga, hoje em dia, que a Filosofia obliterou a discussão filosófica da existência de Deus, considerando que a tese da existência de Deus não tem sentido. Isto sucede, sobretudo, com alguns cientistas, ou entusiastas da Ciência, que sofrendo de uma distorção profissional (por ignorarem outras áreas do saber como a Filosofia), acham que uma tese só é racional (digna de ser provada ou refutada) se couber dentro do âmbito do método científico. Confundem "racional" com "cientificamente demonstrável".
O mundo mudou. Os grandes empiricistas lógicos estão mortos e enterrados. Infelizmente para o ateísta convicto, o mundo académico da Filosofia está em revolução há pelo menos quarenta anos, com um número cada vez maior de filósofos a abraçar o teísmo e a defender filosoficamente o teísmo. Num artigo para a revista Philo, o filósofo ateu Quentin Smith (Western Michigan University) afirmou-o categoricamente num artigo intitulado The Metaphilosophy of Naturalism. Smith começa por sublinhar o papel único da obra filosófica de Alvin Plantinga nos anos 60 e 70:
«The secularization of mainstream academia began to quickly unravel upon the publication of Plantinga’s influential book on realist theism, God and Other Minds, in 1967. It became apparent to the philosophical profession that this book displayed that realist theists were not outmatched by naturalists in terms of the most valued standards of analytic philosophy: conceptual precision, rigor of argumentation, technical erudition, and an in-depth defense of an original world-view. This book, followed seven years later by Plantinga’s even more impressive book, The Nature of Necessity, made it manifest that a realist theist was writing at the highest qualitative level of analytic philosophy, on the same playing field as Carnap, Russell, Moore, Grünbaum, and other naturalists.»
Smith descreve deste modo a viragem, no campo da Filosofia, que se verificou no que diz respeito ao teísmo (para os mais distraídos, sim, Quentin Smith é um filósofo ateu):
«But in philosophy, it became, almost overnight, “academically respectable” to argue for theism, making philosophy a favored field of entry for the most intelligent and talented theists entering academia today. A count would show that in Oxford University Press’ 2000–2001 catalogue, there are 96 recently published books on the philosophy of religion (94 advancing theism and 2 presenting “both sides”). By contrast, there are 28 books in this catalogue on the philosophy of language, 23 on epistemology (including religious epistemology, such as Plantinga’s Warranted Christian Belief), 14 on metaphysics, 61 books on the philosophy of mind, and 51 books on the philosophy of science.»
Smith afirma cabalmente: "God is not “dead” in academia; he returned to life in the late 1960s and is now alive and well in his last academic stronghold, philosophy departments". No entanto, não é esta a ideia que a opinião pública tem acerca do teísmo. A visão neo-ateísta pretende o inverso: se alguém é inteligente, acabará por se tornar ateu. A racionalidade estaria do lado do ateísmo. A sofisticação intelectual seria apanágio do ateu. A inteligência sofisticada e a posse de vastas quantidades de conhecimento seriam a marca do ateu. E finalmente, a visão neo-ateísta pretende inculcar este preconceito na cabeça das pessoas: a Universidade tornou-se ateia. Ora, no campo da Filosofia, nada poderia ser mais falso.
Smith queixa-se precisamente do oposto: do estado em que as coisas caíram, do ponto de vista do ateísmo filosófico. Segundo Smith, o lado do "adversário" está claramente a ganhar terreno:
«Due to the typical attitude of the contemporary naturalist (...) the vast majority of naturalist philosophers have come to hold (since the late 1960s) an unjustified belief in naturalism. Their justifications have been defeated by arguments developed by theistic philosophers, and now naturalist philosophers, for the most part, live in darkness about the justification for naturalism. They may have a true belief in naturalism, but they have no knowledge that naturalism is true since they do not have an undefeated justification for their belief. If naturalism is true, then their belief in naturalism is accidentally true. This philosophical failure (ignoring theism and thereby allowing themselves to become unjustified naturalists) has led to a cultural failure since theists, witnessing this failure, have increasingly become motivated to assume or argue for supernaturalism in their academic work, to an extent that academia has now lost its mainstream secularization.» (negrito meu)
A parte a negrito pareceu-me especialmente certeira. A marca do neo-ateísmo é, afinal de contas, o inverso do que nos contam. Segundo Smith, que insisto ser um filósofo ateu, a vasta maioria dos filósofos naturalistas não têm justificação (filosófica) para o seu naturalismo. Nesse cenário, o filósofo teísta ganha terreno. O que está, realmente, a suceder.
Será que estamos a assistir ao ocaso do ateísmo filosófico? Seria demasiado optimista. Certamente que estamos a assistir a um claro recuo do ateísmo filosófico perante o teísmo filosófico e a razão é simples: a ineficácia argumentativa do actual ateísmo filosófico perante a força argumentativa do actual teísmo filosófico.
Quem me lê pode estar espantado, pois os "media" retratam, um pouco por todo o lado, o aparente triunfalismo de neo-ateístas como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris ou Christopher Hitchens. Mas mesmo essa lista é enganadora: apenas Dennett é filósofo profissional! Dawkins é biólogo, Hitchens é jornalista e crítico literário. Harris tem uma licenciatura em Filosofia, mas a sua área de especialidade é a das neurociências, onde se doutorou. Harris nem sequer é muito coerente, ao procurar incorporar no seu ateísmo as espiritualidades orientais.
Mas estes famosos "quatro cavaleiros do apocalipse" ateísta, apesar do incrível número de obras que conseguiram vender, não representam, de forma alguma, o estado-da-arte em matéria de Filosofia. Pelo contrário: as suas obras não são académicas, são obras populares, escritas muitas vezes em tom inflamatório, mal argumentadas, e sobretudo, são obras que não lidam, nem sequer de perto, com o estado-da-arte das teses filosóficas teístas.
Têm-nos estado a vender a banha-da-cobra. Quentin Smith lançou o aviso. O problema existe: o ateísmo filosófico contemporâneo tem pés de barro. Há duas atitudes: ou a fuga para a frente, pretendendo (como Hawking e Mlodinow) que a Filosofia está morta (ou seja, ignorando o que dizem os filosófos, sejam eles ateus, agnósticos ou teístas), ou então pegando no problema: estudando os melhores argumentos teístas e procurando refutá-los, e em paralelo, montando bons argumentos ateístas que possam resistir a refutações teístas.
PS: Veja-se, a propósito, William Lane Craig a dizer precisamente o mesmo que Quentin Smith:
Vamos analisar um pouco essa ideia, não só porque ela é completamente falsa, mas porque quem a defende demonstra não conhecer nada da realidade actual do mundo académico.
A tal ideia-fantoche costuma basear-se nesta afirmação generalista: "a maioria dos cientistas não concorda com a tese da existência de Deus". Qual é o problema com esta ideia? É que a defesa da existência, ou inexistência, de Deus é uma questão que só pode ser abordada em duas áreas do saber humano: Filosofia ou Teologia. A Ciência é neutra em relação a teses metafísicas. Estão fora do seu alcance epistemológico.
Dada a altíssima compartimentação do saber humano actual, é discutível que um excelente cientista seja, automaticamente, um excelente (ou sequer bom) filósofo ou teólogo. Então, usar a expressão "a maioria dos cientistas não concorda com a tese na existência de Deus" como suposto argumento pró-ateísmo é uma treta. Equivale a afirmar algo como "a maioria dos juristas não concorda com o modelo cosmológico standard". Até poderia ser verdade: e daí?
Assim, o que há a fazer, se formos sérios, é analisar o "status quo" no mundo académico que trata da questão da existência de Deus como área de trabalho intelectual. Então, há que avaliar o "status quo" nos domínios específicos da Filosofia e da Teologia, pois as pessoas nesses ramos do saber é que estão profissionalmente preparadas para apresentar o estado-da-arte acerca da questão da existência de Deus.
Já quase que ouvimos a próxima crítica: os teólogos são parciais. Então fiquemos só pelos filósofos.
Quase um século depois da proposta do Círculo de Viena, o sonho do empiricismo lógico está morto e enterrado. No entanto, muita gente ainda julga, hoje em dia, que a Filosofia obliterou a discussão filosófica da existência de Deus, considerando que a tese da existência de Deus não tem sentido. Isto sucede, sobretudo, com alguns cientistas, ou entusiastas da Ciência, que sofrendo de uma distorção profissional (por ignorarem outras áreas do saber como a Filosofia), acham que uma tese só é racional (digna de ser provada ou refutada) se couber dentro do âmbito do método científico. Confundem "racional" com "cientificamente demonstrável".
O mundo mudou. Os grandes empiricistas lógicos estão mortos e enterrados. Infelizmente para o ateísta convicto, o mundo académico da Filosofia está em revolução há pelo menos quarenta anos, com um número cada vez maior de filósofos a abraçar o teísmo e a defender filosoficamente o teísmo. Num artigo para a revista Philo, o filósofo ateu Quentin Smith (Western Michigan University) afirmou-o categoricamente num artigo intitulado The Metaphilosophy of Naturalism. Smith começa por sublinhar o papel único da obra filosófica de Alvin Plantinga nos anos 60 e 70:
«The secularization of mainstream academia began to quickly unravel upon the publication of Plantinga’s influential book on realist theism, God and Other Minds, in 1967. It became apparent to the philosophical profession that this book displayed that realist theists were not outmatched by naturalists in terms of the most valued standards of analytic philosophy: conceptual precision, rigor of argumentation, technical erudition, and an in-depth defense of an original world-view. This book, followed seven years later by Plantinga’s even more impressive book, The Nature of Necessity, made it manifest that a realist theist was writing at the highest qualitative level of analytic philosophy, on the same playing field as Carnap, Russell, Moore, Grünbaum, and other naturalists.»
Smith descreve deste modo a viragem, no campo da Filosofia, que se verificou no que diz respeito ao teísmo (para os mais distraídos, sim, Quentin Smith é um filósofo ateu):
«But in philosophy, it became, almost overnight, “academically respectable” to argue for theism, making philosophy a favored field of entry for the most intelligent and talented theists entering academia today. A count would show that in Oxford University Press’ 2000–2001 catalogue, there are 96 recently published books on the philosophy of religion (94 advancing theism and 2 presenting “both sides”). By contrast, there are 28 books in this catalogue on the philosophy of language, 23 on epistemology (including religious epistemology, such as Plantinga’s Warranted Christian Belief), 14 on metaphysics, 61 books on the philosophy of mind, and 51 books on the philosophy of science.»
Smith afirma cabalmente: "God is not “dead” in academia; he returned to life in the late 1960s and is now alive and well in his last academic stronghold, philosophy departments". No entanto, não é esta a ideia que a opinião pública tem acerca do teísmo. A visão neo-ateísta pretende o inverso: se alguém é inteligente, acabará por se tornar ateu. A racionalidade estaria do lado do ateísmo. A sofisticação intelectual seria apanágio do ateu. A inteligência sofisticada e a posse de vastas quantidades de conhecimento seriam a marca do ateu. E finalmente, a visão neo-ateísta pretende inculcar este preconceito na cabeça das pessoas: a Universidade tornou-se ateia. Ora, no campo da Filosofia, nada poderia ser mais falso.
Smith queixa-se precisamente do oposto: do estado em que as coisas caíram, do ponto de vista do ateísmo filosófico. Segundo Smith, o lado do "adversário" está claramente a ganhar terreno:
«Due to the typical attitude of the contemporary naturalist (...) the vast majority of naturalist philosophers have come to hold (since the late 1960s) an unjustified belief in naturalism. Their justifications have been defeated by arguments developed by theistic philosophers, and now naturalist philosophers, for the most part, live in darkness about the justification for naturalism. They may have a true belief in naturalism, but they have no knowledge that naturalism is true since they do not have an undefeated justification for their belief. If naturalism is true, then their belief in naturalism is accidentally true. This philosophical failure (ignoring theism and thereby allowing themselves to become unjustified naturalists) has led to a cultural failure since theists, witnessing this failure, have increasingly become motivated to assume or argue for supernaturalism in their academic work, to an extent that academia has now lost its mainstream secularization.» (negrito meu)
A parte a negrito pareceu-me especialmente certeira. A marca do neo-ateísmo é, afinal de contas, o inverso do que nos contam. Segundo Smith, que insisto ser um filósofo ateu, a vasta maioria dos filósofos naturalistas não têm justificação (filosófica) para o seu naturalismo. Nesse cenário, o filósofo teísta ganha terreno. O que está, realmente, a suceder.
Será que estamos a assistir ao ocaso do ateísmo filosófico? Seria demasiado optimista. Certamente que estamos a assistir a um claro recuo do ateísmo filosófico perante o teísmo filosófico e a razão é simples: a ineficácia argumentativa do actual ateísmo filosófico perante a força argumentativa do actual teísmo filosófico.
Quem me lê pode estar espantado, pois os "media" retratam, um pouco por todo o lado, o aparente triunfalismo de neo-ateístas como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris ou Christopher Hitchens. Mas mesmo essa lista é enganadora: apenas Dennett é filósofo profissional! Dawkins é biólogo, Hitchens é jornalista e crítico literário. Harris tem uma licenciatura em Filosofia, mas a sua área de especialidade é a das neurociências, onde se doutorou. Harris nem sequer é muito coerente, ao procurar incorporar no seu ateísmo as espiritualidades orientais.
Mas estes famosos "quatro cavaleiros do apocalipse" ateísta, apesar do incrível número de obras que conseguiram vender, não representam, de forma alguma, o estado-da-arte em matéria de Filosofia. Pelo contrário: as suas obras não são académicas, são obras populares, escritas muitas vezes em tom inflamatório, mal argumentadas, e sobretudo, são obras que não lidam, nem sequer de perto, com o estado-da-arte das teses filosóficas teístas.
Têm-nos estado a vender a banha-da-cobra. Quentin Smith lançou o aviso. O problema existe: o ateísmo filosófico contemporâneo tem pés de barro. Há duas atitudes: ou a fuga para a frente, pretendendo (como Hawking e Mlodinow) que a Filosofia está morta (ou seja, ignorando o que dizem os filosófos, sejam eles ateus, agnósticos ou teístas), ou então pegando no problema: estudando os melhores argumentos teístas e procurando refutá-los, e em paralelo, montando bons argumentos ateístas que possam resistir a refutações teístas.
PS: Veja-se, a propósito, William Lane Craig a dizer precisamente o mesmo que Quentin Smith:
sábado, 7 de agosto de 2010
Fideísmo e o Argumento Cosmológico
É frequente que os cristãos sejam acusados de serem fideístas, ou seja, de manterem a crença numa determinada ideia com base em argumentos exclusivos de autoridade, sem recurso à razão para análise intelectual dessa ideia.
Isto é espantoso, visto que a Igreja condenou várias vezes o fideísmo como heresia.
Mais especificamente, o Concílio Vaticano I afirmou de forma clara:
«O Deus verdadeiro e uno e Senhor pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, através das coisas que foram feitas [através da Criação]» (Constituição Dogmática De Fide Catholica, Sessão III, cân. i, De Revelatione)
Hoje em dia, podemos actualizar este ensinamento à luz dos actuais conhecimentos científicos, apresentando um argumento racional para a existência de Deus, como o famoso Argumento Cosmológico:
Isto é espantoso, visto que a Igreja condenou várias vezes o fideísmo como heresia.
Mais especificamente, o Concílio Vaticano I afirmou de forma clara:
«O Deus verdadeiro e uno e Senhor pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, através das coisas que foram feitas [através da Criação]» (Constituição Dogmática De Fide Catholica, Sessão III, cân. i, De Revelatione)
Hoje em dia, podemos actualizar este ensinamento à luz dos actuais conhecimentos científicos, apresentando um argumento racional para a existência de Deus, como o famoso Argumento Cosmológico:
Existência de Deus: o Argumento Cosmológico
1. Tudo o que começa a existir tem uma causa
o Se coisas inexistentes surgissem sem uma causa, porque razão existiriam algumas coisas e não outras? Porque não existiria TUDO? (infinitos Universos: tese filosófica inacessível à Ciência);
o Se coisas inexistentes surgissem sem uma causa, isso contrariaria TODA a nossa experiência enquanto seres humanos;
2. O Universo começou a existir
o Segundo o actual modelo cosmológico de expansão do Universo, a recta do tempo não se prolonga infinitamente para o passado (13,7 mil milhões de anos);
o Mesmo assim, o Universo poderia ser eterno e ser contingente (São Tomás de Aquino, que deduzia o início temporal do Universo do livro do Génesis, e não da filosofia);
o Mas o ateu não quer aceitar um Universo contingente (que implica uma causa necessária e transcendente): o ateu defende um Universo necessário: mas um Universo necessário é uma tontice: nesse caso, não poderia ter havido qualquer variação, mesmo microscópica, das variáveis fundamentais do Universo;
3. Logo, o Universo tem uma causa (externa ao Universo e que causa a sua existência).
É, também, da argumentação racional anterior que podemos derivar as seguintes propriedades de Deus:
Propriedades de Deus (causa da existência do Universo)
5. Omnipotência: é capaz de criar sem recorrer a causas materiais (potência infinita);
6. Pessoalidade: tem que ser pessoal, ou seja, tem que ser um agente livre e dotado de vontade própria:
o Não seria fácil deduzir isto se o Universo fosse eterno: uma causa eterna (Deus) poderia ter originado um efeito eterno (Universo) sem isso implicar necessariamente uma decisão livre e voluntária (sem implicar que a causa primeira fosse uma causa livre e dotada de vontade própria);
o Se o Universo não é eterno, como se explica que uma causa eterna (Deus) possa ter originado um efeito não eterno (Universo)?
o Só uma decisão livre e voluntária de um agente livre (Deus) pode explicar que um efeito não eterno decorra de uma causa eterna;
7. Unidade: quer da propriedade de Necessidade, quer da propriedade de Omnipotência, decorre esta propriedade:
o Se existissem duas causas necessárias e distintas para a existência do Universo, o desnecessário aumento de complexidade da tese exigiria nova explicação: qual a causa para existirem duas causas necessárias?
o O conceito de um ser de potência infinita só é coerente com a unidade desse ser; a frase “dois seres de potência infinita” reflecte uma contradição nos próprios termos da frase: se são dois seres omnipotentes, então é porque nenhum deles tem potência infinita, pois a potência de um ser terá que estar limitada, necessariamente, pela do outro.
[4] A variância e a mudança implicam algum tipo de temporalidade, ou seja, um “antes” e um “depois” da mudança.
Resposta à Leonor
Por comodidade, decidi responder desta forma a um comentário da Leonor no meu último "post", pois as caixas de comentário não são adequadas a respostas extensas.
«Tenho algumas dúvidas quanto aquilo que argumentas e até mesmo naquilo que acreditas. Até porque noutras ocasiões demonstras que não és um criacionista. Fico algo confusa...»
Em caso de dúvida, é bastante seguro ver-me como um cristão. Não como um cristão herege como os que tenho criticado, mas sim como um cristão que segue a tradição cristã da Igreja Católica. Importa recordar que "heresia" significa, literalmente, "escolha". Os primeiros hereges eram assim chamados porque eles "escolhiam" uma fé diferente da recebida. A oposição, então, é entre a heresia (a "escolha" de uma doutrina pessoal) e a tradição (a profissão de uma doutrina "recebida").
Hoje em dia, os "media" adoram os cristãos hereges, e dão-lhes ampla plataforma de expressão. Para além disso, quando se trata de clero herege, os superiores hierárquicos desses cristãos hereges acham que seria anti-moderno criticar os seus subordinados. E então, as consequências notórias da exposição mediática destes hereges são:
1) a confusão para os não cristãos, que ficam sem perceber, afinal de contas, o que é o cristianismo, pois assistem a relatos contraditórios: o cristão coerente diz que há Diabo, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que Cristo está presente na Eucaristia, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que temos que confessar os pecados e procurar a salvação, evitando a condenação, e o cristão herege diz que não há Inferno e que o conceito de pecado está ultrapassado, e assim por diante
2) a confusão para muitos cristãos menos informados ou com menos formação cristã, que perante a ausência de contraditório por parte dos superiores destes padres e teólogos hereges, julgam que eles falam com verdade e autoridade
É então perfeitamente natural que estejas confusa. É-te certamente muito difícil compreender o cristianismo, pois o que vês dele está distorcido pela comunicação social e por uma assimétrica concessão de tempo de antena a dissidentes do cristianismo. Hoje em dia, a única forma de se ter contacto real com o cristianismo é mesmo a do convívio pessoal com cristãos de fé coerente e prática religiosa consistente.
