«A corrente laicista, que deseja a Igreja fechada na sacristia, não creio que seja maioritária na sociedade portuguesa, apesar do nosso passado anticlerical. Mas a grande alergia à presença activa da Igreja talvez resulte da ideia de que ela quer fazer da sociedade e do espaço público uma sacristia. As declarações e posições pouco católicas (sic) de certos movimentos, personalidades e de alguns padres dão a impressão de quererem entregar à repressão do Estado, do Código Penal, dos tribunais, da polícia, da cadeia, as suas convicções morais (sic) (...)», Frei Bento Domingues, Por Opção da Mulher (negrito meu).
E quem terá ordenado este senhor?
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Os diários "católicos" de Che Guevara
Com a inquestionável vitória do SIM no referendo de ontem, a vida com dignidade e, mais especificamente, a vida e a dignidade das mulheres portuguesas acabam de conhecer um irreversível passo em frente no nosso país e, por arrastamento, na Europa e no resto do mundo. O mesmo se diga da autonomia da sociedade civil portuguesa frente à Igreja católica romana, cuja hierarquia (bispos residenciais e párocos, assessorados por Movimentos de leigas/leigos feitos à imagem e semelhança deles!), infelizmente, nesta matéria, não soube manter-se no seu lugar e continuou a comportar-se como se ainda vivêssemos sob o famigerado (sic) regime de Cristandade que o próprio Concílio Vaticano II, de feliz memória, oficialmente enterrou para sempre, mas que ela não se tem cansado de tentar restaurar. No que tem sido vergonhosamente apoiada pela conservadora e moralista (sic) Cúria Romana e seus sucessivos papas, os quais têm estado muito longe do espírito de abertura e de macroecumenismo do seu antecessor João XXIII, o mesmo que convocou aquele Concílio, para que ele fosse uma saudável e fecunda Revolução (sic) no interior da Igreja católica em todo o mundo. - breve trecho da entrada de 12 de Fevereiro do diário do "padre" Mário de Oliveira (negrito meu).
Afonso Costa, se fosse vivo, não diria melhor, senhor "padre"!
(quem será que ordenou este senhor?)
Afonso Costa, se fosse vivo, não diria melhor, senhor "padre"!
(quem será que ordenou este senhor?)
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
Ideias claras e distintas
«Antes da décima semana, não havendo ainda actividade neuronal, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído.» - Prof. (e Padre) Anselmo Borges, in Referendo sobre o aborto, DN, 21 de Janeiro de 2007.
Sinto-me perplexo quando vejo um docente de Filosofia, para mais padre, recusar o uso de conceitos essenciais de Metafísica para, no fundo, falar com falaria um pensador materialista.
Não deixa, contudo, de ser irónico o uso da expressão "não é claro", apelando àquelas cartesianas ideias claras e distintas que estão na base da Filosofia moderna (e, na minha opinião, da derrocada moderna da Filosofia).
Afinal, o Prof. Anselmo Borges não parece ter ideias claras e distintas acerca do assunto que está a comentar, o que seria uma óptima razão para apelar ao voto "não". Ora, se nem um professor de Filosofia, com anos de carreira, tem ideias claras acerca da questão, como poderia o comum dos mortais votar "sim", quando é necessária a absoluta certeza, para lá de qualquer dúvida, para votar "sim", afirmando com esse voto que o feto de dez semanas não tem direito de viver?
Na minha modesta mente de cristão leigo não docente nem filósofo encartado, da leitura do artigo de opinião do Prof. Anselmo Borges, surgem-me algumas questões, que passo a enunciar:
1. "Não é claro" para quem? Para o Prof. Anselmo Borges? Não é claro em absoluto?
2. Apesar de o senhor Prof. Anselmo Borges não detectar actividade cerebral no feto, o programa genético do novo ser humano não está já capacitado para gerar essa mesma actividade? E o que entende por "actividade cerebral"? A organogénese está terminada à oitava semana: o tálamo está lá, há actividade sináptica; é certo que o córtex ainda está em formação, mas dizer que não há actividade cerebral é forte!
3. Mais vale parecê-lo do que sê-lo? Para o Prof. Anselmo Borges é mais importante a forma que a essência?
4. Quando é que entra algo de novo no feto para o tornar plenamente humano? Se ainda "não é claro" que às dez semanas, "o processo de constituição de um novo ser humano está concluído", quando é que isso se torna "claro"? Com a actividade cerebral? E ela surge por magia? Ou em virtude de um programa genético pré-existente, desde a formação (constituição) do zigoto?
Eu não sou professor de Filosofia, mas parece-me que há uma confusão de conceitos, quando o Prof. usa o termo "constituição" para algo que já está constituido: o zigoto, produto da fertilização do óvulo pelo espermatozóide, já está constituído muito antes! Se calhar, a expressão que o Prof. Anselmo Borges poderia ter usado era a de "processo de formação", querendo com isso dizer que a forma desse ser ainda estava em aperfeiçoamento. Mas esse processo de modificação formal não continua, mesmo depois do nascimento, ao longo da vida?
Afinal, senhor Professor, o que é que interessa para o direito à vida?
a) o que se é; a essência do ser humano (que está no zigoto)?
b) ou a nossa forma exterior, o nosso estágio de maturação?
Se o Prof. Anselmo Borges fosse apenas Professor de Filosofia, eu não me espantaria, dada a deriva intelectual da Filosofia moderna, que defendesse uma visão tão materialista, tão pouco ontológica, tão pouco metafísica, do ser humano. Afinal, senhor Professor, onde está a quididade do ser humano? Qual é ela para si?
O que torna esta situação mais complicada é que o Prof. Anselmo Borges é sacerdote, pelo que terá tido certamente formação em filosofia cristã. Ora, essa filosofia não deixa espaços ambíguos que justifiquem este tipo de confusões. Um São Tomás de Aquino seria capaz de as resolver num ápice.
Termino com Tertuliano, para não estar sempre a recorrer ao aquinate, esperando que isso possa ajudá-lo no processo de clarificação das suas ideias:
«Homicidii festinatio est prohibere nasci, nec refert natam quis eripiat animam an nascentem disturbet. Homo est et qui est futurus; etiam fructus omnis iam in semine est.» – Tertuliano, Apologeticum, IX, 8.
«Impedir um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar um homem, não importando se se mata a vida de quem já nasceu, ou se põe fim à de quem está para nascer. Esse é um homem que se está a formar, pois tendes o fruto já em sua semente.» (adaptado da tradução de José Fernandes Vidal)
Sinto-me perplexo quando vejo um docente de Filosofia, para mais padre, recusar o uso de conceitos essenciais de Metafísica para, no fundo, falar com falaria um pensador materialista.
Não deixa, contudo, de ser irónico o uso da expressão "não é claro", apelando àquelas cartesianas ideias claras e distintas que estão na base da Filosofia moderna (e, na minha opinião, da derrocada moderna da Filosofia).
Afinal, o Prof. Anselmo Borges não parece ter ideias claras e distintas acerca do assunto que está a comentar, o que seria uma óptima razão para apelar ao voto "não". Ora, se nem um professor de Filosofia, com anos de carreira, tem ideias claras acerca da questão, como poderia o comum dos mortais votar "sim", quando é necessária a absoluta certeza, para lá de qualquer dúvida, para votar "sim", afirmando com esse voto que o feto de dez semanas não tem direito de viver?
Na minha modesta mente de cristão leigo não docente nem filósofo encartado, da leitura do artigo de opinião do Prof. Anselmo Borges, surgem-me algumas questões, que passo a enunciar:
1. "Não é claro" para quem? Para o Prof. Anselmo Borges? Não é claro em absoluto?
2. Apesar de o senhor Prof. Anselmo Borges não detectar actividade cerebral no feto, o programa genético do novo ser humano não está já capacitado para gerar essa mesma actividade? E o que entende por "actividade cerebral"? A organogénese está terminada à oitava semana: o tálamo está lá, há actividade sináptica; é certo que o córtex ainda está em formação, mas dizer que não há actividade cerebral é forte!
3. Mais vale parecê-lo do que sê-lo? Para o Prof. Anselmo Borges é mais importante a forma que a essência?
4. Quando é que entra algo de novo no feto para o tornar plenamente humano? Se ainda "não é claro" que às dez semanas, "o processo de constituição de um novo ser humano está concluído", quando é que isso se torna "claro"? Com a actividade cerebral? E ela surge por magia? Ou em virtude de um programa genético pré-existente, desde a formação (constituição) do zigoto?
Eu não sou professor de Filosofia, mas parece-me que há uma confusão de conceitos, quando o Prof. usa o termo "constituição" para algo que já está constituido: o zigoto, produto da fertilização do óvulo pelo espermatozóide, já está constituído muito antes! Se calhar, a expressão que o Prof. Anselmo Borges poderia ter usado era a de "processo de formação", querendo com isso dizer que a forma desse ser ainda estava em aperfeiçoamento. Mas esse processo de modificação formal não continua, mesmo depois do nascimento, ao longo da vida?
Afinal, senhor Professor, o que é que interessa para o direito à vida?
a) o que se é; a essência do ser humano (que está no zigoto)?
b) ou a nossa forma exterior, o nosso estágio de maturação?
Se o Prof. Anselmo Borges fosse apenas Professor de Filosofia, eu não me espantaria, dada a deriva intelectual da Filosofia moderna, que defendesse uma visão tão materialista, tão pouco ontológica, tão pouco metafísica, do ser humano. Afinal, senhor Professor, onde está a quididade do ser humano? Qual é ela para si?
O que torna esta situação mais complicada é que o Prof. Anselmo Borges é sacerdote, pelo que terá tido certamente formação em filosofia cristã. Ora, essa filosofia não deixa espaços ambíguos que justifiquem este tipo de confusões. Um São Tomás de Aquino seria capaz de as resolver num ápice.
Termino com Tertuliano, para não estar sempre a recorrer ao aquinate, esperando que isso possa ajudá-lo no processo de clarificação das suas ideias:
«Homicidii festinatio est prohibere nasci, nec refert natam quis eripiat animam an nascentem disturbet. Homo est et qui est futurus; etiam fructus omnis iam in semine est.» – Tertuliano, Apologeticum, IX, 8.
«Impedir um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar um homem, não importando se se mata a vida de quem já nasceu, ou se põe fim à de quem está para nascer. Esse é um homem que se está a formar, pois tendes o fruto já em sua semente.» (adaptado da tradução de José Fernandes Vidal)
domingo, 4 de fevereiro de 2007
O que é ser católico?
Uma notícia recente da Agência Lusa, de 1 de Fevereiro, intitulada "Aborto: católicos pelo "sim" dizem que despenalização não contraria dogmas", dava conta de um grupo de "católicos" que advogava o voto "sim" no referendo sobre o aborto, alegando que era possível ser-se católico e votar "sim". Uma notícia semelhante surgiu também no Público, com o título inacreditavelmente enganador de "Pode ser-se católico e a favor da despenalização do aborto".
Um destes grupos auto-intitulados "católicos", bem conhecido de quem está atento à sub-cultura anti-católica, chama-se Catholics for a Free Choice e é de origem nova-iorquina, estando associado intimamente a clássicos movimentos pró-escolha (para não dizer "pró-aborto"), como a Planned Parenthood Federation of America. Na dita notícia, esse grupo surgia associado, nesta campanha pelo "sim", ao grupo Nós Somos Igreja, uma associação internacional dita "católica" que combate por todas as contra-causas do costume: sacerdócio para as mulheres, fim do celibato obrigatório, acesso livre à contracepção artificial, concórdia com os teólogos dissidentes, entre outras semelhantes.
Sobre estes dois grupos que se intitulam de "católicos" e que nada têm de católico, escreverei em breve outro texto, para evitar tornar este texto demasiado longo.
Para além desta, outra notícia recente no Diário de Notícias, datada de 3 de Fevereiro, e intitulada "São católicos e militam pela despenalização", dava conta de mais uns quantos exemplos de católicos que vão votar "sim" e das suas razões...
Devido a situações destas, que são deploráveis, nunca é demais insistir no facto de que é impossível defender catolicamente o voto "sim". Evidentemente que vários católicos poderão vir a votar "sim", mas se o fizerem estarão a cometer um acto totalmente contraditório com a doutrina que professam. Não existe qualquer coerência entre ser católico e votar "sim". Não é fácil explicar, de forma sintética, porque é que isto é assim, mas vou tentar fazê-lo em poucas frases.
Em primeiro lugar, é certo que a pura despenalização da mulher que aborta a sua gravidez pode ser compatibilizada com o magistério. A doutrina da Igreja não poderia obstar à remoção da aplicação de uma pena, sobretudo se o objectivo fosse sempre o de ter em consideração determinadas circunstâncias desculpabilizantes e aconselhar a mulher, em vez de a punir. Mas deveria ser claro, e só não o é porque a pergunta do referendo é enganadora, que a resposta "sim" permite a legalização do aborto a pedido até às dez semanas. E isso significa que cada voto "sim" é uma aprovação moral e ética à prática do aborto até às dez semanas, e é deste modo que o voto "sim" choca de frente com o que de mais elementar existe no catolicismo em matéria de direitos humanos e de Justiça. É por esta razão, e não por causa da despenalização da mulher, que votar "sim" esbarra contra a essência do ser católico.
E ainda poderíamos afirmar que a despenalização generalizada (a pergunta não especifica que vai despenalizar apenas a mulher que aborta) é dramaticamente injusta: deixa fora do alcance penal o pessoal médico e clínico de ética duvidosa que efectua o aborto com autorização da mulher, sem escrúpulos, sabendo que o aborto, para além de ser uma morte provocada de um ser humano inocente, irá também prejudicar gravemente a mulher. Enquanto que eu poderia concordar com a despenalização da maior parte das mulheres (de novo, concordar com a despenalização de TODAS as mulheres seria demasiado abrangente e injusto), não posso concordar com a despenalização geral de todos os envolvidos no crime do aborto. Contudo, a discordância face à despenalização generalizada do crime de aborto é uma discordância baseada em elementares conceitos de Justiça, e que não pertence, por essa razão, exclusivamente ao domínio do ser católico.
Aqueles que têm seguido este blogue nos últimos anos, recordam-se de uma disputa que aqui teve lugar há uns meses a esta parte, quando referi que era complicado, para não dizer mais, ser-se católico e recusar, por exemplo, a existência do Diabo.
