Diocese de Leiria-Fátima - Declaração sobre as actividades de exorcismo por parte de Humberto Gama
(declaração recebida via "newsletter" É o Carteiro!)
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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terça-feira, 1 de março de 2011
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Acreditar na existência do Diabo é irracional?
O Ricardo Silvestre acha que sim. Insistindo na generalização de determinados aspectos de determinadas religiões, o Ricardo considera que a crença católica na existência do Diabo é uma "irracionalidade religiosa". A generalização é perigosa, pois há muitas religiões que não acreditam na existência do Diabo, e é sempre arriscado adjectivar em bloco "as religiões" quando elas são muito diferentes entre si.
O que o Ricardo critica, neste seu texto, é a alusão recente de Bento XVI a Satanás como estando na origem do mal, alusão nada surpreendente, dado que a crença na existência do Príncipe do Mal é essencial ao credo cristão. O Ricardo acha irracional, essa crença.
O que não está explicado, no texto do Ricardo, é o porquê. Porque é que o Ricardo acha irracional acreditar que o Diabo existe? Será que é porque ele não se vê? É porque se trata de uma hipótese cientificamente indemonstrável? Ora bolas, mas o princípio lógico da não-contradição também é algo que não se vê e que não se demonstra cientificamente, e no entanto, é bem real.
Onde é que está a irracionalidade?
Será que se apoia no materialismo ateu? Já se sabe que os ateus são, regra geral (não todos), materialistas, ou seja, postulam a inexistência de seres imateriais (obviamente, a energia aceitam-na como existente, mas matéria e energia são aspectos de uma mesma realidade material).
Mas dado que não se demonstra cientificamente a inexistência de seres imateriais, só restaria ao ateu demonstrar a irracionalidade da existência de seres imateriais. E é aí que todo o ateu falha, quer por não tentar essa demonstração, quer não ter sucesso quando a tenta fazer.
Na Suma Teológica, o "expert" de razão cristã, São Tomás de Aquino, trata da questão da existência de seres incorpóreos, ou seja, imaterais:
«É necessário admitirem-se certas criaturas incorpóreas. Pois, o que Deus principalmente visa, nas coisas criadas, é o bem, que consiste ao assemelhar-se com Ele. Ora, a perfeita assimilação do efeito com a causa se dá quando aquele imita a esta segundo a virtude pela qual a causa produz o efeito; assim o cálido produz o cálido. Ora, Deus produz a criatura pelo intelecto e pela vontade, como já ficou dito. Donde, para a perfeição do universo se requer existam algumas criaturas intelectuais. Inteligir, porém, não pode ser ato do corpo, nem de nenhuma virtude corpórea, porque todo corpo está situado no lugar e no tempo. Por onde, é necessário admitir-se, para que o universo seja perfeito, a existência de alguma criatura incorpórea. Mas os antigos, ignorando a virtude intelectiva e não distinguindo entre o sentido e o intelecto, opinaram que nada existe no mundo, fora o que pode ser apreendido pelos sentidos e pela imaginação. E como a imaginação só percebe o corpo, opinaram que nenhum ente, além do corpo, pode existir, como diz o Filósofo. Donde procedeu o erro dos Saduceus dizendo que não há espírito (At 23, 8). Mas o fato mesmo de ser o intelecto superior ao sentido prova racionalmente que há certos seres incorpóreos compreensíveis só por aquele.» - Artigo 1º, Questão 50 da Primeira Parte.
Que há de irracional nisto?
Trocado para linguagem moderna, São Tomás explica que o intelecto, também presente no Homem, não pode ter origem material. Filosoficamente, isso está bem demonstrado. É impossível, filosoficamente, explicar aspectos centrais do intelecto humano, como a capacidade de raciocinar, a capacidade de pensamento abstracto, ou ainda o livre arbítrio, se não se postular que o ser humano é um "composto" de matéria e de intelecto. No que diz respeito ao cérebro material, este é necessário para o inteligir do Homem (como via para processar a informação sensorial, e também como "banco de memória"), mas não seria suficiente para explicar o intelecto. O cérebro, sendo material, não chega para explicar todas as faculdades do intelecto humano, pelo que tem que existir algo de imaterial no ser humano para as explicar.
Assim, é fácil, pensando filosoficamente, chegar à conclusão de que há, no ser humano, um aspecto imaterial que está presente, pelo menos, no seu intelecto. São Tomás, partindo do conceito cristão de Deus, faz o raciocínio certo: se Deus, puro e perfeito intelecto, cria as criaturas pelo Seu intelecto e vontade, então, na criação de algumas das criaturas poderá haver uma perfeita ligação entre causa e efeito, sendo que esse efeito (a criação das criaturas mais perfeitas), terá que ter algo semelhante à causa. É assim racional pensar que existirão criaturas dotadas de intelecto e de vontade, que dessa forma espelhem o intelecto e a vontade de Deus. O ser humano é uma dessas criaturas. Adicionalmente, tem na sua existência a componente corpórea. Mas porque não existiriam criaturas de intelecto e de vontade, mas sem a componente corpórea? Chama a tradição, a essas criaturas, "anjos".
Que há então de irracional nisto?
Os anjos, seres dotados de intelecto e de vontade, têm liberdade, uma das propriedades que decorrem da vontade. Terão maior liberdade quanto mais perto estiverem da perfeição divina, pois Deus é sumamente livre. Entenda-se aqui que, apesar de ser necessária a liberdade para cometer o mal, essa mesma opção traz como consequência a escravidão do agente moral, pois o acto maligno é um passo que reduz a liberdade da criatura. Os anjos terão também maior perfeição moral e espiritual quanto mais pertos estiverem de Deus, pois só Deus é sumamente perfeito.
Que é, então, um demónio?
É um anjo que usa a sua vontade livre para desobedecer a Deus.
Que é, então, o Diabo?
É, do conjunto dos demónios, aquele que exerce a liderança e a predominância nessa desobediência a Deus.
Isto é irracional? De que forma?
Muitos ateus vivem presos a uma visão mitológica do cristianismo. Como raramente estudam o cristianismo, ou a teologia cristã, ou mesmo conceitos elementares de Filosofia, agem sobre conceitos distorcidos de cristianismo. Já dizia o Papa João Paulo I:
«Io sono stato molto vicino, come vescovo, anche a quelli che non credono in Dio. Mi son fatto l'idea che essi combattono, spesso, non Dio, ma l'idea sbagliata che essi hanno di Dio.» - Papa João Paulo I, Insegnamenti di Giovanni Paolo I, Libreria Editrice Vaticana, Roma, 1978, citado aqui.
Devem supor o Diabo como um qualquer animal mitológico. Não vêem o Diabo como um ser incorpóreo dotado de intelecto e de vontade livre. Nem sequer entendem que a existência de seres incorpóreos dotados de intelecto e de vontade livre é algo de filosoficamente racional. Mesmo sem entrar no terreno da Teologia, a questão é filosófica e é racional.
Outra coisa que raros ateus chegam a entender, porque simplesmente não procuram entender, é a relação entre Liberdade, por um lado, e Bem e Mal, por outro.
O Bem e o Mal só fazem sentido no contexto da Liberdade. Só quem é livre é capaz de fazer o Bem. Só quem é livre é capaz de fazer o Mal. A própria existência de algo a quem podemos chamar "Bem" ou "Mal" requer a existência de um ser necessário e perfeito, Deus, cuja vontade serve de normativa do "Bem", sendo que a desobediência a esta vontade constitui o "Mal" propriamente dito, como categoria de actos morais errados.
Uma pessoa que peca conscientemente, só o faz porque é livre. Associada a esta liberdade, está a inteligência. Apenas os seres dotados de razão são capazes de tomar decisões livres, ou seja, decisões com valor moral.
Na raiz do acto mau, está a liberdade do Homem. Dado que a própria ideia peregrina de desobedecer a Deus foi tida por uma criatura imaterial, antes de o Homem sequer existir, o Mal surgiu na Criação antes do Homem, e surgiu apenas graças à liberdade que Deus deu às primeiras criaturas inteligentes que criou.
Quando o Diabo, ou outro demónio, sugere, muitas vezes de forma imperceptível, a um ser humano a prática de um mal, essa sugestão é intelectual. O ser humano não ouvirá nada, não verá nada. Simplesmente, nesses casos, é sugestionado ao nível intelectual. Mas o Diabo não tem poder para forçar um ser humano a pecar. O ser humano que, sob sugestão maligna, comete o mal, está na realidade a colaborar com o Mal. Mas é uma colaboração livre. O ser humano continua "ao volante" da sua vontade, e será responsável pelos seus actos conscientes. A própria noção de pecado pressupõe consciência e liberdade na acção pecaminosa. Se alguém é forçado a cometer algo contra a sua vontade, não se pode falar em pecado cometido por essa pessoa.
Note-se que, nos actos humanos maus, nem todos serão influenciados ou motivados por espíritos malignos. Não se deve ir de um extremo (supor a inexistência, ou negar a influência destes seres) a outro (supor que todos os actos humanos malignos decorrem sob influência demoníaca).
Quando tento explicar o que é o Mal a um ateu, ou mesmo a um cristão que nega a existência do Diabo, recorro sempre ao filme 8 Milímetros.
O filme retrata a investigação conduzida por Tom Welles (Nicolas Cage), que a mando de uma viúva que encontrou, no legado do seu falecido marido, um horroroso filme (em película de 8mm) contendo cenas de violação e homicídio, procura os autores criminosos do referido filme. Na cena acima, Tom Welles seguiu a sua investigação até à casa do assassino, o "actor principal" do filme porno-homicida que a viúva lhe mostrou. Ele vai defrontar o assassino.
Na cena final, acima apresentada, o Mal, e o seu efeito no ser humano, estão bem retratados nas palavras da personagem pervertida e criminosa, o sinistro "The Machine", que no final do seu duelo com o investigador Tom Welles, revela-lhe porque razão ele viola e asssassina pessoas inocentes:
"There's no mystery. The things I do, I do them because I like them... because I want to!"
Não encontraria, facilmente, melhor exemplo da ligação profunda entre a prática do mal e a liberdade humana. Como esta história ficcional tão bem exemplifica, muitas vezes não há razões para o mal. Não é a existência do Diabo que é irracional, mas sim a prática do mal. Praticar o mal é irracional, mas é algo bem real, como todos sabemos.
Nesta cena cinematográfica notável, conseguiu-se mostrar a crueza do mal. O assassino parece-se com uma pessoa normal, vulgar, que veríamos na rua sem a temer, sem supormos que ele seria capaz dos actos que comete. Logo no início do excerto acima apresentado, vemos a mãe do assassino (porventura inocente dos crimes do filho) a entrar num autocarro de uma "Faithful Christian Fellowship". Já no final do excerto, durante a luta com Tom, e logo a seguir a retirar a máscara, diz o assassino ao estupefacto Tom: "What did you expect? A monster?". O detalhe magnífico da colocação atrapalhada de uns óculos "inofensivos" confere ao assassino umas aparentes fragilidade e inocência que parecem paradoxais.
Esta cena lembra-nos de que todos podemos praticar o mal, de que não estamos, de todo, imunes à prática do mal. Que a prática do mal, como acto que nasce do intelecto, pode não ter sinais externos facilmente detectáveis: não se julga a bondade ou maldade de uma pessoa pela sua aparência. Ao mesmo tempo, mostra-nos a gratuitidade do mal: o criminoso do filme, "The Machine", fez os crimes porque queria, e só por isso. Ele mesmo diz que não foi maltratado na infância, que não foi abusado sexualmente quando era menor:
"I wasn't beaten, I wasn't molested. Mommy didn't abuse me. Daddy never raped me."
Ele, numa penada, erradica as populares teses sociológicas (que remontam a Rousseau) que fazem do Homem um ser bom, mas que a sociedade por vezes perverte e transforma num ser mau. Este filme mostra o Mal na sua forma crua e bem real. O Mal, não como o produto de uma sociedade degenerada (que, obviamente, pode influenciar ou contextualizar certos actos malignos), mas sim como algo que nasce da liberdade de todo o ser humano.
Deste ponto de vista, há algo de genuinamente satânico, de demoníaco, no comportamento da personagem "The Machine". Não quero com isto dizer que será necessário um assassino deste calibre estar possuído pelo Diabo. Claro que pode estar, mas também pode não estar. Mesmo que não seja o caso de uma possessão demoníaca, a opção livre de um assassino cruel pela via do Mal é algo de genuinamente satânico e demoníaco, pois consiste, precisamente, em cometer o Mal pelo Mal em si mesmo. Pela supremacia da vontade livre sobre a vontade de Deus. Nestes casos, a vontade sobrepõe-se à Justiça, à Razão, à Verdade. A vontade é elevada a um estatuto primordial. A superação da dicotomia entre Bem e Mal, pelo triunfo da vontade humana, é o caminho proposto na modernidade por Nietzsche, mas trata-se do convite de sempre, do convite da serpente:
A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: "Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis"». A serpente retorquiu à mulher: «Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal»., Génesis 3, 1-5.
Até ao dia em que o Homem, pela primeira vez, agiu mal, o Homem não conhecia a distinção entre Bem e Mal. É interessante constatar que Adão e Eva não tinham especial interesse pelo fruto da Árvore do Bem e do Mal até que a serpente lhes prometeu vantagens. A serpente fez nascer em Adão e Eva a vontade de desobedecer a Deus para obterem proveito próprio (neste caso, a sabedoria prometida pela serpente). A serpente sabia bem o que fazia: o essencial não era, de todo, a maçã, ou outro fruto qualquer. O essencial era desobedecer a Deus. Porquê? Porque sim, porque para o Diabo, essa possibilidade é razão suficiente para motivar a transgressão.
Finalmente... porque razão quer Deus criaturas livres?
Porque razão deixou Deus que todas as coisas más acontecessem, e aconteçam?
Por causa do Amor. O amor só é tudo o que pode ser quando é exercido por criaturas livres. O Mal é, assim, um efeito indesejado por Deus, quando Este quer criar criaturas que O amem livremente, e sinceramente. A permissão da existência do Mal é um preço que Deus paga, e bem alto, em nome do Amor. Se Deus impedisse todo o Mal, e teria poder para isso, teria que eliminar, ou pelo menos mutilar seriamente, a liberdade das Suas criaturas.
O que o Ricardo critica, neste seu texto, é a alusão recente de Bento XVI a Satanás como estando na origem do mal, alusão nada surpreendente, dado que a crença na existência do Príncipe do Mal é essencial ao credo cristão. O Ricardo acha irracional, essa crença.
O que não está explicado, no texto do Ricardo, é o porquê. Porque é que o Ricardo acha irracional acreditar que o Diabo existe? Será que é porque ele não se vê? É porque se trata de uma hipótese cientificamente indemonstrável? Ora bolas, mas o princípio lógico da não-contradição também é algo que não se vê e que não se demonstra cientificamente, e no entanto, é bem real.
Onde é que está a irracionalidade?
Será que se apoia no materialismo ateu? Já se sabe que os ateus são, regra geral (não todos), materialistas, ou seja, postulam a inexistência de seres imateriais (obviamente, a energia aceitam-na como existente, mas matéria e energia são aspectos de uma mesma realidade material).
Mas dado que não se demonstra cientificamente a inexistência de seres imateriais, só restaria ao ateu demonstrar a irracionalidade da existência de seres imateriais. E é aí que todo o ateu falha, quer por não tentar essa demonstração, quer não ter sucesso quando a tenta fazer.
Na Suma Teológica, o "expert" de razão cristã, São Tomás de Aquino, trata da questão da existência de seres incorpóreos, ou seja, imaterais:
«É necessário admitirem-se certas criaturas incorpóreas. Pois, o que Deus principalmente visa, nas coisas criadas, é o bem, que consiste ao assemelhar-se com Ele. Ora, a perfeita assimilação do efeito com a causa se dá quando aquele imita a esta segundo a virtude pela qual a causa produz o efeito; assim o cálido produz o cálido. Ora, Deus produz a criatura pelo intelecto e pela vontade, como já ficou dito. Donde, para a perfeição do universo se requer existam algumas criaturas intelectuais. Inteligir, porém, não pode ser ato do corpo, nem de nenhuma virtude corpórea, porque todo corpo está situado no lugar e no tempo. Por onde, é necessário admitir-se, para que o universo seja perfeito, a existência de alguma criatura incorpórea. Mas os antigos, ignorando a virtude intelectiva e não distinguindo entre o sentido e o intelecto, opinaram que nada existe no mundo, fora o que pode ser apreendido pelos sentidos e pela imaginação. E como a imaginação só percebe o corpo, opinaram que nenhum ente, além do corpo, pode existir, como diz o Filósofo. Donde procedeu o erro dos Saduceus dizendo que não há espírito (At 23, 8). Mas o fato mesmo de ser o intelecto superior ao sentido prova racionalmente que há certos seres incorpóreos compreensíveis só por aquele.» - Artigo 1º, Questão 50 da Primeira Parte.
Que há de irracional nisto?
