Denis Dutton (1944-2010) era professor de Filosofia na Universidade de Cantebury, Christchurch (Nova Zelândia). Ouvi falar dele pela primeira vez há umas semanas atrás, ao ver na Internet o vídeo de uma conferência TED por ele proferida no ano passado, intitulada A Darwinian theory of beauty. Quando assisti ao vídeo no início de Janeiro deste ano, não sabia que Dutton tinha acabado de morrer de cancro a 28 de Dezembro de 2010. Dei-me conta disso agora mesmo, ao começar a escrever este texto. Fiquei sinceramente triste com a notícia. Quem vir o vídeo da conferência TED entenderá o que eu quero dizer. É impossível não simpatizar com este senhor: basta ouvi-lo a falar e fica-se com a clara sensação de que a Humanidade ficou mais pobre sem Denis Dutton.
Enquanto ouvia, pela primeira vez, a conferência A Darwinian theory of beauty, o meu pensamento vagueava constantemente, pois começava já a imaginar escrever este texto, apontando uma série de discordâncias e de protestos face à opinião de Dutton. Mas estava dividido: dividido entre uma simpatia instantânea para com um orador tão empático e uma repulsa visceral que sentia pelas ideias que tal orador estava a defender.
Essas ideias têm um eixo claro, que está patente no título da palestra: a beleza, a criação de beleza, a apreciação da beleza, quer natural quer artificial, segundo Dutton, são realidades que têm uma derradeira explicação darwinista. Temos que nos dar conta do que está aqui em jogo: segundo Denis Dutton, a beleza é uma realidade cuja causa última é puramente naturalista: mutação, cruzamento, selecção natural.
Por um lado, a teoria de Dutton, e sem menosprezar o mérito da sua fundamentação e formulação, é a consequência lógica de um darwinismo que é filosoficamente interpretado de forma materialista, ou naturalista. É verdade que o darwinismo, como teoria científica, tanto pode ser defendido por uma pessoa com uma visão filosófica materialista como por uma pessoa com uma visão diametralmente oposta ao materialismo, como a visão cristã. Assim, há que distinguir entre teoria científica darwinista e teoria filosófica materialista. Dutton, nesta palestra, não faz apenas uma defesa do darwinismo científico. Isso seria incontroverso, algo que transformaria a palestra num evento para especialistas de Biologia, e não em algo que realmente mexe com o comum dos mortais. Dutton faz uma defesa do darwinismo materialista, ou seja, da combinação da teoria científica do darwinismo com a teoria filosófica do materialismo.
Quando um orador apresenta o darwinismo materialista a uma plateia, desde que mantenha o tema no abstracto, a coisa até pode correr bem, ou seja, a percentagem de espectadores chocados pode ser muito baixa ou mesmo nula. Mas Dutton arriscou apresentar o seu darwinismo materialista sob o ponto de vista da beleza, o que dá à sua palestra uma amplitude tal que equivale a envolver toda a humanidade.
Será mesmo verdade? Será a beleza o produto final de um processo cem por cento natural de selecção natural darwiniana com genética mendeliana?
Uma repulsa instintiva
A razão da minha repulsa explica-se facilmente. A repulsa começou por ser instintiva, e só depois tentei articular uma repulsa mais racional. Instintivamente, lembrei-me de um dos inesgotáveis exemplos de beleza com os quais nos deparamos durante a nossa vida. Neste caso em concreto, lembrei-me do notável Concerto para Violino e Orquestra (Op. 47) em Ré Menor, de Jean Sibelius (1865-1957), e de uma execução magnífica do mesmo, que vi no Youtube, pelas mãos de Ida Haendel, sob a direcção do maestro Franz Paul Decker.
Todas as notas emanadas do violino de Ida Haendel refutam, na prática, a teoria da origem darwiniana da beleza, que é defendida por Dutton. Aliás, basta uma só nota para se obter esse efeito. Dutton dá-nos explicações darwinianas ("survival of the fittest") para o surgimento e para o aperfeiçoamento do sentido estético da Humanidade. Dutton explica-nos que quando gostamos de uma paisagem com o verde da vegetação e com o azul da água, ou com a presença de animais nas imediações, isso acontece porque há genes evoluídos que nos fazem apreciar esse tipo de paisagens. Segundo Dutton, nas paisagens que hoje apreciamos há um eco das savanas do Plistocénico. Alguns dos nossos genes evoluíram porque a procura da proximidade desses locais dava aos seres humanos vantagens competitivas. A beleza é reduzida a um produto de uma luta pela sobrevivência. Para que compôs Sibelius o seu Concerto para Violiono e Orquestra? Que savana do Plistocénico imaginava ele, ao escrever a cadenza do violino? Quando se tenta aplicar a teoria de Dutton a uma peça musical como esta, fica patente a insuficiência da teoria. Ida Haendel recebeu do próprio Sibelius estes elogios, após ouvi-la tocar o seu Concerto: "[Ida Haendel] played it masterfully in every respect. I congratulate myself that my concerto has found an interpreter of your rare standard". Ida comentou, acerca deste Concerto: "The Sibelius Violin Concerto is one of the most exciting, emotionally and technically, in the entire repertoire for my instrument". Deveras! Este Concerto é uma vertigem emocional e intelectual. É um feito notável do génio humano. Não pode ser produto apenas da matéria. E a beleza desta peça apresenta, como sucede em toda a música, uma simetria entre compositor e executante. A beleza da composição de Sibelius alinha-se com a beleza da execução de Ida Haendel. E tudo isto, todo este hino à beleza, receberia uma explicação naturalista? Evolucionista? Darwinista? Pergunta: serão as geniais faculdades musicais de Sibelius puramente genéticas? O Concerto é bom porque os genes são bons? Outra pergunta: será que essas faculdades musicais deram a Sibelius alguma vantagem darwiniana? Irão os descendentes de Sibelius presentear a Humanidade com mais peças destas? Era bom...
Veja-se ainda, no terceiro andamento, o momento (por volta dos 5'13'') em que Ida Haendel toca quatro compassos em trémolo, seguidos de uma belíssima linha melódica com harmónicos oitavados: é de se ir às lágrimas! Eu não sei explicar o que pretende Sibelius com este trecho: apenas sei que é fenomenal. Diz o materialista, em jeito de explicação: o cérebro humano adaptou-se à interpretação de estímulos sonoros como forma de diferenciar ameaças, ou como forma de comunicação com os da sua espécie, com vista à sobrevivência do grupo. E porque não? Mas isso explica este troço fenomenal de Sibelius? Explica a forma visceral como Ida Haendel se entrega à execução desta peça, como se empregasse toda a sua existência na execução deste Concerto? Aos 5 minutos e 20 segundos do primeiro andamento, Ida Haendel verte uma lágrima. É a intérprete musical no seu esplendor! Reflexo darwiniano? Ou não será antes essa lágrima o reflexo fisiológico de uma pessoa cuja alma está sublimada pela beleza? Cuja alma está de janelas abertas para a eternidade? Não será essa lágrima, discreta, um pequeno sinal exterior do turbilhão, da vertigem de beleza que se apoderou da sua alma?
Um tiro no pé?
O problema lógico de todo o darwinismo materialista, é que se trata de uma posição que se refuta a si mesma. É certo que Dutton, homem culto, apreciador de cultura, viveu toda a sua vida apaixonado pelas coisas de que gostava, de entre elas a beleza, o estudo e o ensino filosófico da beleza. Como académico, buscou a verdade acerca da beleza. Será que toda essa busca, de uma vida inteira, se reduz a um esforço pela sobrevivência? Por outras palavras, será que a explicação darwiniana da beleza não será, também ela, um fenómeno darwiniano? Ou seja, como pode haver um fundo de verdade em qualquer teoria que afirme que toda a actividade humana tem uma explicação derradeira que é cem por cento materialista? Essa teoria pisa o seu próprio pé. Morde a sua própria canela. Dutton defende que, em última análise, a beleza só existe por causa de um processo natural e material. Isso destrói, não a beleza (que manifestamente existe), mas o fim da beleza, o gozo último da beleza, a razão de ser da beleza. Afinal de contas, o belo é apenas o produto de um processo natural e material? Ora bolas...
Mas a ideia de Dutton insere-se no contexto auto-destrutivo de todas as teorias darwinistas materialistas. O darwinismo materialista destrói o próprio conceito de verdade, e não apenas o da verdade acerca da beleza. Num mundo em que as causas derradeiras de tudo são darwinistas, não há verdade. A própria defesa intelectual da verdade, a própria procura da verdade, seria o efeito de algo determinado pelo darwinismo. Seríamos ateus por razões darwinistas. Seriamos agnósticos por razões darwinistas. Seriamos cristãos por razões darwinistas. Gostaríamos de Sibelius por razões darwinistas. Gostaríamos de Metallica por razões darwinistas. O darwinismo, expandido para fora da fronteira da Ciência, e transformado em "weltanschauung" filosófica omnipotente, torna-se numa ideia que é auto-destrutiva, que é suicida. Numa vertente mais prática, apesar de Dutton nos dar exemplos, na sua palestra, de coisas manifestamente belas, a verdade é que ele poderia dar exemplos perfeitamente darwinistas de coisas manifestamente feias. Fotografias de Auschwitz tiradas aquando do seu uso para exterminar judeus seriam exemplos pertinentes de coisas horrorosas com pleno enquadramento num quadro darwinista: sobrevivência dos mais aptos: o ariano, o forte, sobrevive ao judeu, o fraco. É tão legítimo, em termos estritamente darwinianos, que o leão mate a gazela ou que o ariano mate o judeu. O nazismo representa um dos melhores exemplos dos perigos de transportar o darwinismo para fora da Ciência, transformando-o numa cosmovisão. Não se pode montar uma ética válida sobre o darwinismo: até Richard Dawkins o reconhece. Logo, é um beco sem saída, o caminho de justificar tudo no Homem pela via do darwinismo.
Dutton era um orador talentoso. A sua palestra TED é um magnífico exemplo de oratória e de eficácia comunicativa. Mas Dutton não deu à sua plateia nenhum exemplo de coisas feias que também podem ter boas explicações darwinistas. A lei da sobrevivência do mais forte, quando vivida à letra, pode dar origem a coisas muito feias, e no entanto, é perfeitamente darwinista.
Seria superficial dizer que a explicação darwinista da beleza, conforme defendida por Denis Dutton, é cem por cento falsa. Eu não acredito nisso, e não me atrevo a dizer que Dutton estava cem por cento errado. Não é fácil acreditar em afirmações cem por cento falsas. Desconfiamos delas. Se me dissessem: "ontem, na Gulbenkian, um chimpanzé evadido do Jardim Zoológico, munido de um Stradivarius, tocou o Concerto para Violino e Orquestra de Sibelius", eu mandava essa pessoa passear. Uma falsidade tão irreal, sem qualquer base de verdade, é literalmente inacreditável. Por isso, apesar de eu achar que a teoria de Dutton é falsa, no sentido em que falha em encontrar a explicação derradeira para a beleza, eu acho que a dita teoria tem qualquer coisa de verdadeiro.
As falsidades poderosas, as que sobrevivem mais tempo, são as que incorporam em si mesmas alguns ingredientes verdadeiros. Assim, há certamente algo de verdadeiro na teoria darwinista da beleza, conforme apresentada por Dutton. Afinal de contas, fazemos parte do mundo material, somos pessoas de corpo e alma, e o corpo é seguramente natural, material. Por isso, é de esperar que, do mesmo modo que reflexos como o do susto podem ter origem darwiniana e explicação genética, pois quem tem esses reflexos escapa melhor aos perigos e sobrevive para deixar descendência a quem passar esses genes eficazes, também certos aspectos acerca da nossa interpretação sensorial podem ter algum fundamento darwiniano e genético. Parte da nossa psique pode ter características em cujas causas concorre o darwinismo. Afinal de contas, os nossos sentidos estão profundamente adaptados à realidade natural. Também somos feitos de matéria. E da mesma matéria que o Universo.
Conclusão
Afinal, onde está a verdade?
O cristão vê-se, mais uma vez, obrigado a defender o bom senso, e a evitar dois erros opostos: por um lado, o cristão protesta contra os erros do materialismo, que quer reduzir o Homem ao corpo, à matéria. Por outro lado, o cristão protesta contra os erros do gnosticismo, que quer reduzir o Homem à alma, sem matéria. Vivemos tempos entusiasmantes, mas ao mesmo tempo, de extremos. Todos os dias deparamo-nos com dois tipos de louco: o louco que nos quer convencer que somos o nosso corpo, e o louco que nos quer convencer que o nosso corpo pode, em certos casos, não ter nada a ver connosco.
Dutton não era louco. Paz à sua alma: rezamos por ele a Deus, para que se converta e o Senhor lhe conceda a graça do perdão. Todo o Homem que procura a beleza procura a Deus, e mesmo que equivocado no caminho, tem uma sede de beleza que, em si mesma, tem valor. Dutton cometeu, a meu ver, o erro de desequilibrar a correcta visão do Homem num dado sentido, o do materialismo. Outros cometem o erro de desequilibrar essa visão no sentido oposto, o do gnosticismo. Por exemplo, os defensores da ideologia de género acreditam que o nosso corpo pode, em certos casos, não ter nada a ver connosco, e por isso defendem a ideia louca de que podemos ser homens em corpo de mulher, ou mulheres em corpo de homem. E, de forma mais frequente, os gnósticos modernos defendem a loucura de que não existe moral sexual. A loucura de que não há tal coisa como uma "ortopraxia" (uma prática correcta) da nossa sexualidade. Como se o corpo, não sendo parte constituinte do nosso ser, fosse apenas um instrumento que o nosso "eu" imaterial usaria para obter prazer. Como se o nosso corpo não fizesse parte do nosso "eu". Claro que faz. E toda a ética que não veja o corpo como parte integrante do ser humano é uma falsa ética. A ética não é uma coisa de almas imateriais: é uma coisa de seres humanos de corpo e alma.
O cristão sabe onde está a verdade acerca do ser humano. Está em ver o ser humano como feito de corpo e alma. Está em ver o ser humano como uma pessoa cujo corpo material é constituído pelos mesmos elementos que encontramos no Universo e cuja alma imaterial é criada directamente por Deus, uma alma que não pode ser reduzida ao material, uma alma livre, com capacidades racionais e artísticas, capacidades que não vêm da matéria. Finalmente, uma alma com capacidade de amar, porque a capacidade de amar também não vem da matéria.
A verdadeira origem da beleza está em Deus, fonte de toda a beleza. Origem e destino da beleza. Toda a beleza que podemos encontrar é um reflexo da beleza divina. O fim último do ser humano é o encontro com Deus, é o contemplar Deus na sua infinita beleza e bondade. Suprema aspiração e fim admirável da raça humana!
PS: A palestra de Dutton tem o mérito de procurar refutar as teorias modernas e pós-modernas de beleza. Mas troca-as por uma teoria igualmente falsa. A explicação verdadeira da beleza está na doutrina cristã. Não é necessário procurá-la mais longe.
PPS: Em jeito de corolário ao que acabei de escrever, veja-se Maxim Vengerov, numa "masterclass" do Concerto para Violino e Orquestra de Sibelius, a explicar na prática o que é a beleza... Veja-se, sobretudo, a partir do 1'40''. Aos 2'', Vengerov diz, com razão: "This is beauty!"
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
Mostrar mensagens com a etiqueta Criação e Evolução. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Criação e Evolução. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Adão e Eva
Num "post" do Ludwig, intitulado Treta da semana: o que a ciência não responde, vai um debate aceso acerca de um tema sem sentido: lá, a certa altura, discute-se se a Igreja Católica defende ou não defende a existência histórica de Adão e Eva.
Surpreende-me que, nesta era da Internet, se ande a discutir o sexo dos anjos horas e dias a fio, e ninguém se dê ao trabalho de uma simples pesquisa. É muito fácil encontrar a afirmação categórica do Magistério da Igreja acerca da existência histórica de Adão e Eva. O papa Pio XII, juntando-se a 2.000 anos de Magistério, voltou a reforçar esse ponto CENTRAL da doutrina cristã na sua encíclica Humanis Generis:
«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»
Ver: Encíclica Humanis Generis, de Pio XII (12 de Agosto de 1950).
Por isso, é inútil e infértil estar a discutir se os católicos acham ou não que Adão existiu. É por demais evidente que o catolicismo afirma isso categoricamente.
Querer negar isto é querer negar um facto. E não é preciso que concordem com a Igreja. Já seria um progresso no debate público se as pessoas que discordam da Igreja começassem por se dar conta do que é que a Igreja realmente diz.
É ainda totalmente inútil discutir se há ou não cristãos que não acreditam na existência histórica de Adão. É evidente que há cristãos que não acreditam nessa existência. E daí? O cristianismo não é a soma das fés pessoais dos cristãos. O cristianismo é hierárquico, como o próprio Cristo quis que fosse. O Magistério ensina doutrina. Não doutrina que inventou, mas sim doutrina que recebeu de Cristo. Logo, o cristianismo não é uma "democracia doutrinária", no qual a doutrina de todos seria um meio termo (uma média) da soma das ideias de todos os cristãos.
Nestas coisas, o que interessa não é se padre A ou católico B negaram Adão. Haverá sempre gente assim, como há comunistas fervorosos, filiados no Partido e tudo, e que vivem toda a vida com propriedade privada. A incoerência não traz informação nova.
O que interessa é:
1) A Igreja é hierárquica, ou seja, propõe doutrina de forma hierárquica? A resposta é SIM, e o proponente da doutrina é o Papa, e os Bispos unidos a ele
2) A Igreja, como mestra de doutrina, encabeçada pelo Papa e pelos seus Bispos, ensina que Adão e Eva têm existência histórica real? A resposta é SIM
O resto é conversa inútil. Só poderemos começar a debater a sério, católicos com não católicos, se todos soubermos de que é que estamos a falar.
Uma última nota, de teor racional... Visto que Cristo veio resgatar a Humanidade do pecado, pecado esse que a Igreja defende como sendo herdado de Adão e Eva, os primeiros seres humanos a pecar, é estranha a lógica que pretende que, sem Adão e Eva para pecar, ou seja, sem primeiro pecado, e portanto, sem pecado herdado (Pecado Original), que pecado viria Cristo resgatar?
É inconsistente ser cristão e negar o Pecado Original. Se sem Adão e Eva não há Pecado Original, então o cristão não pode negar Adão e Eva. Trocado por miúdos, é o que Pio XII diz no trecho que citei.
Surpreende-me que, nesta era da Internet, se ande a discutir o sexo dos anjos horas e dias a fio, e ninguém se dê ao trabalho de uma simples pesquisa. É muito fácil encontrar a afirmação categórica do Magistério da Igreja acerca da existência histórica de Adão e Eva. O papa Pio XII, juntando-se a 2.000 anos de Magistério, voltou a reforçar esse ponto CENTRAL da doutrina cristã na sua encíclica Humanis Generis:
«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»
Ver: Encíclica Humanis Generis, de Pio XII (12 de Agosto de 1950).
Por isso, é inútil e infértil estar a discutir se os católicos acham ou não que Adão existiu. É por demais evidente que o catolicismo afirma isso categoricamente.
Querer negar isto é querer negar um facto. E não é preciso que concordem com a Igreja. Já seria um progresso no debate público se as pessoas que discordam da Igreja começassem por se dar conta do que é que a Igreja realmente diz.
É ainda totalmente inútil discutir se há ou não cristãos que não acreditam na existência histórica de Adão. É evidente que há cristãos que não acreditam nessa existência. E daí? O cristianismo não é a soma das fés pessoais dos cristãos. O cristianismo é hierárquico, como o próprio Cristo quis que fosse. O Magistério ensina doutrina. Não doutrina que inventou, mas sim doutrina que recebeu de Cristo. Logo, o cristianismo não é uma "democracia doutrinária", no qual a doutrina de todos seria um meio termo (uma média) da soma das ideias de todos os cristãos.
Nestas coisas, o que interessa não é se padre A ou católico B negaram Adão. Haverá sempre gente assim, como há comunistas fervorosos, filiados no Partido e tudo, e que vivem toda a vida com propriedade privada. A incoerência não traz informação nova.
O que interessa é:
1) A Igreja é hierárquica, ou seja, propõe doutrina de forma hierárquica? A resposta é SIM, e o proponente da doutrina é o Papa, e os Bispos unidos a ele
2) A Igreja, como mestra de doutrina, encabeçada pelo Papa e pelos seus Bispos, ensina que Adão e Eva têm existência histórica real? A resposta é SIM
O resto é conversa inútil. Só poderemos começar a debater a sério, católicos com não católicos, se todos soubermos de que é que estamos a falar.