Agora a tua questão... A expressão "criacionista" tornou-se demasiado vaga, pois diferentes sistemas de ideias reivindicam-na. Para simplificar, diria que há dois tipos de criacionismo:
a) o que considera Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas não necessariamente como o criador imediato de todos os seres; quem pensa assim, considera que Deus pode muito bem ter criado um Cosmos com leis próprias e dinamismos próprios, que conduzem ao surgimento da vida pelas chamadas "causas segundas": a expressão "causa segunda" vem da escolástica, e designa as coisas que surgiram, não por causa imediata de Deus, mas sim por causas indirectas
b) o que, para além de considerar Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, diz ainda que Deus é o criador imediato e directo de todos os seres; necessariamente, este tipo de criacionismo rejeita a teoria científica do darwinismo; nota que eu escrevi "teoria científica do darwinismo", pois o darwinismo é uma categoria vasta que hoje em dia abrange muito mais do que a teoria científica original (entretanto, surgiu o darwinismo como filosofia materialista, o darwinismo social e cultural, etc.); este tipo de criacionismo é muito popular entre protestantes, mas nem todos os protestantes são criacionistas neste sentido, e haverá certamente alguns católicos que também se revêem neste tipo de criacionismo, sobretudo quando têm sérias dúvidas acerca do darwinismo científico
Qual é a minha posição? Sendo católico, tendo para um criacionismo de tipo a). Porque escrevi "tendo"? Porque ainda não existem dados científicos suficientes sobre a questão do surgimento da vida para que ela possa ser encerrada. Porque prefiro o tipo a)? Por uma razão simples: o conceito de liberdade criatural é intrínseco à teologia católica, e com a Escolástica, amadurecemos muito a compreensão intelectual do conceito de causa e efeito, necessária para a distinção entre causas primeiras e causas segundas: ora, estas causas segundas têm muito a ver com a liberdade intrínseca da Criação, com a noção muito católica de que Deus não é um "mestre de fantoches" a puxar os cordelinhos, manipulando a Criação como se esta fosse uma marioneta.
Para além disto, o católico é um entusiasta natural pela Ciência, o que levou a que muitos católicos se destacassem como cientistas brilhantes e tivessem inaugurado a ciência moderna. Do lado protestante, um literalismo bíblico desligado da Tradição levou, muitas vezes, a um desprezo pela Ciência. Hoje em dia, vejo que há mais do que razões para se dar crédito à teoria científica da evolução das espécies, e por isso, não sou anti-darwinista. Mas mantenho um espírito aberto acerca desta questão, pois o surgimento da primeira forma de vida está ainda por explicar, além de que o surgimento de uma espécie nova nunca foi reproduzido ou testado (uma boa razão pode ser porque tal fenómeno demora muito tempo, tempo demais para ser observado por seres humanos).
Em suma: com os dados da Ciência moderna, constato que o Universo está "afinado", e que esta afinação faz do nosso Universo uma realidade muito especial. Essa "afinação", para o cristão, resulta da vontade livre de Deus, que quis fazer o Universo deste modo. Por isso, se o nosso Cosmos está estruturado de tal forma que nele acaba por surgir vida, e vida inteligente, isso só abona em favor da inteligência do Criador. Se o Criador decidiu fazer um Universo dotado das leis e dinâmicas internas necessárias e suficientes para delas surgir vida, e vida inteligente, então posso ser um criacionista de tipo a) sem problemas nenhuns, pois o meu criacionismo, para além de consistente, é compatível com os dados da ciência e respeita a já colossal recolha de argumentos científicos a favor da teoria científica de Darwin.
No entanto, é igualmente lógica a tese (em tempos largamente aceite por todos os cristãos) de que Deus teria criado individualmente cada espécie. Aqui importa fazer outra distinção, separando a categoria b) em duas sub-categorias:
b1) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir do nada, ou seja, as espécies teriam surgido instantânea e imediatamente, sem que Deus recorresse a matéria já existente
b2) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir de material orgânico ou inorgânico pré-existente
Repito que ambas estas teses, a b1) e a b2), têm coerência interna, ou seja, são lógicas. No entanto, ambas são muito difíceis de compatibilizar com os dados científicos do darwinismo. Insisto que a minha posição é a do criacionista de tipo a), mas se eu tivesse que optar entre uma das formas b) que apresentei, preferiria a b2), pois não vejo porque razão não poderia Deus aproveitar partes do já criado para criar algo novo.
À laia de síntese, o criacionista de tipo a), categoria na qual me revejo, é sempre um criacionista, conquanto afirma que Deus é a fonte primeira e última da existência de tudo. No entanto, Deus pode ter criado um Cosmos que, por sua vez, teria as condições e os dinamismos necessários para fazer surgir vida por "causas segundas", sem intervenção directa e imediata de Deus no surgimento dessa vida.
E a Bíblia?
Necessariamente, como Cristão, vejo a Bíblia como livro de salvação, contendo sobretudo verdades doutrinais e morais. Contém ainda outras verdades menores, face ao desígnio do livro, mas que são todavia verdades presentes: verdades históricas e factuais.
O Génesis apresenta um relato da Criação. É um relato figurado, no sentido em que recorre a imagens simples, mas ao mesmo tempo muito belas, que descreve verdades objectivas e concretas.
Aceito o Génesis, e toda a Bíblia, como uma obra isenta de erro, no sentido em que nenhum leitor, entrosado na tradição cristã de leitura bíblica, vai ser induzido em erro ao lê-la. Como qualquer obra escrita, a Bíblia necessita de uma correcta leitura. Essa leitura é feita dentro da Igreja, por via da Tradição. A leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz do que Cristo nos revelou. Para os judeus, a leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz da revelação feita por Iavé aos profetas e ao povo de Israel. Nesse sentido, o Antigo Testamento é o testemunho de um povo à procura de Deus e de Deus à procura de um povo em concreto, para fazer dele "local" de surgimento do Salvador. Com o Novo Testamento, Cristo fecha e completa (não destrói nem anula) o Antigo Testamento. Cristo é a "chave dos Profetas", pois a Sua vida dá uma leitura final e definitiva a todos os anseios do Antigo Testamento. Através de Cristo, Deus dá-Se a conhecer, finalmente, ao seu Povo. E a mensagem é surpreendente: Cristo vem morrer para nos redimir dos nossos pecados, e vem para que levemos a Boa Nova da sua vitória sobre a morte a todos os cantos da Terra. Com o Novo Testamento, a mensagem de salvação sai do campo de Israel e torna-se universal.
A presença de imagens, figuras, parábolas e metáforas não implica falsidade, erro ou mentira.
Por exemplo, quando um índio Sioux ou Cherokee se referia a um comboio que tinha passado na planície como sendo um "cavalo de ferro", ele não estava a mentir. Com grande probablidade, o comboio teria mesmo passado à frente dos seus olhos. O índio estava a usar a linguagem e os símbolos ao seu dispor para relatar o que tinha presenciado.
É assim o Génesis: a verdade chega ao escriba vinda de Deus. É o Espírito Santo que inspira o escriba do Génesis a escrever. O escriba não recebe um texto inteiro, estilo ditado. Essa é a tese o Islão, que vê o Corão como texto ditado palavra a palavra a Maomé. O escriba do Antigo Testamento, o escriba do Novo Testamento, recebe ideias no seu intelecto, ideias essas que vêm de Deus. Mas escreve-as com os símbolos e as imagens do próprio escriba. Quando o autor do livro do Génesis escreve que Adão e Eva comeram da maçã da árvore do Bem e do Mal, nenhum leitor erudito da Bíblia pensou que se tratava necessariamente de um fruto físico. A leitura que sempre se fez era no sentido de que Adão e Eva tinham usado da sua liberdade para transgredir a Lei de Deus. E dessa forma, tinham pela primeira vez optado pelo Mal. A serpente simboliza o pai da mentira, o Diabo, ser que já existia antes do Homem, e que sugeriu ao primeiro casal que se autonomizassem de Deus.
Outra nota importante, relativa a uma confusão que os novos ateístas teimam em fazer. Quando o povo hebreu atribui certa vitória militar sobre os seus inimigos à acção de Deus, não temos Deus a concordar com essa leitura. A batalha militar será factual, e a vitória também, mas que sabemos nós acerca da "participação" de Deus nessa vitória? É o povo de Israel que faz essa leitura, mas não temos que aceitar essa leitura como sendo a de Deus. Dizer isto não é dizer que a Bíblia erra, pois todo o cristão (e todo o judeu) sabe que Deus não ditou a Bíblia, e que esta foi escrita por escribas humanos. Ao mesmo tempo, o testemunho de que Israel leu este ou aquele episódio histórico desta ou daquela maneira, é um testemunho vivo da procura de Deus por parte desse povo. Outra coisa óbvia: se determinada figura bíblica comete um crime (algo frequente!), é evidente que não se deve ler o texto no sentido de concordar com esse crime. Esses relatos são abundantes, contendo o ensinamento de que, após a Queda, o ser humano tem uma tendência não inata, mas adquirida com a Queda, para a asneira, e que esse caminho da asneira é o caminho oposto ao que nos leva a Deus.
Assim, o cristão fala do Génesis como o livro que relata, entre outras coisas, as verdades fundamentais de Deus Criador do Universo, da Tentação pelo Diabo, e da Queda do primeiro casal. Eu aceito necessariamente tudo isso como verdades, enquanto posso reconhecer que as palavras que são usadas constituem imagens que ajudam a aceder à verdade: a serpente, a maçã, a árvore, etc.; já Santo Agostinho, na sua obra "De Genesi ad litteram", dizia que a Criação não teria, necessariamente, que ter durado seis dias em sentido literal, ou seja, seis dias de 24 horas. No entanto, é correcta leitura do Génesis ler o texto da Criação como relatando uma sequência verdadeira e real: trevas iniciais, surgimento da luz, etc. Se notares bem, não é muito complicado (apesar de ser arriscado e ainda incerto, à luz do conhecimento actual) ver aqui vislumbres do "fiat lux" que representa o Big Bang. O relato do Génesis é gradual: primeiro, surgem as condições para a vida, e depois surge a vida. Tudo isto é lógico e faz sentido à luz do conhecimento actual.
Na visão cristã das coisas, entram sempre duas regras de ouro:
a) respeitar a tradição recebida de Cristo
b) respeitar a razão e as verdades seguras que fomos descobrindo por via racional
«Ao ler este teu post tenho a sensação que tomas o relato bíblico como real quando afirmas que Deus criou o universo, o mundo, os anjos, o Homem, etc. Ou seja, em parte alguma do teu discurso dizes que o relato da criação é uma interpretação do universo de uns quantos homens que viveram há uns bons milhares de anos atrás.»
Tens toda a razão. Eu tomo como real que Deus criou o Universo, os anjos, o Homem, etc., Mas espero ter deixado claro que há muitas nuances na palavra "criou"...
«E desculpa a minha ignorância... Como é que tu sabes? Se não for através da interpretação que homens fazem das palavras de outros homens, como é que tu podes saber?»
Toda a solidez da minha posição advém, como referi, de confiar no que a Igreja me ensina, e confiar na razão e nas certezas do meu intelecto racional. Aqui há uma hierarquia: eu creio primeiro para entender depois ("credo ut intelligam"), e não ao contrário. Também isso é a prática humana de sempre. Quando estamos na aula, acreditamos no professor antes de entendermos. Quando o nosso pai nos ensina a nadar, acreditamos primeiro nele antes de sabermos nadar. E assim por diante. Claro que podes perguntar-me: "mas como sabes tu que a Igreja ensina o que Cristo ensinou?". Aqui podemos avançar muito, e mesmo muito, com o estudo dos dados históricos, com a leitura do próprio Novo Testamento, e com a sua análise histórica e historiográfica. Com a leitura da Didaché e de outros textos em uso pelos primeiros cristãos. Com a leitura da patrologia, ou seja, dos textos dos Padres da Igreja, escritos durante os primeiros séculos de cristianismo. A doutrina cristã, quando estudada com rigor, apresenta-se completa e consistente, na sua essência, desde os primórdios do Cristianismo.
«O ser humano tem errado ao longo de toda a sua existência. Ou afirmas que os homens que escreveram, compilaram e editaram a Bíblia, não erram, ou afirmas que o texto foi escrito pela própria mão de Deus...»
O ser humano erra. Mas erra muito menos quando tenta seguir a Palavra de Deus. Logo no primeiro século de cristianismo, tens centenas e milhares de pessoas a preferirem serem mortas para não serem obrigadas a renegar a verdade da ressurreição de Cristo. Seriam loucos? Vítimas de alucinação? Conheces muitos casos de grupos organizados de pessoas que preferem serem mortos por teimarem numa ideia?
Em três séculos, essa religião de mulheres e de escravos tomou conta do Império Romano. Isso não te diz nada? Cristo disse que conheceríamos a qualidade da árvore pela qualidade dos frutos. O cristianismo inaugurou uma nova era de direitos humanos, de cultura, de ciência, de justiça. Trouxe o conceito totalmente inovador e revolucionário de caridade. Isso não vale nada? Isso não poderá indicar a origem sobrenatural da ideia cristã?
Hoje achamos banal, a ideia. Mas ela é espantosa: o próprio Deus faz-Se Homem, deixa-Se matar às nossas mãos, e tudo porque nos ama? E tudo para resgatar-nos do nosso pecado? E tudo para nos lançar numa vida nova?
Nenhuma outra religião coloca Deus no teatro humano como faz o cristianismo. Cristo não é um "avatar" como os hindus, que acham que a divindade, de vez em quando, assume uma forma humana. A teologia cristã não é uma teologia de divindades que, de tempos a tempos, visitam um corpo humano. A teologia cristã diz que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. As regras da lógica levam-nos a ver aqui um vislumbre positivo em matéria de direitos humanos: afinal o homem até deve valer qualquer coisinha... Daqui até compreendermos a paixão cristã pela vida humana, vai um salto pequeno.
«Quando conferes autoridade absoluta aquilo que é descrito pelos autores do Novo Testamento, será que esqueces que não temos as palavras de Jesus, nem sequer dos seus discípulos directos?»
É claro que temos, Leonor. Não há consistência científica nenhuma na tese que defende que o Novo Testamento é fantasioso. O Novo Testamento tem, todo ele, uma estrutura factual e cronológica. Os Actos dos Apóstolos relatam, em primeira mão, acontecimentos presenciados pelo autor do livro. As cartas de São Paulo foram escritas pelo próprio, e enviadas a outros para serem lidas. Os autores dos Evangelhos não foram todos apóstolos directos de Cristo (João e Mateus sim, mas Marcos e Lucas não). Mas São Marcos viveu lado a lado com São Pedro durante tempo suficiente para absorver tudo dele. E São Lucas, médico companheiro de viagem de São Paulo, percorreu a viagem cristã por excelência: a missionação do Apóstolo dos Gentios, São Paulo.
«O que queres dizer, é que a Igreja, ou a tradição da Igreja diz que é assim e ponto final.»
Já terei referido que a crença em noções teológicas com base exclusiva em argumentos de autoridade é uma heresia, chamada "fideísmo". A tua frase, na sua essência, surge condenada pela própria Igreja como sendo herética. Obras imponentes como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino são exemplos do fascínio cristão pela argumentação racional, contra posições fideístas, consideradas erradas, pelo desprezo pela razão como fonte de aferição intelectual.
Se fosse como dizes, eu teria que dizer coisas refutadas pela ciência ou pela história. Onde estão essas refutações?
Se fosse como dizes, não haveria consistência histórica no Novo Testamento. Mas há! Que pensar então disso?
Um abraço!
«Tenho algumas dúvidas quanto aquilo que argumentas e até mesmo naquilo que acreditas. Até porque noutras ocasiões demonstras que não és um criacionista. Fico algo confusa...»
Em caso de dúvida, é bastante seguro ver-me como um cristão. Não como um cristão herege como os que tenho criticado, mas sim como um cristão que segue a tradição cristã da Igreja Católica. Importa recordar que "heresia" significa, literalmente, "escolha". Os primeiros hereges eram assim chamados porque eles "escolhiam" uma fé diferente da recebida. A oposição, então, é entre a heresia (a "escolha" de uma doutrina pessoal) e a tradição (a profissão de uma doutrina "recebida").
Hoje em dia, os "media" adoram os cristãos hereges, e dão-lhes ampla plataforma de expressão. Para além disso, quando se trata de clero herege, os superiores hierárquicos desses cristãos hereges acham que seria anti-moderno criticar os seus subordinados. E então, as consequências notórias da exposição mediática destes hereges são:
1) a confusão para os não cristãos, que ficam sem perceber, afinal de contas, o que é o cristianismo, pois assistem a relatos contraditórios: o cristão coerente diz que há Diabo, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que Cristo está presente na Eucaristia, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que temos que confessar os pecados e procurar a salvação, evitando a condenação, e o cristão herege diz que não há Inferno e que o conceito de pecado está ultrapassado, e assim por diante
2) a confusão para muitos cristãos menos informados ou com menos formação cristã, que perante a ausência de contraditório por parte dos superiores destes padres e teólogos hereges, julgam que eles falam com verdade e autoridade
É então perfeitamente natural que estejas confusa. É-te certamente muito difícil compreender o cristianismo, pois o que vês dele está distorcido pela comunicação social e por uma assimétrica concessão de tempo de antena a dissidentes do cristianismo. Hoje em dia, a única forma de se ter contacto real com o cristianismo é mesmo a do convívio pessoal com cristãos de fé coerente e prática religiosa consistente.
Agora a tua questão... A expressão "criacionista" tornou-se demasiado vaga, pois diferentes sistemas de ideias reivindicam-na. Para simplificar, diria que há dois tipos de criacionismo:
a) o que considera Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas não necessariamente como o criador imediato de todos os seres; quem pensa assim, considera que Deus pode muito bem ter criado um Cosmos com leis próprias e dinamismos próprios, que conduzem ao surgimento da vida pelas chamadas "causas segundas": a expressão "causa segunda" vem da escolástica, e designa as coisas que surgiram, não por causa imediata de Deus, mas sim por causas indirectas
b) o que, para além de considerar Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, diz ainda que Deus é o criador imediato e directo de todos os seres; necessariamente, este tipo de criacionismo rejeita a teoria científica do darwinismo; nota que eu escrevi "teoria científica do darwinismo", pois o darwinismo é uma categoria vasta que hoje em dia abrange muito mais do que a teoria científica original (entretanto, surgiu o darwinismo como filosofia materialista, o darwinismo social e cultural, etc.); este tipo de criacionismo é muito popular entre protestantes, mas nem todos os protestantes são criacionistas neste sentido, e haverá certamente alguns católicos que também se revêem neste tipo de criacionismo, sobretudo quando têm sérias dúvidas acerca do darwinismo científico
Qual é a minha posição? Sendo católico, tendo para um criacionismo de tipo a). Porque escrevi "tendo"? Porque ainda não existem dados científicos suficientes sobre a questão do surgimento da vida para que ela possa ser encerrada. Porque prefiro o tipo a)? Por uma razão simples: o conceito de liberdade criatural é intrínseco à teologia católica, e com a Escolástica, amadurecemos muito a compreensão intelectual do conceito de causa e efeito, necessária para a distinção entre causas primeiras e causas segundas: ora, estas causas segundas têm muito a ver com a liberdade intrínseca da Criação, com a noção muito católica de que Deus não é um "mestre de fantoches" a puxar os cordelinhos, manipulando a Criação como se esta fosse uma marioneta.
Para além disto, o católico é um entusiasta natural pela Ciência, o que levou a que muitos católicos se destacassem como cientistas brilhantes e tivessem inaugurado a ciência moderna. Do lado protestante, um literalismo bíblico desligado da Tradição levou, muitas vezes, a um desprezo pela Ciência. Hoje em dia, vejo que há mais do que razões para se dar crédito à teoria científica da evolução das espécies, e por isso, não sou anti-darwinista. Mas mantenho um espírito aberto acerca desta questão, pois o surgimento da primeira forma de vida está ainda por explicar, além de que o surgimento de uma espécie nova nunca foi reproduzido ou testado (uma boa razão pode ser porque tal fenómeno demora muito tempo, tempo demais para ser observado por seres humanos).
Em suma: com os dados da Ciência moderna, constato que o Universo está "afinado", e que esta afinação faz do nosso Universo uma realidade muito especial. Essa "afinação", para o cristão, resulta da vontade livre de Deus, que quis fazer o Universo deste modo. Por isso, se o nosso Cosmos está estruturado de tal forma que nele acaba por surgir vida, e vida inteligente, isso só abona em favor da inteligência do Criador. Se o Criador decidiu fazer um Universo dotado das leis e dinâmicas internas necessárias e suficientes para delas surgir vida, e vida inteligente, então posso ser um criacionista de tipo a) sem problemas nenhuns, pois o meu criacionismo, para além de consistente, é compatível com os dados da ciência e respeita a já colossal recolha de argumentos científicos a favor da teoria científica de Darwin.
