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segunda-feira, 18 de março de 2013

Ordenação de mulheres?

É uma pergunta feita demasiadas vezes, e nem sempre bem respondida. Afinal de contas, porque é que a Igreja Católica não confere a mulheres a ordenação presbiterial ou a ordenação episcopal? As respostas mais ouvidas estão erradas e são meras caricaturas: a Igreja Católica seria misógina, quereria manter todo o poder em mãos masculinas, consideraria a mulher como um ser inferior ao homem, um ser indigno de poder receber tais ordenações. Estas respostas não fazem sentido, mas correspondem ao preconceito que está alojado nas cabeças de muitas pessoas.

Sistematicamente, os "media" questionam acerca de um novo Pontífice: será este o Papa que irá abrir o sacerdócio às mulheres? E não poucos católicos, mal informados e sob influência de fazedores de opinião com preponderância mediática, acabam por fazer a mesma questão. Ora a resposta à questão é bastante simples e definitiva: não. A Igreja Católica nunca irá conferir a mulheres nem a ordenação presbiterial nem a ordenação episcopal. Há várias razões para tal, mas nem sempre as temos presentes quando precisamos de explicar a alguém a posição da Igreja Católica nesta matéria.

Eis então as principais razões...

  1. A razão mais simples é a da autoridade papal: o Papa João Paulo II, na sua Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis sobre a ordenação sacerdotal reservada somente aos homens, datada de 22 de Maio de 1994, deixou bem claro que a resposta é negativa e a questão está encerrada:
    "Embora a doutrina sobre a ordenação sacerdotal que deve reservar-se somente aos homens, se mantenha na Tradição constante e universal da Igreja e seja firmemente ensinada pelo Magistério nos documentos mais recentes, todavia actualmente em diversos lugares continua-se a retê-la como discutível, ou atribui-se um valor meramente disciplinar à decisão da Igreja de não admitir as mulheres à ordenação sacerdotal.Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja."
    • Qual o carácter autoritário desta Carta Apostólica do Papa João Paulo II?
    • A Congregação para a Doutrina da Fé respondeu a esta questão, assinando o Prefeito Joseph Cardeal Ratzinger e aprovando a resposta o Papa João Paulo II a a 28 de Outubro de 1995:
    • "Dúvida: Se a doutrina, segundo a qual a Igreja não tem faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, proposta como definitiva na Carta Apostólica «Ordinatio sacerdotalis», deve ser considerada pertencente ao depósito da fé.
      Resposta: Afirmativa.
      Esta doutrina exige um assentimento definitivo, já que, fundada na Palavra de Deus escrita e constantemente conservada e aplicada na Tradição da Igreja desde o início, é proposta infalivelmente pelo magistério ordinário e universal (cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, 25, 2). Portanto, nas presentes circunstâncias, o Sumo Pontífice, no exercício de seu ministério próprio de confirmar os irmãos (cf. Lc. 22, 32), propôs a mesma doutrina, com uma declaração formal, afirmando explicitamente o que deve ser mantido sempre, em todas as partes e por todos os fiéis, enquanto pertencente ao depósito da fé."
    • Ver ainda as reflexões da Congregação para a Doutrina da Fé a respeito desta resposta.
  2. A Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis faz referência a um documento magisterial anterior, a Declaração Inter Insigniores sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial, um documento da Congregação para a Doutrina da Fé, assinado pelo Prefeito Franjo Cardeal Šeper, e aprovado e promulgado a 15 de Outubro de 1976 pelo Papa Paulo VI; este documento respondia às discussões sobre este tema que surgiram ao longo dos anos setenta na sequência da mudança de posição da Igreja Anglicana, que passou a permitir a ordenação sacerdotal feminina; a Declaração Inter Insigniores é bastante mais detalhada do que a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, e é dela que retiramos as seguintes razões, não exaustivas, para negar às mulheres a ordenação ao sacerdócio ministerial:
    1. O facto da Tradição
      1. A Igreja Católica nunca admitiu a ordenação de mulheres;
      2. Quando nos primeiros séculos de cristianismo certas seitas gnósticas procuraram ordenar mulheres, os Padres da Igreja opuseram-se veementemente (Ireneu, Tertuliano, Firmiliano de Cesareia, Cipriano, Orígenes, Epifânio);
      3. A Igreja Ortodoxa, que todavia permite a ordenação de homens casados ao sacerdócio presbiterial, nunca admitiu mulheres ao sacerdócio;
    2. A atitude de Cristo:
      1. "Jesus Cristo não chamou mulher alguma para fazer parte do grupo dos Doze. Se Ele agia desse modo, não era para se conformar com os usos da época, porque a atitude de Jesus em relação às mulheres contrasta singularmente com aquela que existia no seu meio ambiente e assinala uma ruptura voluntária e corajosa";
      2. Jesus era acompanhado por várias mulheres que faziam parte do grupo de Seus seguidores, mas não admitiu nenhuma ao grupo dos Doze;
      3. Declaração Inter Insigniores lista vários exemplos que mostram que a atitude de Jesus não se deixou determinar pela cultura da época e pela forma como esta via a mulher;
      4. Maria, mãe de Cristo, foi preservada de todo o pecado, e exceptuando o próprio Jesus Cristo, é o único ser humano a quem a Igreja Católica reconhece tal isenção de pecado: e mesmo assim, Maria não fazia parte dos Doze;
      5. Pelo referido, não é possível afirmar que a exclusão das mulheres do sacerdócio por parte de Jesus Cristo se deva a uma ideia negativa acerca da mulher;
    3. A prática dos Apóstolos
      1. Após a Ascenção de Cristo, estando o grupo dos Apóstolos reduzido a onze pela traição e suicídio de Judas Iscariotes, e tendo a possibilidade de escolher Maria para o lugar de Judas, pelo contrário escolheram um homem, Matias;
      2. Quando os judeus seguidores de Cristo se confrontaram com o dilema de abandonar certas práticas e tradições judaicas, e várias foram abandonadas, poderiam ter adoptado a ordenação sacerdotal de mulheres, mas não o fizeram, certamente porque viram nessa atitude uma obediência à vontade de Cristo; afinal de contas, os gregos convertidos ao cristianismo não foram considerados como estando obrigados a certos preceitos, como a circuncisão: se a cultura grega aceitava sacerdotizas, e se isso fosse uma questão menor, porque razão não teriam surgido sacerdotizas cristãs nas primeiras comunidades?
      3. São Paulo nas suas cartas, e os Actos dos Apóstolos, referem várias mulheres importantes no cristianismo dos primeiros tempos, como Lídia, Priscila ou Febe, e nenhuma delas foi ordenada;
      4. A única explicação para a prática dos Apóstolos está na obediência à vontade de Cristo; 
    4. Valor permanente da atitude de Jesus e dos Apóstolos:
      1. A ordenação sacerdotal é um sacramento: enquanto que a Igreja Católica sempre teve o poder de modificar o que entendesse acerca da forma de administrar os sacramentos, ela nunca teve o poder de modificar a substância dos sacramentos;
      2. "(...) a Igreja não tem poder algum sobre a substância dos Sacramentos, quer dizer, sobre tudo aquilo que Cristo Senhor, conforme o testemunho das fontes da Revelação, quis que fosse mantido no sinal sacramental", refere o Papa Pio XII na Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis, citando o primeiro cânone da sétima sessão do Concílio de Trento;
      3. "(...) na Igreja sempre existiu este poder, quanto à administração dos Sacramentos: que, mantendo inalterada a substância destes, ela possa prescrever e modificar tudo aquilo que julgar conveniente, ou para a utilidade daqueles que os recebem, ou para o respeito devido aos mesmos Sacramentos, conforme variarem as circunstâncias, os tempos e os lugares", citação do segundo capítulo da vigésima primeira sessão do Concílio de Trento;
    5. O sacerdócio ministerial à luz do Mistério de Cristo:
      1. "O ensino constante da Igreja (...) proclama que o Bispo ou o Presbítero, no exercício do seu ministério, não age em seu nome próprio, «in persona propria»: ele representa Cristo, o qual age através dele: «o sacerdote faz realmente as vezes de Cristo» (...) . Tal valor de representação atinge a sua expressão mais alta e uma forma muito particular na celebração da Eucaristia, que é a fonte e o centro da unidade da Igreja, convívio sacrifical no qual o Povo de Deus é associado ao sacrifício de Cristo: o sacerdote, que é o único que tem o poder de o realizar, age então não somente em virtude da eficácia que Cristo lhe confere, mas «in persona Christi», fazendo o papel de Cristo, até ao ponto de ser a sua própria imagem, quando pronuncia as palavras da consagração";
      2. "O sacerdócio cristão, portanto, é de natureza sacramental: o sacerdote é um sinal cuja eficácia sobrenatural lhe advém da Ordenação recebida; mas um sinal que deve ser perceptível e que os fiéis devem poder reconhecer sem dificuldade. A economia sacramental, efectivamente, está baseada em sinais naturais, em símbolos inscritos na psicologia humana: «os sinais sacramentais, diz Santo Tomás de Aquino, representam aquilo que eles significam por uma semelhança natural». Esta mesma lei da semelhança natural tem valor tanto para as pessoas como para as coisas: quando se torna necessário traduzir na prática sacramentalmente o papel de Cristo na Eucaristia, não existiria uma tal «semelhança natural», que deve existir entre Cristo e o seu ministro, se a função de Cristo não fosse desempenhada por um homem: caso contrário, dificilmente se veria no mesmo ministro a imagem de Cristo. Com efeito, o próprio Cristo foi e continua a ser um homem";
      3. "Deste modo, uma vez que o sacerdote representa também a Igreja, não haverá a possibilidade de pensar que esta representação poderia ser assegurada por uma mulher, conforme o simbolismo já exposto? É verdade que o sacerdote representa a Igreja, que é o Corpo de Cristo. No entanto, se ele o faz, é precisamente porque em primeiro lugar representa o próprio Cristo, que é Cabeça e o Pastor da Igreja, na formula usada pelo II Concílio do Vaticano, que explica ulteriormente e completa a expressão «in persona Christi». É nesta qualidade que o sacerdote preside à assembleia cristã e celebra o sacrifício eucarístico «que a Igreja inteira oferece e no qual ela mesma se oferece toda inteira a si própria»";
    6. O sacerdócio ministerial no Mistério da Igreja:
      1. "Assim, tem de ser bem acentuado quanto a Igreja é uma sociedade diferente das outras sociedades, original pela sua natureza e pelas suas estruturas. A função pastoral na mesma Igreja, anda normalmente ligada ao sacramento da Ordem: esta função não é um simples acto de governar, comparável à maneira de exercitar a autoridade que se verifica nos Estados. É algo que não é outorgado apenas por uma escolha espontânea dos homens: ainda mesmo quando o conferir tal função comporta uma designação por via de eleição, é a imposição das mãos e a oração dos sucessores dos Apóstolos que garantem a escolha da parte de Deus; é o Espírito Santo, dado pela Ordenação, que faz com que alguém participe do poder de reger do Supremo Pastor, Cristo (cfr. Act. 20, 28). A função pastoral é serviço e amor: « se tu me amas, apascenta as minhas ovelhas » (cfr. Jo. 21, 15-17).
      2. "Por esta razão, não se vê como seja possível o propôr o acesso das mulheres ao sacerdócio, em virtude da igualdade dos direitos da pessoa humana, igualdade que conserva todo o seu valor também para os cristãos. Para tal fim, faz-se uso por vezes daquele texto citado em precedência da Epístola aos Gálatas (3, 28), segundo o qual, em Cristo, já não haveria distinção entre o homem e a mulher. Essa passagem, porém, não se refere de maneira alguma aos ministérios; nela, afirma-se simplesmente a vocação universal para a filiação divina, que é a mesma para todos."
      3. "Além disso e sobretudo, seria desconhecer completamente a natureza do sacerdócio ministerial o considerá-lo como um direito: o Baptismo não confere título algum pessoal para o ministério público na Igreja. O sacerdócio não é conferido para honra ou para simples vantagem daquele que o recebe; mas sim, para ser um serviço a Deus e à Igreja; ele constitui o objecto de uma vocação específica, totalmente gratuita: « Não fostes vós que me escolhestes a mim; fui eu que vos escolhi a vós e vos constituí... » (Jo. 15, 16; cfr. Hebr. 5, 4)."
      4. "As mulheres que formulam a sua petição em ordem ao sacerdócio ministerial são com certeza inspiradas pelo desejo de servir a Cristo e à Igreja. E não é de estranhar que num momento em que as mulheres tomam consciência das discriminações de que foram objecto, elas cheguem a desejar o próprio sacerdócio ministerial. Mas é preciso não esquecer nunca que o sacerdócio não faz parte dos direitos da pessoa; é sim algo que depende da economia do mistério de Cristo e da Igreja. O múnus sacerdotal não pode tornar-se a meta de uma promoção social; nenhum progresso puramente humano da sociedade ou da pessoa poderá, por si mesmo, dar o direito de acesso ao sacerdócio: este é qualquer coisa de uma ordem diversa."