Uma última nota, de teor racional... Visto que Cristo veio resgatar a Humanidade do pecado, pecado esse que a Igreja defende como sendo herdado de Adão e Eva, os primeiros seres humanos a pecar, é estranha a lógica que pretende que, sem Adão e Eva para pecar, ou seja, sem primeiro pecado, e portanto, sem pecado herdado (Pecado Original), que pecado viria Cristo resgatar?
É inconsistente ser cristão e negar o Pecado Original. Se sem Adão e Eva não há Pecado Original, então o cristão não pode negar Adão e Eva. Trocado por miúdos, é o que Pio XII diz no trecho que citei.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Factos e símbolos no Génesis
Inseri há pouco este comentário, em resposta a este texto da Leonor Abrantes: Literalismo e interpretação.
Leonor,
Muito agradeço este teu texto, que me deixou muito contente. Por uma principal razão: consegui, felizmente, passar o ponto de vista que queria passar: que uma leitura do Génesis 100% simbólica, que tratasse tudo aquilo como “não factual”, é um contrasenso para um católico.
Usando a lógica (excluindo a possibilidade absurda de que não há narrativas, nem simbólicas nem factuais, no Génesis), temos estas possibilidades:
a) o Génesis tem apenas uma leitura simbólica: nada daquilo aconteceu
b) o Génesis tem apenas uma leitura literal: tudo aquilo aconteceu COMO DESCRITO
c) o Génesis tem, pelo menos, duas camadas de leitura: uma narrativa de factos e uma narrativa de símbolos: os factos são coisas que aconteceram, os símbolos são meios de expressar de forma mais fácil e compreensível as ditas coisas que aconteceram
A posição a) é típica de alguns exegetas modernos que, assustados (sem razão) com a Ciência, julgam que salvam o cristianismo do escárnio dos seus adversários deitando fora o bebé com a água do banho, ou seja, deitando fora todo e qualquer conteúdo factual do Génesis. Isso é tolo, e é mandar às malvas 2.000 anos de tradição de exegese.
A posição b) é típica de várias (mas não todas) correntes protestantes. Tais correntes, quando defendem a factualidade do Génesis, colocam o relato bíblico acima da Ciência, e em caso de conflito, rejeitam a Ciência para ficarem com a descrição literal dos acontecimentos. Como se vê facilmente com algum estudo, raras autoridades católicas em matéria de doutrina e de exegese defenderam esta posição. Tão cedo como com Santo Agostinho temos a separação entre a narrativa factual e a narrativa simbólica (“De Genesi ad Litteram”). Por exemplo: Santo Agostinho não aceitava que os seis dias da Criação tivessem durado 24 horas cada.
A posição c) é a que reúne o consenso de todas as grandes figuras da tradição católica e é a que é defendida pelo Magistério. A narrativa dos factos é imperiosa, pois ela estabelece de forma firme o sustentáculo da teologia posterior, tanto da teologia judaica, como (e sobretudo) da teologia cristã. A narrativa dos símbolos não deixa de ter a sua importância e a sua utilidade. Eu costumo dar este exemplo: se um “pele vermelha” vê um comboio na planície e volta a correr para a sua aldeia, afirmando ter avistado um “cavalo de ferro” na planície, temos as duas narrativas: o símbolo do “cavalo de ferro” reflecte a linguagem que a testemunha usa e conhece, mas existe a factualidade: um comboio passou mesmo na planície, e ele avistou-o.
Como resolver o imbróglio da leitura correcta do Génesis?
Aprendendo com o passado: respeitando a Tradição e ao mesmo tempo respeitando da Ciência. Na Idade Média, o escolástico Sigério de Brabante propunha uma separação radical (era mesmo uma separação epistémica) de domínios do saber: havia as verdades da Fé, e havia as verdades de Filosofia (científicas). Segundo Sigério, quando dois postulados, um teológico e outro filosófico, se pronunciavam sobre determinado objecto, poderia haver contradição entre os dois postulados. Esta ideia, com razão, arrepiou o grande São Tomás, que disse que a verdade era una, e que a presença de contradição, mesmo entre teses de áreas distintas, era prova de erro.
A Igreja sempre procurou seguir esta via de conciliação: não distorcer a doutrina legada por Cristo, a mesma doutrina defendida pela tradição da Patrística, e pelo Magistério, e ao mesmo tempo, respeitar TODAS as verdades do conhecimento humano, ou seja, as verdades filosóficas e científicas. Mas a conciliação não se faz, nunca, à custa da verdade. Onde há contradição, há erro.
Contra quem diz que a leitura católica do Génesis esbarra com a ciência actual, eu pergunto: ONDE?? Quem o afirma, ou desconhece a leitura católica do Génesis, ou desconhece a ciência actual, ou desconhece ambas.
Não sou eu quem decide estas coisas, pelo que o que aqui está escrito não é a opinião do Bernardo Motta, mas sim a posição da Igreja.
Em relação ao Génesis, para se ter uma prova cabal daquilo que eu afirmo, de que o Magistério defende uma leitura factual (mas não necessariamente literal) do Génesis, nada como ler este trecho esclarecedor da encíclica Humani Generis, do Papa Pio XII:
«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»
Vale a pena ler a encíclica toda, mas quis destacar este parágrafo, por ser ilustrativo daquilo que acabei de escrever. De forma clara, Pio XII, com toda a sua autoridade papal, declara que o católico não pode deixar de aceitar a verdade de um primeiro casal humano, para salvaguardar a doutrina católica da Queda. Se isto não é um exemplo claro de leitura factual do Génesis…
Mas em toda esta encíclica, escrita com imenso cuidado (Pio XII era um ávido leitor de literatura científica), o Papa evita pronunciar-se sobre teses científicas, e em parte alguma, ele afirma algo hoje provado cientificamente como errado.
Tenho todo o respeito pelo Padre Carreira das Neves, e pela sua vida inteira de estudo bíblico. Mas reconheço, como se entende, mais autoridade doutrinal a um Papa.
Qualquer estudioso das questões científicas em torno do surgimento da vida, e dos problemas relativos ao surgimento da vida humana, sabe ver que o texto de Pio XII, nesta encíclica, é um texto muito cuidadoso. A Igreja Católica, em momento algum, condenou doutrinalmente o evolucionismo científico. Certamente, também pairou, na Cúria, o “fantasma Galileu”, pois o caso Galileu (que hoje quase ninguém ainda compreende, mas todos julgam compreender) é o único exemplo real, e com consequências graves, de fricção epistemológica entre a doutrina católica e a Ciência.
Mas se, nem no caso Galileu, o Magistério condenou formalmente o copernicanismo como herético, e nesse Caso, a Igreja arriscou demasiado (nomeadamente, uma comissão teológica incompetente emitiu um fatal e precipitado juízo teológico em 1616, mas sem valor de condenação formal), na questão da Evolução, a Igreja foi muitíssimo mais cuidadosa. Em momento algum, a Igreja se pronunciou contra verdades científicas estabelecidas (nem nunca o fará, se Deus quiser).
Leonor,
Muito agradeço este teu texto, que me deixou muito contente. Por uma principal razão: consegui, felizmente, passar o ponto de vista que queria passar: que uma leitura do Génesis 100% simbólica, que tratasse tudo aquilo como “não factual”, é um contrasenso para um católico.
Usando a lógica (excluindo a possibilidade absurda de que não há narrativas, nem simbólicas nem factuais, no Génesis), temos estas possibilidades:
a) o Génesis tem apenas uma leitura simbólica: nada daquilo aconteceu
b) o Génesis tem apenas uma leitura literal: tudo aquilo aconteceu COMO DESCRITO
c) o Génesis tem, pelo menos, duas camadas de leitura: uma narrativa de factos e uma narrativa de símbolos: os factos são coisas que aconteceram, os símbolos são meios de expressar de forma mais fácil e compreensível as ditas coisas que aconteceram
A posição a) é típica de alguns exegetas modernos que, assustados (sem razão) com a Ciência, julgam que salvam o cristianismo do escárnio dos seus adversários deitando fora o bebé com a água do banho, ou seja, deitando fora todo e qualquer conteúdo factual do Génesis. Isso é tolo, e é mandar às malvas 2.000 anos de tradição de exegese.
A posição b) é típica de várias (mas não todas) correntes protestantes. Tais correntes, quando defendem a factualidade do Génesis, colocam o relato bíblico acima da Ciência, e em caso de conflito, rejeitam a Ciência para ficarem com a descrição literal dos acontecimentos. Como se vê facilmente com algum estudo, raras autoridades católicas em matéria de doutrina e de exegese defenderam esta posição. Tão cedo como com Santo Agostinho temos a separação entre a narrativa factual e a narrativa simbólica (“De Genesi ad Litteram”). Por exemplo: Santo Agostinho não aceitava que os seis dias da Criação tivessem durado 24 horas cada.
A posição c) é a que reúne o consenso de todas as grandes figuras da tradição católica e é a que é defendida pelo Magistério. A narrativa dos factos é imperiosa, pois ela estabelece de forma firme o sustentáculo da teologia posterior, tanto da teologia judaica, como (e sobretudo) da teologia cristã. A narrativa dos símbolos não deixa de ter a sua importância e a sua utilidade. Eu costumo dar este exemplo: se um “pele vermelha” vê um comboio na planície e volta a correr para a sua aldeia, afirmando ter avistado um “cavalo de ferro” na planície, temos as duas narrativas: o símbolo do “cavalo de ferro” reflecte a linguagem que a testemunha usa e conhece, mas existe a factualidade: um comboio passou mesmo na planície, e ele avistou-o.
Como resolver o imbróglio da leitura correcta do Génesis?
Aprendendo com o passado: respeitando a Tradição e ao mesmo tempo respeitando da Ciência. Na Idade Média, o escolástico Sigério de Brabante propunha uma separação radical (era mesmo uma separação epistémica) de domínios do saber: havia as verdades da Fé, e havia as verdades de Filosofia (científicas). Segundo Sigério, quando dois postulados, um teológico e outro filosófico, se pronunciavam sobre determinado objecto, poderia haver contradição entre os dois postulados. Esta ideia, com razão, arrepiou o grande São Tomás, que disse que a verdade era una, e que a presença de contradição, mesmo entre teses de áreas distintas, era prova de erro.
A Igreja sempre procurou seguir esta via de conciliação: não distorcer a doutrina legada por Cristo, a mesma doutrina defendida pela tradição da Patrística, e pelo Magistério, e ao mesmo tempo, respeitar TODAS as verdades do conhecimento humano, ou seja, as verdades filosóficas e científicas. Mas a conciliação não se faz, nunca, à custa da verdade. Onde há contradição, há erro.
Contra quem diz que a leitura católica do Génesis esbarra com a ciência actual, eu pergunto: ONDE?? Quem o afirma, ou desconhece a leitura católica do Génesis, ou desconhece a ciência actual, ou desconhece ambas.
Não sou eu quem decide estas coisas, pelo que o que aqui está escrito não é a opinião do Bernardo Motta, mas sim a posição da Igreja.
Em relação ao Génesis, para se ter uma prova cabal daquilo que eu afirmo, de que o Magistério defende uma leitura factual (mas não necessariamente literal) do Génesis, nada como ler este trecho esclarecedor da encíclica Humani Generis, do Papa Pio XII:
«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»
Vale a pena ler a encíclica toda, mas quis destacar este parágrafo, por ser ilustrativo daquilo que acabei de escrever. De forma clara, Pio XII, com toda a sua autoridade papal, declara que o católico não pode deixar de aceitar a verdade de um primeiro casal humano, para salvaguardar a doutrina católica da Queda. Se isto não é um exemplo claro de leitura factual do Génesis…
Mas em toda esta encíclica, escrita com imenso cuidado (Pio XII era um ávido leitor de literatura científica), o Papa evita pronunciar-se sobre teses científicas, e em parte alguma, ele afirma algo hoje provado cientificamente como errado.
Tenho todo o respeito pelo Padre Carreira das Neves, e pela sua vida inteira de estudo bíblico. Mas reconheço, como se entende, mais autoridade doutrinal a um Papa.
Qualquer estudioso das questões científicas em torno do surgimento da vida, e dos problemas relativos ao surgimento da vida humana, sabe ver que o texto de Pio XII, nesta encíclica, é um texto muito cuidadoso. A Igreja Católica, em momento algum, condenou doutrinalmente o evolucionismo científico. Certamente, também pairou, na Cúria, o “fantasma Galileu”, pois o caso Galileu (que hoje quase ninguém ainda compreende, mas todos julgam compreender) é o único exemplo real, e com consequências graves, de fricção epistemológica entre a doutrina católica e a Ciência.
Mas se, nem no caso Galileu, o Magistério condenou formalmente o copernicanismo como herético, e nesse Caso, a Igreja arriscou demasiado (nomeadamente, uma comissão teológica incompetente emitiu um fatal e precipitado juízo teológico em 1616, mas sem valor de condenação formal), na questão da Evolução, a Igreja foi muitíssimo mais cuidadosa. Em momento algum, a Igreja se pronunciou contra verdades científicas estabelecidas (nem nunca o fará, se Deus quiser).
sábado, 7 de agosto de 2010
Resposta à Leonor
Por comodidade, decidi responder desta forma a um comentário da Leonor no meu último "post", pois as caixas de comentário não são adequadas a respostas extensas.
«Tenho algumas dúvidas quanto aquilo que argumentas e até mesmo naquilo que acreditas. Até porque noutras ocasiões demonstras que não és um criacionista. Fico algo confusa...»
Em caso de dúvida, é bastante seguro ver-me como um cristão. Não como um cristão herege como os que tenho criticado, mas sim como um cristão que segue a tradição cristã da Igreja Católica. Importa recordar que "heresia" significa, literalmente, "escolha". Os primeiros hereges eram assim chamados porque eles "escolhiam" uma fé diferente da recebida. A oposição, então, é entre a heresia (a "escolha" de uma doutrina pessoal) e a tradição (a profissão de uma doutrina "recebida").
Hoje em dia, os "media" adoram os cristãos hereges, e dão-lhes ampla plataforma de expressão. Para além disso, quando se trata de clero herege, os superiores hierárquicos desses cristãos hereges acham que seria anti-moderno criticar os seus subordinados. E então, as consequências notórias da exposição mediática destes hereges são:
1) a confusão para os não cristãos, que ficam sem perceber, afinal de contas, o que é o cristianismo, pois assistem a relatos contraditórios: o cristão coerente diz que há Diabo, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que Cristo está presente na Eucaristia, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que temos que confessar os pecados e procurar a salvação, evitando a condenação, e o cristão herege diz que não há Inferno e que o conceito de pecado está ultrapassado, e assim por diante
2) a confusão para muitos cristãos menos informados ou com menos formação cristã, que perante a ausência de contraditório por parte dos superiores destes padres e teólogos hereges, julgam que eles falam com verdade e autoridade
É então perfeitamente natural que estejas confusa. É-te certamente muito difícil compreender o cristianismo, pois o que vês dele está distorcido pela comunicação social e por uma assimétrica concessão de tempo de antena a dissidentes do cristianismo. Hoje em dia, a única forma de se ter contacto real com o cristianismo é mesmo a do convívio pessoal com cristãos de fé coerente e prática religiosa consistente.
Agora a tua questão... A expressão "criacionista" tornou-se demasiado vaga, pois diferentes sistemas de ideias reivindicam-na. Para simplificar, diria que há dois tipos de criacionismo:
a) o que considera Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas não necessariamente como o criador imediato de todos os seres; quem pensa assim, considera que Deus pode muito bem ter criado um Cosmos com leis próprias e dinamismos próprios, que conduzem ao surgimento da vida pelas chamadas "causas segundas": a expressão "causa segunda" vem da escolástica, e designa as coisas que surgiram, não por causa imediata de Deus, mas sim por causas indirectas
b) o que, para além de considerar Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, diz ainda que Deus é o criador imediato e directo de todos os seres; necessariamente, este tipo de criacionismo rejeita a teoria científica do darwinismo; nota que eu escrevi "teoria científica do darwinismo", pois o darwinismo é uma categoria vasta que hoje em dia abrange muito mais do que a teoria científica original (entretanto, surgiu o darwinismo como filosofia materialista, o darwinismo social e cultural, etc.); este tipo de criacionismo é muito popular entre protestantes, mas nem todos os protestantes são criacionistas neste sentido, e haverá certamente alguns católicos que também se revêem neste tipo de criacionismo, sobretudo quando têm sérias dúvidas acerca do darwinismo científico
Qual é a minha posição? Sendo católico, tendo para um criacionismo de tipo a). Porque escrevi "tendo"? Porque ainda não existem dados científicos suficientes sobre a questão do surgimento da vida para que ela possa ser encerrada. Porque prefiro o tipo a)? Por uma razão simples: o conceito de liberdade criatural é intrínseco à teologia católica, e com a Escolástica, amadurecemos muito a compreensão intelectual do conceito de causa e efeito, necessária para a distinção entre causas primeiras e causas segundas: ora, estas causas segundas têm muito a ver com a liberdade intrínseca da Criação, com a noção muito católica de que Deus não é um "mestre de fantoches" a puxar os cordelinhos, manipulando a Criação como se esta fosse uma marioneta.
Para além disto, o católico é um entusiasta natural pela Ciência, o que levou a que muitos católicos se destacassem como cientistas brilhantes e tivessem inaugurado a ciência moderna. Do lado protestante, um literalismo bíblico desligado da Tradição levou, muitas vezes, a um desprezo pela Ciência. Hoje em dia, vejo que há mais do que razões para se dar crédito à teoria científica da evolução das espécies, e por isso, não sou anti-darwinista. Mas mantenho um espírito aberto acerca desta questão, pois o surgimento da primeira forma de vida está ainda por explicar, além de que o surgimento de uma espécie nova nunca foi reproduzido ou testado (uma boa razão pode ser porque tal fenómeno demora muito tempo, tempo demais para ser observado por seres humanos).
Em suma: com os dados da Ciência moderna, constato que o Universo está "afinado", e que esta afinação faz do nosso Universo uma realidade muito especial. Essa "afinação", para o cristão, resulta da vontade livre de Deus, que quis fazer o Universo deste modo. Por isso, se o nosso Cosmos está estruturado de tal forma que nele acaba por surgir vida, e vida inteligente, isso só abona em favor da inteligência do Criador. Se o Criador decidiu fazer um Universo dotado das leis e dinâmicas internas necessárias e suficientes para delas surgir vida, e vida inteligente, então posso ser um criacionista de tipo a) sem problemas nenhuns, pois o meu criacionismo, para além de consistente, é compatível com os dados da ciência e respeita a já colossal recolha de argumentos científicos a favor da teoria científica de Darwin.
No entanto, é igualmente lógica a tese (em tempos largamente aceite por todos os cristãos) de que Deus teria criado individualmente cada espécie. Aqui importa fazer outra distinção, separando a categoria b) em duas sub-categorias:
b1) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir do nada, ou seja, as espécies teriam surgido instantânea e imediatamente, sem que Deus recorresse a matéria já existente
b2) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir de material orgânico ou inorgânico pré-existente
Repito que ambas estas teses, a b1) e a b2), têm coerência interna, ou seja, são lógicas. No entanto, ambas são muito difíceis de compatibilizar com os dados científicos do darwinismo. Insisto que a minha posição é a do criacionista de tipo a), mas se eu tivesse que optar entre uma das formas b) que apresentei, preferiria a b2), pois não vejo porque razão não poderia Deus aproveitar partes do já criado para criar algo novo.
À laia de síntese, o criacionista de tipo a), categoria na qual me revejo, é sempre um criacionista, conquanto afirma que Deus é a fonte primeira e última da existência de tudo. No entanto, Deus pode ter criado um Cosmos que, por sua vez, teria as condições e os dinamismos necessários para fazer surgir vida por "causas segundas", sem intervenção directa e imediata de Deus no surgimento dessa vida.
E a Bíblia?
Necessariamente, como Cristão, vejo a Bíblia como livro de salvação, contendo sobretudo verdades doutrinais e morais. Contém ainda outras verdades menores, face ao desígnio do livro, mas que são todavia verdades presentes: verdades históricas e factuais.
O Génesis apresenta um relato da Criação. É um relato figurado, no sentido em que recorre a imagens simples, mas ao mesmo tempo muito belas, que descreve verdades objectivas e concretas.