No entanto, é igualmente lógica a tese (em tempos largamente aceite por todos os cristãos) de que Deus teria criado individualmente cada espécie. Aqui importa fazer outra distinção, separando a categoria b) em duas sub-categorias:
b1) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir do nada, ou seja, as espécies teriam surgido instantânea e imediatamente, sem que Deus recorresse a matéria já existente
b2) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir de material orgânico ou inorgânico pré-existente
Repito que ambas estas teses, a b1) e a b2), têm coerência interna, ou seja, são lógicas. No entanto, ambas são muito difíceis de compatibilizar com os dados científicos do darwinismo. Insisto que a minha posição é a do criacionista de tipo a), mas se eu tivesse que optar entre uma das formas b) que apresentei, preferiria a b2), pois não vejo porque razão não poderia Deus aproveitar partes do já criado para criar algo novo.
À laia de síntese, o criacionista de tipo a), categoria na qual me revejo, é sempre um criacionista, conquanto afirma que Deus é a fonte primeira e última da existência de tudo. No entanto, Deus pode ter criado um Cosmos que, por sua vez, teria as condições e os dinamismos necessários para fazer surgir vida por "causas segundas", sem intervenção directa e imediata de Deus no surgimento dessa vida.
E a Bíblia?
Necessariamente, como Cristão, vejo a Bíblia como livro de salvação, contendo sobretudo verdades doutrinais e morais. Contém ainda outras verdades menores, face ao desígnio do livro, mas que são todavia verdades presentes: verdades históricas e factuais.
O Génesis apresenta um relato da Criação. É um relato figurado, no sentido em que recorre a imagens simples, mas ao mesmo tempo muito belas, que descreve verdades objectivas e concretas.
Aceito o Génesis, e toda a Bíblia, como uma obra isenta de erro, no sentido em que nenhum leitor, entrosado na tradição cristã de leitura bíblica, vai ser induzido em erro ao lê-la. Como qualquer obra escrita, a Bíblia necessita de uma correcta leitura. Essa leitura é feita dentro da Igreja, por via da Tradição. A leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz do que Cristo nos revelou. Para os judeus, a leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz da revelação feita por Iavé aos profetas e ao povo de Israel. Nesse sentido, o Antigo Testamento é o testemunho de um povo à procura de Deus e de Deus à procura de um povo em concreto, para fazer dele "local" de surgimento do Salvador. Com o Novo Testamento, Cristo fecha e completa (não destrói nem anula) o Antigo Testamento. Cristo é a "chave dos Profetas", pois a Sua vida dá uma leitura final e definitiva a todos os anseios do Antigo Testamento. Através de Cristo, Deus dá-Se a conhecer, finalmente, ao seu Povo. E a mensagem é surpreendente: Cristo vem morrer para nos redimir dos nossos pecados, e vem para que levemos a Boa Nova da sua vitória sobre a morte a todos os cantos da Terra. Com o Novo Testamento, a mensagem de salvação sai do campo de Israel e torna-se universal.
A presença de imagens, figuras, parábolas e metáforas não implica falsidade, erro ou mentira.
Por exemplo, quando um índio Sioux ou Cherokee se referia a um comboio que tinha passado na planície como sendo um "cavalo de ferro", ele não estava a mentir. Com grande probablidade, o comboio teria mesmo passado à frente dos seus olhos. O índio estava a usar a linguagem e os símbolos ao seu dispor para relatar o que tinha presenciado.
É assim o Génesis: a verdade chega ao escriba vinda de Deus. É o Espírito Santo que inspira o escriba do Génesis a escrever. O escriba não recebe um texto inteiro, estilo ditado. Essa é a tese o Islão, que vê o Corão como texto ditado palavra a palavra a Maomé. O escriba do Antigo Testamento, o escriba do Novo Testamento, recebe ideias no seu intelecto, ideias essas que vêm de Deus. Mas escreve-as com os símbolos e as imagens do próprio escriba. Quando o autor do livro do Génesis escreve que Adão e Eva comeram da maçã da árvore do Bem e do Mal, nenhum leitor erudito da Bíblia pensou que se tratava necessariamente de um fruto físico. A leitura que sempre se fez era no sentido de que Adão e Eva tinham usado da sua liberdade para transgredir a Lei de Deus. E dessa forma, tinham pela primeira vez optado pelo Mal. A serpente simboliza o pai da mentira, o Diabo, ser que já existia antes do Homem, e que sugeriu ao primeiro casal que se autonomizassem de Deus.
Outra nota importante, relativa a uma confusão que os novos ateístas teimam em fazer. Quando o povo hebreu atribui certa vitória militar sobre os seus inimigos à acção de Deus, não temos Deus a concordar com essa leitura. A batalha militar será factual, e a vitória também, mas que sabemos nós acerca da "participação" de Deus nessa vitória? É o povo de Israel que faz essa leitura, mas não temos que aceitar essa leitura como sendo a de Deus. Dizer isto não é dizer que a Bíblia erra, pois todo o cristão (e todo o judeu) sabe que Deus não ditou a Bíblia, e que esta foi escrita por escribas humanos. Ao mesmo tempo, o testemunho de que Israel leu este ou aquele episódio histórico desta ou daquela maneira, é um testemunho vivo da procura de Deus por parte desse povo. Outra coisa óbvia: se determinada figura bíblica comete um crime (algo frequente!), é evidente que não se deve ler o texto no sentido de concordar com esse crime. Esses relatos são abundantes, contendo o ensinamento de que, após a Queda, o ser humano tem uma tendência não inata, mas adquirida com a Queda, para a asneira, e que esse caminho da asneira é o caminho oposto ao que nos leva a Deus.
Assim, o cristão fala do Génesis como o livro que relata, entre outras coisas, as verdades fundamentais de Deus Criador do Universo, da Tentação pelo Diabo, e da Queda do primeiro casal. Eu aceito necessariamente tudo isso como verdades, enquanto posso reconhecer que as palavras que são usadas constituem imagens que ajudam a aceder à verdade: a serpente, a maçã, a árvore, etc.; já Santo Agostinho, na sua obra "De Genesi ad litteram", dizia que a Criação não teria, necessariamente, que ter durado seis dias em sentido literal, ou seja, seis dias de 24 horas. No entanto, é correcta leitura do Génesis ler o texto da Criação como relatando uma sequência verdadeira e real: trevas iniciais, surgimento da luz, etc. Se notares bem, não é muito complicado (apesar de ser arriscado e ainda incerto, à luz do conhecimento actual) ver aqui vislumbres do "fiat lux" que representa o Big Bang. O relato do Génesis é gradual: primeiro, surgem as condições para a vida, e depois surge a vida. Tudo isto é lógico e faz sentido à luz do conhecimento actual.
Na visão cristã das coisas, entram sempre duas regras de ouro:
a) respeitar a tradição recebida de Cristo
b) respeitar a razão e as verdades seguras que fomos descobrindo por via racional
«Ao ler este teu post tenho a sensação que tomas o relato bíblico como real quando afirmas que Deus criou o universo, o mundo, os anjos, o Homem, etc. Ou seja, em parte alguma do teu discurso dizes que o relato da criação é uma interpretação do universo de uns quantos homens que viveram há uns bons milhares de anos atrás.»
Tens toda a razão. Eu tomo como real que Deus criou o Universo, os anjos, o Homem, etc., Mas espero ter deixado claro que há muitas nuances na palavra "criou"...
«E desculpa a minha ignorância... Como é que tu sabes? Se não for através da interpretação que homens fazem das palavras de outros homens, como é que tu podes saber?»
Toda a solidez da minha posição advém, como referi, de confiar no que a Igreja me ensina, e confiar na razão e nas certezas do meu intelecto racional. Aqui há uma hierarquia: eu creio primeiro para entender depois ("credo ut intelligam"), e não ao contrário. Também isso é a prática humana de sempre. Quando estamos na aula, acreditamos no professor antes de entendermos. Quando o nosso pai nos ensina a nadar, acreditamos primeiro nele antes de sabermos nadar. E assim por diante. Claro que podes perguntar-me: "mas como sabes tu que a Igreja ensina o que Cristo ensinou?". Aqui podemos avançar muito, e mesmo muito, com o estudo dos dados históricos, com a leitura do próprio Novo Testamento, e com a sua análise histórica e historiográfica. Com a leitura da Didaché e de outros textos em uso pelos primeiros cristãos. Com a leitura da patrologia, ou seja, dos textos dos Padres da Igreja, escritos durante os primeiros séculos de cristianismo. A doutrina cristã, quando estudada com rigor, apresenta-se completa e consistente, na sua essência, desde os primórdios do Cristianismo.
«O ser humano tem errado ao longo de toda a sua existência. Ou afirmas que os homens que escreveram, compilaram e editaram a Bíblia, não erram, ou afirmas que o texto foi escrito pela própria mão de Deus...»
O ser humano erra. Mas erra muito menos quando tenta seguir a Palavra de Deus. Logo no primeiro século de cristianismo, tens centenas e milhares de pessoas a preferirem serem mortas para não serem obrigadas a renegar a verdade da ressurreição de Cristo. Seriam loucos? Vítimas de alucinação? Conheces muitos casos de grupos organizados de pessoas que preferem serem mortos por teimarem numa ideia?
Em três séculos, essa religião de mulheres e de escravos tomou conta do Império Romano. Isso não te diz nada? Cristo disse que conheceríamos a qualidade da árvore pela qualidade dos frutos. O cristianismo inaugurou uma nova era de direitos humanos, de cultura, de ciência, de justiça. Trouxe o conceito totalmente inovador e revolucionário de caridade. Isso não vale nada? Isso não poderá indicar a origem sobrenatural da ideia cristã?
Hoje achamos banal, a ideia. Mas ela é espantosa: o próprio Deus faz-Se Homem, deixa-Se matar às nossas mãos, e tudo porque nos ama? E tudo para resgatar-nos do nosso pecado? E tudo para nos lançar numa vida nova?
Nenhuma outra religião coloca Deus no teatro humano como faz o cristianismo. Cristo não é um "avatar" como os hindus, que acham que a divindade, de vez em quando, assume uma forma humana. A teologia cristã não é uma teologia de divindades que, de tempos a tempos, visitam um corpo humano. A teologia cristã diz que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. As regras da lógica levam-nos a ver aqui um vislumbre positivo em matéria de direitos humanos: afinal o homem até deve valer qualquer coisinha... Daqui até compreendermos a paixão cristã pela vida humana, vai um salto pequeno.
«Quando conferes autoridade absoluta aquilo que é descrito pelos autores do Novo Testamento, será que esqueces que não temos as palavras de Jesus, nem sequer dos seus discípulos directos?»
É claro que temos, Leonor. Não há consistência científica nenhuma na tese que defende que o Novo Testamento é fantasioso. O Novo Testamento tem, todo ele, uma estrutura factual e cronológica. Os Actos dos Apóstolos relatam, em primeira mão, acontecimentos presenciados pelo autor do livro. As cartas de São Paulo foram escritas pelo próprio, e enviadas a outros para serem lidas. Os autores dos Evangelhos não foram todos apóstolos directos de Cristo (João e Mateus sim, mas Marcos e Lucas não). Mas São Marcos viveu lado a lado com São Pedro durante tempo suficiente para absorver tudo dele. E São Lucas, médico companheiro de viagem de São Paulo, percorreu a viagem cristã por excelência: a missionação do Apóstolo dos Gentios, São Paulo.
«O que queres dizer, é que a Igreja, ou a tradição da Igreja diz que é assim e ponto final.»
Já terei referido que a crença em noções teológicas com base exclusiva em argumentos de autoridade é uma heresia, chamada "fideísmo". A tua frase, na sua essência, surge condenada pela própria Igreja como sendo herética. Obras imponentes como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino são exemplos do fascínio cristão pela argumentação racional, contra posições fideístas, consideradas erradas, pelo desprezo pela razão como fonte de aferição intelectual.
Se fosse como dizes, eu teria que dizer coisas refutadas pela ciência ou pela história. Onde estão essas refutações?
Se fosse como dizes, não haveria consistência histórica no Novo Testamento. Mas há! Que pensar então disso?
Um abraço!
terça-feira, 6 de outubro de 2009
«Crenças e diferenças»
No seu artigo "Crenças e Diferenças", o Ludwig defende a incompatibilidade entre crença científica e crença religiosa.
Pretendo brevemente apontar alguns erros no artigo em questão, aproveitando algumas afirmações específicas feitas pelo Ludwig:
«Os crentes mais moderados defendem que as crenças científicas e religiosas estão ao mesmo nível, assentando as primeiras na ideia de um universo regular e observável e as últimas num deus que revela os seus mistérios.»
Há aqui um problema claro de generalização. O Ludwig não o especifica, mas esta frase não pode ser escrita assim. Os hindus, por exemplo, não confiam na regularidade e observabilidade do universo. Nem entendem Deus como alguém que revela coisas sagradas à Humanidade.
Mas há outro problema mais grave: na esfera concreta da crença católica, nenhum católico pode defender que as crenças científicas e religiosas estão ao mesmo nível. Há duas nuances importantes:
a) para o crente católico, a fonte da crença religiosa é Deus e nessa qualidade, trata-se de crença infalivelmente verdadeira; a crença científica, tendo sempre uma fundamentação empírica (mais ou menos sólida), nunca é definitiva e é sempre passível de refutação (pior caso) ou melhoria (melhor caso)
b) para o crente católico, a realidade é toda a mesma e foi toda criada por Deus, ou seja, o objecto da crença científica faz parte da mesma realidade do objecto da crença religiosa: os milagres de Cristo foram realizados no mesmo mundo real no qual se desenrolam todos os fenómenos estudados pela ciência
Um pouco adiante, o Ludwig escreve:
«A crença do cristão é diferente. O cristão que crê que Maria era virgem não está a assumir que, algures, existem os exames ginecológicos necessários para substanciar esta proposição, que pode ter acesso a esses registos e que, se os analisar cuidadosamente, concluirá que Maria era mesmo virgem. Esta sua crença não é condicional. Não depende de assumir que há fundamento objectivo para a proposição. É uma crença categórica. O cristão crê. Ponto final.»
Não é nada disto que o cristão diz. A crença cristã não é cega. Por exemplo, nenhum cristão pode afirmar a crença numa proposição refutada pela experiência ou pelo conhecimento prático das coisas. A fé é entendida como a aceitação daquilo que é revelado por Deus, e tem como objecto proposições às quais nunca chegaríamos pela via empírica. No entanto, a via empírica não pode refutar uma proposição de fé, senão essa proposição era falsa.
Por exemplo: imaginemos que alguns dos discípulos de Cristo afirmavam que o Mestre era imaterial. Isso era facilmente refutado pelo simples facto de que os discípulos próximos de Cristo poderiam facilmente fazer o teste.
Outro exemplo: imaginemos que se descobria uma sepultura muito antiga, com os restos mortais de uma mulher da Galileia, e que era possível estabelecer, graças a inscrições e a tradições orais e escritas, que se tratava da sepultura de Maria, Mãe de Cristo. Automaticamente, estava refutado o dogma da assunção de Maria aos céus, pois esse dogma afirma de modo categórico que o corpo de Maria foi "absorvido para fora" da materialidade, para fora do tempo e do espaço.
Segundo a forma errada como o Ludwig vê a fé cristã, então o cristão deveria manter a crença no dogma da assunção de Maria, MESMO que surgissem restos mortais de Maria. Ora isso é totalmente falso, e nenhuma verdade cristã é assumida CONTRA verdades empíricas demonstradas.
1) Não só não podem existir incompatibilidades entre a doutrina e as verdades manifestas e indiscutíveis (incluídas as regras da lógica, essenciais ao raciocínio coerente e estruturado)
2) Como são tidos e pesados todos os argumentos a favor de uma tese doutrinal: não se chegou a nenhum dogma da Igreja através de argumentos puros de autoridade, ou através de literalismos escriturísticos, mas sim através de longos e extensos debates (basta conhecer a história dos concílios para se ver como a Igreja amadureceu a exposição da sua doutrina)
O cristão afirma que Maria era virgem por várias fortes razões, que vão desde a tradição oral de quem viveu na altura próximo a Maria, até à coerência teológica que foi procurada tenazmente nos primeiros séculos: para Cristo ser realmente Deus (e este postulado data do tempo dos primeiros doze) e realmente Homem, teria que ter um progenitor humano (Maria) e outro divino (Espírito Santo). A doutrina cristã é o resultado de séculos de consolidação doutrinal (eliminando incoerências e contradições) efectuada sobre tradição escrita e oral.
O cristão não afirma que Maria era virgem só porque "está escrito", ou porque "alguém disse". Isso é fideísmo (ver abaixo), e é uma heresia.
«Esta é uma razão importante para a incompatibilidade entre a ciência e as religiões.»
Não há qualquer incompatibilidade entre fé cristã e ciência. Até seria ilógico supô-lo, uma vez que o cristianismo foi o berço e a motivação do progresso da ciência moderna.
O que se passa é que o cristão não defende um absurdo reducionismo filosófico. É por puro preconceito filosófico que o ateu materialista julga que a realidade tem que ser toda material porque o método científico (por natureza empírico) não vai mais longe. Ora isto é ridículo. Seria o mesmo que afirmar que não existe amor humano só porque não o conseguimos medir com instrumentos. É que o ateu materialista confunde mesmo o real com o empírico, como se não pudesse existir nada que não pudesse ser medido empiricamente. Isto é um preconceito filosófico, e nada tem a ver com ciência.
Já no que toca à compatibilidade entre outras religiões e ciência, então é certo que há muita fé religiosa que é incompatível em maior ou menor grau com a ciência, e é por isso que erra todo e qualquer ateu, como o Ludwig, que trata a crença religiosa toda por igual. Ao não distinguir aqueles credos (como o cristão) que afirmam cabalmente que nenhuma verdade de fé contradiz uma verdade de ciência, o Ludwig generaliza demais e acaba por ser injusto para com o cristianismo.
Por exemplo, o Hinduismo desconfia profundamente dos sentidos (por causa do conceito de "maya"), e por isso, é impossível a integração no hinduísmo da abordagem empírica essencial ao trabalho científico.
Outro exemplo: no Islão, a crença religiosa pode ser irracional, algo impossível na crença cristã. Por isso, é complicado conciliar, na mente do crente muçulmano, a doutrina do Islão com a metodologia do trabalho científico.
«Como as crenças científicas são todas condicionadas à premissa de haver fundamento objectivo, acessível e compreensível, para as proposições em que se crê, os cientistas têm uma exigência quase paranóica de registos de resultados, descrições detalhadas dos procedimentos, conclusões cautelosas, crítica aberta, verificação independente e todo esse aparato que nos dá confiança que, quando chegam a acordo acerca de algo, há por trás um forte fundamento para o que defendem.»
Eu não vejo nada de paranóico nisso. Essa boa escola do cientista é a boa escola da cosmovisão judaico-cristã. O cristão só pode valorizar o empirismo, uma vez que o Cristão acredita que a realidade é boa, porque é obra de um Deus bom, que não engana, e que os sentidos do Homem, feitos por Deus, são fiáveis, e que o intelecto humano, feito à imagem do de Deus, é minimamente fiável, e que ambos os intelectos partilham do uso da razão e da lógica.
Desafio o Ludwig a explicar como é que essa escola científica teria chegado aos nossos dias se não tivesse sido precisamente a Igreja Católica a pior inimiga das heresias opostas a essa escola, como a heresia gnóstica, ou a tradição hermético/ocultista ocidental, que via magia e "poderes ocultos" na Natureza.
«As religiões fazem o contrário. A crença incondicional e dogmática vira as religiões para dentro, para as suas figuras de autoridade ou escritos sagrados onde o fundamento último de tudo é o mistério insondável da fé.»
Isto é uma heresia cristã: chama-se "fideísmo". É estranhíssimo, mas está longe de ser um caso raro, que tantos ateus continuem a insistir numa generalização que acaba por ser injusta para com a Igreja Católica.
Como se pode ver aqui, a Igreja justamente considerou herética a filosofia de crença que o Ludwig tanto critica, e que ele julga erradamente ser algo geral e comum a todas as religiões. Há muitas religiões, mas não a cristã, que pensam assim. Vendo bem, da heresia do "fideísmo" à superstição pura e dura vai um passo curto.
Termino com um desafio: peço ao Ludwig que me aponte uma contradição, basta apenas uma, entre doutrina católica e ciência. Note-se bem: não pergunto se há coisas na doutrina católica que a ciência não pode nem provar nem refutar (é certo que as há). Pergunto se há verdades científicas que tenham refutado pontos da doutrina cristã...