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Igreja Católica e a Maçonaria

No passado Sábado fiz uma palestra intitulada A Igreja Católica e a Maçonaria, na qual expus as origens históricas da Maçonaria moderna (especulativa, simbólica) e alguns detalhes acerca da primeira condenação papal e das suas razões. Historicamente, cingi-me apenas ao século XVIII, pelo que esta apresentação, necessariamente, nada contém acerca da maçonaria irregular ou da fase anticlerical de certas correntes maçónicas. Creio que, demonstrando de que forma a Maçonaria, na sua génese cristã (protestante) e inglesa, já é incompatível com a doutrina católica, será ainda mais evidente a sua incompatibilidade em ulteriores épocas históricas quando certos elementos e correntes da Maçonaria trabalharam contra a Igreja Católica e contra o cristianismo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Maçon e católico?

Maçon e católico? Impossível. Uma contradição. Aqui fica alguma documentação, que peca certamente por omissão, acerca da incompatibilidade entre catolicismo e Maçonaria. A pertença de um católico à Maçonaria está vedada desde 28 de Abril de 1738, data da bula "In eminenti" de Clemente XII, o primeiro documento do Magistério a declarar a incompatibilidade e a condenar a Maçonaria de forma clara. Para se ter uma ideia das datas em questão, a Maçonaria moderna data de 1717, ano da fundação da Grande Loja de Inglaterra, a loja mãe da Maçonaria, que é o resultado da fusão de quatro pequenas lojas londrinas que se reuniam em tabernas. O projecto de fundação tem como figuras de proa o pastor protestante escocês (presbiteriano) James Anderson (1680-1739) e o cientista Téophile Desaguliers, oriundo de uma família calvinista francesa, e membro da Royal Society. Dado que o projecto da Maçonaria moderna nasceu em solo protestante, e pela mão de protestantes, nunca fez grande sentido ser-se católico e maçon, apesar de terem existido lojas quase exclusivamente compostas por católicos, como é um caso paradigmático a Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia, um órgão independente da maçonaria andersoniana, composta maioritariamente por católicos irlandeses, e estabelecida em Lisboa por volta de 1733-34, mas que se dissolveu voluntariamente aquando da bula de Clemente XII.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O riso n'"O Nome da Rosa"

(Cristo sorridente, na Abadia Cisterciense de Lérins)

No último "post", um comentador anónimo perguntava:

«Já conheci muitas abordagens sobre o riso, nunca vi nenhuma caricatura ou retrato de deus ou jesus a rir, jesus riu?"

Quando leio perguntas destas, pasmo-me. Pelo seguinte: como será possível uma pessoa viver mergulhada numa cultura como a nossa, de profundas raízes cristãs, e colocar, sequer, a remota possibilidade de Jesus Cristo nunca ter sorrido. É sinal de um quase total alheamento face à cultura cristã que o rodeia. Não é tarefa difícil elencar, a partir do Novo Testamento, as inúmeras situações nas quais Jesus recorre a trocadilhos, alegorias e situações anedóticas. Também não é difícil montar, através de séculos de arte cristã, a iconografia cristã do riso.

Mais à frente no seu comentário, o comentador anónimo alude ao romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, e mais especificamente à personagem do bibliotecário Jorge de Burgos. Para melhor nos situramos no romance de Eco, eis o troço em questão, no filme de Jean-Jacques Annaud (1986):


Esta cena mostra-nos o confronto entre a personagem Guilherme de Baskerville (Sean Connery) e a personagem Jorge de Burgos (Feodor Chaliapin, Jr.). Guilherme quer ler uma obra de Aristóteles sobre comédia, enquanto que Jorge de Burgos, claramente incomodado com a presença de tal obra no "corpus aristotelicum", condena o riso como incompatível com a piedade cristã. Antes de Jorge de Burgos entrar em cena, enquanto Guilherme de Baskerville e Adso de Melk analisam a obra incompleta dos monges misteriosamente assassinados, um monge sobe para um banco de madeira, assustado com um rato. Os restantes monges riem-se da cena. Mas Jorge de Burgos interrompe o momento lúdico, com a tempestiva frase: "verba vana aut risui apta non loqui" ("não pronuncieis palavras vãs, aptas a provocar o riso").

Quem constrói a sua cultura com base em romances e novelas acaba por ter uma visão algo indirecta, na melhor das hipóteses, ou mesmo errada, na pior das hipóteses, acerca da História. Sem querer tirar valor ao romance como género literário, e Umberto Eco é o meu romancista favorito, é arriscadíssimo fundamentar conhecimentos históricos em romances. Se tomamos a ficção de Eco por retrato fiel da realidade medieval, corremos o risco de pegar em Jorge de Burgos e fazer dele o paradigma do escriba medieval. Para além do facto de que Eco não escreve romances de realismo histórico, preferindo estruturar histórias nas quais a verdade se mistura com a ficção de forma por vezes quase imperceptível, no caso particular da personagem Jorge de Burgos e da sua vontade férrea em manter escondido o livro de Aristóteles dedicado à comédia, o retrato de Eco contrasta fortemente com a verdade histórica, como bem explica o Prof. Jean Lauand:

«Deus brinca. Deus cria, brincando. E o homem deve brincar para levar uma vida humana, como também é no brincar que encontra a razão mais profunda do mistério da realidade, que é porque é “brincada” por Deus. Bastaria enunciar essas teses - como veremos, fundamentalíssimas na filosofia do principal pensador medieval, Tomás de Aquino - para reparar imediatamente que entre os diferentes preconceitos que ainda há contra a Idade Média, um dos mais injustos é aquele que a concebe como uma época que teria ignorado (ou mesmo combatido...) - o riso e o brincar.
Naturalmente, não se trata só de Tomás de Aquino; a verdade é que o “homem da época” [2] é muito sensível ao lúdico, convive com o riso, e cultiva a piada e o brincar [3] . Tomás, por sua vez, situa o lúdico nos próprios fundamentos da realidade e no ato criador da Sabedoria divina.
Assim, diante do panegírico do brincar feito por Tomás - e diante da prática do lúdico em toda a educação medieval - torna-se difícil compreender como um erudito do porte de Umberto Eco [4] possa ter querido situar no centro da trama de seu O Nome da Rosa [5] , o impedimento “medieval” da leitura de um tratado de Aristóteles sobre o riso (e no romance S. Tomás é citado como autoridade respeitada não só pelo abade - p. 48 -, mas também pelo fanático bibliotecário Jorge - p. 158 - , para quem o riso é o pior dos males e está disposto a matar para obstruir o acesso a um livro de Aristóteles sobre o tema - pp. 529 e ss.) [6] . É difícil compreender o empenho de proibir essa leitura de Aristóteles, quando o próprio Aquinate - já solenemente canonizado antes de 1327, ano em que se dá a ação do romance - vai muito mais longe do que o Estagirita [7] no elogio do lúdico...», in Deus Ludens - O Lúdico no Pensamento de Tomás de Aquino e na Pedagogia Medieval

Deste modo, a manobra arriscada (para o leitor incauto) de Eco está em retratar a bizarra personagem de Jorge de Burgos como, ao mesmo tempo, um admirador da obra de um São Tomás de Aquino já canonizado, e um defensor da incompatibilidade do riso com a vida cristã. Atrevo-me a sugerir uma resposta à interrogação do Prof. Lauand, pois parece-me que Umberto Eco faz do bibliotecário Jorge de Burgos uma espécie de tomista imaturo, alguém que admirando a obra de São Tomás, não chegou a compreendê-la a fundo, nomeadamente rejeitando a parte em que o Aquinate faz o elogio do riso. Mas Jorge de Burgos não é um defensor da ignorância, abominando o Estagirita, o Pai dos Filósofos, como quem abominasse toda a cultura pagã ou não cristã, uma leitura que poderia ser feita à luz da propaganda anti-medieval dos nossos tempos. A personagem é bem mais rica do que esses estereótipos superficiais, como costumam ser ricas todas as personagens de Eco: Jorge de Burgos admira Aristóteles, e não pode deixar de admirar o já então (a ficção passa-se em 1327) canonizado São Tomás de Aquino. A desilusão de Jorge de Burgos é para com Aristóteles (e talvez também para com a defesa tomista do riso), a quem o bibliotecário não perdoa a impiedade de ter escrito um livro dedicado ao enaltecer da comédia. Jorge de Burgos, que já tinha construído uma ideia "perfeita" de Aristóteles, não aceita nem tolera que o seu autor favorito tenha dedicado o seu génio e tempo ao estudo da "vã" comédia. Jorge de Burgos dá, assim, um excelente exemplo daquele triste estado da mente, que consiste na negação da realidade, quando esta choca com os nossos preconceitos, estado esse tão bem descrito pelo padre Bossuet: "Le plus grand dérèglement de l’esprit, c’est de croire les choses parce qu’on veut qu’elles soient, et non parce qu’on a vu qu’elles sont en effet." (Traité de la connaissance de Dieu et de soi-même, 1670).
A sofisticação da cultura e da escrita de Umberto Eco não permitem leituras simplistas, como a que o comentador anónimo pretendeu fazer, lendo errada e inadvertidamente, nos pensamentos da personagem Jorge de Burgos, a mente do típico escriba medieval.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

São Tomás de Aquino sobre o lúdico

(Nossa Senhora jogando às cartas com o Menino Jesus - painel de azulejos na nave da Sé Catedral de Beja)

É frequente a crítica que se faz à Igreja Católica por esta ser, alegadamente, uma força de bloqueio às coisas boas da vida e ao divertimento. Essa crítica é absurda, sobretudo no contexto da verdadeira revolução que o cristianismo operou durante a Idade Média, e que lançou as bases para a melhor parte do nosso legado cultural. O humor é um legado medieval. Uma das melhores defesas das virtudes do humor, da brincadeira e dos jogos vem do maior teólogo cristão do período, São Tomás de Aquino.

