Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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terça-feira, 10 de novembro de 2015
Deus existe?
O vídeo da minha conferência "Deus existe?", feita na passada Quinta-feira, 5 de Novembro de 2015.
Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
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Argumento Cosmológico,
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William Lane Craig
quinta-feira, 3 de março de 2011
Humanos vs. Chimpanzés: apenas mais neurónios?
O Ludwig gostou deste vídeo do Robert Sapolsky:
Diz o Luwdig:
«Finalmente descobri o que é a alma. Aquilo que nós temos e que os outros animais não têm.
É mais neurónios. Nem é melhores neurónios nem nada de especial nos neurónios. É simplesmente mais.»
Sapolsky refere o bem estabelecido facto científico de que o 98,9% do genoma humano é comum ao genoma do chimpanzé. Os materialistas adoram isto, pois parece adaptar-se perfeitamente à sua filosofia infantil. Sapolsky aponta um facto científico importante: o cérebro humano, na fase de desenvolvimento fetal, desenvolve aproximadamente o triplo de células neuronais do chimpanzé. É verdade! E depois, que brilhante conclusão é que o Sapolsky retira?
«...Take a chimp brain, fetally, and let it go through two or three more rounds of division, and you get a human brain instead, and out come symphonies, and ideology, and hopscotch and everything else there, what that tells you is: with enough quantity you invent quality.»
Estes materialistas, que estão a braços com a humilhante impotência dos seus actuais argumentos filosóficos, face à óbvia força dos argumentos filosóficos dos teístas, em vez de se meterem a trabalhar em bons argumentos materialistas e na refutação dos argumentos teístas, preferem brincar com palavras.
Este Sapolsky, obviamente ignorante da burrada filosófica que acabou de proferir, nem se dá conta do ridículo:
1) Por um lado, confunde uma condição necessária para a inteligência humana (o número de neurónios) com uma condição suficiente para a inteligência humana; quem nega que o ser humano precisa do triplo dos neurónios do chimpanzé? A questão é: isso é suficiente, ter o triplo dos neurónios, ou é apenas uma condição necessária?
2) Em vez de tirar conclusões falaciosas, derivadas da sua confusão entre condição necessária e condição suficiente, ele deveria focar-se na resolução dos problemas fatais do seu materialismo filosófico: nenhuma filosofia materialista pode ter a pretensão de ser verdadeira, uma vez que todas as filosofias materialistas são obrigadas a adoptar, ou uma explicação determinista para os fenómenos mentais, ou uma explicação estocástica para os mesmos, ou um "mix" de ambas
Para o materialista, ou o intelecto humano é o epifenómeno de processos determinísticos no interior dos neurónios, ou de processos estocásticos, ou de um "mix" de ambos os tipos. Em qualquer dos casos, ou temos um intelecto "zombie", ou um intelecto "caótico", ou uma triste mistura de ambas as coisas.
Ter mais neurónios implica montes de coisas impressionantes para o cérebro humano: mais memória, maior capacidade de relacionar informação, e assim por diante. Mas não chega para explicar a racionalidade humana. Filosoficamente falando, a actividade intelectiva pressupõe, no ser humano, algo de imaterial. Em filosofia, nunca houve grande pudor em usar a palavra "alma", mas hoje em dia, fala-se em "mente" ou "intelecto".
Os filósofos profissionais conhecem bem os problemas do materialismo, problemas relacionados com a sua completa impotência para explicar a racionalidade, a capacidade de abstracção, o livre arbítrio que os seres humanos demonstram possuir. Infelizmente, há muitos cientistas materialistas, grupo do qual Sapolsky pelos vistos faz parte, que são filosoficamente analfabetos. Não se sentem obrigados a, sequer, considerar os problemas filosóficos do materialismo. Provavelmente, Sapolsky nem sequer sabe que o materialismo tem problemas graves por resolver. Quanto mais estar preparado para lidar com eles...
«With enough quantity, you invent quality»
Este cientista reagirá certamente com justificado horror e repúdio a manifestações de pseudo-ciência. Mas, pelos vistos, convive bem com a sua pseudo-filosofia de pacotilha.
Diz o Luwdig:
«Finalmente descobri o que é a alma. Aquilo que nós temos e que os outros animais não têm.
É mais neurónios. Nem é melhores neurónios nem nada de especial nos neurónios. É simplesmente mais.»