Porque será que não existem?
Será só sorte da doutrina cristã?
Estará a primeira refutação ao virar da esquina?
Pretendo brevemente apontar alguns erros no artigo em questão, aproveitando algumas afirmações específicas feitas pelo Ludwig:
«Os crentes mais moderados defendem que as crenças científicas e religiosas estão ao mesmo nível, assentando as primeiras na ideia de um universo regular e observável e as últimas num deus que revela os seus mistérios.»
Há aqui um problema claro de generalização. O Ludwig não o especifica, mas esta frase não pode ser escrita assim. Os hindus, por exemplo, não confiam na regularidade e observabilidade do universo. Nem entendem Deus como alguém que revela coisas sagradas à Humanidade.
Mas há outro problema mais grave: na esfera concreta da crença católica, nenhum católico pode defender que as crenças científicas e religiosas estão ao mesmo nível. Há duas nuances importantes:
a) para o crente católico, a fonte da crença religiosa é Deus e nessa qualidade, trata-se de crença infalivelmente verdadeira; a crença científica, tendo sempre uma fundamentação empírica (mais ou menos sólida), nunca é definitiva e é sempre passível de refutação (pior caso) ou melhoria (melhor caso)
b) para o crente católico, a realidade é toda a mesma e foi toda criada por Deus, ou seja, o objecto da crença científica faz parte da mesma realidade do objecto da crença religiosa: os milagres de Cristo foram realizados no mesmo mundo real no qual se desenrolam todos os fenómenos estudados pela ciência
Um pouco adiante, o Ludwig escreve:
«A crença do cristão é diferente. O cristão que crê que Maria era virgem não está a assumir que, algures, existem os exames ginecológicos necessários para substanciar esta proposição, que pode ter acesso a esses registos e que, se os analisar cuidadosamente, concluirá que Maria era mesmo virgem. Esta sua crença não é condicional. Não depende de assumir que há fundamento objectivo para a proposição. É uma crença categórica. O cristão crê. Ponto final.»
Não é nada disto que o cristão diz. A crença cristã não é cega. Por exemplo, nenhum cristão pode afirmar a crença numa proposição refutada pela experiência ou pelo conhecimento prático das coisas. A fé é entendida como a aceitação daquilo que é revelado por Deus, e tem como objecto proposições às quais nunca chegaríamos pela via empírica. No entanto, a via empírica não pode refutar uma proposição de fé, senão essa proposição era falsa.
Por exemplo: imaginemos que alguns dos discípulos de Cristo afirmavam que o Mestre era imaterial. Isso era facilmente refutado pelo simples facto de que os discípulos próximos de Cristo poderiam facilmente fazer o teste.
Outro exemplo: imaginemos que se descobria uma sepultura muito antiga, com os restos mortais de uma mulher da Galileia, e que era possível estabelecer, graças a inscrições e a tradições orais e escritas, que se tratava da sepultura de Maria, Mãe de Cristo. Automaticamente, estava refutado o dogma da assunção de Maria aos céus, pois esse dogma afirma de modo categórico que o corpo de Maria foi "absorvido para fora" da materialidade, para fora do tempo e do espaço.
Segundo a forma errada como o Ludwig vê a fé cristã, então o cristão deveria manter a crença no dogma da assunção de Maria, MESMO que surgissem restos mortais de Maria. Ora isso é totalmente falso, e nenhuma verdade cristã é assumida CONTRA verdades empíricas demonstradas.
1) Não só não podem existir incompatibilidades entre a doutrina e as verdades manifestas e indiscutíveis (incluídas as regras da lógica, essenciais ao raciocínio coerente e estruturado)
2) Como são tidos e pesados todos os argumentos a favor de uma tese doutrinal: não se chegou a nenhum dogma da Igreja através de argumentos puros de autoridade, ou através de literalismos escriturísticos, mas sim através de longos e extensos debates (basta conhecer a história dos concílios para se ver como a Igreja amadureceu a exposição da sua doutrina)
O cristão afirma que Maria era virgem por várias fortes razões, que vão desde a tradição oral de quem viveu na altura próximo a Maria, até à coerência teológica que foi procurada tenazmente nos primeiros séculos: para Cristo ser realmente Deus (e este postulado data do tempo dos primeiros doze) e realmente Homem, teria que ter um progenitor humano (Maria) e outro divino (Espírito Santo). A doutrina cristã é o resultado de séculos de consolidação doutrinal (eliminando incoerências e contradições) efectuada sobre tradição escrita e oral.
O cristão não afirma que Maria era virgem só porque "está escrito", ou porque "alguém disse". Isso é fideísmo (ver abaixo), e é uma heresia.
«Esta é uma razão importante para a incompatibilidade entre a ciência e as religiões.»
Não há qualquer incompatibilidade entre fé cristã e ciência. Até seria ilógico supô-lo, uma vez que o cristianismo foi o berço e a motivação do progresso da ciência moderna.
O que se passa é que o cristão não defende um absurdo reducionismo filosófico. É por puro preconceito filosófico que o ateu materialista julga que a realidade tem que ser toda material porque o método científico (por natureza empírico) não vai mais longe. Ora isto é ridículo. Seria o mesmo que afirmar que não existe amor humano só porque não o conseguimos medir com instrumentos. É que o ateu materialista confunde mesmo o real com o empírico, como se não pudesse existir nada que não pudesse ser medido empiricamente. Isto é um preconceito filosófico, e nada tem a ver com ciência.
Já no que toca à compatibilidade entre outras religiões e ciência, então é certo que há muita fé religiosa que é incompatível em maior ou menor grau com a ciência, e é por isso que erra todo e qualquer ateu, como o Ludwig, que trata a crença religiosa toda por igual. Ao não distinguir aqueles credos (como o cristão) que afirmam cabalmente que nenhuma verdade de fé contradiz uma verdade de ciência, o Ludwig generaliza demais e acaba por ser injusto para com o cristianismo.
Por exemplo, o Hinduismo desconfia profundamente dos sentidos (por causa do conceito de "maya"), e por isso, é impossível a integração no hinduísmo da abordagem empírica essencial ao trabalho científico.
Outro exemplo: no Islão, a crença religiosa pode ser irracional, algo impossível na crença cristã. Por isso, é complicado conciliar, na mente do crente muçulmano, a doutrina do Islão com a metodologia do trabalho científico.
«Como as crenças científicas são todas condicionadas à premissa de haver fundamento objectivo, acessível e compreensível, para as proposições em que se crê, os cientistas têm uma exigência quase paranóica de registos de resultados, descrições detalhadas dos procedimentos, conclusões cautelosas, crítica aberta, verificação independente e todo esse aparato que nos dá confiança que, quando chegam a acordo acerca de algo, há por trás um forte fundamento para o que defendem.»
Eu não vejo nada de paranóico nisso. Essa boa escola do cientista é a boa escola da cosmovisão judaico-cristã. O cristão só pode valorizar o empirismo, uma vez que o Cristão acredita que a realidade é boa, porque é obra de um Deus bom, que não engana, e que os sentidos do Homem, feitos por Deus, são fiáveis, e que o intelecto humano, feito à imagem do de Deus, é minimamente fiável, e que ambos os intelectos partilham do uso da razão e da lógica.
Desafio o Ludwig a explicar como é que essa escola científica teria chegado aos nossos dias se não tivesse sido precisamente a Igreja Católica a pior inimiga das heresias opostas a essa escola, como a heresia gnóstica, ou a tradição hermético/ocultista ocidental, que via magia e "poderes ocultos" na Natureza.
«As religiões fazem o contrário. A crença incondicional e dogmática vira as religiões para dentro, para as suas figuras de autoridade ou escritos sagrados onde o fundamento último de tudo é o mistério insondável da fé.»
Isto é uma heresia cristã: chama-se "fideísmo". É estranhíssimo, mas está longe de ser um caso raro, que tantos ateus continuem a insistir numa generalização que acaba por ser injusta para com a Igreja Católica.
Como se pode ver aqui, a Igreja justamente considerou herética a filosofia de crença que o Ludwig tanto critica, e que ele julga erradamente ser algo geral e comum a todas as religiões. Há muitas religiões, mas não a cristã, que pensam assim. Vendo bem, da heresia do "fideísmo" à superstição pura e dura vai um passo curto.
Termino com um desafio: peço ao Ludwig que me aponte uma contradição, basta apenas uma, entre doutrina católica e ciência. Note-se bem: não pergunto se há coisas na doutrina católica que a ciência não pode nem provar nem refutar (é certo que as há). Pergunto se há verdades científicas que tenham refutado pontos da doutrina cristã...
Porque será que não existem?
Será só sorte da doutrina cristã?
Estará a primeira refutação ao virar da esquina?
terça-feira, 19 de maio de 2009
Stanley L. Jaki (1924-2009)

Húngaro de nascimento, norte-americano de coração (vivia em Princeton, Nova Jérsia), o beneditino Padre Jaki doutorou-se em Teologia em 1950, no Instituto Pontifício, em Roma. Em 1957, doutorou-se em Física, na Universidade de Fordham, sob a orientação de Victor Hess. Fez investigação em História da Ciência nas universidades de Stanford, Berkeley e Princeton. Foi professor de Física durante largos anos na Universidade de Seton Hall.
No seu livro, The Relevance of Physics (1966), o Padre Jaki foi pioneiro no retirar das devidas conclusões, para a tão procurada teoria unificadora em Física, dos Teoremas da Incompletude de Kurt Gödel. Apenas em 2002, o brilhante físico Stephen Hawking deu uma palestra em Cambridge com o título "Gödel and the end of physics", tirando as mesmas conclusões que Jaki, mas 36 anos mais tarde.
Foi sensivelmente há um ano atrás que o Henrique Leitão me emprestou, de uma assentada, dois livros do Padre Jaki: The Saviour of Science e The Purpose of it all.
Passei os meses seguintes a ler estes dois livros. No final do Verão, de forma algo desordenada e caótica, dei por mim a passar pela terceira vez por algumas das páginas. Perdi horas de sono graças ao Padre Jaki. Não sei explicar o que senti ao lê-lo: uma enorme afinidade, um entusiasmo contagiante, uma alegria que só se sente quando se descobrem verdades.
Era uma inteligência superior e um cristão superior. Quem o conheceu diz que rezava pelo menos uma hora por dia, de joelhos. E que este eminente físico e historiador da ciência andava com o seu terço no bolso, para que estivesse sempre pronto a rezá-lo (1).
Quando recuperei o fôlego, depois de me ter dado conta de que o Padre Jaki era, sem dúvida, o autor contemporâneo mais importante que eu tinha descoberto nos últimos anos, dei comigo a preocupar-me com algo natural: o Pe. Jaki tinha 84 anos e não caminhava para novo.
Pensei que já nos restava pouco tempo para aproveitarmos a riqueza humana e intelectual de alguém assim. Temi pela sua morte.
Apenas hoje, com muito atraso, soube da sua morte em Madrid, no passado dia 7 de Abril, acabado de regressar de uma viagem a Roma onde proferira conferências. A fotografia acima data deste último Março, e foi tirada em Roma.
Deus Pai, benevolente, garantirá ao Padre Jaki a imensa alegria de poder conversar animadamente, e sem problemas de tempo ou fadiga, com Chesterton, Pierre Duhem ou com o Cardeal Newman.
A nós, resta-nos a tristeza da separação de uma pessoa tão valiosa. E restam-nos os seus livros (mais livros do Padre Jaki aqui).
(1) Stanley L. Jaki by Rev. George W. Rutler, 21-4-2009.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
quinta-feira, 24 de abril de 2008
O processo contra Galileu
A motivação para escrever um trabalho sobre o processo do Santo Ofício contra Galileu nasceu do artigo Mais hipocrisias do Ricardo Silvestre (Portal Ateu) a propósito da recente decisão da Santa Sé em homenagear Galileu erigindo um busto seu.
O Ricardo criticava essa decisão, e eu comecei por comentar que não via razão de ser para tais críticas, uma vez que o caso Galileu, sendo certamente uma página triste na história da Igreja, não devia ser interpretado como um exemplo de uma presumida incompatibilidade "institucional" entre Fé e Ciência, mas sim como um acontecimento historicamente complexo e carregado de motivações pessoais e erros humanos.
Após a troca de alguns comentários, o Ricardo convidou-me para redigir um texto de resposta. Aproveitei a simpatia do convite para fazer um estudo mais detalhado sobre este tema. Rapidamente me dei conta de que era um tema verdadeiramente complexo e difícil.
Como sincero crente católico, encarei este desafio do Ricardo como uma oportunidade para dedicar algum tempo ao estudo frontal do caso Galileu. Parti para esse estudo convencido de que, no pesar das responsabilidades, caberia a Galileu alguma culpa no desenrolar dos acontecimentos. Terminado este breve estudo, concluo que é complicado atribuir a Galileu qualquer culpa objectiva, mesmo considerando a sua legítima predisposição para debates apaixonados sobre temas polémicos, como era então o da interpretação das Sagradas Escrituras à luz das recentes descobertas científicas.
Seguindo o mote evangélico tão usado pelo Papa João Paulo II, "não tenhais medo", e na linha da afirmação fundamental que encontramos no evangelista São João, "a verdade vos libertará", encaro de frente todos os erros cometidos pelos responsáveis da Igreja da qual faço parte, seguro de que tais erros, manchando o currículo de alguns responsáveis católicos, deixam intacta a sacra doutrina que me orgulho de professar.
A verdade trazida por Cristo liberta. Liberta a moral do ser humano, fazendo-o viver uma vida plena e com sentido, e liberta o intelecto do ser humano, fazendo-o aceder, dentro das suas capacidades, ao âmago das verdades científicas, filosóficas e teológicas. Um aprofundar do conhecimento nestas várias áreas do saber revelará, ao estudioso persistente e humilde, a existência de uma unidade explicativa fundamental que dá sentido a tudo. Os cristãos chamam a essa unidade explicativa o "logos", que serve à vez como termo grego para "Palavra" (ou "Verbo") e para "Razão".
Um católico não deve ter medo de reconhecer nem os seus erros pessoais nem os erros dos seus irmãos na fé, uma vez que não existe católico (nem ser humano) que não cometa erros. É base fundamental do cristianismo o exame de consciência, o reconhecimento dos erros, a esperança do misericordioso perdão divino, dessa palavra de salvação que simultaneamente nos liberta e nos abre o intelecto. Que nos abre o caminho para a plena realização humana.
Em suma, terminada esta introdução pessoal, eis as ideias-chave que queria apresentar sobre o tema...
1. A maioria dos ateus partilha de uma opinião errada sobre o caso Galileu: segundo essa opinião, o processo contra Galileu representaria um choque inevitável entre uma concepção atrasada do mundo porque religiosa, e uma concepção avançada do mundo porque científica; a religião vista como o domínio das "trevas", de um poder eclesiástico dominador e autoritário, que oprimia os cientistas.
2. Quase nenhuma das pessoas que partilha desta opinião alguma vez folheou os arquivos do processo; logo, tal opinião é, nada mais, nada menos do que, propaganda; alguma desta propaganda já tem mais de um século de idade.
3. Os arquivos do processo contra Galileu não estão completos: falta documentação; por exemplo, Napoleão mandou trazer os arquivos de Roma para Versalhes, e só várias décadas mais tarde é que eles foram recuperados; no entretanto, valiosos documentos, indispensáveis para reconstituir os acontecimentos, foram destruídos ou perdidos.
4. Os arquivos do processo contêm muito material em segunda mão: cópias de cartas, cópias de documentos oficiais, etc; logo, há que ter muito cuidado com a sua análise; nem sempre o que lá se lê deve ser tomado à letra.
5. Durante a vida de Copérnico, as suas ideias e obras não foram censuradas; a colocação da obra "De Revolutionibus" de Copérnico no Índex dos livros proibidos só ocorre no tempo do processo contra Galileu.
6. Galileu foi sempre um homem de fé; provavelmente, amou mais a Igreja e as verdades da Fé do que os seus adversários, mesmo os eclesiásticos.
7. O Cardeal Bellarmino, figura importante durante a primeira fase do processo (1615-1616), afirmou que estava disposto a rever a interpretação de certas passagens das Escrituras, caso surgissem provas definitivas do modelo heliocêntrico (provas que Galileu ainda não tinha), e que nessa situação, seria preciso agir com cautela, procurando corrigir os erros interpretativos do passado.
8. O caso Galileu não se compreende sem estudar primeiro dois importantes acontecimentos, o Concílio de Trento (1545-1563) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Só se entende o contexto das atitudes tomadas pelo Santo Ofício e pelo Papa tomando em consideração o surgimento da Reforma protestante e o movimento católico de reacção da Contra-Reforma, vincado no Concílio de Trento. A Guerra dos Trinta Anos ajuda a compreender o complexo tecido político de alianças e guerras menores que marcavam o pano de fundo da Europa do tempo de Galileu.
9. O processo contra Galileu está repleto de erros e fragilidades: as provas contra Galileu não são conclusivas e, no entanto, ele recebe em 1633 uma dura e injusta pena de prisão domiciliária até ao fim da sua vida.
10. O móbil do processo está fortemente ligado às variadas inimizades que Galileu foi coleccionando ao longo da vida; os seus inimigos não o conseguiram prejudicar em 1616 porque Galileu tinha amigos poderosos, e por isso, nessa primeira fase, ele não foi condenado; em 1632-33, os amigos importantes de Galileu tinham quase todos morrido, ou tinham sido arredados dos centros de poder e de decisão devido à sua incompatibilização com as posições defendidas pelo Papa relativamente à Guerra dos Trinta Anos e à guerra sucessória em Mântua (1627-1630).
Galileu, em 1632-33, ficou à mercê das denúncias e das difamações que se montaram contra ele ao longo dos anos, e não havia ninguém com influência eclesiástica para o proteger de um processo comandado pelo Santo Ofício.
11. Para além dos erros processuais, um dos grandes equívocos da Igreja foi o de não reconhecer logo após a morte de Galileu que tinham sido cometidos erros graves; um "arrastar" nos séculos que se seguiram de uma atitude proteccionista em não reconhecer estes erros explica a enorme duração histórica desta polémica.
12. Para mais, o caso Galileu foi tomado e aproveitado ao longo dos séculos seguintes, e ainda o é hoje em dia, por pessoas vincadamente anticlericais e anticatólicas, como poderosa arma de propaganda. Foi assim que se propagou a ideia de que o caso Galileu mostraria que a Fé cristã seria incompatível com a Ciência. Este tipo de propaganda ainda é, nos nossos dias, eficazmente veiculada aos alunos do Ensino Secundário, que não recebem a necessária preparação histórica, científica e filosófica para se poder lidar com as complexidades deste caso.
CONCLUSÃO:
a) a tradição cristã (p. ex., em São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho) consolidou a necessidade de ajustar as interpretações das Escrituras às verdades científicas; para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência, porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro;
b) o processo contra Galileu foi um grave erro disciplinar; como o Papa Urbano VIII não se pronunciou "ex cathedra", porque o julgamento foi sobre matéria disciplinar e não doutrinária, não se aplica a infalibilidade papal; de modo análogo, a colocação de obras em defesa do heliocentrismo no Índex de livros proibidos não possui o carácter positivo de uma afirmação sobre doutrina de fé e moral cristãs, pelo que também não se enquadra no contexto da infalibilidade papal, e tratam-se assim de decisões que podem ser reformadas ou revogadas.
A Santa Sé reconheceu os erros e a injustiça do processo contra Galileu (Papa João Paulo II - 1992).
Este reconhecimento, há muito necessário, não invalida a infalibilidade do Papa em matéria de doutrina e moral.
O Papa Bento XVI segue a mesma leitura de João Paulo II: rejeitou, por exemplo, a opinião do ateu Feyerabend, que considerava que o julgamento de Galileu fora justo. Esta rejeição das ideias de Feyerabend foi entendida em sentido oposto pelos equivocados signatários da recente petição na Universidade de Roma, La Sapienza, contra a vinda do Papa àquela instituição.
O processo contra Galileu, bem como alguns acontecimentos contemporâneos ligados ao tema, estão expostos cronologicamente num texto que fica permanentemente disponível na lista de artigos que consta da margem direita deste blogue.
Bernardo Motta
O Ricardo criticava essa decisão, e eu comecei por comentar que não via razão de ser para tais críticas, uma vez que o caso Galileu, sendo certamente uma página triste na história da Igreja, não devia ser interpretado como um exemplo de uma presumida incompatibilidade "institucional" entre Fé e Ciência, mas sim como um acontecimento historicamente complexo e carregado de motivações pessoais e erros humanos.