Aceito o Génesis, e toda a Bíblia, como uma obra isenta de erro, no sentido em que nenhum leitor, entrosado na tradição cristã de leitura bíblica, vai ser induzido em erro ao lê-la. Como qualquer obra escrita, a Bíblia necessita de uma correcta leitura. Essa leitura é feita dentro da Igreja, por via da Tradição. A leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz do que Cristo nos revelou. Para os judeus, a leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz da revelação feita por Iavé aos profetas e ao povo de Israel. Nesse sentido, o Antigo Testamento é o testemunho de um povo à procura de Deus e de Deus à procura de um povo em concreto, para fazer dele "local" de surgimento do Salvador. Com o Novo Testamento, Cristo fecha e completa (não destrói nem anula) o Antigo Testamento. Cristo é a "chave dos Profetas", pois a Sua vida dá uma leitura final e definitiva a todos os anseios do Antigo Testamento. Através de Cristo, Deus dá-Se a conhecer, finalmente, ao seu Povo. E a mensagem é surpreendente: Cristo vem morrer para nos redimir dos nossos pecados, e vem para que levemos a Boa Nova da sua vitória sobre a morte a todos os cantos da Terra. Com o Novo Testamento, a mensagem de salvação sai do campo de Israel e torna-se universal.
A presença de imagens, figuras, parábolas e metáforas não implica falsidade, erro ou mentira.
Por exemplo, quando um índio Sioux ou Cherokee se referia a um comboio que tinha passado na planície como sendo um "cavalo de ferro", ele não estava a mentir. Com grande probablidade, o comboio teria mesmo passado à frente dos seus olhos. O índio estava a usar a linguagem e os símbolos ao seu dispor para relatar o que tinha presenciado.
É assim o Génesis: a verdade chega ao escriba vinda de Deus. É o Espírito Santo que inspira o escriba do Génesis a escrever. O escriba não recebe um texto inteiro, estilo ditado. Essa é a tese o Islão, que vê o Corão como texto ditado palavra a palavra a Maomé. O escriba do Antigo Testamento, o escriba do Novo Testamento, recebe ideias no seu intelecto, ideias essas que vêm de Deus. Mas escreve-as com os símbolos e as imagens do próprio escriba. Quando o autor do livro do Génesis escreve que Adão e Eva comeram da maçã da árvore do Bem e do Mal, nenhum leitor erudito da Bíblia pensou que se tratava necessariamente de um fruto físico. A leitura que sempre se fez era no sentido de que Adão e Eva tinham usado da sua liberdade para transgredir a Lei de Deus. E dessa forma, tinham pela primeira vez optado pelo Mal. A serpente simboliza o pai da mentira, o Diabo, ser que já existia antes do Homem, e que sugeriu ao primeiro casal que se autonomizassem de Deus.
Outra nota importante, relativa a uma confusão que os novos ateístas teimam em fazer. Quando o povo hebreu atribui certa vitória militar sobre os seus inimigos à acção de Deus, não temos Deus a concordar com essa leitura. A batalha militar será factual, e a vitória também, mas que sabemos nós acerca da "participação" de Deus nessa vitória? É o povo de Israel que faz essa leitura, mas não temos que aceitar essa leitura como sendo a de Deus. Dizer isto não é dizer que a Bíblia erra, pois todo o cristão (e todo o judeu) sabe que Deus não ditou a Bíblia, e que esta foi escrita por escribas humanos. Ao mesmo tempo, o testemunho de que Israel leu este ou aquele episódio histórico desta ou daquela maneira, é um testemunho vivo da procura de Deus por parte desse povo. Outra coisa óbvia: se determinada figura bíblica comete um crime (algo frequente!), é evidente que não se deve ler o texto no sentido de concordar com esse crime. Esses relatos são abundantes, contendo o ensinamento de que, após a Queda, o ser humano tem uma tendência não inata, mas adquirida com a Queda, para a asneira, e que esse caminho da asneira é o caminho oposto ao que nos leva a Deus.
Assim, o cristão fala do Génesis como o livro que relata, entre outras coisas, as verdades fundamentais de Deus Criador do Universo, da Tentação pelo Diabo, e da Queda do primeiro casal. Eu aceito necessariamente tudo isso como verdades, enquanto posso reconhecer que as palavras que são usadas constituem imagens que ajudam a aceder à verdade: a serpente, a maçã, a árvore, etc.; já Santo Agostinho, na sua obra "De Genesi ad litteram", dizia que a Criação não teria, necessariamente, que ter durado seis dias em sentido literal, ou seja, seis dias de 24 horas. No entanto, é correcta leitura do Génesis ler o texto da Criação como relatando uma sequência verdadeira e real: trevas iniciais, surgimento da luz, etc. Se notares bem, não é muito complicado (apesar de ser arriscado e ainda incerto, à luz do conhecimento actual) ver aqui vislumbres do "fiat lux" que representa o Big Bang. O relato do Génesis é gradual: primeiro, surgem as condições para a vida, e depois surge a vida. Tudo isto é lógico e faz sentido à luz do conhecimento actual.
Na visão cristã das coisas, entram sempre duas regras de ouro:
a) respeitar a tradição recebida de Cristo
b) respeitar a razão e as verdades seguras que fomos descobrindo por via racional
«Ao ler este teu post tenho a sensação que tomas o relato bíblico como real quando afirmas que Deus criou o universo, o mundo, os anjos, o Homem, etc. Ou seja, em parte alguma do teu discurso dizes que o relato da criação é uma interpretação do universo de uns quantos homens que viveram há uns bons milhares de anos atrás.»
Tens toda a razão. Eu tomo como real que Deus criou o Universo, os anjos, o Homem, etc., Mas espero ter deixado claro que há muitas nuances na palavra "criou"...
«E desculpa a minha ignorância... Como é que tu sabes? Se não for através da interpretação que homens fazem das palavras de outros homens, como é que tu podes saber?»
Toda a solidez da minha posição advém, como referi, de confiar no que a Igreja me ensina, e confiar na razão e nas certezas do meu intelecto racional. Aqui há uma hierarquia: eu creio primeiro para entender depois ("credo ut intelligam"), e não ao contrário. Também isso é a prática humana de sempre. Quando estamos na aula, acreditamos no professor antes de entendermos. Quando o nosso pai nos ensina a nadar, acreditamos primeiro nele antes de sabermos nadar. E assim por diante. Claro que podes perguntar-me: "mas como sabes tu que a Igreja ensina o que Cristo ensinou?". Aqui podemos avançar muito, e mesmo muito, com o estudo dos dados históricos, com a leitura do próprio Novo Testamento, e com a sua análise histórica e historiográfica. Com a leitura da Didaché e de outros textos em uso pelos primeiros cristãos. Com a leitura da patrologia, ou seja, dos textos dos Padres da Igreja, escritos durante os primeiros séculos de cristianismo. A doutrina cristã, quando estudada com rigor, apresenta-se completa e consistente, na sua essência, desde os primórdios do Cristianismo.
«O ser humano tem errado ao longo de toda a sua existência. Ou afirmas que os homens que escreveram, compilaram e editaram a Bíblia, não erram, ou afirmas que o texto foi escrito pela própria mão de Deus...»
O ser humano erra. Mas erra muito menos quando tenta seguir a Palavra de Deus. Logo no primeiro século de cristianismo, tens centenas e milhares de pessoas a preferirem serem mortas para não serem obrigadas a renegar a verdade da ressurreição de Cristo. Seriam loucos? Vítimas de alucinação? Conheces muitos casos de grupos organizados de pessoas que preferem serem mortos por teimarem numa ideia?
Em três séculos, essa religião de mulheres e de escravos tomou conta do Império Romano. Isso não te diz nada? Cristo disse que conheceríamos a qualidade da árvore pela qualidade dos frutos. O cristianismo inaugurou uma nova era de direitos humanos, de cultura, de ciência, de justiça. Trouxe o conceito totalmente inovador e revolucionário de caridade. Isso não vale nada? Isso não poderá indicar a origem sobrenatural da ideia cristã?
Hoje achamos banal, a ideia. Mas ela é espantosa: o próprio Deus faz-Se Homem, deixa-Se matar às nossas mãos, e tudo porque nos ama? E tudo para resgatar-nos do nosso pecado? E tudo para nos lançar numa vida nova?
Nenhuma outra religião coloca Deus no teatro humano como faz o cristianismo. Cristo não é um "avatar" como os hindus, que acham que a divindade, de vez em quando, assume uma forma humana. A teologia cristã não é uma teologia de divindades que, de tempos a tempos, visitam um corpo humano. A teologia cristã diz que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. As regras da lógica levam-nos a ver aqui um vislumbre positivo em matéria de direitos humanos: afinal o homem até deve valer qualquer coisinha... Daqui até compreendermos a paixão cristã pela vida humana, vai um salto pequeno.
«Quando conferes autoridade absoluta aquilo que é descrito pelos autores do Novo Testamento, será que esqueces que não temos as palavras de Jesus, nem sequer dos seus discípulos directos?»
É claro que temos, Leonor. Não há consistência científica nenhuma na tese que defende que o Novo Testamento é fantasioso. O Novo Testamento tem, todo ele, uma estrutura factual e cronológica. Os Actos dos Apóstolos relatam, em primeira mão, acontecimentos presenciados pelo autor do livro. As cartas de São Paulo foram escritas pelo próprio, e enviadas a outros para serem lidas. Os autores dos Evangelhos não foram todos apóstolos directos de Cristo (João e Mateus sim, mas Marcos e Lucas não). Mas São Marcos viveu lado a lado com São Pedro durante tempo suficiente para absorver tudo dele. E São Lucas, médico companheiro de viagem de São Paulo, percorreu a viagem cristã por excelência: a missionação do Apóstolo dos Gentios, São Paulo.
«O que queres dizer, é que a Igreja, ou a tradição da Igreja diz que é assim e ponto final.»
Já terei referido que a crença em noções teológicas com base exclusiva em argumentos de autoridade é uma heresia, chamada "fideísmo". A tua frase, na sua essência, surge condenada pela própria Igreja como sendo herética. Obras imponentes como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino são exemplos do fascínio cristão pela argumentação racional, contra posições fideístas, consideradas erradas, pelo desprezo pela razão como fonte de aferição intelectual.
Se fosse como dizes, eu teria que dizer coisas refutadas pela ciência ou pela história. Onde estão essas refutações?
Se fosse como dizes, não haveria consistência histórica no Novo Testamento. Mas há! Que pensar então disso?
Um abraço!
«Tenho algumas dúvidas quanto aquilo que argumentas e até mesmo naquilo que acreditas. Até porque noutras ocasiões demonstras que não és um criacionista. Fico algo confusa...»
Em caso de dúvida, é bastante seguro ver-me como um cristão. Não como um cristão herege como os que tenho criticado, mas sim como um cristão que segue a tradição cristã da Igreja Católica. Importa recordar que "heresia" significa, literalmente, "escolha". Os primeiros hereges eram assim chamados porque eles "escolhiam" uma fé diferente da recebida. A oposição, então, é entre a heresia (a "escolha" de uma doutrina pessoal) e a tradição (a profissão de uma doutrina "recebida").
Hoje em dia, os "media" adoram os cristãos hereges, e dão-lhes ampla plataforma de expressão. Para além disso, quando se trata de clero herege, os superiores hierárquicos desses cristãos hereges acham que seria anti-moderno criticar os seus subordinados. E então, as consequências notórias da exposição mediática destes hereges são:
1) a confusão para os não cristãos, que ficam sem perceber, afinal de contas, o que é o cristianismo, pois assistem a relatos contraditórios: o cristão coerente diz que há Diabo, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que Cristo está presente na Eucaristia, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que temos que confessar os pecados e procurar a salvação, evitando a condenação, e o cristão herege diz que não há Inferno e que o conceito de pecado está ultrapassado, e assim por diante
2) a confusão para muitos cristãos menos informados ou com menos formação cristã, que perante a ausência de contraditório por parte dos superiores destes padres e teólogos hereges, julgam que eles falam com verdade e autoridade
É então perfeitamente natural que estejas confusa. É-te certamente muito difícil compreender o cristianismo, pois o que vês dele está distorcido pela comunicação social e por uma assimétrica concessão de tempo de antena a dissidentes do cristianismo. Hoje em dia, a única forma de se ter contacto real com o cristianismo é mesmo a do convívio pessoal com cristãos de fé coerente e prática religiosa consistente.
Agora a tua questão... A expressão "criacionista" tornou-se demasiado vaga, pois diferentes sistemas de ideias reivindicam-na. Para simplificar, diria que há dois tipos de criacionismo:
a) o que considera Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas não necessariamente como o criador imediato de todos os seres; quem pensa assim, considera que Deus pode muito bem ter criado um Cosmos com leis próprias e dinamismos próprios, que conduzem ao surgimento da vida pelas chamadas "causas segundas": a expressão "causa segunda" vem da escolástica, e designa as coisas que surgiram, não por causa imediata de Deus, mas sim por causas indirectas
b) o que, para além de considerar Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, diz ainda que Deus é o criador imediato e directo de todos os seres; necessariamente, este tipo de criacionismo rejeita a teoria científica do darwinismo; nota que eu escrevi "teoria científica do darwinismo", pois o darwinismo é uma categoria vasta que hoje em dia abrange muito mais do que a teoria científica original (entretanto, surgiu o darwinismo como filosofia materialista, o darwinismo social e cultural, etc.); este tipo de criacionismo é muito popular entre protestantes, mas nem todos os protestantes são criacionistas neste sentido, e haverá certamente alguns católicos que também se revêem neste tipo de criacionismo, sobretudo quando têm sérias dúvidas acerca do darwinismo científico
Qual é a minha posição? Sendo católico, tendo para um criacionismo de tipo a). Porque escrevi "tendo"? Porque ainda não existem dados científicos suficientes sobre a questão do surgimento da vida para que ela possa ser encerrada. Porque prefiro o tipo a)? Por uma razão simples: o conceito de liberdade criatural é intrínseco à teologia católica, e com a Escolástica, amadurecemos muito a compreensão intelectual do conceito de causa e efeito, necessária para a distinção entre causas primeiras e causas segundas: ora, estas causas segundas têm muito a ver com a liberdade intrínseca da Criação, com a noção muito católica de que Deus não é um "mestre de fantoches" a puxar os cordelinhos, manipulando a Criação como se esta fosse uma marioneta.
Para além disto, o católico é um entusiasta natural pela Ciência, o que levou a que muitos católicos se destacassem como cientistas brilhantes e tivessem inaugurado a ciência moderna. Do lado protestante, um literalismo bíblico desligado da Tradição levou, muitas vezes, a um desprezo pela Ciência. Hoje em dia, vejo que há mais do que razões para se dar crédito à teoria científica da evolução das espécies, e por isso, não sou anti-darwinista. Mas mantenho um espírito aberto acerca desta questão, pois o surgimento da primeira forma de vida está ainda por explicar, além de que o surgimento de uma espécie nova nunca foi reproduzido ou testado (uma boa razão pode ser porque tal fenómeno demora muito tempo, tempo demais para ser observado por seres humanos).
Em suma: com os dados da Ciência moderna, constato que o Universo está "afinado", e que esta afinação faz do nosso Universo uma realidade muito especial. Essa "afinação", para o cristão, resulta da vontade livre de Deus, que quis fazer o Universo deste modo. Por isso, se o nosso Cosmos está estruturado de tal forma que nele acaba por surgir vida, e vida inteligente, isso só abona em favor da inteligência do Criador. Se o Criador decidiu fazer um Universo dotado das leis e dinâmicas internas necessárias e suficientes para delas surgir vida, e vida inteligente, então posso ser um criacionista de tipo a) sem problemas nenhuns, pois o meu criacionismo, para além de consistente, é compatível com os dados da ciência e respeita a já colossal recolha de argumentos científicos a favor da teoria científica de Darwin.
No entanto, é igualmente lógica a tese (em tempos largamente aceite por todos os cristãos) de que Deus teria criado individualmente cada espécie. Aqui importa fazer outra distinção, separando a categoria b) em duas sub-categorias:
b1) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir do nada, ou seja, as espécies teriam surgido instantânea e imediatamente, sem que Deus recorresse a matéria já existente
b2) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir de material orgânico ou inorgânico pré-existente
Repito que ambas estas teses, a b1) e a b2), têm coerência interna, ou seja, são lógicas. No entanto, ambas são muito difíceis de compatibilizar com os dados científicos do darwinismo. Insisto que a minha posição é a do criacionista de tipo a), mas se eu tivesse que optar entre uma das formas b) que apresentei, preferiria a b2), pois não vejo porque razão não poderia Deus aproveitar partes do já criado para criar algo novo.
À laia de síntese, o criacionista de tipo a), categoria na qual me revejo, é sempre um criacionista, conquanto afirma que Deus é a fonte primeira e última da existência de tudo. No entanto, Deus pode ter criado um Cosmos que, por sua vez, teria as condições e os dinamismos necessários para fazer surgir vida por "causas segundas", sem intervenção directa e imediata de Deus no surgimento dessa vida.
E a Bíblia?
Necessariamente, como Cristão, vejo a Bíblia como livro de salvação, contendo sobretudo verdades doutrinais e morais. Contém ainda outras verdades menores, face ao desígnio do livro, mas que são todavia verdades presentes: verdades históricas e factuais.
O Génesis apresenta um relato da Criação. É um relato figurado, no sentido em que recorre a imagens simples, mas ao mesmo tempo muito belas, que descreve verdades objectivas e concretas.
Aceito o Génesis, e toda a Bíblia, como uma obra isenta de erro, no sentido em que nenhum leitor, entrosado na tradição cristã de leitura bíblica, vai ser induzido em erro ao lê-la. Como qualquer obra escrita, a Bíblia necessita de uma correcta leitura. Essa leitura é feita dentro da Igreja, por via da Tradição. A leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz do que Cristo nos revelou. Para os judeus, a leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz da revelação feita por Iavé aos profetas e ao povo de Israel. Nesse sentido, o Antigo Testamento é o testemunho de um povo à procura de Deus e de Deus à procura de um povo em concreto, para fazer dele "local" de surgimento do Salvador. Com o Novo Testamento, Cristo fecha e completa (não destrói nem anula) o Antigo Testamento. Cristo é a "chave dos Profetas", pois a Sua vida dá uma leitura final e definitiva a todos os anseios do Antigo Testamento. Através de Cristo, Deus dá-Se a conhecer, finalmente, ao seu Povo. E a mensagem é surpreendente: Cristo vem morrer para nos redimir dos nossos pecados, e vem para que levemos a Boa Nova da sua vitória sobre a morte a todos os cantos da Terra. Com o Novo Testamento, a mensagem de salvação sai do campo de Israel e torna-se universal.
A presença de imagens, figuras, parábolas e metáforas não implica falsidade, erro ou mentira.
Por exemplo, quando um índio Sioux ou Cherokee se referia a um comboio que tinha passado na planície como sendo um "cavalo de ferro", ele não estava a mentir. Com grande probablidade, o comboio teria mesmo passado à frente dos seus olhos. O índio estava a usar a linguagem e os símbolos ao seu dispor para relatar o que tinha presenciado.
É assim o Génesis: a verdade chega ao escriba vinda de Deus. É o Espírito Santo que inspira o escriba do Génesis a escrever. O escriba não recebe um texto inteiro, estilo ditado. Essa é a tese o Islão, que vê o Corão como texto ditado palavra a palavra a Maomé. O escriba do Antigo Testamento, o escriba do Novo Testamento, recebe ideias no seu intelecto, ideias essas que vêm de Deus. Mas escreve-as com os símbolos e as imagens do próprio escriba. Quando o autor do livro do Génesis escreve que Adão e Eva comeram da maçã da árvore do Bem e do Mal, nenhum leitor erudito da Bíblia pensou que se tratava necessariamente de um fruto físico. A leitura que sempre se fez era no sentido de que Adão e Eva tinham usado da sua liberdade para transgredir a Lei de Deus. E dessa forma, tinham pela primeira vez optado pelo Mal. A serpente simboliza o pai da mentira, o Diabo, ser que já existia antes do Homem, e que sugeriu ao primeiro casal que se autonomizassem de Deus.
Outra nota importante, relativa a uma confusão que os novos ateístas teimam em fazer. Quando o povo hebreu atribui certa vitória militar sobre os seus inimigos à acção de Deus, não temos Deus a concordar com essa leitura. A batalha militar será factual, e a vitória também, mas que sabemos nós acerca da "participação" de Deus nessa vitória? É o povo de Israel que faz essa leitura, mas não temos que aceitar essa leitura como sendo a de Deus. Dizer isto não é dizer que a Bíblia erra, pois todo o cristão (e todo o judeu) sabe que Deus não ditou a Bíblia, e que esta foi escrita por escribas humanos. Ao mesmo tempo, o testemunho de que Israel leu este ou aquele episódio histórico desta ou daquela maneira, é um testemunho vivo da procura de Deus por parte desse povo. Outra coisa óbvia: se determinada figura bíblica comete um crime (algo frequente!), é evidente que não se deve ler o texto no sentido de concordar com esse crime. Esses relatos são abundantes, contendo o ensinamento de que, após a Queda, o ser humano tem uma tendência não inata, mas adquirida com a Queda, para a asneira, e que esse caminho da asneira é o caminho oposto ao que nos leva a Deus.