Quando escrevi textos sobre esta questão, fui duramente criticado por muitos católicos que não acreditavam na existência do Diabo e que se sentiam incomodados pelo facto de eu lhes ter dito que não eram católicos coerentes.
Apesar de serem situações bem diferentes na sua gravidade (é bem mais grave querer ser católico e defender o "sim" do que querer ser católico e não acreditar na existência do Diabo), é inegável que têm algo em comum: uma grave confusão acerca do que significa ser católico.
Sem quaisquer pretensões de ser exaustivo ou erudito (não tenho autoridade para tal), parece-me útil abordar esta questão de dois pontos de vista diferentes:
O Pragmático
- Ser católico é ser baptizado: o baptismo é uma marca sacramental indelével na alma, ou seja, na parte psíquica do nosso ser; por outras palavras, o baptismo não se apaga nem pode ser apagado: um apóstata ou um excomungado, mesmo tendo ambos perdido a comunhão eclesial, continua baptizado - nenhum destes dois estados é irreversível, o que mostra bem a força da marca do baptismo
- Ser católico é seguir a doutrina católica, conforme exposta no Catecismo da Igreja Católica; evidentemente, esta doutrina condena objectivamente o aborto provocado e quaisquer medidas que o aprovem, legitimem ou autorizem.
Esta abordagem pragmática tem a vantagem de ser clara e concisa.
Tem, evidentemente, a desvantagem de poder parecer para alguns demasiado simplista, demasiado autoritária, demasiado fria e calculista. Por isso, importa tomar em consideração o ponto de vista histórico, que melhor elucida, na minha opinião, a importância do sensus catholicus que devia reger a vida de qualquer crente católico.
O Histórico
- Ser católico é aderir à doutrina católica apostólica: esta doutrina tem sido transmitida imutável na sua essência desde Jesus Cristo, passando pelos doze apóstolos, passando pelo testemunho dos primeiros cristãos e dos sucessores dos apóstolos, e passando pela tradição da Igreja erigida em torno do sucessor de São Pedro
- Por isso, ser católico é reconhecer a tradição escrita e oral da Igreja (esta última ainda mais importante), que inclui a absorção do Antigo Testamento (com o seu Decálogo que, entre outras coisas, proíbe o homicídio), todo o Novo Testamento, que inclui os quatro evangelhos e as epístolas paulinas, e ainda os importantíssimos primeiros quatro concílios ecuménicos: Niceia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedónia (451); nestes primeiros quatro concílios, a fé católica ficou definida de modo mais nítido e formal, com base na tradição apostólica que remonta a Jesus Cristo
Os dogmas formalizados em concílios ulteriores, e restantes proclamações papais ex cathedra, fazem parte do núcleo imutável da doutrina cristã, porque, apesar da sua "novidade" formal, nada adicionam de verdadeiramente novo à essência da fé, nem alteram ou revogam nada de fundamental nesta mesma fé.
É por esta razão que, no tempo de Pio IX, foi proclamado como dogma de fé a infalibilidade papal em matéria de moral e doutrina católica. É exactamente porque este núcleo doutrinal é imutável que se pode afirmar que o Papa, quando fala acerca deste núcleo (ex cathedra, ou seja, "da sua cátedra" papal), é verdadeiramente infalível. Só podia sê-lo! O dogma da infalibilidade papal é uma constatação de facto, é a formalização dogmática de algo que já era real e que será sempre real.
Por isso, torna-se absurdo e inútil discutir a essência da doutrina católica. Quem o tenta fazer, sejam movimentos como o "Nós Somos Igreja", ou sejam sacerdotes ou leigos que discordam desta essência, apenas demonstra uma de duas coisas: a) ignorância acerca desta essência doutrinal, b) a vontade de destruir ou deformar (a última implica a primeira) esta essência doutrinal.
Como é evidente, ninguém é obrigado a ser católico nem a partilhar desta doutrina. Tais pessoas são livres de formarem as suas próprias Igrejas. O que é inaceitável é que se considere "católico" algo que não partilha da dita doutrina.
Muitas destas confusões nascem também da não diferenciação entre "essência" e "forma". Existe um número indefinido de formas válidas de se ser católico. O sufismo islâmico, é curioso notá-lo, afirma que existem tantos caminhos para Deus quanto o número de seres humanos. Neste caso, é usado o simbolismo geométrico da circunferência, cujo centro é Deus e cujos pontos (indefinidos em número) são os seres humanos, vivos ou mortos. O caminho de cada pessoa para Deus é como um raio que parte de cada pessoa e que se dirige para Deus. O ponto de partida, bem como o caminho que se percorre, é variável (depende de cada pessoa e é apenas único para essa pessoa), mas o sentido do percurso é sempre o mesmo e imutável: para o Centro.
A individualidade, e peculiaridade, da forma de se ser católico está presente no facto de que cada pessoa é uma pessoa diferente, e por isso, cada qual pode seguir o seu caminho católico "à sua maneira". Mas apenas no domínio da forma, e nunca no da essência!
Porque, certamente, do mesmo modo que o caminho certo para Deus é simbolizado pela recta que liga cada ponto ao centro, também o caminho doutrinal católico correcto (ortodoxo) é apenas um para cada pessoa, apesar de ser diferenciado para cada uma. É essa unicidade que melhor serve para definir a imutabilidade e eternidade da doutrina católica.
Aqueles que preconizam a relatividade da essência católica, falando abusivamente em "consciências pessoais", querem, na verdade, um catolicismo "à la carte", como uma pizza cujos ingredientes somos nós a escolher. E isso é inaceitável!
Há também, naqueles que falam em "liberdade de escolher", um grave erro do significado da liberdade para o catolicismo. Cada pessoa é livre de fazer o que quiser da sua vida, inclusive abortar. Contudo, como ensina o catolicismo, cada qual será julgado pela vida que levou. Essa liberdade para errar, uma liberdade inegável e bem real (não somos autómatos!), não implica que a doutrina católica tenha que ser destruída para lá meter à pressão um falso direito de abortar. Abortar nunca poderá ser um direito, por duas razões:
1. Os principais envolvidos, a mãe e o filho, não ganham nada com esse suposto "direito", antes pelo contrário, perdem e muito com o aborto; faz sentido criar direitos que não são benéficos para os envolvidos?
2. Qualquer presumido direito deixa de o ser quando agride outro direito; o direito da mãe em "optar" por matar o seu filho agride de forma inaceitável o seu direito à vida; desta forma, é absurdo falar em "harmonização" ou "ponderação" de direitos, porque se a mãe ganha o "direito" a matar, isso só se faz à custa do sacrifício de outro direito!
Para terminar, podemos, se tivermos boas razões, discordar de certas normas canónicas, ou de certos preceitos secundários emanados da Santa Sé, desde que não sejam questões doutrinais, questões que não ponham em causa a moral e a doutrina católicas. A moral e a doutrina da Igreja são imutáveis e tudo o que o Santo Padre disser ex cathedra acerca delas é matéria infalível.
Ainda um ponto importante: há quem pretenda votar "sim" porque pensa que tal voto vai ajudar a minorar o número de abortos, e consequentemente, salvar mais vidas humanas. Se bem que esta posição poderia ser legítima para alguém que partilhasse de uma ética utilitarista, essa posição é inaceitável no quadro da ética católica, que é essencialmente uma ética deontológica. Neste tipo de éticas, uma má acção, mesmo que traga eventualmente boas consequências, é sempre inaceitável. Por isso, votar "sim" e legitimar a prática do aborto por opção, é uma má acção, mesmo que pudesse minorar o número de abortos. No catolicismo, bem como numa qualquer ética deontológica clássica, os bons fins não justificam nunca os maus meios.
E, mesmo assim, é complicado demonstrar que a legalização do aborto vai reduzir o número de abortos quando as estatísticas, em vários países que o fizeram, apontam precisamente para o contrário, para um aumento exponencial no número de abortos...
Um destes grupos auto-intitulados "católicos", bem conhecido de quem está atento à sub-cultura anti-católica, chama-se Catholics for a Free Choice e é de origem nova-iorquina, estando associado intimamente a clássicos movimentos pró-escolha (para não dizer "pró-aborto"), como a Planned Parenthood Federation of America. Na dita notícia, esse grupo surgia associado, nesta campanha pelo "sim", ao grupo Nós Somos Igreja, uma associação internacional dita "católica" que combate por todas as contra-causas do costume: sacerdócio para as mulheres, fim do celibato obrigatório, acesso livre à contracepção artificial, concórdia com os teólogos dissidentes, entre outras semelhantes.
Sobre estes dois grupos que se intitulam de "católicos" e que nada têm de católico, escreverei em breve outro texto, para evitar tornar este texto demasiado longo.
Para além desta, outra notícia recente no Diário de Notícias, datada de 3 de Fevereiro, e intitulada "São católicos e militam pela despenalização", dava conta de mais uns quantos exemplos de católicos que vão votar "sim" e das suas razões...
Devido a situações destas, que são deploráveis, nunca é demais insistir no facto de que é impossível defender catolicamente o voto "sim". Evidentemente que vários católicos poderão vir a votar "sim", mas se o fizerem estarão a cometer um acto totalmente contraditório com a doutrina que professam. Não existe qualquer coerência entre ser católico e votar "sim". Não é fácil explicar, de forma sintética, porque é que isto é assim, mas vou tentar fazê-lo em poucas frases.
Em primeiro lugar, é certo que a pura despenalização da mulher que aborta a sua gravidez pode ser compatibilizada com o magistério. A doutrina da Igreja não poderia obstar à remoção da aplicação de uma pena, sobretudo se o objectivo fosse sempre o de ter em consideração determinadas circunstâncias desculpabilizantes e aconselhar a mulher, em vez de a punir. Mas deveria ser claro, e só não o é porque a pergunta do referendo é enganadora, que a resposta "sim" permite a legalização do aborto a pedido até às dez semanas. E isso significa que cada voto "sim" é uma aprovação moral e ética à prática do aborto até às dez semanas, e é deste modo que o voto "sim" choca de frente com o que de mais elementar existe no catolicismo em matéria de direitos humanos e de Justiça. É por esta razão, e não por causa da despenalização da mulher, que votar "sim" esbarra contra a essência do ser católico.
E ainda poderíamos afirmar que a despenalização generalizada (a pergunta não especifica que vai despenalizar apenas a mulher que aborta) é dramaticamente injusta: deixa fora do alcance penal o pessoal médico e clínico de ética duvidosa que efectua o aborto com autorização da mulher, sem escrúpulos, sabendo que o aborto, para além de ser uma morte provocada de um ser humano inocente, irá também prejudicar gravemente a mulher. Enquanto que eu poderia concordar com a despenalização da maior parte das mulheres (de novo, concordar com a despenalização de TODAS as mulheres seria demasiado abrangente e injusto), não posso concordar com a despenalização geral de todos os envolvidos no crime do aborto. Contudo, a discordância face à despenalização generalizada do crime de aborto é uma discordância baseada em elementares conceitos de Justiça, e que não pertence, por essa razão, exclusivamente ao domínio do ser católico.
Aqueles que têm seguido este blogue nos últimos anos, recordam-se de uma disputa que aqui teve lugar há uns meses a esta parte, quando referi que era complicado, para não dizer mais, ser-se católico e recusar, por exemplo, a existência do Diabo.
Quando escrevi textos sobre esta questão, fui duramente criticado por muitos católicos que não acreditavam na existência do Diabo e que se sentiam incomodados pelo facto de eu lhes ter dito que não eram católicos coerentes.
Apesar de serem situações bem diferentes na sua gravidade (é bem mais grave querer ser católico e defender o "sim" do que querer ser católico e não acreditar na existência do Diabo), é inegável que têm algo em comum: uma grave confusão acerca do que significa ser católico.
Sem quaisquer pretensões de ser exaustivo ou erudito (não tenho autoridade para tal), parece-me útil abordar esta questão de dois pontos de vista diferentes:
O Pragmático
- Ser católico é ser baptizado: o baptismo é uma marca sacramental indelével na alma, ou seja, na parte psíquica do nosso ser; por outras palavras, o baptismo não se apaga nem pode ser apagado: um apóstata ou um excomungado, mesmo tendo ambos perdido a comunhão eclesial, continua baptizado - nenhum destes dois estados é irreversível, o que mostra bem a força da marca do baptismo
- Ser católico é seguir a doutrina católica, conforme exposta no Catecismo da Igreja Católica; evidentemente, esta doutrina condena objectivamente o aborto provocado e quaisquer medidas que o aprovem, legitimem ou autorizem.
Esta abordagem pragmática tem a vantagem de ser clara e concisa.
Tem, evidentemente, a desvantagem de poder parecer para alguns demasiado simplista, demasiado autoritária, demasiado fria e calculista. Por isso, importa tomar em consideração o ponto de vista histórico, que melhor elucida, na minha opinião, a importância do sensus catholicus que devia reger a vida de qualquer crente católico.
O Histórico
- Ser católico é aderir à doutrina católica apostólica: esta doutrina tem sido transmitida imutável na sua essência desde Jesus Cristo, passando pelos doze apóstolos, passando pelo testemunho dos primeiros cristãos e dos sucessores dos apóstolos, e passando pela tradição da Igreja erigida em torno do sucessor de São Pedro
- Por isso, ser católico é reconhecer a tradição escrita e oral da Igreja (esta última ainda mais importante), que inclui a absorção do Antigo Testamento (com o seu Decálogo que, entre outras coisas, proíbe o homicídio), todo o Novo Testamento, que inclui os quatro evangelhos e as epístolas paulinas, e ainda os importantíssimos primeiros quatro concílios ecuménicos: Niceia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedónia (451); nestes primeiros quatro concílios, a fé católica ficou definida de modo mais nítido e formal, com base na tradição apostólica que remonta a Jesus Cristo
Os dogmas formalizados em concílios ulteriores, e restantes proclamações papais ex cathedra, fazem parte do núcleo imutável da doutrina cristã, porque, apesar da sua "novidade" formal, nada adicionam de verdadeiramente novo à essência da fé, nem alteram ou revogam nada de fundamental nesta mesma fé.
É por esta razão que, no tempo de Pio IX, foi proclamado como dogma de fé a infalibilidade papal em matéria de moral e doutrina católica. É exactamente porque este núcleo doutrinal é imutável que se pode afirmar que o Papa, quando fala acerca deste núcleo (ex cathedra, ou seja, "da sua cátedra" papal), é verdadeiramente infalível. Só podia sê-lo! O dogma da infalibilidade papal é uma constatação de facto, é a formalização dogmática de algo que já era real e que será sempre real.