Eis um excerto do segundo artigo da Questão 168 da parte II-II, no qual São Tomás responde à questão de se não haverá alguma virtude nas actividades lúdicas, "Videtur quod in ludis non possit esse aliqua virtus" (a tradução completa deste artigo encontra-se aqui):

«RESPONDO. Assim como o homem precisa de repouso para refazer as forças do corpo, que não pode trabalhar sem parar, pois tem resistência limitada, proporcional a determinadas tarefas, assim também a alma, cuja capacidade também é limitada e proporcional a determinadas operações. Portanto, quando realiza certas atividades superiores à sua capacidade, ela se desgasta e se cansa, sobretudo porque nessas atividades o corpo se consome juntamente, pois a própria alma intelectiva se serve de potências que operam por meio dos órgãos corporais. Ora, os bens sensíveis são conaturais ao homem. Por isso, quando a alma se eleva sobre o sensível para se dedicar a atividades racionais, gera-se aí certa fadiga psíquica, seja nas atividades da razão prática, seja nas da razão especulativa. Mas a fadiga é maior quando o homem se entrega à atividade contemplativa, porque é assim que ele se eleva ainda mais sobre as coisas sensíveis, embora em certas ações exteriores da razão prática possa haver, talvez, um cansaço físico maior. Em ambos os casos, porém, ocorre o cansaço da alma, tanto maior quanto mais se entrega às atividades da razão. Ora, assim como a fadiga corporal desaparece pelo repouso do corpo, assim também é preciso que o cansaço mental se dissipe pelo repouso mental. O repouso da mente é o prazer, como acima se explanou ao se falar das paixões (I-II, q. 25, a. 2; q. 31, a. 1, ad 2). Daí a necessidade de buscar remédio à fadiga da alma em algum prazer, afrouxando o esforço do labor mental. Nesse sentido, lê-se nas “Conferências dos Padres”, que João Evangelista, quando alguém se escandalizou de o ver jogando com os discípulos, mandou um deles de arco na mão que disparasse uma seta. Depois que ele repetiu isso muitas vezes, perguntou-lhe se poderia fazê-lo sem parar, ao que o outro respondeu que, se assim procedesse, o arco se quebraria. Então, o santo observou que, da mesma forma, a alma se romperia se permanecesse sempre tensa.
Essas palavras e ações nas quais não se busca senão o prazer da alma chamam-se divertimentos ou recreações. Lançar mão delas, de quando em quando, é uma necessidade para o descanso da alma. E é o que diz o Filósofo, quando afirma que “em nosso dia-a-dia, é com os jogos que gozamos de algum repouso”. Por isso, é preciso praticá-los de vez em quando.» (o negrito é meu)

Há algo de elementar que os adversários da Igreja Católica, na sua maioria, ainda não entenderam. A Igreja Católica, propondo um credo exigente (como o são todas as coisas verdadeiras), não poderia manter, durante mais de dois mil anos, o seu imenso apelo se esse credo não respondesse às aspirações mais genuínas do ser humano. Se o divertimento, os jogos, o sentido de humor, são características excelentes do ser humano, a Igreja Católica não teria sobrevivido todo este tempo se não fosse compatível com elas, e se não as encorajasse...
Se Chesterton ainda fosse vivo, e perante o colapso do Comunismo do final dos anos oitenta, ele provavelmente diria que essa ideologia morreu por falta de humor. Os comunistas, ao contrário dos cristãos, eram demasiado sérios. Morreram de tédio, e por essa razão (e por outras) desapareceram da face da Terra.

sábado, 28 de maio de 2011

15 de Maio de 2011: o rito antigo de volta a São Pedro!


Quando foi eleito para a cátedra de São Pedro, Bento XVI foi considerado por muitos como um papa de transição. Com seis anos de papado concluídos, Bento XVI não pára de surpreender, refutando os que o viam como um Papa meramente transitório entre João Paulo II e um futuro Papa mais novo (Joseph Ratzinger foi eleito Papa com 78 anos de idade).

No dia 7 de Julho de 2007, Bento XVI encerrou um capítulo doloroso para a Igreja, e escancarou as portas do futuro da liturgia romana, com a promulgação da Carta Apostólica Summorum Pontificum, na qual liberou o uso do rito antigo, agora chamado de "forma extraordinária" da liturgia romana, cuja última edição datava de 1962, durante o Papado de João XXIII. Digo doloroso, porque na esteira de reforma litúrgica que culminou com a publicação do novo missal (agora chamado de "forma ordinária" da liturgia romana) de Paulo VI, não foram poucas as pessoas que quiseram, desde então, manter a prática do rito antigo, enquanto este era abandonado um pouco por toda a parte. E, tragicamente, alguns grupos de católicos, por vezes chamados de "tradicionalistas", associaram a manutenção da prática desse rito à rejeição do Concílio Vaticano II. Alguns mais extremistas, rejeitando não só a reforma litúrgica e o Vaticano II, chegaram ao ponto de dizer que a Sé de Pedro estava vaga desde Pio XII, considerando hereges todos os papas posteriores (são os "sedevacantistas"). Estes movimentos, cuja desobediência a Roma varia em maior ou menor grau, afastaram-se da Igreja Católica, e o seu afastamento gerou feridas. Por outro lado, outros movimentos dentro da Igreja, cuja heresia modernista varia em maior ou menor grau, promovendo consciente ou inconscientemente uma erosão da liturgia (aliás, em contraste com as decisões do Concílio), geraram feridas de sinal oposto. Bento XVI está a colocar um ponto final em tudo isto, dando uma lição, quer aos "tradicionalistas" que desobedecem ao Santo Padre, quer aos hereges "modernistas" que têm promovido, no último meio século, a dissolução da tradição católica, nomeadamente da liturgia.

Bento XVI, em 2007, com a Summorum Pontificum, sarou essas feridas. Bento XVI não iniciou este processo, uma vez que João Paulo II já tinha dado passos importantes no sentido do que veio a ser a Summorum Pontificum (por exemplo, a Carta Apostólica Ecclesia Dei, de 1998). Mas Bento XVI levou o processo até ao fim.

Porque é que tudo isto é importante?
Alguns católicos julgam que isto não passa de saudosismos inúteis. Outros julgam que isto implica o regresso do latim à liturgia. Os equívocos são imensos. O missal de Paulo VI era em latim, e o rito ordinário previa o uso do vernáculo como excepção. Infelizmente, o vernáculo tornou-se regra, a tal ponto que hoje em dia o comum dos fiéis tem enormes dificuldades em pronunciar as mais simples expressões litúrgicas em latim. No espaço de meio século, os católicos praticamente perderam um património litúrgico multissecular, quer simbólico, quer pictórico, quer arquitectónico, quer musical, quer textual, quer gestual.

A depredação litúrgica que se seguiu ao Vaticano II não consistiu numa obediência a esse grande concílio, mas sim numa traição ao mesmo. Hoje em dia, as nossas liturgias estão marcadas pela banalização de gestos espúrios à tradição católica, confusões infindáveis acerca do papel dos leigos e do sacerdote na liturgia, e emprego de formas musicais de tão má qualidade, e de origem tão pouco sacra, que se tornou impossível reconhecê-las como música litúrgica. Deitámos fora um tesouro.

Bento XVI está a recuperar esse tesouro, que todos nós deitamos na lixeira há meio século atrás. Esta recuperação ficará na História como uma das marcas mais indeléveis do seu papado. Mantendo a fidelidade ao Concílio Vaticano II, e à reforma litúrgica que culminou no Missal de Paulo VI (afinal de contas, o rito ordinário, ou seja, principal da liturgia romana), o actual Papa trouxe de volta o usus antiquior, e com ele voltou todo o esplendor litúrgico dessa tradição. Como o Papa explica, a forma ordinária da liturgia romana pode ser enriquecida com a prática da forma extraordinária, e vice-versa. É precisamente a mesma hermenêutica da "reforma na continuidade", aplicada agora à liturgia, que Bento XVI tem aplicado de forma incansável em defesa da correcta leitura do Vaticano II.

Os velhos do Restelo dirão que a forma extraordinária é antiquada. Mas, um pouco como dizia o Chesterton, há algo de curioso acerca das coisas consideradas antiquadas pelos que se acham "modernos". Se uma coisa sobrevive tempo suficiente para ser considerada antiquada pelos "modernos", é porque tem certamente mais valor do que outras coisas que nem sequer sobreviveram para receber esse epíteto dos bem-pensantes do nosso tempo.

Aqui em Portugal, não tem faltado resistência à Summorum Pontificum. Dizem-nos que é porque os portugueses não estão interessados na forma extraordinária, ou porque já se esqueceram do latim. Uma curiosa ironia, visto que, como referi atrás, o rito ordinário, o de Paulo VI, prescreve o latim como norma. Ou seja, os guardiães do rito ordinário não o têm aplicado bem, o que teve com consequência a óbvia erosão da cultura litúrgica dos fiéis. No entanto, cresce de dia para dia o número de católicos desejosos de conhecer e de viver essa experiência litúrgica multissecular que é a forma extraordinária do rito romano.

Na Summorum Pontificum, Bento XVI propôs um período de três anos para se avaliar a eficácia da sua aplicação e para se debaterem eventuais dificuldades. Passado esse período, e depois de realizados três Congressos dedicados ao tema, a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei assinou, no passado dia 30 de Abril, a instrução Universae Ecclesiae, tornada pública a 13 de Maio, uma data que certamente não é uma coincidência.

Este documento torna definitiva a liberalização do rito antigo para todos os fiéis que o pretenderem, esclarecendo certos termos e expressões da Summorum Pontificum que tinham recebido interpretações erradamente restritivas. Aguardo com grande expectativa a primeira missa segundo o usus antiquior aqui em Lisboa. Será certamente algo de admirável e memorável!

No passado dia 15 de Maio, quase meio século depois, a forma extraordinária do rito romano regressou à Basílica de São Pedro. Uma data histórica! Foi celebrada Missa Pontifícia no Faldistório, no altar da Cátedra, pelo Cardeal Walter Brandmüller. O facto de ter sido o Cardeal Brandmüller a celebrá-la enche-me de imensa satisfação. Trata-se de um grande historiador, um dos maiores especialistas em história conciliar, e um dos braços direitos de Bento XVI na defesa da interpretação do Concílio Vaticano II segundo a hermenêutica da continuidade, e contra a hermenêutica da ruptura, que pretende fazer do Vaticano II um Concílio contra todos os anteriores. Brandmüller é um dos mais recentes cardeais do Colégio Cardinalício (20 de Novembro de 2010), mas a sua obra publicada é há muito conhecida dos que se interessam por certos temas importantes da História da Igreja, como sejam o caso Galileu, o papel da Igreja Católica na Segunda Guerra Mundial, ou a história dos Concílios.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Nós somos Igreja" - relato de um confronto

«There can be no combination on the basis of truth without an organ of truth» - Beato John Henry Cardeal Newman (1801-1890)

No passado Sábado, dia 2 de Abril, teve lugar no Convento de São Domingos um debate intitulado O Concílio Vaticano II: onde está?, organizado pelo movimento "Nós Somos Igreja". A minha primeira reacção à notícia deste debate, via Agência Ecclesia, foi de espanto e de indignação. Estava, e ainda estou, indignado com o facto de uma agência noticiosa católica dar cobertura a um evento herético.