Assim, o cristão fala do Génesis como o livro que relata, entre outras coisas, as verdades fundamentais de Deus Criador do Universo, da Tentação pelo Diabo, e da Queda do primeiro casal. Eu aceito necessariamente tudo isso como verdades, enquanto posso reconhecer que as palavras que são usadas constituem imagens que ajudam a aceder à verdade: a serpente, a maçã, a árvore, etc.; já Santo Agostinho, na sua obra "De Genesi ad litteram", dizia que a Criação não teria, necessariamente, que ter durado seis dias em sentido literal, ou seja, seis dias de 24 horas. No entanto, é correcta leitura do Génesis ler o texto da Criação como relatando uma sequência verdadeira e real: trevas iniciais, surgimento da luz, etc. Se notares bem, não é muito complicado (apesar de ser arriscado e ainda incerto, à luz do conhecimento actual) ver aqui vislumbres do "fiat lux" que representa o Big Bang. O relato do Génesis é gradual: primeiro, surgem as condições para a vida, e depois surge a vida. Tudo isto é lógico e faz sentido à luz do conhecimento actual.
Na visão cristã das coisas, entram sempre duas regras de ouro:
a) respeitar a tradição recebida de Cristo
b) respeitar a razão e as verdades seguras que fomos descobrindo por via racional
«Ao ler este teu post tenho a sensação que tomas o relato bíblico como real quando afirmas que Deus criou o universo, o mundo, os anjos, o Homem, etc. Ou seja, em parte alguma do teu discurso dizes que o relato da criação é uma interpretação do universo de uns quantos homens que viveram há uns bons milhares de anos atrás.»
Tens toda a razão. Eu tomo como real que Deus criou o Universo, os anjos, o Homem, etc., Mas espero ter deixado claro que há muitas nuances na palavra "criou"...
«E desculpa a minha ignorância... Como é que tu sabes? Se não for através da interpretação que homens fazem das palavras de outros homens, como é que tu podes saber?»
Toda a solidez da minha posição advém, como referi, de confiar no que a Igreja me ensina, e confiar na razão e nas certezas do meu intelecto racional. Aqui há uma hierarquia: eu creio primeiro para entender depois ("credo ut intelligam"), e não ao contrário. Também isso é a prática humana de sempre. Quando estamos na aula, acreditamos no professor antes de entendermos. Quando o nosso pai nos ensina a nadar, acreditamos primeiro nele antes de sabermos nadar. E assim por diante. Claro que podes perguntar-me: "mas como sabes tu que a Igreja ensina o que Cristo ensinou?". Aqui podemos avançar muito, e mesmo muito, com o estudo dos dados históricos, com a leitura do próprio Novo Testamento, e com a sua análise histórica e historiográfica. Com a leitura da Didaché e de outros textos em uso pelos primeiros cristãos. Com a leitura da patrologia, ou seja, dos textos dos Padres da Igreja, escritos durante os primeiros séculos de cristianismo. A doutrina cristã, quando estudada com rigor, apresenta-se completa e consistente, na sua essência, desde os primórdios do Cristianismo.
«O ser humano tem errado ao longo de toda a sua existência. Ou afirmas que os homens que escreveram, compilaram e editaram a Bíblia, não erram, ou afirmas que o texto foi escrito pela própria mão de Deus...»
O ser humano erra. Mas erra muito menos quando tenta seguir a Palavra de Deus. Logo no primeiro século de cristianismo, tens centenas e milhares de pessoas a preferirem serem mortas para não serem obrigadas a renegar a verdade da ressurreição de Cristo. Seriam loucos? Vítimas de alucinação? Conheces muitos casos de grupos organizados de pessoas que preferem serem mortos por teimarem numa ideia?
Em três séculos, essa religião de mulheres e de escravos tomou conta do Império Romano. Isso não te diz nada? Cristo disse que conheceríamos a qualidade da árvore pela qualidade dos frutos. O cristianismo inaugurou uma nova era de direitos humanos, de cultura, de ciência, de justiça. Trouxe o conceito totalmente inovador e revolucionário de caridade. Isso não vale nada? Isso não poderá indicar a origem sobrenatural da ideia cristã?
Hoje achamos banal, a ideia. Mas ela é espantosa: o próprio Deus faz-Se Homem, deixa-Se matar às nossas mãos, e tudo porque nos ama? E tudo para resgatar-nos do nosso pecado? E tudo para nos lançar numa vida nova?
Nenhuma outra religião coloca Deus no teatro humano como faz o cristianismo. Cristo não é um "avatar" como os hindus, que acham que a divindade, de vez em quando, assume uma forma humana. A teologia cristã não é uma teologia de divindades que, de tempos a tempos, visitam um corpo humano. A teologia cristã diz que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. As regras da lógica levam-nos a ver aqui um vislumbre positivo em matéria de direitos humanos: afinal o homem até deve valer qualquer coisinha... Daqui até compreendermos a paixão cristã pela vida humana, vai um salto pequeno.
«Quando conferes autoridade absoluta aquilo que é descrito pelos autores do Novo Testamento, será que esqueces que não temos as palavras de Jesus, nem sequer dos seus discípulos directos?»
É claro que temos, Leonor. Não há consistência científica nenhuma na tese que defende que o Novo Testamento é fantasioso. O Novo Testamento tem, todo ele, uma estrutura factual e cronológica. Os Actos dos Apóstolos relatam, em primeira mão, acontecimentos presenciados pelo autor do livro. As cartas de São Paulo foram escritas pelo próprio, e enviadas a outros para serem lidas. Os autores dos Evangelhos não foram todos apóstolos directos de Cristo (João e Mateus sim, mas Marcos e Lucas não). Mas São Marcos viveu lado a lado com São Pedro durante tempo suficiente para absorver tudo dele. E São Lucas, médico companheiro de viagem de São Paulo, percorreu a viagem cristã por excelência: a missionação do Apóstolo dos Gentios, São Paulo.
«O que queres dizer, é que a Igreja, ou a tradição da Igreja diz que é assim e ponto final.»
Já terei referido que a crença em noções teológicas com base exclusiva em argumentos de autoridade é uma heresia, chamada "fideísmo". A tua frase, na sua essência, surge condenada pela própria Igreja como sendo herética. Obras imponentes como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino são exemplos do fascínio cristão pela argumentação racional, contra posições fideístas, consideradas erradas, pelo desprezo pela razão como fonte de aferição intelectual.
Se fosse como dizes, eu teria que dizer coisas refutadas pela ciência ou pela história. Onde estão essas refutações?
Se fosse como dizes, não haveria consistência histórica no Novo Testamento. Mas há! Que pensar então disso?
Um abraço!
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
O Deus de Dawkins
(este texto foi aumentado após publicação)
Alister McGrath, ex-ateu, cientista, filósofo, e teólogo anglicano, defronta o cientista ateu Richard Dawkins:
http://video.google.com/videoplay?docid=6474278760369344626
Dawkins, cuja carreira começou brilhantemente como divulgador científico de grande argúcia e sentido pedagógico, tem insistido, nas últimas duas décadas, na vertente de ateísta prosélito, advogando que a explicação científica neo-darwinista impõe forçosamente o ateísmo como conclusão para todas as mentes racionais.
O vídeo é longo, o debate é muito interessante, e é certo que nenhuma das partes convence a outra. Mas não deixa de ser um debate apaixonante e informativo.
Vemos ao vivo, por exemplo, como Dawkins tem dificuldade em pensar no registo filosófico, apesar de ser um brilhante pensador no registo científico. A sugestão, feita por Dawkins, de que o próprio lidaria melhor com um Deus localizado no espaço e no tempo, estando até disposto a discutir essa tese, é um bom exemplo dessa incapacidade para pensar de forma filosófica abstracta.
Deus não tem existência num espaço ou num lugar próprio. Deus é a fonte de toda a existência, e por isso, não pode ser "achado" em parte alguma ou num qualquer instante temporal.
Dawkins não parece ter grande facilidade em compreender este conceito: logo, reduz esse conceito de Deus a uma espécie de "Deus à Dawkins", contra o qual ele pretende lutar com todas as suas forças, tal qual D. Quixote contra moinhos ilusórios.
O "Deus à Dawkins" é uma ilusão. Alister McGrath demonstra-o de forma cabal na sua obra "Dawkins' God", editada em português pela primeira vez em Janeiro deste ano pela Alêtheia, sob o título de "O Deus de Dawkins".
No entanto, o notável homem de Ciência que é Dawkins decide empregar os seus melhores anos intelectuais numa estranha guerra intelectual contra um estranho conceito fixista de "Deus relojoeiro" que só existiu nas mentes de certos pensadores pertencentes à cultura britânica vitoriana, e que hoje foi recuperado e é aceite de forma acrítica como constituindo uma visão rigorosa do que é Deus pela imensa família de admiradores de Dawkins. Como explica Alister McGrath na sua obra, o "relojoeiro cego" de Dawkins baseia-se nas críticas que Darwin fez ao conceito do "Deus relojoeiro", mas este fenómeno acaba por ser especificamente britânico. Darwin reagia às ideias de William Paley (1743-1805), que via na complexidade da Natureza a obra de um "Deus relojoeiro". Muito antes de Darwin contestar Paley, já o Cardeal John Henry Newman (1801-1890), talvez o maior teólogo britânico do século XIX, contestava as ideias de Paley, que lhe pareciam implicar uma má teologia. E assim é de facto. Por isso, a ideia que Dawkins faz de Deus provém de uma concepção de Paley, concepção essa que foi rejeitada logo no século XIX pelo Cardeal Newman.
O "Deus à Dawkins" não é o Deus cristão, muito menos o Deus católico. Curiosamente, também não é fácil encaixar o "Deus à Dawkins" no Iavé judaico, no Alá do Islão, ou no Brahma hindu. Que raio de conceito pretende Dawkins combater, com a ajuda do seu séquito de seguidores?
Como D. Quixote, Richard Dawkins combate uma ideia imaginária de Deus, que vive presentemente na sua cabeça.
No vídeo acima referido, Dawkins consegue, a certa altura, encurralar McGrath na questão do Mal, que no entanto é uma questão demasiado complexa para ser abordada de forma segura num contexto destes. Dawkins pergunta a McGrath como é que ele explica, ao mesmo tempo, que Deus não é responsável pelas grandes catástrofes, como a do último grande tsunami asiático, e ao mesmo tempo, a teologia tende a ver a acção de Deus no milagre de salvar uma criança desta catástrofe, sem no entanto salvar todas. McGrath, conseguindo esgrimir alguns argumentos, debate-se de facto com um momento menos inspirado.
E, no entanto, era possível tecer uma argumentação neste sentido: o Mundo criado, Homem incluído, tem duas características interessantes para esta questão: imperfeição e liberdade. Se a imperfeição é indiscutível, mesmo para um ateu, a questão da liberdade merece ser vista com mais detalhe. Há, de certo modo, "liberdade" na natureza no sentido em que esta possui leis próprias que regem o seu funcionamento. A deriva das placas tectónicas explica os terramotos, que por sua vez explicam o tsunami. A construção humana junto à orla marítima, conjugada com a desgraça do tsunami, ajudam a entender o número elevado de mortos. Neste sentido, as leis da natureza constituem um conjunto de regras, dentro das quais o mundo natural segue livremente o seu curso, sem intervenção divina (apesar de Deus ser, obviamente, necessário para a existência do mundo e das leis que o regem). Assim, pode-se falar em "liberdade" na natureza, se bem que uma liberdade sem vontade. A liberdade humana, essa sim, possui vontade. Se as consequências "maléficas" das catástrofes naturais advêm de leis naturais num mundo onde o homem constrói habitações que nunca estão imunes ao risco, tais catástrofes não derivam de nenhuma vontade, nem da natureza nem de Deus. Deus criou um mundo como ele é, sujeito a leis próprias, e Deus não está permanentemente na regência de todos os fenómenos.
Já o Homem, quando procura e quer o Mal, é um agente livre dotado de vontade, seja para exercer esse mal usando ilicitamente a religião como método (o terrorista fanático-religioso) ou a ciência como método (sofisticadas armas nucleares, químicas e biológicas). Nesse sentido, McGrath poderia ter dito a Dawkins que Deus não impediu nem sabotou a viagem dos aviões contra as Torres Gémeas porque porventura tem um destino reservado para os terroristas bem diferente do que guarda para as suas vítimas. McGrath poderia ter dito só isto: Deus é justo mas a forma como ele exerce ou exercerá a Sua justiça é-nos desconhecida em grande medida.
No fundo, a desgraça do tsunami tem a ver com a liberdade e imperfeição inerentes à própria natureza criada por Deus, bem como com as opções livres do Homem que tem que optar por um local onde morar, sabendo à partida que nenhum local físico é perpetuamente seguro e à prova de catástrofes.
McGrath também poderia ter dito a Dawkins que as opções divinas de intervir ou não, para salvar este ou aquele, não nos mostram tudo o que Deus quer para nós. A justiça divina exerce-se neste e no outro mundo. Para quem apenas vê metade do "filme" como nós, é possível supor que a morte de inocentes numa catástrofe será compensada de outro modo qualquer por Deus. Por outro lado, a sobrevivência de uma ou outra pessoa de uma catástrofe natural pode obedecer a uma intenção específica de Deus para aquela pessoa: uma decisão divina de ainda não a chamar para junto de si, intervindo na natureza para evitar a sua morte.
O Deus cristão é um meio termo entre um ilusório "Deus relojoeiro" (que teria criado tudo e assistiria impávido a tudo sem intervir) e um ilusório "Deus tirano" (que roubaria à Criação a liberdade de acção). O Deus cristão intervém na natureza, sempre que assim o entende. É neste conceito que reside o sentido do "milagre", como acontecimento natural extraordinário cuja causa é sobrenatural.
Tudo isto é complicado, e nenhuma explicação racional que façamos é fechada. O que podemos é evitar as incoerências, como aquela de Dawkins dizer, mesmo no final do vídeo, que quer cortar a religião pela raiz porque ela é a "fonte de todo o mal", e porque ela pode ser usada para o mal. Que estranha incoerência: se a religião é a fonte de todo o mal, então não só ela pode ser usada para o mal como deverá sempre gerar o mal. Ao dizer que algo é a raiz absoluta do mal, torna-se necessário que tudo o que brote desse algo seja maléfico. É uma questão de lógica. E o mesmo Dawkins, que foi poupado tantas e tantas vezes neste debate por um manso e humilde McGrath, poderia ter sido fulminado com esta óbvia incongruência: a ciência também pode ser usada para o mal, e não é por isso que a vamos "cortar pela raiz"...
É que Dawkins pega no problema pelo lado oposto. A ambivalência da religião também serve para a ciência. Ambas podem ser bem empregues ou mal empregues, porque a opção moral está, afinal de contas, no Homem de ciência ou no Homem de fé. Se essa pessoa optar bem, usará bem a Ciência. Se optar bem, usará bem a Fé. Mas pode optar por usar qualquer uma delas para servir maus propósitos. Mais uma vez: a explicação para o mal encontra-se na imperfeição e na liberdade da Criação, Homem incluído. Deus não é a causa do mal. Note-se que o mal, no relato genesíaco, é introduzido pela opção livre do Príncipe dos Anjos, Satanás, que em supremo exercício da sua liberdade criatural, se revolta contra Deus. De novo, esta ideia: o mal nasce da liberdade da criatura finita e imperfeita, mas não é necessário nem desejado por Deus infinito e perfeito.
Dawkins constitui um triste exemplo de como o preconceito anti-religioso, aliado a uma espécie estranha de solipsismo, pode assombrar uma brilhante carreira intelectual e académica...
No entanto, o efeito propagandístico é potente: o cientista divulgador dá voz nova e forte a uma mentira já bem velha: a de que a Ciência destruiu o conceito de Deus. O comum dos mortais pode cair facilmente nesta esparrela, porque ele próprio confia no "Dawkins cientista" e não tem tempo para estudar estas questões com profundidade. Logo, não se dá conta de que o "Dawkins filósofo" é um logro...
Alister McGrath, ex-ateu, cientista, filósofo, e teólogo anglicano, defronta o cientista ateu Richard Dawkins:
http://video.google.com/videoplay?docid=6474278760369344626
Dawkins, cuja carreira começou brilhantemente como divulgador científico de grande argúcia e sentido pedagógico, tem insistido, nas últimas duas décadas, na vertente de ateísta prosélito, advogando que a explicação científica neo-darwinista impõe forçosamente o ateísmo como conclusão para todas as mentes racionais.
O vídeo é longo, o debate é muito interessante, e é certo que nenhuma das partes convence a outra. Mas não deixa de ser um debate apaixonante e informativo.
Vemos ao vivo, por exemplo, como Dawkins tem dificuldade em pensar no registo filosófico, apesar de ser um brilhante pensador no registo científico. A sugestão, feita por Dawkins, de que o próprio lidaria melhor com um Deus localizado no espaço e no tempo, estando até disposto a discutir essa tese, é um bom exemplo dessa incapacidade para pensar de forma filosófica abstracta.
Deus não tem existência num espaço ou num lugar próprio. Deus é a fonte de toda a existência, e por isso, não pode ser "achado" em parte alguma ou num qualquer instante temporal.
Dawkins não parece ter grande facilidade em compreender este conceito: logo, reduz esse conceito de Deus a uma espécie de "Deus à Dawkins", contra o qual ele pretende lutar com todas as suas forças, tal qual D. Quixote contra moinhos ilusórios.
O "Deus à Dawkins" é uma ilusão. Alister McGrath demonstra-o de forma cabal na sua obra "Dawkins' God", editada em português pela primeira vez em Janeiro deste ano pela Alêtheia, sob o título de "O Deus de Dawkins".
No entanto, o notável homem de Ciência que é Dawkins decide empregar os seus melhores anos intelectuais numa estranha guerra intelectual contra um estranho conceito fixista de "Deus relojoeiro" que só existiu nas mentes de certos pensadores pertencentes à cultura britânica vitoriana, e que hoje foi recuperado e é aceite de forma acrítica como constituindo uma visão rigorosa do que é Deus pela imensa família de admiradores de Dawkins. Como explica Alister McGrath na sua obra, o "relojoeiro cego" de Dawkins baseia-se nas críticas que Darwin fez ao conceito do "Deus relojoeiro", mas este fenómeno acaba por ser especificamente britânico. Darwin reagia às ideias de William Paley (1743-1805), que via na complexidade da Natureza a obra de um "Deus relojoeiro". Muito antes de Darwin contestar Paley, já o Cardeal John Henry Newman (1801-1890), talvez o maior teólogo britânico do século XIX, contestava as ideias de Paley, que lhe pareciam implicar uma má teologia. E assim é de facto. Por isso, a ideia que Dawkins faz de Deus provém de uma concepção de Paley, concepção essa que foi rejeitada logo no século XIX pelo Cardeal Newman.
O "Deus à Dawkins" não é o Deus cristão, muito menos o Deus católico. Curiosamente, também não é fácil encaixar o "Deus à Dawkins" no Iavé judaico, no Alá do Islão, ou no Brahma hindu. Que raio de conceito pretende Dawkins combater, com a ajuda do seu séquito de seguidores?
Como D. Quixote, Richard Dawkins combate uma ideia imaginária de Deus, que vive presentemente na sua cabeça.
No vídeo acima referido, Dawkins consegue, a certa altura, encurralar McGrath na questão do Mal, que no entanto é uma questão demasiado complexa para ser abordada de forma segura num contexto destes. Dawkins pergunta a McGrath como é que ele explica, ao mesmo tempo, que Deus não é responsável pelas grandes catástrofes, como a do último grande tsunami asiático, e ao mesmo tempo, a teologia tende a ver a acção de Deus no milagre de salvar uma criança desta catástrofe, sem no entanto salvar todas. McGrath, conseguindo esgrimir alguns argumentos, debate-se de facto com um momento menos inspirado.
E, no entanto, era possível tecer uma argumentação neste sentido: o Mundo criado, Homem incluído, tem duas características interessantes para esta questão: imperfeição e liberdade. Se a imperfeição é indiscutível, mesmo para um ateu, a questão da liberdade merece ser vista com mais detalhe. Há, de certo modo, "liberdade" na natureza no sentido em que esta possui leis próprias que regem o seu funcionamento. A deriva das placas tectónicas explica os terramotos, que por sua vez explicam o tsunami. A construção humana junto à orla marítima, conjugada com a desgraça do tsunami, ajudam a entender o número elevado de mortos. Neste sentido, as leis da natureza constituem um conjunto de regras, dentro das quais o mundo natural segue livremente o seu curso, sem intervenção divina (apesar de Deus ser, obviamente, necessário para a existência do mundo e das leis que o regem). Assim, pode-se falar em "liberdade" na natureza, se bem que uma liberdade sem vontade. A liberdade humana, essa sim, possui vontade. Se as consequências "maléficas" das catástrofes naturais advêm de leis naturais num mundo onde o homem constrói habitações que nunca estão imunes ao risco, tais catástrofes não derivam de nenhuma vontade, nem da natureza nem de Deus. Deus criou um mundo como ele é, sujeito a leis próprias, e Deus não está permanentemente na regência de todos os fenómenos.