Por isso, torna-se absurdo e inútil discutir a essência da doutrina católica. Quem o tenta fazer, sejam movimentos como o "Nós Somos Igreja", ou sejam sacerdotes ou leigos que discordam desta essência, apenas demonstra uma de duas coisas: a) ignorância acerca desta essência doutrinal, b) a vontade de destruir ou deformar (a última implica a primeira) esta essência doutrinal.
Como é evidente, ninguém é obrigado a ser católico nem a partilhar desta doutrina. Tais pessoas são livres de formarem as suas próprias Igrejas. O que é inaceitável é que se considere "católico" algo que não partilha da dita doutrina.
Muitas destas confusões nascem também da não diferenciação entre "essência" e "forma". Existe um número indefinido de formas válidas de se ser católico. O sufismo islâmico, é curioso notá-lo, afirma que existem tantos caminhos para Deus quanto o número de seres humanos. Neste caso, é usado o simbolismo geométrico da circunferência, cujo centro é Deus e cujos pontos (indefinidos em número) são os seres humanos, vivos ou mortos. O caminho de cada pessoa para Deus é como um raio que parte de cada pessoa e que se dirige para Deus. O ponto de partida, bem como o caminho que se percorre, é variável (depende de cada pessoa e é apenas único para essa pessoa), mas o sentido do percurso é sempre o mesmo e imutável: para o Centro.
A individualidade, e peculiaridade, da forma de se ser católico está presente no facto de que cada pessoa é uma pessoa diferente, e por isso, cada qual pode seguir o seu caminho católico "à sua maneira". Mas apenas no domínio da forma, e nunca no da essência!
Porque, certamente, do mesmo modo que o caminho certo para Deus é simbolizado pela recta que liga cada ponto ao centro, também o caminho doutrinal católico correcto (ortodoxo) é apenas um para cada pessoa, apesar de ser diferenciado para cada uma. É essa unicidade que melhor serve para definir a imutabilidade e eternidade da doutrina católica.
Aqueles que preconizam a relatividade da essência católica, falando abusivamente em "consciências pessoais", querem, na verdade, um catolicismo "à la carte", como uma pizza cujos ingredientes somos nós a escolher. E isso é inaceitável!
Há também, naqueles que falam em "liberdade de escolher", um grave erro do significado da liberdade para o catolicismo. Cada pessoa é livre de fazer o que quiser da sua vida, inclusive abortar. Contudo, como ensina o catolicismo, cada qual será julgado pela vida que levou. Essa liberdade para errar, uma liberdade inegável e bem real (não somos autómatos!), não implica que a doutrina católica tenha que ser destruída para lá meter à pressão um falso direito de abortar. Abortar nunca poderá ser um direito, por duas razões:
1. Os principais envolvidos, a mãe e o filho, não ganham nada com esse suposto "direito", antes pelo contrário, perdem e muito com o aborto; faz sentido criar direitos que não são benéficos para os envolvidos?
2. Qualquer presumido direito deixa de o ser quando agride outro direito; o direito da mãe em "optar" por matar o seu filho agride de forma inaceitável o seu direito à vida; desta forma, é absurdo falar em "harmonização" ou "ponderação" de direitos, porque se a mãe ganha o "direito" a matar, isso só se faz à custa do sacrifício de outro direito!
Para terminar, podemos, se tivermos boas razões, discordar de certas normas canónicas, ou de certos preceitos secundários emanados da Santa Sé, desde que não sejam questões doutrinais, questões que não ponham em causa a moral e a doutrina católicas. A moral e a doutrina da Igreja são imutáveis e tudo o que o Santo Padre disser ex cathedra acerca delas é matéria infalível.
Ainda um ponto importante: há quem pretenda votar "sim" porque pensa que tal voto vai ajudar a minorar o número de abortos, e consequentemente, salvar mais vidas humanas. Se bem que esta posição poderia ser legítima para alguém que partilhasse de uma ética utilitarista, essa posição é inaceitável no quadro da ética católica, que é essencialmente uma ética deontológica. Neste tipo de éticas, uma má acção, mesmo que traga eventualmente boas consequências, é sempre inaceitável. Por isso, votar "sim" e legitimar a prática do aborto por opção, é uma má acção, mesmo que pudesse minorar o número de abortos. No catolicismo, bem como numa qualquer ética deontológica clássica, os bons fins não justificam nunca os maus meios.
E, mesmo assim, é complicado demonstrar que a legalização do aborto vai reduzir o número de abortos quando as estatísticas, em vários países que o fizeram, apontam precisamente para o contrário, para um aumento exponencial no número de abortos...
quinta-feira, 25 de maio de 2006
Carta aberta à Prof. Helena Barbas
Ontem assisti, na RTP-N, a um interessante debate acerca da omnipresente obra polémica da Dan Brown. Foi um debate que me perturbou profundamente, sobretudo pela forma como a Professora Helena Barbas nele participou.
Assim, escrevo esta carta aberta à Professora Helena Barbas, pedindo-lhe que me elucide sobre certas questões que me ficaram no espírito durante e após o visionamento do dito debate. Com esta missiva, não tenho qualquer pretensão de provar o que quer que seja, apenas desejo manifestar publicamente as minhas dúvidas, aguardando ser esclarecido.
Exma. Senhora
Prof. Helena Barbas,
Manifestando desde já todo o respeito pelo seu estatuto de docente universitária, e em consideração pelo seu conhecido e reconhecido trabalho académico, venho por este meio, humildemente, comunicar-lhe algumas dúvidas que tenho acerca daquilo que disse no debate conduzido ontem, dia 24 de Maio, em directo no canal RTP-N acerca do livro de Dan Brown, "O Código da Vinci".
Apenas dependendo da minha memória, irei apontar as suas afirmações que me intrigaram, esperando ser fiel na sua reprodução:
A) Sobre a datação dos Evangelhos
Pareceu-me ter ouvido a senhora Professora afirmar que os Evangelhos Canónicos seriam largamente posteriores ao tempo de Jesus; se bem entendi, a senhora Professoria teria afirmado que o mais antigo dos evangelhos dataria de sessenta anos após a morte de Jesus; no entanto, tenho presente outros dados diferentes acerca da datação dos evangelhos. O Evangelho de São João, esse sim considerado o mais tardio, teria sido composto por volta dos anos 90-100 d.C., ou seja, mais ou menos sessenta anos após a morte de Jesus. Mas esse seria o mais tardio!
Em primeiro lugar, a senhora Professora saberá certamente que os Evangelhos ditos de Lucas, Marcos, Mateus e João não são vistos pela Igreja como tendo sido, necessariamente, escritos por estes autores. Pelo que a minha argumentação de antiguidade e historicidade será baseada no conteúdo destes textos, mais do que sobre a materialidade dos textos na forma escrita.
Este é um ponto importante: independentemente do escriba, da pessoa que os materializou pela primeira vez, o conteúdo destes textos respeitaria a tradição oral atribuída a Mateus, Marcos, Lucas e João. A palavra grega "kata", ou seja, "segundo" é aqui essencial: deve-se dizer "Evangelho Segundo S. Lucas", "Evangelho Segundo S. Marcos", etc., marcando claramente que se procura autenticar não tanto o autor físico e material dos textos (o escriba), mas sobretudo o seu inspirador. A tradição oral pré-existe à escrita e não pode ser desprezada do ponto de vista histórico, visto que há ampla evidência do seu relevo na tradição da Igreja. Bastaria recordar, mas não a desenvolverei aqui porque nos levaria demasiado longe, a essencial questão da "disciplina do arcano" e a influência desta no património doutrinal cristão (1).
Apenas para se obter um termo de comparação, a senhora professora saberá certamente que uma boa parte da tradição judaica se transmite por via oral, pelo que não é improvável que, nos primeiros séculos, os cristãos tivessem usado uma estrita e rigorosa tradição oral, pelo recurso à prática da memorização e repetição de textos de grande dimensão.
Posto isto, eis o que pude aprender acerca destes Evangelhos...
Sobre S. Mateus, é complicada a questão acerca de se saber se o texto original seria em aramaico e a versão grega seria posterior, ou se seria ao contrário. À parte destas questões, que são importantes certamente, a datação deste evangelho é maioritariamente consensual na escolha da década de 60 d.C. como a data mais tardia. Não encontro sustentação académica para as datações posteriores a esta década, conforme consta na obra de certos críticos (Weiss and Harnack datam em 70-75; Renan em 85, Réville, entre 69 e 96, Jülicher, entre 81 e 96, Montefiore, entre 90-100, Volkmar, em 110; Baur entre 130 e 34), de forma puramente conjectural, supondo que quando Jesus fala profeticamente acerca da perseguição aos cristãos isso seria prova de que a perseguição aos cristãos no primeiro século já teria ocorrido. Ou seja, a datação é feita por conjectura e não com base em dados mais concretos de estilística, análise lexical ou pelo cruzamento deste evangelho com os restantes.
Sobre São Marcos, a tradição cristã, pela via de autores bastante antigos e respeitáveis como Eusébio, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano, Santo Ireneu de Lião, e muitos outros, estabelece como altamente provável a tese de que este evangelista teria recebido os ensinamentos directamente de São Pedro, o que daria um cunho fortíssimo de historicidade e antiguidade a este evangelho.
Sobre S. Lucas, sabe-se que seria um grego (atestado pela análise da sua escrita - ele é também visto como o autor dos Actos dos Apóstolos) natural de Antioquia (Eusébio atesta-o nas sua História Eclesiástica - Livro III, iv, 6, e nas suas "Quæstiones Evangelicæ", IV, i, 270). Ao longo dos Actos dos Apóstolos, penso que se encontra ampla base para se supor que Lucas seria companheiro de São Paulo.
Sobre o Evangelho de São João, cuja historicidade é amplamente negada fora da Igreja Católica (chegando também a ser negada, dentro da Igreja, pelo modernista Loisy e por outros da mesma corrente), é difícil ter conclusões seguras na sua datação. A Igreja, baseando-se na tradição oral apostólica e na coerência doutrinal deste evangelho com os restantes três, mantém, por respeito a essa tradição, que o autor deste texto é o mesmo apóstolo S. João, o "discípulo amado".
Seja como for, o único evangelho que pode ser atribuido com segurança aos ditos sessenta anos após a morte de Jesus, como referiu a senhora Professora, parece-me ser o de São João, sendo que os restantes três seriam anteriores.
Para terminar, e esperando que a senhora Professora não partilhe desta tese "browniana", os textos canónicos não resultaram da política nem da escolha do imperador romano Constantino, uma vez que o Codex Muratori (datado de aproximadamente 180 d.C.) já traz uma compilação de textos muito próxima do actual Novo Testamento.
B) Sobre o Concílio de Niceia
Escutei, com grande espanto, a senhora Professora afirmar que a Igreja Católica, ao tempo do Concílio de Niceia (325 d.C.) teria sido constituída como instituição precisamente graças a este concílio, tendo tido a sorte de surgir, no meio das várias "seitas cristãs" (expressão sua, julgo eu), como a corrente considerada ortodoxa. Assim, graças a Constantino, a doutrina cristã oficial teria sido protegida por este imperador, e após ser retirada do universo das seitas e elevada à condição de ortodoxia, teria rotulado todas as restantes seitas de heterodoxas.
Antes de principiarmos, queria recordar a obra de Henri Lassiat, La Jeunesse de l'Église: la foi au IIe siècle (1979), referida por Jean Borella (ver nota no final do texto). Borella, o reputado filósofo francês especialista em cristianismo, afirma que Lassiat demonstra de forma "irrefutável" a existência de amplos testemunhos de que existia uma "regra de Fé" pré-Niceana, o que prova que a doutrina já estava bem definida (não na forma de um texto escrito, mas sim transmitida oralmente) entre os anos 100 e 200 d.C., o que inviabiliza a tese de que Constantino, ou mesmo o Concílio de Niceia, teria pervertido o legado crístico.
Pelo que a alegação da senhora Professora, no que diz respeito ao carácter de "seita" dos defensores da doutrina fixada formalmente em Niceia me parece ser uma alegação com pouco suporte documental. Se eu estiver a interpretar incorrectamente as suas afirmações, por favor, aponte-me as incorrecções, pois estou apenas a comentar com base na memória do que ouvi ontem.
Aproveito para fazer um parêntesis acerca do conceito de "dogma". É uma ideia frequentemente generalizada encarar os dogmas como uma criação exclusiva do Concílio de Niceia, e que estas formas autoritárias e rígidas seriam uma perversão do legado de Cristo. A História prova que esta ideia é falsa. A palavra grega "dogma", que significa "decreto", aplica-se desde as mais remotas origens do cristianismo às chamadas "verdades de Fé". Para vermos que não se tratam de imposições de carácter autocrático nascidas em Niceia, é importante saber qual era, e qual é, o significado genuíno destes "dogmas", ou seja, destes "decretos da fé cristã".
É útil recordar, como menciona Jean Borella, o legado de São Basílio de Cesareia, bispo da dita cidade, irmão de São Gregório de Nissa e amigo de São Gregório de Naziano. É que a obra de São Basílio é uma das mais importantes evidências da antiguidade da dita "disciplina do arcano": ou seja, falamos do preservar, sob a protecção do silêncio, as "verdades da fé", não só dos pagãos não baptizados, mas também dos catecúmenos, ou seja, dos "pré-cristãos" que aguardavam o baptismo e que para ele se preparavam longamente.
Nos primeiros séculos, ainda longe da generalização da prática do pedobaptismo, a administração deste sacramento (a palavra "sacramentum" é a fiel tradução latina do grego "mystérion", não esquecer) culminava um longo percurso de preparação, que hoje em dia ainda subsiste, chamado de "catecumenado". Ora a obra de São Basílio (destacando o "Tratado do Espírito Santo") explicita de forma clara a distinção entre o "dogma" e a "kérigma" ("proclamação"): aos não baptizados, estava vedado o conhecimento dos dogmas, ou seja, das verdades de fé. Assim, os primeiros pastores da Igreja, quando falavam publicamente, guardavam rigorosamente a "disciplina do arcano", vedando às plateias não preparadas (não baptizadas), a revelação da essência da fé, ou seja, dos dogmas. Nestes tempos muito recuados, sempre que falavam publicamente, os sacerdotes e os bispos usavam os "kérigmata", ou seja, "proclamações" públicas que evitavam a revelação generalizada das verdades písticas centrais ao cristianismo.