Trocado para linguagem moderna, São Tomás explica que o intelecto, também presente no Homem, não pode ter origem material. Filosoficamente, isso está bem demonstrado. É impossível, filosoficamente, explicar aspectos centrais do intelecto humano, como a capacidade de raciocinar, a capacidade de pensamento abstracto, ou ainda o livre arbítrio, se não se postular que o ser humano é um "composto" de matéria e de intelecto. No que diz respeito ao cérebro material, este é necessário para o inteligir do Homem (como via para processar a informação sensorial, e também como "banco de memória"), mas não seria suficiente para explicar o intelecto. O cérebro, sendo material, não chega para explicar todas as faculdades do intelecto humano, pelo que tem que existir algo de imaterial no ser humano para as explicar.
Assim, é fácil, pensando filosoficamente, chegar à conclusão de que há, no ser humano, um aspecto imaterial que está presente, pelo menos, no seu intelecto. São Tomás, partindo do conceito cristão de Deus, faz o raciocínio certo: se Deus, puro e perfeito intelecto, cria as criaturas pelo Seu intelecto e vontade, então, na criação de algumas das criaturas poderá haver uma perfeita ligação entre causa e efeito, sendo que esse efeito (a criação das criaturas mais perfeitas), terá que ter algo semelhante à causa. É assim racional pensar que existirão criaturas dotadas de intelecto e de vontade, que dessa forma espelhem o intelecto e a vontade de Deus. O ser humano é uma dessas criaturas. Adicionalmente, tem na sua existência a componente corpórea. Mas porque não existiriam criaturas de intelecto e de vontade, mas sem a componente corpórea? Chama a tradição, a essas criaturas, "anjos".
Que há então de irracional nisto?
Os anjos, seres dotados de intelecto e de vontade, têm liberdade, uma das propriedades que decorrem da vontade. Terão maior liberdade quanto mais perto estiverem da perfeição divina, pois Deus é sumamente livre. Entenda-se aqui que, apesar de ser necessária a liberdade para cometer o mal, essa mesma opção traz como consequência a escravidão do agente moral, pois o acto maligno é um passo que reduz a liberdade da criatura. Os anjos terão também maior perfeição moral e espiritual quanto mais pertos estiverem de Deus, pois só Deus é sumamente perfeito.
Que é, então, um demónio?
É um anjo que usa a sua vontade livre para desobedecer a Deus.
Que é, então, o Diabo?
É, do conjunto dos demónios, aquele que exerce a liderança e a predominância nessa desobediência a Deus.
Isto é irracional? De que forma?
Muitos ateus vivem presos a uma visão mitológica do cristianismo. Como raramente estudam o cristianismo, ou a teologia cristã, ou mesmo conceitos elementares de Filosofia, agem sobre conceitos distorcidos de cristianismo. Já dizia o Papa João Paulo I:
«Io sono stato molto vicino, come vescovo, anche a quelli che non credono in Dio. Mi son fatto l'idea che essi combattono, spesso, non Dio, ma l'idea sbagliata che essi hanno di Dio.» - Papa João Paulo I, Insegnamenti di Giovanni Paolo I, Libreria Editrice Vaticana, Roma, 1978, citado aqui.
Devem supor o Diabo como um qualquer animal mitológico. Não vêem o Diabo como um ser incorpóreo dotado de intelecto e de vontade livre. Nem sequer entendem que a existência de seres incorpóreos dotados de intelecto e de vontade livre é algo de filosoficamente racional. Mesmo sem entrar no terreno da Teologia, a questão é filosófica e é racional.
Outra coisa que raros ateus chegam a entender, porque simplesmente não procuram entender, é a relação entre Liberdade, por um lado, e Bem e Mal, por outro.
O Bem e o Mal só fazem sentido no contexto da Liberdade. Só quem é livre é capaz de fazer o Bem. Só quem é livre é capaz de fazer o Mal. A própria existência de algo a quem podemos chamar "Bem" ou "Mal" requer a existência de um ser necessário e perfeito, Deus, cuja vontade serve de normativa do "Bem", sendo que a desobediência a esta vontade constitui o "Mal" propriamente dito, como categoria de actos morais errados.
Uma pessoa que peca conscientemente, só o faz porque é livre. Associada a esta liberdade, está a inteligência. Apenas os seres dotados de razão são capazes de tomar decisões livres, ou seja, decisões com valor moral.
Na raiz do acto mau, está a liberdade do Homem. Dado que a própria ideia peregrina de desobedecer a Deus foi tida por uma criatura imaterial, antes de o Homem sequer existir, o Mal surgiu na Criação antes do Homem, e surgiu apenas graças à liberdade que Deus deu às primeiras criaturas inteligentes que criou.
Quando o Diabo, ou outro demónio, sugere, muitas vezes de forma imperceptível, a um ser humano a prática de um mal, essa sugestão é intelectual. O ser humano não ouvirá nada, não verá nada. Simplesmente, nesses casos, é sugestionado ao nível intelectual. Mas o Diabo não tem poder para forçar um ser humano a pecar. O ser humano que, sob sugestão maligna, comete o mal, está na realidade a colaborar com o Mal. Mas é uma colaboração livre. O ser humano continua "ao volante" da sua vontade, e será responsável pelos seus actos conscientes. A própria noção de pecado pressupõe consciência e liberdade na acção pecaminosa. Se alguém é forçado a cometer algo contra a sua vontade, não se pode falar em pecado cometido por essa pessoa.
Note-se que, nos actos humanos maus, nem todos serão influenciados ou motivados por espíritos malignos. Não se deve ir de um extremo (supor a inexistência, ou negar a influência destes seres) a outro (supor que todos os actos humanos malignos decorrem sob influência demoníaca).
Quando tento explicar o que é o Mal a um ateu, ou mesmo a um cristão que nega a existência do Diabo, recorro sempre ao filme 8 Milímetros.
O filme retrata a investigação conduzida por Tom Welles (Nicolas Cage), que a mando de uma viúva que encontrou, no legado do seu falecido marido, um horroroso filme (em película de 8mm) contendo cenas de violação e homicídio, procura os autores criminosos do referido filme. Na cena acima, Tom Welles seguiu a sua investigação até à casa do assassino, o "actor principal" do filme porno-homicida que a viúva lhe mostrou. Ele vai defrontar o assassino.
Na cena final, acima apresentada, o Mal, e o seu efeito no ser humano, estão bem retratados nas palavras da personagem pervertida e criminosa, o sinistro "The Machine", que no final do seu duelo com o investigador Tom Welles, revela-lhe porque razão ele viola e asssassina pessoas inocentes:
"There's no mystery. The things I do, I do them because I like them... because I want to!"
Não encontraria, facilmente, melhor exemplo da ligação profunda entre a prática do mal e a liberdade humana. Como esta história ficcional tão bem exemplifica, muitas vezes não há razões para o mal. Não é a existência do Diabo que é irracional, mas sim a prática do mal. Praticar o mal é irracional, mas é algo bem real, como todos sabemos.
Nesta cena cinematográfica notável, conseguiu-se mostrar a crueza do mal. O assassino parece-se com uma pessoa normal, vulgar, que veríamos na rua sem a temer, sem supormos que ele seria capaz dos actos que comete. Logo no início do excerto acima apresentado, vemos a mãe do assassino (porventura inocente dos crimes do filho) a entrar num autocarro de uma "Faithful Christian Fellowship". Já no final do excerto, durante a luta com Tom, e logo a seguir a retirar a máscara, diz o assassino ao estupefacto Tom: "What did you expect? A monster?". O detalhe magnífico da colocação atrapalhada de uns óculos "inofensivos" confere ao assassino umas aparentes fragilidade e inocência que parecem paradoxais.
Esta cena lembra-nos de que todos podemos praticar o mal, de que não estamos, de todo, imunes à prática do mal. Que a prática do mal, como acto que nasce do intelecto, pode não ter sinais externos facilmente detectáveis: não se julga a bondade ou maldade de uma pessoa pela sua aparência. Ao mesmo tempo, mostra-nos a gratuitidade do mal: o criminoso do filme, "The Machine", fez os crimes porque queria, e só por isso. Ele mesmo diz que não foi maltratado na infância, que não foi abusado sexualmente quando era menor:
"I wasn't beaten, I wasn't molested. Mommy didn't abuse me. Daddy never raped me."
Ele, numa penada, erradica as populares teses sociológicas (que remontam a Rousseau) que fazem do Homem um ser bom, mas que a sociedade por vezes perverte e transforma num ser mau. Este filme mostra o Mal na sua forma crua e bem real. O Mal, não como o produto de uma sociedade degenerada (que, obviamente, pode influenciar ou contextualizar certos actos malignos), mas sim como algo que nasce da liberdade de todo o ser humano.
Deste ponto de vista, há algo de genuinamente satânico, de demoníaco, no comportamento da personagem "The Machine". Não quero com isto dizer que será necessário um assassino deste calibre estar possuído pelo Diabo. Claro que pode estar, mas também pode não estar. Mesmo que não seja o caso de uma possessão demoníaca, a opção livre de um assassino cruel pela via do Mal é algo de genuinamente satânico e demoníaco, pois consiste, precisamente, em cometer o Mal pelo Mal em si mesmo. Pela supremacia da vontade livre sobre a vontade de Deus. Nestes casos, a vontade sobrepõe-se à Justiça, à Razão, à Verdade. A vontade é elevada a um estatuto primordial. A superação da dicotomia entre Bem e Mal, pelo triunfo da vontade humana, é o caminho proposto na modernidade por Nietzsche, mas trata-se do convite de sempre, do convite da serpente:
A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: "Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis"». A serpente retorquiu à mulher: «Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal»., Génesis 3, 1-5.
Até ao dia em que o Homem, pela primeira vez, agiu mal, o Homem não conhecia a distinção entre Bem e Mal. É interessante constatar que Adão e Eva não tinham especial interesse pelo fruto da Árvore do Bem e do Mal até que a serpente lhes prometeu vantagens. A serpente fez nascer em Adão e Eva a vontade de desobedecer a Deus para obterem proveito próprio (neste caso, a sabedoria prometida pela serpente). A serpente sabia bem o que fazia: o essencial não era, de todo, a maçã, ou outro fruto qualquer. O essencial era desobedecer a Deus. Porquê? Porque sim, porque para o Diabo, essa possibilidade é razão suficiente para motivar a transgressão.
Finalmente... porque razão quer Deus criaturas livres?
Porque razão deixou Deus que todas as coisas más acontecessem, e aconteçam?
Por causa do Amor. O amor só é tudo o que pode ser quando é exercido por criaturas livres. O Mal é, assim, um efeito indesejado por Deus, quando Este quer criar criaturas que O amem livremente, e sinceramente. A permissão da existência do Mal é um preço que Deus paga, e bem alto, em nome do Amor. Se Deus impedisse todo o Mal, e teria poder para isso, teria que eliminar, ou pelo menos mutilar seriamente, a liberdade das Suas criaturas.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Os exegetas amigos do Diabo
O padre Anselmo Borges diz-nos que o Diabo não está no Credo.
Só este título já é um sintoma. Um sintoma de que Anselmo Borges julga que a última instância em matéria de doutrina é o Credo. Ora nenhum católico diz semelhante asneira. A última instância em matéria de doutrina é o Magistério.
O Diabo pode não estar no Credo, mas está no Pai Nosso, a oração que Nosso Senhor nos ensinou, e que termina assim: "Mas livrai-nos do Mal". A oração do Pai Nosso surge no Evangelho de São Mateus. Segundo a tradição, este evangelho foi escrito inicialmente em aramaico, o chamado "Evangelho dos Hebreus", um documento que não deixou rasto. O texto de Mateus chega-nos ao presente em grego, e no texto grego de Mateus 6, vs. 9-13 temos a oração do Pai Nosso, que termina assim: "ἀπὸ τοῦ πονηροῦ" (literalmente, "de o Mal", ou "do Mal").
De forma consistente, a Vulgata traduziu a petição final para "sed libera nos a Malo". A tradição cristã sempre interpretou esta petição do Pai Nosso como sendo, ao mesmo tempo, uma petição pela libertação dos males que afligem e tentam o Homem, mas também uma petição pela libertação do Maligno, ou seja, do Diabo.
Diz Anselmo Borges, referindo-se ao exorcista espanhol, Padre Fortea, que veio recentemente a Portugal falar sobre a edição da sua valiosa "Summa Daemonologica":
«Para ele, os demónios são "seres espirituais de natureza angélica condenados eternamente"»
Anselmo Borges insere a fatal expressão "para ele", como se o Padre Fortea estivesse, nesta citação, a emitir uma opinião pessoal. Ao que parece, também é a "opinião" de Joseph Ratzinger, quando este liderava a Congregação para a Doutrina da Fé, o órgão máximo, logo a seguir ao Papa, em matéria de doutrina e de moral:
«3. Por fim, pelas mesmas razões, os srs. Bispos são solicitados a que vigiem para que - mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica - pessoas não devidamente autorizadas não orientem reuniões nas quais se façam orações para obter a expulsão do demônio, orações que diretamente interpelem os demônios ou manifestem o anseio de conhecer a identidade dos mesmos.
A formulação destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis de rezar para que, como Jesus nos ensinou, sejam livres do mal (cf. Mt 6,13). Além disso, os Pastores poderão valer-se desta oportunidade para lembrar o que a Tradição da Igreja ensina a rrespeito da função própria dos Sacramentos e a propósito da intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos na luta espiritual dos cristãos contra os espíritos malignos.»
Ratzinger assina esta Instrução sobre o exorcismo, de 24 de Setembro de 1985, na qualidade de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Terá Ratzinger perdido o juízo para falar desta maneira desse Diabo que, segundo Anselmo Borges, é apenas simbólico?
Anselmo Borges, que já nos tem habituado às suas posições heréticas, cita o Padre Carreira das Neves, que por sua vez, "massacra" o Padre Fortea, cujas únicas culpas parecem ser as da sua fidelidade a Cristo e ao Magistério (que são dois tipos equivalentes de fidelidade), e a do auxílio valioso que o Padre Fortea presta enquanto exorcista. Mas para o Padre Carreira das Neves, o "pecado" do Padre Fortea é este:
«Quem não poupou críticas foi o eminente exegeta padre J. Carreira da Neves, apresentador do livro, confessando mesmo a António Marujo: "Se tivesse lido o livro antes de aceitar o convite, não o teria feito." "A fundamentação bíblica é fortuita, muito pobre, até porque o autor não é exegeta."»
Ora cá esta: o Padre Fortea não é exegeta. Logo, os cristãos têm que deixar de seguir o Magistério da Igreja, pois em matéria de Bíblia, quem tem autoridade para ensinar é o exegeta! Grande treta, Padre Carreira das Neves! Eis o que diz o Catecismo sobre a Queda:
«391. Por detrás da opção de desobediência dos nossos primeiros pais, há uma voz sedutora, oposta a Deus (266), a qual, por inveja, os faz cair na morte (267). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo (268). Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali – De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus» (269).» - Catecismo da Igreja Católica, Primeira Parte, Segunda Secção, Capítulo Primeiro.
Com a sua escrita redondinha, o Padre Anselmo Borges julga poder esquivar-se à justificação das suas afirmações. A primeira pergunta que qualquer católico lhe deve fazer, a ele e ao Padre Carreira das Neves, "eminente exegeta", é a incómoda pergunta do homem e da mulher comuns: "Então e o Catecismo? Estará errado?". Ou outra pergunta incómoda: "E o Santo Padre? Não acredita ele na realidade do Diabo?". E outras perguntas incómodas: "E então porque é que todos os Padres da Igreja, desde os primórdios, acreditam e defendem a existência do Diabo?". Será por não serem "eminentes exegetas"?
Mas Anselmo Borges puxa de mais uma "arma" supostamente académica:
«Já na década de 60 do século passado, um dos maiores exegetas católicos, professor da Universidade de Tubinga, Herbert Haag, escreveu uma obra justamente célebre Abscied vom Teufel (Adeus ao diabo), mostrando que não há qualquer fundamento para a crença no demónio.»
Para além do fascínio pelos superlativos elogiosos ("um dos maiores exegetas católicos"), que vincam insistentemente a ideia de que só é grande exegeta e grande teólogo aquele que rejeita a tradição cristã, o que choca é a aparente contradição, que Anselmo Borges não resolve: Ratzinger andou por Tubinga! Não terá lido ele a magnífica obra de Haag? Não terá o actual Papa compreendido a refutação definitiva do eminente Haag? Ah, é que se calhar o actual Papa não é exegeta... Nem Paulo VI, que referiu o Diabo de forma eloquente, nem João Paulo II, que fez exorcismos, nem todos os Papas da História da Igreja... Não eram exegetas!
«Por que é que Deus não acabou com o diabo?»
É a dúvida do Padre Anselmo Borges. Este tipo de dúvidas infantis são inexplicáveis. Não saberá Anselmo Borges que Deus não destrói criaturas? Que Deus não destrói a liberdade da criatura? Que Deus permite ao Diabo que este faça o mal para que Deus possa ser coerente com o seu desejo de criar criaturas livres?
Isto é teologia básica. E o livro do Padre Fortea, ainda por cima escrito sob a forma de perguntas e respostas, dá precisamente resposta às dúvidas do Padre Anselmo Borges.
E permitam-me mais uma estupefacção. Terá Anselmo Borges lido o livro do Padre Fortea? Não era mais justo e mais honesto citar o dito do livro e procurar refutá-lo? Se as respostas do Padre Fortea, que recorde-se, não é um exegeta, estão supostamente erradas, porque não as tenta refutar o académico Anselmo Borges? Porque não refuta o eminente Padre Carreira das Neves a obra desse pobre exorcista não exegeta que é o Padre Fortea?