Já o Homem, quando procura e quer o Mal, é um agente livre dotado de vontade, seja para exercer esse mal usando ilicitamente a religião como método (o terrorista fanático-religioso) ou a ciência como método (sofisticadas armas nucleares, químicas e biológicas). Nesse sentido, McGrath poderia ter dito a Dawkins que Deus não impediu nem sabotou a viagem dos aviões contra as Torres Gémeas porque porventura tem um destino reservado para os terroristas bem diferente do que guarda para as suas vítimas. McGrath poderia ter dito só isto: Deus é justo mas a forma como ele exerce ou exercerá a Sua justiça é-nos desconhecida em grande medida.
No fundo, a desgraça do tsunami tem a ver com a liberdade e imperfeição inerentes à própria natureza criada por Deus, bem como com as opções livres do Homem que tem que optar por um local onde morar, sabendo à partida que nenhum local físico é perpetuamente seguro e à prova de catástrofes.
McGrath também poderia ter dito a Dawkins que as opções divinas de intervir ou não, para salvar este ou aquele, não nos mostram tudo o que Deus quer para nós. A justiça divina exerce-se neste e no outro mundo. Para quem apenas vê metade do "filme" como nós, é possível supor que a morte de inocentes numa catástrofe será compensada de outro modo qualquer por Deus. Por outro lado, a sobrevivência de uma ou outra pessoa de uma catástrofe natural pode obedecer a uma intenção específica de Deus para aquela pessoa: uma decisão divina de ainda não a chamar para junto de si, intervindo na natureza para evitar a sua morte.
O Deus cristão é um meio termo entre um ilusório "Deus relojoeiro" (que teria criado tudo e assistiria impávido a tudo sem intervir) e um ilusório "Deus tirano" (que roubaria à Criação a liberdade de acção). O Deus cristão intervém na natureza, sempre que assim o entende. É neste conceito que reside o sentido do "milagre", como acontecimento natural extraordinário cuja causa é sobrenatural.
Tudo isto é complicado, e nenhuma explicação racional que façamos é fechada. O que podemos é evitar as incoerências, como aquela de Dawkins dizer, mesmo no final do vídeo, que quer cortar a religião pela raiz porque ela é a "fonte de todo o mal", e porque ela pode ser usada para o mal. Que estranha incoerência: se a religião é a fonte de todo o mal, então não só ela pode ser usada para o mal como deverá sempre gerar o mal. Ao dizer que algo é a raiz absoluta do mal, torna-se necessário que tudo o que brote desse algo seja maléfico. É uma questão de lógica. E o mesmo Dawkins, que foi poupado tantas e tantas vezes neste debate por um manso e humilde McGrath, poderia ter sido fulminado com esta óbvia incongruência: a ciência também pode ser usada para o mal, e não é por isso que a vamos "cortar pela raiz"...
É que Dawkins pega no problema pelo lado oposto. A ambivalência da religião também serve para a ciência. Ambas podem ser bem empregues ou mal empregues, porque a opção moral está, afinal de contas, no Homem de ciência ou no Homem de fé. Se essa pessoa optar bem, usará bem a Ciência. Se optar bem, usará bem a Fé. Mas pode optar por usar qualquer uma delas para servir maus propósitos. Mais uma vez: a explicação para o mal encontra-se na imperfeição e na liberdade da Criação, Homem incluído. Deus não é a causa do mal. Note-se que o mal, no relato genesíaco, é introduzido pela opção livre do Príncipe dos Anjos, Satanás, que em supremo exercício da sua liberdade criatural, se revolta contra Deus. De novo, esta ideia: o mal nasce da liberdade da criatura finita e imperfeita, mas não é necessário nem desejado por Deus infinito e perfeito.
Dawkins constitui um triste exemplo de como o preconceito anti-religioso, aliado a uma espécie estranha de solipsismo, pode assombrar uma brilhante carreira intelectual e académica...
No entanto, o efeito propagandístico é potente: o cientista divulgador dá voz nova e forte a uma mentira já bem velha: a de que a Ciência destruiu o conceito de Deus. O comum dos mortais pode cair facilmente nesta esparrela, porque ele próprio confia no "Dawkins cientista" e não tem tempo para estudar estas questões com profundidade. Logo, não se dá conta de que o "Dawkins filósofo" é um logro...
sábado, 16 de junho de 2007
O dogma da Evolução
"Se o dogma, como diz Suarès, é «o contrário da prova», afirmar a evolução como um dogma é, logo à partida, reconhecer a falta de prova. Este é precisamente o reconhecimento que fazem sem rodeios vários naturalistas. Em 1879, Haeckel escrevia ao anatomista Virchow: «Não é possível imaginar nada mais absurdo, nada que demonstre melhor que não se compreende nada da nossa teoria da evolução, do que pedir que a fundemos sobre provas experimentais». E Delage, que era seguramente um espírito científico de outra envergadura que Haeckel, proclamava por sua vez, em 1903, no seu livro Hérédité et les grands problèmes de la Biologie générale: «Reconheço sem dificuldade que nunca vimos uma espécie gerar outra, nem se transformar noutra, e que não temos nenhuma observação formal que demonstre que tal coisa alguma vez teve lugar. Considero todavia que a evolução é tão certa como se tivesse sido demonstrada objectivamente. Aqueles a quem estas premissas chocam, basta-lhes fechar este livro». Bom, é nos pedido aqui um acto de fé, e é na verdade sob a forma de uma verdade revelada que cada um de nós recebeu em tempos a noção de evolução." - Louis Bounoure, Détérminisme et finalité, Flammarion, pp. 48-49.
Parece-me justo sublinhar a posição honesta de Delage: apresentar ao leitor, logo no início da obra, qual é o seu pressuposto, o seu axioma. Este é, claramente, aceitar a evolução como um facto provado, sem que o tenha sido. Nada tenho contra tal posição pística, porque o criacionista também aceita a Criação como um facto, sem a poder provar empiricamente. Mas ao menos, Delage evita o caminho fácil de muitos evolucionistas, que encarnam nos dias de hoje o pior espírito proselitista de Haeckel.
Parece-me justo sublinhar a posição honesta de Delage: apresentar ao leitor, logo no início da obra, qual é o seu pressuposto, o seu axioma. Este é, claramente, aceitar a evolução como um facto provado, sem que o tenha sido. Nada tenho contra tal posição pística, porque o criacionista também aceita a Criação como um facto, sem a poder provar empiricamente. Mas ao menos, Delage evita o caminho fácil de muitos evolucionistas, que encarnam nos dias de hoje o pior espírito proselitista de Haeckel.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Louis Bounoure - Détérminisme et finalité
A Flammarion publicou, no já longínquo ano de 1957, uma obra que deveria ser de leitura obrigatória ao nível liceal. Nesta obra, Détérminisme et finalité, o francês Louis Bounoure, Professor de Biologia na Faculdade de Ciências de Estrasburgo, consegue um feito notável: apresentar uma boa argumentação para fundamentar aquela que ele considera ser a "dupla lei da vida", o determinismo e a finalidade.
Apoiado nestes dois pilares, que o autor estuda e aprofunda ao longo da obra, Bounoure consegue a proeza intelectual de gerir um espantoso tour de force contra dois dos maiores perigos anti-científicos dos tempos modernos: o evolucionismo e o panpsiquismo.
Contra os dogmas evolucionistas, Bounoure propõe, para salvar a Ciência, a constatação da finalidade, de que todo o organismo vivo diverge profundamente da matéria inanimada no sentido em que demonstra ter um objectivo funcional estável. Bounoure não se propõe a explicar como surge esta finalidade: ele remete essa questão para uma "causa da vida" inexplicável para o cientista. Ele assume, como pressuposto, que a vida é como é. Que o ser vivo se explica pela sua embriologia, e que a embriologia de um ser vivo se explica pelo mecanismo de reprodução do ser vivo seu progenitor. Ou seja, Bounoure constata uma cadeia de causalidade que remonta até aos tempos mais recuados, sem que se possa vislumbrar como a vida surgiu.
Para Bounoure, o biólogo pode e deve estudar os mecanismos complexos da vida, mas está totalmente sem resposta perante o enigma de como esta terá surgido. O autor argumenta profundamente acerca da sua primeira tese, a de que a finalidade, o facto de os organismos vivos serem regidos por um objectivo final concreto, destrói totalmente a pretensão anti-científica dos evolucionistas, que procuram impor uma tese não verificável nem testável à comunidade científica apenas devido a um pressuposto emocional também ele não científico: o do materialismo.
Bounoure explica que o materialismo forma um ciclo vicioso de causalidade explicativa: o evolucionista assume que todo o real é material, sem qualquer base ou razão para tal; o evolucionista assume que a complexidade da vida tem que ter a sua origem causal apenas e exclusivamente na própria matéria, auto-organizada pelo acaso; o evolucionista vê-se forçado a partir o milagre da vida em vários pequenos milagres, esmiuçando cada vez mais estes pequenos milagres em micro-milagres, até que se atinjam passos evolutivos (usando a escala dos milhões de anos) tão pequenos que já não parece insensato supô-los. O que é insensato para um cientista, como afirma Bounoure, é supor o transformismo: que uma espécie, apresentando sempre espantosas características de estabilidade, se transforme noutra. Bounoure, é bem certo, não duvida da Selecção Natural darwinista, da sucessiva filtragem, por efeito do meio ambiente e da interacção do ser vivo com este, dos indivíduos dentro de uma população que se adaptam melhor ao contexto. Bounoure não duvida de que a matéria viva é plasmática e elástica ao ponto de permitir pequenas variações intra-espécie, refinadas pela ferramenta temporal da selecção natural.
Mas Bounoure, como bom cientista, constata que o transformismo é uma suposição gratuita, sem qualquer suporte empírico ou factual.
Contra outra ideia obstinada e errada, o panpsiquismo, Bounoure discorre bastante, tentando vincar o segundo pilar da sua tese acerca da vida, o pilar do determinismo. Para Bounoure, tentar colocar Deus, ou uma espécie de alma, no coração dos mecanismos celulares é ecoar, uma vez mais, o velho sonho do panteísmo ou do panpsiquismo. A ideia, velha como o mundo, e não obstante, uma ideia errada, de que toda a matéria está animada por uma espécie de entidade psíquica, vulgo "alma".
Bounoure deixa bem claro que não tolera que se admitam explicações divinas para os processos intracelulares, que regem espantosamente as leis da vida. Segundo Bounoure, e admita-se, cheio de razão, assim que se der esse passo, o cientista não progredirá mais no conhecimento biológico. Bounoure sustenta que, existindo uma razão puramente empírica e determinista para explicar um determinado fenómeno biológico, invocar Deus ou uma alma só irá bloquear a compreensão desse fenómeno, tornando até gnoseologicamente irrelevante a pesquisa científica.
É, então, espantosa a defesa da verdadeira Ciência por parte de Bounoure: o autor não se atreve a proclamar o criacionismo, por temer sair demasiado da sua esfera do cientista natural, mas por outro lado constata que a observação científica só pode conduzir à constatação da finalidade dos organismos vivos, algo que a matéria inanimada não possui e não é capaz de gerar por si só. O autor não se cansa de dizer que, por muito que áreas como a da cibernética tentem imitar a vida, não a conseguem reproduzir.
Por outro lado, o autor insiste no facto de que o dever do cientista natural está em procurar explicações naturais para os fenómenos naturais, mesmo que lhe esteja vedado o conhecimento de qualquer facto sobrenatural, mesmo lhe que esteja vedado o acesso à explicação final para a origem do fenómeno espantoso que é a vida.
Na minha modesta opinião, isto parece-me ser verdadeira ciência natural. Com a vantagem adicional de que Bounoure tem a sua Filosofia bem estudada, o que lhe permite ter uma ideia muito bem sedimentada acerca da Epistemologia e das fronteiras da Ciência. Algo que, obviamente, escapa ao fanatismo proselitista de muitos dos modernos arautos do Evolucionismo.
Apoiado nestes dois pilares, que o autor estuda e aprofunda ao longo da obra, Bounoure consegue a proeza intelectual de gerir um espantoso tour de force contra dois dos maiores perigos anti-científicos dos tempos modernos: o evolucionismo e o panpsiquismo.
Contra os dogmas evolucionistas, Bounoure propõe, para salvar a Ciência, a constatação da finalidade, de que todo o organismo vivo diverge profundamente da matéria inanimada no sentido em que demonstra ter um objectivo funcional estável. Bounoure não se propõe a explicar como surge esta finalidade: ele remete essa questão para uma "causa da vida" inexplicável para o cientista. Ele assume, como pressuposto, que a vida é como é. Que o ser vivo se explica pela sua embriologia, e que a embriologia de um ser vivo se explica pelo mecanismo de reprodução do ser vivo seu progenitor. Ou seja, Bounoure constata uma cadeia de causalidade que remonta até aos tempos mais recuados, sem que se possa vislumbrar como a vida surgiu.
Para Bounoure, o biólogo pode e deve estudar os mecanismos complexos da vida, mas está totalmente sem resposta perante o enigma de como esta terá surgido. O autor argumenta profundamente acerca da sua primeira tese, a de que a finalidade, o facto de os organismos vivos serem regidos por um objectivo final concreto, destrói totalmente a pretensão anti-científica dos evolucionistas, que procuram impor uma tese não verificável nem testável à comunidade científica apenas devido a um pressuposto emocional também ele não científico: o do materialismo.
Bounoure explica que o materialismo forma um ciclo vicioso de causalidade explicativa: o evolucionista assume que todo o real é material, sem qualquer base ou razão para tal; o evolucionista assume que a complexidade da vida tem que ter a sua origem causal apenas e exclusivamente na própria matéria, auto-organizada pelo acaso; o evolucionista vê-se forçado a partir o milagre da vida em vários pequenos milagres, esmiuçando cada vez mais estes pequenos milagres em micro-milagres, até que se atinjam passos evolutivos (usando a escala dos milhões de anos) tão pequenos que já não parece insensato supô-los. O que é insensato para um cientista, como afirma Bounoure, é supor o transformismo: que uma espécie, apresentando sempre espantosas características de estabilidade, se transforme noutra. Bounoure, é bem certo, não duvida da Selecção Natural darwinista, da sucessiva filtragem, por efeito do meio ambiente e da interacção do ser vivo com este, dos indivíduos dentro de uma população que se adaptam melhor ao contexto. Bounoure não duvida de que a matéria viva é plasmática e elástica ao ponto de permitir pequenas variações intra-espécie, refinadas pela ferramenta temporal da selecção natural.
Mas Bounoure, como bom cientista, constata que o transformismo é uma suposição gratuita, sem qualquer suporte empírico ou factual.
Contra outra ideia obstinada e errada, o panpsiquismo, Bounoure discorre bastante, tentando vincar o segundo pilar da sua tese acerca da vida, o pilar do determinismo. Para Bounoure, tentar colocar Deus, ou uma espécie de alma, no coração dos mecanismos celulares é ecoar, uma vez mais, o velho sonho do panteísmo ou do panpsiquismo. A ideia, velha como o mundo, e não obstante, uma ideia errada, de que toda a matéria está animada por uma espécie de entidade psíquica, vulgo "alma".
Bounoure deixa bem claro que não tolera que se admitam explicações divinas para os processos intracelulares, que regem espantosamente as leis da vida. Segundo Bounoure, e admita-se, cheio de razão, assim que se der esse passo, o cientista não progredirá mais no conhecimento biológico. Bounoure sustenta que, existindo uma razão puramente empírica e determinista para explicar um determinado fenómeno biológico, invocar Deus ou uma alma só irá bloquear a compreensão desse fenómeno, tornando até gnoseologicamente irrelevante a pesquisa científica.
É, então, espantosa a defesa da verdadeira Ciência por parte de Bounoure: o autor não se atreve a proclamar o criacionismo, por temer sair demasiado da sua esfera do cientista natural, mas por outro lado constata que a observação científica só pode conduzir à constatação da finalidade dos organismos vivos, algo que a matéria inanimada não possui e não é capaz de gerar por si só. O autor não se cansa de dizer que, por muito que áreas como a da cibernética tentem imitar a vida, não a conseguem reproduzir.
Por outro lado, o autor insiste no facto de que o dever do cientista natural está em procurar explicações naturais para os fenómenos naturais, mesmo que lhe esteja vedado o conhecimento de qualquer facto sobrenatural, mesmo lhe que esteja vedado o acesso à explicação final para a origem do fenómeno espantoso que é a vida.
Na minha modesta opinião, isto parece-me ser verdadeira ciência natural. Com a vantagem adicional de que Bounoure tem a sua Filosofia bem estudada, o que lhe permite ter uma ideia muito bem sedimentada acerca da Epistemologia e das fronteiras da Ciência. Algo que, obviamente, escapa ao fanatismo proselitista de muitos dos modernos arautos do Evolucionismo.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Contestação a Darwin: a lista de cientistas já conta com 700
Vale a pena ler:
Dissent from Darwin
A afirmação que mais de 700 cientistas em todo o Mundo já subscreveram é a seguinte:
“We are skeptical of claims for the ability of random mutation and natural selection to account for the complexity of life. Careful examination of the evidence for Darwinian theory should be encouraged.”
“Somos cépticos face à afirmação de que a mutação aleatória e a selecção natural são capazes de explicar a complexidade da vida. Deve ser encorajado um exame cuidadoso às evidências a favor da teoria Darwiniana.” (tradução minha)
Apesar de a batalha contra o fanatismo darwinista, e em nome da Ciência, estar bem longe de estar ganha, isto é um sinal encorajador para todos aqueles que nunca se quiseram acomodar ao status quo, duvidando da suficiência do darwinismo e do neo-darwinismo para explicar a sofisticação e a complexidade da vida.
Esta situação já estaria resolvida há muito, e a Ciência já poderia saber hoje muito mais acerca da vida, se não tivesse sido o esforço insensato de alguns cientistas em promover a suposta definitude do darwinismo e do neo-darwinismo como armas de combate ideológico contra as religiões abraâmicas ou contra a religião em geral.
É certo que nem todos os cientistas que seguem cegamente o darwinismo estão ideologicamente comprometidos nesta guerra anti-religião. Muitos, certamente, evitam contestar o darwinismo por outras razões: muitos homens e mulheres de ciência preferem o "academicamente correcto" ao "cientificamente correcto". Hoje em dia, começa a ser seguro publicar artigos de contestação ao darwinismo. Mas não há muitos anos, esse "atrevimento" significava para muitos um grande escolho na sua carreira científica.
Ao menos, com iniciativas destas, e com o engrossar desta lista, começa a ser complicado chamar patetas ou tontos àqueles que não aderem totalmente às teorias propostas por Darwin e pelos seus mais fervorosos seguidores.
Dissent from Darwin
A afirmação que mais de 700 cientistas em todo o Mundo já subscreveram é a seguinte:
“We are skeptical of claims for the ability of random mutation and natural selection to account for the complexity of life. Careful examination of the evidence for Darwinian theory should be encouraged.”
“Somos cépticos face à afirmação de que a mutação aleatória e a selecção natural são capazes de explicar a complexidade da vida. Deve ser encorajado um exame cuidadoso às evidências a favor da teoria Darwiniana.” (tradução minha)
Apesar de a batalha contra o fanatismo darwinista, e em nome da Ciência, estar bem longe de estar ganha, isto é um sinal encorajador para todos aqueles que nunca se quiseram acomodar ao status quo, duvidando da suficiência do darwinismo e do neo-darwinismo para explicar a sofisticação e a complexidade da vida.
Esta situação já estaria resolvida há muito, e a Ciência já poderia saber hoje muito mais acerca da vida, se não tivesse sido o esforço insensato de alguns cientistas em promover a suposta definitude do darwinismo e do neo-darwinismo como armas de combate ideológico contra as religiões abraâmicas ou contra a religião em geral.
É certo que nem todos os cientistas que seguem cegamente o darwinismo estão ideologicamente comprometidos nesta guerra anti-religião. Muitos, certamente, evitam contestar o darwinismo por outras razões: muitos homens e mulheres de ciência preferem o "academicamente correcto" ao "cientificamente correcto". Hoje em dia, começa a ser seguro publicar artigos de contestação ao darwinismo. Mas não há muitos anos, esse "atrevimento" significava para muitos um grande escolho na sua carreira científica.