Assim, vemos que o significado da palavra "dogma" tem sido mal compreendido e mal estudado, visto que na origem revela algo cuja natureza é, surpreendentemente, mais "esotérica" do que se imaginaria, ou seja, de carácter mais interior e reservado do que se suporia.
Distinguindo "dogma" como algo de interior, de "kérigma" como algo de exterior, parece-me que não poderemos fazer leituras simplistas acerca do fenómeno de Niceia como se se tratasse de uma ditatorial e autoritária definição de regras que perverteriam o legado de Jesus Cristo para favorecer o Império e a Igreja.
Fechando este parêntesis, cara Professora Helena Barbas, sintetizo a minha dúvida deste modo: como é possível sustentar que não existia, desde o final do século I, uma regra de fé cristã bem solidificada, transmitida quase exclusivamente por via oral (os "dogmata" protegidos pela "disciplina do arcano"), que se manteria inalterada na sua essência até Niceia, quando em 325 d.C., os bispos cristãos reunidos em concílio decidiram formalizar a dita regra de fé no chamado Símbolo de Niceia?
É, até, curioso notar que a necessidade de formalização da fé neste primeiro concílio não nascera por vontade primordial da Igreja Católica mas sim como reacção ao fenómeno ariano, que naquele tempo alastrava com vigor. Vendo bem, atentando aos relatos que chegaram aos nossos dias, constatamos que fora o espírito filosófico grego imbuído na personalidade de Ário que o fizera procurar uma formulação metafísica nítida e clara para a relação entre o Pai e o Filho. Niceia é a reacção do mundo cristão à difusão generalizada das ideias metafísicas muito pessoais do próprio Ário. Essa reacção explica-se, na minha modesta opinião, pelo simples facto de que quem conhecia profunda e interiormente o legado apostólico, transmitido por via oral, via que as ideias de Ário, por muito "claras" que fossem, não eram compatíveis com o dito legado.
Mas tentemos ir à profundidade, dentro do possível, das motivações de Constantino: o imperador procurava, julga-se que suportado pelo Papa Silvestre I, juntar a Cristandade na definição clara da sua doutrina em Niceia, porque Constantino queria uma fé oficial sólida para o Império. O que o motivava era a união dos seus súbtidos sob uma mesma doutrina, fosse ela qual fosse, procurando o Imperador sempre aquela doutrina que pudesse gerar maior consenso, visto que a verdade acerca da mesma era algo que possuia para ele interesse secundário.
O Imperador não está dentro das subtilezas teológicas da questão: para Constantino, pouco importa o "homoousion" ou outras minúcias do género. A prova disso está no facto, que eu não vi a senhora Professora referir, de que poucos anos após ter promovido Niceia, Constantino estava activamente a promover a doutrina ariana: após 333, Constantino chama de volta os bispos arianos exilados e une os seus esforços a Ário. Esta reacção de Constantino, de verdadeiro retrocesso à sua política de protecção ao Concílio de Niceia, vai gerar consequências durante quase um século: toda a Europa, graças às políticas pró-arianas de Constantino, vai cair sob o fascínio desta heresia. Recordemos que é no ano de 358 que o exilado Papa Libério será obrigado a assinar uma profissão de fé muito duvidosa no dito Concílio de Sírmio. Mesmo depois do Concílio de Constantinopla (381), a europa permanecerá ariana durante muito tempo, em consequência deste verdadeiro volte face do Imperador, que infelizmente tão poucos comentadores modernos referem. Os Visigodos permanecerão arianos até ao baptismo de Clóvis no final do século V. Os Lombardos atrasarão o abandono do arianismo até meados do século VII.
Sinceramente, perante os factos históricos, não sei como é que se mantém, sem ser anacronicamente, a ideia de uma Igreja Católica escolhida de entre as seitas, e fortalecida graças à protecção de Roma.
C) Sobre as origens gnósticas da mortificação corporal
Fiquei surpreendido ao ver que a senhora Professora partilhava da opinião de que a penitência e o sofrimento corporal voluntários seriam algo de estranho ao cristianismo, encontrando as suas raízes no gnosticismo e no maniqueísmo. É inegável que a doutrina gnóstica considerava que a Criação era a obra maligna de um demiurgo, e que a matéria era intrinsecamente má. Contudo, é também inegável que essa era uma das principais razões pelas quais o cristianismo combateu o gnosticismo. Esse repúdio, essa malignidade da Criação, estavam (e estão) em total contradição com a tradição cristã e judaica (basta pensarmos no Génesis, por exemplo).
A tendência para uma valorização negativa da matéria sempre existiu no cristianismo, mas a sua génese nada tem de gnóstico! É pela noção do transcendente, pela elevação da condição espiritual acima da condição humana, que se pode abrir caminho para uma certa relativização da condição material, não enquanto maligna, mas enquanto inferior ao transcendente.
A abundância de exemplos da prática do ascetismo, a generalização dos testemunhos de eremitas e de vidas cristãs de grande penitência corporal, está presente no cristianismo desde as origens. O próprio martírio dos cristãos nas arenas romanas era já um bom exemplo desta entrega da vida às mãos dos carrascos romanos pela glória da defesa de uma verdade que transcendia este Mundo.
A mortificação corporal (nem sempre "auto-flagelação" como me pareceu que o debate de ontem pretendia concluir) não é uma prática do Opus Dei, mas sim do cristianismo desde sempre.
Não será, certamente, uma prática recomendada, mas ao mesmo tempo nunca tal prática se poderia condenar, desde que, dentro de certos limites, fosse mantido um respeito pelo corpo que impedisse a sua morte prematura (o que seria "contra natura").
Espero que concorde comigo quando aponto a diferença, cara Professora, entre o "endura" cátaro, a prática ultra-ascética do suícidio pela privação de alimentação, e o que a tradição cristã conta acerca, por exemplo, de um Santo Antão ou de outros santos que viveram como eremitas, alimentando-se de forma precária, procurando imitar Cristo (recordemos a estadia de Cristo no deserto) mas sem nunca procurar a gnóstica libertação da carne!
Para terminar, interrogo-me porque razão a senhora Professora não teria tido presente, no debate de ontem, uma evidência contrária às suas afirmações. Em S. Francisco, aliás, em toda a tradição franciscana, é difícil negar a presença da penitência corporal por via da privação dos bens e dos luxos da vida terrena. Ora, existirá hino mais anti-gnóstico, mais contrário à heresia gnóstica, do que o Cantico delle Creature, de São Francisco de Assis (2)?
Há, no cristianismo, um convívio generalizado com a penitência corporal, que também encontra raízes judaicas por via do jejum. Este convívio foi praticado e defendido sem qualquer relação causal com a heresia gnóstica. A mortificação corporal encontra a sua razão de existir na vontade, puramente pessoal, de certos crentes se identificarem com a Paixão de Cristo pela via do desconforto ou da penitência do próprio corpo, não porque este seria maligno, mas sim porque Cristo teria passado pelo mesmo tipo de situação,
É inegável que existiram, ao longo dos dois mil anos de história da Igreja Católica, vários exemplos de excesso, vários testemunhos de cristãos que levaram demasiado longe a relativização do corpo face ao espírito, e que, numa tentativa de fugir das "tentações da carne", procuravam na auto-flagelação uma solução para evitar cair em pecado. Este é, certamente, um caso de desvio do cristianismo, visto que de acordo com o legado cristão, o pecado resulta de uma decisão voluntária do Homem e não da malignidade do seu corpo, como defenderiam os gnósticos.
Conclusão: a mortificação corporal, como forma de imitação do sofrimento físico de Cristo, encontra o seu lugar na tradição cristã, sendo uma prática puramente pessoal, decidida e vivida opcionalmente na interioridade espiritual de cada um. A mortificação corporal como forma de expiação dos pecados é algo de excessivo e de seguramente posterior aos primeiros séculos do cristianismo, associando-se sobretudo à Idade Média e a um ambiente psicológico e social que a senhora Professora conhecerá certamente melhor do que eu, ao qual não é estranha a influência dos quiliasmos e dos sentimentos apocalípticos aliadas à vivência difícil de alguns dos séculos mais duros na História da Europa.
Falhando-me a memória para poder criticar outras afirmações proferidas pela senhora Professora Helena Barbas no referido programa televisivo, despeço-me com elevada consideração e respeito, não querendo de forma alguma manchar ou atacar a sua reputação académica, mas procurando sobretudo obter o esclarecimento das afirmações que aqui apontei e critiquei.
Com estima,
Bernardo Sanchez da Motta
(1) Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, Delphica, 1997, Lausanne.
(2) Ver o texto completo desta composição de São Francisco aqui: http://www.crs4.it/Letteratura/CanticoCreature/CanticoCreature.html
Nota: consultei amplamente, na redacção deste texto, a enciclopédia católica on-line "New Advent", em http://www.newadvent.org
Assim, escrevo esta carta aberta à Professora Helena Barbas, pedindo-lhe que me elucide sobre certas questões que me ficaram no espírito durante e após o visionamento do dito debate. Com esta missiva, não tenho qualquer pretensão de provar o que quer que seja, apenas desejo manifestar publicamente as minhas dúvidas, aguardando ser esclarecido.
Exma. Senhora
Prof. Helena Barbas,
Manifestando desde já todo o respeito pelo seu estatuto de docente universitária, e em consideração pelo seu conhecido e reconhecido trabalho académico, venho por este meio, humildemente, comunicar-lhe algumas dúvidas que tenho acerca daquilo que disse no debate conduzido ontem, dia 24 de Maio, em directo no canal RTP-N acerca do livro de Dan Brown, "O Código da Vinci".
Apenas dependendo da minha memória, irei apontar as suas afirmações que me intrigaram, esperando ser fiel na sua reprodução:
A) Sobre a datação dos Evangelhos
Pareceu-me ter ouvido a senhora Professora afirmar que os Evangelhos Canónicos seriam largamente posteriores ao tempo de Jesus; se bem entendi, a senhora Professoria teria afirmado que o mais antigo dos evangelhos dataria de sessenta anos após a morte de Jesus; no entanto, tenho presente outros dados diferentes acerca da datação dos evangelhos. O Evangelho de São João, esse sim considerado o mais tardio, teria sido composto por volta dos anos 90-100 d.C., ou seja, mais ou menos sessenta anos após a morte de Jesus. Mas esse seria o mais tardio!
Em primeiro lugar, a senhora Professora saberá certamente que os Evangelhos ditos de Lucas, Marcos, Mateus e João não são vistos pela Igreja como tendo sido, necessariamente, escritos por estes autores. Pelo que a minha argumentação de antiguidade e historicidade será baseada no conteúdo destes textos, mais do que sobre a materialidade dos textos na forma escrita.
Este é um ponto importante: independentemente do escriba, da pessoa que os materializou pela primeira vez, o conteúdo destes textos respeitaria a tradição oral atribuída a Mateus, Marcos, Lucas e João. A palavra grega "kata", ou seja, "segundo" é aqui essencial: deve-se dizer "Evangelho Segundo S. Lucas", "Evangelho Segundo S. Marcos", etc., marcando claramente que se procura autenticar não tanto o autor físico e material dos textos (o escriba), mas sobretudo o seu inspirador. A tradição oral pré-existe à escrita e não pode ser desprezada do ponto de vista histórico, visto que há ampla evidência do seu relevo na tradição da Igreja. Bastaria recordar, mas não a desenvolverei aqui porque nos levaria demasiado longe, a essencial questão da "disciplina do arcano" e a influência desta no património doutrinal cristão (1).
Apenas para se obter um termo de comparação, a senhora professora saberá certamente que uma boa parte da tradição judaica se transmite por via oral, pelo que não é improvável que, nos primeiros séculos, os cristãos tivessem usado uma estrita e rigorosa tradição oral, pelo recurso à prática da memorização e repetição de textos de grande dimensão.
Posto isto, eis o que pude aprender acerca destes Evangelhos...
Sobre S. Mateus, é complicada a questão acerca de se saber se o texto original seria em aramaico e a versão grega seria posterior, ou se seria ao contrário. À parte destas questões, que são importantes certamente, a datação deste evangelho é maioritariamente consensual na escolha da década de 60 d.C. como a data mais tardia. Não encontro sustentação académica para as datações posteriores a esta década, conforme consta na obra de certos críticos (Weiss and Harnack datam em 70-75; Renan em 85, Réville, entre 69 e 96, Jülicher, entre 81 e 96, Montefiore, entre 90-100, Volkmar, em 110; Baur entre 130 e 34), de forma puramente conjectural, supondo que quando Jesus fala profeticamente acerca da perseguição aos cristãos isso seria prova de que a perseguição aos cristãos no primeiro século já teria ocorrido. Ou seja, a datação é feita por conjectura e não com base em dados mais concretos de estilística, análise lexical ou pelo cruzamento deste evangelho com os restantes.
Sobre São Marcos, a tradição cristã, pela via de autores bastante antigos e respeitáveis como Eusébio, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano, Santo Ireneu de Lião, e muitos outros, estabelece como altamente provável a tese de que este evangelista teria recebido os ensinamentos directamente de São Pedro, o que daria um cunho fortíssimo de historicidade e antiguidade a este evangelho.
Sobre S. Lucas, sabe-se que seria um grego (atestado pela análise da sua escrita - ele é também visto como o autor dos Actos dos Apóstolos) natural de Antioquia (Eusébio atesta-o nas sua História Eclesiástica - Livro III, iv, 6, e nas suas "Quæstiones Evangelicæ", IV, i, 270). Ao longo dos Actos dos Apóstolos, penso que se encontra ampla base para se supor que Lucas seria companheiro de São Paulo.
Sobre o Evangelho de São João, cuja historicidade é amplamente negada fora da Igreja Católica (chegando também a ser negada, dentro da Igreja, pelo modernista Loisy e por outros da mesma corrente), é difícil ter conclusões seguras na sua datação. A Igreja, baseando-se na tradição oral apostólica e na coerência doutrinal deste evangelho com os restantes três, mantém, por respeito a essa tradição, que o autor deste texto é o mesmo apóstolo S. João, o "discípulo amado".