«E há uma outra pergunta: Quem tentou os anjos, para que eles, de bons, se transformassem em demónios? Colocar o diabo ao lado de Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, é uma contradição. O diabo não explica nada. O mal é inevitável por causa da finitude.»
Os anjos seguiram o mal porque foram livres de o fazer. O mal nasce da liberdade.
O que quererá dizer Anselmo Borges com a expressão "o mal não é inevitável por causa da finitude"? Que raio quer isso dizer?
Anselmo Borges é que não explica nada. A doutrina cristã diz que o mal resulta da acção livre de certos anjos que se rebelaram contra Deus. Não há ponta de dualismo maniqueu, e Anselmo Borges sabe bem a diferença, mas brinca com os seus leitores menos instruídos. No dualismo maniqueu, há dois princípios divinos, o Bem e o Mal. No cristianismo, Satã é uma criatura, finita e não divina. Onde está o maniqueísmo?
A explicação cristã para o surgimento do Mal sempre foi a mesma: a Queda de Satanás. O Pecado Original. A Queda do Homem. Esta explicação também é boa para explicar porque incarnou Deus em Jesus Cristo. Sem Queda, a Incarnação não faz sentido.
«É verdade que nos Evangelhos Jesus aparece a expulsar os demónios», diz Anselmo Borges.
Ah, pois é!
«Certamente participou da crença do seu tempo, que atribuía as doenças ao demónio.»
Um teólogo que se diz católico e que abandonou a crença na divindade de Cristo é uma coisa deplorável. É de se bradar aos céus! Então Cristo, Deus, Filho de Deus, engana-se no diagnóstico? Cristo engana-se, tentando exorcisar pessoas que estavam apenas psiquicamente doentes?
Depois, há a falácia: e uma pessoa não pode estar, ao mesmo tempo, possessa, ou sob influência demoníaca, e também a padecer de uma doença psicológica? Porque razão será que Anselmo Borges não respeita as regras da argumentação?
«Hoje sabemos que se tratava de pessoas com ataques epilépticos ou sofrendo de histeria, de doenças do foro psiquiátrico.»
Sabemos, sabemos. Olhámos para o passado, com a nossa máquina do tempo, e vimos. É que nós somos "exegetas modernos". Só não somos é cristãos, mas somos "exegetas modernos".
«E não se pode esquecer a linguagem simbólica.»
Anátema para aquele que se esquecer da linguagem simbólica!
Contra tudo e contra todos, Anselmo Borges proclama o impossível: «O diabo não faz parte do Credo cristão». Espantoso! Ele está a lutar contra toda a tradição cristã. Não seria mais fácil abandonar a tradição cristã de vez?
«O diabo não pode ser apresentado como concorrente de Deus, uma espécie de Anti-Deus, nem faz sentido pensar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas. Não há possessos demoníacos, mas apenas doenças e doentes de muitas espécies, que é preciso ajudar.»
Mas será que ele leu os testemunhos de exorcistas como Fortea ou Amorth? Serão mentirosos, esses exorcistas?
Padre Anselmo Borges: os seus textos, salvo rara excepção, são exercícios perversos de destruição da ortodoxia cristã. Perversão involuntária? Quem sou eu para julgar os seus motivos: se calhar, escreve os erros que escreve com a melhor das intenções, mas permita-me: de boas intenções está o Inferno cheio, esse Inferno que o senhor julga ser também ele figurativo.
Os seus textos confundem os fiéis, são actos de desafio ao Magistério, são actos de insensata rebelião intelectual, são actos de desobediência, e finalmente, talvez o que mais me aflija, são actos irracionais, pois as suas posições não tem qualquer consistência intelectual. Um cristão incoerente já está errado, pois a incoerência é sinal infalível de erro. Se o que é coerente pode ser ou não verdadeiro (a coerência é condição necessária para a verdade), já o que é incoerente é sempre falso (a incoerência é condição suficiente para a falsidade).
Explique, por favor, a mim que sou simples crente, e que não tenho a sorte de ser bafejado pela gnose do exegeta, porque é que a Igreja me tem ensinado tudo mal? Tenho sido enganado pela Igreja? Não disse Cristo que a Igreja não sucumbiria? Cristo enganou-se? Outra vez? Ah, é que Cristo não é... exegeta!
Só este título já é um sintoma. Um sintoma de que Anselmo Borges julga que a última instância em matéria de doutrina é o Credo. Ora nenhum católico diz semelhante asneira. A última instância em matéria de doutrina é o Magistério.
O Diabo pode não estar no Credo, mas está no Pai Nosso, a oração que Nosso Senhor nos ensinou, e que termina assim: "Mas livrai-nos do Mal". A oração do Pai Nosso surge no Evangelho de São Mateus. Segundo a tradição, este evangelho foi escrito inicialmente em aramaico, o chamado "Evangelho dos Hebreus", um documento que não deixou rasto. O texto de Mateus chega-nos ao presente em grego, e no texto grego de Mateus 6, vs. 9-13 temos a oração do Pai Nosso, que termina assim: "ἀπὸ τοῦ πονηροῦ" (literalmente, "de o Mal", ou "do Mal").
De forma consistente, a Vulgata traduziu a petição final para "sed libera nos a Malo". A tradição cristã sempre interpretou esta petição do Pai Nosso como sendo, ao mesmo tempo, uma petição pela libertação dos males que afligem e tentam o Homem, mas também uma petição pela libertação do Maligno, ou seja, do Diabo.
Diz Anselmo Borges, referindo-se ao exorcista espanhol, Padre Fortea, que veio recentemente a Portugal falar sobre a edição da sua valiosa "Summa Daemonologica":
«Para ele, os demónios são "seres espirituais de natureza angélica condenados eternamente"»
Anselmo Borges insere a fatal expressão "para ele", como se o Padre Fortea estivesse, nesta citação, a emitir uma opinião pessoal. Ao que parece, também é a "opinião" de Joseph Ratzinger, quando este liderava a Congregação para a Doutrina da Fé, o órgão máximo, logo a seguir ao Papa, em matéria de doutrina e de moral:
«3. Por fim, pelas mesmas razões, os srs. Bispos são solicitados a que vigiem para que - mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica - pessoas não devidamente autorizadas não orientem reuniões nas quais se façam orações para obter a expulsão do demônio, orações que diretamente interpelem os demônios ou manifestem o anseio de conhecer a identidade dos mesmos.
A formulação destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis de rezar para que, como Jesus nos ensinou, sejam livres do mal (cf. Mt 6,13). Além disso, os Pastores poderão valer-se desta oportunidade para lembrar o que a Tradição da Igreja ensina a rrespeito da função própria dos Sacramentos e a propósito da intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos na luta espiritual dos cristãos contra os espíritos malignos.»
Ratzinger assina esta Instrução sobre o exorcismo, de 24 de Setembro de 1985, na qualidade de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Terá Ratzinger perdido o juízo para falar desta maneira desse Diabo que, segundo Anselmo Borges, é apenas simbólico?
Anselmo Borges, que já nos tem habituado às suas posições heréticas, cita o Padre Carreira das Neves, que por sua vez, "massacra" o Padre Fortea, cujas únicas culpas parecem ser as da sua fidelidade a Cristo e ao Magistério (que são dois tipos equivalentes de fidelidade), e a do auxílio valioso que o Padre Fortea presta enquanto exorcista. Mas para o Padre Carreira das Neves, o "pecado" do Padre Fortea é este:
«Quem não poupou críticas foi o eminente exegeta padre J. Carreira da Neves, apresentador do livro, confessando mesmo a António Marujo: "Se tivesse lido o livro antes de aceitar o convite, não o teria feito." "A fundamentação bíblica é fortuita, muito pobre, até porque o autor não é exegeta."»
Ora cá esta: o Padre Fortea não é exegeta. Logo, os cristãos têm que deixar de seguir o Magistério da Igreja, pois em matéria de Bíblia, quem tem autoridade para ensinar é o exegeta! Grande treta, Padre Carreira das Neves! Eis o que diz o Catecismo sobre a Queda:
«391. Por detrás da opção de desobediência dos nossos primeiros pais, há uma voz sedutora, oposta a Deus (266), a qual, por inveja, os faz cair na morte (267). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo (268). Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali – De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus» (269).» - Catecismo da Igreja Católica, Primeira Parte, Segunda Secção, Capítulo Primeiro.
Com a sua escrita redondinha, o Padre Anselmo Borges julga poder esquivar-se à justificação das suas afirmações. A primeira pergunta que qualquer católico lhe deve fazer, a ele e ao Padre Carreira das Neves, "eminente exegeta", é a incómoda pergunta do homem e da mulher comuns: "Então e o Catecismo? Estará errado?". Ou outra pergunta incómoda: "E o Santo Padre? Não acredita ele na realidade do Diabo?". E outras perguntas incómodas: "E então porque é que todos os Padres da Igreja, desde os primórdios, acreditam e defendem a existência do Diabo?". Será por não serem "eminentes exegetas"?
Mas Anselmo Borges puxa de mais uma "arma" supostamente académica:
«Já na década de 60 do século passado, um dos maiores exegetas católicos, professor da Universidade de Tubinga, Herbert Haag, escreveu uma obra justamente célebre Abscied vom Teufel (Adeus ao diabo), mostrando que não há qualquer fundamento para a crença no demónio.»
Para além do fascínio pelos superlativos elogiosos ("um dos maiores exegetas católicos"), que vincam insistentemente a ideia de que só é grande exegeta e grande teólogo aquele que rejeita a tradição cristã, o que choca é a aparente contradição, que Anselmo Borges não resolve: Ratzinger andou por Tubinga! Não terá lido ele a magnífica obra de Haag? Não terá o actual Papa compreendido a refutação definitiva do eminente Haag? Ah, é que se calhar o actual Papa não é exegeta... Nem Paulo VI, que referiu o Diabo de forma eloquente, nem João Paulo II, que fez exorcismos, nem todos os Papas da História da Igreja... Não eram exegetas!
«Por que é que Deus não acabou com o diabo?»
É a dúvida do Padre Anselmo Borges. Este tipo de dúvidas infantis são inexplicáveis. Não saberá Anselmo Borges que Deus não destrói criaturas? Que Deus não destrói a liberdade da criatura? Que Deus permite ao Diabo que este faça o mal para que Deus possa ser coerente com o seu desejo de criar criaturas livres?
Isto é teologia básica. E o livro do Padre Fortea, ainda por cima escrito sob a forma de perguntas e respostas, dá precisamente resposta às dúvidas do Padre Anselmo Borges.
E permitam-me mais uma estupefacção. Terá Anselmo Borges lido o livro do Padre Fortea? Não era mais justo e mais honesto citar o dito do livro e procurar refutá-lo? Se as respostas do Padre Fortea, que recorde-se, não é um exegeta, estão supostamente erradas, porque não as tenta refutar o académico Anselmo Borges? Porque não refuta o eminente Padre Carreira das Neves a obra desse pobre exorcista não exegeta que é o Padre Fortea?
«E há uma outra pergunta: Quem tentou os anjos, para que eles, de bons, se transformassem em demónios? Colocar o diabo ao lado de Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, é uma contradição. O diabo não explica nada. O mal é inevitável por causa da finitude.»
Os anjos seguiram o mal porque foram livres de o fazer. O mal nasce da liberdade.
O que quererá dizer Anselmo Borges com a expressão "o mal não é inevitável por causa da finitude"? Que raio quer isso dizer?
Anselmo Borges é que não explica nada. A doutrina cristã diz que o mal resulta da acção livre de certos anjos que se rebelaram contra Deus. Não há ponta de dualismo maniqueu, e Anselmo Borges sabe bem a diferença, mas brinca com os seus leitores menos instruídos. No dualismo maniqueu, há dois princípios divinos, o Bem e o Mal. No cristianismo, Satã é uma criatura, finita e não divina. Onde está o maniqueísmo?
A explicação cristã para o surgimento do Mal sempre foi a mesma: a Queda de Satanás. O Pecado Original. A Queda do Homem. Esta explicação também é boa para explicar porque incarnou Deus em Jesus Cristo. Sem Queda, a Incarnação não faz sentido.
«É verdade que nos Evangelhos Jesus aparece a expulsar os demónios», diz Anselmo Borges.
Ah, pois é!
«Certamente participou da crença do seu tempo, que atribuía as doenças ao demónio.»
Um teólogo que se diz católico e que abandonou a crença na divindade de Cristo é uma coisa deplorável. É de se bradar aos céus! Então Cristo, Deus, Filho de Deus, engana-se no diagnóstico? Cristo engana-se, tentando exorcisar pessoas que estavam apenas psiquicamente doentes?
Depois, há a falácia: e uma pessoa não pode estar, ao mesmo tempo, possessa, ou sob influência demoníaca, e também a padecer de uma doença psicológica? Porque razão será que Anselmo Borges não respeita as regras da argumentação?
«Hoje sabemos que se tratava de pessoas com ataques epilépticos ou sofrendo de histeria, de doenças do foro psiquiátrico.»
Sabemos, sabemos. Olhámos para o passado, com a nossa máquina do tempo, e vimos. É que nós somos "exegetas modernos". Só não somos é cristãos, mas somos "exegetas modernos".
«E não se pode esquecer a linguagem simbólica.»
Anátema para aquele que se esquecer da linguagem simbólica!
Contra tudo e contra todos, Anselmo Borges proclama o impossível: «O diabo não faz parte do Credo cristão». Espantoso! Ele está a lutar contra toda a tradição cristã. Não seria mais fácil abandonar a tradição cristã de vez?
«O diabo não pode ser apresentado como concorrente de Deus, uma espécie de Anti-Deus, nem faz sentido pensar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas. Não há possessos demoníacos, mas apenas doenças e doentes de muitas espécies, que é preciso ajudar.»
Mas será que ele leu os testemunhos de exorcistas como Fortea ou Amorth? Serão mentirosos, esses exorcistas?
Padre Anselmo Borges: os seus textos, salvo rara excepção, são exercícios perversos de destruição da ortodoxia cristã. Perversão involuntária? Quem sou eu para julgar os seus motivos: se calhar, escreve os erros que escreve com a melhor das intenções, mas permita-me: de boas intenções está o Inferno cheio, esse Inferno que o senhor julga ser também ele figurativo.
Os seus textos confundem os fiéis, são actos de desafio ao Magistério, são actos de insensata rebelião intelectual, são actos de desobediência, e finalmente, talvez o que mais me aflija, são actos irracionais, pois as suas posições não tem qualquer consistência intelectual. Um cristão incoerente já está errado, pois a incoerência é sinal infalível de erro. Se o que é coerente pode ser ou não verdadeiro (a coerência é condição necessária para a verdade), já o que é incoerente é sempre falso (a incoerência é condição suficiente para a falsidade).
Explique, por favor, a mim que sou simples crente, e que não tenho a sorte de ser bafejado pela gnose do exegeta, porque é que a Igreja me tem ensinado tudo mal? Tenho sido enganado pela Igreja? Não disse Cristo que a Igreja não sucumbiria? Cristo enganou-se? Outra vez? Ah, é que Cristo não é... exegeta!
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Desconfiados do Diabo
Os meus últimos textos sobre o Diabo e sobre os fenómenos demoníacos atraíram a atenção do Ludwig, que dedicou um “post” à questão.
Antes de irmos a esse “post”, uma curta introdução: escrevi esses textos sobre o Diabo, pelas mesmas razões que escrevi outros dedicados ao mesmo tema, e que se encontram no passado deste blogue, sob a etiqueta "Diabo".
Os textos destinam-se a cristãos (mas gosto sempre de ser lido por não cristãos), e as razões são simples: recordar aos cristãos do meu tempo a importância destes aspectos da doutrina, e se o faço é porque me parece importante frisar que eles nunca foram abandonados: há quem pense que sim! O Magistério da Igreja Católica nunca, em momento algum, abandonou a doutrina acerca dos anjos e dos demónios, e em particular, a existência real do Diabo e a sua influência na Criação, e mais especificamente na vida humana, desde o Pecado Original até aos nossos dias (veja-se, como exemplo recente do Magistério, datando de 1985, a instrução sobre o Exorcismo, da Congregação para a Doutrina da Fé). Jesus Cristo menciona o Diabo várias vezes, e a dada altura é mesmo tentado pelo dito. Cristo pratica exorcismos vários. Na oração que Ele ensina aos seus discípulos, o Pai Nosso, a última petição diz assim: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal”. Nunca esta última palavra “Mal” foi interpretada com sendo alegórica ou figurativa. No tempo de Jesus, ninguém duvidaria de que a expressão final era para interpretar como sinónima de “… mas livrai-nos do Maligno”.
Então porquê recordar o que todo o cristão deveria conhecer? É que o materialismo, uma das mais atraentes modas filosóficas contemporâneas, é como a água mole, e faz furos até em pedra dura. Essa doutrina filosófica, mesmo desprovida de fundamento racional, tem vindo a corroer a visão cristã do Mundo. Não são só os não crentes que aderem a ela. Hoje em dia, inúmeros cristãos, alguns mesmo sacerdotes, estão sob o jugo do erro materialista e aderiram à visão redutora que essa filosofia implica. Desse modo, surgem, no nosso tempo, e pela primeira vez na História da Igreja, cristãos que interpretam o Diabo metaforicamente e que não acreditam na realidade dos fenómenos demoníacos!