A palavra "herege" ainda assusta muita gente. E há boas e más razões para tal. As boas razões são evidentes: as heresias ferem a unidade eclesial e colocam os seus defensores numa indesejável situação espiritual. As más razões são menos evidentes, e prendem-se com o desconhecimento do significado do adjectivo "herege" ou do substantivo "heresia". Ambas as palavras têm uma origem etimológica no conceito de "escolha", e assim designam aqueles cristãos que optam por doutrinas diversas da que nos une. Quando alguém que pertence à Igreja de Cristo opta por uma doutrina diferente da doutrina cristã, é essa opção herética que é a causa da exclusão dessa pessoa da unidade eclesial. É quem diverge da doutrina que se exclui. Então, erram todos os que julgam que é a Igreja que exclui os hereges. Os hereges é que se auto-excluem da unidade eclesial. E enquanto que o acto de heresia, hoje em dia, é bem visto (parece "moderno"), paradoxalmente fica mal visto quem chama as coisas pelo seu nome. E raramente se censura o cristão que, persistindo na heresia, pretende arrastar mais cristãos com ele. E raramente se avaliam com seriedade os enormes riscos para a unidade eclesial de toda e qualquer iniciativa herética. Quando as ideias heréticas almejam, frequentemente, ter voz activa na Igreja, e mobilizam, também frequentemente, os poderes mediáticos para promover tal fim, o cristão tem o direito e o dever de levantar a sua voz. O Vaticano II, pelo destaque que dá ao papel dos leigos, legitima-nos a levantar a voz em defesa da unidade eclesial e contra aqueles que a pretendem ferir.

Contra uma errada dicotomia, que pretende o confronto entre o Magistério e o dito "Povo de Deus", o comum dos fiéis, que faz parte do Povo de Deus (sim, também fazemos parte!), tem o direito de levantar a sua voz e de dizer que, por acaso, até está com o Magistério da Igreja, que está com o Santo Padre e com os Bispos a ele unidos, e que lhes quer bem. Não por eles serem excelentes pessoas (que muitas vezes são), mas porque a eles corresponde, por mandato divino, a difícil e nobre missão de preservar, transmitir e ensinar a doutrina que nos foi legada por Jesus Cristo, Senhor Nosso.

Considero que seria faltar à caridade cristã ficar-me apenas pelo comentário blogosférico, ou ficar-me pelo "e-mail" que escrevi à Agência Ecclesia, a protestar pela divulgação do dito evento promovido pelo movimento herético "Nós Somos Igreja". Qualquer cristão, em podendo, não foge a dar a cara pelas suas convicções. E foi por isso que me dirigi, no passado Sábado, à casa dos Dominicanos em Lisboa, junto à Avenida Lusíada, para escutar o dito debate, cujo tema era o Concílio Vaticano II.

Entrei na sala do debate com genuíno espírito de escuta. Escutei atentamente, com respeito, e com o coração aberto, todos os oradores do painel. Apesar da seriedade do tema, e das minhas discordâncias de fundo, não deixei de sorrir quando surgiram legítimas razões para tal: quando os participantes do debate disseram coisas com as quais concordava, acenei com a cabeça e manifestei discretamente a minha concordância pontual. Nunca deixei de os ver como meus irmãos em Cristo, como são todos os baptizados. E que não haja a menor dúvida de que a minha atitude, a minha presença, as minhas críticas, só fazem sentido se eu os considerar como tal. Alguém que não é cristão não poderia ser chamado de herege, logo, se uso o termo herege para adjectivar os apoiantes do movimento "Nós Somos Igreja" isso implica, forçosamente, que eu os veja como meus irmãos. Para além disso, o cristão, quando critica, quer corrigir o que está errado. E essa atitude é sempre uma atitude de caridade, e que deve ser caritativa, quer na forma quer no conteúdo. Ora, o acto de tentar corrigir uma heresia é sempre caritativo no conteúdo, mas deve também ser na forma, e nem sempre o é. Precisamente para eu tentar escapar a minha tendência para a escrita agressiva, e para contrariar a minha tendência para a soberba, optei por estar presente no debate, por estabelecer o contacto pessoal, por ver e debater com os meus irmãos olhos nos olhos.

Ouvi muitas coisas de que não gostei, sobretudo porque eram coisas que traíam os ensinamentos de Cristo e feriam a Igreja e a unidade eclesial. Mas, em verdade, também ouvi algumas coisas de que gostei. Pelo que a minha impressão geral, depois de conhecer os membros e apoiantes deste movimento, é a de que parecem ser pessoas empenhadas, que procuram o bem e a justiça, e que só por isso, merecem pelo menos a nossa consideração e a nossa fraternidade. No entanto, por detrás das melhores intenções, estão medidas inaceitáveis, resumidas na já bem conhecida Petição do Povo de Deus. Tais medidas atacam, uma a uma, matéria doutrinal e moral há muito definida pelo Magistério (ver, por exemplo [1], [2], [3] e [4]). Então, a mera proposta dessas medidas tem que ferir a unidade eclesial, no sentido em que um cristão que propõe medidas que visam inverter decisões definitivas do Magistério é sempre um cristão que não aceita o Magistério enquanto tal. E aqui reside o cerne da heresia: a rejeição do Magistério, a rejeição do ministério episcopal de ensinar doutrina e costumes, ministério esse que cabe, por mandamento divino, ao Papa e aos Bispos a ele unidos.

Tentarei, de memória, comentar alguns aspectos das várias intervenções do painel de quatro oradores que compuseram a segunda parte do evento (apenas assisti a esta segunda parte). Em primeiro lugar, perturbou-me que o debate fosse unilateral: todos os intervenientes estavam em sintonia, quer entre si, quer com o moderador, o jornalista Manuel Vilas Boas, que para lá de meramente moderar, manifestava frequentemente a sua opinião, constituindo como que um quinto orador, mesmo que ocasional. Frei Bento Domingues, teólogo que já critiquei repetidas vezes neste blogue, estava presente mas não se manifestou oralmente, por não fazer parte do painel. Era, no entanto, notória e sabida a sua concordância com as opiniões emitidas durante todo o debate.

Antes de abrir a segunda parte do debate, por volta das 17 horas, o moderador pediu a Frei Mateus Peres, O.P., que fizesse uma intervenção. Frei Mateus Peres foi sintético: usou a expressão forte de "fracasso da aplicação do Vaticano II" para caracterizar a situação actual da Igreja Católica. Achei extremamente exagerado e injusto, dado que, quer Paulo VI, quer João Paulo II, dedicaram a maior parte dos seus papados à aplicação das decisões do Vaticano II. Seria precipitado dizer que tudo o que saiu do Vaticano II foi aplicado. Por exemplo, e só para dar um exemplo, a recomendação de dar o lugar primordial ao canto gregoriano, nas celebrações litúrgicas, é algo que ainda hoje está apenas a dar os primeiros passos. Mas entendi a mensagem de Frei Peres: a teologia dita "progressista" ou "liberal" quis sempre usar o Vaticano II para criar uma ruptura com a Tradição da Igreja com o objectivo de agradar ao Mundo. E, não satisfeita por não ter conseguido fazer embarcar os Pontífices nessa trajectória, essa teologia persiste em afirmar que o Vaticano II não foi aplicado. No entanto, existe ainda outra injustiça: é que os teólogos progressistas ou liberais tiveram a sua oportunidade para mudar a Igreja no sentido que desejavam, e nesse aspecto não fizeram cerimónias: exerceram várias décadas de influência junto dos seminários, das universidades católicas, das paróquias, dos institutos culturais da Igreja, dos "media" da Igreja, e finalmente das ordens religiosas, tendo mesmo entrado em algumas ordens de forma tão profunda que abalaram os seus alicerces e modificaram substancialmente os seus carismas. É caso para dizer que o grande São Domingos, se estivesse vivo, nunca teria permitido este debate de Sábado na sua casa.

O resultado está à vista há vários anos: o último quarto do século XX ficará retratado, na história da Igreja Católica, como um período triste pela desertificação dos seminários, das paróquias, pela erosão da fé, pela banalização da liturgia, pela perda de cultura católica, pela redução do número de baptismos, de matrimónios, pela secularização generalizada da Igreja. Têm, a meu ver, razão aqueles que ligam causalmente esta secularização interna que marcou o último quarto do século XX ao fenómeno imoral dos abusos sexuais no seio da Igreja Católica, que marcou o mesmo período.

Seria, então, caso para perguntar a Frei Peres: não tiveram já tempo demais, os ditos "progressistas", os ditos "liberais", para fazerem as suas experiências? Não estão os frutos à vista? É preciso prosseguir com a sangria, e deixar a Igreja ainda mais moribunda? Claro que não. E Paulo VI, traído por inúmeros teólogos e sacerdotes, entendeu isso. E João Paulo II também. E por isso, ambos os pontífices seguiram o rumo correcto: aplicaram o Vaticano II como o Concílio que foi: um Concílio de continuidade com a tradição da Igreja. Um Concílio de abertura ao Mundo, mas sem deixar que a Igreja se tornasse no Mundo, uma abertura sem perda de continuidade, sem perda de carisma, sem perda de identidade. O legado de Paulo VI e de João Paulo II é demasiado valioso para ser trivializado. Estes Papas conduziram a barca de Pedro em direcção ao século XXI, e deixaram a Bento XVI uma Igreja que reencontrou a sua identidade, depois dos "abanões" dos anos 60 e 70. Eles salvaram a Igreja de um descarrilamento desastroso, e fizeram-no com toda a coerência: aplicando o Vaticano II. A verdade histórica vai, então, contra a afirmação peremptória de Frei Peres.

O moderador passou, depois, a palavra à pintora Emília Nadal. Confesso que foi a oradora por quem senti menos empatia e simpatia, e explico brevemente as minhas razões. Em primeiro lugar, a oradora usou boa parte do seu tempo para auto-elogiar a sua alegada (que não tenho bases para negar) influência junto do Papa João XXIII, nomeadamente em matéria de recomendação, junto do Papa, de figuras do clero nacional. Não lhe ficou bem. A certa altura, a oradora vincou o legado do Vaticano II em termos do destaque dado à Palavra de Deus. Achei curiosa esta menção, dado que boa parte das propostas do movimento "Nós Somos Igreja", conforme descritas no texto intitulado Petição do Povo de Deus, são manifestamente contraditórias com o Novo Testamento e com os ensinamentos de Jesus:
  • A escolha, por Jesus, de doze apóstolos do sexo masculino, em contradição com o pedido do movimento para o estabelecimento da ordenação sacerdotal de mulheres; esta tradição, que permeia todos os Quatro Evangelhos nas inúmeras vezes em que se dá destaque ao grupo dos Doze, volta a ser reforçada nos Actos dos Apóstolos, quando o grupo, reduzido a onze (devido à traição de Judas Iscariotes), decide escolher um novo apóstolo para ocupar o lugar de Judas; logo no primeiro capítulo dos Actos dos Apóstolos, vemos Pedro a tomar a palavra (exercendo o seu papel de cabeça do colégio apostólico) e a estipular que se escolha um substituto de entre os varões que testemunharam a ressurreição de Cristo (a palavra "viris" surge clara no versículo 21 da Vulgata): de entre as opções de José Barsabas, o "Justo", e Matias é escolhido este último;
  • O ensinamento claro de Jesus, que classifica a situação dos recasados como sendo uma situação de adultério, em contradição com o pedido do movimento de que os recasados possam aceder à Eucaristia; sobre isto, o movimento está totalmente enganado: a Igreja não exclui os recasados, como também não exclui os pecadores: uma coisa é excluir o pecado, outra é excluir os pecadores; não são só os recasados que não podem aceder à comunhão, mas sim todos os fiéis que estejam em situação de pecado mortal (cfr. 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios, 11, vs. 27: "Assim, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor.");
  • O ensinamento claro de Jesus acerca do matrimónio como união de carne entre um homem e uma mulher, em contradição com o pedido do movimento para uma "tolerância" em matéria de sexo extra-marital (seja ele heterossexual ou homossexual).