Sapolsky refere o bem estabelecido facto científico de que o 98,9% do genoma humano é comum ao genoma do chimpanzé. Os materialistas adoram isto, pois parece adaptar-se perfeitamente à sua filosofia infantil. Sapolsky aponta um facto científico importante: o cérebro humano, na fase de desenvolvimento fetal, desenvolve aproximadamente o triplo de células neuronais do chimpanzé. É verdade! E depois, que brilhante conclusão é que o Sapolsky retira?
«...Take a chimp brain, fetally, and let it go through two or three more rounds of division, and you get a human brain instead, and out come symphonies, and ideology, and hopscotch and everything else there, what that tells you is: with enough quantity you invent quality.»
Estes materialistas, que estão a braços com a humilhante impotência dos seus actuais argumentos filosóficos, face à óbvia força dos argumentos filosóficos dos teístas, em vez de se meterem a trabalhar em bons argumentos materialistas e na refutação dos argumentos teístas, preferem brincar com palavras.
Este Sapolsky, obviamente ignorante da burrada filosófica que acabou de proferir, nem se dá conta do ridículo:
1) Por um lado, confunde uma condição necessária para a inteligência humana (o número de neurónios) com uma condição suficiente para a inteligência humana; quem nega que o ser humano precisa do triplo dos neurónios do chimpanzé? A questão é: isso é suficiente, ter o triplo dos neurónios, ou é apenas uma condição necessária?
2) Em vez de tirar conclusões falaciosas, derivadas da sua confusão entre condição necessária e condição suficiente, ele deveria focar-se na resolução dos problemas fatais do seu materialismo filosófico: nenhuma filosofia materialista pode ter a pretensão de ser verdadeira, uma vez que todas as filosofias materialistas são obrigadas a adoptar, ou uma explicação determinista para os fenómenos mentais, ou uma explicação estocástica para os mesmos, ou um "mix" de ambas
Para o materialista, ou o intelecto humano é o epifenómeno de processos determinísticos no interior dos neurónios, ou de processos estocásticos, ou de um "mix" de ambos os tipos. Em qualquer dos casos, ou temos um intelecto "zombie", ou um intelecto "caótico", ou uma triste mistura de ambas as coisas.
Ter mais neurónios implica montes de coisas impressionantes para o cérebro humano: mais memória, maior capacidade de relacionar informação, e assim por diante. Mas não chega para explicar a racionalidade humana. Filosoficamente falando, a actividade intelectiva pressupõe, no ser humano, algo de imaterial. Em filosofia, nunca houve grande pudor em usar a palavra "alma", mas hoje em dia, fala-se em "mente" ou "intelecto".
Os filósofos profissionais conhecem bem os problemas do materialismo, problemas relacionados com a sua completa impotência para explicar a racionalidade, a capacidade de abstracção, o livre arbítrio que os seres humanos demonstram possuir. Infelizmente, há muitos cientistas materialistas, grupo do qual Sapolsky pelos vistos faz parte, que são filosoficamente analfabetos. Não se sentem obrigados a, sequer, considerar os problemas filosóficos do materialismo. Provavelmente, Sapolsky nem sequer sabe que o materialismo tem problemas graves por resolver. Quanto mais estar preparado para lidar com eles...
«With enough quantity, you invent quality»
Este cientista reagirá certamente com justificado horror e repúdio a manifestações de pseudo-ciência. Mas, pelos vistos, convive bem com a sua pseudo-filosofia de pacotilha.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Grande confusão
No seu "post" Q&A, o Ludwig, na tentativa de esclarecer a sua posição, gerou uma grande confusão.
Parece-me estranho que alguém racional e cerebral como o Ludwig adopte dois pesos e duas medidas sistematicamente. Penso que não se dá conta disso. Refiro-me ao facto de o Luwdig ser tão cumpridor das tradições estabelecidas quando fala acerca de Ciência, e tão rebelde e incumpridor quando se trata das tradições filosóficas e epistemológicas.
É como se, dentro da cabeça do Ludwig, existisse uma mente de cientista (com obra feita e competência que não discuto) e simultaneamente uma mente de anti-filósofo, de alguém que rejeita toda a tradição filosófica, e mais grave ainda, toda a tradição epistemológica.
Isto nada tem a ver com ateísmo. Um ateu pode e deve definir a sua posição filosófica com algum rigor filosófico. Um ateu pode e deve conhecer a tradição epistemológica para a saber usar quando fala de Ciência, pois enquanto que o trabalho científico é Ciência, a reflexão filosófica acerca do trabalho científico é meta-Ciência, é epistemologia.
O Ludwig não pode tratar como Ciência a reflexão acerca do conhecimento científico, pois isso seria raciocínio auto-referencial, e sofreria da falácia de petição de princípio e dos problemas da circularidade.