Seja como for, o único evangelho que pode ser atribuido com segurança aos ditos sessenta anos após a morte de Jesus, como referiu a senhora Professora, parece-me ser o de São João, sendo que os restantes três seriam anteriores.
Para terminar, e esperando que a senhora Professora não partilhe desta tese "browniana", os textos canónicos não resultaram da política nem da escolha do imperador romano Constantino, uma vez que o Codex Muratori (datado de aproximadamente 180 d.C.) já traz uma compilação de textos muito próxima do actual Novo Testamento.
B) Sobre o Concílio de Niceia
Escutei, com grande espanto, a senhora Professora afirmar que a Igreja Católica, ao tempo do Concílio de Niceia (325 d.C.) teria sido constituída como instituição precisamente graças a este concílio, tendo tido a sorte de surgir, no meio das várias "seitas cristãs" (expressão sua, julgo eu), como a corrente considerada ortodoxa. Assim, graças a Constantino, a doutrina cristã oficial teria sido protegida por este imperador, e após ser retirada do universo das seitas e elevada à condição de ortodoxia, teria rotulado todas as restantes seitas de heterodoxas.
Antes de principiarmos, queria recordar a obra de Henri Lassiat, La Jeunesse de l'Église: la foi au IIe siècle (1979), referida por Jean Borella (ver nota no final do texto). Borella, o reputado filósofo francês especialista em cristianismo, afirma que Lassiat demonstra de forma "irrefutável" a existência de amplos testemunhos de que existia uma "regra de Fé" pré-Niceana, o que prova que a doutrina já estava bem definida (não na forma de um texto escrito, mas sim transmitida oralmente) entre os anos 100 e 200 d.C., o que inviabiliza a tese de que Constantino, ou mesmo o Concílio de Niceia, teria pervertido o legado crístico.
Pelo que a alegação da senhora Professora, no que diz respeito ao carácter de "seita" dos defensores da doutrina fixada formalmente em Niceia me parece ser uma alegação com pouco suporte documental. Se eu estiver a interpretar incorrectamente as suas afirmações, por favor, aponte-me as incorrecções, pois estou apenas a comentar com base na memória do que ouvi ontem.
Aproveito para fazer um parêntesis acerca do conceito de "dogma". É uma ideia frequentemente generalizada encarar os dogmas como uma criação exclusiva do Concílio de Niceia, e que estas formas autoritárias e rígidas seriam uma perversão do legado de Cristo. A História prova que esta ideia é falsa. A palavra grega "dogma", que significa "decreto", aplica-se desde as mais remotas origens do cristianismo às chamadas "verdades de Fé". Para vermos que não se tratam de imposições de carácter autocrático nascidas em Niceia, é importante saber qual era, e qual é, o significado genuíno destes "dogmas", ou seja, destes "decretos da fé cristã".
É útil recordar, como menciona Jean Borella, o legado de São Basílio de Cesareia, bispo da dita cidade, irmão de São Gregório de Nissa e amigo de São Gregório de Naziano. É que a obra de São Basílio é uma das mais importantes evidências da antiguidade da dita "disciplina do arcano": ou seja, falamos do preservar, sob a protecção do silêncio, as "verdades da fé", não só dos pagãos não baptizados, mas também dos catecúmenos, ou seja, dos "pré-cristãos" que aguardavam o baptismo e que para ele se preparavam longamente.
Nos primeiros séculos, ainda longe da generalização da prática do pedobaptismo, a administração deste sacramento (a palavra "sacramentum" é a fiel tradução latina do grego "mystérion", não esquecer) culminava um longo percurso de preparação, que hoje em dia ainda subsiste, chamado de "catecumenado". Ora a obra de São Basílio (destacando o "Tratado do Espírito Santo") explicita de forma clara a distinção entre o "dogma" e a "kérigma" ("proclamação"): aos não baptizados, estava vedado o conhecimento dos dogmas, ou seja, das verdades de fé. Assim, os primeiros pastores da Igreja, quando falavam publicamente, guardavam rigorosamente a "disciplina do arcano", vedando às plateias não preparadas (não baptizadas), a revelação da essência da fé, ou seja, dos dogmas. Nestes tempos muito recuados, sempre que falavam publicamente, os sacerdotes e os bispos usavam os "kérigmata", ou seja, "proclamações" públicas que evitavam a revelação generalizada das verdades písticas centrais ao cristianismo.
Assim, vemos que o significado da palavra "dogma" tem sido mal compreendido e mal estudado, visto que na origem revela algo cuja natureza é, surpreendentemente, mais "esotérica" do que se imaginaria, ou seja, de carácter mais interior e reservado do que se suporia.
Distinguindo "dogma" como algo de interior, de "kérigma" como algo de exterior, parece-me que não poderemos fazer leituras simplistas acerca do fenómeno de Niceia como se se tratasse de uma ditatorial e autoritária definição de regras que perverteriam o legado de Jesus Cristo para favorecer o Império e a Igreja.
Fechando este parêntesis, cara Professora Helena Barbas, sintetizo a minha dúvida deste modo: como é possível sustentar que não existia, desde o final do século I, uma regra de fé cristã bem solidificada, transmitida quase exclusivamente por via oral (os "dogmata" protegidos pela "disciplina do arcano"), que se manteria inalterada na sua essência até Niceia, quando em 325 d.C., os bispos cristãos reunidos em concílio decidiram formalizar a dita regra de fé no chamado Símbolo de Niceia?
É, até, curioso notar que a necessidade de formalização da fé neste primeiro concílio não nascera por vontade primordial da Igreja Católica mas sim como reacção ao fenómeno ariano, que naquele tempo alastrava com vigor. Vendo bem, atentando aos relatos que chegaram aos nossos dias, constatamos que fora o espírito filosófico grego imbuído na personalidade de Ário que o fizera procurar uma formulação metafísica nítida e clara para a relação entre o Pai e o Filho. Niceia é a reacção do mundo cristão à difusão generalizada das ideias metafísicas muito pessoais do próprio Ário. Essa reacção explica-se, na minha modesta opinião, pelo simples facto de que quem conhecia profunda e interiormente o legado apostólico, transmitido por via oral, via que as ideias de Ário, por muito "claras" que fossem, não eram compatíveis com o dito legado.
Mas tentemos ir à profundidade, dentro do possível, das motivações de Constantino: o imperador procurava, julga-se que suportado pelo Papa Silvestre I, juntar a Cristandade na definição clara da sua doutrina em Niceia, porque Constantino queria uma fé oficial sólida para o Império. O que o motivava era a união dos seus súbtidos sob uma mesma doutrina, fosse ela qual fosse, procurando o Imperador sempre aquela doutrina que pudesse gerar maior consenso, visto que a verdade acerca da mesma era algo que possuia para ele interesse secundário.
O Imperador não está dentro das subtilezas teológicas da questão: para Constantino, pouco importa o "homoousion" ou outras minúcias do género. A prova disso está no facto, que eu não vi a senhora Professora referir, de que poucos anos após ter promovido Niceia, Constantino estava activamente a promover a doutrina ariana: após 333, Constantino chama de volta os bispos arianos exilados e une os seus esforços a Ário. Esta reacção de Constantino, de verdadeiro retrocesso à sua política de protecção ao Concílio de Niceia, vai gerar consequências durante quase um século: toda a Europa, graças às políticas pró-arianas de Constantino, vai cair sob o fascínio desta heresia. Recordemos que é no ano de 358 que o exilado Papa Libério será obrigado a assinar uma profissão de fé muito duvidosa no dito Concílio de Sírmio. Mesmo depois do Concílio de Constantinopla (381), a europa permanecerá ariana durante muito tempo, em consequência deste verdadeiro volte face do Imperador, que infelizmente tão poucos comentadores modernos referem. Os Visigodos permanecerão arianos até ao baptismo de Clóvis no final do século V. Os Lombardos atrasarão o abandono do arianismo até meados do século VII.
Sinceramente, perante os factos históricos, não sei como é que se mantém, sem ser anacronicamente, a ideia de uma Igreja Católica escolhida de entre as seitas, e fortalecida graças à protecção de Roma.
C) Sobre as origens gnósticas da mortificação corporal
Fiquei surpreendido ao ver que a senhora Professora partilhava da opinião de que a penitência e o sofrimento corporal voluntários seriam algo de estranho ao cristianismo, encontrando as suas raízes no gnosticismo e no maniqueísmo. É inegável que a doutrina gnóstica considerava que a Criação era a obra maligna de um demiurgo, e que a matéria era intrinsecamente má. Contudo, é também inegável que essa era uma das principais razões pelas quais o cristianismo combateu o gnosticismo. Esse repúdio, essa malignidade da Criação, estavam (e estão) em total contradição com a tradição cristã e judaica (basta pensarmos no Génesis, por exemplo).
A tendência para uma valorização negativa da matéria sempre existiu no cristianismo, mas a sua génese nada tem de gnóstico! É pela noção do transcendente, pela elevação da condição espiritual acima da condição humana, que se pode abrir caminho para uma certa relativização da condição material, não enquanto maligna, mas enquanto inferior ao transcendente.
A abundância de exemplos da prática do ascetismo, a generalização dos testemunhos de eremitas e de vidas cristãs de grande penitência corporal, está presente no cristianismo desde as origens. O próprio martírio dos cristãos nas arenas romanas era já um bom exemplo desta entrega da vida às mãos dos carrascos romanos pela glória da defesa de uma verdade que transcendia este Mundo.
A mortificação corporal (nem sempre "auto-flagelação" como me pareceu que o debate de ontem pretendia concluir) não é uma prática do Opus Dei, mas sim do cristianismo desde sempre.
Não será, certamente, uma prática recomendada, mas ao mesmo tempo nunca tal prática se poderia condenar, desde que, dentro de certos limites, fosse mantido um respeito pelo corpo que impedisse a sua morte prematura (o que seria "contra natura").
Espero que concorde comigo quando aponto a diferença, cara Professora, entre o "endura" cátaro, a prática ultra-ascética do suícidio pela privação de alimentação, e o que a tradição cristã conta acerca, por exemplo, de um Santo Antão ou de outros santos que viveram como eremitas, alimentando-se de forma precária, procurando imitar Cristo (recordemos a estadia de Cristo no deserto) mas sem nunca procurar a gnóstica libertação da carne!
Para terminar, interrogo-me porque razão a senhora Professora não teria tido presente, no debate de ontem, uma evidência contrária às suas afirmações. Em S. Francisco, aliás, em toda a tradição franciscana, é difícil negar a presença da penitência corporal por via da privação dos bens e dos luxos da vida terrena. Ora, existirá hino mais anti-gnóstico, mais contrário à heresia gnóstica, do que o Cantico delle Creature, de São Francisco de Assis (2)?
Há, no cristianismo, um convívio generalizado com a penitência corporal, que também encontra raízes judaicas por via do jejum. Este convívio foi praticado e defendido sem qualquer relação causal com a heresia gnóstica. A mortificação corporal encontra a sua razão de existir na vontade, puramente pessoal, de certos crentes se identificarem com a Paixão de Cristo pela via do desconforto ou da penitência do próprio corpo, não porque este seria maligno, mas sim porque Cristo teria passado pelo mesmo tipo de situação,
É inegável que existiram, ao longo dos dois mil anos de história da Igreja Católica, vários exemplos de excesso, vários testemunhos de cristãos que levaram demasiado longe a relativização do corpo face ao espírito, e que, numa tentativa de fugir das "tentações da carne", procuravam na auto-flagelação uma solução para evitar cair em pecado. Este é, certamente, um caso de desvio do cristianismo, visto que de acordo com o legado cristão, o pecado resulta de uma decisão voluntária do Homem e não da malignidade do seu corpo, como defenderiam os gnósticos.
Conclusão: a mortificação corporal, como forma de imitação do sofrimento físico de Cristo, encontra o seu lugar na tradição cristã, sendo uma prática puramente pessoal, decidida e vivida opcionalmente na interioridade espiritual de cada um. A mortificação corporal como forma de expiação dos pecados é algo de excessivo e de seguramente posterior aos primeiros séculos do cristianismo, associando-se sobretudo à Idade Média e a um ambiente psicológico e social que a senhora Professora conhecerá certamente melhor do que eu, ao qual não é estranha a influência dos quiliasmos e dos sentimentos apocalípticos aliadas à vivência difícil de alguns dos séculos mais duros na História da Europa.
Falhando-me a memória para poder criticar outras afirmações proferidas pela senhora Professora Helena Barbas no referido programa televisivo, despeço-me com elevada consideração e respeito, não querendo de forma alguma manchar ou atacar a sua reputação académica, mas procurando sobretudo obter o esclarecimento das afirmações que aqui apontei e critiquei.
Com estima,
Bernardo Sanchez da Motta
(1) Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, Delphica, 1997, Lausanne.
(2) Ver o texto completo desta composição de São Francisco aqui: http://www.crs4.it/Letteratura/CanticoCreature/CanticoCreature.html
Nota: consultei amplamente, na redacção deste texto, a enciclopédia católica on-line "New Advent", em http://www.newadvent.org
sábado, 27 de agosto de 2005
Resposta às objecções do CA
O leitor CA, num comentário ao texto anterior, deixou uma série de objecções que sujeitarei agora a uma análise detalhada. Desde já, os meus agradecimentos pelo seu contributo construtivo para este complexo debate.
«Ponto I:
"o discípulo é o "aluno", que escuta a Palavra. O apóstolo é o "enviado", encarregado de espalhar a Palavra."
Seguindo o seu raciocínio deveria concluir que as mulheres hoje não são chamadas a espalhar a Palavra. Constato na prática que muitas mulheres espalham a Palavra (catequistas, missionárias, etc.). Assim parece-me que o raciocínio falha quando assume que, porque Jesus não escolheu apóstolas, a Igreja nunca o poderá fazer.»
Bela objecção, à qual deverei dar a mão à palmatória.
De facto, o meu raciocínio apresentava, neste aspecto, claras falhas. Não serve usar uma argumentação etimológica, uma vez que nem sequer é constante o uso, na própria Sagrada Escritura, do termo "apóstolo" para os doze. Por vezes, são chamados de "discípulos". E lembrei-me, entretanto, de outra objecção ao meu raciocínio: Maria de Magdala, a quem Jesus expulsara demónios, é a primeira testemunha da ressurreição, e como tal é ela a "enviada" junto dos restantes onze, quem lhes vai comunicar que o Mestre ressuscitou (cf. S. Lucas, 16, 9). Posto isto, a minha argumentação neste ponto cai por terra.