Após a troca de alguns comentários, o Ricardo convidou-me para redigir um texto de resposta. Aproveitei a simpatia do convite para fazer um estudo mais detalhado sobre este tema. Rapidamente me dei conta de que era um tema verdadeiramente complexo e difícil.
Como sincero crente católico, encarei este desafio do Ricardo como uma oportunidade para dedicar algum tempo ao estudo frontal do caso Galileu. Parti para esse estudo convencido de que, no pesar das responsabilidades, caberia a Galileu alguma culpa no desenrolar dos acontecimentos. Terminado este breve estudo, concluo que é complicado atribuir a Galileu qualquer culpa objectiva, mesmo considerando a sua legítima predisposição para debates apaixonados sobre temas polémicos, como era então o da interpretação das Sagradas Escrituras à luz das recentes descobertas científicas.
Seguindo o mote evangélico tão usado pelo Papa João Paulo II, "não tenhais medo", e na linha da afirmação fundamental que encontramos no evangelista São João, "a verdade vos libertará", encaro de frente todos os erros cometidos pelos responsáveis da Igreja da qual faço parte, seguro de que tais erros, manchando o currículo de alguns responsáveis católicos, deixam intacta a sacra doutrina que me orgulho de professar.
"No Evangelho que acabamos de escutar, Jesus diz a seus Apóstolos que acreditem nele, porque Ele é «o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Cristo é o caminho que conduz ao Pai, a verdade que dá sentido à existência humana, e a fonte dessa vida que é alegria eterna com todos os Santos no Reino dos céus. Acolhamos estas palavras do Senhor. Renovemos a nossa fé nele e ponhamos nossa esperança em suas promessas."- Papa Bento XVI, Homilia da Missa no Yankee Stadium, Nova Iorque, 20 de Abril de 2008.
A verdade trazida por Cristo liberta. Liberta a moral do ser humano, fazendo-o viver uma vida plena e com sentido, e liberta o intelecto do ser humano, fazendo-o aceder, dentro das suas capacidades, ao âmago das verdades científicas, filosóficas e teológicas. Um aprofundar do conhecimento nestas várias áreas do saber revelará, ao estudioso persistente e humilde, a existência de uma unidade explicativa fundamental que dá sentido a tudo. Os cristãos chamam a essa unidade explicativa o "logos", que serve à vez como termo grego para "Palavra" (ou "Verbo") e para "Razão".
Um católico não deve ter medo de reconhecer nem os seus erros pessoais nem os erros dos seus irmãos na fé, uma vez que não existe católico (nem ser humano) que não cometa erros. É base fundamental do cristianismo o exame de consciência, o reconhecimento dos erros, a esperança do misericordioso perdão divino, dessa palavra de salvação que simultaneamente nos liberta e nos abre o intelecto. Que nos abre o caminho para a plena realização humana.
Em suma, terminada esta introdução pessoal, eis as ideias-chave que queria apresentar sobre o tema...
1. A maioria dos ateus partilha de uma opinião errada sobre o caso Galileu: segundo essa opinião, o processo contra Galileu representaria um choque inevitável entre uma concepção atrasada do mundo porque religiosa, e uma concepção avançada do mundo porque científica; a religião vista como o domínio das "trevas", de um poder eclesiástico dominador e autoritário, que oprimia os cientistas.
2. Quase nenhuma das pessoas que partilha desta opinião alguma vez folheou os arquivos do processo; logo, tal opinião é, nada mais, nada menos do que, propaganda; alguma desta propaganda já tem mais de um século de idade.
3. Os arquivos do processo contra Galileu não estão completos: falta documentação; por exemplo, Napoleão mandou trazer os arquivos de Roma para Versalhes, e só várias décadas mais tarde é que eles foram recuperados; no entretanto, valiosos documentos, indispensáveis para reconstituir os acontecimentos, foram destruídos ou perdidos.
4. Os arquivos do processo contêm muito material em segunda mão: cópias de cartas, cópias de documentos oficiais, etc; logo, há que ter muito cuidado com a sua análise; nem sempre o que lá se lê deve ser tomado à letra.
5. Durante a vida de Copérnico, as suas ideias e obras não foram censuradas; a colocação da obra "De Revolutionibus" de Copérnico no Índex dos livros proibidos só ocorre no tempo do processo contra Galileu.
6. Galileu foi sempre um homem de fé; provavelmente, amou mais a Igreja e as verdades da Fé do que os seus adversários, mesmo os eclesiásticos.
7. O Cardeal Bellarmino, figura importante durante a primeira fase do processo (1615-1616), afirmou que estava disposto a rever a interpretação de certas passagens das Escrituras, caso surgissem provas definitivas do modelo heliocêntrico (provas que Galileu ainda não tinha), e que nessa situação, seria preciso agir com cautela, procurando corrigir os erros interpretativos do passado.
8. O caso Galileu não se compreende sem estudar primeiro dois importantes acontecimentos, o Concílio de Trento (1545-1563) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Só se entende o contexto das atitudes tomadas pelo Santo Ofício e pelo Papa tomando em consideração o surgimento da Reforma protestante e o movimento católico de reacção da Contra-Reforma, vincado no Concílio de Trento. A Guerra dos Trinta Anos ajuda a compreender o complexo tecido político de alianças e guerras menores que marcavam o pano de fundo da Europa do tempo de Galileu.
9. O processo contra Galileu está repleto de erros e fragilidades: as provas contra Galileu não são conclusivas e, no entanto, ele recebe em 1633 uma dura e injusta pena de prisão domiciliária até ao fim da sua vida.
10. O móbil do processo está fortemente ligado às variadas inimizades que Galileu foi coleccionando ao longo da vida; os seus inimigos não o conseguiram prejudicar em 1616 porque Galileu tinha amigos poderosos, e por isso, nessa primeira fase, ele não foi condenado; em 1632-33, os amigos importantes de Galileu tinham quase todos morrido, ou tinham sido arredados dos centros de poder e de decisão devido à sua incompatibilização com as posições defendidas pelo Papa relativamente à Guerra dos Trinta Anos e à guerra sucessória em Mântua (1627-1630).
Galileu, em 1632-33, ficou à mercê das denúncias e das difamações que se montaram contra ele ao longo dos anos, e não havia ninguém com influência eclesiástica para o proteger de um processo comandado pelo Santo Ofício.
11. Para além dos erros processuais, um dos grandes equívocos da Igreja foi o de não reconhecer logo após a morte de Galileu que tinham sido cometidos erros graves; um "arrastar" nos séculos que se seguiram de uma atitude proteccionista em não reconhecer estes erros explica a enorme duração histórica desta polémica.
12. Para mais, o caso Galileu foi tomado e aproveitado ao longo dos séculos seguintes, e ainda o é hoje em dia, por pessoas vincadamente anticlericais e anticatólicas, como poderosa arma de propaganda. Foi assim que se propagou a ideia de que o caso Galileu mostraria que a Fé cristã seria incompatível com a Ciência. Este tipo de propaganda ainda é, nos nossos dias, eficazmente veiculada aos alunos do Ensino Secundário, que não recebem a necessária preparação histórica, científica e filosófica para se poder lidar com as complexidades deste caso.
CONCLUSÃO:
a) a tradição cristã (p. ex., em São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho) consolidou a necessidade de ajustar as interpretações das Escrituras às verdades científicas; para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência, porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro;
b) o processo contra Galileu foi um grave erro disciplinar; como o Papa Urbano VIII não se pronunciou "ex cathedra", porque o julgamento foi sobre matéria disciplinar e não doutrinária, não se aplica a infalibilidade papal; de modo análogo, a colocação de obras em defesa do heliocentrismo no Índex de livros proibidos não possui o carácter positivo de uma afirmação sobre doutrina de fé e moral cristãs, pelo que também não se enquadra no contexto da infalibilidade papal, e tratam-se assim de decisões que podem ser reformadas ou revogadas.
A Santa Sé reconheceu os erros e a injustiça do processo contra Galileu (Papa João Paulo II - 1992).
Este reconhecimento, há muito necessário, não invalida a infalibilidade do Papa em matéria de doutrina e moral.
O Papa Bento XVI segue a mesma leitura de João Paulo II: rejeitou, por exemplo, a opinião do ateu Feyerabend, que considerava que o julgamento de Galileu fora justo. Esta rejeição das ideias de Feyerabend foi entendida em sentido oposto pelos equivocados signatários da recente petição na Universidade de Roma, La Sapienza, contra a vinda do Papa àquela instituição.
O processo contra Galileu, bem como alguns acontecimentos contemporâneos ligados ao tema, estão expostos cronologicamente num texto que fica permanentemente disponível na lista de artigos que consta da margem direita deste blogue.
Bernardo Motta
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Modern Physics and Ancient Faith

Já não é propriamente recente, mas sucede que só descobri este livro (Modern Physics and Ancient Faith, University of Notre Dame Press, E.U.A., 2006) há pouco tempo, quando me foi emprestado por um amigo. A obra de Stephen M. Barr, físico de formação, investigador, professor universitário na Universidade de Delaware, e católico desde sempre, é fundamental. Contém uma argumentação estruturada e racional que defende a compatibilidade entre a religião cristã e a física moderna. Stephen M. Barr alude à teoria do "Big Bang", às inovadoras teorias cosmológicas que desafiam o modelo clássico do "Big Bang", à física quântica e aos seus desenvolvimentos mais recentes, e a muitas outras teorias para demonstrar como estas, longe de refutar a religião cristã, podem elucidar alguns dos seus aspectos.
A vantagem de Barr, para além de uma clareza invejável na escrita, e de uma capacidade incrível para explicar coisas complicadas de forma simples (veja-se o apêndice sobre os teoremas da incompletude de Kurt Gödel), está em que é duplamente competente, tanto em física como em religião cristã. Isso faz toda a diferença nesta obra indispensável.
Uma entrevista a Barr, feita por Mark Brumley a 25 de Setembro de 2006, pode ser lida aqui:
The Mythological Conflict Between Christianity and Science
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
O Deus de Dawkins
(este texto foi aumentado após publicação)
Alister McGrath, ex-ateu, cientista, filósofo, e teólogo anglicano, defronta o cientista ateu Richard Dawkins:
http://video.google.com/videoplay?docid=6474278760369344626
Dawkins, cuja carreira começou brilhantemente como divulgador científico de grande argúcia e sentido pedagógico, tem insistido, nas últimas duas décadas, na vertente de ateísta prosélito, advogando que a explicação científica neo-darwinista impõe forçosamente o ateísmo como conclusão para todas as mentes racionais.
O vídeo é longo, o debate é muito interessante, e é certo que nenhuma das partes convence a outra. Mas não deixa de ser um debate apaixonante e informativo.
Vemos ao vivo, por exemplo, como Dawkins tem dificuldade em pensar no registo filosófico, apesar de ser um brilhante pensador no registo científico. A sugestão, feita por Dawkins, de que o próprio lidaria melhor com um Deus localizado no espaço e no tempo, estando até disposto a discutir essa tese, é um bom exemplo dessa incapacidade para pensar de forma filosófica abstracta.
Deus não tem existência num espaço ou num lugar próprio. Deus é a fonte de toda a existência, e por isso, não pode ser "achado" em parte alguma ou num qualquer instante temporal.
Dawkins não parece ter grande facilidade em compreender este conceito: logo, reduz esse conceito de Deus a uma espécie de "Deus à Dawkins", contra o qual ele pretende lutar com todas as suas forças, tal qual D. Quixote contra moinhos ilusórios.
O "Deus à Dawkins" é uma ilusão. Alister McGrath demonstra-o de forma cabal na sua obra "Dawkins' God", editada em português pela primeira vez em Janeiro deste ano pela Alêtheia, sob o título de "O Deus de Dawkins".
No entanto, o notável homem de Ciência que é Dawkins decide empregar os seus melhores anos intelectuais numa estranha guerra intelectual contra um estranho conceito fixista de "Deus relojoeiro" que só existiu nas mentes de certos pensadores pertencentes à cultura britânica vitoriana, e que hoje foi recuperado e é aceite de forma acrítica como constituindo uma visão rigorosa do que é Deus pela imensa família de admiradores de Dawkins. Como explica Alister McGrath na sua obra, o "relojoeiro cego" de Dawkins baseia-se nas críticas que Darwin fez ao conceito do "Deus relojoeiro", mas este fenómeno acaba por ser especificamente britânico. Darwin reagia às ideias de William Paley (1743-1805), que via na complexidade da Natureza a obra de um "Deus relojoeiro". Muito antes de Darwin contestar Paley, já o Cardeal John Henry Newman (1801-1890), talvez o maior teólogo britânico do século XIX, contestava as ideias de Paley, que lhe pareciam implicar uma má teologia. E assim é de facto. Por isso, a ideia que Dawkins faz de Deus provém de uma concepção de Paley, concepção essa que foi rejeitada logo no século XIX pelo Cardeal Newman.
O "Deus à Dawkins" não é o Deus cristão, muito menos o Deus católico. Curiosamente, também não é fácil encaixar o "Deus à Dawkins" no Iavé judaico, no Alá do Islão, ou no Brahma hindu. Que raio de conceito pretende Dawkins combater, com a ajuda do seu séquito de seguidores?
Como D. Quixote, Richard Dawkins combate uma ideia imaginária de Deus, que vive presentemente na sua cabeça.
No vídeo acima referido, Dawkins consegue, a certa altura, encurralar McGrath na questão do Mal, que no entanto é uma questão demasiado complexa para ser abordada de forma segura num contexto destes. Dawkins pergunta a McGrath como é que ele explica, ao mesmo tempo, que Deus não é responsável pelas grandes catástrofes, como a do último grande tsunami asiático, e ao mesmo tempo, a teologia tende a ver a acção de Deus no milagre de salvar uma criança desta catástrofe, sem no entanto salvar todas. McGrath, conseguindo esgrimir alguns argumentos, debate-se de facto com um momento menos inspirado.
E, no entanto, era possível tecer uma argumentação neste sentido: o Mundo criado, Homem incluído, tem duas características interessantes para esta questão: imperfeição e liberdade. Se a imperfeição é indiscutível, mesmo para um ateu, a questão da liberdade merece ser vista com mais detalhe. Há, de certo modo, "liberdade" na natureza no sentido em que esta possui leis próprias que regem o seu funcionamento. A deriva das placas tectónicas explica os terramotos, que por sua vez explicam o tsunami. A construção humana junto à orla marítima, conjugada com a desgraça do tsunami, ajudam a entender o número elevado de mortos. Neste sentido, as leis da natureza constituem um conjunto de regras, dentro das quais o mundo natural segue livremente o seu curso, sem intervenção divina (apesar de Deus ser, obviamente, necessário para a existência do mundo e das leis que o regem). Assim, pode-se falar em "liberdade" na natureza, se bem que uma liberdade sem vontade. A liberdade humana, essa sim, possui vontade. Se as consequências "maléficas" das catástrofes naturais advêm de leis naturais num mundo onde o homem constrói habitações que nunca estão imunes ao risco, tais catástrofes não derivam de nenhuma vontade, nem da natureza nem de Deus. Deus criou um mundo como ele é, sujeito a leis próprias, e Deus não está permanentemente na regência de todos os fenómenos.
Já o Homem, quando procura e quer o Mal, é um agente livre dotado de vontade, seja para exercer esse mal usando ilicitamente a religião como método (o terrorista fanático-religioso) ou a ciência como método (sofisticadas armas nucleares, químicas e biológicas). Nesse sentido, McGrath poderia ter dito a Dawkins que Deus não impediu nem sabotou a viagem dos aviões contra as Torres Gémeas porque porventura tem um destino reservado para os terroristas bem diferente do que guarda para as suas vítimas. McGrath poderia ter dito só isto: Deus é justo mas a forma como ele exerce ou exercerá a Sua justiça é-nos desconhecida em grande medida.
No fundo, a desgraça do tsunami tem a ver com a liberdade e imperfeição inerentes à própria natureza criada por Deus, bem como com as opções livres do Homem que tem que optar por um local onde morar, sabendo à partida que nenhum local físico é perpetuamente seguro e à prova de catástrofes.
McGrath também poderia ter dito a Dawkins que as opções divinas de intervir ou não, para salvar este ou aquele, não nos mostram tudo o que Deus quer para nós. A justiça divina exerce-se neste e no outro mundo. Para quem apenas vê metade do "filme" como nós, é possível supor que a morte de inocentes numa catástrofe será compensada de outro modo qualquer por Deus. Por outro lado, a sobrevivência de uma ou outra pessoa de uma catástrofe natural pode obedecer a uma intenção específica de Deus para aquela pessoa: uma decisão divina de ainda não a chamar para junto de si, intervindo na natureza para evitar a sua morte.
O Deus cristão é um meio termo entre um ilusório "Deus relojoeiro" (que teria criado tudo e assistiria impávido a tudo sem intervir) e um ilusório "Deus tirano" (que roubaria à Criação a liberdade de acção). O Deus cristão intervém na natureza, sempre que assim o entende. É neste conceito que reside o sentido do "milagre", como acontecimento natural extraordinário cuja causa é sobrenatural.
Tudo isto é complicado, e nenhuma explicação racional que façamos é fechada. O que podemos é evitar as incoerências, como aquela de Dawkins dizer, mesmo no final do vídeo, que quer cortar a religião pela raiz porque ela é a "fonte de todo o mal", e porque ela pode ser usada para o mal. Que estranha incoerência: se a religião é a fonte de todo o mal, então não só ela pode ser usada para o mal como deverá sempre gerar o mal. Ao dizer que algo é a raiz absoluta do mal, torna-se necessário que tudo o que brote desse algo seja maléfico. É uma questão de lógica. E o mesmo Dawkins, que foi poupado tantas e tantas vezes neste debate por um manso e humilde McGrath, poderia ter sido fulminado com esta óbvia incongruência: a ciência também pode ser usada para o mal, e não é por isso que a vamos "cortar pela raiz"...
É que Dawkins pega no problema pelo lado oposto. A ambivalência da religião também serve para a ciência. Ambas podem ser bem empregues ou mal empregues, porque a opção moral está, afinal de contas, no Homem de ciência ou no Homem de fé. Se essa pessoa optar bem, usará bem a Ciência. Se optar bem, usará bem a Fé. Mas pode optar por usar qualquer uma delas para servir maus propósitos. Mais uma vez: a explicação para o mal encontra-se na imperfeição e na liberdade da Criação, Homem incluído. Deus não é a causa do mal. Note-se que o mal, no relato genesíaco, é introduzido pela opção livre do Príncipe dos Anjos, Satanás, que em supremo exercício da sua liberdade criatural, se revolta contra Deus. De novo, esta ideia: o mal nasce da liberdade da criatura finita e imperfeita, mas não é necessário nem desejado por Deus infinito e perfeito.
Dawkins constitui um triste exemplo de como o preconceito anti-religioso, aliado a uma espécie estranha de solipsismo, pode assombrar uma brilhante carreira intelectual e académica...
No entanto, o efeito propagandístico é potente: o cientista divulgador dá voz nova e forte a uma mentira já bem velha: a de que a Ciência destruiu o conceito de Deus. O comum dos mortais pode cair facilmente nesta esparrela, porque ele próprio confia no "Dawkins cientista" e não tem tempo para estudar estas questões com profundidade. Logo, não se dá conta de que o "Dawkins filósofo" é um logro...
Alister McGrath, ex-ateu, cientista, filósofo, e teólogo anglicano, defronta o cientista ateu Richard Dawkins:
http://video.google.com/videoplay?docid=6474278760369344626
Dawkins, cuja carreira começou brilhantemente como divulgador científico de grande argúcia e sentido pedagógico, tem insistido, nas últimas duas décadas, na vertente de ateísta prosélito, advogando que a explicação científica neo-darwinista impõe forçosamente o ateísmo como conclusão para todas as mentes racionais.
O vídeo é longo, o debate é muito interessante, e é certo que nenhuma das partes convence a outra. Mas não deixa de ser um debate apaixonante e informativo.
Vemos ao vivo, por exemplo, como Dawkins tem dificuldade em pensar no registo filosófico, apesar de ser um brilhante pensador no registo científico. A sugestão, feita por Dawkins, de que o próprio lidaria melhor com um Deus localizado no espaço e no tempo, estando até disposto a discutir essa tese, é um bom exemplo dessa incapacidade para pensar de forma filosófica abstracta.
Deus não tem existência num espaço ou num lugar próprio. Deus é a fonte de toda a existência, e por isso, não pode ser "achado" em parte alguma ou num qualquer instante temporal.
Dawkins não parece ter grande facilidade em compreender este conceito: logo, reduz esse conceito de Deus a uma espécie de "Deus à Dawkins", contra o qual ele pretende lutar com todas as suas forças, tal qual D. Quixote contra moinhos ilusórios.