Ora é isso que eu depreendo de vários pontos do texto dele.
«Basta que se possa inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus.»
Eu nem sei bem o que isto quer dizer. Mas poderá ter duas leituras, julgo eu. Por um lado, que o Ludwig pretenderia que a hipótese Deus pudesse ser testada empiricamente. O que é algo de bizarro, uma vez que toda a tradição filosófica trata a hipótese Deus como uma hipótese metafísica, logo não testável empiricamente. Talvez o Ludwig não pretendesse dizer isto mas sim algo mais sofisticado, a saber, que a hipótese Deus, sendo verdadeira, deveria deixar um "rasto empírico". Ora bolas, mas a tradição filosófica também tem algo a dizer acerca disso, nomeadamente quando fala acerca da finalidade, ou seja, da causa final. O raciocínio meta-científico (filosófico) acerca das coisas que encontramos no Cosmos leva-nos à necessidade de causas finais para essas várias coisas. O argumento cosmológico, como argumento "a posteriori" que é, parte da observação da realidade empírica para montar um argumento filosófico acerca da existência de Deus. O movimento é indutivo, partindo-se da observação do Cosmos e chegando-se a uma tese metafísica.
Sendo assim, é possível fazer o que o Ludwig pede, mas como filósofo e não como cientista. Um filósofo pode inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus, se como filósofo, vir nas coisas naturais contingentes uma causa final que remete para a causa primeira, necessária. Não estamos ainda a pretender inferir a infinitude da causa primeira a partir da observação, pois isso é muito espinhoso e difícil, e nem sei se será possível. Estamos a inferir que há uma causa primeira, e essa causa é "exterior" ao Cosmos, por não ser condicionada, por não ser contingente, por ser necessária.
Parece que Ludwig manda às malvas tudo isto, ignorando o debate filosófico como se fosse irrelevante, e não tendo a mesma preocupação com as teses filosóficas que tem com as teses científicas.
A falta de noção de fronteira fica patente também nesta frase:
«e formarmos as nossas ideias de maneira a poder descobrir quando erramos, elas dão-nos um caminho para o conhecimento. E isso é ciência.»
Pode não ser ciência. Pode ser filosofia. Quando eu afirmo "não há juízos verdadeiros de sujeito singular e predicado universal" eu tenho um método intelectual para saber com toda a certeza que acabei de errar. Chama-se a isso o método de retorsão, e é uma ferramenta filosófica muito antiga e útil para estabelecer com solidez os primeiros princípios, e neste caso em concreto, para eu saber que errei: é um caminho para um certo tipo de conhecimento sólido e seguro, só que não se trata de conhecimento científico (em sentido moderno), pois não foi obtido por via empírica. Logo, pode-se chamar esse conhecimento de conhecimento filosófico. Só este exemplo demonstra a estreiteza de vistas que o Ludwig parece postular.
Ele escreve como um adepto do cientismo. Eu sei que ele detesta "ismos", mas é uma constatação incontornável. O adepto do cientismo, antes de mais, é um materialista, ou seja, pretende que toda a realidade é empírica. Para além disso, o adepto do cientismo pretende que só é conhecimento aquilo que se pode colocar sob o crivo do método científico. Tal postura não é científica: é filosófica. Tal tese não é científica, é filosófica. E é má filosofia: é uma treta de uma tese, como aliás se demonstra facilmente:
1. O adepto do cientismo diz que uma tese só representa um caminho para o conhecimento se houver um método empírico para a testar
2. O adepto do cientismo não apresenta um método empírico para testar a tese que acabou de formular
3. Com essa sua tese inútil e auto-refutatória, o adepto do cientismo não trouxe qualquer conhecimento verdadeiro para a discussão
A incapacidade que o Ludwig parece demonstrar no que toca a traçar fronteiras há muito estabelecidas é patente, mais uma vez, neste trecho:
«Há muito na ciência que não é “causa entre outras causas” nem “ser entre outros seres”, desde o princípio de incerteza de Heisenberg às leis da termodinâmica, e incluindo todas as abstracções lógicas e matemáticas que usamos para construir modelos, como a raiz quadrada de dois ou as funções trigonométricas.»
Eu já nem parto para o debate (perfeitamente razoável) acerca do estatuto das Matemáticas, pois parece-me extremamente abusivo pretender que as Matemáticas façam parte do que hoje em dia se convencionou chamar Ciência, visto que as Matemáticas têm uma autonomia filosófica, e não dependem de confirmações ou refutações empíricas (pela via do método científico) para se susterem como conhecimento válido.