Contudo, e porque julgo estar certo na tese geral que estou a defender, tentarei contornar as dificuldades por mim criadas usando uma linguagem mais cuidadosa e argumentos bem mais fortes...
Há muita razão da parte do CA quando afirma que todos os cristãos são, de certo modo, "enviados", co-responsáveis pelo espalhar da Palavra.
No entanto, a meu ver, há uma nítida diferença: os onze (retirando Judas, que se enforca antes da morte de Cristo) sobrevivem à Paixão como o núcleo dos próximos do Messias e vêem-se desse modo revestidos de uma graça bem particular e especial. São "enviados" como serão todos os cristãos, mas a um nível qualitativamente diferente. Uma passagem profundamente significativa encontra-se no final de S. Lucas:
Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando estava convosco: Que era necessário que se cumprisse tudo quanto a Meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos».
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos ao terceiro dia, que havia de ser pregado, em Seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E eu vou mandar sobre vós O que Meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força lá do Alto. - S. Lucas 24, 44-49.
Há, claramente explícita, uma atribuição de dons interpretativos (diria mesmo, as chaves da hermenêutica sacra, que desde então estão na posse da Igreja) aos onze reunidos com o Jesus ressuscitado. Vejamos outro exemplo das Sagradas Escrituras, desta vez de S. João, exemplo este ainda mais claro de que há, nitidamente, uma diferença de estatura entre a profundidade espiritual da missão dos onze apóstolos e a dos restantes cristãos:
Na tarde desse dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se achavam juntos, com medo dos judeus, veio Jesus pôr-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz seja convosco». Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor. E Ele disse-lhes de novo: «A paz seja convosco» Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos». - S. João 20, 19-23.
São Marcos faz também coro neste ponto fulcral:
Apareceu, finalmente, aos próprios onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e obstinação em não acreditarem naqueles que O tinham visto ressuscitado. Depois, disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão aqueles que acreditarem: Em Meu nome expulsarão os demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se ingerirem alguma bebida mortífera, não sofrerão nenhum mal; imporão as mãos sobre os enfermos e eles recuperarão a saúde». - S. Marcos 16, 14-18.
Num ponto que se afigura tão importante, S. Mateus não poderia falhar na concordância com os restantes evangelistas:
Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-n'O; alguns, no entanto, duvidavam ainda. Aproximando-Se deles, Jesus disse-lhes: «Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra: Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo». - S. Mateus 28, 16-20.
Torna-se claríssimo, pela concordância dos quatro evangelistas, que é ponto doutrinal assente que os onze receberam do Jesus ressuscitado uma graça especial. S. João é explícito: os onze receberam o Espírito Santo, com a missão de, iluminados por Ele, espalharem a Boa Nova e realizar milagres em nome de Jesus.
A Boa Nova iria espalhar-se de boca em boca, sendo que todos os cristãos seriam convidados a fazê-lo. Contudo, aquele núcleo de onze homens, escolhidos por Jesus, seria o centro espiritual de onde emanariam todas as graças de Cristo e do Pai. Esse legado, essa herança deixada por Cristo aos Homens, está viva através dos onze primeiros da Sua Igreja. É um verdadeiro dom espiritual e é a fonte que vivifica espiritualmente a Igreja Católica, que honra desde então a sucessão apostólica a partir de Pedro.
Resumindo: não estavam mulheres presentes no Pentecostes. Não havia uma só mulher de entre os onze que foram investidos desta graça e desta missão especial.
Será que Jesus não valorizava as mulheres?
Supô-lo seria uma tolice: é uma mulher, Maria Madalena, a primeira testemunha humana da Ressurreição, que é o epicentro do cristianismo.
As Sagradas Escrituras não permitem outra interpretação: é nítido verificar que o vértice, a nascente espiritual da Igreja era constituida por onze homens investidos pessoalmente por Deus.
Negá-lo seria atentar contra a própria validade das Sagradas Escrituras.
Algo bastante normal para um não-cristão, mas algo de monstruoso para um cristão.
Aliás, por essa linha de raciocínio, não poderia haver apóstolos de raça negra, por exemplo. Porquê distinguir pelo sexo e não pela raça?
Esta objecção, sinceramente, CA, não percebi.
Apóstolos de raça negra? Mas Jesus e os doze apóstolos eram judeus. E na Palestina, naquele tempo, os judeus eram brancos. Existia (e ainda existe) na Etiópia uma pequena comunidade de judeus negros, mas isso nada tem a ver com a presente discussão. Os judeus da Palestina eram de raça semita, de pele branca.
Mas uma claríssima prova de que a Igreja não discrimina pela raça é o facto de a ordenação sacerdotal ser conferida a homens de qualquer raça.
Ponto II:
"Deus escolheu o sexo masculino para incarnar, logo qualquer função representativa, onde o símbolo de Cristo seja fundamental (como o é nos sacramentos), deve ser desempenhada por um homem."
Mais uma vez dá imensa relevância ao sexo. Ora não vejo em Jesus essa relevância explícita.
Apresentei-lhe referências extremamente explícitas para este facto simplicíssimo: Jesus escolheu onze homens para constituir a Sua Igreja. Sendo o homem diferente da mulher, Jesus fez desta distinção fundamental uma distinção de papéis no plano salvífico. Quando falei, no meu texto, da Eucaristia e do seu símbolo, fui bem claro na importância da "substância" ser compatível. Penso que consegui tornar claro a importância de ser um homem a presidir à Eucaristia, momento central da vida cristã.
Vemos que os evangelhos dizem que Jesus escolheu apenas homens mas não vejo Jesus a fazer referência ao sexo como algo de importante. Assim, a distinção do sexo como algo essencial parece-me mais uma insistência humana.
Não sei como insiste em não o ver, CA.
Pois que é bem claro que Jesus usou o género como um dos Seus critérios de escolha do grupo dos doze. Ou supõe que o facto de termos doze apóstolos todos homens seja um puro acaso probabilístico?
Ponto III:
"Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial é cumprida por homens."
Mais uma vez o sexo como distinção, indo agora buscar o Antigo Testamento, o que não acrescenta nada de novo.
Antes pelo contrário, CA, é um reforço muito forte. Significa que encontramos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial a ser desempenhada por homens.
Parece-me que os símbolos são feitos pelo homem, são essencialmente culturais. Se a sua objecção é apenas ao nível do símbolo, então pode certamente ser alterada.
A sua ideia de símbolo é totalmente materialista e antropológica.
Para mim, o símbolo é uma ponte de conhecimento divino, uma porta aberta para o transcendente. O símbolo é uma forma de podermos, por via dos nossos sentidos, aceder ao que nos ultrapassa. Se Jesus é Deus e Jesus instituiu o Símbolo eucarístico, logo, para o cristão, a Eucaristia não é um "símbolo cultural", gerado por "homens", mas sim um Símbolo espiritual, instituido por Deus.
Estes três pontos parecem resumir-se a um apenas: se se constatou que houve discriminação pelo sexo feita por Jesus
CA, Jesus discriminou! Mas nunca num sentido pejorativo. Jesus, claramente, atribui papéis diferentes, no Seu plano, para homens e mulheres.
E uma razão bem forte, como já o disse, prende-se com uma necessidade simbólica incontornável.
Como Jesus fez outras discriminações práticas (a mais importante das quais foi dirigir-se ao povo de Israel apenas), deveríamos mantê-las sempre? A resposta tem que ser não, pois a Igreja abriu-se logo aos gentios. Então porquê a relevância especial atribuída ao sexo?
Objecção inválida. O seu pressuposto está errado. Jesus não trouxe a Boa Nova apenas para Israel. Releia, por favor, o final do Evangelho de S. Mateus: "ensinai todas as nações".
É o próprio Cristo que o desmente, Bernardo, pois diz que o Espírito há-de ensinar aos discípulos muitas coisas que eles ainda não podiam suportar.
Não compreendi esta objecção, e terá que a explicar melhor, por favor.
Obrigado pelos comentários.
«Ponto I:
"o discípulo é o "aluno", que escuta a Palavra. O apóstolo é o "enviado", encarregado de espalhar a Palavra."
Seguindo o seu raciocínio deveria concluir que as mulheres hoje não são chamadas a espalhar a Palavra. Constato na prática que muitas mulheres espalham a Palavra (catequistas, missionárias, etc.). Assim parece-me que o raciocínio falha quando assume que, porque Jesus não escolheu apóstolas, a Igreja nunca o poderá fazer.»
Bela objecção, à qual deverei dar a mão à palmatória.
De facto, o meu raciocínio apresentava, neste aspecto, claras falhas. Não serve usar uma argumentação etimológica, uma vez que nem sequer é constante o uso, na própria Sagrada Escritura, do termo "apóstolo" para os doze. Por vezes, são chamados de "discípulos". E lembrei-me, entretanto, de outra objecção ao meu raciocínio: Maria de Magdala, a quem Jesus expulsara demónios, é a primeira testemunha da ressurreição, e como tal é ela a "enviada" junto dos restantes onze, quem lhes vai comunicar que o Mestre ressuscitou (cf. S. Lucas, 16, 9). Posto isto, a minha argumentação neste ponto cai por terra.
Contudo, e porque julgo estar certo na tese geral que estou a defender, tentarei contornar as dificuldades por mim criadas usando uma linguagem mais cuidadosa e argumentos bem mais fortes...
Há muita razão da parte do CA quando afirma que todos os cristãos são, de certo modo, "enviados", co-responsáveis pelo espalhar da Palavra.
No entanto, a meu ver, há uma nítida diferença: os onze (retirando Judas, que se enforca antes da morte de Cristo) sobrevivem à Paixão como o núcleo dos próximos do Messias e vêem-se desse modo revestidos de uma graça bem particular e especial. São "enviados" como serão todos os cristãos, mas a um nível qualitativamente diferente. Uma passagem profundamente significativa encontra-se no final de S. Lucas:
Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando estava convosco: Que era necessário que se cumprisse tudo quanto a Meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos».
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos ao terceiro dia, que havia de ser pregado, em Seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E eu vou mandar sobre vós O que Meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força lá do Alto. - S. Lucas 24, 44-49.
Há, claramente explícita, uma atribuição de dons interpretativos (diria mesmo, as chaves da hermenêutica sacra, que desde então estão na posse da Igreja) aos onze reunidos com o Jesus ressuscitado. Vejamos outro exemplo das Sagradas Escrituras, desta vez de S. João, exemplo este ainda mais claro de que há, nitidamente, uma diferença de estatura entre a profundidade espiritual da missão dos onze apóstolos e a dos restantes cristãos:
Na tarde desse dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se achavam juntos, com medo dos judeus, veio Jesus pôr-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz seja convosco». Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor. E Ele disse-lhes de novo: «A paz seja convosco» Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos». - S. João 20, 19-23.
São Marcos faz também coro neste ponto fulcral:
Apareceu, finalmente, aos próprios onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e obstinação em não acreditarem naqueles que O tinham visto ressuscitado. Depois, disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão aqueles que acreditarem: Em Meu nome expulsarão os demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se ingerirem alguma bebida mortífera, não sofrerão nenhum mal; imporão as mãos sobre os enfermos e eles recuperarão a saúde». - S. Marcos 16, 14-18.
Num ponto que se afigura tão importante, S. Mateus não poderia falhar na concordância com os restantes evangelistas:
Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-n'O; alguns, no entanto, duvidavam ainda. Aproximando-Se deles, Jesus disse-lhes: «Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra: Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo». - S. Mateus 28, 16-20.
Torna-se claríssimo, pela concordância dos quatro evangelistas, que é ponto doutrinal assente que os onze receberam do Jesus ressuscitado uma graça especial. S. João é explícito: os onze receberam o Espírito Santo, com a missão de, iluminados por Ele, espalharem a Boa Nova e realizar milagres em nome de Jesus.
A Boa Nova iria espalhar-se de boca em boca, sendo que todos os cristãos seriam convidados a fazê-lo. Contudo, aquele núcleo de onze homens, escolhidos por Jesus, seria o centro espiritual de onde emanariam todas as graças de Cristo e do Pai. Esse legado, essa herança deixada por Cristo aos Homens, está viva através dos onze primeiros da Sua Igreja. É um verdadeiro dom espiritual e é a fonte que vivifica espiritualmente a Igreja Católica, que honra desde então a sucessão apostólica a partir de Pedro.
Resumindo: não estavam mulheres presentes no Pentecostes. Não havia uma só mulher de entre os onze que foram investidos desta graça e desta missão especial.
Será que Jesus não valorizava as mulheres?
Supô-lo seria uma tolice: é uma mulher, Maria Madalena, a primeira testemunha humana da Ressurreição, que é o epicentro do cristianismo.
As Sagradas Escrituras não permitem outra interpretação: é nítido verificar que o vértice, a nascente espiritual da Igreja era constituida por onze homens investidos pessoalmente por Deus.
Negá-lo seria atentar contra a própria validade das Sagradas Escrituras.
Algo bastante normal para um não-cristão, mas algo de monstruoso para um cristão.
Aliás, por essa linha de raciocínio, não poderia haver apóstolos de raça negra, por exemplo. Porquê distinguir pelo sexo e não pela raça?
Esta objecção, sinceramente, CA, não percebi.
Apóstolos de raça negra? Mas Jesus e os doze apóstolos eram judeus. E na Palestina, naquele tempo, os judeus eram brancos. Existia (e ainda existe) na Etiópia uma pequena comunidade de judeus negros, mas isso nada tem a ver com a presente discussão. Os judeus da Palestina eram de raça semita, de pele branca.
Mas uma claríssima prova de que a Igreja não discrimina pela raça é o facto de a ordenação sacerdotal ser conferida a homens de qualquer raça.
Ponto II:
"Deus escolheu o sexo masculino para incarnar, logo qualquer função representativa, onde o símbolo de Cristo seja fundamental (como o é nos sacramentos), deve ser desempenhada por um homem."
Mais uma vez dá imensa relevância ao sexo. Ora não vejo em Jesus essa relevância explícita.
Apresentei-lhe referências extremamente explícitas para este facto simplicíssimo: Jesus escolheu onze homens para constituir a Sua Igreja. Sendo o homem diferente da mulher, Jesus fez desta distinção fundamental uma distinção de papéis no plano salvífico. Quando falei, no meu texto, da Eucaristia e do seu símbolo, fui bem claro na importância da "substância" ser compatível. Penso que consegui tornar claro a importância de ser um homem a presidir à Eucaristia, momento central da vida cristã.