Depois, no discurso de Emília Nadal, seguiu-se um trecho simplesmente lastimável, no qual a oradora feriu gratuitamente as gerações mais novas, considerando-as "superficiais" e "desinteressadas". Haverá, certamente, alguma verdade nas suas palavras: em todas as gerações, há sempre pessoas superficiais e desinteressadas. Mas é fatal, e a história repete-se, que uma geração ceda à tentação de menosprezar as gerações mais novas e de fazer generalizações, quer banais, quer injustas. O tom subiu e o nível desceu: a oradora troçou da mole de jovens que têm frequentado as Jornadas Mundiais da Juventude, "sempre atrás do Papa". Eu, que participei nas JMJ's de Paris (1997) e de Roma (2000), senti-me esbofeteado verbalmente pela oradora. Esses eventos marcaram a minha vida. Fiz amigos incríveis, e tive experiências marcantes de fé. Que mal fizemos nós? Ir atrás do Papa... A oradora ainda aludiu à incoerência dos jovens que assistem a missas papais e depois usam preservativos. Sim, claro. Tem razão. Mas deveria ser tão farisaica, a oradora? Que outra coisa será o pecado senão a manifestação da contradição entre um ideal de vida e a prática do dia-a-dia? Quem, para além de Jesus Cristo e Nossa Senhora, está livre do Pecado Original? Emília Nadal atirou a primeira pedra: os jovens são contraditórios e pecam: agem contra a fé que dizem professar, mesmo quando correm atrás dos Papas. E não é essa a condição de pecador? Estará já a oradora num estádio espiritual de ausência de pecado?

A terrível ironia da situação apresentava-se aos meus olhos: enquanto Emília Nadal insultava as novas gerações, eu constatava as idades dos participantes do evento. Ao que tudo indica, naquela sala, eu seria o mais velho dos contestatários do "Nós Somos Igreja", sem vislumbrar apoiantes do movimento mais novos que eu. O pequeno grupo de cristãos que me acompanhou, também eles em desacordo com o movimento, era composto por pessoas ligeiramente mais novas que eu. Do lado do "Nós Somos Igreja", talvez o Pedro Freitas, coordenador do IMWAC, tenha a minha idade, cerca de 35 anos. Todos os restantes estavam na geração acima, ou duas gerações acima da minha. Achei triste. Ninguém, aparentemente, se deu conta da ironia: o movimento "Nós Somos Igreja", pelo menos pela amostra daquela sala, não parece atrair jovens. E porque será? Bom, eu diria que não é fácil atrair juventude quando se usam palavras tão duras contra essa juventude. Os jovens que seguem entusiasticamente o Papa, seja ele qual for, e que tiram tempo das suas férias para participar em eventos como as Jornadas Mundiais da Juventude, pelos vistos, não parecem ter grande atracção por um movimento constituído por pessoas bastante mais velhas, que não os conseguem convencer da "modernidade" de desobedecer aos Papas. E com razão: onde está a atractividade e a novidade disso? A opinião pública, a cultura contemporânea, e boa parte dos "media", dão-nos amplos exemplos de rejeição do Papado, de desprezo e de sátira perante a mensagem da Igreja Católica. Qual o atractivo que pode ter um movimento como o "Nós Somos Igreja" para um jovem cristão de hoje? Convidam a algo como: "Vem connosco, sê diferente e contesta o Magistério!", como se essa proposta fosse nova. Que futuro propõem aos jovens de hoje? Como podem querer ser credíveis e atraentes para as novas gerações de cristãos quando estruturam a identidade do seu movimento na crítica ao Magistério?

Permitam-me abrir um parêntesis mais pessoal...

Não quero constituir um paradigma a partir da minha experiência pessoal, mas eu próprio já fui, em tempos, um entusiasta defensor do "Nós Somos Igreja". A contestação à autoridade estabelecida parece ser uma característica frequente dos tempos de juventude, e também eu passei por isso. Recordo-me de sair de uma missa dominical na paróquia de Santa Maria de Belém indignado pelo facto de o prior ter criticado, durante a homilia, o movimento "Nós Somos Igreja". Eu teria, no máximo, uns vinte anos. Já estava, na altura, em crise de fé e em rota de colisão com o Magistério. Nesse tempo, eu almoçava todos os Domingos em casa dos meus avós e fazia da leitura da coluna de Frei Bento Domingues no Público o meu ritual pós-almoço. Como eu admirava o Frei Bento! Por variadíssimas razões, com o passar do tempo, persisti na leitura e no estudo, e ganhei um grande fascínio pelo cristianismo, pela sua história, pela sua doutrina, pela sua mensagem, pelas suas figuras de proa. Curiosamente, e ao contrário da tese de Emília Nadal, foi porque eu não me resignei a uma fé superficial de juventude que encetei um caminho de aprofundamento da fé e da cultura cristã. E, também curiosamente, quinze anos depois, motivado pela necessidade de coerência e pelo amor à verdade, acabei como adversário das ideias do "Nós Somos Igreja" e grande crítico das ideias de Frei Bento Domingues. E, ironia das ironias, o prior de Santa Maria de Belém, que ainda é o mesmo, e que eu nos meus tempos ingénuos de juventude critiquei pela sua oposição ao "Nós Somos Igreja", é hoje em dia um dos sacerdotes que eu mais admiro: um servidor incansável de Jesus Cristo e da Igreja Católica, um homem de inegável cultura e intelectualidade, e um protector e defensor da dignidade e da beleza da liturgia romana.

Penso que para alguns cristãos da minha geração, o "Nós Somos Igreja" representou como que uma espécie de "Maio de 68" do nosso percurso cristão. Eu passei por essa fase do percurso e ultrapassei-a. E para mim, a experiência foi positiva no sentido em que, por vezes, é mais expedito cometermos um erro para o reconhecermos como tal. Há sempre riscos envolvidos nesse processo de aprendizagem pelo erro, mas a verdade é que as lições que se aprendem são marcantes.

(fim do parêntesis pessoal)

À pintora Emília Nadal, seguiu-se o orador Joaquim Franco, jornalista, um orador simpático e cativante. Confesso que não me é tão fácil comentar o discurso de Joaquim Franco, pois pareceu-me menos objectivo e menos assertivo. Tentarei, então, cingir-me ao ponto do qual mais discordei no seu discurso. A certa altura, Joaquim Franco alude ao Encontro de Bento XVI com o mundo da Cultura, a 12 de Maio de 2010. O orador mostrou-se perplexo com a (alegada) subserviência dos representantes das várias religiões que estiveram presentes no evento, e que o dito evento transmitia a ideia (errada, segundo Joaquim Franco) de que a Igreja Católica representava a realidade portuguesa. Espanto! Duplo espanto! Por um lado, como é que aceitar um convite poderá representar subserviência? Se os representantes das restantes religiões com presença em Portugal decidem aceitar um convite feito pela Igreja Católica para se encontrarem no CCB com Bento XVI, estão com esse acto a manifestar subserviência? Por outro lado, e aqui reside o maior espanto, que quer o "Nós Somos Igreja" com este protesto? Quer aumentar o volume da voz das restantes religiões, em detrimento de reduzir o volume da voz do catolicismo, em nome de um "religiosamente correcto"? Ao fim e ao cabo, porque razão quer este movimento reduzir a importância da Igreja Católica no nosso país? A meu ver, esta atitude é suicida e incoerente. O católico quer anunciar a Boa Nova, quer persuadir todas as pessoas da verdade da fé católica e da sua necessidade para a salvação das almas, cumprindo assim o mandamento divino:

«E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado.» (São Marcos 16, 15-16).

Vê-se que este movimento promove um diálogo entre religiões completamente distorcido, que parece assentar no relativismo religioso, na ideia de que a conversão dos povos ao catolicismo se tornou irrelevante.

Ao Joaquim Franco, sucedeu a teóloga Teresa Toldy. No seu discurso, impressionou-me fortemente o seguinte raciocínio proposto pela oradora: enquanto que, na Igreja Católica, os homens têm acesso aos sete sacramentos [Baptismo, Confirmação, Eucaristia, Reconciliação, Ordenação, Matrimónio e Unção dos Enfermos], as mulheres só têm acesso a seis deles (não têm acesso ao da Ordenação). Esta observação "matemática" da oradora não faz qualquer sentido, e por várias razões:
  1. Essa "matemática" enganadora do "sacramento a menos" não coloca as mulheres em situação de fragilidade salvífica, pois é o Baptismo que salva, e depois dele, é a Reconciliação que nos limpa da mancha do pecado, e nos permite alcançar a misericórdia de Deus e a salvação da nossa alma; ora, quer o Baptismo quer a Reconciliação estão ao alcance de todos;
  2. Esse "acesso" aos sacramentos foi apresentado pela oradora como sugerindo uma espécie de direito, como se os sacramentos, em vez de dom gratuito da graça de Deus, fossem um direito que nós temos; nós não temos direito aos sacramentos, e por isso mesmo devemos merecê-los; por isso mesmo, há pré-requisitos para o acesso a todos os sacramentos: eles não são algo que é nosso de direito e posse, mas sim graças às quais poderemos aceder, se reunirmos as condições para tal, e apenas porque Deus assim o estipulou;
  3. Esse "acesso" aos sacramentos foi também apresentado pela oradora como uma espécie de poder, como se o sacramento da Ordenação deixasse de ser visto como serviço à Igreja (que é) e passasse a ser visto como um exercício de poder (que não é);
  4. A opção por uma determinada vocação exclui, automaticamente, o acesso a certos sacramentos: por exemplo, a pessoa que segue a vocação matrimonial e recebe o sacramento do Matrimónio deixa, ipso facto, de ter acesso ao sacramento da Ordenação, e vice-versa; logo, uma pessoa casada apenas tem acesso a cinco sacramentos (não pode repetir o Baptismo), pois quando se casa deixa de ter acesso ao sacramento da Ordenação, e vice-versa.

A seguir à Teresa Toldy, falou o Pedro Freitas, coordenador do IMWAC. Parece-me impossível antipatizar com o Pedro Freitas depois de se estar com ele frente a frente e de o ouvir a falar. Falou de uma forma até bastante humilde e cordata, atendendo ao conteúdo explosivo e nada humilde do seu discurso, centrado necessariamente nas reclamações prepotentes da Petição do Povo de Deus.

Concluídos os discursos dos intervenientes do painel, seguiu-se um momento de perguntas e respostas. Incrivelmente, nenhuma das perguntas ou dos comentários que surgiram da plateia continha a mínima crítica às ideias apresentadas pelos oradores. Todas as perguntas eram laudatórias, quer ao movimento "Nós Somos Igreja", quer às ideias transmitidas pelos oradores e pelo moderador. Algumas perguntas constituíam ataques à Igreja ou a órgãos da Igreja. Uma pessoa criticou duramente o programa Ecclesia, que passa na RTP2, em termos que não recordo exactamente, mas que também não é salutar recordar.

Esperei pacientemente pela minha oportunidade de colocar uma questão. Infelizmente, o evento terminava às 19 horas, e após as perguntas e respostas, ainda deveria falar a oradora Alfreda Ferreira da Fonseca, encarregada de encerrar o evento. O tempo estava, então, a terminar... A certa altura, foi-me dada a palavra, e pediram-me para ser breve, dada a hora avançada. Começando por dizer ao painel que eu iria fazer uma pergunta "de contraditório" (para vincar que seria a primeira e talvez a única da sessão), concentrei tudo nesta pergunta:

"Como comentam os oradores do painel a contradição que eu vejo entre tudo o que disseram aqui esta tarde e a passagem da Constituição Dogmática «Lumen Gentium», do Vaticano II, a respeito do ministério episcopal de ensinar?"