É então por estas razões que tenho vindo a recordar estes aspectos da doutrina católica. Há quem diga que a crença na existência do Diabo e nos fenómenos demoníacos nos faz parecer ridículos aos olhos do Mundo, e que somos gozados por isso. Ora essa afirmação é espantosa: que outra coisa é o cristianismo senão algo que nos faz parecer ridículos aos olhos do Mundo? Dar a outra face? Amar o inimigo? Morrer pelo outro? Um Deus que Se fez Homem e que Se deixou morrer na cruz para resgatar os pecados da Humanidade? Ao pé destas ideias loucas e radicais, convenhamos que a da existência do Diabo é coisinha pouca.
Tenho sincera pena de todo o cristão que não acredita no Diabo por recear ser gozado pelo Mundo. Provavelmente, esse cristão não acredita no Diabo porque a sua fé se deteriorou e adquiriu um sabor materialista, e o receio do ridículo é só algo que se acrescenta ao materialismo. Já o cristão que entende e vê a doutrina cristã como um todo, quando confrontado com a incompreensão e com a sátira de quem não partilha da mesma fé, que pode fazer? Quando se sabe que algo é verdadeiro, e se é alvo da chacota de quem ainda não chegou lá, que fazer? Podemos encolher os ombros e não fazer nada (atitude pouco cristã), ou então insistir na pertinência e na verdade da doutrina que defendemos.
Mas insisto que é pura tontice um cristão temer contrariar a opinião dos não cristãos. Se teme isso, então está na religião errada, e encontra no imenso espectro das religiões do Mundo uma série de doutrinas que são muito mais “religiosamente correctas” para a ortodoxia contemporânea. No imenso supermercado das multiformes crenças, há toda uma panóplia de tretas de aspecto moderno como a Meditação Transcendental, o Teosofismo, a Cientologia, ou mesmo a mixórdia de meditação e física quântica do Deepak Chopra. Até se pode criar uma fé pessoal que seja um “mix” de várias doutrinas heteróclitas! Monta-se uma fé ao gosto do freguês, e nada melhor para receber os louvores dos nossos pares, e para estarmos alinhados com as telenovelas, as revistas “light” e os romances de Verão.
No entanto, é claro que o cristão sério não quer nada disto, e encara o seu cristianismo como uma doutrina coerente e perfeitamente adequada à realidade, ou seja, verdadeira.
Terminada esta introdução, regressemos ao Ludwig…
Olhando para o “post” do Ludwig, não é fácil encontrar uma metodologia. Claro que o Ludwig pode ter, simplesmente, desabafado por escrito acerca desta questão, sem preocupações rigoristas ou metodológicas. Tem todo o direito. Mas se o “post” dele não apresenta argumentos substanciais contra a existência do Diabo, enquanto que faz críticas rasteirinhas aos argumentos da outra parte (criticando de forma subjectiva, fazendo chacota, equiparando coisas diferentes, minimizando a outra parte, etc.), o debate tende a ficar atolado. Também é justo se o Ludwig não considerar que existe um patamar mínimo para debater, mas eu sei que ele gosta de um bom debate.
Procurando então, na atitude subjacente ao texto do Ludwig, algo de estruturante, penso ter encontrado o que me parece ser central à sua crítica: uma atitude de desconfiança. Essa atitude é perfeitamente consistente com o materialismo do Ludwig, e não se esperava outra coisa de um materialista.
Porque o problema do Ludwig está longe de ser raro, intitulei este texto “Desconfiados do Diabo”. Deliberadamente, deixei de parte a palavra “cépticos” e preferi a palavra “desconfiados”. Convenhamos que um céptico tem sempre mais pinta, e parece mais moderno, do que um desconfiado. Facilmente, com esse tipo de malabarismos eufemísticos, o problema da desconfiança do Ludwig, originado pela sua filosofia materialista, poderia ser comutado, erradamente, numa espécie de virtude do cepticismo do Ludwig. Ora o Ludwig julga que, na raiz da sua desconfiança, está uma atitude racional, que ele confunde com atitude científica. Ora racional é tudo o que é conforme à razão, ou seja, aos ditames da lógica e do pensamento estruturado. O científico é a aplicação dessa atitude racional a tudo o que é empírico. Por definição, a Ciência não trata, nem pode tratar, de explicar fenómenos que ultrapassem a sua própria (e auto-definida) esfera de trabalho. Se uma explicação científica é sempre, por definição, uma explicação que faz uso exclusivo de causas naturais, tudo o que é sobrenatural está fora do seu âmbito.
Ora, por uma estranha patologia do pensamento, aquela cultura cristã que deu origem ao pensamento científico, que de nos deu tantos e tão bons cientistas cristãos desprovidos de preconceitos materialistas, deteriorou-se em poucos séculos apenas, e transformou-se numa subcultura de elites descrentes, tão bem satirizada pelo genial John Cleese:
Essa subcultura manteve a Ciência, mas trocou de filosofia. Trocou a filosofia cristã pela filosofia materialista. Ficou pior com a troca, porque a boa filosofia é crucial para se interpretar Ciência. E aos olhos desta filosofia degenerada, aquilo que a Ciência não trata (as realidades imateriais), simplesmente não existe. Material e real tornam-se sinónimos. Se algo realmente existe, só será reconhecido como tal se for demonstrado cientificamente, ou seja, materialmente. A refutação evidente deste erro é esta: há montes de coisas que experimentamos, e que aos olhos desta filosofia, não deveriam existir. Mas se as experimentamos, é porque existem. Por exemplo, o amor não existe para os materialistas pois não é cientificamente demonstrável. O livre arbítrio também não. Apesar de os materialistas serem capazes de amar e de usarem o seu livre arbítrio para serem materialistas. É esta a patética incoerência da filosofia materialista: ela auto-refuta-se.
Essa subcultura manteve a Ciência, mas trocou de filosofia. Trocou a filosofia cristã pela filosofia materialista. Ficou pior com a troca, porque a boa filosofia é crucial para se interpretar Ciência. E aos olhos desta filosofia degenerada, aquilo que a Ciência não trata (as realidades imateriais), simplesmente não existe. Material e real tornam-se sinónimos. Se algo realmente existe, só será reconhecido como tal se for demonstrado cientificamente, ou seja, materialmente. A refutação evidente deste erro é esta: há montes de coisas que experimentamos, e que aos olhos desta filosofia, não deveriam existir. Mas se as experimentamos, é porque existem. Por exemplo, o amor não existe para os materialistas pois não é cientificamente demonstrável. O livre arbítrio também não. Apesar de os materialistas serem capazes de amar e de usarem o seu livre arbítrio para serem materialistas. É esta a patética incoerência da filosofia materialista: ela auto-refuta-se.
É, então, nesta nova filosofia degenerada que encontra berço a ideia peregrina de que uma explicação científica (material) é equivalente, no sentido de ser o mesmo, a uma explicação racional.
- Explicação científica e explicação racional
A atitude do materialista, exemplificada na visão do Ludwig, é a de rejeitar a existência do Diabo e os fenómenos demoníacos porque não pode haver explicação científica para eles. Apenas esta última parte está correcta: essa explicação não existe nem existirá. A não ser que a Ciência passe a admitir explicações sobrenaturais, o que me parece má ideia. A Ciência chegou onde chegou porque delimitou bem o seu âmbito às causas naturais. Mas nem tudo o que pensamos de forma racional e com qualidade é raciocínio científico. Por exemplo, a Ciência nunca demonstrou, nem demonstrará, a verdade dos princípios da Lógica. Em bom rigor, a Ciência nunca demonstrou, sequer, um teorema matemático, pois os teoremas matemáticos são demonstrados por intelectos humanos, cuja essência é imaterial. Um teorema matemático não é demonstrado pela matéria, mas sim pelo intelecto. Por essa razão, todo o cientista não contaminado pelo materialismo tem a noção do papel superior (na hierarquia do conhecimento) das matemáticas, e do seu carácter imaterial e transcendente. Uma lei matemática não se “monta” com coisas materiais. Ela pode ser descoberta pela observação empírica, ou não. Mas quem descobre é sempre o intelecto, que pode, nalguns casos, fazer uso dos sentidos para obter os necessários dados empíricos. O último teorema de Fermat, recentemente demonstrado em 1995, não foi deduzido de observações empíricas. Já as leis da termodinâmica e as leis de Newton, leis da Física, surgiram pela aplicação do intelecto humano a observações empíricas. O movimento começa na indução: o cientista intui a lei científica, e depois procura refutá-la ou confirmá-la. Deduz dela previsões e compara as previsões com medições. Não parte da dedução, ou seja, fazendo surgir uma lei directamente a partir de dados empíricos. A descoberta de uma nova lei científica não nasce de um somar de dados materiais, ela é feita no intelecto e principia com uma intuição.
Mas regressemos à Matemática: ela é uma área racional do saber humano que não parte, nem se apoia, em processos materiais. Logo, as verdades matemáticas caem fora da esfera das explicações científicas.
Mas regressemos à Matemática: ela é uma área racional do saber humano que não parte, nem se apoia, em processos materiais. Logo, as verdades matemáticas caem fora da esfera das explicações científicas.
Responde o materialista: “mas hoje há computadores que demonstram teoremas matemáticos! Logo, até a matemática é material como o computador”. Pobre materialista: esses computadores não são mais do que complexos emaranhados de interruptores microscópicos, auxiliados por suportes físicos de memória: eles executam demonstrações previamente preparadas pelos respectivos programadores, e fazem-no com base em regras de sintaxe: nada sabem de semântica, e para eles, demonstrar um teorema ou montar um vídeo caseiro tem o mesmo significado. Os computadores não têm real inteligência, e trabalham graças ao engenho do intelecto humano. A real inteligência é a humana, e é imaterial. É que há certas e determinadas verdades matemáticas que o intelecto humano demonstrou serem verdadeiras, enquanto que um computador nunca o conseguirá fazer. O matemático austríaco Kurt Gödel, nos seus teoremas da incompletude, demonstrou de forma brilhante que, num sistema formal consistente, existem proposições indecidíveis com base nas regras e nos axiomas do sistemas, mas que o matemático demonstrou serem, não obstante, verdadeiras. Reflectindo filosoficamente sobre o alcance dos resultados do trabalho de Gödel, chegamos à conclusão (como o filósofo John Lucas e o físico Roger Penrose) de que o nosso intelecto não pode ser apenas um computador biológico (material) sofisticado, visto que somos capazes de atingir verdades matemáticas impossíveis de serem obtidas por formalização matemática (ou computacional). O nosso intelecto, mesmo que no futuro possa ser demonstrado como mais lento ou com menos memória quando comparado com um computador avançado, vai sempre ser capaz de ir mais longe, em termos de poder gnoseológico, que esse computador: é esta a necessária conclusão filosófica a tirar do trabalho de Gödel.
Mas regressemos às explicações racionais…
Há, também, outro tipo de explicações racionais: as explicações pessoais. Quando eu decido, a seguir ao almoço, comer um gelado, não está por detrás dessa opção nenhuma lei cósmica ou matemática. A opção livre de comer um gelado não está no âmbito da Ciência e nunca poderá estar. É uma opção livre de um intelecto livre. E é também uma opção racional: para satisfazer um desejo, toma-se a opção que o irá, realmente, satisfazer: age-se de forma estruturada e consistente com vista ao fim determinado previamente. O materialista, esse sim, refém de uma filosofia pobrezinha, tem que admitir ser escravo de umas quaisquer leis cósmicas que o levam a comer um gelado depois do almoço. Em bom rigor, o pobre do materialista é forçado, assim lhe exige a sua filosofia, a admitir que ele mesmo é materialista por causa de determinismos no seu cérebro. O materialista não tem qualquer base filosófica para afirmar que o materialismo é verdadeiro, pois afinal, tudo o que o materialista pensa, diz e faz, está determinado pela matéria.
Podíamos dar inúmeros exemplos: a convicção de que o Universo está regido por leis, convicção essa reforçada (mas nunca provada) pelas observações empíricas, nunca pode ser uma certeza: poderíamos viver num Universo “matrix”, no qual dados empíricos adulterados seriam induzidos no nosso intelecto por uma rede sofisticada de mecanismos de engano. Obviamente, ninguém no seu juízo acredita num Universo “matrix”, e este é um exemplo de convicção racional, mas não demonstrada cientificamente. Usei a palavra convicção para ser mais facilmente compreendido, mas poderia ter usado a palavra “fé”. Temos fé em como não vivemos num Universo “matrix”, como temos fé em como vivemos num Universo explicável por leis estáveis e constantes. São tipos perfeitamente racionais de fé. Aceitamo-los de forma axiomática e dogmática, não os questionamos (se quisermos manter a sanidade mental), mas não os podemos demonstrar cientificamente.
- O lugar da confiança nas explicações racionais
“Enquanto não vir, não acredito”. Este vício do intelecto, ilustrado pela conhecida história de São Tomé, que duvidava da ressurreição do Divino Mestre só porque ainda não O vira ressuscitado, é um vício de sempre. Por isso, as palavras de Cristo, “Felizes os que crêem sem terem visto” são palavras sempre úteis, e hoje em dia, quem sabe ainda mais úteis. Evidentemente, não se pede, nem se defende, que se acredite em tudo. Cristo não pede uma suspensão da razão, mas sim uma suspensão da desconfiança, quando há boas razões para tal. Deve-se, então, confiar em tudo e em todos? De forma alguma. O mesmo Cristo diz-nos para sermos “prudentes como as serpentes”. O cristianismo é sempre uma tensão entre dois pólos positivos: confiança e prudência, fé e razão, contemplação e acção, e assim por diante. Se juntarmos os dois conselhos cristãos atrás referidos, o da confiança e o da prudência, temos então a conclusão racional de que só devemos entregar a nossa confiança a quem julgamos merecê-la, e devemos ser prudentes nesse juízo.
O estilo de escrita do Ludwig passa uma mensagem de confusão: "... apesar do feitiço ser simples a bruxaria só funciona...", escreve. O Ludwig pensa que entre a demonologia dos cristãos e o professor Karamba não há grande diferença. Isso confunde tudo, pois mascara as reais e cruciais diferenças:
a) O professor Karamba cobra, e o exorcista não;
b) O professor Karamba diz que a sua pessoa tem poderes mágicos especiais, enquanto que o exorcista diz que todo o poder vem de Cristo;
c) O objectivo dos métodos do professor Karamba pode ser instrumental (ganhar dinheiro, ter sorte no amor, prever o futuro, etc.), enquanto que o objectivo do exorcista nunca é instrumental (em caso algum se faz um exorcismo se não for apenas para curar alguém de influências demoníacas);
d) A Igreja Católica, e consequentemente o exorcista, sempre condenou as práticas mágicas; para a Igreja, não há boa magia, toda a magia é má; para o professor Karamba, a magia que ele faz é boa;
e) Os métodos do professor Karamba não estão assentes numa filosofia coerente e que pretenda explicar toda a realidade, quer visível quer invisível; o exorcista assenta os seus métodos na filosofia cristã (veja-se São Tomás de Aquino), pelo que as explicações dos fenómenos demonológicos e da eficácia dos exorcismos encontram explicações racionais na filosofia e na teologia cristã, explicações que se encaixam na visão global do cristianismo;
f) O professor Karamba é um recém-chegado; o cristianismo anda nisto há 2.000 anos; os Bispos da Igreja Católica, os únicos dotados de autoridade de nomear exorcistas, conseguem traçar a sua sucessão apostólica, indicando nome a nome os seus antecessores, até aos Apóstolos e Jesus Cristo; e o professor Karamba?
g) O exorcista colabora sempre com os médicos e não interfere com o seu trabalho; o exorcista nunca trata com o exorcismo aqueles casos que são do foro psiquiátrico ou fisiológico, pois ele respeita o âmbito dos saberes científicos: ele sabe que um fenómeno psiquiátrico ou fisiológico tem causas naturais, pelo que o exorcismo nesses casos é inútil; o professor Karamba, ao invés, pretende estar na posse de uma “ciência oculta” que dispensa totalmente as ciências positivas.
E poderia elencar mais, e mais…
O Padre Amorth é o exorcista de Roma, a diocese do sucessor de Pedro. Tem aprovação e mandato directo do seu superior, o Bispo de Roma, o Papa Bento XVI. O professor Karamba mete os anúncio dos seus serviços no Destak. Para o Ludwig, tudo isto são diferenças menores, mas para outras pessoas, as diferenças são abissais.
Essas diferenças abissais permitem a qualquer cristão atribuir confiança a um exorcista, que para mais, é designado caso a caso por um Bispo. O exorcista encaixa numa hierarquia, e está sujeito a vários mecanismos de controlo interno. O professor Karamba é um “free lancer”: não tem cartas de patente, não se sabe de onde vem, ao que vem, nem para onde vai. Por tudo isto, o Padre Amorth, e os exorcistas em geral, merecem confiança. Pelo menos, muito mais confiança do que os professores Karamba desta vida.