O "Deus à Dawkins" é uma ilusão. Alister McGrath demonstra-o de forma cabal na sua obra "Dawkins' God", editada em português pela primeira vez em Janeiro deste ano pela Alêtheia, sob o título de "O Deus de Dawkins".
No entanto, o notável homem de Ciência que é Dawkins decide empregar os seus melhores anos intelectuais numa estranha guerra intelectual contra um estranho conceito fixista de "Deus relojoeiro" que só existiu nas mentes de certos pensadores pertencentes à cultura britânica vitoriana, e que hoje foi recuperado e é aceite de forma acrítica como constituindo uma visão rigorosa do que é Deus pela imensa família de admiradores de Dawkins. Como explica Alister McGrath na sua obra, o "relojoeiro cego" de Dawkins baseia-se nas críticas que Darwin fez ao conceito do "Deus relojoeiro", mas este fenómeno acaba por ser especificamente britânico. Darwin reagia às ideias de William Paley (1743-1805), que via na complexidade da Natureza a obra de um "Deus relojoeiro". Muito antes de Darwin contestar Paley, já o Cardeal John Henry Newman (1801-1890), talvez o maior teólogo britânico do século XIX, contestava as ideias de Paley, que lhe pareciam implicar uma má teologia. E assim é de facto. Por isso, a ideia que Dawkins faz de Deus provém de uma concepção de Paley, concepção essa que foi rejeitada logo no século XIX pelo Cardeal Newman.
O "Deus à Dawkins" não é o Deus cristão, muito menos o Deus católico. Curiosamente, também não é fácil encaixar o "Deus à Dawkins" no Iavé judaico, no Alá do Islão, ou no Brahma hindu. Que raio de conceito pretende Dawkins combater, com a ajuda do seu séquito de seguidores?
Como D. Quixote, Richard Dawkins combate uma ideia imaginária de Deus, que vive presentemente na sua cabeça.
No vídeo acima referido, Dawkins consegue, a certa altura, encurralar McGrath na questão do Mal, que no entanto é uma questão demasiado complexa para ser abordada de forma segura num contexto destes. Dawkins pergunta a McGrath como é que ele explica, ao mesmo tempo, que Deus não é responsável pelas grandes catástrofes, como a do último grande tsunami asiático, e ao mesmo tempo, a teologia tende a ver a acção de Deus no milagre de salvar uma criança desta catástrofe, sem no entanto salvar todas. McGrath, conseguindo esgrimir alguns argumentos, debate-se de facto com um momento menos inspirado.
E, no entanto, era possível tecer uma argumentação neste sentido: o Mundo criado, Homem incluído, tem duas características interessantes para esta questão: imperfeição e liberdade. Se a imperfeição é indiscutível, mesmo para um ateu, a questão da liberdade merece ser vista com mais detalhe. Há, de certo modo, "liberdade" na natureza no sentido em que esta possui leis próprias que regem o seu funcionamento. A deriva das placas tectónicas explica os terramotos, que por sua vez explicam o tsunami. A construção humana junto à orla marítima, conjugada com a desgraça do tsunami, ajudam a entender o número elevado de mortos. Neste sentido, as leis da natureza constituem um conjunto de regras, dentro das quais o mundo natural segue livremente o seu curso, sem intervenção divina (apesar de Deus ser, obviamente, necessário para a existência do mundo e das leis que o regem). Assim, pode-se falar em "liberdade" na natureza, se bem que uma liberdade sem vontade. A liberdade humana, essa sim, possui vontade. Se as consequências "maléficas" das catástrofes naturais advêm de leis naturais num mundo onde o homem constrói habitações que nunca estão imunes ao risco, tais catástrofes não derivam de nenhuma vontade, nem da natureza nem de Deus. Deus criou um mundo como ele é, sujeito a leis próprias, e Deus não está permanentemente na regência de todos os fenómenos.
Já o Homem, quando procura e quer o Mal, é um agente livre dotado de vontade, seja para exercer esse mal usando ilicitamente a religião como método (o terrorista fanático-religioso) ou a ciência como método (sofisticadas armas nucleares, químicas e biológicas). Nesse sentido, McGrath poderia ter dito a Dawkins que Deus não impediu nem sabotou a viagem dos aviões contra as Torres Gémeas porque porventura tem um destino reservado para os terroristas bem diferente do que guarda para as suas vítimas. McGrath poderia ter dito só isto: Deus é justo mas a forma como ele exerce ou exercerá a Sua justiça é-nos desconhecida em grande medida.
No fundo, a desgraça do tsunami tem a ver com a liberdade e imperfeição inerentes à própria natureza criada por Deus, bem como com as opções livres do Homem que tem que optar por um local onde morar, sabendo à partida que nenhum local físico é perpetuamente seguro e à prova de catástrofes.
McGrath também poderia ter dito a Dawkins que as opções divinas de intervir ou não, para salvar este ou aquele, não nos mostram tudo o que Deus quer para nós. A justiça divina exerce-se neste e no outro mundo. Para quem apenas vê metade do "filme" como nós, é possível supor que a morte de inocentes numa catástrofe será compensada de outro modo qualquer por Deus. Por outro lado, a sobrevivência de uma ou outra pessoa de uma catástrofe natural pode obedecer a uma intenção específica de Deus para aquela pessoa: uma decisão divina de ainda não a chamar para junto de si, intervindo na natureza para evitar a sua morte.
O Deus cristão é um meio termo entre um ilusório "Deus relojoeiro" (que teria criado tudo e assistiria impávido a tudo sem intervir) e um ilusório "Deus tirano" (que roubaria à Criação a liberdade de acção). O Deus cristão intervém na natureza, sempre que assim o entende. É neste conceito que reside o sentido do "milagre", como acontecimento natural extraordinário cuja causa é sobrenatural.
Tudo isto é complicado, e nenhuma explicação racional que façamos é fechada. O que podemos é evitar as incoerências, como aquela de Dawkins dizer, mesmo no final do vídeo, que quer cortar a religião pela raiz porque ela é a "fonte de todo o mal", e porque ela pode ser usada para o mal. Que estranha incoerência: se a religião é a fonte de todo o mal, então não só ela pode ser usada para o mal como deverá sempre gerar o mal. Ao dizer que algo é a raiz absoluta do mal, torna-se necessário que tudo o que brote desse algo seja maléfico. É uma questão de lógica. E o mesmo Dawkins, que foi poupado tantas e tantas vezes neste debate por um manso e humilde McGrath, poderia ter sido fulminado com esta óbvia incongruência: a ciência também pode ser usada para o mal, e não é por isso que a vamos "cortar pela raiz"...
É que Dawkins pega no problema pelo lado oposto. A ambivalência da religião também serve para a ciência. Ambas podem ser bem empregues ou mal empregues, porque a opção moral está, afinal de contas, no Homem de ciência ou no Homem de fé. Se essa pessoa optar bem, usará bem a Ciência. Se optar bem, usará bem a Fé. Mas pode optar por usar qualquer uma delas para servir maus propósitos. Mais uma vez: a explicação para o mal encontra-se na imperfeição e na liberdade da Criação, Homem incluído. Deus não é a causa do mal. Note-se que o mal, no relato genesíaco, é introduzido pela opção livre do Príncipe dos Anjos, Satanás, que em supremo exercício da sua liberdade criatural, se revolta contra Deus. De novo, esta ideia: o mal nasce da liberdade da criatura finita e imperfeita, mas não é necessário nem desejado por Deus infinito e perfeito.
Dawkins constitui um triste exemplo de como o preconceito anti-religioso, aliado a uma espécie estranha de solipsismo, pode assombrar uma brilhante carreira intelectual e académica...
No entanto, o efeito propagandístico é potente: o cientista divulgador dá voz nova e forte a uma mentira já bem velha: a de que a Ciência destruiu o conceito de Deus. O comum dos mortais pode cair facilmente nesta esparrela, porque ele próprio confia no "Dawkins cientista" e não tem tempo para estudar estas questões com profundidade. Logo, não se dá conta de que o "Dawkins filósofo" é um logro...
quinta-feira, 29 de março de 2007
Ludwig e os "mafaguinhos"
O meu caríssimo Ludwig brindou-me, recentemente, com um texto que, não sendo inteiramente dedicado à minha pessoa, começa, não obstante, com uma citação a uma frase minha, o que muito me apraz.
[Importa dizer, logo à partida, que não há uma só grama de ironia ou de sarcasmo nestas minhas palavras. Tenho a certeza de que as pequenas provocações do Ludwig não são gratuitas ou estéreis, e que constituem apenas a capa estilista usada por ele para fazer passar um raciocínio que suponho sério.]
«O Bernardo Motta apontou que «em grego, "pistis" (fé) é um termo bem diferente de "gnosis" (conhecimento).» Em Português também. Feliz coincidência. Assim não precisamos continuar a conversa em Grego.»
Para quem não leu o meu comentário que deu origem a esta nota de Ludwig, importa repetir o trecho em questão, para que se perceba que não estava em jogo qualquer tipo de elitismo linguístico oco e inconsequente. Até porque este vosso miserável escriba não sabe ler grego, e muito menos escrever ou falar em grego. O meu elementar conhecimento de uma mão cheia de palavras em grego não chega, evidentemente, para que me possa apresentar como fluente na língua helénica, nem era essa a ideia.
Vejamos o meu trecho em questão:
«Urge distinguir entre a crença sem conhecimento e a crença com conhecimento. Em grego, "pistis" (fé) é um termo bem diferente de "gnosis" (conhecimento). No entanto, elas podem coexistir no intelecto de um crente conhecedor. No meu percurso pessoal, a adesão pística foi essencial para o conhecimento que dela adveio.»
Note-se como a palavra “crença” surge duas vezes, juntamente com a expressão “percurso pessoal”. Isto de nada vale para quem não me conhece (não que haja grande relevância em conhecer-me!), mas há que sublinhar que o trecho acima repetido era apenas um mero comentário dirigido a uma pessoa em concreto, Ludwig, que sabe bem que os termos “crença” e “percurso pessoal”, se escritos por mim, referem-se ao meu percurso de crente cristão.
Nesse contexto, que importa conhecer para se entender porque razão a fiz, a alusão ao grego é essencial, porque provém do facto de que essa língua é a base da formalização do pensamento cristão. Apesar de o latim ser a língua oficial da Igreja Católica, não há como negar que, na génese do cristianismo, a língua de eleição foi o grego, e nela foi vertida uma míriade de textos patrísticos de valor intelectual inestimável, e muitas vezes totalmente desconhecidos. Por exemplo, é da total ignorância acerca da Patrística que nasce uma das teorias anti-cristãs mais populares dos nossos tempos: a teoria de que a doutrina da Igreja Católica seria, sobretudo, romana e pagã, resultando da obra política de Constantino, e de que tal doutrina estaria muito longe da doutrina de salvação proposta por Jesus Cristo. Obviamente, só é possível sustentar tal asneira quando nunca se leu uma só linha de um qualquer autor patrístico.
Como se vê, para qualquer cristão que procura ir às origens da sua doutrina, o grego é uma língua de referência. Por essa boa razão, eu quis trazer para a conversa os dois termos gregos, “pistis” (fé) e “gnosis” (conhecimento) porque tais termos são empregues com abundância pelos Padres da Igreja que escreveram em grego, o que demonstra cabalmente que, ao invés do que poderá defender um leitor de Ludwig (o próprio Ludwig sabe-o bem e não cometeria erros grosseiros desse calibre), a fé verdadeira não vive sobre a ignorância nem apela à ignorância como solidificação de si mesma: a fé é o prelúdio necessário ao conhecimento. A patrística cristã alude à fé e ao conhecimento como duas modalidades distintas e complementares da intelectualidade cristã. Ambas são indispensáveis, no sentido em que a gnosis (o conhecimento de Deus) é o destino, o objectivo, e a pistis é o caminho, o percurso. Embora aceite facilmente que tenham existido raros cristãos que alcançaram, com a graça de Deus, a plenitude da gnose cristã (o misticismo cristão está repleto de bons exemplos), suspeito que nenhum desses casos teria sucedido sem o suporte da fé, o que seria sinal de invulgares qualidades espirituais (estranhas ao ser humano), diria mesmo “sobre-humanas”.
E, dado o carácter único de Deus, a sua infinitude obriga a uma relação necessariamente assimétrica entre Ele e a criatura finita. Mas isso não significa que Deus esteja inacessível ao ser humano:
São Tomás: «De facto, quanto aos bem-aventurados, eles certamente atingem com a mente a essência divina, mas não a compreenderão», De divinis nominibus, 22.
O que quer isto dizer? “Não a compreenderão”, na acepção literal de compreender, ou seja, “abarcar”. O que é um truísmo: a criatura finita não pode abarcar (compreender) o Deus Infinito. Contudo, sendo o intelecto humano a “ponte” que este tem para o universal, é certo que o homem pode, se for persistente e “bem-aventurado”, «atingir com a mente a essência divina».
Ludwig continua:
«Eu propus que a verificação independente permite distinguir o conhecimento da mera crença. O Bernardo retorquiu que:
«eu faço a "verificação independente" da justeza e veracidade da minha fé por intermédio de operações intelectuais.»
É como fazer eu próprio a verificação independente da minha declaração de impostos. Será que a DGCI vai na conversa? Por verificação independente quero dizer mesmo isso. Independente. Se o aluno diz que sabe a matéria, o professor verifica. Se um cientista propõe uma hipótese, outro cientista verifica. Independentemente. E nunca por mera operação intelectual. Algures, alguma ideia será confrontada com alguma observação, senão não se verifica nada. Aposto que em Grego «verificar» e «olhar para o umbigo» também são termos diferentes.»
O meu caro Ludwig parece ignorar, por breves instantes, que está a criticar um mero comentário, curtas notas soltas escritas de forma despreocupada, num espaço limitado e desadequado a grandes exposições. Mas vou agora tentar ser mais claro, dispondo de espaço e oportunidade para o fazer.
Há dois aspectos que importa analisar separadamente: “verificação”, e “independente”. Comecemos pelo primeiro...
Estas singulares palavras de Ludwig levantam imediatamente, no meu espírito limitado, uma série de questões que me parecem de monta. Primeiro, é preciso sublinhar que a verificação de qualquer tese é sempre uma operação intelectual, sendo também certo (nunca afirmei o contrário) que muitas das verificações que fazemos quotidianamente recorrem ao auxílio dos sentidos (Aristóteles atribuía estas operações intelectuais ao que ele determinou chamar de “intelecto possível”). Mesmo quando um cientista procura demonstrar, recorrendo ao método experimental, a adequação de uma tese à realidade de um dado fenómeno, ele está permanentemente a aplicar operações intelectuais. Operações que mais nenhum animal por nós conhecido é capaz de efectuar, mesmo sabendo-se que muitos animais também possuem equipamento sensorial. Não será também isto uma pista interessante?
Podemos dizer, sob um determinado ponto de vista (o do objecto do conhecimento), que há duas classes ou categorias de operação intelectual no ser humano que importa considerar agora como distintas:
a) Operação intelectual sobre objectos apreensíveis empiricamente: é a mais corrente, e qualquer verificação científica por método experimental usa-a quotidianamente;
b) Operação intelectual sobre objectos supra-empíricos (ideais): é uma operação comum ao filósofo, por exemplo; neste caso a verificação da veracidade de uma tese ou raciocínio é uma operação puramente intelectual (usa-se como ferramenta central a Lógica), que não carece necessariamente de confronto com o nível empírico da realidade; o facto de, em muitos casos, o filósofo recorrer a analogias que nascem do empírico não nos deve enganar: o ser humano usa o mental, quase sempre, com base em imagens, em experiências sensoriais anteriores a um presente raciocínio; no entanto, a analogia é uma ferramenta potente, porque podemos perfeitamente usá-la para apreender objectos supra-empíricos; um exemplo: quando usamos o termo “reflectir”, vem-nos logo à mente a imagem de um espelho: as operações reflexivas que ocorrem na nossa mente, quando veras, resultam da “reflexão” de um arquétipo no “plano” do nosso intelecto; o recurso a um termo que invoca experiências sensoriais com superfícies reflectoras ajuda-nos a compreender o próprio processo de conhecimento.
Poderíamos ainda falar do conhecimento metafísico, cuja natureza é intuitiva e não dedutiva, mas nem vale a pena ir mais além do segundo tipo de operação referido. É evidente que, negando o metafísico, Ludwig negue sequer que se possam efectuar operações intelectuais em tal domínio. O problema de Ludwig vem mais de trás: Ludwig parece não aceitar sequer que a operação mental feita pelo filósofo sobre uma determinada ideia seja, realmente, uma “verificação” válida! Isto é puro consensualismo (ver adiante), é o negar de qualquer valor à evidência individual! No entanto, dada a sua formação científica, o Ludwig conhece bem as ferramentas da Lógica. Só que parece apenas querer aplicá-las sobre objectos empíricos, duvidando da sua utilidade no tratamento de objectos supra-empíricos, como as ideias.
O que diria, Ludwig, acerca do trabalho científico na área filosófica específica dos argumentos ontológicos? Será que se trata de trabalho intelectual vão, por não gerar aplicações práticas ou por não estar fundamentado em verificações empíricas?
Veja, por exemplo:
Ontological Arguments
É curioso…
A eterna discussão em torno da Teoria do Conhecimento, que ocupa filósofos de todos os continentes desde a aurora do pensamento humano, uma questão que está longe de estar encerrada (nunca esteve tão em aberto), encontra-se dramaticamente simplificada na cosmovisão de Ludwig: para ele, parece que o conhecimento humano deve estar forçosamente cingido ao puro e estrito empirismo. No fundo, para Ludwig, “conhecer” não seria uma operação intelectual, carente de suporte ontológico, mas seria apenas um mero processo bioquímico explicável por elementares fenómenos positivos na matéria que compõe o nosso cérebro. “Verificação”, para Ludwig, parece ser sempre algo de sensorial, totalmente dependente da “matéria” (essa “pedra filosofal” desta modernidade caída), e é com esforço que, sequer, admitirá que, mesmo no caso elementar da verificação usando os sentidos, a operação em causa seja um processo intelectivo vero que transcenda a matéria!
Mas não quero, de forma alguma, escamotear o texto de Ludwig: a esmagadora maioria dos seus textos, de tal forma são intensos que qualquer um deles daria a possibilidade de uma extensa e profunda troca de ideias filosóficas. É o que eu queria fazer, aproveitando mais esta oportunidade por ele proporcionada.
Diz Ludwig:
«É verdade que poucas vezes precisamos desta verificação independente. Quando consultamos o horário do autocarro ou compramos bolachas basta-nos comparar crenças com observações e rever as primeiras se necessário. Não precisamos que outros confirmem cada inferência que fazemos. Mas quando há empenho pessoal numa certa conclusão, seja nos impostos, passar no exame, publicar o artigo, ou em matéria de fé, é provável que factores subjectivos guiem crenças e afirmações e as afastem da realidade. Nestes casos é importante testar a crença de uma forma independente.»
Este trecho de Ludwig é muito sensato e vejo-me forçado a concordar com ele. Adiante, falarei acerca da limitação humana, e da nossa permanente necessidade de confiar nos outros quando não estamos plenamente capazes de chegar a uma evidência individual. Curiosamente, este trecho de Ludwig ajuda-me a explicar porque razão a fé precede sempre o conhecimento, porque não é uma via alternativa e contraditória: é a via que leva àquele destino, mas já lá iremos…
Mas fica-se com a impressão de que esta “verificação independente” de que fala o Ludwig é verdadeiramente o melhor que temos para conhecer o real. É aqui que nasce a nossa profunda divergência, pelo simples e elementar facto de que eu reconheço a Deus a possibilidade (bem simples para Ele) de ter comunicado um caminho aberto para que o Homem pudesse conhecer a verdade sobre todas as coisas. Para o cristão, esse caminho chama-se Jesus Cristo.
Ludwig insiste na exclusividade do teste empírico.
Eu insisto na na ineficácia desse teste para coisas supra-empíricas.
Eu insisto na necessidade da crença em Deus (Fé) para que daí advenha conhecimento vero e descritivo do real.
Vejamos primeiro as fraquezas da visão de Ludwig, e depois vejamos a força da visão cristã que eu defendo.