Feita a pergunta, li a seguinte passagem do Capítulo III da Lumen Gentium, secção "O ministério episcopal de ensinar":

«Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica. E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.»

Fiquei com a impressão de que a pergunta caiu como uma bomba. Assim que terminei, o moderador perguntou-me qual era, afinal, a minha pergunta. Ora eu já a tinha feito! Tinha precisamente começado por pedir ao painel para me explicar a contradição entre este trecho da Lumen Gentium, que ensina o "religioso acatamento" e a "religiosa submissão da vontade e do entendimento" ao Magistério, e as propostas feitas por todos os oradores naquela sessão da tarde, consubstanciadas na "Petição do Povo de Deus", que pede a revisão de matérias definidas como finais e irreformáveis pelo Magistério da Igreja Católica. Por razões de concisão, não repeti os pontos defendidos pelo movimento, não só porque já haviam sido ditos, mas porque todos os tínhamos bem presentes. Limitei-me a pedir um esclarecimento acerca da contradição entre este texto do Vaticano II e o que naquela tarde fora dito por todos os oradores de um debate dedicado ao tema do Vaticano II.

O painel mostrou-se perplexo: alguns, incluindo o moderador (que, repito, agia por vezes como um quinto orador), perguntaram-me onde estava a contradição. Eu nem queria acreditar que iriam evitar, desta forma, responder a minha pergunta! Antevendo a minha crítica, o moderador disse (e acredito que com honestidade e sinceridade) que não queria prejudicar-me pelo avançado da hora, mas que realmente havia pouco tempo. O moderador passou a "batata quente" para a teóloga Teresa Toldy, que foi assim incumbida por ele de me dar uma resposta.

Teresa Toldy respondeu-me com uma pergunta (cito-a de memória, não anotei as suas palavras exactas): "Leu a primeira parte da «Lumen Gentium»? É que se o fizer, entenderá o contexto". Eu nem queria acreditar: uma teóloga a lançar-me um argumento de autoridade para evitar responder! Eu insisti: "mas não me esclareceu acerca da contradição, se ela não existe, explique-me porquê!". Aí, Teresa Toldy deu uma resposta ainda mais enigmática: "Se calhar, há uma contradição na própria «Lumen Gentium»". E a questão morreu assim, porque o evento tinha mesmo que terminar, e foi dada a palavra à Alfreda para o encerrar. No final do evento, tive ainda uma conversa em privado com a Teresa Toldy, cujo conteúdo não vou revelar, por ser de carácter privado.

Tenho um palpite acerca da resposta que a Teresa Toldy não me chegou a dar. Penso que a teóloga não se referia ao Capítulo I da «Lumen Gentium», pois aí voltamos a encontrar o reforço do ministério episcopal de ensinar, nomeadamente em trechos como este:

«Esta é a única Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica (12); depois da ressurreição, o nosso Salvador entregou-a a Pedro para que a apascentasse (Jo. 21,17), confiando também a ele e aos demais Apóstolos a sua difusão e governo (cfr. Mt. 28,18 ss.), e erigindo-a para sempre em «coluna e fundamento da verdade» (I Tim. 3,5). Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como sociedade, é na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em união com ele (13), que se encontra, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica.»

Penso ser provável supor que Teresa Toldy pretendia apontar uma suposta contradição entre o conteúdo do Capítulo II ("O Povo de Deus") em matéria de infalibilidade e o conteúdo do Capítulo III ("A Constituição Hierárquica da Igreja e em especial o Episcopado") acerca da mesma matéria. No capítulo II encontramos a crucial distinção entre "sacerdócio comum" (a todos os fiéis) e "sacerdócio ministerial", distinção que o "Nós Somos Igreja" teima em obliterar. Pouco depois desta distinção, encontramos a magnífica descrição da infalibilidade do Povo de Deus, notável desenvolvimento e complemento da teologia da infalibilidade do Vaticano I, na secção "O sentido da fé e dos carismas no povo cristão":

«12. O Povo santo de Deus participa também da função profética de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé e de caridade oferecendo a Deus o sacrifício de louvor, fruto dos lábios que confessam o Seu nome (cfr. Hebr. 13,15). A totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo (cfr. Jo. 2, 20 e 27), não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do povo todo, quando este, «desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis» (22), manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes. Com este sentido da fé, que se desperta e sustenta pela acção do Espírito de verdade, o Povo de Deus, sob a direcção do sagrado magistério que fielmente acata, já não recebe simples palavra de homens mas a verdadeira palavra de Deus (cfr. 1 Tess. 2,13), adere indefectivelmente à fé uma vez confiada aos santos (cfr. Jud. 3), penetra-a mais profundamente com juízo acertado e aplica-a mais totalmente na vida.»

Ora, não só encontramos mais uma vez, como já sucedera nos capítulos I e III, a reafirmação do ministério episcopal de ensinar ("... o Povo de Deus, sob a direcção do sagrado magistério que fielmente acata..."), como constatamos que não há qualquer contradição entre a infalibilidade do Povo de Deus e a infalibilidade do Magistério. É que a infalibilidade do Povo de Deus está definida do seguinte modo: que o Povo de Deus "não pode enganar-se na fé (...) quando este, «desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis», manifesta consenso universal em matéria de fé de costumes". Não está escrito, neste trecho, que não há, no Povo de Deus, pessoas em situação de divergência pontual ou sistemática: haverá sempre pessoas fora de sintonia com este consenso universal, nem que seja por ignorância. O que está dito é que, quando há consenso universal em matéria de fé e de costumes, todos os fiéis envolvidos nesse consenso, do mero leigo ao Sumo Pontífice, são infalíveis. Como bem explica o Padre James O'Connor:

«It is clear from the teaching of Vatican II that the gift of infallibility resides in the sensus fidelium. The body of the faithful cannot err in matters of faith and morals. It must be noted, however, that this infallibility of the People of God is given to the entire body of the faithful. It is not given to the faithful in contradistinction to the infallible charism given to the Magisterium of the Pope and bishops. Indeed, the proper exercise of the infallibility of the entire People of God necessitates a "faithful submission to the sacred Magisterium" if that body of the faithful is to believe, penetrate more deeply, and apply more thoroughly the faith entrusted to the saints. If the teaching of the Pope and bishops is not included in the "universal consent about matters of faith and morals" then one does not truly have a sensus fidelium, a consensus among the faithful. Once that is clear, it should be obvious that determining the sensus fidelium is not a matter of poll taking or of sociological reports.» [5]

E assim se fecha o ciclo entre o Vaticano I e o Vaticano II em matéria de infalibilidade.

Assim se vê que as petições do "Nós Somos Igreja" caem fora deste consenso universal, pois mesmo que sejam petições da autoria de certos fiéis baptizados que fazem parte do Povo de Deus, são petições que não reúnem consenso. Nem sequer reúnem o consenso da maioria dos fiéis, e mesmo que atingissem essa proeza, ainda teriam que reunir o consenso de todos os fiéis, incluindo do Magistério, para que estivessem sob a alçada da infalibilidade do Povo de Deus. Chesterton dizia que a tradição é a democracia dos mortos, no sentido em que a tradição é mais democrática que a democracia convencional, porque deixa os mortos votarem. Assim se vê que as petições do Povo de Deus nunca reuniriam o consenso da Igreja de todos os tempos, pois é incontável o número de fiéis, qualquer que seja a sua posição na hierarquia da Igreja, que defenderam sem ambiguidades o exacto oposto das petições do "Nós Somos Igreja".

De todos os oradores, a pessoa com quem fiquei com mais empatia foi com a Alfreda Ferrreira da Fonseca, que encerrou o evento. Ela falou de forma muito viva acerca da divergência de opiniões, de que todos estavam ali numa atitude de diálogo, e que era cristã a atitude de abertura ao outro. Parece-me que ela quis, depois da minha pergunta incómoda, terminar num tom de coerência. Afinal, falou-se durante toda a tarde em diálogo e abertura a posições diferentes, e seria bizarro se, face à minha discordância verbalizada, a atitude daquelas pessoas fosse a oposta. Por isso, gostei mesmo de ouvir a Alfreda a frisar a importância do diálogo e da abertura ao outro, porque seria uma tremenda injustiça e incoerência que aqueles católicos que, como eu, se opõem às ideias do movimento "Nós Somos Igreja" não fossem ouvidos pelos membros desse movimento. Afinal de contas, nós também somos Igreja...

A Alfreda também fez uma referência ao encontro entre Jesus e Pilatos, conforme narrado em São João, no qual Pilatos teria perguntado a Jesus o que era a verdade, e que Jesus teria ficado silencioso, e com base nisso, pareceu-me que a Alfreda estaria a criticar o conceito de verdade. Vejamos o trecho em questão:

"Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?» Dito isto, foi ter de novo com os judeus e disse-lhes: «Não vejo nele nenhum crime.»" - Evangelho segundo São João, 18, 37-38.

Como se vê claramente, Jesus fala da verdade como algo de real e normativo. Jesus afirma que veio para dar testemunho da verdade. Logo, como seria de esperar, nada de relativismo em Cristo. O próprio texto de São João não nos permite deduzir que Jesus não teria resposta para a pergunta de Pilatos. É claro que Jesus teria resposta, basta considerar a resposta que Jesus deu a Tomé: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim.» (São João, 14, 6). Em última análise, Jesus poderia ter respondido a Pilatos, em total coerência: "A Verdade sou Eu". Do texto de João, omisso face a uma eventual resposta de Cristo, podemos deduzir, ou que Cristo não respondeu porque não quis, ou que Cristo respondeu, mas o evangelista não registou essa resposta.

Este relato só pode terminar de uma forma: com um convite a todos os membros e apoiantes do movimento "Nós Somos Igreja". Trata-se do único convite que, no fim de contas, interessa mesmo fazer: convertam-se, pelo amor a Deus e à Igreja de Cristo! Voltem à unidade eclesial, da qual nunca deveriam ter saído. É uma questão de vida eterna ou de morte eterna.

PS: Muito agradeço ao João Silveira, ao Miguel Belo, à Margarida Paccetti e à Rita Ludovice por me terem enviado as suas recordações deste debate, de forma a colmatar as lacunas da minha memória.

PPS: Se algum dos participantes deste evento considerar que eu estou a retratar injustamente as suas palavras ou posições, muito agradeço que me façam chegar o vosso parecer, com vista à melhoria de eventuais imprecisões ou incorrecções deste relato.

[1] Ordinatio Sacerdotalis, do Papa João Paulo II, 22 de Maio de 1994, que define de forma definitiva e irreformável que «a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja».

[2] Sacerdotalis Caelibatus, do Papa Paulo VI, 24 de Junho de 1967, que defende e reforça a disciplina do celibato sacerdotal, respondendo às críticas feitas a essa disciplina.

[3] Quer a Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé a 1 de Outubro de 1986, quer as Considerações sobre os projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, também da Congregação para a Doutrina da Fé, emitida a 3 de Junho de 2003, reafirmam a perene doutrina cristã sobre o matrimónio e sobre a imoralidade dos actos homossexuais. Duas coisas ressaltam à vista, nestes documentos, com toda a clareza: por um lado, a distinção entre as pessoas com tendências homossexuais, que não pecam se viverem em castidade, e os actos homossexuais, esses sim imorais; e por outro lado, a refutação dos que falam em "exclusão" das pessoas homossexuais por parte da Igreja Católica, como é o caso do "Nós Somos Igreja", uma vez que basta notar que o primeiro documento referido tem no seu título a expressão "atendimento pastoral das pessoas homossexuais", o que elimina de vez a falsidade dessa linguagem de "exclusão".