- Duas formas diferentes de explicar os fenómenos demonológicos e a eficácia dos exorcismos
a) Para o cristão, a coisa é simples, e sempre foi simples, desde que Cristo o exemplificou: o exorcista é eficaz graças a Cristo, que realmente é o agente do exorcismo e da cura: é a Ele que os demónios temem; exorcisar, neste caso, nada mais é do que invocar Jesus Cristo para libertar alguém de influências demoníacas, ou nos casos mais graves, para libertar alguém de possessão demoníaca; o cristão não se admira quando ouve relatos de exorcismos nos quais ele não participou, pois o cristão sabe que Cristo exorcizou e que a história da Igreja está repleta de casos de exorcismo, e que eles têm explicação filosófica e teológica
b) Para o materialista, a coisa também é simples: ou os exorcistas mentem conscientemente, ou então mentem inconscientemente; ou seja, ou são aldrabões, ou são vítimas de alucinações (são loucos)
Como se vê, o materialista, neste caso o Ludwig, não explica nada. A explicação que ele nos quer dar, e que devemos supostamente aceitar, renegando a nossa fé, é uma explicação tonta, que consiste em achar que os outros é que são tontos. Curiosamente, justificaríamos então a nossa estreiteza filosófica de vistas com base em patologias atribuídas arbitrariamente a outras pessoas. É a velha máxima: “os outros é que são os malucos”.
O materialismo força o Ludwig a rejeitar uma explicação decente, só porque ela não se coaduna com a filosofia que ele decidiu adoptar, sem explicar essa opção. Pelo contrário, o cristão é muito mais sensato: em momento algum, o cristão considera impossíveis as explicações dos materialistas, pois realmente não é impossível que todos os exorcistas fossem aldrabões ou loucos, ou ambas as coisas. E a tese do Ludwig até poderia ser testada cientificamente: o detective demonstrava, caso a caso, a aldrabice dos exorcistas aldrabões, e o psiquiatra demonstrava, caso a caso, a loucura dos exorcistas loucos.
No entanto, o cristão é sensato: ele prefere uma simples explicação sobrenatural para os fenómenos demonológicos do que uma rebuscada explicação científica para os ditos. O cristão sabe que ninguém tem tempo para demonstrar a tese do Ludwig, e que nem vale a pena fazê-lo, pois é uma tese que não faz muito sentido.
À laia de síntese, o Ludwig poderia afirmar: “tu nunca viste fenómenos sobrenaturais, e por isso não devias acreditar neles, e eu só acredito neles se os vir”. Mas isso é um tiro ao lado. Eu não preciso de ver tudo o que é real, para saber o que é real. Isso é, mais uma vez, um “a priori” filosófico, o de achar que apenas o empírico, o experimentável sensorialmente, é que é real. E, caso o Ludwig, ou qualquer outro materialista, visse fenómenos sobrenaturais, caso eles acompanhassem um exorcista e o vissem em acção, de nada serviria tal experiência pessoal, se eles mantivessem a sua filosofia materialista. É que um materialista, ao ver um exorcismo, pode manter-se materialista e arranjar a sua explicação naturalista para aquilo que ele está a ver, a cheirar ou a ouvir. Neste caso, e em qualquer caso, presenciar um fenómeno natural de causa sobrenatural não é suficiente para curar um materialista desse vírus mental, pois o vírus é resistente: o materialista, de forma circular, vai dizer que aquilo que ele viu, cheirou e ouviu tem que ser explicado por causas naturais. E porquê? Porque, segundo o materialismo, só há causas naturais. E porquê? Porque, segundo o materialismo, só é real o que é demonstrado cientificamente, e como a Ciência só trabalha sobre causas naturais, não há causas sobrenaturais. E assim por diante…
Toda uma existência explicada pelo materialismo!
Grande programa, o desta filosofia da treta que se auto-refuta, pois o materialista não tem livre arbítrio para atingir a verdade sobre o que quer que seja: para o materialista coerente, o seu materialismo não é nem verdadeiro nem falso, é aquela conclusão à qual ele chega pelo labutar interno do seu cérebro, ou seja, pela actividade electroquímica dos seus neurónios, e em última análise, pelas leis da Física. O neurónio faz surgir o raciocínio científico sobre neurónios, que por sua vez, explicam o neurónio. Esta é a triste circularidade de uma filosofia que abdicou da razão livre e da procura da verdade, seja ela qual for…
quarta-feira, 30 de junho de 2010
O Evangelho de hoje
«Chegado à outra margem, à região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois possessos, que habitavam nos sepulcros. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. Vendo-o, disseram em alta voz: «Que tens a ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?» Ora, andava a pouca distância dali, a pastar, uma grande vara de porcos. E os demónios pediram-lhe: «Se nos expulsas, manda-nos para a vara de porcos.» Disse lhes Jesus: «Ide!» Então, eles, saindo, entraram nos porcos, que se despenharam por um precipício, no mar, e morreram nas águas. Os guardas fugiram e, indo à cidade, contaram tudo o que se tinha passado com os possessos. Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, vendo-o, rogaram-lhe que se retirasse daquela região.», Mateus 8, 28-34.
Imagino como este trecho do Evangelho segundo São Mateus, que a Liturgia nos apresenta hoje, deve embaraçar e envergonhar tantos católicos "modernos" (ou modernistas). Quer a tradição cristã, quer os textos evangélicos, quer o Antigo Testamento, contêm tantos exemplos de doutrina acerca do Diabo e dos demónios que é de espantar, repito, é de espantar que ainda existam cristãos que acham que isto é discurso figurado, ou que o Diabo não existe, ou que as possessões demoníacas relatadas nas Escrituras devem ser todas entendidas como casos de psiquiatria.
De que têm medo esses cristãos? De serem gozados pelos seus contemporâneos? De serem incompreendidos por este "admirável mundo novo", em larga medida ignorante acerca das coisas realmente importantes, um mundo sem rumo, sem norte?
Imagino como este trecho do Evangelho segundo São Mateus, que a Liturgia nos apresenta hoje, deve embaraçar e envergonhar tantos católicos "modernos" (ou modernistas). Quer a tradição cristã, quer os textos evangélicos, quer o Antigo Testamento, contêm tantos exemplos de doutrina acerca do Diabo e dos demónios que é de espantar, repito, é de espantar que ainda existam cristãos que acham que isto é discurso figurado, ou que o Diabo não existe, ou que as possessões demoníacas relatadas nas Escrituras devem ser todas entendidas como casos de psiquiatria.
De que têm medo esses cristãos? De serem gozados pelos seus contemporâneos? De serem incompreendidos por este "admirável mundo novo", em larga medida ignorante acerca das coisas realmente importantes, um mundo sem rumo, sem norte?
terça-feira, 29 de junho de 2010
Todos os pecados humanos vêm da sugestão do Diabo?
Aqui há dias, na caixa de comentários do meu "post" recente sobre a existência do Diabo, a Leonor fez-me a seguinte pergunta acutilante e valiosa:
«Isso significa que o ser humano é apenas um boneco à mercê de demónios e influências malignas? Onde está o livre arbítrio, então? Onde está a responsabilidade individual?»
Eu não acredito em coincidências. Hoje mesmo, sem o planear, vim parar a este blogue magnífico: Suma Teológica.
E em poucos cliques, achei, na obra de São Tomás de Aquino (à qual esse blogue se dedica) a resposta ideal para as questões da Leonor: Tomás responde: Todos os pecados humanos vêm da sugestão do diabo?
Eis, então, a resposta de São Tomás às questões da Leonor. Resposta sempre actual, sempre rigorosa, sempre útil.
Parece que todos os pecados humanos vêm da sugestão do diabo:
1. Com efeito, Dionísio afirma que a multidão dos demônios é a causa de todos os males para si mesmos e para os outros.
2. Além disso, segundo o Evangelho de João: “quem comete o pecado é escravo do pecado” (8, 34). Ora, como diz a segunda Carta de Pedro: “Alguém se entrega à escravidão daquele por quem foi vencido” (2, 19). Logo, aquele que comete o pecado é vencido pelo diabo.
3. Ademais, Gregório diz que o pecado do diabo é irreparável, porque ele caiu sem sugestão de ninguém. Por conseguinte, se os homens pecam pelo livre-arbítrio e sem sugestão de ninguém, seu pecado também seria irremediável, o que evidentemente é falso. Logo, todos os pecados humanos são sugeridos pelo diabo.
EM SENTIDO CONTRÁRIO, está dito no livro dos Dogmas Eclesiásticos: “Não é sempre o diabo que excita em nós os maus pensamentos; eles emergem algumas vezes pelo movimento de nosso livre-arbítrio”.
RESPONDO. Ocasionalmente e indiretamente o diabo é a causa de todos os nossos pecados, pois ele induziu o primeiro homem a pecar. E em seqüência deste pecado a natureza humana foi de tal modo viciada que todos nós somos inclinados a pecar. É como se dissesse que a madeira queimou por causa daquele que a fez secar. Pois uma vez seca inflama-se facilmente. Diretamente, o diabo não é a causa de todos os pecados humanos, como se persuadisse a cada um deles. Orígenes prova pelo fato de que, mesmo se o diabo não existisse, os homens não deixariam de ter o apetite dos alimentos e das coisas venéreas e de outras semelhantes. E este apetite poderia ser desordenado se a razão não o ordenasse, o que está no poder do livre-arbítrio.
Portanto, quanto às objeções iniciais deve-se dizer que:
1. A multidão dos demônios é a causa de todos os nossos males em sua primeira origem, como foi dito.
2. Alguém não se torna escravo de outrem apenas quando se é vencido por eles, mas ainda quando se submete voluntariamente a ele. É assim que aquele que peca por seu próprio movimento torna-se escravo do diabo.
3. O pecado do diabo foi irremediável porque ele o cometeu sem que ninguém lho sugerisse, sem que houvesse nenhuma inclinação para o mal causada por uma sugestão anterior. De nenhum pecado humano pode-se dizer a mesma coisa.
Fonte: ST I-II, 80, 4
«Isso significa que o ser humano é apenas um boneco à mercê de demónios e influências malignas? Onde está o livre arbítrio, então? Onde está a responsabilidade individual?»
Eu não acredito em coincidências. Hoje mesmo, sem o planear, vim parar a este blogue magnífico: Suma Teológica.
E em poucos cliques, achei, na obra de São Tomás de Aquino (à qual esse blogue se dedica) a resposta ideal para as questões da Leonor: Tomás responde: Todos os pecados humanos vêm da sugestão do diabo?
Eis, então, a resposta de São Tomás às questões da Leonor. Resposta sempre actual, sempre rigorosa, sempre útil.
Parece que todos os pecados humanos vêm da sugestão do diabo:
1. Com efeito, Dionísio afirma que a multidão dos demônios é a causa de todos os males para si mesmos e para os outros.
2. Além disso, segundo o Evangelho de João: “quem comete o pecado é escravo do pecado” (8, 34). Ora, como diz a segunda Carta de Pedro: “Alguém se entrega à escravidão daquele por quem foi vencido” (2, 19). Logo, aquele que comete o pecado é vencido pelo diabo.
3. Ademais, Gregório diz que o pecado do diabo é irreparável, porque ele caiu sem sugestão de ninguém. Por conseguinte, se os homens pecam pelo livre-arbítrio e sem sugestão de ninguém, seu pecado também seria irremediável, o que evidentemente é falso. Logo, todos os pecados humanos são sugeridos pelo diabo.
EM SENTIDO CONTRÁRIO, está dito no livro dos Dogmas Eclesiásticos: “Não é sempre o diabo que excita em nós os maus pensamentos; eles emergem algumas vezes pelo movimento de nosso livre-arbítrio”.
RESPONDO. Ocasionalmente e indiretamente o diabo é a causa de todos os nossos pecados, pois ele induziu o primeiro homem a pecar. E em seqüência deste pecado a natureza humana foi de tal modo viciada que todos nós somos inclinados a pecar. É como se dissesse que a madeira queimou por causa daquele que a fez secar. Pois uma vez seca inflama-se facilmente. Diretamente, o diabo não é a causa de todos os pecados humanos, como se persuadisse a cada um deles. Orígenes prova pelo fato de que, mesmo se o diabo não existisse, os homens não deixariam de ter o apetite dos alimentos e das coisas venéreas e de outras semelhantes. E este apetite poderia ser desordenado se a razão não o ordenasse, o que está no poder do livre-arbítrio.
Portanto, quanto às objeções iniciais deve-se dizer que:
1. A multidão dos demônios é a causa de todos os nossos males em sua primeira origem, como foi dito.
2. Alguém não se torna escravo de outrem apenas quando se é vencido por eles, mas ainda quando se submete voluntariamente a ele. É assim que aquele que peca por seu próprio movimento torna-se escravo do diabo.
3. O pecado do diabo foi irremediável porque ele o cometeu sem que ninguém lho sugerisse, sem que houvesse nenhuma inclinação para o mal causada por uma sugestão anterior. De nenhum pecado humano pode-se dizer a mesma coisa.
Fonte: ST I-II, 80, 4
segunda-feira, 28 de junho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
A existência do Diabo
«São ponto assente da doutrina evangélica e eclesiástica as seguintes conclusões: a existência dos demónios, puros espíritos criados bons por Deus, mas que se perverteram por culpa própria; o poder maléfico que têm sobre os homens, chegando mesmo a tomarem posse de homens e objectos; a potestade que Cristo exerceu e que, depois, conferiu aos que acreditam nele, de expulsar os demónios em seu nome. Quem não acredita nestas verdades está fora da fé cristã» - Gabriele Amorth, "Exorcistas e Psiquiatras", Paulus Editora, Lisboa, 2004, p. 30.
Dizia Baudelaire: "la plus belle des ruses du diable est de vous persuader qu'il n'existe pas.". E, realmente, nisto, o Diabo tem tido o maior dos sucessos. Como explica o Padre Amorth neste livro, o ofício de exorcista esteve desprezado pela grande parte da hierarquia da Igreja Católica durante os últimos três séculos. Há toda uma legião de sacerdotes que nunca presenciou um exorcismo, e mesmo muitos Bispos que não dão grande (ou nenhuma) credibilidade ao múnus do exorcista. Com o recrudescer do interesse dos nossos contemporâneos pelo ocultismo, pela feitiçaria e pela "new age", os malefícios estão a aumentar exponencialmente, como se esperava, e torna-se necessário, de novo, reconhecer o valor do anúncio de Cristo: "Expulsarão os demónios em meu nome" (São Marcos, 16, 17-18).
Como bem recorda o Padre Amorth, um cristão, mesmo sendo sacerdote ou Bispo, que perdeu a fé nas verdades acerca dos anjos e dos demónios, e na verdade da acção do Príncipe das Trevas sobre o Mundo e sobre a Humanidade, está fora da fé cristã. Tal cristão perdeu a visão cristã da realidade, que é afinal de contas, a visão verdadeira da realidade. Tal cristão adoptou a visão herética e modernista do real, pois deixou entrar na sã doutrina cristã os erros filosóficos dos positivistas. Como frisa o Padre Amorth, há décadas que esses erros se têm vindo a infiltrar nos seminários e nas universidades católicas. O resultado? A proliferação, em rédea solta, da acção do maligno, e a total impotência de grande parte do clero no que toca à ajuda espiritual às pessoas reféns dessas influências demoníacas.
É bem verdade o que a tradição diz acerca da Virgem Maria como sendo a guardiã da sã doutrina: onde há Maria não há heresia. Ela, que espezinha a serpente a seus pés, ajudar-nos-á nesse combate urgente, que durará até ao final dos tempos, e do qual só pode sair um vencedor: Deus.
Dizia Baudelaire: "la plus belle des ruses du diable est de vous persuader qu'il n'existe pas.". E, realmente, nisto, o Diabo tem tido o maior dos sucessos. Como explica o Padre Amorth neste livro, o ofício de exorcista esteve desprezado pela grande parte da hierarquia da Igreja Católica durante os últimos três séculos. Há toda uma legião de sacerdotes que nunca presenciou um exorcismo, e mesmo muitos Bispos que não dão grande (ou nenhuma) credibilidade ao múnus do exorcista. Com o recrudescer do interesse dos nossos contemporâneos pelo ocultismo, pela feitiçaria e pela "new age", os malefícios estão a aumentar exponencialmente, como se esperava, e torna-se necessário, de novo, reconhecer o valor do anúncio de Cristo: "Expulsarão os demónios em meu nome" (São Marcos, 16, 17-18).
Como bem recorda o Padre Amorth, um cristão, mesmo sendo sacerdote ou Bispo, que perdeu a fé nas verdades acerca dos anjos e dos demónios, e na verdade da acção do Príncipe das Trevas sobre o Mundo e sobre a Humanidade, está fora da fé cristã. Tal cristão perdeu a visão cristã da realidade, que é afinal de contas, a visão verdadeira da realidade. Tal cristão adoptou a visão herética e modernista do real, pois deixou entrar na sã doutrina cristã os erros filosóficos dos positivistas. Como frisa o Padre Amorth, há décadas que esses erros se têm vindo a infiltrar nos seminários e nas universidades católicas. O resultado? A proliferação, em rédea solta, da acção do maligno, e a total impotência de grande parte do clero no que toca à ajuda espiritual às pessoas reféns dessas influências demoníacas.
É bem verdade o que a tradição diz acerca da Virgem Maria como sendo a guardiã da sã doutrina: onde há Maria não há heresia. Ela, que espezinha a serpente a seus pés, ajudar-nos-á nesse combate urgente, que durará até ao final dos tempos, e do qual só pode sair um vencedor: Deus.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Modernismo: «o fumo de Satanás»
Quando reflectimos acerca do que escrevi nos textos anteriores, ou seja, acerca do facto de existirem sacerdotes e teólogos soi-disant "católicos" que defendem uma doutrina muito pessoal, e pouco católica, torna-se inevitável abordar a questão do modernismo.