As fraquezas da visão de Ludwig
Independência
O teste independente não é uma garantia de veracidade. Ludwig diz que, quando estamos pessoalmente envolvidos numa inferência, é importante evitar que «factores subjectivos guiem crenças e afirmações e as afastem da realidade». Totalmente de acordo! Mas será que a verificação independente vai resolver o problema gnoseológico? Veremos isto adiante…
Testabilidade
O problema com o testar exclusivamente por via empírica de uma proposição é duplo:
a) só serve para proposições empíricas, ou seja, só é útil para aferir afirmações acerca da realidade empírica; não é possível testar uma tese metafísica (Karl Popper); o testar é impossível e inútil em termos metafísicos; as teses metafísicas têm que ser verificadas intelectualmente (quanto mais pessoas o fizerem, e aperfeiçoarem tal verificação – colegialidade – tanto melhor)
b) na análise de fenómenos, o teste empírico só serve para fenómenos repetitivos; é inútil em fenómenos cuja ocorrência é única e irrepetível (como testar a ressurreição de Cristo ou a concepção de Cristo no seio virginal de Maria se se trataram de eventos únicos e irrepetíveis?)
É que eu não tenho a mais pequena dúvida disto, Ludwig: se um cientista moderno estivesse presente dentro da sepultura de Cristo, naquelas dezenas de horas que se seguiram ao enterro do Mestre, e estivesse munido da mais sofisticada tecnologia de medição, ele poderia ter presenciado esse acontecimento único que foi a ressurreição. O Ludwdig, num texto mais recente, admitiu que um fenómeno inexplicável empiricamente poderia ser alvo de uma explicação metafísica, se se adequasse ao observado. Mas não havia cientistas dentro do túmulo de Cristo! Nada foi fotografado, medido, registado! Apenas testemunhos de pessoas, Ludwig, que viram o túmulo vazio e o Mestre ressuscitado (até tocaram no seu corpo, portanto não se tratava de uma aparição "fantasmagórica")... De que vale isso? Testemunhos pessoais, que vale isso para si, se as ferramentas da Ciência não puderam lá estar?
Entende como é pouco interessante o seu critério, Ludwig, para uma explicação total da realidade? Tudo o que eu não puder repetir, não posso conhecer! Bela ciência... Com ciência assim, havemos de ir longe!
Como vemos, o “teste independente” sugerido por Ludwig de nada serve em teses metafísicas (pouco grave para um ateu), mas também de nada serve para analisar fenómenos únicos e irrepetíveis (muito grave para um ateu). O caso da (suposta) evolução das espécies é um óptimo exemplo de que a ciência deve ter cuidado com as suas teses, quando não consegue repetir os fenómenos que quer explicar. Por exemplo, quando não consegue repetir o fenómeno do surgimento da vida ou do surgimento da vida inteligente.
Por sua vez, a verificação intelectual (por tentativa de falsificação) de uma tese metafísica pode seguir por duas vias distintas e complementares:
a) procura de contradição interna: se, após aturada busca, a tese metafísica não possui contradição interna, teremos uma das condições necessárias da sua veracidade; basicamente, as leis da Lógica não podem ser nunca violadas;
b) procura de incompatibilidade com o empírico (não se aplica a qualquer tese metafísica, mas apenas às que podem ser causas de fenómenos empíricos): se uma tese metafísica pretende explicar um determinado fenómeno empírico, pode-se tentar averiguar intelectualmente se o efeito observado pode ser explicado pela causa metafísica proposta a verificação.
Mas, como veremos adiante, a metafísica só é verdadeiramente eficaz, demonstrativa e explicativa com a consideração axiomática (acima de discussão) do Infinito, do Ser, do Uno. Enfim, com a fé em Deus…
A força da visão cristã
A importância e actualidade do legado do Aquinate
«Um dos motivos que levam os homens através dos tempos ao estudo da filosofia foi o desejo de compreender a sua própria natureza. Em particular, os homens voltam-se para a filosofia para procurar um maior conhecimento da natureza dos seus próprios espíritos. Desde os tempos antigos, os filósofos tentaram ganhar este conhecimento, reflectindo sobre os seus próprios processos mentais e capacidades, e considerando a linguagem que usamos par exprimir e descrever os nossos estados mentais. Em séculos recentes, apareceu um número de disciplinas científicas dedicadas ao estudo do espírito – ramos da psicologia experimental, social e clínica. A informação adquirida por estas disciplinas ajuda-nos imenso na compreensão da natureza humana: mas não competem com, nem conseguem substituir, o estudo filosófico do espírito. Isto acontece porque a relação entre os fenómenos estudados pelo cientista e os acontecimentos ou estados mentais que se manifestam nestes fenómenos, é, ela própria, um problema filosófico: é o problema central da filosofia da psicologia, ou o que hoje se chama vulgarmente, “filosofia do espírito”. Devido à natureza estável do quadro filosófico para o estudo do espírito, os escritos de filósofos antigos, medievais, e dos séculos XVII e XVIII, não se tornaram antiquados com o progresso da ciência, como aconteceu com os escritos em outras áreas. Em particular (…) os escritos de Aquino sobre os tópicos hoje tratados por filósofos do espírito continuam a ter valor» - A. Kenny, São Tomás de Aquino. Tradução de Maria M. Pecegueiro, Lisboa, 1981, pp. 107-108, in prefácio da obra de São Tomás de Aquino, A unidade do intelecto (contra os averroístas), Edições 70, 1999, escrito por Mário Santiago de Carvalho.
Não é possível afirmar, de forma mais clara, que a área científica de trabalho de São Tomás de Aquino, sendo das mais perenes acessíveis ao ser humano, porque visa o intelecto, não passa de moda só porque os ideólogos modernos querem que passe de moda!
Vejamos mais um texto interessante, para deixar bem claro que as presumidas incompatibilidades entre Ciência moderna e Fé têm que ser demonstradas, e não tomadas como auto-demonstradas só porque dá jeito...
A importância da exegese e da hermenêutica – a inerrância do texto sacro
«São Jerónimo, Cartas, n.º 27 [a Marcela, 382-385]
Aos meus detractores, a minha resposta é esta: Eu não sou tão pobre de espírito nem tão ignorante (qualidades que eles tomam como santidade, chamando a si mesmos os discípulos dos pescadores como se os homens fossem feitos santos por nada saberem) – Eu não sou, repito, tão ignorante que suponha que alguma das palavras do Senhor necessite de correcção ou não seja divinamente inspirada; mas já se provou que os manuscritos latinos das Escrituras estão errados pelas variações que todos eles exibem, e o meu objectivo tem sido o de restaurá-los para a forma do original Grego, do qual os meus detractores não negam que eles tenham sido traduzidos.»
Se há problemas de tradução, se há problemas de interpretação, se apenas uma hermenêutica competente pode fazer ressaltar a essência do texto sacro, é de espantar a ligeireza com que se apontam as supostas incompatibilidades entre a fé cristã e o mundo observável...
A fé (como caminho) precede o conhecimento (como fim), porque não se pode chegar a um destino sem se procurar o caminho certo para o alcançar. Se não estou, intelectualmente, no destino que quero estar (o conhecimento), devo meter-me a caminho. Mas antes, devo escolher a direcção na qual quero caminhar. A fé é a direcção a escolher para caminhar para o conhecimento de Deus. Sendo Deus a origem de tudo, é evidente que o conhecimento correcto do divino não pode incompatibilizar-se com o conhecimento correcto do mundano.
Vejamos agora um excerto do prefácio excelente de Mário Bruno Sproviero e de Jean Luiz Lauand, escrito para uma obra que reune duas quaestiones disputatae de São Tomás:
«Na Suma contra os Gentios, ao explicar por que é necessário crer mesmo quando se trata de verdades divinas acessíveis à razão: «A própria debilidade dos nosso entendimento para discernir, e pela confusão dos fantasmas [nota: “phantasma”, em grego, é “imagem”], faz com que na maioria dos casos mescle-se nas investigações racionais o falso, e, portanto, para muitos parecerem duvidosas muitas verdades que estão efectivamente demonstradas, já que ignoram a força da demonstração, e principalmente vendo que os próprios sábios ensinam verdades contrárias. Também entre muitas verdades demonstradas, introduz-se, às vezes, algo falso que não se demonstra, mas que se aceita por razão provável ou sofística, tido como demonstração. Por isto foi conveniente apresentar aos homens por via de fé uma certeza fixa e uma verdade pura das coisas divinas” (I,4).
Se a razão particular de alguém não for capaz de compreender, por exemplo, a demonstração de Wiles (Nota: Andrew Wiles apresntou, em 1994, a demonstração do último teorema de Fermat), nem por isso deixará de aceitar o teorema, a não ser que coloque a sua razão acima de tudo, o que acontece em muitos casos.
Em hipótese alguma deve-se desvalorizar a evidência particular e não incentivar a sua busca. Ela é o único critério pelo qual o indivíduo pode dizer que conhece por si a verdade. Mesmo quando não tenha essa evidência, o indivíduo pode e deve aceitar verdades, quer pela evidência dos outros, quer por Revelação.
Quando o indivíduo tem a evidência das verdades que aceita, deve confrontá-las e submetê-las aos outros, como acontece com as verdades científicas.», Mário Bruno Sproviero e Jean Luiz Lauand, em Verdade e Conhecimento, de São Tomás de Aquino, pp. 116-117.
Já reparou, Ludwig, como estamos perto da sua ideia sensata acerca da necessidade da fé razoável em milhares de ocasiões da nossa vida? Como não temos a possibilidade de estudar tudo a fundo, com o detalhe do especialista, vivemos permanentemente mergulhados em pequenas "fés", assentes em pessoas ou instituições que nos dão confiança pessoal!
Sobre a evidência individual e colectiva – contra o consensualismo
«Deve ficar claro que se tenho uma evidência e esta evidência também é participada por outros, isto é um indício superior ao caso em que esta evidência só é minha e outros não a condividem. Claro que pode haver exceções, e houve muitas na história da ciência, geralmente quando algo novo é introduzido; mas depois de certo tempo, haverá a aceitação. Daí que foram estabelecidos muitos critérios, nos meios científicos, considerando esta evidência colectiva. Um neopositivista como Moritz Schlick (1882-1936) não tem outro critério do que a comunidade científica; a concepção sociológica da verdade, lançada por Durkheim e aceita por Goblot, defende que a verdade é atestada não pela confrontação do espírito com o real, mas pelo acordo dos espíritos. Este é um critério que procede de Kant, da intersubjectividade. Substitui-se a razão interpessoal de Kant pela sociedade. Assim, a verdade é definida pela crença colectiva; o que eu penso é subjectivo, o que toda a socieade pensa é a verdade. Isto é o consensualismo.
Na postura consensualista, tudo está invertido: temos dois princípios que se confundem facilmente e que, no entanto, distam como o céu da terra.
O primeiro, o autêntico, o que foi mostrado até agora, e que deve completar a evidência individual, é este: se algo é verdadeiro, então deve mostrar-se evidente ao maior número de sujeitos. Estes devem ter abertura e capacidade para a verdade. O princípio espúrio, o consensualismo, é: se a maioria, independentemente de qualquer evidência e competência, considerar verdade, então deve ser verdade. Então, não é por muitos considerarem verdade que é verdade, mas, ao contrário, se for verdade, muitos deveriam aceitar como tal.», Ibidem, pp. 119-120.
Eis, em suma, Ludwig, o seu grande erro (que, obviamente, não é só seu, é de toda a ciência positivista): a verdade pré-existe ao ser humano que a detecta intelectualmente. Só se obtém ciência verdadeira pela adequação dos nossos intelectos ao real. Isto é sensato. Se uma ideia é verdadeira, é natural que muitos homens inteligentes a atinjam. No entanto, os tempos modernos provaram a vitória do consensualismo: quantas mais pessoas partilharem de uma tese, mais veracidade lhe dão... É precisamente o inverso!
O Ludwig, centrando toda a ciência no cogito cartesiano (existo porque penso), já está desviado radicalmente da realidade. É que nós pensamos porque existimos! A existência é o ponto de partida. O cartesianismo levado ao extremo (como sucede nos dias de hoje) resulta nessa ideia absurda de que é a matéria que, por evolução, engendra o intelecto. Quando sucede precisamente o oposto: o intelecto pré-existe e determina a matéria.
Mais sobre isto noutros textos futuros...
Ludwig termina assim:
«Mas «deus» é mesmo uma palavra mafaguinho. Para os teístas é uma pessoa que se preocupa, que perdoa ou castiga, que se zanga ou se alegra, que ama ou odeia. Para os deístas é o relojoeiro que deu corda ao universo e agora não liga a nada ou ninguém. Para os panteístas é tudo. Para Einstein era a elegância da relatividade. Para Hawking a complexidade da mecânica quântica. Mas não há nada em comum entre todos os estes usos da palavra. Dizer «deus» dá tanta informação como dizer «mafaguinho».»
O que o Ludwig fez foi citar várias definições de Deus, quiçá todas erradas! Do mesmo modo que a história da ciência nos deu várias definições de matéria, ou de energia, ou mesmo de átomo. O caso da palavra "átomo" (em grego, literalmente "sem partes", ou "indivisível") é excelente. Para Demócrito, significava uma partícula sem partes. Nos tempos modernos, a palavra continua a ser usada, mas a fissão do átomo (separação da tal supostamente indivisível partícula) é fenómeno central na produção de energia eléctrica por via nuclear!
Então em que ficamos, Ludwig?
Se me permite, dizer que a palavra "Deus" é um mafaguinho é uma redonda treta! Para si, que é sensível às tretas, será que a palavra "átomo" não será também uma treta?
É claro que não é...
Como é que aprendo a dar o devido contexto e interpretação ao termo "átomo"? É simples: estudando a filosofia de Demócrito e simultaneamente a Física das partículas.
Ludwig, pelo seu lado, aposta na postura agnóstica, na vitória da ignorância:
«O mesmo se passa com espiritual, sagrado, revelado, e todas essas palavras que as religiões usam para se definir. São inúteis para comunicar ideias concretas pois nunca se sabe ao certo o que querem dizer. E é por isso que abundam na doutrina religiosa.» (negrito meu)
Nunca se sabe ao certo?
Afirma isto baseado em quê, ao certo?
Que culpa teremos nós, cristãos, destes factos, Luwdig?
a) você não aceita que haja uma ideia verdadeira acerca de Deus (considera todas as ideias sobre Deus como equivalentes porque irrelevantes)
b) você não aceita que pode estar a ignorar muita coisa em matéria de religião
Esta sua última frase é espantosa: é, simultaneamente, uma confissão de ignorância ("nunca se sabe ao certo o que querem dizer"), e uma afirmação categórica ("são inúteis para comunicar ideias concretas"). Parece-me bastante sensato que, perante o confesso desconhecimento numa dada matéria, se evitem as afirmações categóricas...
Um abraço,
Bernardo
[Importa dizer, logo à partida, que não há uma só grama de ironia ou de sarcasmo nestas minhas palavras. Tenho a certeza de que as pequenas provocações do Ludwig não são gratuitas ou estéreis, e que constituem apenas a capa estilista usada por ele para fazer passar um raciocínio que suponho sério.]
«O Bernardo Motta apontou que «em grego, "pistis" (fé) é um termo bem diferente de "gnosis" (conhecimento).» Em Português também. Feliz coincidência. Assim não precisamos continuar a conversa em Grego.»
Para quem não leu o meu comentário que deu origem a esta nota de Ludwig, importa repetir o trecho em questão, para que se perceba que não estava em jogo qualquer tipo de elitismo linguístico oco e inconsequente. Até porque este vosso miserável escriba não sabe ler grego, e muito menos escrever ou falar em grego. O meu elementar conhecimento de uma mão cheia de palavras em grego não chega, evidentemente, para que me possa apresentar como fluente na língua helénica, nem era essa a ideia.
Vejamos o meu trecho em questão:
«Urge distinguir entre a crença sem conhecimento e a crença com conhecimento. Em grego, "pistis" (fé) é um termo bem diferente de "gnosis" (conhecimento). No entanto, elas podem coexistir no intelecto de um crente conhecedor. No meu percurso pessoal, a adesão pística foi essencial para o conhecimento que dela adveio.»
Note-se como a palavra “crença” surge duas vezes, juntamente com a expressão “percurso pessoal”. Isto de nada vale para quem não me conhece (não que haja grande relevância em conhecer-me!), mas há que sublinhar que o trecho acima repetido era apenas um mero comentário dirigido a uma pessoa em concreto, Ludwig, que sabe bem que os termos “crença” e “percurso pessoal”, se escritos por mim, referem-se ao meu percurso de crente cristão.
Nesse contexto, que importa conhecer para se entender porque razão a fiz, a alusão ao grego é essencial, porque provém do facto de que essa língua é a base da formalização do pensamento cristão. Apesar de o latim ser a língua oficial da Igreja Católica, não há como negar que, na génese do cristianismo, a língua de eleição foi o grego, e nela foi vertida uma míriade de textos patrísticos de valor intelectual inestimável, e muitas vezes totalmente desconhecidos. Por exemplo, é da total ignorância acerca da Patrística que nasce uma das teorias anti-cristãs mais populares dos nossos tempos: a teoria de que a doutrina da Igreja Católica seria, sobretudo, romana e pagã, resultando da obra política de Constantino, e de que tal doutrina estaria muito longe da doutrina de salvação proposta por Jesus Cristo. Obviamente, só é possível sustentar tal asneira quando nunca se leu uma só linha de um qualquer autor patrístico.
Como se vê, para qualquer cristão que procura ir às origens da sua doutrina, o grego é uma língua de referência. Por essa boa razão, eu quis trazer para a conversa os dois termos gregos, “pistis” (fé) e “gnosis” (conhecimento) porque tais termos são empregues com abundância pelos Padres da Igreja que escreveram em grego, o que demonstra cabalmente que, ao invés do que poderá defender um leitor de Ludwig (o próprio Ludwig sabe-o bem e não cometeria erros grosseiros desse calibre), a fé verdadeira não vive sobre a ignorância nem apela à ignorância como solidificação de si mesma: a fé é o prelúdio necessário ao conhecimento. A patrística cristã alude à fé e ao conhecimento como duas modalidades distintas e complementares da intelectualidade cristã. Ambas são indispensáveis, no sentido em que a gnosis (o conhecimento de Deus) é o destino, o objectivo, e a pistis é o caminho, o percurso. Embora aceite facilmente que tenham existido raros cristãos que alcançaram, com a graça de Deus, a plenitude da gnose cristã (o misticismo cristão está repleto de bons exemplos), suspeito que nenhum desses casos teria sucedido sem o suporte da fé, o que seria sinal de invulgares qualidades espirituais (estranhas ao ser humano), diria mesmo “sobre-humanas”.
E, dado o carácter único de Deus, a sua infinitude obriga a uma relação necessariamente assimétrica entre Ele e a criatura finita. Mas isso não significa que Deus esteja inacessível ao ser humano:
São Tomás: «De facto, quanto aos bem-aventurados, eles certamente atingem com a mente a essência divina, mas não a compreenderão», De divinis nominibus, 22.
O que quer isto dizer? “Não a compreenderão”, na acepção literal de compreender, ou seja, “abarcar”. O que é um truísmo: a criatura finita não pode abarcar (compreender) o Deus Infinito. Contudo, sendo o intelecto humano a “ponte” que este tem para o universal, é certo que o homem pode, se for persistente e “bem-aventurado”, «atingir com a mente a essência divina».
Ludwig continua:
«Eu propus que a verificação independente permite distinguir o conhecimento da mera crença. O Bernardo retorquiu que:
«eu faço a "verificação independente" da justeza e veracidade da minha fé por intermédio de operações intelectuais.»
É como fazer eu próprio a verificação independente da minha declaração de impostos. Será que a DGCI vai na conversa? Por verificação independente quero dizer mesmo isso. Independente. Se o aluno diz que sabe a matéria, o professor verifica. Se um cientista propõe uma hipótese, outro cientista verifica. Independentemente. E nunca por mera operação intelectual. Algures, alguma ideia será confrontada com alguma observação, senão não se verifica nada. Aposto que em Grego «verificar» e «olhar para o umbigo» também são termos diferentes.»
O meu caro Ludwig parece ignorar, por breves instantes, que está a criticar um mero comentário, curtas notas soltas escritas de forma despreocupada, num espaço limitado e desadequado a grandes exposições. Mas vou agora tentar ser mais claro, dispondo de espaço e oportunidade para o fazer.
Há dois aspectos que importa analisar separadamente: “verificação”, e “independente”. Comecemos pelo primeiro...