Ao menos, com iniciativas destas, e com o engrossar desta lista, começa a ser complicado chamar patetas ou tontos àqueles que não aderem totalmente às teorias propostas por Darwin e pelos seus mais fervorosos seguidores.
terça-feira, 16 de agosto de 2005
Qual é o problema do Criacionismo?
(reprodução do texto publicado no Afixe)
O que se segue, como não podia deixar de ser, é um texto de opinião, visto que não me considero entendido nas matérias em questão.
As posições tomadas por George W. Bush, nos E.U.A., relativamente ao ensino do intelligent design nas escolas a par com as doutrinas evolucionistas têm gerado imensa polémica.
Muitos evolucionistas surgem ao ataque, agitando as suas espadas em nome da Ciência, contra o que chamam de "obscurantismo medieval", ou seja, o criacionismo.
A histeria, como se sabe, nunca é boa a ajuizar em matérias tão difíceis. Antes de mais, tenho que dizer que, sendo católico, e tendo pensado muito no assunto, opto por uma forma específica de criacionismo. A mais elementar obediência à doutrina católica deveria ter-me levado a assumir, imediatamente, a defesa dessa tese cosmológica. Contudo, parece-me sempre proveitoso que se medite sobre estas questões, de modo a que o crente tome uma decisão, que não obstante ser de fé, seja maturada e ponderada.
Ponhamos as duas teorias (e sublinho a palavra teorias) lado a lado, de forma muito sucinta:
- o Evolucionismo: não obstante os inúmeros ramos evolucionistas, e a grande disparidade de correntes que existem, parece-me razoável definir o evolucionismo como uma tese que se sustenta em dois pontos essenciais, que devem jogar em conjunto para o sucesso da teoria:
a) a Selecção Natural, devida a Darwin, como forma de filtrar a aptidão para a sobrevivência de uma dada espécie; as espécies menos preparadas desaparecem, as mais bem preparadas sobrevivem e multiplicam-se
b) as mutações genéticas como justificação para a variedade de espécies; ao longo de muitos milhões de anos, a alteração por mutação do património genético de uma espécie (ADN) faria dela uma outra espécie
- O Criacionismo: também uma posição matizada, feita de inúmeras correntes, que advoga, para justificar a variedade das espécies de seres vivos, a acção inteligente de uma entidade superior, que se poderia definir como divina e criadora.
Nos E.U.A., temos assistido recentemente ao surgir de inúmeros movimentos criacionistas, que atacam ferozmente o evolucionismo. Vejamos o que é defendido nas mais importantes modalidades do criacionismo:
a) há os que advogam que o Génesis e as Sagradas Escrituras devem ser lidas à letra, defendendo deste modo que a Terra não teria mais do que alguns milhares de anos; seguem a cronologia do Arcebispo de Armagh (Irlanda), James Ussher, que no século XVIII elaborou uma estrutura de datação para a Terra, afirmando que a Criação se dera no ano de 4004 a.C.
b) há os que, afirmando-se cristãos, concordam com a generalidade, senão mesmo a totalidade, da teoria evolucionista; defendem que a evolução, a par com a selecção natural darwiniana, são processos intencionais criados por Deus para guiar o devir do mundo natural
Há ainda inúmeras outras formas de ver o criacionismo que não professam necessariamente a ideia de que a Terra é recente, ou a ideia de que o Génesis deve ser lido com os olhos do Homem do século XXI, e não obstante manifestam-se altamente críticas, não tanto da Selecção Natural mas sobretudo da evolução das espécies por mutações.
Encontro-me nesta última categoria, e foi precisamente o facto de eu achar que este tema anda a ser discutido de forma altamente falaciosa, imperfeita e política que me atirei para a frente com a ideia de lançar este tema aqui no Afixe.
Certos evolucionistas rejubilaram quando, há uns anos a esta parte, o Papa João Paulo II afirmou que a evolução era mais do que uma hipótese. Para eles, era o sinal de que a Igreja Católica dava luz verde ao evolucionismo. Com a subida do Cardeal Ratzinger ao trono papal, muitos demonstraram a sua revolta por aquilo que julgavam ser um retrocesso num suposto "amén" católico ao evolucionismo.
Nada disso.
O actual Papa Bento XVI está em total sintonia com João Paulo II neste aspecto. O evolucionismo é mais do que uma hipótese: é uma teoria científica. A selecção das espécies não contradiz a razão natural nem o mais elementar bom senso. As espécies mais bem adaptadas sobrevivem, e outras menos adaptadas morrem.
As recentes declarações do Arcebispo de Viena, Cristoph Schönborn, geraram mais uma onda de contestação mediática. Vemos que as palavras deste Arcebispo evidenciam claramente a necessidade dos esclarecimentos que o seu texto traz.
Schönborn diz, com muita razão, que muitos evolucionistas deram uma interpretação equivocada às palavras do Papa João Paulo II. O Papa João Paulo II, numa audiência datada de 10 de Julho de 1985, pronunciou sólidas palavras sobre esta matéria. Em suma, o Santo Padre afirmava:
«A evolução dos seres vivos, de que a ciência procura determinar as etapas e discernir o mecanismo, apresenta um finalismo interno que suscita a admiração. Esta finalidade que orienta os seres numa direcção, da qual não existem padrões nem responsáveis, obriga a supor um Espírito que seja o seu inventor, o criador.»
Estas palavras prudentes demonstram que o Santo Padre não se pronunciou fora do campo da sua competência, deixando à Ciência o trabalho árduo de discernir o mecanismo do devir dos seres vivos. O que não está aqui, e que nunca foi defendido pela Igreja Católica, é um aval ao neo-darwinismo, a defesa da ideia peregrina de que a inteligência surge nos seres vivos por milhões de anos de mutações ocasionais e aleatórias. No limite, mesmo sendo possível demonstrar que as mutações genéticas permitem a multitude de espécies conhecidas (extintas ou não), a doutrina católica mostra-se clara num ponto fundamental: a matéria não engendra o intelecto.
Importa salientar que, no debate de ideias, há sempre espaço para uma certa dose de fé. Senão vejamos: ninguém discute a presença desta dose de fé no lado criacionista. Contudo, poucos a reconhecem no lado evolucionista.
Nos meus tempos de Universidade, trabalhei com ferramentas matemáticas que dão pelo nome de Algoritmos Genéticos. O bonito nome pode gerar equívocos, pelo que importa explicar sucintamente o que são e para que servem.
Os algoritmos genéticos são uma das muitas metodologias de resolução de problemas matemáticos. Antes de principiar um algoritmo genético, há que ter duas coisas (que me desculpem os especialistas por esta apresentação mutilada e simplista):
1. Uma heurística que codifique numericamente uma solução para o problema; sem esta codificação (dita "genética"), a solução não pode ser trabalhada algoritmicamente
2. Uma função de custo, que avalie o valor de uma dada solução. Esta função de custo será o juíz, que dará uma pontuação (numa escala pré-definida) a cada solução do problema
Como evolui o algoritmo?
Evolui sensivelmente da mesma forma que, segundo os evolucionistas, o mundo vivo teria evoluido desde os primórdios:
a) parte-se de um conjunto aleatório de possíveis soluções para o problema, todas colocadas em pé de igualdade, e todas codificadas da mesma forma; o ingrediente elementar de cada solução é chamado de "gene", e é um valor numérico que pode ser modificado
b) mutações ocasionais (alterações na codificação das soluções em jogo) permitem o surgimento de novas possíveis soluções; a função de custo avalia as novas soluções: as menos pontuadas vão para o fim da lista (e podem mesmo ser eliminadas); as mais bem pontuadas ascendem na tabela de pontuação.
Ao fim de muitos passos, com maior ou menor dosagem de mutações, o algoritmo produz a "melhor" solução, extraída por pontuação do conjunto inicial aleatório de soluções.
Isto funciona!
Contudo, não se pode aplicar este raciocínio ao ADN dos seres vivos. Porquê? Há várias razões, mas sublinho estas:
1. O património genético de um ser vivo é composto por milhares de genes e é tipicamente muito estável; o ADN reage, muitas vezes, a mutações que num algoritmo numérico poderiam ser desastrosas, mas que no mundo real podem não ter consequências graves para o ser vivo: a Natureza defende-se das mutações
2. As mutações na Natureza são um fenómeno raro, de carácter aleatório, e que apenas pode ser trabalhado probabilisticamente. Num algoritmo, podemos dosear a quantidade de mutação, e é só uma questão de tempo e de processador para que o algoritmo produza uma solução boa. Mas a Natureza não funciona assim, e confesso que vejo a necessidade não de um, mas de vários milhões de milagres para que, ao longo de tanto tempo, e parodiando, uma amiba dê origem ao Homem, tudo apenas com mutações genéticas.
Por tudo isto, penso que o evolucionismo tem um lado aceitável (a Selecção Natural, que pode encerrar em si mesma uma parcela da verdade sobre o devir das espécies), e um lado questionável (a evolução por mutações).
Questionar o evolucionismo é tarefa de qualquer pessoa séria que se debruce sobre este problema. Aliás, em Ciência, questionar é A TAREFA. Como eu gostaria de ver nestes tempos as mentes mais brilhantes debaterem estes temas sem entrarem na infantilização do adversário e sem entrarem em jogadas políticas de ataque à religião.
O criacionismo existe há milhares de anos no mundo Ocidental. Estruturas teóricas cosmológicas semelhantes encontram-se no pensamento oriental. A metafísica e as formas de ontologia de origem divina acompanharam o pensar humano desde sempre. Não faz sentido menosprezar o imenso peso intelectual dos defensores do Criacionismo. E muito menos tentar transformar os delírios intelectuais com que os E.U.A. nos costumam brindar, nestas e noutras matérias, na regra geral aplicável a todos. A forma como concebo o criacionismo é muito diferente da da maioria dos criacionistas norte-americanos.
Fica para uma próxima oportunidade alongar-me mais sobre isto.
Para terminar, uma ideia fundamental: o criacionismo é uma tese que não pode ser tratada pelas ferramentas da ciência moderna. É esta uma das razões principais para o aprofundar de toda esta incompreensão. Pelo facto de recorrer a causas metafísicas, e portanto supra-empíricas, o criacionismo é sobretudo uma corrente filosófica. O criacionismo estabelece uma causa sobrenatural para efeitos naturais. O evolucionismo, pelo contrário, e também legitimamente, procura essa mesma causa na própria natureza.
Duas metodologias diferentes que teriam que, naturalmente, conduzir a duas teorias diferentes.
Qualquer "dogmatismo científico" nesta área só pode ser estéril. Se eu fosse um cientista adepto do evolucionismo não me preocupava com os criacionistas: não há base científica para demonstrar o criacionismo. Contudo, as coisas também não estão fáceis para o evolucionismo, uma vez que a base científica de demonstração é eminentemente frágil, controversa e questionável. Para mais, o cientista moderno, em absoluto, terá que ter sempre presente que abdicou, por opção própria, do metafísico no primeiro dia em que se decidiu a trabalhar com ferramentas científicas modernas.
Deixemos a linguagem dogmática para a religião, que é a única que, por definição, a pode exercer com autoridade. Esperemos que os neo-darwinistas possam encontrar a calma e a lucidez para poderem efectuar verdadeiro trabalho científico, ao invés de promoverem agendas anti-religiosas.
Por outro lado, esperemos que os criacionistas do séquito de George W. Bush, com as suas agendas fanáticas bem preenchidas, não façam mais estragos a esta já delicada situação.
Bernardo
O que se segue, como não podia deixar de ser, é um texto de opinião, visto que não me considero entendido nas matérias em questão.
As posições tomadas por George W. Bush, nos E.U.A., relativamente ao ensino do intelligent design nas escolas a par com as doutrinas evolucionistas têm gerado imensa polémica.
Muitos evolucionistas surgem ao ataque, agitando as suas espadas em nome da Ciência, contra o que chamam de "obscurantismo medieval", ou seja, o criacionismo.
A histeria, como se sabe, nunca é boa a ajuizar em matérias tão difíceis. Antes de mais, tenho que dizer que, sendo católico, e tendo pensado muito no assunto, opto por uma forma específica de criacionismo. A mais elementar obediência à doutrina católica deveria ter-me levado a assumir, imediatamente, a defesa dessa tese cosmológica. Contudo, parece-me sempre proveitoso que se medite sobre estas questões, de modo a que o crente tome uma decisão, que não obstante ser de fé, seja maturada e ponderada.
Ponhamos as duas teorias (e sublinho a palavra teorias) lado a lado, de forma muito sucinta:
- o Evolucionismo: não obstante os inúmeros ramos evolucionistas, e a grande disparidade de correntes que existem, parece-me razoável definir o evolucionismo como uma tese que se sustenta em dois pontos essenciais, que devem jogar em conjunto para o sucesso da teoria:
a) a Selecção Natural, devida a Darwin, como forma de filtrar a aptidão para a sobrevivência de uma dada espécie; as espécies menos preparadas desaparecem, as mais bem preparadas sobrevivem e multiplicam-se
b) as mutações genéticas como justificação para a variedade de espécies; ao longo de muitos milhões de anos, a alteração por mutação do património genético de uma espécie (ADN) faria dela uma outra espécie
- O Criacionismo: também uma posição matizada, feita de inúmeras correntes, que advoga, para justificar a variedade das espécies de seres vivos, a acção inteligente de uma entidade superior, que se poderia definir como divina e criadora.
Nos E.U.A., temos assistido recentemente ao surgir de inúmeros movimentos criacionistas, que atacam ferozmente o evolucionismo. Vejamos o que é defendido nas mais importantes modalidades do criacionismo:
a) há os que advogam que o Génesis e as Sagradas Escrituras devem ser lidas à letra, defendendo deste modo que a Terra não teria mais do que alguns milhares de anos; seguem a cronologia do Arcebispo de Armagh (Irlanda), James Ussher, que no século XVIII elaborou uma estrutura de datação para a Terra, afirmando que a Criação se dera no ano de 4004 a.C.
b) há os que, afirmando-se cristãos, concordam com a generalidade, senão mesmo a totalidade, da teoria evolucionista; defendem que a evolução, a par com a selecção natural darwiniana, são processos intencionais criados por Deus para guiar o devir do mundo natural
Há ainda inúmeras outras formas de ver o criacionismo que não professam necessariamente a ideia de que a Terra é recente, ou a ideia de que o Génesis deve ser lido com os olhos do Homem do século XXI, e não obstante manifestam-se altamente críticas, não tanto da Selecção Natural mas sobretudo da evolução das espécies por mutações.
Encontro-me nesta última categoria, e foi precisamente o facto de eu achar que este tema anda a ser discutido de forma altamente falaciosa, imperfeita e política que me atirei para a frente com a ideia de lançar este tema aqui no Afixe.
Certos evolucionistas rejubilaram quando, há uns anos a esta parte, o Papa João Paulo II afirmou que a evolução era mais do que uma hipótese. Para eles, era o sinal de que a Igreja Católica dava luz verde ao evolucionismo. Com a subida do Cardeal Ratzinger ao trono papal, muitos demonstraram a sua revolta por aquilo que julgavam ser um retrocesso num suposto "amén" católico ao evolucionismo.
Nada disso.
O actual Papa Bento XVI está em total sintonia com João Paulo II neste aspecto. O evolucionismo é mais do que uma hipótese: é uma teoria científica. A selecção das espécies não contradiz a razão natural nem o mais elementar bom senso. As espécies mais bem adaptadas sobrevivem, e outras menos adaptadas morrem.
As recentes declarações do Arcebispo de Viena, Cristoph Schönborn, geraram mais uma onda de contestação mediática. Vemos que as palavras deste Arcebispo evidenciam claramente a necessidade dos esclarecimentos que o seu texto traz.
Schönborn diz, com muita razão, que muitos evolucionistas deram uma interpretação equivocada às palavras do Papa João Paulo II. O Papa João Paulo II, numa audiência datada de 10 de Julho de 1985, pronunciou sólidas palavras sobre esta matéria. Em suma, o Santo Padre afirmava:
«A evolução dos seres vivos, de que a ciência procura determinar as etapas e discernir o mecanismo, apresenta um finalismo interno que suscita a admiração. Esta finalidade que orienta os seres numa direcção, da qual não existem padrões nem responsáveis, obriga a supor um Espírito que seja o seu inventor, o criador.»
Estas palavras prudentes demonstram que o Santo Padre não se pronunciou fora do campo da sua competência, deixando à Ciência o trabalho árduo de discernir o mecanismo do devir dos seres vivos. O que não está aqui, e que nunca foi defendido pela Igreja Católica, é um aval ao neo-darwinismo, a defesa da ideia peregrina de que a inteligência surge nos seres vivos por milhões de anos de mutações ocasionais e aleatórias. No limite, mesmo sendo possível demonstrar que as mutações genéticas permitem a multitude de espécies conhecidas (extintas ou não), a doutrina católica mostra-se clara num ponto fundamental: a matéria não engendra o intelecto.
Importa salientar que, no debate de ideias, há sempre espaço para uma certa dose de fé. Senão vejamos: ninguém discute a presença desta dose de fé no lado criacionista. Contudo, poucos a reconhecem no lado evolucionista.
Nos meus tempos de Universidade, trabalhei com ferramentas matemáticas que dão pelo nome de Algoritmos Genéticos. O bonito nome pode gerar equívocos, pelo que importa explicar sucintamente o que são e para que servem.
Os algoritmos genéticos são uma das muitas metodologias de resolução de problemas matemáticos. Antes de principiar um algoritmo genético, há que ter duas coisas (que me desculpem os especialistas por esta apresentação mutilada e simplista):
1. Uma heurística que codifique numericamente uma solução para o problema; sem esta codificação (dita "genética"), a solução não pode ser trabalhada algoritmicamente
2. Uma função de custo, que avalie o valor de uma dada solução. Esta função de custo será o juíz, que dará uma pontuação (numa escala pré-definida) a cada solução do problema
Como evolui o algoritmo?
Evolui sensivelmente da mesma forma que, segundo os evolucionistas, o mundo vivo teria evoluido desde os primórdios:
a) parte-se de um conjunto aleatório de possíveis soluções para o problema, todas colocadas em pé de igualdade, e todas codificadas da mesma forma; o ingrediente elementar de cada solução é chamado de "gene", e é um valor numérico que pode ser modificado
b) mutações ocasionais (alterações na codificação das soluções em jogo) permitem o surgimento de novas possíveis soluções; a função de custo avalia as novas soluções: as menos pontuadas vão para o fim da lista (e podem mesmo ser eliminadas); as mais bem pontuadas ascendem na tabela de pontuação.
Ao fim de muitos passos, com maior ou menor dosagem de mutações, o algoritmo produz a "melhor" solução, extraída por pontuação do conjunto inicial aleatório de soluções.
Isto funciona!
Contudo, não se pode aplicar este raciocínio ao ADN dos seres vivos. Porquê? Há várias razões, mas sublinho estas:
1. O património genético de um ser vivo é composto por milhares de genes e é tipicamente muito estável; o ADN reage, muitas vezes, a mutações que num algoritmo numérico poderiam ser desastrosas, mas que no mundo real podem não ter consequências graves para o ser vivo: a Natureza defende-se das mutações
2. As mutações na Natureza são um fenómeno raro, de carácter aleatório, e que apenas pode ser trabalhado probabilisticamente. Num algoritmo, podemos dosear a quantidade de mutação, e é só uma questão de tempo e de processador para que o algoritmo produza uma solução boa. Mas a Natureza não funciona assim, e confesso que vejo a necessidade não de um, mas de vários milhões de milagres para que, ao longo de tanto tempo, e parodiando, uma amiba dê origem ao Homem, tudo apenas com mutações genéticas.
Por tudo isto, penso que o evolucionismo tem um lado aceitável (a Selecção Natural, que pode encerrar em si mesma uma parcela da verdade sobre o devir das espécies), e um lado questionável (a evolução por mutações).
Questionar o evolucionismo é tarefa de qualquer pessoa séria que se debruce sobre este problema. Aliás, em Ciência, questionar é A TAREFA. Como eu gostaria de ver nestes tempos as mentes mais brilhantes debaterem estes temas sem entrarem na infantilização do adversário e sem entrarem em jogadas políticas de ataque à religião.
O criacionismo existe há milhares de anos no mundo Ocidental. Estruturas teóricas cosmológicas semelhantes encontram-se no pensamento oriental. A metafísica e as formas de ontologia de origem divina acompanharam o pensar humano desde sempre. Não faz sentido menosprezar o imenso peso intelectual dos defensores do Criacionismo. E muito menos tentar transformar os delírios intelectuais com que os E.U.A. nos costumam brindar, nestas e noutras matérias, na regra geral aplicável a todos. A forma como concebo o criacionismo é muito diferente da da maioria dos criacionistas norte-americanos.