Vemos que os evangelhos dizem que Jesus escolheu apenas homens mas não vejo Jesus a fazer referência ao sexo como algo de importante. Assim, a distinção do sexo como algo essencial parece-me mais uma insistência humana.
Não sei como insiste em não o ver, CA.
Pois que é bem claro que Jesus usou o género como um dos Seus critérios de escolha do grupo dos doze. Ou supõe que o facto de termos doze apóstolos todos homens seja um puro acaso probabilístico?
Ponto III:
"Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial é cumprida por homens."
Mais uma vez o sexo como distinção, indo agora buscar o Antigo Testamento, o que não acrescenta nada de novo.
Antes pelo contrário, CA, é um reforço muito forte. Significa que encontramos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial a ser desempenhada por homens.
Parece-me que os símbolos são feitos pelo homem, são essencialmente culturais. Se a sua objecção é apenas ao nível do símbolo, então pode certamente ser alterada.
A sua ideia de símbolo é totalmente materialista e antropológica.
Para mim, o símbolo é uma ponte de conhecimento divino, uma porta aberta para o transcendente. O símbolo é uma forma de podermos, por via dos nossos sentidos, aceder ao que nos ultrapassa. Se Jesus é Deus e Jesus instituiu o Símbolo eucarístico, logo, para o cristão, a Eucaristia não é um "símbolo cultural", gerado por "homens", mas sim um Símbolo espiritual, instituido por Deus.
Estes três pontos parecem resumir-se a um apenas: se se constatou que houve discriminação pelo sexo feita por Jesus
CA, Jesus discriminou! Mas nunca num sentido pejorativo. Jesus, claramente, atribui papéis diferentes, no Seu plano, para homens e mulheres.
E uma razão bem forte, como já o disse, prende-se com uma necessidade simbólica incontornável.
Como Jesus fez outras discriminações práticas (a mais importante das quais foi dirigir-se ao povo de Israel apenas), deveríamos mantê-las sempre? A resposta tem que ser não, pois a Igreja abriu-se logo aos gentios. Então porquê a relevância especial atribuída ao sexo?
Objecção inválida. O seu pressuposto está errado. Jesus não trouxe a Boa Nova apenas para Israel. Releia, por favor, o final do Evangelho de S. Mateus: "ensinai todas as nações".
É o próprio Cristo que o desmente, Bernardo, pois diz que o Espírito há-de ensinar aos discípulos muitas coisas que eles ainda não podiam suportar.
Não compreendi esta objecção, e terá que a explicar melhor, por favor.
Obrigado pelos comentários.
sexta-feira, 19 de agosto de 2005
Sobre o sacerdócio feminino
Esta questão regressa sempre, mais cedo ou mais tarde...
É uma questão importante e de fundo, porque assistimos cada vez mais nos dias que correm a uma enorme multidão de crentes católicos a manifestarem-se a favor do sacerdócio feminino, o que é um grave sinal de incompreensão da doutrina que professam.
Muitos católicos modernos estão, hoje, cada vez mais empenhados em levantar uma série de objecções a aspectos específicos do culto católico e da organização da Igreja. A sociedade tornou-se menos exigente para com a cultura e o estudo, os crentes também se tornaram menos exigentes com eles próprios, e facilmente surgem inúmeras incompreensões doutrinais como esta.
Antes de principiar, um aviso importante: neste breve texto tratarei apenas desta objecção relativamente ao sacerdócio feminino. Cada objecção merece ser tratada à parte, porque existem diversos níveis de importância doutrinal nas várias objecções levantadas pelos católicos modernos. Se se quiser discutir, por exemplo, o celibato dos sacerdotes, estaremos perante outra questão, diga-se, com muito menor peso doutrinal. Pelo que se deve, doutrinalmente, manter inaceitável o sacerdócio feminino (explicarei adiante), mas se pode manter em aberto a discussão de outras questões não tão importantes, doutrinalmente, como a do celibato dos sacerdotes.
Esta explicação não é exaustiva e representa apenas um modesto esforço, uma recolha dos pontos essenciais e mais importantes que justificam esta interdição das mulheres ao sacramento da ordenação sacerdotal.
Ponto I: Jesus Cristo apenas escolheu homens para seus apóstolos. Nenhum dos doze apóstolos era mulher. Contudo, inúmeras mulheres seguiam Jesus como discípulas. No entanto, a distinção entre discípulo e apóstolo é importante: o discípulo é o "aluno", que escuta a Palavra. O apóstolo é o "enviado", encarregado de espalhar a Palavra. À mesa da Última Ceia estavam doze apóstolos. Na recepção do Espírito Santo, pelo Pentecostes, estavam reunidos os doze apóstolos.
Nesta escolha, não há a influência de qualquer preconceito social, uma vez que Jesus Cristo não moldou a sua doutrina ao sabor das condicionantes sociais.
Ponto II: O símbolo sacramental. O sacerdote exerce uma função primordial no sacramento eucarístico, pelo qual o pão e o vinho são transformados em Corpo e Sangue de Jesus Cristo. A doutrina católica ensina que, com cada sacramento, há a possibilidade de se receber uma graça divina concreta, pelo que o símbolo é a via pela qual se pode aceder a essa graça. No caso da Eucaristia, o símbolo é feito de pão e de vinho que, com as palavras adequadas, se transforma no Corpo e Sangue de Cristo. Tanto a matéria (pão e vinho) como a forma (as palavras pronunciadas) são fundamentais para a eficácia do sacramento eucarístico. Se bem que a forma seja a parte mais importante, a matéria também não deve ser desprezada: uma eucaristia feita, por exemplo, com arroz (mesmo pronunciando as palavras ritualísticas correctas), não seria eficaz porque a matéria não corresponderia simbolicamente à usada por Jesus Cristo na Última Ceia. No entanto, qualquer tipo de pão e vinho serve, visto que a parte material do símbolo está representada.
Posto isto, o sacerdote é a representação viva do próprio Jesus Cristo. Diz o sacerdote durante o ritual: "Por Cristo, com Cristo e em Cristo". Do mesmo modo que, para manter a matéria do símbolo, se deve usar pão e vinho, também para manter a imagem viva do próprio Jesus Cristo, o oficiante deve ser um homem. Deus escolheu o sexo masculino para incarnar, logo qualquer função representativa, onde o símbolo de Cristo seja fundamental (como o é nos sacramentos), deve ser desempenhada por um homem.
Poder-se-ia levantar esta objecção: mas Deus não tem sexo, logo, se o sacerdote está ali para representar Deus, então não tem que ter um sexo específico para O representar bem.
Resposta: Foi Deus Filho quem instituiu a Eucaristia, logo é para Jesus Cristo que estamos a olhar quando olhamos para um sacerdote em pleno rito eucarístico. E, se foi como homem, visível e audível pelos doze apóstolos, que Jesus instituiu a Eucaristia, pois terá que ser um homem a reproduzir, para a posteridade, a diginidade sacra desse momento.
Ponto III: O Cordeiro é um dos muitos animais atribuidos simbolicamente à figura de Jesus Cristo. Mais concretamente, este animal ganha especial significado graças ao simbolismo da Crucificação: Cristo é visto como o "Cordeiro de Deus", que pela sua morte "tirou o Pecado do Mundo". Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial é cumprida por homens. Recordemos o episódio de Abraão, que apresenta a Deus o seu próprio filho Isaac para ser sacrificado. O sacrifício (no entanto não consumado) de Isaac por seu pai é visto, na exegese sacra, como um prenúncio do sacrifício de Jesus Cristo, o Filho, às mãos do Homem por vontade do Pai. O acto sacrificial está reproduzido da forma mais perfeita no mistério eucarístico. Pelo que, de novo, sendo um acto sacrificial, é desempenhado por um homem.
Para terminar, há que ter em consideração que as objecções que muitos católicos modernos levantam em relação a este ponto delicado da ordenação das mulheres são objecções muito influenciadas por uma tendência feminista (ou, no mínimo, por uma tendência ultra-igualitarista, onde uma artificial "igualdade" deveria ser estabelecida a qualquer custo), à qual se tem dado uma prioridade maior do que à exegese sacra e ao simbolismo sacramental. O que é, no mínimo insólito: existirem cada vez mais cristãos que, porventura sem se darem conta, estabelecem raciocínios nos quais dão primazia a tendências e modas sociais em detrimento do que é importante na sua fé, que deveria ser a compreensão real da doutrina que professam.
A mulher não tem menos capacidades em si mesma do que o homem para o exercício do sacerdócio. Contudo, tanto por respeito para com a intenção do Salvador, como por necessidade material do simbolismo sacramental, na qual o sacerdote deve apresentar-se como imagem viva do Deus Incarnado, foi dado apenas aos homens o acesso a este sacramento.
Assim, é enquanto símbolo, e não enquanto mulher, que a mulher é inapta para o sacerdócio cristão. É evidente, pela natureza idiossincrética do símbolo eucarístico, que isto não se pode generalizar: noutras doutrinas, onde os ritos se baseiem noutros simbolismos, poderemos encontrar legitimamente uma mulher a desempenhar funções sacerdotais. Vemos assim que não há, neste aspecto, qualquer "sexismo", mas sim apenas o respeito pelos símbolos cristãos e pelos sacramentos por eles representados. O sacerdócio feminino pode ser legítimo nos ritos de outras doutrinas que não a cristã.
O sacerdócio feminino não é um direito das mulheres, uma vez que se assim fosse, isso quereria dizer que uma universalização extrema de um suposto "direito feminino" obrigaria a atropelar o simbolismo, e consequentemente, a eficácia de um sacramento tão importante como o da Eucaristia. E far-nos-ia possivelmente pensar que, naquele que é o momento mais alto da revelação crística, Jesus se teria deixado influenciar por um suposto machismo na cultura judaica, ou seja, por uma volúvel condicionante social. Se assim fosse, a doutrina deixada por Cristo à Sua Igreja seria algo de passageiro e de validade limitada, algo subjugado e condicionado por características sociais.
Outras questões ficam por tratar, como a interessante questão do diaconato feminino. Em certas Igreja cristãs primitivas, era permitido às mulheres o acesso a um dos graus menores da ordenação, a do diaconato. Note-se que há uma distinção fundamental aqui presente: um diácono não é um sacerdote. Não recebe a ordenação sacerdotal. Deste modo, um diácono não está qualificado para presidir à Eucaristia.
Deste modo, existe algum campo aberto ao debate relativamente ao acesso das mulheres ao diaconato, uma vez que não seriam violadas questões essenciais de doutrina.
Bernardo
É uma questão importante e de fundo, porque assistimos cada vez mais nos dias que correm a uma enorme multidão de crentes católicos a manifestarem-se a favor do sacerdócio feminino, o que é um grave sinal de incompreensão da doutrina que professam.
Muitos católicos modernos estão, hoje, cada vez mais empenhados em levantar uma série de objecções a aspectos específicos do culto católico e da organização da Igreja. A sociedade tornou-se menos exigente para com a cultura e o estudo, os crentes também se tornaram menos exigentes com eles próprios, e facilmente surgem inúmeras incompreensões doutrinais como esta.
Antes de principiar, um aviso importante: neste breve texto tratarei apenas desta objecção relativamente ao sacerdócio feminino. Cada objecção merece ser tratada à parte, porque existem diversos níveis de importância doutrinal nas várias objecções levantadas pelos católicos modernos. Se se quiser discutir, por exemplo, o celibato dos sacerdotes, estaremos perante outra questão, diga-se, com muito menor peso doutrinal. Pelo que se deve, doutrinalmente, manter inaceitável o sacerdócio feminino (explicarei adiante), mas se pode manter em aberto a discussão de outras questões não tão importantes, doutrinalmente, como a do celibato dos sacerdotes.
Esta explicação não é exaustiva e representa apenas um modesto esforço, uma recolha dos pontos essenciais e mais importantes que justificam esta interdição das mulheres ao sacramento da ordenação sacerdotal.
Ponto I: Jesus Cristo apenas escolheu homens para seus apóstolos. Nenhum dos doze apóstolos era mulher. Contudo, inúmeras mulheres seguiam Jesus como discípulas. No entanto, a distinção entre discípulo e apóstolo é importante: o discípulo é o "aluno", que escuta a Palavra. O apóstolo é o "enviado", encarregado de espalhar a Palavra. À mesa da Última Ceia estavam doze apóstolos. Na recepção do Espírito Santo, pelo Pentecostes, estavam reunidos os doze apóstolos.
Nesta escolha, não há a influência de qualquer preconceito social, uma vez que Jesus Cristo não moldou a sua doutrina ao sabor das condicionantes sociais.
Ponto II: O símbolo sacramental. O sacerdote exerce uma função primordial no sacramento eucarístico, pelo qual o pão e o vinho são transformados em Corpo e Sangue de Jesus Cristo. A doutrina católica ensina que, com cada sacramento, há a possibilidade de se receber uma graça divina concreta, pelo que o símbolo é a via pela qual se pode aceder a essa graça. No caso da Eucaristia, o símbolo é feito de pão e de vinho que, com as palavras adequadas, se transforma no Corpo e Sangue de Cristo. Tanto a matéria (pão e vinho) como a forma (as palavras pronunciadas) são fundamentais para a eficácia do sacramento eucarístico. Se bem que a forma seja a parte mais importante, a matéria também não deve ser desprezada: uma eucaristia feita, por exemplo, com arroz (mesmo pronunciando as palavras ritualísticas correctas), não seria eficaz porque a matéria não corresponderia simbolicamente à usada por Jesus Cristo na Última Ceia. No entanto, qualquer tipo de pão e vinho serve, visto que a parte material do símbolo está representada.
Posto isto, o sacerdote é a representação viva do próprio Jesus Cristo. Diz o sacerdote durante o ritual: "Por Cristo, com Cristo e em Cristo". Do mesmo modo que, para manter a matéria do símbolo, se deve usar pão e vinho, também para manter a imagem viva do próprio Jesus Cristo, o oficiante deve ser um homem. Deus escolheu o sexo masculino para incarnar, logo qualquer função representativa, onde o símbolo de Cristo seja fundamental (como o é nos sacramentos), deve ser desempenhada por um homem.