[4Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, 25 de Julho de 1968, que define, em continuidade com a tradição da Igreja, a ilicitude moral dos meios artificiais de regulação dos nascimentos: "(...) Mas, chamando a atenção dos homens para a observância das normas da lei natural, interpretada pela sua doutrina constante, a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida". A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Vaticano II, aborda o tema de forma genérica no seu ponto 51, concluindo: "Segundo estes princípios, não é lícito aos filhos da Igreja adoptar, na regulação dos nascimentos, caminhos que o magistério, explicitando a lei divina, reprova", com referência em nota de rodapé aos ensinamentos de Pio XI (Encíclica Casti Connubii) e Pio II (Alocução ao Congresso da União Italiana de parteiras, 29 de outubro 1951). O Vaticano II não tratou directamente da questão da contracepção, pois Paulo VI retirou esse tema da agenda do Concílio, entregando-o a uma Comissão extra-conciliar. Esta Comissão, contrariando a tradição da Igreja, concluiu da licitude da contracepção artificial quando usada pontualmente no contexto de um matrimónio globalmente aberto à vida. Com a encíclica "Humanae Vitae", Paulo VI declarou a ilicitude da contracepção artificial, reafirmando a tradição da Igreja.

[5] James T. O'Connor, Vincent Ferrer Gasser, The Gift of Infallibility, Ignatius Press, São Francisco (E.U.A.), 2008, p. 106.

terça-feira, 29 de março de 2011

Coisas inexplicáveis

A Agência Ecclesia, órgão noticioso da Igreja Católica em Portugal, publicita este evento:

Lisboa: Vaticano II em debate
Lisboa, 24 Mar (Ecclesia) – O II Concílio do Vaticano será o tema de um debate, a realizar a 2 de Abril, no Convento de São Domingos, em Lisboa, e promovido pelo Movimento Internacional «Nós Somos Igreja-Portugal».

Programa
14.15 Acolhimento
14.30 Introdução - Frei Bento Domingues, O.P., teólogo
15.00-16.30 - 1º painel - «O Concílio Vaticano II - 1962-1965: Memórias e Vivências»
Intervenções de: Joana Lopes, activista, Frei Mateus Peres, O.P., Maria da Conceição Moita, educadora de infância e Cesário Borga, jornalista.
Debate
Moderadora: Ana Vicente, investigadora
16.30-17.00 - Pausa café
17.00-18.30 - 2º Painel - «O Concílio Vaticano II - 1962-1965: A Igreja e o Futuro»
Intervenções de: Emília Nadal, pintora, Joaquim Franco, jornalista, Teresa Toldy, teóloga, Pedro J. Freitas, professor universitário e actual coordenador do IMWAC (International Movement We Are Church)
Debate
Moderador: Manuel Vilas Boas, jornalista
18.30 Encerramento
Alfreda Ferreira da Fonseca, professora do ensino secundário
19.00 Eucaristia presidida por Frei Bento Domigues, O.P.

Por mais voltas que eu dê, não consigo compreender o porquê de uma organização noticiosa da Igreja Católica dar cobertura a um evento claramente antipapal como este. É que a contradição não podia ser mais gritante. O Vaticano II, na sua Constituição Dogmática "Lumen Gentium" (talvez o trecho do Vaticano II mais citado aqui no blogue), diz isto:

«Este sagrado Concílio propõe de novo, para ser firmemente acreditada por todos os fiéis, esta doutrina sobre a instituição perpétua, alcance e natureza do sagrado primado do Pontífice romano e do seu magistério infalível, e, prosseguindo a matéria começada, pretende declarar e manifestar a todos a doutrina sobre os Bispos, sucessores dos Apóstolos, que, com o sucessor de Pedro, vigário de Cristo (38) e cabeça visível de toda a Igreja, governam a casa de Deus vivo.» - Constituição Dogmática "Lumen Gentium".

Ora, se o acatamento dos ensinamentos doutrinais e morais do Magistério, quer por via do Santo Padre, quer por via dos Bispos a ele unidos, é obrigação de todo o católico, não se compreende como é possível que, ao abrigo de instituições católicas, se continue a dar guarida e tempo de antena a pessoas manifestamente dissidentes e heréticas, que teimam em não aceitar o Vaticano II, apesar de se dizerem, contraditoriamente, defensoras desse Concílio.

A Igreja Católica não é uma instituição democrática, ao contrário do que pretende o grupo dissidente "Nós Somos Igreja", e que está por detrás de mais esta manifestação antipapal. Conforme se vê, através dos próprios documentos do Vaticano II, o católico recebe a doutrina e a moral do Papa e dos Bispos a ele unidos. O católico não decide, não vota, não alvitra, não opta por doutrinas diferentes. A génese da palavra "heresia" leva-nos ao conceito de "escolha". O herege, realmente, escolhe a sua própria doutrina. Logo, o católico não escolhe este ou aquele ponto da doutrina católica, rejeitando os pontos que não lhe convêm. O católico, se é digno desse nome, acata a santa doutrina da Madre Igreja. O resto é conversa de herege.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Evangelho de hoje - Jesus e o Divórcio

Evangelho segundo S. Marcos 10,1-12.

Saindo dali, foi para a região da Judeia, para além do Jordão. As multidões agruparam-se outra vez à volta dele, e outra vez as ensinava, como era seu costume. Aproximaram-se uns fariseus e perguntaram-lhe, para o experimentar, se era lícito ao marido divorciar-se da mulher. Ele respondeu-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» Disseram: «Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela.» Jesus retorquiu: «Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito. Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.» De regresso a casa, de novo os discípulos o interrogaram acerca disto. Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério.»    

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Frei Bento - O incansável verdugo da Humanae Vitae

Frei Bento diz frequentemente coisas em contradição com o Magistério, e hoje em dia ninguém acha isso estranho. E, sobretudo, os "media" não se coíbem de lhe dar espaço, mesmo sendo evidente que se trata de um teólogo cuja doutrina não é ortodoxa. Não digo que os "media" devam evitar dar espaço de antena a católicos com ideias heterodoxas, mas que deveriam, em nome da neutralidade, dar espaço de antena, já agora, aos chatos dos católicos que gostam da coerência.

Diz a Lumen Gentium (Constituição Dogmática do Vaticano II):

«E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.»

Religiosa submissão da vontade e do entendimento!
Espantoso! Haverá dúvidas sobre este trecho?

Vejamos agora o que Frei Bento escreveu recentemente, no contexto da sua eterna guerra contra a Humanae Vitae de Paulo VI:

«3. Mesmo nos temas que não eram considerados dogmas de fé nem palavra infalível dos Papas – creio que desde João XXIII nunca mais se ouviu falar de nenhuma – caiu-se na armadilha de considerar muitas declarações importantes, para a orientação pastoral da Igreja, como definitivas e irreformáveis.», in Não há teologias definitivas.

Comparemos com a Lumen Gentium:


«Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes (78). As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo.»

É evidente que a Humanae Vitae de Paulo VI (repudiada e não aceite por Frei Bento) está dentro desta categoria, e o próprio Paulo VI deixa isso claro no texto da encíclica:

«Nenhum fiel quererá negar que compete ao Magistério da Igreja interpretar também a lei moral natural. É incontestável, na verdade, como declararam muitas vezes os nossos predecessores,(1) que Jesus Cristo, ao comunicar a Pedro e aos Apóstolos a sua autoridade divina e ao enviá-los a ensinar a todos os povos os seus mandamentos, (2) os constituía guardas e intérpretes autênticos de toda a lei moral, ou seja, não só da lei evangélica, como também da natural, dado que ela é igualmente expressão da vontade divina e que a sua observância é do mesmo modo necessária para a salvação.(3)»

Eu fico estupefacto com o atrevimento de Frei Bento, mas mais ainda fico com as pessoas que não vêem as gritantes contradições entre várias das ideias do Frei Bento e a doutrina católica ortodoxa. Este artigo foi publicado no jornal Público a 28 de Novembro de 2010. Um católico lê isto e interroga-se, com razão: "este senhor, teólogo e académico, continua a combater uma encíclica de um Papa, e ... não se passa nada!". Estamos perante um problema, como dizia o teólogo norte-americano Ralph McInerny, de um conflito entre dois magistérios: o Magistério autêntico da Igreja Católica, personificado no Papa e nos Bispos a ele unidos, e um magistério espúrio, falso e impostor, personificado em sacerdotes e teólogos que teimam em desobedecer ao Magistério, pretendendo constituir, para os fiéis leigos e para todo o Povo de Deus, como que um novo magistério, o magistério dos teólogos progressistas.



Senhor, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Acreditar na existência do Diabo é irracional?

O Ricardo Silvestre acha que sim. Insistindo na generalização de determinados aspectos de determinadas religiões, o Ricardo considera que a crença católica na existência do Diabo é uma "irracionalidade religiosa". A generalização é perigosa, pois há muitas religiões que não acreditam na existência do Diabo, e é sempre arriscado adjectivar em bloco "as religiões" quando elas são muito diferentes entre si.

O que o Ricardo critica, neste seu texto, é a alusão recente de Bento XVI a Satanás como estando na origem do mal, alusão nada surpreendente, dado que a crença na existência do Príncipe do Mal é essencial ao credo cristão. O Ricardo acha irracional, essa crença.

O que não está explicado, no texto do Ricardo, é o porquê. Porque é que o Ricardo acha irracional acreditar que o Diabo existe? Será que é porque ele não se vê? É porque se trata de uma hipótese cientificamente indemonstrável? Ora bolas, mas o princípio lógico da não-contradição também é algo que não se vê e que não se demonstra cientificamente, e no entanto, é bem real.

Onde é que está a irracionalidade?
Será que se apoia no materialismo ateu? Já se sabe que os ateus são, regra geral (não todos), materialistas, ou seja, postulam a inexistência de seres imateriais (obviamente, a energia aceitam-na como existente, mas matéria e energia são aspectos de uma mesma realidade material).
Mas dado que não se demonstra cientificamente a inexistência de seres imateriais, só restaria ao ateu demonstrar a irracionalidade da existência de seres imateriais. E é aí que todo o ateu falha, quer por não tentar essa demonstração, quer não ter sucesso quando a tenta fazer.

Na Suma Teológica, o "expert" de razão cristã, São Tomás de Aquino, trata da questão da existência de seres incorpóreos, ou seja, imaterais:

«É necessário admitirem-se certas criaturas incorpóreas. Pois, o que Deus principalmente visa, nas coisas criadas, é o bem, que consiste ao assemelhar-se com Ele. Ora, a perfeita assimilação do efeito com a causa se dá quando aquele imita a esta segundo a virtude pela qual a causa produz o efeito; assim o cálido produz o cálido. Ora, Deus produz a criatura pelo intelecto e pela vontade, como já ficou dito. Donde, para a perfeição do universo se requer existam algumas criaturas intelectuais. Inteligir, porém, não pode ser ato do corpo, nem de nenhuma virtude corpórea, porque todo corpo está situado no lugar e no tempo. Por onde, é necessário admitir-se, para que o universo seja perfeito, a existência de alguma criatura incorpórea. Mas os antigos, ignorando a virtude intelectiva e não distinguindo entre o sentido e o intelecto, opinaram que nada existe no mundo, fora o que pode ser apreendido pelos sentidos e pela imaginação. E como a imaginação só percebe o corpo, opinaram que nenhum ente, além do corpo, pode existir, como diz o Filósofo. Donde procedeu o erro dos Saduceus dizendo que não há espírito (At 23, 8). Mas o fato mesmo de ser o intelecto superior ao sentido prova racionalmente que há certos seres incorpóreos compreensíveis só por aquele.» - Artigo 1º, Questão 50 da Primeira Parte.