O modernismo é uma heresia nascida no século XIX, que adquire visibilidade com a obra de Alfred Loisy (1857-1940), espalhando-se depressa no universo católico, e que foi denunciada e combatida desde muito cedo por papas como São Pio X (1835-1914), que inclusive fez promulgar um Juramento Anti-Modernista que deveria ser feito por todo e qualquer sacerdote católico.
Na encíclica Pascendi Domini Grecis, Pio X classifica o modernismo como a "síntese de todas as heresias", por isso se vê que a matéria não é ligeira.
O modernismo é bastante complexo e não é simples sintetizá-lo, mas pode-se fazer uma aproximação segura vendo-o como sendo uma leitura materialista e anti-metafísica da Revelação Cristã. O modernista deixa de ver os textos revelados como verdadeiros em si mesmos, passando a vê-los como uma possível leitura histórica, que teria validade no tempo dos seus autores terrenos, mas cuja validade poderia ser revista hoje pelo homem moderno. S. Tomás de Aquino defendia a veracidade das Escrituras do mesmo modo que defendia a veracidade de qualquer coisa: adequatio rei et intellectus, ou seja, é verdadeiro tudo aquilo que consiste na adequação das coisas (do "real") ao intelecto humano. As Sagradas Escrituras, possuindo certamente diversos níveis interpretativos mais profundos, são seguramente verdadeiras no seu primeiro e mais básico nível, o literal, conquanto o exegeta esteja munido das ferramentas hermenêuticas adequadas, que lhe permitem afastar toda e qualquer aparência de contradição.
Com o modernismo, é feita uma leitura "histórica" (e portanto anti-metafísica, porque destrói a invariância de espaço e de tempo) da Revelação. Segundo os modernistas, a veracidade literal das Sagradas Escrituras deveria ser revista, porventura negada em muitos aspectos, e deveria ser acomodada com as então recentes teorias científicas (das quais uma das mais importantes foi a de Darwin acerca da Evolução das Espécies).
Pio X reage com a necessária firmeza, afirmando que tal leitura anti-metafísica das Sagradas Escrituras estava contra o que de mais fundamental havia na fé católica. Segundo esta, apesar de nenhum enunciado bíblico poder alguma vez ser contrário à Razão (porque esta procede de Deus, a fé nunca pode ser irracional), os enunciados bíblicos, pela sua natureza de textos revelados (com forma humana e essência divina), permitem certamente inúmeros e indefinidos níveis de significado metafísico e doutrinal, sem nunca deixar de parte o significado literal.
Para evitar confusões, há que distinguir esta doutrina católica da inerrância do problema da sola scriptura protestante. O erro de um certo literalismo da hermenêutica protestante está na recusa de boa parte da tradição oral católica e apostólica, que é o garante de uma hermenêutica correcta e ortodoxa. Por outras palavras, o literalismo de que aqui se fala, para ser católico, deve ser contextualizado numa tradição oral que, atrevo-me a dizê-lo, pode ser vista como mais importante do que a escrita. E isto porque a palavra escrita é sempre consequência da palavra pensada ou falada.
Continuando na questão do relativismo histórico imposto pelos modernistas, os postulados verdadeiramente universais que surgem plasmados nos textos revelados, pela sua universalidade (catolicidade), não podem ter o seu critério de veracidade baseado no momento ou no local históricos. Tudo o que é universal, é-o ontem, como hoje e como amanhã. E é-o em qualquer lugar.
O modernismo rejeita tudo isto, sendo na verdade a materialização de um "suicídio de fé", pelo facto de fazer uma materialista e inaudita anti-hermenêutica dos textos revelados. Por esta razão, Pio X a classificou justamente como sendo a heresia que sintetiza todas as heresias.
Não obstante, o modernismo prosperou durante todo o século XX. Manifestou-se durante o Concílio Vaticano II, durante o qual, por exemplo, o cardeal de Viena, Franz König (1905-2004), considerado por muitos (com boas razões) como sendo modernista, fez um famoso discurso tentando contrariar a inerrância da Bíblia.
Não anda longe deste tema central para o catolicismo do século XX a contestação que muitos passaram a fazer, após o Vaticano II, aos dogmas de fé da Igreja Católica. Surgiu a ideia errada de que os dogmas tinham a sua justificação numa dada época histórica, e que agora poderiam ser contestados, e mesmo rejeitados se isso fosse conveniente. Como se a revelação crística e os textos sagrados possuissem prazo de validade!
Para mais, como já o disse noutra ocasião, este erro nasce da ignorância acerca da natureza distinta dos dogmata (os conceitos "interiores" da doutrina, invariantes por natureza) e dos kérigmata (as proclamações formais, e portanto "exteriores" dos mesmos). É aceitável discutir o revestimento formal de uma doutrina, a formulação textual da mesma. Aliás, esta discussão é, e foi, feita de forma corrente em qualquer Concílio. Mas para se alterar os conceitos interiores da doutrina católica, é necessário transformá-la noutra coisa que não católica, ou seja, distorcê-la ou destruí-la na sua essência.
Nos dias que correm, a praga do modernismo tornou-se na heresia católica mais importante de todas. É certo que poderíamos também evocar a heresia do gnosticismo como sendo hoje cultural e intelectualmente relevante (basta pensar no fenómeno "Código da Vinci" e similares). Mas, na minha opinião, o espaço fértil para o surgimento do neo-gnosticismo foi preparado, conscientemente ou não, pelos hereges modernistas dos finais do século XIX e do século XX, muitos deles figuras importantes no Concílio e hoje considerados e venerados por muitos como "teólogos excepcionais".
Agastados pela presença do modernismo no Vaticano II, determinados grupos decidiram demarcar-se deste Concílio, alegando que a heresia modernista se tinha apoderado dos trabalhos ao ponto de invalidar o Concílio como um todo. É uma questão complexa demais para a minha presente ignorância, pelo que me limito a afirmar a minha posição actual, sem conseguir demonstrá-la teoricamente: acredito, até demonstração em contrário, que o Vaticano II foi um concílio válido. Não considero esta posição como absoluta, o que seria insensato, uma vez que a História da Igreja presenciou alguns concílios que foram declarados inválidos. Julgo que as más consequências modernistas que foram retiradas do Concílio Vaticano II foram o resultado da heresia modernista que estava embutida nas crenças de alguns dos protagonistas conciliares (obrigados por Juramento a rejeitar o Modernismo), e nas crenças de muitos sacerdotes espalhados por todo o Mundo. Por isso, a minha posição actual é a de que o modernismo não estará, eventualmente, plasmado nos textos e deliberações do Concílio, mas sim nas interpretações erradas e abusivas, e nas aplicações concretas, que certos modernistas delas fizeram.
Nestes tempos em que vivemos, nos quais uma comunicação social catolicamente analfabeta (ou ideologicamente comprometida) procura sempre deixar falar, dar espaço de antena, e entrevistar os padres e teólogos dissidentes, nunca é demais relembrar que o modernismo é uma heresia, que é um atentado contra o que de mais essencial existe no catolicismo, e que é um fenómeno que está longe de ser explicado apenas de forma empírica, histórica ou sociológica...
É importante, hoje mais do que nunca, recordar as notáveis palavras do Papa Paulo VI, numa célebre homilia de 29 de Junho de 1972,
«Crediamo - osserva il Santo Padre - in qualcosa di preternaturale venuto nel mondo proprio per turbare, per soffocare i frutti del Concilio Ecumenico, e per impedire che la Chiesa prorompesse nell’inno della gioia di aver riavuto in pienezza la coscienza di sé. Appunto per questo vorremmo essere capaci, più che mai in questo momento, di esercitare la funzione assegnata da Dio a Pietro, di confermare nella Fede i fratelli. Noi vorremmo comunicarvi questo carisma della certezza che il Signore dà a colui che lo rappresenta anche indegnamente su questa terra» (negrito meu)
«da qualche fessura sia entrato il fumo di Satana nel tempio di Dio»
Paulo VI afirmava então, perante as nefastas consequências que muitos retiraram ilicitamente do Segundo Concílio Vaticano, que "(...) [através] de qualquer fissura teria entrado o fumo de Satanás no templo de Deus".
Espero que com este texto se entenda melhor porque razão decidi "provocar" os católicos portugueses ao abordar a questão da existência do Diabo, que no fundo, é a mesma questão da existência de criaturas (como tal, infra-divinas) num estado ôntico acima do humano (criaturas feitas "de puro intelecto", se quisermos). Negar o anjo caído é negar a demonologia. É negar que o Mal é uma "criatura intelectual", que é uma "ideia criada", que era boa antes da Queda, e que se degenerou devido à sua própria vontade de criatura livre em desobedecer ao seu Criador. Negar a demonologia é negar a angeologia, porque no fundo, os demónios são as hostes de Satanás, os anjos caídos que, por sua vontade, negaram obedecer a Deus, seguindo o Diabo na sua Queda.
(O conceito de "vontade" e o conceito de "liberdade" têm um imenso alcance metafísico e são centrais para se compreender a angeologia, mas isso terá que ficar para outra altura. Para já, gostaria apenas de deixar aqui a ideia de que Satanás, criação divina, com a sua existência, torna manifesta a ideia de "liberdade total para errar, para rejeitar Deus". É, por isso, a "causa" ôntica de todo o Mal. Isto não remove a responsabilidade ao católico, visto que este tem a sua consciência, e a sua contra-parte, a vontade, para optar, livremente, entre seguir o "pai da Mentira" ou seguir o Pai celestial.)
Negando a angeologia, temos o caminho aberto para negar o sobrenatural, e consequentemente, o significado e a suprema realidade da divindade. É da negação do sobrenatural, e mais ainda, da negação do Infinito divino como fonte e sustento ôntico do real, que nascem as confusões modernistas.
A recusa de muitos católicos modernos em reconhecer a realidade ôntica do Demónio como "ideia criada", como "criatura", tem origem na mesma confusão que os faz negar a inerrância da Bíblia, a virgindade real (física, biológica) da Virgem Maria, a realidade histórica literal da Ressurreição de Cristo, a realidade física da presença divina na Eucaristia, e enfim, tudo o que o catolicismo tem de supra-empírico. Por outras palavras, o modernista nega tudo o que o catolicismo tem de católico. Isso faz com que surja o inacreditável e o impossível, como vermos sacerdotes e teólogos "católicos" defenderem a posição do "sim" no recente referendo acerca da liberalização do aborto, ou manifestarem ideias confusas acerca da origem do ser humano.
O modernismo é um naufrágio pístico e doutrinal, que resulta de erros intelectuais facilmente solúveis, assim houvesse vontade dos seus protagonistas em proceder à sua correcção por via do estudo da Metafísica.
O modernismo é uma heresia nascida no século XIX, que adquire visibilidade com a obra de Alfred Loisy (1857-1940), espalhando-se depressa no universo católico, e que foi denunciada e combatida desde muito cedo por papas como São Pio X (1835-1914), que inclusive fez promulgar um Juramento Anti-Modernista que deveria ser feito por todo e qualquer sacerdote católico.
Na encíclica Pascendi Domini Grecis, Pio X classifica o modernismo como a "síntese de todas as heresias", por isso se vê que a matéria não é ligeira.
O modernismo é bastante complexo e não é simples sintetizá-lo, mas pode-se fazer uma aproximação segura vendo-o como sendo uma leitura materialista e anti-metafísica da Revelação Cristã. O modernista deixa de ver os textos revelados como verdadeiros em si mesmos, passando a vê-los como uma possível leitura histórica, que teria validade no tempo dos seus autores terrenos, mas cuja validade poderia ser revista hoje pelo homem moderno. S. Tomás de Aquino defendia a veracidade das Escrituras do mesmo modo que defendia a veracidade de qualquer coisa: adequatio rei et intellectus, ou seja, é verdadeiro tudo aquilo que consiste na adequação das coisas (do "real") ao intelecto humano. As Sagradas Escrituras, possuindo certamente diversos níveis interpretativos mais profundos, são seguramente verdadeiras no seu primeiro e mais básico nível, o literal, conquanto o exegeta esteja munido das ferramentas hermenêuticas adequadas, que lhe permitem afastar toda e qualquer aparência de contradição.
Com o modernismo, é feita uma leitura "histórica" (e portanto anti-metafísica, porque destrói a invariância de espaço e de tempo) da Revelação. Segundo os modernistas, a veracidade literal das Sagradas Escrituras deveria ser revista, porventura negada em muitos aspectos, e deveria ser acomodada com as então recentes teorias científicas (das quais uma das mais importantes foi a de Darwin acerca da Evolução das Espécies).
Pio X reage com a necessária firmeza, afirmando que tal leitura anti-metafísica das Sagradas Escrituras estava contra o que de mais fundamental havia na fé católica. Segundo esta, apesar de nenhum enunciado bíblico poder alguma vez ser contrário à Razão (porque esta procede de Deus, a fé nunca pode ser irracional), os enunciados bíblicos, pela sua natureza de textos revelados (com forma humana e essência divina), permitem certamente inúmeros e indefinidos níveis de significado metafísico e doutrinal, sem nunca deixar de parte o significado literal.
Para evitar confusões, há que distinguir esta doutrina católica da inerrância do problema da sola scriptura protestante. O erro de um certo literalismo da hermenêutica protestante está na recusa de boa parte da tradição oral católica e apostólica, que é o garante de uma hermenêutica correcta e ortodoxa. Por outras palavras, o literalismo de que aqui se fala, para ser católico, deve ser contextualizado numa tradição oral que, atrevo-me a dizê-lo, pode ser vista como mais importante do que a escrita. E isto porque a palavra escrita é sempre consequência da palavra pensada ou falada.
Continuando na questão do relativismo histórico imposto pelos modernistas, os postulados verdadeiramente universais que surgem plasmados nos textos revelados, pela sua universalidade (catolicidade), não podem ter o seu critério de veracidade baseado no momento ou no local históricos. Tudo o que é universal, é-o ontem, como hoje e como amanhã. E é-o em qualquer lugar.
O modernismo rejeita tudo isto, sendo na verdade a materialização de um "suicídio de fé", pelo facto de fazer uma materialista e inaudita anti-hermenêutica dos textos revelados. Por esta razão, Pio X a classificou justamente como sendo a heresia que sintetiza todas as heresias.
Não obstante, o modernismo prosperou durante todo o século XX. Manifestou-se durante o Concílio Vaticano II, durante o qual, por exemplo, o cardeal de Viena, Franz König (1905-2004), considerado por muitos (com boas razões) como sendo modernista, fez um famoso discurso tentando contrariar a inerrância da Bíblia.
Não anda longe deste tema central para o catolicismo do século XX a contestação que muitos passaram a fazer, após o Vaticano II, aos dogmas de fé da Igreja Católica. Surgiu a ideia errada de que os dogmas tinham a sua justificação numa dada época histórica, e que agora poderiam ser contestados, e mesmo rejeitados se isso fosse conveniente. Como se a revelação crística e os textos sagrados possuissem prazo de validade!
Para mais, como já o disse noutra ocasião, este erro nasce da ignorância acerca da natureza distinta dos dogmata (os conceitos "interiores" da doutrina, invariantes por natureza) e dos kérigmata (as proclamações formais, e portanto "exteriores" dos mesmos). É aceitável discutir o revestimento formal de uma doutrina, a formulação textual da mesma. Aliás, esta discussão é, e foi, feita de forma corrente em qualquer Concílio. Mas para se alterar os conceitos interiores da doutrina católica, é necessário transformá-la noutra coisa que não católica, ou seja, distorcê-la ou destruí-la na sua essência.
Nos dias que correm, a praga do modernismo tornou-se na heresia católica mais importante de todas. É certo que poderíamos também evocar a heresia do gnosticismo como sendo hoje cultural e intelectualmente relevante (basta pensar no fenómeno "Código da Vinci" e similares). Mas, na minha opinião, o espaço fértil para o surgimento do neo-gnosticismo foi preparado, conscientemente ou não, pelos hereges modernistas dos finais do século XIX e do século XX, muitos deles figuras importantes no Concílio e hoje considerados e venerados por muitos como "teólogos excepcionais".
Agastados pela presença do modernismo no Vaticano II, determinados grupos decidiram demarcar-se deste Concílio, alegando que a heresia modernista se tinha apoderado dos trabalhos ao ponto de invalidar o Concílio como um todo. É uma questão complexa demais para a minha presente ignorância, pelo que me limito a afirmar a minha posição actual, sem conseguir demonstrá-la teoricamente: acredito, até demonstração em contrário, que o Vaticano II foi um concílio válido. Não considero esta posição como absoluta, o que seria insensato, uma vez que a História da Igreja presenciou alguns concílios que foram declarados inválidos. Julgo que as más consequências modernistas que foram retiradas do Concílio Vaticano II foram o resultado da heresia modernista que estava embutida nas crenças de alguns dos protagonistas conciliares (obrigados por Juramento a rejeitar o Modernismo), e nas crenças de muitos sacerdotes espalhados por todo o Mundo. Por isso, a minha posição actual é a de que o modernismo não estará, eventualmente, plasmado nos textos e deliberações do Concílio, mas sim nas interpretações erradas e abusivas, e nas aplicações concretas, que certos modernistas delas fizeram.