Fica para uma próxima oportunidade alongar-me mais sobre isto.
Para terminar, uma ideia fundamental: o criacionismo é uma tese que não pode ser tratada pelas ferramentas da ciência moderna. É esta uma das razões principais para o aprofundar de toda esta incompreensão. Pelo facto de recorrer a causas metafísicas, e portanto supra-empíricas, o criacionismo é sobretudo uma corrente filosófica. O criacionismo estabelece uma causa sobrenatural para efeitos naturais. O evolucionismo, pelo contrário, e também legitimamente, procura essa mesma causa na própria natureza.
Duas metodologias diferentes que teriam que, naturalmente, conduzir a duas teorias diferentes.
Qualquer "dogmatismo científico" nesta área só pode ser estéril. Se eu fosse um cientista adepto do evolucionismo não me preocupava com os criacionistas: não há base científica para demonstrar o criacionismo. Contudo, as coisas também não estão fáceis para o evolucionismo, uma vez que a base científica de demonstração é eminentemente frágil, controversa e questionável. Para mais, o cientista moderno, em absoluto, terá que ter sempre presente que abdicou, por opção própria, do metafísico no primeiro dia em que se decidiu a trabalhar com ferramentas científicas modernas.
Deixemos a linguagem dogmática para a religião, que é a única que, por definição, a pode exercer com autoridade. Esperemos que os neo-darwinistas possam encontrar a calma e a lucidez para poderem efectuar verdadeiro trabalho científico, ao invés de promoverem agendas anti-religiosas.
Por outro lado, esperemos que os criacionistas do séquito de George W. Bush, com as suas agendas fanáticas bem preenchidas, não façam mais estragos a esta já delicada situação.
Bernardo
Sou criacionista...
... e com muito orgulho, porque é uma posição tomada com ponderação com sensatez e com muita hora dedicada a pensar no assunto.
Outros há que, dotados de uma inteligência acima da média, porque não sujeita à obscurantista religião, pensam melhor que uma criatura como eu, que só pode ser criacionista por ignorância ou casmurrice.
Diz a Palmira que costuma tratar em vários posts os "mitos cristãos sobre a origem do Universo", ou seja, traduzido para linguagem não distorcida, ela pretende falar sobre cosmogonia cristã. Um tema que ela ignora profundamente, ou se não ignora, apresenta-a de uma forma totalmente distorcida.
Oxalá que seja por ignorância que escreve o que escreve, Palmira, porque senão será por razões mais graves, que se prendem com a típica desonestidade intelectual que encontramos um pouco por toda a parte no local onde costuma escrever.
Que quer ela dizer? Que a cosmogonia cristã é "mitológica", ou seja, que nada tem a ver com a realidade.
Sim, e a teoria que esta senhora defende, ou seja, a teoria de que tudo o que existe e vive neste Universo surgiu devido a milhões de acasos, cada um deles de probabilidade quase zero, que ficaram a marinar durante biliões de anos?
Quando se pergunta a um evolucionista como é que ele explica os "missing links", a resposta é quase sempre esta: "passou muito tempo".
Ou seja, é como jogar na lotaria.
A evolução, como teoria, é semelhante a jogar no Euromilhões. Ganhar é fácil! Bastaria jogar 1.000.000.000.000.000.000 de vezes e tudo correria bem, quase de certeza!
Que dizer desta teoria, senão que se nos afigura como eminentemente mitológica? Como acreditar nisto? Como não ver nisto a marca da pseudo-ciência?
Darwin: que dizem em teu nome estes novos pseudo-cientistas?
Selecção natural? Tudo bem, porque darwinismo não é igual a neo-darwinismo. Nada tenho a opor à rarefacção de espécies menos preparadas para os meios em que viveram, desde que não me façam crer que as espécies dão saltos por acaso, que estranhas mutações fazem uma espécie mudar para outra totalmente diferente, e que, passados milhões de anos, uma ameba se torna num homem.
Mas passemos adiante, e deixemos os novos cientistas destruirem a Ciência, porque o que me traz aqui é a questão religiosa, que como sempre, é usada como papel higiénico na prosa desta senhora.
Como é desonesta, Palmira gosta de misturar a posição da Igreja Católica, que é a minha, e que é a da criação do Mundo por Deus exemplificada pela constatação de que há um desenho inteligente no Universo, com outras posições ridículas que ela vai buscar, como não podia deixar de ser, ao pardieiro intelectual dos nossos tempos: os E.U.A., onde pululam grupelhos de estranhos criacionistas que defendem as mais bizarras teses, e que a Palmira, muito convenientemente, mistura ao barulho como se fossem de índole intectual idêntica à da Igreja Católica.
"Mas nos Estados Unidos, onde o fundamentalismo e a IDiotia cristãs prosperam, os mitos cristãos da Criação são aceites como verdade por uma percentagem assustadora da população."
Assustadora porquê?
Sendo criacionista, devo supor que meto medo à Palmira?
Buuuu!!
"Nomeadamente acreditam que a Terra e o Universo foram criados em seis dias há menos de 10 000 anos, que todos os animais existentes (incluindo os extintos) foram criados simultaneamente e passaram por uma temporada na arca de Noé, enfim aceitam como verdade absoluta os absurdos mitos bíblicos."
Isto é, evidentemente, uma infantilização total do relato do Génesis. É perfeitamente possível professar a verdade do Génesis, e simultaneamente admitir os factos incontestáveis que os métodos científicos nos exibem. E tudo isto sem se ser evolucionista!
Há toda uma incompreensão profunda da tessitura do Génesis, e mesmo da linguagem própria do texto revelado.
E tudo isto em nome de quê?
De uma enorme arrogância pseudo-intelectual, de uma chacota da religião, e tudo feito, como não podia deixar de ser, infantilizando os crentes.
Há crentes que pensam, por muito que isso incomode gente como esta.
"Por exemplo, pretendem que os métodos de datação que indicam muitos milhões de anos para a idade da Terra são todos falíveis e assentes em pressupostos errados"
É possível ser criacionista e defender que a Terra tem milhões de anos de idade. E tudo isto sem ser evolucionista. É o meu caso e o de muitos outros criacionistas que pensaram antes de tomar uma posição.
E esta, hem?
Uma faláciazinha, Palmira? Mais uma?
Onde é que eu me encaixo, agora que você separou tudo em mais um dualismo falacioso, bem ao seu gosto e de acordo com as suas capacidades?
"Considerando que os primeiros ataques do Vaticano ao «criacionismo» ateu já começaram e que certamente se seguirão mais investidas para instalar o «santo» obscurantismo medieval, tão louvado pelo anterior Papa, no próximo post continuo com a análise do mito cristão da Criação!"
Análise?
Onde estava ela?
Bernardo
P.S. Peço desculpas aos leitores que não são alvo deste texto. O estilo ácido usado tem um propósito didáctico: fazer ver que estas questões não podem ser transformadas em guerrilha ideológica. E fazer ver que, como crente, me sinto ofendido pelo estilo parodiante usado por alguns escritores ateizantes (ateizantes porque, ao invés de serem apenas ateus, querem ateizar o Mundo) como a Prof. Palmira. O crente criacionista não pode ser rotulado de estúpido ou de acéfalo. Essa forma de ataque ad hominem demonstra que os adversários do criacionismo preferem esse estilo de pseudo-debate a uma troca de ideias com mútuo respeito e seriedade. O estilo mais sério do texto que se segue é prova de que prefiro tratar estes temas com calma e serenidade, e que sempre foi esse o meu objectivo.
Outros há que, dotados de uma inteligência acima da média, porque não sujeita à obscurantista religião, pensam melhor que uma criatura como eu, que só pode ser criacionista por ignorância ou casmurrice.
Diz a Palmira que costuma tratar em vários posts os "mitos cristãos sobre a origem do Universo", ou seja, traduzido para linguagem não distorcida, ela pretende falar sobre cosmogonia cristã. Um tema que ela ignora profundamente, ou se não ignora, apresenta-a de uma forma totalmente distorcida.
Oxalá que seja por ignorância que escreve o que escreve, Palmira, porque senão será por razões mais graves, que se prendem com a típica desonestidade intelectual que encontramos um pouco por toda a parte no local onde costuma escrever.
Que quer ela dizer? Que a cosmogonia cristã é "mitológica", ou seja, que nada tem a ver com a realidade.
Sim, e a teoria que esta senhora defende, ou seja, a teoria de que tudo o que existe e vive neste Universo surgiu devido a milhões de acasos, cada um deles de probabilidade quase zero, que ficaram a marinar durante biliões de anos?
Quando se pergunta a um evolucionista como é que ele explica os "missing links", a resposta é quase sempre esta: "passou muito tempo".
Ou seja, é como jogar na lotaria.
A evolução, como teoria, é semelhante a jogar no Euromilhões. Ganhar é fácil! Bastaria jogar 1.000.000.000.000.000.000 de vezes e tudo correria bem, quase de certeza!
Que dizer desta teoria, senão que se nos afigura como eminentemente mitológica? Como acreditar nisto? Como não ver nisto a marca da pseudo-ciência?
Darwin: que dizem em teu nome estes novos pseudo-cientistas?
Selecção natural? Tudo bem, porque darwinismo não é igual a neo-darwinismo. Nada tenho a opor à rarefacção de espécies menos preparadas para os meios em que viveram, desde que não me façam crer que as espécies dão saltos por acaso, que estranhas mutações fazem uma espécie mudar para outra totalmente diferente, e que, passados milhões de anos, uma ameba se torna num homem.
Mas passemos adiante, e deixemos os novos cientistas destruirem a Ciência, porque o que me traz aqui é a questão religiosa, que como sempre, é usada como papel higiénico na prosa desta senhora.
Como é desonesta, Palmira gosta de misturar a posição da Igreja Católica, que é a minha, e que é a da criação do Mundo por Deus exemplificada pela constatação de que há um desenho inteligente no Universo, com outras posições ridículas que ela vai buscar, como não podia deixar de ser, ao pardieiro intelectual dos nossos tempos: os E.U.A., onde pululam grupelhos de estranhos criacionistas que defendem as mais bizarras teses, e que a Palmira, muito convenientemente, mistura ao barulho como se fossem de índole intectual idêntica à da Igreja Católica.
"Mas nos Estados Unidos, onde o fundamentalismo e a IDiotia cristãs prosperam, os mitos cristãos da Criação são aceites como verdade por uma percentagem assustadora da população."
Assustadora porquê?
Sendo criacionista, devo supor que meto medo à Palmira?
Buuuu!!
"Nomeadamente acreditam que a Terra e o Universo foram criados em seis dias há menos de 10 000 anos, que todos os animais existentes (incluindo os extintos) foram criados simultaneamente e passaram por uma temporada na arca de Noé, enfim aceitam como verdade absoluta os absurdos mitos bíblicos."
Isto é, evidentemente, uma infantilização total do relato do Génesis. É perfeitamente possível professar a verdade do Génesis, e simultaneamente admitir os factos incontestáveis que os métodos científicos nos exibem. E tudo isto sem se ser evolucionista!
Há toda uma incompreensão profunda da tessitura do Génesis, e mesmo da linguagem própria do texto revelado.
E tudo isto em nome de quê?
De uma enorme arrogância pseudo-intelectual, de uma chacota da religião, e tudo feito, como não podia deixar de ser, infantilizando os crentes.
Há crentes que pensam, por muito que isso incomode gente como esta.
"Por exemplo, pretendem que os métodos de datação que indicam muitos milhões de anos para a idade da Terra são todos falíveis e assentes em pressupostos errados"
É possível ser criacionista e defender que a Terra tem milhões de anos de idade. E tudo isto sem ser evolucionista. É o meu caso e o de muitos outros criacionistas que pensaram antes de tomar uma posição.
E esta, hem?
Uma faláciazinha, Palmira? Mais uma?
Onde é que eu me encaixo, agora que você separou tudo em mais um dualismo falacioso, bem ao seu gosto e de acordo com as suas capacidades?
"Considerando que os primeiros ataques do Vaticano ao «criacionismo» ateu já começaram e que certamente se seguirão mais investidas para instalar o «santo» obscurantismo medieval, tão louvado pelo anterior Papa, no próximo post continuo com a análise do mito cristão da Criação!"
Análise?
Onde estava ela?
Bernardo
P.S. Peço desculpas aos leitores que não são alvo deste texto. O estilo ácido usado tem um propósito didáctico: fazer ver que estas questões não podem ser transformadas em guerrilha ideológica. E fazer ver que, como crente, me sinto ofendido pelo estilo parodiante usado por alguns escritores ateizantes (ateizantes porque, ao invés de serem apenas ateus, querem ateizar o Mundo) como a Prof. Palmira. O crente criacionista não pode ser rotulado de estúpido ou de acéfalo. Essa forma de ataque ad hominem demonstra que os adversários do criacionismo preferem esse estilo de pseudo-debate a uma troca de ideias com mútuo respeito e seriedade. O estilo mais sério do texto que se segue é prova de que prefiro tratar estes temas com calma e serenidade, e que sempre foi esse o meu objectivo.
sexta-feira, 24 de outubro de 2003
Criação
Volto de novo a esta noção essencial de Criação, começando por traduzir um pequeno excerto de René Guénon:
«Estas últimas considerações levam-nos directamente a explicar a ideia de "criação": esta concepção, que é tão estranha aos Orientais, excepto aos Muçulmanos, como o foi na antiguidade greco-romana, aparece como especificamente judaica na sua origem; a palavra que a designa é latina na sua forma, mas não na acepção que recebeu com o Cristianismo, porque "creare" não queria dizer à partida nada mais que "fazer", sentido que sempre permaneceu, em sânscrito, o da raíz verbal "kri", que é idêntica a esta palavra; ocorreu uma modificação profunda do significado, e este caso é, como o dissemos, similar ao caso do termo "religião". Foi evidentemente do Judaísmo que a ideia passou ao Cristianismo e ao Islamismo; e quanto à sua razão de ser essencial, ela é no fundo a mesma da interdição dos símbolos antropomorfos. Com efeito, a tendência a conceber Deus como "um ser" mais ou menos análogo aos seres individuais e particularmente aos seres humanos, teve por corolário natural, onde quer que ocorreu, a tendência de se lhe atribuir um papel simplesmente "demiúrgico", ou seja uma acção que se exerce sobre uma "matéria" suposta exterior a ele, o que é o modo de acção próprio dos seres individuais.
Nestas condições, era necessário, para salvar a noção de unidade e infinidade divinas, afirmar expressamente que Deus "fez o mundo do nada", ou seja, de nada que lhe fosse exterior, e cuja suposição teria por efeito limitá-lo, dando origem a um dualismo radical. A heresia teológica não é senão a expressão de um absurdo metafísico, o que é o caso habitual; mas o perigo, inexistente quanto à metafísica pura, torna-se muito real no ponto de vista religioso, porque o absurdo, sob esta forma derivada, não aparece tão imediatamente. A concepção teológica da "criação" é uma tradução apropriada da concepção metafísica da "manifestação universal"; e a melhor adaptada à mentalidade dos povos ocidentais; mas não existe equivalência a estabelecer entre estas duas concepções, desde logo que há necessariamente entre elas toda a diferença dos pontos de vista respectivos aos quais elas se referem: é mais um exemplo que vem apoiar o que expusemos no capítulo precedente." - René Guénon, "Introduction Génerale à L'Étude des Doctrines Hindoues" (1921), pp. 120 e 121.
O que Guénon quer dizer é que a noção de Criação surgiu como conceito teológico para evitar precisamente o abaixamento de Deus, o Criador, ao papel de um simples "demiurgo", de um ser que produzisse o Mundo a partir de algo que lhe era exterior.
Há dois erros que importa evitar no que diz respeito à Criação:
1. Deus não criou o Mundo a partir de algo que lhe fosse exterior
2. O Mundo não emanou de Deus, no sentido em que houve uma transferência de substância entre Deus e a Criação.
Estes dois erros foram repetidamente apresentados pela Igreja Católica como constituindo anátema. Também o Islão repousa num puro conceito monoteísta que rejeita, portanto, estes dois erros.
O erro nº.1 é relativamente simples de aceitar como tal, porque admitir que Deus tivesse criado o Mundo a partir de algo que lhe fosse exterior seria dizer imediatamente que Deus não era infinito e uno.
O erro nº.2 é mais complicado de entender. Para o entendermos, podemos recorrer ao Credo, na forma do Símbolo de Niceia:
"Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem, factorem caeli et terrae, visibilium omnium et invisibilium.
Et in unum Dominum Iesum Christum, Filium Dei unigenitum, et ex Patre natum ante omnia saecula.
Deum de Deo, Lumen de Lumine, Deum verum de Deo vero, genitum non factum, consubstantialem Patri; per quem omnia facta sunt.
Qui propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis.
Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine, et homo factus est.
Crucifixus etiam pro nobis sub Pontio Pilato, passus et sepultus est, et resurrexit tertia die, secundum Scripturas, et ascendit in caelum, sedet ad dexteram Patris.
Et iterum venturus est cum gloria, iudicare vivos et mortuos, cuius regni non erit finis.
Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem, qui ex Patre Filioque procedit.
Qui cum Patre et Filio simul adoratur et conglorificatur: qui locutus est per prophetas.
Et unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam.
Confiteor unum baptisma in remissionem peccatorum.
Et expecto resurrectionem mortuorum, et vitam venturi saeculi.
Amen."
Como podemos ler, relativamente à segunda pessoa da Trindade, Jesus Cristo, é dito:
"(...) et ex Patre natum ante omnia saecula. (...) genitum non factum, consubstantialem Patri"
ou seja
"(..) nascido do Pai antes de todos os séculos. (...) gerado não criado, consubstancial ao Pai"
Isto implica claramente duas coisas:
1. Jesus Cristo é "anterior" à Criação, com o cuidado de não dar à palavra "anterior" um significado cronológico mas sim causal
2. Jesus Cristo é da mesma substância do Pai ("homoousion" em grego), ao contrário da Criação.
Por isso, vemos que a Criação não emana do Pai, ou seja, a substância da Criação não é a mesma da do Pai. Por isso, a Criação "ex nihilo", "do nada", é uma verdade essencial para as religiões monoteístas.
Como advertência final, devo referir que a citação de Guénon deve ser contextualizada.
Guénon colocou a Teologia num plano inferior ao que ele chamou de "metafísica" e que corresponde à "jaina" hindu, e à "gnose" grega. Tal posição foi fortemente contestada, e sobressai como um dos grandes problemas para a compreensão do legado de Guénon.
A recusa da parte de Guénon em usar o termo "gnose", preferindo o termo "metafísica", vem do facto de que o repugnava ser acusado de "gnóstico". Frequentemente Guénon distinguiu o que se devia entender como "gnose" daquilo que era clara heresia, o "gnosticismo".
Mas este assunto, demasiado extenso, fica para outra altura.
Bernardo
«Estas últimas considerações levam-nos directamente a explicar a ideia de "criação": esta concepção, que é tão estranha aos Orientais, excepto aos Muçulmanos, como o foi na antiguidade greco-romana, aparece como especificamente judaica na sua origem; a palavra que a designa é latina na sua forma, mas não na acepção que recebeu com o Cristianismo, porque "creare" não queria dizer à partida nada mais que "fazer", sentido que sempre permaneceu, em sânscrito, o da raíz verbal "kri", que é idêntica a esta palavra; ocorreu uma modificação profunda do significado, e este caso é, como o dissemos, similar ao caso do termo "religião". Foi evidentemente do Judaísmo que a ideia passou ao Cristianismo e ao Islamismo; e quanto à sua razão de ser essencial, ela é no fundo a mesma da interdição dos símbolos antropomorfos. Com efeito, a tendência a conceber Deus como "um ser" mais ou menos análogo aos seres individuais e particularmente aos seres humanos, teve por corolário natural, onde quer que ocorreu, a tendência de se lhe atribuir um papel simplesmente "demiúrgico", ou seja uma acção que se exerce sobre uma "matéria" suposta exterior a ele, o que é o modo de acção próprio dos seres individuais.