Mas deixando de lado, por agora, as Matemáticas, será que o Ludwig pretende que, por exemplo, o princípio lógico do terceiro excluído é conhecimento científico, no sentido moderno do termo? A lógica não pertence ao domínio da ciência, mas sim ao da filosofia, mais especificamente, ao domínio da metafísica, ou seja, dos primeiros princípios do conhecimento intelectual. Como pretende o Ludwig provar pelo método científico os primeiros princípios? Como se prova em laboratório a lógica clássica? E, para tomar outro exemplo, as verdades de sempre acerca dos silogismos, tão bem estudadas e conhecidas já na Idade Média e mesmo em Aristóteles? Vieram ao conhecimento humano por via do método científico? Como é que eu sei que um silogismo em Barbara é sempre verdadeiro, se as suas teses maior e menor forem verdadeiras? Medi isso com que aparelho?
O sistemático desprezo pela Filosofia, a atitude persistente em ignorar a diferença entre trabalho científico (Ciência) e reflexão filosófica acerca desse mesmo trabalho (Epistemologia) é a marca do adepto da superstição do cientismo, essa simplificação grotesca que pretende que todo o conhecimento humano com pretensão de validade deve estar sob a alçada do método científico.
Se eu fui injusto para com o Ludwig, distorcendo as suas ideias, eu agradecia imenso se ele pudesse ajudar a esclarecer estas questões, mormente a explicar, de uma vez por todas, o que pensa ele da epistemologia e da filosofia, e de que forma vê ele o conhecimento humano no seu todo, incluindo o (mas não limitado ao) conhecimento científico.
Parece-me estranho que alguém racional e cerebral como o Ludwig adopte dois pesos e duas medidas sistematicamente. Penso que não se dá conta disso. Refiro-me ao facto de o Luwdig ser tão cumpridor das tradições estabelecidas quando fala acerca de Ciência, e tão rebelde e incumpridor quando se trata das tradições filosóficas e epistemológicas.
É como se, dentro da cabeça do Ludwig, existisse uma mente de cientista (com obra feita e competência que não discuto) e simultaneamente uma mente de anti-filósofo, de alguém que rejeita toda a tradição filosófica, e mais grave ainda, toda a tradição epistemológica.
Isto nada tem a ver com ateísmo. Um ateu pode e deve definir a sua posição filosófica com algum rigor filosófico. Um ateu pode e deve conhecer a tradição epistemológica para a saber usar quando fala de Ciência, pois enquanto que o trabalho científico é Ciência, a reflexão filosófica acerca do trabalho científico é meta-Ciência, é epistemologia.
O Ludwig não pode tratar como Ciência a reflexão acerca do conhecimento científico, pois isso seria raciocínio auto-referencial, e sofreria da falácia de petição de princípio e dos problemas da circularidade.
Ora é isso que eu depreendo de vários pontos do texto dele.
«Basta que se possa inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus.»
Eu nem sei bem o que isto quer dizer. Mas poderá ter duas leituras, julgo eu. Por um lado, que o Ludwig pretenderia que a hipótese Deus pudesse ser testada empiricamente. O que é algo de bizarro, uma vez que toda a tradição filosófica trata a hipótese Deus como uma hipótese metafísica, logo não testável empiricamente. Talvez o Ludwig não pretendesse dizer isto mas sim algo mais sofisticado, a saber, que a hipótese Deus, sendo verdadeira, deveria deixar um "rasto empírico". Ora bolas, mas a tradição filosófica também tem algo a dizer acerca disso, nomeadamente quando fala acerca da finalidade, ou seja, da causa final. O raciocínio meta-científico (filosófico) acerca das coisas que encontramos no Cosmos leva-nos à necessidade de causas finais para essas várias coisas. O argumento cosmológico, como argumento "a posteriori" que é, parte da observação da realidade empírica para montar um argumento filosófico acerca da existência de Deus. O movimento é indutivo, partindo-se da observação do Cosmos e chegando-se a uma tese metafísica.
Sendo assim, é possível fazer o que o Ludwig pede, mas como filósofo e não como cientista. Um filósofo pode inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus, se como filósofo, vir nas coisas naturais contingentes uma causa final que remete para a causa primeira, necessária. Não estamos ainda a pretender inferir a infinitude da causa primeira a partir da observação, pois isso é muito espinhoso e difícil, e nem sei se será possível. Estamos a inferir que há uma causa primeira, e essa causa é "exterior" ao Cosmos, por não ser condicionada, por não ser contingente, por ser necessária.