Nestes tempos em que vivemos, nos quais uma comunicação social catolicamente analfabeta (ou ideologicamente comprometida) procura sempre deixar falar, dar espaço de antena, e entrevistar os padres e teólogos dissidentes, nunca é demais relembrar que o modernismo é uma heresia, que é um atentado contra o que de mais essencial existe no catolicismo, e que é um fenómeno que está longe de ser explicado apenas de forma empírica, histórica ou sociológica...
É importante, hoje mais do que nunca, recordar as notáveis palavras do Papa Paulo VI, numa célebre homilia de 29 de Junho de 1972,
«Crediamo - osserva il Santo Padre - in qualcosa di preternaturale venuto nel mondo proprio per turbare, per soffocare i frutti del Concilio Ecumenico, e per impedire che la Chiesa prorompesse nell’inno della gioia di aver riavuto in pienezza la coscienza di sé. Appunto per questo vorremmo essere capaci, più che mai in questo momento, di esercitare la funzione assegnata da Dio a Pietro, di confermare nella Fede i fratelli. Noi vorremmo comunicarvi questo carisma della certezza che il Signore dà a colui che lo rappresenta anche indegnamente su questa terra» (negrito meu)
«da qualche fessura sia entrato il fumo di Satana nel tempio di Dio»
Paulo VI afirmava então, perante as nefastas consequências que muitos retiraram ilicitamente do Segundo Concílio Vaticano, que "(...) [através] de qualquer fissura teria entrado o fumo de Satanás no templo de Deus".
Espero que com este texto se entenda melhor porque razão decidi "provocar" os católicos portugueses ao abordar a questão da existência do Diabo, que no fundo, é a mesma questão da existência de criaturas (como tal, infra-divinas) num estado ôntico acima do humano (criaturas feitas "de puro intelecto", se quisermos). Negar o anjo caído é negar a demonologia. É negar que o Mal é uma "criatura intelectual", que é uma "ideia criada", que era boa antes da Queda, e que se degenerou devido à sua própria vontade de criatura livre em desobedecer ao seu Criador. Negar a demonologia é negar a angeologia, porque no fundo, os demónios são as hostes de Satanás, os anjos caídos que, por sua vontade, negaram obedecer a Deus, seguindo o Diabo na sua Queda.
(O conceito de "vontade" e o conceito de "liberdade" têm um imenso alcance metafísico e são centrais para se compreender a angeologia, mas isso terá que ficar para outra altura. Para já, gostaria apenas de deixar aqui a ideia de que Satanás, criação divina, com a sua existência, torna manifesta a ideia de "liberdade total para errar, para rejeitar Deus". É, por isso, a "causa" ôntica de todo o Mal. Isto não remove a responsabilidade ao católico, visto que este tem a sua consciência, e a sua contra-parte, a vontade, para optar, livremente, entre seguir o "pai da Mentira" ou seguir o Pai celestial.)
Negando a angeologia, temos o caminho aberto para negar o sobrenatural, e consequentemente, o significado e a suprema realidade da divindade. É da negação do sobrenatural, e mais ainda, da negação do Infinito divino como fonte e sustento ôntico do real, que nascem as confusões modernistas.
A recusa de muitos católicos modernos em reconhecer a realidade ôntica do Demónio como "ideia criada", como "criatura", tem origem na mesma confusão que os faz negar a inerrância da Bíblia, a virgindade real (física, biológica) da Virgem Maria, a realidade histórica literal da Ressurreição de Cristo, a realidade física da presença divina na Eucaristia, e enfim, tudo o que o catolicismo tem de supra-empírico. Por outras palavras, o modernista nega tudo o que o catolicismo tem de católico. Isso faz com que surja o inacreditável e o impossível, como vermos sacerdotes e teólogos "católicos" defenderem a posição do "sim" no recente referendo acerca da liberalização do aborto, ou manifestarem ideias confusas acerca da origem do ser humano.
O modernismo é um naufrágio pístico e doutrinal, que resulta de erros intelectuais facilmente solúveis, assim houvesse vontade dos seus protagonistas em proceder à sua correcção por via do estudo da Metafísica.
sexta-feira, 1 de julho de 2005
Instrução sobre o Exorcismo
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
INSTRUÇÃO SOBRE O EXORCISMO
24 de Setembro de 1985
Excelentíssimo Senhor,
Há alguns anos, certos grupos eclesiais multiplicam reuniões para orar no intuito de obter a libertação do influxo dos demônios, embora não se trate de exorcismo propriamente dito. Tais reuniões são efetuadas sob a direção de leigos, mesmo quando está presente um sacerdote.
Visto que a Congregação para a Doutrina da Fé foi interrogada a respeito do que pensar diante de tais fatos, este Dicastério julga necessário transmitir a todos os Ordinários a seguinte resposta:
1. O cânon 1172 do Código de Direito Canônico declara que a ninguém é lícito proferir exorcismo sobre pessoas possessas, a não ser que o Ordinário do lugar tenha concedido peculiar e explícita licença para tanto (1º). Determina também que esta licença só pode ser concedida pelo Ordinário do lugar a um presbítero dotado de piedade, sabedoria, prudência e integridade de vida (2º). Por conseguinte, os srs. Bispos são convidados a urgir a observância de tais preceitos.
2. Destas prescrições, segue-se que não é lícito aos fiéis cristãos utilizar a fórmula de exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, contida no Rito que foi publicado por ordem do Sumo Pontífice Leão XIII; muito menos lhes é lícito aplicar o texto inteiro deste exorcismo. Os srs. Bispos tratem de admoestar os fiéis a propósito, desde que haja necessidade.
3. Por fim, pelas mesmas razões, os srs. Bispos são solicitados a que vigiem para que - mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica - pessoas não devidamente autorizadas não orientem reuniões nas quais se façam orações para obter a expulsão do demônio, orações que diretamente interpelem os demônios ou manifestem o anseio de conhecer a identidade dos mesmos.
A formulação destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis de rezar para que, como Jesus nos ensinou, sejam livres do mal (cf. Mt 6,13). Além disso, os Pastores poderão valer-se desta oportunidade para lembrar o que a Tradição da Igreja ensina a rrespeito da função própria dos Sacramentos e a propósito da intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos na luta espiritual dos cristãos contra os espíritos malignos.
Aproveito o ensejo para exprimir a Vossa Excelência meus sentimentos de estima, enquanto lhe fico sendo dedicado no Senhor.
Joseph Card. Ratzinger
Prefeito
Retirado de Instrução sobre o Exorcismo - Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, do site oficial do Vaticano.
Posto isto, com um texto tão claro como este, como é possível que tantos católicos ainda considerem que a existência do Diabo e dos demónios é matéria opcional de fé?
E como é possível que tantos católicos não entendam a necessidade do rito de exorcismo, mesmo que ele apenas tenha que ser usado raríssimas vezes?
INSTRUÇÃO SOBRE O EXORCISMO
24 de Setembro de 1985
Excelentíssimo Senhor,
Há alguns anos, certos grupos eclesiais multiplicam reuniões para orar no intuito de obter a libertação do influxo dos demônios, embora não se trate de exorcismo propriamente dito. Tais reuniões são efetuadas sob a direção de leigos, mesmo quando está presente um sacerdote.
Visto que a Congregação para a Doutrina da Fé foi interrogada a respeito do que pensar diante de tais fatos, este Dicastério julga necessário transmitir a todos os Ordinários a seguinte resposta:
1. O cânon 1172 do Código de Direito Canônico declara que a ninguém é lícito proferir exorcismo sobre pessoas possessas, a não ser que o Ordinário do lugar tenha concedido peculiar e explícita licença para tanto (1º). Determina também que esta licença só pode ser concedida pelo Ordinário do lugar a um presbítero dotado de piedade, sabedoria, prudência e integridade de vida (2º). Por conseguinte, os srs. Bispos são convidados a urgir a observância de tais preceitos.
2. Destas prescrições, segue-se que não é lícito aos fiéis cristãos utilizar a fórmula de exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, contida no Rito que foi publicado por ordem do Sumo Pontífice Leão XIII; muito menos lhes é lícito aplicar o texto inteiro deste exorcismo. Os srs. Bispos tratem de admoestar os fiéis a propósito, desde que haja necessidade.
3. Por fim, pelas mesmas razões, os srs. Bispos são solicitados a que vigiem para que - mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica - pessoas não devidamente autorizadas não orientem reuniões nas quais se façam orações para obter a expulsão do demônio, orações que diretamente interpelem os demônios ou manifestem o anseio de conhecer a identidade dos mesmos.
A formulação destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis de rezar para que, como Jesus nos ensinou, sejam livres do mal (cf. Mt 6,13). Além disso, os Pastores poderão valer-se desta oportunidade para lembrar o que a Tradição da Igreja ensina a rrespeito da função própria dos Sacramentos e a propósito da intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos na luta espiritual dos cristãos contra os espíritos malignos.
Aproveito o ensejo para exprimir a Vossa Excelência meus sentimentos de estima, enquanto lhe fico sendo dedicado no Senhor.
Joseph Card. Ratzinger
Prefeito
Retirado de Instrução sobre o Exorcismo - Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, do site oficial do Vaticano.
Posto isto, com um texto tão claro como este, como é possível que tantos católicos ainda considerem que a existência do Diabo e dos demónios é matéria opcional de fé?
E como é possível que tantos católicos não entendam a necessidade do rito de exorcismo, mesmo que ele apenas tenha que ser usado raríssimas vezes?
terça-feira, 21 de junho de 2005
O Diabo à luz da doutrina judaica e cristã
A pedido do Pedro Fontela, eis alguns esclarecimentos rápidos e muito sucintos sobre esta questão. Como são vários os termos empregues para representar o Diabo, convém ter alguma precaução, porque cada termo possui um contexto e um significado diferentes.
Comecemos por Satanás, ou Satã.
Vem do hebreu "shatan", que significa simplesmente "adversário".
Era neste sentido que a palavra era usada vulgarmente pelos hebreus, no sentido de um adversário ou de um inimigo (pessoa individual ou colectividade).
Elaine Pagels, na sua obra The Origins of Satan, defende a tese de que o Diabo era, originalmente, apenas o inimigo.
É totalmente verdadeiro o que o Pedro Fontela afirma, a saber, que a demonologia judaica e a demonologia cristã são muito diferentes.
Uma das características mais notórias é que a demonologia do Antigo Testamento fica àquem, no que toca à complexidade e ao detalhe, de outras demonologias do Médio Oriente, como a dos Assírios, a dos Acadianos, ou a do Avestá (Iranianos).
Embora o Antigo Testamento seja rico em detalhes angeológicos (arcanjos, serafins, querubins, anjos), é pobre no que toca à demonologia.
Mas tal não significa que ela não exista. O Mal está presente na história da serpente, no Génesis. Está em Job, em Reis, no livro de Zacarias. O Levítico adverte contra bruxarias. Isaías fala em demónios (cap. 34, vs. 14). O livro de Tobias (se bem que não faça parte da Bíblica hebraica, mas sim da Cristã) fala no demónio Asmodeus. E há muito mais casos...
Por tudo isto, não me parece correcta a leitura excessivamente académica de Elaine Pagels, que simplifica uma questão complexa. É correcto que os Judeus usavam a palavra "satã" para designar os seus adversários. Mas isso não chega para afirmar que eles não possuiam uma genuína demonologia nem professavam a crença numa criatura personificadora do Mal.
Outro esclarecimento impõe-se no que toca ao termo Lúcifer, que quer apenas dizer "Portador da Luz". Lúficer é a palavra latina para o hebreu "helel", ou o grego "heosphoros". Representa quase sempre a "estrela da manhã", ou seja o planeta Vénus, que se vê logo na aurora (Job 11:17, Salmo 109:3). Lucífer é um termo teologicamente inadequado para representar o Diabo enquanto criatura caída, uma vez que a tradição sempre considerou que o termo apenas se aplicaria ao Diabo na sua condição luminosa antes da Queda (o próprio nome o indica).
Como curiosidade, o termo "Lúcifer" é também aplicado a outras personagens, como por exempo ao Rei da Babilónia (Isaías 14:12), ao Sumo Sacerdote Simão, filho de Onias (Eclesiastes 50:6), e mesmo ao próprio Jesus Cristo (Pedro II 1:19; Apocalipse 22:16). E isto porque a palavra quer mesmo dizer "o portador da Luz", e neste sentido serviu para ser usada em vários contextos.
Por esta razão, o termo correcto, na doutrina católica, para a personificação do Mal é Satã, Satanás, ou simplesmente Diabo.
Etimologicamente, a palavra "diabo" vem do latim "diabolus", que por sua vez vem do grego "diabolos", e representa o líder das hostes demoníacas.
No Novo Testamento, são mais evidentes as referências ao Diabo, como o trecho de Mateus que referi no post anterior. O Apocalipse faz também várias referências ao Diabo, e de uma grande riqueza teológica.
A doutrina católica fixou de forma bastante literal a existência do Diabo e dos demónios:
"Diabolus enim et alii dæmones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali." - Concílio Latrão IV
("o Diabo e os outros demónios foram criados por Deus bons na sua natureza mas eles próprios se fizeram maus.")
Tenho a perfeita noção de que aflorei apenas a ponta do icebergue. Se o Pedro quiser, poderemos ir mais ao detalhe nalguma questão.
Referências:
Catholic Encyclopedia - Devil
Catholic Encyclopedia - Lucifer
Catholic Encyclopedia - Demonology
Comecemos por Satanás, ou Satã.
Vem do hebreu "shatan", que significa simplesmente "adversário".
Era neste sentido que a palavra era usada vulgarmente pelos hebreus, no sentido de um adversário ou de um inimigo (pessoa individual ou colectividade).
Elaine Pagels, na sua obra The Origins of Satan, defende a tese de que o Diabo era, originalmente, apenas o inimigo.
É totalmente verdadeiro o que o Pedro Fontela afirma, a saber, que a demonologia judaica e a demonologia cristã são muito diferentes.
Uma das características mais notórias é que a demonologia do Antigo Testamento fica àquem, no que toca à complexidade e ao detalhe, de outras demonologias do Médio Oriente, como a dos Assírios, a dos Acadianos, ou a do Avestá (Iranianos).
Embora o Antigo Testamento seja rico em detalhes angeológicos (arcanjos, serafins, querubins, anjos), é pobre no que toca à demonologia.
Mas tal não significa que ela não exista. O Mal está presente na história da serpente, no Génesis. Está em Job, em Reis, no livro de Zacarias. O Levítico adverte contra bruxarias. Isaías fala em demónios (cap. 34, vs. 14). O livro de Tobias (se bem que não faça parte da Bíblica hebraica, mas sim da Cristã) fala no demónio Asmodeus. E há muito mais casos...
Por tudo isto, não me parece correcta a leitura excessivamente académica de Elaine Pagels, que simplifica uma questão complexa. É correcto que os Judeus usavam a palavra "satã" para designar os seus adversários. Mas isso não chega para afirmar que eles não possuiam uma genuína demonologia nem professavam a crença numa criatura personificadora do Mal.
Outro esclarecimento impõe-se no que toca ao termo Lúcifer, que quer apenas dizer "Portador da Luz". Lúficer é a palavra latina para o hebreu "helel", ou o grego "heosphoros". Representa quase sempre a "estrela da manhã", ou seja o planeta Vénus, que se vê logo na aurora (Job 11:17, Salmo 109:3). Lucífer é um termo teologicamente inadequado para representar o Diabo enquanto criatura caída, uma vez que a tradição sempre considerou que o termo apenas se aplicaria ao Diabo na sua condição luminosa antes da Queda (o próprio nome o indica).
Como curiosidade, o termo "Lúcifer" é também aplicado a outras personagens, como por exempo ao Rei da Babilónia (Isaías 14:12), ao Sumo Sacerdote Simão, filho de Onias (Eclesiastes 50:6), e mesmo ao próprio Jesus Cristo (Pedro II 1:19; Apocalipse 22:16). E isto porque a palavra quer mesmo dizer "o portador da Luz", e neste sentido serviu para ser usada em vários contextos.
Por esta razão, o termo correcto, na doutrina católica, para a personificação do Mal é Satã, Satanás, ou simplesmente Diabo.
Etimologicamente, a palavra "diabo" vem do latim "diabolus", que por sua vez vem do grego "diabolos", e representa o líder das hostes demoníacas.
No Novo Testamento, são mais evidentes as referências ao Diabo, como o trecho de Mateus que referi no post anterior. O Apocalipse faz também várias referências ao Diabo, e de uma grande riqueza teológica.
A doutrina católica fixou de forma bastante literal a existência do Diabo e dos demónios:
"Diabolus enim et alii dæmones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali." - Concílio Latrão IV
("o Diabo e os outros demónios foram criados por Deus bons na sua natureza mas eles próprios se fizeram maus.")
Tenho a perfeita noção de que aflorei apenas a ponta do icebergue. Se o Pedro quiser, poderemos ir mais ao detalhe nalguma questão.
Referências:
Catholic Encyclopedia - Devil
Catholic Encyclopedia - Lucifer
Catholic Encyclopedia - Demonology
O Diabo no Novo Testamento
"Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e disse-Lhe:
«Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».
Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O."
- Mateus 4, 1-11.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e disse-Lhe:
«Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».
Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O."