Nestas condições, era necessário, para salvar a noção de unidade e infinidade divinas, afirmar expressamente que Deus "fez o mundo do nada", ou seja, de nada que lhe fosse exterior, e cuja suposição teria por efeito limitá-lo, dando origem a um dualismo radical. A heresia teológica não é senão a expressão de um absurdo metafísico, o que é o caso habitual; mas o perigo, inexistente quanto à metafísica pura, torna-se muito real no ponto de vista religioso, porque o absurdo, sob esta forma derivada, não aparece tão imediatamente. A concepção teológica da "criação" é uma tradução apropriada da concepção metafísica da "manifestação universal"; e a melhor adaptada à mentalidade dos povos ocidentais; mas não existe equivalência a estabelecer entre estas duas concepções, desde logo que há necessariamente entre elas toda a diferença dos pontos de vista respectivos aos quais elas se referem: é mais um exemplo que vem apoiar o que expusemos no capítulo precedente." - René Guénon, "Introduction Génerale à L'Étude des Doctrines Hindoues" (1921), pp. 120 e 121.
O que Guénon quer dizer é que a noção de Criação surgiu como conceito teológico para evitar precisamente o abaixamento de Deus, o Criador, ao papel de um simples "demiurgo", de um ser que produzisse o Mundo a partir de algo que lhe era exterior.
Há dois erros que importa evitar no que diz respeito à Criação:
1. Deus não criou o Mundo a partir de algo que lhe fosse exterior
2. O Mundo não emanou de Deus, no sentido em que houve uma transferência de substância entre Deus e a Criação.
Estes dois erros foram repetidamente apresentados pela Igreja Católica como constituindo anátema. Também o Islão repousa num puro conceito monoteísta que rejeita, portanto, estes dois erros.
O erro nº.1 é relativamente simples de aceitar como tal, porque admitir que Deus tivesse criado o Mundo a partir de algo que lhe fosse exterior seria dizer imediatamente que Deus não era infinito e uno.
O erro nº.2 é mais complicado de entender. Para o entendermos, podemos recorrer ao Credo, na forma do Símbolo de Niceia:
"Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem, factorem caeli et terrae, visibilium omnium et invisibilium.
Et in unum Dominum Iesum Christum, Filium Dei unigenitum, et ex Patre natum ante omnia saecula.
Deum de Deo, Lumen de Lumine, Deum verum de Deo vero, genitum non factum, consubstantialem Patri; per quem omnia facta sunt.
Qui propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis.
Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine, et homo factus est.
Crucifixus etiam pro nobis sub Pontio Pilato, passus et sepultus est, et resurrexit tertia die, secundum Scripturas, et ascendit in caelum, sedet ad dexteram Patris.
Et iterum venturus est cum gloria, iudicare vivos et mortuos, cuius regni non erit finis.
Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem, qui ex Patre Filioque procedit.
Qui cum Patre et Filio simul adoratur et conglorificatur: qui locutus est per prophetas.
Et unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam.
Confiteor unum baptisma in remissionem peccatorum.
Et expecto resurrectionem mortuorum, et vitam venturi saeculi.
Amen."
Como podemos ler, relativamente à segunda pessoa da Trindade, Jesus Cristo, é dito:
"(...) et ex Patre natum ante omnia saecula. (...) genitum non factum, consubstantialem Patri"
ou seja
"(..) nascido do Pai antes de todos os séculos. (...) gerado não criado, consubstancial ao Pai"
Isto implica claramente duas coisas:
1. Jesus Cristo é "anterior" à Criação, com o cuidado de não dar à palavra "anterior" um significado cronológico mas sim causal
2. Jesus Cristo é da mesma substância do Pai ("homoousion" em grego), ao contrário da Criação.
Por isso, vemos que a Criação não emana do Pai, ou seja, a substância da Criação não é a mesma da do Pai. Por isso, a Criação "ex nihilo", "do nada", é uma verdade essencial para as religiões monoteístas.
Como advertência final, devo referir que a citação de Guénon deve ser contextualizada.
Guénon colocou a Teologia num plano inferior ao que ele chamou de "metafísica" e que corresponde à "jaina" hindu, e à "gnose" grega. Tal posição foi fortemente contestada, e sobressai como um dos grandes problemas para a compreensão do legado de Guénon.
A recusa da parte de Guénon em usar o termo "gnose", preferindo o termo "metafísica", vem do facto de que o repugnava ser acusado de "gnóstico". Frequentemente Guénon distinguiu o que se devia entender como "gnose" daquilo que era clara heresia, o "gnosticismo".
Mas este assunto, demasiado extenso, fica para outra altura.
Bernardo
quarta-feira, 15 de outubro de 2003
A noção de Criação e os católicos modernos
«É profundamente erróneo supor que, no que diz respeito às verdades da fé, seja indiferente o que se pense sobre a criação desde que se tenha uma concepção exacta de Deus, porque um erro sobre a natureza da criação reflectirá sempre uma errónea noção de Deus.» - S. Tomás de Aquino.
(esta citação foi retirada de uma tradução espanhola de um excerto do livro "Ciência Moderna e Sabedoria Tradicional", de Titus Burckhardt, no site Textos Tradicionales)
Quero deixar aqui uma sugestão de reflexão, baseada nestas palavras de S. Tomás de Aquino: os católicos modernos não podem demitir-se da obrigação fulcral de "resolverem" a nível pessoal, ou seja, na fé de cada um, este antagonismo entre a Criação ex nihilo ("do nada"), conforme diz a doutrina Católica, e as modernas teorias evolucionistas e cosmológicas.
Não é possível ter o "melhor de dois mundos", ou seja, acreditar no Deus católico, e na doutrina da Igreja Católica, e tentar "encaixar" à força Charles Darwin e os seus sucessores, e teorias como a do Big Bang.
A solução para este dilema não passa pela leitura literal do Génesis. Passa por um sério e moroso esforço de aprofundamento do conhecimento e da fé.
Ninguém disse que ser católico no século XXI era fácil!
Bernardo
(esta citação foi retirada de uma tradução espanhola de um excerto do livro "Ciência Moderna e Sabedoria Tradicional", de Titus Burckhardt, no site Textos Tradicionales)
Quero deixar aqui uma sugestão de reflexão, baseada nestas palavras de S. Tomás de Aquino: os católicos modernos não podem demitir-se da obrigação fulcral de "resolverem" a nível pessoal, ou seja, na fé de cada um, este antagonismo entre a Criação ex nihilo ("do nada"), conforme diz a doutrina Católica, e as modernas teorias evolucionistas e cosmológicas.
Não é possível ter o "melhor de dois mundos", ou seja, acreditar no Deus católico, e na doutrina da Igreja Católica, e tentar "encaixar" à força Charles Darwin e os seus sucessores, e teorias como a do Big Bang.
A solução para este dilema não passa pela leitura literal do Génesis. Passa por um sério e moroso esforço de aprofundamento do conhecimento e da fé.
Ninguém disse que ser católico no século XXI era fácil!
Bernardo
terça-feira, 14 de outubro de 2003
Evolucionismo - Um ataque cego?
A todos os que podem achar as minhas críticas algo cegas, obscuras e fanáticas, ou até àqueles que rapidamente me poderiam atribuir uma leitura literal do Génesis, queria deixar algumas palavras...
Infelizmente, não é raro ver pessoas sem preparação, munidas apenas de uma fé pouco esclarecida, atacarem o modelo evolucionista. E contra mim falo!
Por isso, saio de cena e deixo falar outros muito mais esclarecidos.
Hoje quero aqui deixar um texto do tradicionalista Titus Burckhardt (1908-1984): "El Origen de las Especies". Este texto é uma tradução espanhola e encontra-se no site Textos Tradicionales.
Bernardo
Infelizmente, não é raro ver pessoas sem preparação, munidas apenas de uma fé pouco esclarecida, atacarem o modelo evolucionista. E contra mim falo!
Por isso, saio de cena e deixo falar outros muito mais esclarecidos.
Hoje quero aqui deixar um texto do tradicionalista Titus Burckhardt (1908-1984): "El Origen de las Especies". Este texto é uma tradução espanhola e encontra-se no site Textos Tradicionales.
Bernardo
segunda-feira, 13 de outubro de 2003
Erros meus...
Uma questão tão complicada como a da crítica da Evolução e do Progresso não pode ser resolvida em mensagens de blogue, por muitas que escrevessemos.
Os argumentos apresentados pelo Pedro Cordeiro são, sem dúvida, muito importantes e pertinentes, e vêm no sentido de corrigir erros num texto que apresentei há dias.
Com os erros e imperfeições próprios do meu amadorismo, poderei ter confundido quem me leu. Para permitir que se siga o "fio à meada" não vou alterar a versão original do texto que apresentei. Daqui para a frente farei sempre assim, ou seja, irei identificar e reconhecer os meus erros em mensagens posteriores, sem alterar a mensagem original.
Acredito que Verdade que tento transmitir deve permanecer, independentemente dos meus erros de expressão.
Sugiro, para uma primeira abordagem à crítica que o Tradicionalismo faz à teoria evolucionista, que se leia com atenção a posição do tradicionalista Frithjof Schuon.
A leitura do site Sophia Perennis é muito interessante, se bem que, pessoalmente, não partilhe da totalidade do pensamento de Schuon.
Também devo sugerir uma saltada a Biblical Implications of Creation vs Evolution, onde são apresentados argumentos contra a evolução das espécies, e mesmo contra a selecção natural. Tenho sempre um ENORME cuidado ao ler tudo o que se apresente como "religioso" e "americano" ao mesmo tempo, porque normalmente não presta. Faço a mesma recomendação a quem consultar este site que, aparentemente, parece ser uma feliz e útil excepção...
Bernardo
Os argumentos apresentados pelo Pedro Cordeiro são, sem dúvida, muito importantes e pertinentes, e vêm no sentido de corrigir erros num texto que apresentei há dias.
Com os erros e imperfeições próprios do meu amadorismo, poderei ter confundido quem me leu. Para permitir que se siga o "fio à meada" não vou alterar a versão original do texto que apresentei. Daqui para a frente farei sempre assim, ou seja, irei identificar e reconhecer os meus erros em mensagens posteriores, sem alterar a mensagem original.
Acredito que Verdade que tento transmitir deve permanecer, independentemente dos meus erros de expressão.
Sugiro, para uma primeira abordagem à crítica que o Tradicionalismo faz à teoria evolucionista, que se leia com atenção a posição do tradicionalista Frithjof Schuon.
A leitura do site Sophia Perennis é muito interessante, se bem que, pessoalmente, não partilhe da totalidade do pensamento de Schuon.
Também devo sugerir uma saltada a Biblical Implications of Creation vs Evolution, onde são apresentados argumentos contra a evolução das espécies, e mesmo contra a selecção natural. Tenho sempre um ENORME cuidado ao ler tudo o que se apresente como "religioso" e "americano" ao mesmo tempo, porque normalmente não presta. Faço a mesma recomendação a quem consultar este site que, aparentemente, parece ser uma feliz e útil excepção...
Bernardo
Uma batatada a jeito!
O Pedro mandou-me hoje uma bela batatada, directamente do seu blogue.
De certo modo já a esperava!
Trata-se da minha crítica às teorias evolucionistas e ao conceito de Progresso em geral.
Gostei das críticas do Pedro, que são muito pertinentes.
E gostei sobretudo das suas correcções. Obrigado, Pedro!
A minha seguinte frase:
"Então o que nos diz o senhor Darwin? Diz-nos que as espécies transformam-se ao longo do tempo, que alterações no código genético das espécies levam-nas a evoluir de formas primitivas para formas mais sofisticadas."
está profundamente errada.
No tempo de Darwin, ainda se estava longe de conhecer a Genética.
Além disso, Darwin fala sobretudo da "selecção natural", e a sua tónica é sempre na sobrevivência das espécies mais capazes de resistir às alterações do seu ambiente. Também não foi correcto da minha parte falar na "Teoria da Evolução das Espécies", uma vez que a obra de Darwin se chama "A Origem das Espécies".
Mas tentarei, agora com mais cuidado, explicar melhor aquilo que quis transmitir.
No campo da Genética, foram e estão a ser descobertas coisas surpreendentes. A transmissão hereditária de características em todas as espécies é algo que não se pode negar. De certo modo, Darwin, e isso correctamente, deu-se conta, como o Pedro refere e muito bem, que mudanças no meio provocam a extinção das espécies menos preparadas para as ditas.
Assim, numa dada altura da História, constatamos a existência das espécies que melhor suportaram as adversidades do meio.
Darwin deu à sua obra o título de "A Origem das Espécies", e nela trata o que chamou de "selecção natural". Talvez, em rigor, Darwin não tenha defendido, pelo menos por escrito, a "evolução das espécies" mas sim a sua modificação no contexto da "selecção natural", por outras palavras, o "devir" das espécies. Mas certamente motivou e influenciou directamente uma escola de seguidores que acentuaram fortemente o conceito de "evolução", talvez mascarado ou até inexistente em Darwin.
E é esta "evolução" que eu critico! Porque "evolução" significa claramente "mudança para melhor". E esta coisa da "mudança para melhor" é algo claramente contrário às teorias cíclicas das mais variadas tradições.
Se as condições do meio mudam, não podemos ter a veleidade de classificar estas mudanças como "boas" ou "más", uma vez que as mesmas condições podem ser benéficas para umas espécies e prejudiciais para outras. Por isso, a constante e lenta adaptação das espécies (e entendendo adaptação por "sobrevivência dos que se possuem características adaptáveis") às metamorfoses do meio não permite que se diga que as espécies "evoluem". O Homem incluído!
Mais... As espécies existentes sobre a Terra no ano 2000 não são as "vencedoras", nem as mais bem adaptadas em absoluto! Como poderíamos sustentar essa ideia se as condições estão, também elas, em permanente mudança desde o início dos tempos?
Regressando à espécie humana, eu não nego a realidade do "homo erectus" ou do "homo habilis". O que eu recuso é que se admita imediatamente que essas criaturas são "antepassados" do Homem moderno. As descobertas arqueológicas nesta área são importantíssimas, e deveriam fazer-nos pensar o quanto desconhecemos do nosso passado. Mas seguramente não devemos, na ausência de quaisquer provas, aderir à suposição não fundamentada de que o Homem moderno é, biológica e intelectualmente, uma Lucy "evoluída".
Posto em linguagem sintética:
1. Se existe uma criatura "A" sobre a Terra no ano X;
2. E se existe uma criatura "B" sobre a Terra no ano Y, em que Y>X;
Não se pode concluir que A se transformou em B ao longo desses Y-X anos, só porque "A" é suficientemente parecido com "B" e não foram encontradas provas arqueológicas de que B já existia no ano X.
Exemplificando: porque é que se nega que no tempo de Lucy não existiam já civilizações sobre a Terra? Só porque não foram encontrados vestígios arqueológicos?
Indo mais longe...
Supondo que se provava, e se calhar já se provou, que o património genético da Lucy era idêntico ou semelhante ao do Homo sapiens. Mesmo assim, não podemos ter a tentação dos medíocres raelianos! A identidade dos genes não equivale à identidade dos seres! A acepção de "ser" que uso aqui é a mais geral e abrangente possível, e não apenas a acepção da Biologia e da Genética.
Deixemos a pateta Dra. Brigitte Boisselier, ou pior, aqueles que a seguem, acreditar que é possível ressuscitar seres humanos pela clonagem!
Aquilo que eu mais quis atacar com o texto que escrevi foi que a mentalidade hodierna relativamente à História do Homem desde as origens está errada. E que o Homem não está coisíssima nenhuma no seu pico de sofisticação "intelectual", como tanta e tanta gente supõe. Quando muito, como todas as espécies, o Homem está a adaptar-se biologicamente às condições, também elas em constante mudança, do Mundo em que vive. Esta adaptação é muito lenta. Mas eu procurava sobretudo criticar a crença na "evolução intelectual", ou melhor, no "progresso intelectual".
Eu acredito que estamos a viver a Idade Escura de que falei, e que estamos em acelerada decadência intelectual (dando a esta palavra uma acepção o mais geral possível).
Os sinais dos tempos estão por todo o lado!
Bernardo
De certo modo já a esperava!
Trata-se da minha crítica às teorias evolucionistas e ao conceito de Progresso em geral.
Gostei das críticas do Pedro, que são muito pertinentes.
E gostei sobretudo das suas correcções. Obrigado, Pedro!
A minha seguinte frase:
"Então o que nos diz o senhor Darwin? Diz-nos que as espécies transformam-se ao longo do tempo, que alterações no código genético das espécies levam-nas a evoluir de formas primitivas para formas mais sofisticadas."
está profundamente errada.
No tempo de Darwin, ainda se estava longe de conhecer a Genética.
Além disso, Darwin fala sobretudo da "selecção natural", e a sua tónica é sempre na sobrevivência das espécies mais capazes de resistir às alterações do seu ambiente. Também não foi correcto da minha parte falar na "Teoria da Evolução das Espécies", uma vez que a obra de Darwin se chama "A Origem das Espécies".
Mas tentarei, agora com mais cuidado, explicar melhor aquilo que quis transmitir.
No campo da Genética, foram e estão a ser descobertas coisas surpreendentes. A transmissão hereditária de características em todas as espécies é algo que não se pode negar. De certo modo, Darwin, e isso correctamente, deu-se conta, como o Pedro refere e muito bem, que mudanças no meio provocam a extinção das espécies menos preparadas para as ditas.
Assim, numa dada altura da História, constatamos a existência das espécies que melhor suportaram as adversidades do meio.
Darwin deu à sua obra o título de "A Origem das Espécies", e nela trata o que chamou de "selecção natural". Talvez, em rigor, Darwin não tenha defendido, pelo menos por escrito, a "evolução das espécies" mas sim a sua modificação no contexto da "selecção natural", por outras palavras, o "devir" das espécies. Mas certamente motivou e influenciou directamente uma escola de seguidores que acentuaram fortemente o conceito de "evolução", talvez mascarado ou até inexistente em Darwin.
E é esta "evolução" que eu critico! Porque "evolução" significa claramente "mudança para melhor". E esta coisa da "mudança para melhor" é algo claramente contrário às teorias cíclicas das mais variadas tradições.
Se as condições do meio mudam, não podemos ter a veleidade de classificar estas mudanças como "boas" ou "más", uma vez que as mesmas condições podem ser benéficas para umas espécies e prejudiciais para outras. Por isso, a constante e lenta adaptação das espécies (e entendendo adaptação por "sobrevivência dos que se possuem características adaptáveis") às metamorfoses do meio não permite que se diga que as espécies "evoluem". O Homem incluído!
Mais... As espécies existentes sobre a Terra no ano 2000 não são as "vencedoras", nem as mais bem adaptadas em absoluto! Como poderíamos sustentar essa ideia se as condições estão, também elas, em permanente mudança desde o início dos tempos?
Regressando à espécie humana, eu não nego a realidade do "homo erectus" ou do "homo habilis". O que eu recuso é que se admita imediatamente que essas criaturas são "antepassados" do Homem moderno. As descobertas arqueológicas nesta área são importantíssimas, e deveriam fazer-nos pensar o quanto desconhecemos do nosso passado. Mas seguramente não devemos, na ausência de quaisquer provas, aderir à suposição não fundamentada de que o Homem moderno é, biológica e intelectualmente, uma Lucy "evoluída".
Posto em linguagem sintética:
1. Se existe uma criatura "A" sobre a Terra no ano X;
2. E se existe uma criatura "B" sobre a Terra no ano Y, em que Y>X;
Não se pode concluir que A se transformou em B ao longo desses Y-X anos, só porque "A" é suficientemente parecido com "B" e não foram encontradas provas arqueológicas de que B já existia no ano X.
Exemplificando: porque é que se nega que no tempo de Lucy não existiam já civilizações sobre a Terra? Só porque não foram encontrados vestígios arqueológicos?
Indo mais longe...
Supondo que se provava, e se calhar já se provou, que o património genético da Lucy era idêntico ou semelhante ao do Homo sapiens. Mesmo assim, não podemos ter a tentação dos medíocres raelianos! A identidade dos genes não equivale à identidade dos seres! A acepção de "ser" que uso aqui é a mais geral e abrangente possível, e não apenas a acepção da Biologia e da Genética.
Deixemos a pateta Dra. Brigitte Boisselier, ou pior, aqueles que a seguem, acreditar que é possível ressuscitar seres humanos pela clonagem!
Aquilo que eu mais quis atacar com o texto que escrevi foi que a mentalidade hodierna relativamente à História do Homem desde as origens está errada. E que o Homem não está coisíssima nenhuma no seu pico de sofisticação "intelectual", como tanta e tanta gente supõe. Quando muito, como todas as espécies, o Homem está a adaptar-se biologicamente às condições, também elas em constante mudança, do Mundo em que vive. Esta adaptação é muito lenta. Mas eu procurava sobretudo criticar a crença na "evolução intelectual", ou melhor, no "progresso intelectual".
Eu acredito que estamos a viver a Idade Escura de que falei, e que estamos em acelerada decadência intelectual (dando a esta palavra uma acepção o mais geral possível).
Os sinais dos tempos estão por todo o lado!
Bernardo
Subscrever:
Mensagens (Atom)