Parece que Ludwig manda às malvas tudo isto, ignorando o debate filosófico como se fosse irrelevante, e não tendo a mesma preocupação com as teses filosóficas que tem com as teses científicas.
A falta de noção de fronteira fica patente também nesta frase:
«e formarmos as nossas ideias de maneira a poder descobrir quando erramos, elas dão-nos um caminho para o conhecimento. E isso é ciência.»
Pode não ser ciência. Pode ser filosofia. Quando eu afirmo "não há juízos verdadeiros de sujeito singular e predicado universal" eu tenho um método intelectual para saber com toda a certeza que acabei de errar. Chama-se a isso o método de retorsão, e é uma ferramenta filosófica muito antiga e útil para estabelecer com solidez os primeiros princípios, e neste caso em concreto, para eu saber que errei: é um caminho para um certo tipo de conhecimento sólido e seguro, só que não se trata de conhecimento científico (em sentido moderno), pois não foi obtido por via empírica. Logo, pode-se chamar esse conhecimento de conhecimento filosófico. Só este exemplo demonstra a estreiteza de vistas que o Ludwig parece postular.
Ele escreve como um adepto do cientismo. Eu sei que ele detesta "ismos", mas é uma constatação incontornável. O adepto do cientismo, antes de mais, é um materialista, ou seja, pretende que toda a realidade é empírica. Para além disso, o adepto do cientismo pretende que só é conhecimento aquilo que se pode colocar sob o crivo do método científico. Tal postura não é científica: é filosófica. Tal tese não é científica, é filosófica. E é má filosofia: é uma treta de uma tese, como aliás se demonstra facilmente:
1. O adepto do cientismo diz que uma tese só representa um caminho para o conhecimento se houver um método empírico para a testar
2. O adepto do cientismo não apresenta um método empírico para testar a tese que acabou de formular
3. Com essa sua tese inútil e auto-refutatória, o adepto do cientismo não trouxe qualquer conhecimento verdadeiro para a discussão
A incapacidade que o Ludwig parece demonstrar no que toca a traçar fronteiras há muito estabelecidas é patente, mais uma vez, neste trecho:
«Há muito na ciência que não é “causa entre outras causas” nem “ser entre outros seres”, desde o princípio de incerteza de Heisenberg às leis da termodinâmica, e incluindo todas as abstracções lógicas e matemáticas que usamos para construir modelos, como a raiz quadrada de dois ou as funções trigonométricas.»
Eu já nem parto para o debate (perfeitamente razoável) acerca do estatuto das Matemáticas, pois parece-me extremamente abusivo pretender que as Matemáticas façam parte do que hoje em dia se convencionou chamar Ciência, visto que as Matemáticas têm uma autonomia filosófica, e não dependem de confirmações ou refutações empíricas (pela via do método científico) para se susterem como conhecimento válido.
Mas deixando de lado, por agora, as Matemáticas, será que o Ludwig pretende que, por exemplo, o princípio lógico do terceiro excluído é conhecimento científico, no sentido moderno do termo? A lógica não pertence ao domínio da ciência, mas sim ao da filosofia, mais especificamente, ao domínio da metafísica, ou seja, dos primeiros princípios do conhecimento intelectual. Como pretende o Ludwig provar pelo método científico os primeiros princípios? Como se prova em laboratório a lógica clássica? E, para tomar outro exemplo, as verdades de sempre acerca dos silogismos, tão bem estudadas e conhecidas já na Idade Média e mesmo em Aristóteles? Vieram ao conhecimento humano por via do método científico? Como é que eu sei que um silogismo em Barbara é sempre verdadeiro, se as suas teses maior e menor forem verdadeiras? Medi isso com que aparelho?
O sistemático desprezo pela Filosofia, a atitude persistente em ignorar a diferença entre trabalho científico (Ciência) e reflexão filosófica acerca desse mesmo trabalho (Epistemologia) é a marca do adepto da superstição do cientismo, essa simplificação grotesca que pretende que todo o conhecimento humano com pretensão de validade deve estar sob a alçada do método científico.
Se eu fui injusto para com o Ludwig, distorcendo as suas ideias, eu agradecia imenso se ele pudesse ajudar a esclarecer estas questões, mormente a explicar, de uma vez por todas, o que pensa ele da epistemologia e da filosofia, e de que forma vê ele o conhecimento humano no seu todo, incluindo o (mas não limitado ao) conhecimento científico.
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