Que há de irracional nisto?
Trocado para linguagem moderna, São Tomás explica que o intelecto, também presente no Homem, não pode ter origem material. Filosoficamente, isso está bem demonstrado. É impossível, filosoficamente, explicar aspectos centrais do intelecto humano, como a capacidade de raciocinar, a capacidade de pensamento abstracto, ou ainda o livre arbítrio, se não se postular que o ser humano é um "composto" de matéria e de intelecto. No que diz respeito ao cérebro material, este é necessário para o inteligir do Homem (como via para processar a informação sensorial, e também como "banco de memória"), mas não seria suficiente para explicar o intelecto. O cérebro, sendo material, não chega para explicar todas as faculdades do intelecto humano, pelo que tem que existir algo de imaterial no ser humano para as explicar.

Assim, é fácil, pensando filosoficamente, chegar à conclusão de que há, no ser humano, um aspecto imaterial que está presente, pelo menos, no seu intelecto. São Tomás, partindo do conceito cristão de Deus, faz o raciocínio certo: se Deus, puro e perfeito intelecto, cria as criaturas pelo Seu intelecto e vontade, então, na criação de algumas das criaturas poderá haver uma perfeita ligação entre causa e efeito, sendo que esse efeito (a criação das criaturas mais perfeitas), terá que ter algo semelhante à causa. É assim racional pensar que existirão criaturas dotadas de intelecto e de vontade, que dessa forma espelhem o intelecto e a vontade de Deus. O ser humano é uma dessas criaturas. Adicionalmente, tem na sua existência a componente corpórea. Mas porque não existiriam criaturas de intelecto e de vontade, mas sem a componente corpórea? Chama a tradição, a essas criaturas, "anjos".

Que há então de irracional nisto?
Os anjos, seres dotados de intelecto e de vontade, têm liberdade, uma das propriedades que decorrem da vontade. Terão maior liberdade quanto mais perto estiverem da perfeição divina, pois Deus é sumamente livre. Entenda-se aqui que, apesar de ser necessária a liberdade para cometer o mal, essa mesma opção traz como consequência a escravidão do agente moral, pois o acto maligno é um passo que reduz a liberdade da criatura. Os anjos terão também maior perfeição moral e espiritual quanto mais pertos estiverem de Deus, pois só Deus é sumamente perfeito.

Que é, então, um demónio?
É um anjo que usa a sua vontade livre para desobedecer a Deus.
Que é, então, o Diabo?
É, do conjunto dos demónios, aquele que exerce a liderança e a predominância nessa desobediência a Deus.

Isto é irracional? De que forma?
Muitos ateus vivem presos a uma visão mitológica do cristianismo. Como raramente estudam o cristianismo, ou a teologia cristã, ou mesmo conceitos elementares de Filosofia, agem sobre conceitos distorcidos de cristianismo. Já dizia o Papa João Paulo I:

«Io sono stato molto vicino, come vescovo, anche a quelli che non credono in Dio. Mi son fatto l'idea che essi combattono, spesso, non Dio, ma l'idea sbagliata che essi hanno di Dio.» - Papa João Paulo I, Insegnamenti di Giovanni Paolo I, Libreria Editrice Vaticana, Roma, 1978, citado aqui.

Devem supor o Diabo como um qualquer animal mitológico. Não vêem o Diabo como um ser incorpóreo dotado de intelecto e de vontade livre. Nem sequer entendem que a existência de seres incorpóreos dotados de intelecto e de vontade livre é algo de filosoficamente racional. Mesmo sem entrar no terreno da Teologia, a questão é filosófica e é racional.

Outra coisa que raros ateus chegam a entender, porque simplesmente não procuram entender, é a relação entre Liberdade, por um lado, e Bem e Mal, por outro.
O Bem e o Mal só fazem sentido no contexto da Liberdade. Só quem é livre é capaz de fazer o Bem. Só quem é livre é capaz de fazer o Mal. A própria existência de algo a quem podemos chamar "Bem" ou "Mal" requer a existência de um ser necessário e perfeito, Deus, cuja vontade serve de normativa do "Bem", sendo que a desobediência a esta vontade constitui o "Mal" propriamente dito, como categoria de actos morais errados.

Uma pessoa que peca conscientemente, só o faz porque é livre. Associada a esta liberdade, está a inteligência. Apenas os seres dotados de razão são capazes de tomar decisões livres, ou seja, decisões com valor moral.

Na raiz do acto mau, está a liberdade do Homem. Dado que a própria ideia peregrina de desobedecer a Deus foi tida por uma criatura imaterial, antes de o Homem sequer existir, o Mal surgiu na Criação antes do Homem, e surgiu apenas graças à liberdade que Deus deu às primeiras criaturas inteligentes que criou.

Quando o Diabo, ou outro demónio, sugere, muitas vezes de forma imperceptível, a um ser humano a prática de um mal, essa sugestão é intelectual. O ser humano não ouvirá nada, não verá nada. Simplesmente, nesses casos, é sugestionado ao nível intelectual. Mas o Diabo não tem poder para forçar um ser humano a pecar. O ser humano que, sob sugestão maligna, comete o mal, está na realidade a colaborar com o Mal. Mas é uma colaboração livre. O ser humano continua "ao volante" da sua vontade, e será responsável pelos seus actos conscientes. A própria noção de pecado pressupõe consciência e liberdade na acção pecaminosa. Se alguém é forçado a cometer algo contra a sua vontade, não se pode falar em pecado cometido por essa pessoa.

Note-se que, nos actos humanos maus, nem todos serão influenciados ou motivados por espíritos malignos. Não se deve ir de um extremo (supor a inexistência, ou negar a influência destes seres) a outro (supor que todos os actos humanos malignos decorrem sob influência demoníaca).

Quando tento explicar o que é o Mal a um ateu, ou mesmo a um cristão que nega a existência do Diabo, recorro sempre ao filme 8 Milímetros.



O filme retrata a investigação conduzida por Tom Welles (Nicolas Cage), que a mando de uma viúva que encontrou, no legado do seu falecido marido, um horroroso filme (em película de 8mm) contendo cenas de violação e homicídio, procura os autores criminosos do referido filme. Na cena acima, Tom Welles seguiu a sua investigação até à casa do assassino, o "actor principal" do filme porno-homicida que a viúva lhe mostrou. Ele vai defrontar o assassino.

Na cena final, acima apresentada, o Mal, e o seu efeito no ser humano, estão bem retratados nas palavras da personagem pervertida e criminosa, o sinistro "The Machine", que no final do seu duelo com o investigador Tom Welles, revela-lhe porque razão ele viola e asssassina pessoas inocentes:

"There's no mystery. The things I do, I do them because I like them... because I want to!"

Não encontraria, facilmente, melhor exemplo da ligação profunda entre a prática do mal e a liberdade humana. Como esta história ficcional tão bem exemplifica, muitas vezes não há razões para o mal. Não é a existência do Diabo que é irracional, mas sim a prática do mal. Praticar o mal é irracional, mas é algo bem real, como todos sabemos.

Nesta cena cinematográfica notável, conseguiu-se mostrar a crueza do mal. O assassino parece-se com uma pessoa normal, vulgar, que veríamos na rua sem a temer, sem supormos que ele seria capaz dos actos que comete. Logo no início do excerto acima apresentado, vemos a mãe do assassino (porventura inocente dos crimes do filho) a entrar num autocarro de uma "Faithful Christian Fellowship". Já no final do excerto, durante a luta com Tom, e logo a seguir a retirar a máscara, diz o assassino ao estupefacto Tom: "What did you expect? A monster?". O detalhe magnífico da colocação atrapalhada de uns óculos "inofensivos" confere ao assassino umas aparentes fragilidade e inocência que parecem paradoxais.

Esta cena lembra-nos de que todos podemos praticar o mal, de que não estamos, de todo, imunes à prática do mal. Que a prática do mal, como acto que nasce do intelecto, pode não ter sinais externos facilmente detectáveis: não se julga a bondade ou maldade de uma pessoa pela sua aparência. Ao mesmo tempo, mostra-nos a gratuitidade do mal: o criminoso do filme, "The Machine", fez os crimes porque queria, e só por isso. Ele mesmo diz que não foi maltratado na infância, que não foi abusado sexualmente quando era menor:

"I wasn't beaten, I wasn't molested. Mommy didn't abuse me. Daddy never raped me."

Ele, numa penada, erradica as populares teses sociológicas (que remontam a Rousseau) que fazem do Homem um ser bom, mas que a sociedade por vezes perverte e transforma num ser mau. Este filme mostra o Mal na sua forma crua e bem real. O Mal, não como o produto de uma sociedade degenerada (que, obviamente, pode influenciar ou contextualizar certos actos malignos), mas sim como algo que nasce da liberdade de todo o ser humano.

Deste ponto de vista, há algo de genuinamente satânico, de demoníaco, no comportamento da personagem "The Machine". Não quero com isto dizer que será necessário um assassino deste calibre estar possuído pelo Diabo. Claro que pode estar, mas também pode não estar. Mesmo que não seja o caso de uma possessão demoníaca, a opção livre de um assassino cruel pela via do Mal é algo de genuinamente satânico e demoníaco, pois consiste, precisamente, em cometer o Mal pelo Mal em si mesmo. Pela supremacia da vontade livre sobre a vontade de Deus. Nestes casos, a vontade sobrepõe-se à Justiça, à Razão, à Verdade. A vontade é elevada a um estatuto primordial. A superação da dicotomia entre Bem e Mal, pelo triunfo da vontade humana, é o caminho proposto na modernidade por Nietzsche, mas trata-se do convite de sempre, do convite da serpente:

A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: "Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis"». A serpente retorquiu à mulher: «Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal»., Génesis 3, 1-5.

Até ao dia em que o Homem, pela primeira vez, agiu mal, o Homem não conhecia a distinção entre Bem e Mal. É interessante constatar que Adão e Eva não tinham especial interesse pelo fruto da Árvore do Bem e do Mal até que a serpente lhes prometeu vantagens. A serpente fez nascer em Adão e Eva a vontade de desobedecer a Deus para obterem proveito próprio (neste caso, a sabedoria prometida pela serpente). A serpente sabia bem o que fazia: o essencial não era, de todo, a maçã, ou outro fruto qualquer. O essencial era desobedecer a Deus. Porquê? Porque sim, porque para o Diabo, essa possibilidade é razão suficiente para motivar a transgressão.

Finalmente... porque razão quer Deus criaturas livres?
Porque razão deixou Deus que todas as coisas más acontecessem, e aconteçam?
Por causa do Amor. O amor só é tudo o que pode ser quando é exercido por criaturas livres. O Mal é, assim, um efeito indesejado por Deus, quando Este quer criar criaturas que O amem livremente, e sinceramente. A permissão da existência do Mal é um preço que Deus paga, e bem alto, em nome do Amor. Se Deus impedisse todo o Mal, e teria poder para isso, teria que eliminar, ou pelo menos mutilar seriamente, a liberdade das Suas criaturas.