Estas singulares palavras de Ludwig levantam imediatamente, no meu espírito limitado, uma série de questões que me parecem de monta. Primeiro, é preciso sublinhar que a verificação de qualquer tese é sempre uma operação intelectual, sendo também certo (nunca afirmei o contrário) que muitas das verificações que fazemos quotidianamente recorrem ao auxílio dos sentidos (Aristóteles atribuía estas operações intelectuais ao que ele determinou chamar de “intelecto possível”). Mesmo quando um cientista procura demonstrar, recorrendo ao método experimental, a adequação de uma tese à realidade de um dado fenómeno, ele está permanentemente a aplicar operações intelectuais. Operações que mais nenhum animal por nós conhecido é capaz de efectuar, mesmo sabendo-se que muitos animais também possuem equipamento sensorial. Não será também isto uma pista interessante?
Podemos dizer, sob um determinado ponto de vista (o do objecto do conhecimento), que há duas classes ou categorias de operação intelectual no ser humano que importa considerar agora como distintas:
a) Operação intelectual sobre objectos apreensíveis empiricamente: é a mais corrente, e qualquer verificação científica por método experimental usa-a quotidianamente;
b) Operação intelectual sobre objectos supra-empíricos (ideais): é uma operação comum ao filósofo, por exemplo; neste caso a verificação da veracidade de uma tese ou raciocínio é uma operação puramente intelectual (usa-se como ferramenta central a Lógica), que não carece necessariamente de confronto com o nível empírico da realidade; o facto de, em muitos casos, o filósofo recorrer a analogias que nascem do empírico não nos deve enganar: o ser humano usa o mental, quase sempre, com base em imagens, em experiências sensoriais anteriores a um presente raciocínio; no entanto, a analogia é uma ferramenta potente, porque podemos perfeitamente usá-la para apreender objectos supra-empíricos; um exemplo: quando usamos o termo “reflectir”, vem-nos logo à mente a imagem de um espelho: as operações reflexivas que ocorrem na nossa mente, quando veras, resultam da “reflexão” de um arquétipo no “plano” do nosso intelecto; o recurso a um termo que invoca experiências sensoriais com superfícies reflectoras ajuda-nos a compreender o próprio processo de conhecimento.
Poderíamos ainda falar do conhecimento metafísico, cuja natureza é intuitiva e não dedutiva, mas nem vale a pena ir mais além do segundo tipo de operação referido. É evidente que, negando o metafísico, Ludwig negue sequer que se possam efectuar operações intelectuais em tal domínio. O problema de Ludwig vem mais de trás: Ludwig parece não aceitar sequer que a operação mental feita pelo filósofo sobre uma determinada ideia seja, realmente, uma “verificação” válida! Isto é puro consensualismo (ver adiante), é o negar de qualquer valor à evidência individual! No entanto, dada a sua formação científica, o Ludwig conhece bem as ferramentas da Lógica. Só que parece apenas querer aplicá-las sobre objectos empíricos, duvidando da sua utilidade no tratamento de objectos supra-empíricos, como as ideias.
O que diria, Ludwig, acerca do trabalho científico na área filosófica específica dos argumentos ontológicos? Será que se trata de trabalho intelectual vão, por não gerar aplicações práticas ou por não estar fundamentado em verificações empíricas?
Veja, por exemplo:
Ontological Arguments
É curioso…
A eterna discussão em torno da Teoria do Conhecimento, que ocupa filósofos de todos os continentes desde a aurora do pensamento humano, uma questão que está longe de estar encerrada (nunca esteve tão em aberto), encontra-se dramaticamente simplificada na cosmovisão de Ludwig: para ele, parece que o conhecimento humano deve estar forçosamente cingido ao puro e estrito empirismo. No fundo, para Ludwig, “conhecer” não seria uma operação intelectual, carente de suporte ontológico, mas seria apenas um mero processo bioquímico explicável por elementares fenómenos positivos na matéria que compõe o nosso cérebro. “Verificação”, para Ludwig, parece ser sempre algo de sensorial, totalmente dependente da “matéria” (essa “pedra filosofal” desta modernidade caída), e é com esforço que, sequer, admitirá que, mesmo no caso elementar da verificação usando os sentidos, a operação em causa seja um processo intelectivo vero que transcenda a matéria!
Mas não quero, de forma alguma, escamotear o texto de Ludwig: a esmagadora maioria dos seus textos, de tal forma são intensos que qualquer um deles daria a possibilidade de uma extensa e profunda troca de ideias filosóficas. É o que eu queria fazer, aproveitando mais esta oportunidade por ele proporcionada.
Diz Ludwig:
«É verdade que poucas vezes precisamos desta verificação independente. Quando consultamos o horário do autocarro ou compramos bolachas basta-nos comparar crenças com observações e rever as primeiras se necessário. Não precisamos que outros confirmem cada inferência que fazemos. Mas quando há empenho pessoal numa certa conclusão, seja nos impostos, passar no exame, publicar o artigo, ou em matéria de fé, é provável que factores subjectivos guiem crenças e afirmações e as afastem da realidade. Nestes casos é importante testar a crença de uma forma independente.»
Este trecho de Ludwig é muito sensato e vejo-me forçado a concordar com ele. Adiante, falarei acerca da limitação humana, e da nossa permanente necessidade de confiar nos outros quando não estamos plenamente capazes de chegar a uma evidência individual. Curiosamente, este trecho de Ludwig ajuda-me a explicar porque razão a fé precede sempre o conhecimento, porque não é uma via alternativa e contraditória: é a via que leva àquele destino, mas já lá iremos…
Mas fica-se com a impressão de que esta “verificação independente” de que fala o Ludwig é verdadeiramente o melhor que temos para conhecer o real. É aqui que nasce a nossa profunda divergência, pelo simples e elementar facto de que eu reconheço a Deus a possibilidade (bem simples para Ele) de ter comunicado um caminho aberto para que o Homem pudesse conhecer a verdade sobre todas as coisas. Para o cristão, esse caminho chama-se Jesus Cristo.
Ludwig insiste na exclusividade do teste empírico.
Eu insisto na na ineficácia desse teste para coisas supra-empíricas.
Eu insisto na necessidade da crença em Deus (Fé) para que daí advenha conhecimento vero e descritivo do real.
Vejamos primeiro as fraquezas da visão de Ludwig, e depois vejamos a força da visão cristã que eu defendo.
As fraquezas da visão de Ludwig
Independência
O teste independente não é uma garantia de veracidade. Ludwig diz que, quando estamos pessoalmente envolvidos numa inferência, é importante evitar que «factores subjectivos guiem crenças e afirmações e as afastem da realidade». Totalmente de acordo! Mas será que a verificação independente vai resolver o problema gnoseológico? Veremos isto adiante…
Testabilidade
O problema com o testar exclusivamente por via empírica de uma proposição é duplo:
a) só serve para proposições empíricas, ou seja, só é útil para aferir afirmações acerca da realidade empírica; não é possível testar uma tese metafísica (Karl Popper); o testar é impossível e inútil em termos metafísicos; as teses metafísicas têm que ser verificadas intelectualmente (quanto mais pessoas o fizerem, e aperfeiçoarem tal verificação – colegialidade – tanto melhor)
b) na análise de fenómenos, o teste empírico só serve para fenómenos repetitivos; é inútil em fenómenos cuja ocorrência é única e irrepetível (como testar a ressurreição de Cristo ou a concepção de Cristo no seio virginal de Maria se se trataram de eventos únicos e irrepetíveis?)
É que eu não tenho a mais pequena dúvida disto, Ludwig: se um cientista moderno estivesse presente dentro da sepultura de Cristo, naquelas dezenas de horas que se seguiram ao enterro do Mestre, e estivesse munido da mais sofisticada tecnologia de medição, ele poderia ter presenciado esse acontecimento único que foi a ressurreição. O Ludwdig, num texto mais recente, admitiu que um fenómeno inexplicável empiricamente poderia ser alvo de uma explicação metafísica, se se adequasse ao observado. Mas não havia cientistas dentro do túmulo de Cristo! Nada foi fotografado, medido, registado! Apenas testemunhos de pessoas, Ludwig, que viram o túmulo vazio e o Mestre ressuscitado (até tocaram no seu corpo, portanto não se tratava de uma aparição "fantasmagórica")... De que vale isso? Testemunhos pessoais, que vale isso para si, se as ferramentas da Ciência não puderam lá estar?
Entende como é pouco interessante o seu critério, Ludwig, para uma explicação total da realidade? Tudo o que eu não puder repetir, não posso conhecer! Bela ciência... Com ciência assim, havemos de ir longe!
Como vemos, o “teste independente” sugerido por Ludwig de nada serve em teses metafísicas (pouco grave para um ateu), mas também de nada serve para analisar fenómenos únicos e irrepetíveis (muito grave para um ateu). O caso da (suposta) evolução das espécies é um óptimo exemplo de que a ciência deve ter cuidado com as suas teses, quando não consegue repetir os fenómenos que quer explicar. Por exemplo, quando não consegue repetir o fenómeno do surgimento da vida ou do surgimento da vida inteligente.
Por sua vez, a verificação intelectual (por tentativa de falsificação) de uma tese metafísica pode seguir por duas vias distintas e complementares:
a) procura de contradição interna: se, após aturada busca, a tese metafísica não possui contradição interna, teremos uma das condições necessárias da sua veracidade; basicamente, as leis da Lógica não podem ser nunca violadas;
b) procura de incompatibilidade com o empírico (não se aplica a qualquer tese metafísica, mas apenas às que podem ser causas de fenómenos empíricos): se uma tese metafísica pretende explicar um determinado fenómeno empírico, pode-se tentar averiguar intelectualmente se o efeito observado pode ser explicado pela causa metafísica proposta a verificação.
Mas, como veremos adiante, a metafísica só é verdadeiramente eficaz, demonstrativa e explicativa com a consideração axiomática (acima de discussão) do Infinito, do Ser, do Uno. Enfim, com a fé em Deus…
A força da visão cristã
A importância e actualidade do legado do Aquinate
«Um dos motivos que levam os homens através dos tempos ao estudo da filosofia foi o desejo de compreender a sua própria natureza. Em particular, os homens voltam-se para a filosofia para procurar um maior conhecimento da natureza dos seus próprios espíritos. Desde os tempos antigos, os filósofos tentaram ganhar este conhecimento, reflectindo sobre os seus próprios processos mentais e capacidades, e considerando a linguagem que usamos par exprimir e descrever os nossos estados mentais. Em séculos recentes, apareceu um número de disciplinas científicas dedicadas ao estudo do espírito – ramos da psicologia experimental, social e clínica. A informação adquirida por estas disciplinas ajuda-nos imenso na compreensão da natureza humana: mas não competem com, nem conseguem substituir, o estudo filosófico do espírito. Isto acontece porque a relação entre os fenómenos estudados pelo cientista e os acontecimentos ou estados mentais que se manifestam nestes fenómenos, é, ela própria, um problema filosófico: é o problema central da filosofia da psicologia, ou o que hoje se chama vulgarmente, “filosofia do espírito”. Devido à natureza estável do quadro filosófico para o estudo do espírito, os escritos de filósofos antigos, medievais, e dos séculos XVII e XVIII, não se tornaram antiquados com o progresso da ciência, como aconteceu com os escritos em outras áreas. Em particular (…) os escritos de Aquino sobre os tópicos hoje tratados por filósofos do espírito continuam a ter valor» - A. Kenny, São Tomás de Aquino. Tradução de Maria M. Pecegueiro, Lisboa, 1981, pp. 107-108, in prefácio da obra de São Tomás de Aquino, A unidade do intelecto (contra os averroístas), Edições 70, 1999, escrito por Mário Santiago de Carvalho.
Não é possível afirmar, de forma mais clara, que a área científica de trabalho de São Tomás de Aquino, sendo das mais perenes acessíveis ao ser humano, porque visa o intelecto, não passa de moda só porque os ideólogos modernos querem que passe de moda!
Vejamos mais um texto interessante, para deixar bem claro que as presumidas incompatibilidades entre Ciência moderna e Fé têm que ser demonstradas, e não tomadas como auto-demonstradas só porque dá jeito...
A importância da exegese e da hermenêutica – a inerrância do texto sacro
«São Jerónimo, Cartas, n.º 27 [a Marcela, 382-385]
Aos meus detractores, a minha resposta é esta: Eu não sou tão pobre de espírito nem tão ignorante (qualidades que eles tomam como santidade, chamando a si mesmos os discípulos dos pescadores como se os homens fossem feitos santos por nada saberem) – Eu não sou, repito, tão ignorante que suponha que alguma das palavras do Senhor necessite de correcção ou não seja divinamente inspirada; mas já se provou que os manuscritos latinos das Escrituras estão errados pelas variações que todos eles exibem, e o meu objectivo tem sido o de restaurá-los para a forma do original Grego, do qual os meus detractores não negam que eles tenham sido traduzidos.»
Se há problemas de tradução, se há problemas de interpretação, se apenas uma hermenêutica competente pode fazer ressaltar a essência do texto sacro, é de espantar a ligeireza com que se apontam as supostas incompatibilidades entre a fé cristã e o mundo observável...
A fé (como caminho) precede o conhecimento (como fim), porque não se pode chegar a um destino sem se procurar o caminho certo para o alcançar. Se não estou, intelectualmente, no destino que quero estar (o conhecimento), devo meter-me a caminho. Mas antes, devo escolher a direcção na qual quero caminhar. A fé é a direcção a escolher para caminhar para o conhecimento de Deus. Sendo Deus a origem de tudo, é evidente que o conhecimento correcto do divino não pode incompatibilizar-se com o conhecimento correcto do mundano.
Vejamos agora um excerto do prefácio excelente de Mário Bruno Sproviero e de Jean Luiz Lauand, escrito para uma obra que reune duas quaestiones disputatae de São Tomás:
«Na Suma contra os Gentios, ao explicar por que é necessário crer mesmo quando se trata de verdades divinas acessíveis à razão: «A própria debilidade dos nosso entendimento para discernir, e pela confusão dos fantasmas [nota: “phantasma”, em grego, é “imagem”], faz com que na maioria dos casos mescle-se nas investigações racionais o falso, e, portanto, para muitos parecerem duvidosas muitas verdades que estão efectivamente demonstradas, já que ignoram a força da demonstração, e principalmente vendo que os próprios sábios ensinam verdades contrárias. Também entre muitas verdades demonstradas, introduz-se, às vezes, algo falso que não se demonstra, mas que se aceita por razão provável ou sofística, tido como demonstração. Por isto foi conveniente apresentar aos homens por via de fé uma certeza fixa e uma verdade pura das coisas divinas” (I,4).
Se a razão particular de alguém não for capaz de compreender, por exemplo, a demonstração de Wiles (Nota: Andrew Wiles apresntou, em 1994, a demonstração do último teorema de Fermat), nem por isso deixará de aceitar o teorema, a não ser que coloque a sua razão acima de tudo, o que acontece em muitos casos.
Em hipótese alguma deve-se desvalorizar a evidência particular e não incentivar a sua busca. Ela é o único critério pelo qual o indivíduo pode dizer que conhece por si a verdade. Mesmo quando não tenha essa evidência, o indivíduo pode e deve aceitar verdades, quer pela evidência dos outros, quer por Revelação.
Quando o indivíduo tem a evidência das verdades que aceita, deve confrontá-las e submetê-las aos outros, como acontece com as verdades científicas.», Mário Bruno Sproviero e Jean Luiz Lauand, em Verdade e Conhecimento, de São Tomás de Aquino, pp. 116-117.
Já reparou, Ludwig, como estamos perto da sua ideia sensata acerca da necessidade da fé razoável em milhares de ocasiões da nossa vida? Como não temos a possibilidade de estudar tudo a fundo, com o detalhe do especialista, vivemos permanentemente mergulhados em pequenas "fés", assentes em pessoas ou instituições que nos dão confiança pessoal!
Sobre a evidência individual e colectiva – contra o consensualismo
«Deve ficar claro que se tenho uma evidência e esta evidência também é participada por outros, isto é um indício superior ao caso em que esta evidência só é minha e outros não a condividem. Claro que pode haver exceções, e houve muitas na história da ciência, geralmente quando algo novo é introduzido; mas depois de certo tempo, haverá a aceitação. Daí que foram estabelecidos muitos critérios, nos meios científicos, considerando esta evidência colectiva. Um neopositivista como Moritz Schlick (1882-1936) não tem outro critério do que a comunidade científica; a concepção sociológica da verdade, lançada por Durkheim e aceita por Goblot, defende que a verdade é atestada não pela confrontação do espírito com o real, mas pelo acordo dos espíritos. Este é um critério que procede de Kant, da intersubjectividade. Substitui-se a razão interpessoal de Kant pela sociedade. Assim, a verdade é definida pela crença colectiva; o que eu penso é subjectivo, o que toda a socieade pensa é a verdade. Isto é o consensualismo.
Na postura consensualista, tudo está invertido: temos dois princípios que se confundem facilmente e que, no entanto, distam como o céu da terra.
O primeiro, o autêntico, o que foi mostrado até agora, e que deve completar a evidência individual, é este: se algo é verdadeiro, então deve mostrar-se evidente ao maior número de sujeitos. Estes devem ter abertura e capacidade para a verdade. O princípio espúrio, o consensualismo, é: se a maioria, independentemente de qualquer evidência e competência, considerar verdade, então deve ser verdade. Então, não é por muitos considerarem verdade que é verdade, mas, ao contrário, se for verdade, muitos deveriam aceitar como tal.», Ibidem, pp. 119-120.
Eis, em suma, Ludwig, o seu grande erro (que, obviamente, não é só seu, é de toda a ciência positivista): a verdade pré-existe ao ser humano que a detecta intelectualmente. Só se obtém ciência verdadeira pela adequação dos nossos intelectos ao real. Isto é sensato. Se uma ideia é verdadeira, é natural que muitos homens inteligentes a atinjam. No entanto, os tempos modernos provaram a vitória do consensualismo: quantas mais pessoas partilharem de uma tese, mais veracidade lhe dão... É precisamente o inverso!
O Ludwig, centrando toda a ciência no cogito cartesiano (existo porque penso), já está desviado radicalmente da realidade. É que nós pensamos porque existimos! A existência é o ponto de partida. O cartesianismo levado ao extremo (como sucede nos dias de hoje) resulta nessa ideia absurda de que é a matéria que, por evolução, engendra o intelecto. Quando sucede precisamente o oposto: o intelecto pré-existe e determina a matéria.
Mais sobre isto noutros textos futuros...
Ludwig termina assim:
«Mas «deus» é mesmo uma palavra mafaguinho. Para os teístas é uma pessoa que se preocupa, que perdoa ou castiga, que se zanga ou se alegra, que ama ou odeia. Para os deístas é o relojoeiro que deu corda ao universo e agora não liga a nada ou ninguém. Para os panteístas é tudo. Para Einstein era a elegância da relatividade. Para Hawking a complexidade da mecânica quântica. Mas não há nada em comum entre todos os estes usos da palavra. Dizer «deus» dá tanta informação como dizer «mafaguinho».»
O que o Ludwig fez foi citar várias definições de Deus, quiçá todas erradas! Do mesmo modo que a história da ciência nos deu várias definições de matéria, ou de energia, ou mesmo de átomo. O caso da palavra "átomo" (em grego, literalmente "sem partes", ou "indivisível") é excelente. Para Demócrito, significava uma partícula sem partes. Nos tempos modernos, a palavra continua a ser usada, mas a fissão do átomo (separação da tal supostamente indivisível partícula) é fenómeno central na produção de energia eléctrica por via nuclear!
Então em que ficamos, Ludwig?
Se me permite, dizer que a palavra "Deus" é um mafaguinho é uma redonda treta! Para si, que é sensível às tretas, será que a palavra "átomo" não será também uma treta?
É claro que não é...
Como é que aprendo a dar o devido contexto e interpretação ao termo "átomo"? É simples: estudando a filosofia de Demócrito e simultaneamente a Física das partículas.
Ludwig, pelo seu lado, aposta na postura agnóstica, na vitória da ignorância:
«O mesmo se passa com espiritual, sagrado, revelado, e todas essas palavras que as religiões usam para se definir. São inúteis para comunicar ideias concretas pois nunca se sabe ao certo o que querem dizer. E é por isso que abundam na doutrina religiosa.» (negrito meu)
Nunca se sabe ao certo?
Afirma isto baseado em quê, ao certo?
Que culpa teremos nós, cristãos, destes factos, Luwdig?
a) você não aceita que haja uma ideia verdadeira acerca de Deus (considera todas as ideias sobre Deus como equivalentes porque irrelevantes)
b) você não aceita que pode estar a ignorar muita coisa em matéria de religião
Esta sua última frase é espantosa: é, simultaneamente, uma confissão de ignorância ("nunca se sabe ao certo o que querem dizer"), e uma afirmação categórica ("são inúteis para comunicar ideias concretas"). Parece-me bastante sensato que, perante o confesso desconhecimento numa dada matéria, se evitem as afirmações categóricas...
Um abraço,
Bernardo
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