- Mateus 4, 1-11.
Ainda o Diabo...
Eu já sabia que este tema iria gerar alguma incompreensão.
O meu amigo Lutz, conterrâneo de outras andanças, criticou o meu texto anterior sobre o Diabo, perguntando-me se os católicos que recusam o Diabo e a validade dos exorcismos ainda são católicos.
Ora bem, a questão parece-me assaz simples. O catolicismo é o que é porque está doutrinalmente definido. Os textos conciliares, as encíclicas apostólicas, as cartas pontifícias, o Catecismo da Igreja Católica, são tudo fontes fidedignas para saber o que é isto de ser católico.
Se a Igreja Católica fosse o IKEA, qualquer católico poderia entrar na loja, escolher as partes que gostava, e sair de lá de dentro com a "sua" doutrina.
Sucede que a Igreja Católica não é o IKEA.
Podemos ler, no Catecismo da Igreja Católica (por comodidade, não traduzi do inglês):
II. THE FALL OF THE ANGELS
391 Behind the disobedient choice of our first parents lurks a seductive voice, opposed to God, which makes them fall into death out of envy.266 Scripture and the Church's Tradition see in this being a fallen angel, called "Satan" or the "devil".267 The Church teaches that Satan was at first a good angel, made by God: "The devil and the other demons were indeed created naturally good by God, but they became evil by their own doing."268
392 Scripture speaks of a sin of these angels.269 This "fall" consists in the free choice of these created spirits, who radically and irrevocably rejected God and his reign. We find a reflection of that rebellion in the tempter's words to our first parents: "You will be like God."270 The devil "has sinned from the beginning"; he is "a liar and the father of lies".271
393 It is the irrevocable character of their choice, and not a defect in the infinite divine mercy, that makes the angels' sin unforgivable. "There is no repentance for the angels after their fall, just as there is no repentance for men after death."272
394 Scripture witnesses to the disastrous influence of the one Jesus calls "a murderer from the beginning", who would even try to divert Jesus from the mission received from his Father.273 "The reason the Son of God appeared was to destroy the works of the devil."274 In its consequences the gravest of these works was the mendacious seduction that led man to disobey God.
395 The power of Satan is, nonetheless, not infinite. He is only a creature, powerful from the fact that he is pure spirit, but still a creature. He cannot prevent the building up of God's reign. Although Satan may act in the world out of hatred for God and his kingdom in Christ Jesus, and although his action may cause grave injuries - of a spiritual nature and, indirectly, even of a physical nature - to each man and to society, the action is permitted by divine providence which with strength and gentleness guides human and cosmic history. It is a great mystery that providence should permit diabolical activity, but "we know that in everything God works for good with those who love him."275
Dirijo uma pergunta ao meu amigo Lutz, que eu lhe peço que responda com base no seu bom senso: faz sentido um católico não seguir o Catecismo?
Se o Catecismo compila a estrutura e o conteúdo doutrinários da Igreja Católica, e se os crentes escolhem como lhes apetece o que lhes convém (ou melhor, o que convém às mentes distorcidas pelos preconceitos da sociedade moderna, que é materialista até ao âmago), para que serve o Catecismo?
Eu espantar-me-ia se, numa sondagem à boca das Igrejas, mais de metade dos inquiridos tivesse a coragem para assumir que acredita no miraculoso! Muitos crentes fugiriam do assunto, ficariam corados! E se a pergunta fosse "Acredita na existência do Diabo?", as respostas seriam ainda mais escandalosas e ainda mais contraditórias face ao que ensina o Catecismo.
Qual é a minha ideia?
Propor obediência cega ao Catecismo?
Nada disso! Proponho, humildemente, aos meus irmãos católicos:
a) uma leitura atenta do Catecismo, e uma profunda revisão de consciência e do que implica ser católico e professar o catolicismo;
b) um estudo aprofundado sobre estes temas; porque aquilo que é compreeendido é mais facilmente professado.
Não defendo a existência do Diabo para obedecer à Igreja!
Defendo-a porque a doutrina, para mim, só faz sentido assim. Defendo-a, porque acho que corresponde ao real.
Para terminar, Lutz, acho que este teu trecho pode ser muito falacioso:
"Tenho muitos amigos católicos que discordam consigo. Pelo que percebi, nega-lhes o direito de se considerar católicos."
O que tu me dizes é que eu, por respeito para com os teus amigos (também tenho amigos que pensam o mesmo), deveria tentar acomodar (sabe-se lá como) estas opiniões divergentes e contraditórias com o magistério da Igreja?
O que deve fazer a doutrina católica perante os católicos que afirmam que o Diabo não existe? Deve a doutrina riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam que Jesus Cristo está presente na Eucaristia? Se calhar, por respeito, a Igreja também deveria riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam em milagres? Deverá a Igreja também riscar os milagres do mapa?
O que é que restaria do catolicismo? O que é que o diferenciaria, por exemplo, do protestantismo?
Parece-me que o teu argumento, caro Lutz, é emocional e não racional. Em nome de uma uma suposta (e falsa) "tolerância", ou por respeito para com as opiniões dos crentes, a Igreja Católica deve começar a cortar partes do Catecismo?
E quem terá mais credibilidade?
A) A Igreja com o seu magistério duas vezes milenar
B) O crente que não lê o Catecismo, não lê a Bíblia, não lê os textos oficiais, não sabe nada da História da Igreja
No fundo, e com todo o respeito, Lutz, o crente católico que me descreves, e que nega a existência do Diabo e a validade dos exorcismos, tem apenas "uma opinião" sobre a matéria, e nada mais. E uma opinião não fundamentada, se me permites.
O meu amigo Lutz, conterrâneo de outras andanças, criticou o meu texto anterior sobre o Diabo, perguntando-me se os católicos que recusam o Diabo e a validade dos exorcismos ainda são católicos.
Ora bem, a questão parece-me assaz simples. O catolicismo é o que é porque está doutrinalmente definido. Os textos conciliares, as encíclicas apostólicas, as cartas pontifícias, o Catecismo da Igreja Católica, são tudo fontes fidedignas para saber o que é isto de ser católico.
Se a Igreja Católica fosse o IKEA, qualquer católico poderia entrar na loja, escolher as partes que gostava, e sair de lá de dentro com a "sua" doutrina.
Sucede que a Igreja Católica não é o IKEA.
Podemos ler, no Catecismo da Igreja Católica (por comodidade, não traduzi do inglês):
II. THE FALL OF THE ANGELS
391 Behind the disobedient choice of our first parents lurks a seductive voice, opposed to God, which makes them fall into death out of envy.266 Scripture and the Church's Tradition see in this being a fallen angel, called "Satan" or the "devil".267 The Church teaches that Satan was at first a good angel, made by God: "The devil and the other demons were indeed created naturally good by God, but they became evil by their own doing."268
392 Scripture speaks of a sin of these angels.269 This "fall" consists in the free choice of these created spirits, who radically and irrevocably rejected God and his reign. We find a reflection of that rebellion in the tempter's words to our first parents: "You will be like God."270 The devil "has sinned from the beginning"; he is "a liar and the father of lies".271
393 It is the irrevocable character of their choice, and not a defect in the infinite divine mercy, that makes the angels' sin unforgivable. "There is no repentance for the angels after their fall, just as there is no repentance for men after death."272
394 Scripture witnesses to the disastrous influence of the one Jesus calls "a murderer from the beginning", who would even try to divert Jesus from the mission received from his Father.273 "The reason the Son of God appeared was to destroy the works of the devil."274 In its consequences the gravest of these works was the mendacious seduction that led man to disobey God.
395 The power of Satan is, nonetheless, not infinite. He is only a creature, powerful from the fact that he is pure spirit, but still a creature. He cannot prevent the building up of God's reign. Although Satan may act in the world out of hatred for God and his kingdom in Christ Jesus, and although his action may cause grave injuries - of a spiritual nature and, indirectly, even of a physical nature - to each man and to society, the action is permitted by divine providence which with strength and gentleness guides human and cosmic history. It is a great mystery that providence should permit diabolical activity, but "we know that in everything God works for good with those who love him."275
Dirijo uma pergunta ao meu amigo Lutz, que eu lhe peço que responda com base no seu bom senso: faz sentido um católico não seguir o Catecismo?
Se o Catecismo compila a estrutura e o conteúdo doutrinários da Igreja Católica, e se os crentes escolhem como lhes apetece o que lhes convém (ou melhor, o que convém às mentes distorcidas pelos preconceitos da sociedade moderna, que é materialista até ao âmago), para que serve o Catecismo?
Eu espantar-me-ia se, numa sondagem à boca das Igrejas, mais de metade dos inquiridos tivesse a coragem para assumir que acredita no miraculoso! Muitos crentes fugiriam do assunto, ficariam corados! E se a pergunta fosse "Acredita na existência do Diabo?", as respostas seriam ainda mais escandalosas e ainda mais contraditórias face ao que ensina o Catecismo.
Qual é a minha ideia?
Propor obediência cega ao Catecismo?
Nada disso! Proponho, humildemente, aos meus irmãos católicos:
a) uma leitura atenta do Catecismo, e uma profunda revisão de consciência e do que implica ser católico e professar o catolicismo;
b) um estudo aprofundado sobre estes temas; porque aquilo que é compreeendido é mais facilmente professado.
Não defendo a existência do Diabo para obedecer à Igreja!
Defendo-a porque a doutrina, para mim, só faz sentido assim. Defendo-a, porque acho que corresponde ao real.
Para terminar, Lutz, acho que este teu trecho pode ser muito falacioso:
"Tenho muitos amigos católicos que discordam consigo. Pelo que percebi, nega-lhes o direito de se considerar católicos."
O que tu me dizes é que eu, por respeito para com os teus amigos (também tenho amigos que pensam o mesmo), deveria tentar acomodar (sabe-se lá como) estas opiniões divergentes e contraditórias com o magistério da Igreja?
O que deve fazer a doutrina católica perante os católicos que afirmam que o Diabo não existe? Deve a doutrina riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam que Jesus Cristo está presente na Eucaristia? Se calhar, por respeito, a Igreja também deveria riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam em milagres? Deverá a Igreja também riscar os milagres do mapa?
O que é que restaria do catolicismo? O que é que o diferenciaria, por exemplo, do protestantismo?
Parece-me que o teu argumento, caro Lutz, é emocional e não racional. Em nome de uma uma suposta (e falsa) "tolerância", ou por respeito para com as opiniões dos crentes, a Igreja Católica deve começar a cortar partes do Catecismo?
E quem terá mais credibilidade?
A) A Igreja com o seu magistério duas vezes milenar
B) O crente que não lê o Catecismo, não lê a Bíblia, não lê os textos oficiais, não sabe nada da História da Igreja
No fundo, e com todo o respeito, Lutz, o crente católico que me descreves, e que nega a existência do Diabo e a validade dos exorcismos, tem apenas "uma opinião" sobre a matéria, e nada mais. E uma opinião não fundamentada, se me permites.
terça-feira, 7 de junho de 2005
O Diabo
(publicado em simultâneo no Afixe)

Nos dias que correm, não poucas dificuldades se apresentam ao crente que vive já num mundo laicizado, racionalista e materialista.
Uma dessas grandes dificuldades apresenta-se com a existência (ou influência) do Mal como entidade distinta. Por outras palavras, a existência do que se chama vulgarmente de "Diabo". Ou se quisermos ser mais generalistas, a existência de entidades malignas ou demoníacas.
Uma das tácticas (porventura usadas inconscientemente) dos adversários militantes de qualquer religião consiste na infantilização e no desprezo de quem crê na existência do Diabo.
Dizem muitos que a crença no Diabo não se coaduna com a mente do "homem moderno", nem é compatível com a Ciência moderna. De forma totalmente desonesta, muitos tentam extravasar a Ciência moderna para fora dos seus limites, que são estritamente empíricos, querendo aplicá-la a tudo.
E, curiosamente, criou-se esta estranha ideia, que se entranha dia após dia: o Diabo era uma superstição dos nossos avós, uma coisa de gente atrasada, inculta, cientificamente analfabeta. Algo que "as Luzes" já teriam, supostamente, refutado.
No caso específico da Igreja Católica (contexto que me é particularmente caro), é curioso notar a campanha que se faz, nos dias que correm, contra o exorcismo e contra a crença nas entidades demoníacas.
Hoje em dia, não poucos católicos teriam coragem para, abertamente, professar a crença no Diabo. No entanto, deveriam saber que a sua liturgia, a liturgia católica, possui ainda rituais de exorcismo, que, ao invés de serem meros caprichos antiquados de gente perversa, fazem parte do corpo da doutrina da própria Igreja Católica.
Bastaria lermos, por exemplo, a Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, na Primeira Parte, onde se discutem os seres demoníacos.
Será que os católicos dos dias de hoje estão tão iluminados pelo positivismo científico que se envergonham das palavras do aquinate, um dos maiores doutores da Igreja, cuja obra teológica é hoje ainda um dos pilares do seu magistério?
Espero que não me interpretem mal!
(grande lata, é evidente que me vão interpretar mal!)
Não estou a fazer qualquer tipo de propaganda doutrinária. Penso que esta matéria interessa a crentes e a descrentes.
Os primeiros deveriam saber que não faz sentido ser católico e recusar a crença no Diabo, porque isso só advém de uma incompreensão grave da doutrina que professam.
Os segundos deveriam sabê-lo, quanto mais não fosse para conhecerem melhor o que é isto de ser católico e com que linhas se cose a doutrina de um católico.
Ah, já estou a ver este post a dar estalada e gritos, de certeza!
Basta ter bom senso: no dia em que o ritual do exorcismo desaparecer da prática da Igreja Católica, ter-se-á dado uma enorme machadada na estrutura basilar da concepção católica do mundo criado por Deus. Ter-se-á distorcido, para além dos limites do razoável, o próprio conceito do Mal.
Não julgo que as entidades demoníacas tenham abandonado o nosso Mundo! Acho que nunca estiveram tão presentes. O problema é que, nos dias que correm, poucos são aqueles que sequer as concebem como reais!
Termino com uma máxima famosa:
«La plus grande ruse du Diable est de faire croire qu'il n'existe pas» - Charles Baudelaire (1821-1867)

Nos dias que correm, não poucas dificuldades se apresentam ao crente que vive já num mundo laicizado, racionalista e materialista.
Uma dessas grandes dificuldades apresenta-se com a existência (ou influência) do Mal como entidade distinta. Por outras palavras, a existência do que se chama vulgarmente de "Diabo". Ou se quisermos ser mais generalistas, a existência de entidades malignas ou demoníacas.
Uma das tácticas (porventura usadas inconscientemente) dos adversários militantes de qualquer religião consiste na infantilização e no desprezo de quem crê na existência do Diabo.
Dizem muitos que a crença no Diabo não se coaduna com a mente do "homem moderno", nem é compatível com a Ciência moderna. De forma totalmente desonesta, muitos tentam extravasar a Ciência moderna para fora dos seus limites, que são estritamente empíricos, querendo aplicá-la a tudo.
E, curiosamente, criou-se esta estranha ideia, que se entranha dia após dia: o Diabo era uma superstição dos nossos avós, uma coisa de gente atrasada, inculta, cientificamente analfabeta. Algo que "as Luzes" já teriam, supostamente, refutado.
No caso específico da Igreja Católica (contexto que me é particularmente caro), é curioso notar a campanha que se faz, nos dias que correm, contra o exorcismo e contra a crença nas entidades demoníacas.
Hoje em dia, não poucos católicos teriam coragem para, abertamente, professar a crença no Diabo. No entanto, deveriam saber que a sua liturgia, a liturgia católica, possui ainda rituais de exorcismo, que, ao invés de serem meros caprichos antiquados de gente perversa, fazem parte do corpo da doutrina da própria Igreja Católica.
Bastaria lermos, por exemplo, a Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, na Primeira Parte, onde se discutem os seres demoníacos.
Será que os católicos dos dias de hoje estão tão iluminados pelo positivismo científico que se envergonham das palavras do aquinate, um dos maiores doutores da Igreja, cuja obra teológica é hoje ainda um dos pilares do seu magistério?
Espero que não me interpretem mal!
(grande lata, é evidente que me vão interpretar mal!)
Não estou a fazer qualquer tipo de propaganda doutrinária. Penso que esta matéria interessa a crentes e a descrentes.
Os primeiros deveriam saber que não faz sentido ser católico e recusar a crença no Diabo, porque isso só advém de uma incompreensão grave da doutrina que professam.
Os segundos deveriam sabê-lo, quanto mais não fosse para conhecerem melhor o que é isto de ser católico e com que linhas se cose a doutrina de um católico.
Ah, já estou a ver este post a dar estalada e gritos, de certeza!
Basta ter bom senso: no dia em que o ritual do exorcismo desaparecer da prática da Igreja Católica, ter-se-á dado uma enorme machadada na estrutura basilar da concepção católica do mundo criado por Deus. Ter-se-á distorcido, para além dos limites do razoável, o próprio conceito do Mal.
Não julgo que as entidades demoníacas tenham abandonado o nosso Mundo! Acho que nunca estiveram tão presentes. O problema é que, nos dias que correm, poucos são aqueles que sequer as concebem como reais!
Termino com uma máxima famosa:
«La plus grande ruse du Diable est de faire croire qu'il n'existe pas» - Charles Baudelaire (1821-1867)
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