Poder-se-ia levantar esta objecção: mas Deus não tem sexo, logo, se o sacerdote está ali para representar Deus, então não tem que ter um sexo específico para O representar bem.
Resposta: Foi Deus Filho quem instituiu a Eucaristia, logo é para Jesus Cristo que estamos a olhar quando olhamos para um sacerdote em pleno rito eucarístico. E, se foi como homem, visível e audível pelos doze apóstolos, que Jesus instituiu a Eucaristia, pois terá que ser um homem a reproduzir, para a posteridade, a diginidade sacra desse momento.
Ponto III: O Cordeiro é um dos muitos animais atribuidos simbolicamente à figura de Jesus Cristo. Mais concretamente, este animal ganha especial significado graças ao simbolismo da Crucificação: Cristo é visto como o "Cordeiro de Deus", que pela sua morte "tirou o Pecado do Mundo". Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial é cumprida por homens. Recordemos o episódio de Abraão, que apresenta a Deus o seu próprio filho Isaac para ser sacrificado. O sacrifício (no entanto não consumado) de Isaac por seu pai é visto, na exegese sacra, como um prenúncio do sacrifício de Jesus Cristo, o Filho, às mãos do Homem por vontade do Pai. O acto sacrificial está reproduzido da forma mais perfeita no mistério eucarístico. Pelo que, de novo, sendo um acto sacrificial, é desempenhado por um homem.
Para terminar, há que ter em consideração que as objecções que muitos católicos modernos levantam em relação a este ponto delicado da ordenação das mulheres são objecções muito influenciadas por uma tendência feminista (ou, no mínimo, por uma tendência ultra-igualitarista, onde uma artificial "igualdade" deveria ser estabelecida a qualquer custo), à qual se tem dado uma prioridade maior do que à exegese sacra e ao simbolismo sacramental. O que é, no mínimo insólito: existirem cada vez mais cristãos que, porventura sem se darem conta, estabelecem raciocínios nos quais dão primazia a tendências e modas sociais em detrimento do que é importante na sua fé, que deveria ser a compreensão real da doutrina que professam.
A mulher não tem menos capacidades em si mesma do que o homem para o exercício do sacerdócio. Contudo, tanto por respeito para com a intenção do Salvador, como por necessidade material do simbolismo sacramental, na qual o sacerdote deve apresentar-se como imagem viva do Deus Incarnado, foi dado apenas aos homens o acesso a este sacramento.
Assim, é enquanto símbolo, e não enquanto mulher, que a mulher é inapta para o sacerdócio cristão. É evidente, pela natureza idiossincrética do símbolo eucarístico, que isto não se pode generalizar: noutras doutrinas, onde os ritos se baseiem noutros simbolismos, poderemos encontrar legitimamente uma mulher a desempenhar funções sacerdotais. Vemos assim que não há, neste aspecto, qualquer "sexismo", mas sim apenas o respeito pelos símbolos cristãos e pelos sacramentos por eles representados. O sacerdócio feminino pode ser legítimo nos ritos de outras doutrinas que não a cristã.
O sacerdócio feminino não é um direito das mulheres, uma vez que se assim fosse, isso quereria dizer que uma universalização extrema de um suposto "direito feminino" obrigaria a atropelar o simbolismo, e consequentemente, a eficácia de um sacramento tão importante como o da Eucaristia. E far-nos-ia possivelmente pensar que, naquele que é o momento mais alto da revelação crística, Jesus se teria deixado influenciar por um suposto machismo na cultura judaica, ou seja, por uma volúvel condicionante social. Se assim fosse, a doutrina deixada por Cristo à Sua Igreja seria algo de passageiro e de validade limitada, algo subjugado e condicionado por características sociais.
Outras questões ficam por tratar, como a interessante questão do diaconato feminino. Em certas Igreja cristãs primitivas, era permitido às mulheres o acesso a um dos graus menores da ordenação, a do diaconato. Note-se que há uma distinção fundamental aqui presente: um diácono não é um sacerdote. Não recebe a ordenação sacerdotal. Deste modo, um diácono não está qualificado para presidir à Eucaristia.
Deste modo, existe algum campo aberto ao debate relativamente ao acesso das mulheres ao diaconato, uma vez que não seriam violadas questões essenciais de doutrina.
Bernardo
quinta-feira, 18 de agosto de 2005
A noção de Hermenêutica
Adquiri, recentemente, a espantosa obra de Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien (Delphica - L'Age d'Homme, Lausanne, Suíça, 1997), de onde retiro este pedagógico apêndice, intitulado "A noção de Hermenêutica".
A NOÇÃO DE HERMENÊUTICA
A hermenêutica constitui hoje um "lugar filosófico" maior; [mas] nem sempre foi assim. Tradicionalmente, os teólogos católicos chamam «hermenêutica» à «arte que traça as regras da interpretação das Sagradas Escrituras», e «exegese» à «aplicação destas regras» (2). A palavra hermenêutica é um adjectivo substantivado que transcreve o grego herméneutiké (s.e. tekhné): (arte) da interpretação (3). Deriva do verbo herméneuein que significa «interpretar», «explicar», e que faz referência a Hermes, o intérprete e o mensageiro dos Deuses, o mestre dos segredos da palavra e do poder dos signos, cujo nome se aproxima de herma que designa todo o objecto que serve de ponto de apoio ou de marca de referencial, em particular nas pedras levantadas, eventualmente itifálicas, o que não deixa de ter relação com o lingam de Shiva, palavra que, em sânscrito, significa «signo». Hermes é filho de Zeus e da ninfa Maia (4), do mesmo modo que Ganesha («Senhor» = îsha das «categorias» = gan) é filho de Shiva e de Pârvatî; ambos são «logotetas», reveladores celestes dos signos da palavra e da escrita, das ciências e das artes. Na revelação cristã a função de Hermes é atribuida a São Paulo que é assim designado pelos habitantes de Listra «porque ele trazia a palavra» (5). Únicos de entre os Padres [da Igreja], Orígenes e Santo Agostinho elaboraram precisamente uma "teoria geral" da hermenêutica (6), sem todavia "nomear" esta mesma ciência. Nos latinos, fala-se correntemente de interpretatio, de intelligentia, expositio, explicatio, explanatio, enarratio, commentarium, lectio, etc., mas jamais de hermeneutica. Mesmo quando os escritores católicos tiveram necessidade, na época da Reforma, de redigir tratados específicos de hermenêutica bíblica, eles não empregaram o termo, nem em latim (o termo preferido é o de interpretatio), nem em francês (onde se emprega sobretudo «explication» ou «intelligence» da Escritura). De centro e trinta e sete tratados católicos de exegese recenseados entre 1528 e 1900, apenas contámos quarenta e quatro (ou seja, menos da terça parte) que trazem no seu título a palavra hermeneutica, que apenas aparece pela primeira vez em 1751: De verbo Dei scripto et tradito seu Introductio in hermeneuticam sacram utriusque Testamenti, de Corbinien Thomas (Salzburgo). Por outro lado, de oitenta e dois tratados protestantes, entre 1567 e 1900, encontramos quarenta (ou seja, perto da metade) cujo título contém «hermenêutica», o primeiro surgido em 1654: Hermeneutica sacra, de J. C. Dannhauer (Estrasburgo). O uso do termo vem então incontestavelmente dos protestantes desejosos de se demarcar da terminologia latina demasiado católica usando uma palavra grega. Contudo, ele impôs-se nos próprios católicos que acabaram por a integrar no vocabulário técnico da teologia e que lhe deram um lugar ao lado do termo consagrado de «exegese», o qual designa em suma a hermenêutica em acto: deste modo Leão XIII, na sua encíclica sobre a Escritura santa, Providentissimus Deus [7], fala das «regras da hermenêutica». Em francês, o adjectivo «hermenêutico» foi registado num dicionário pela primeira vez em 1777 no Supplément da Encyclopédie de Diderot e de D'Alembert. Quando ao substantivo, aparece em 1852 no Manuel d'herméneutique biblique de Cellérier, publicado em Genebra.
Estes dados históricos (8) mostram que o emprego da palavra «hermenêutica» é correlativo da elaboração do conceito de uma ciência especial de interpretação bíblica. Um tal conceito deveria atrair a atenção dos filósofos sobre o acto de interpretar enquanto tal: que fazemos nós quando lemos um texto, bíblico ou não? É o filósofo e o teólogo protestante, Schleiermacher que, em primeiro lugar, formula a exigência de uma hermenêutica geral (1819): «Não existe uma hermenêutica geral que seja uma arte de compreender, existem [apenas] diversas hermenêuticas especiais» (9). Este tema será retomado pelo seu longínquo discípulo Dilthey que o desenvolverá num método geral das ciências da cultura (em alemão as «ciências do espírito», Geisteswissenschaften): Origem e desenvolvimento da hermenêutica (1900) [10]. A partir de Dilthey, com Husserl e sobretudo Heidegger, a reflexão filosófica sobre o acto de interpretar, ou seja, o acto pelo quando nós conferimos tal significado, não só a tal elemento cultural, mas ainda a todos os dados da nossa existência, adquire a sua maior generalidade: o homem não regista apenas os factos, ele compreende-os e interpreta-os como os signos de um certo sentido da existência; aqui, a hermenêutica identifica-se à própria filosofia. Cremos todavia, com Gadamer e Ricœur, que não há «hermenêutica do dasein [11]», de interpretação fundamental da experiência de existir, que não seja informada por uma certa tradição cultural, a qual, para nós, apela necessariamente a uma revelação. A compreensão de si mesmo e do mundo, a «leitura» que fazemos da vida e das coisas efectua-se sempre sobre a base e com a ajuda das chaves da tradição simbólica universal.
(1) Jean Borella, op. cit., pp. 34-35.
(2) Pe. Berthier, Abrégé de théologie dogmatique et morale, E. Vitte, 1927, n.º 214.
(3) Platão, Política, 260d.
(4) Hinos homéricos, Mercúrio, I, 1.
(5) Actos dos Apóstolos, XIV, 12.
(6) Tratado dos Princípios, IV, 8-27; Da doutrina cristã, II e III.
[7] de 18 de Novembro de 1893 (N. T.).
(8) Cf. o artigo «Herméneutique» de E. Mangenot, no Dictionnaire de la Bible de Vigouroux, tomo III, 1903, col. 612-633.
(9) Hermeneutik, editado por Kimmerle, Academia das Ciências e da Cultura de Heidelberg, 1959, p. 79).
[10] Em alemão, Die Entstehung der Hermeneutik (N. T.).
[11] Palavra alemã cujo significado é o de "existência". Contudo, com o filósofo Heidegger, a palavra adquiriu um significado filosófico próprio (N. T.).
A NOÇÃO DE HERMENÊUTICA
A hermenêutica constitui hoje um "lugar filosófico" maior; [mas] nem sempre foi assim. Tradicionalmente, os teólogos católicos chamam «hermenêutica» à «arte que traça as regras da interpretação das Sagradas Escrituras», e «exegese» à «aplicação destas regras» (2). A palavra hermenêutica é um adjectivo substantivado que transcreve o grego herméneutiké (s.e. tekhné): (arte) da interpretação (3). Deriva do verbo herméneuein que significa «interpretar», «explicar», e que faz referência a Hermes, o intérprete e o mensageiro dos Deuses, o mestre dos segredos da palavra e do poder dos signos, cujo nome se aproxima de herma que designa todo o objecto que serve de ponto de apoio ou de marca de referencial, em particular nas pedras levantadas, eventualmente itifálicas, o que não deixa de ter relação com o lingam de Shiva, palavra que, em sânscrito, significa «signo». Hermes é filho de Zeus e da ninfa Maia (4), do mesmo modo que Ganesha («Senhor» = îsha das «categorias» = gan) é filho de Shiva e de Pârvatî; ambos são «logotetas», reveladores celestes dos signos da palavra e da escrita, das ciências e das artes. Na revelação cristã a função de Hermes é atribuida a São Paulo que é assim designado pelos habitantes de Listra «porque ele trazia a palavra» (5). Únicos de entre os Padres [da Igreja], Orígenes e Santo Agostinho elaboraram precisamente uma "teoria geral" da hermenêutica (6), sem todavia "nomear" esta mesma ciência. Nos latinos, fala-se correntemente de interpretatio, de intelligentia, expositio, explicatio, explanatio, enarratio, commentarium, lectio, etc., mas jamais de hermeneutica. Mesmo quando os escritores católicos tiveram necessidade, na época da Reforma, de redigir tratados específicos de hermenêutica bíblica, eles não empregaram o termo, nem em latim (o termo preferido é o de interpretatio), nem em francês (onde se emprega sobretudo «explication» ou «intelligence» da Escritura). De centro e trinta e sete tratados católicos de exegese recenseados entre 1528 e 1900, apenas contámos quarenta e quatro (ou seja, menos da terça parte) que trazem no seu título a palavra hermeneutica, que apenas aparece pela primeira vez em 1751: De verbo Dei scripto et tradito seu Introductio in hermeneuticam sacram utriusque Testamenti, de Corbinien Thomas (Salzburgo). Por outro lado, de oitenta e dois tratados protestantes, entre 1567 e 1900, encontramos quarenta (ou seja, perto da metade) cujo título contém «hermenêutica», o primeiro surgido em 1654: Hermeneutica sacra, de J. C. Dannhauer (Estrasburgo). O uso do termo vem então incontestavelmente dos protestantes desejosos de se demarcar da terminologia latina demasiado católica usando uma palavra grega. Contudo, ele impôs-se nos próprios católicos que acabaram por a integrar no vocabulário técnico da teologia e que lhe deram um lugar ao lado do termo consagrado de «exegese», o qual designa em suma a hermenêutica em acto: deste modo Leão XIII, na sua encíclica sobre a Escritura santa, Providentissimus Deus [7], fala das «regras da hermenêutica». Em francês, o adjectivo «hermenêutico» foi registado num dicionário pela primeira vez em 1777 no Supplément da Encyclopédie de Diderot e de D'Alembert. Quando ao substantivo, aparece em 1852 no Manuel d'herméneutique biblique de Cellérier, publicado em Genebra.
Estes dados históricos (8) mostram que o emprego da palavra «hermenêutica» é correlativo da elaboração do conceito de uma ciência especial de interpretação bíblica. Um tal conceito deveria atrair a atenção dos filósofos sobre o acto de interpretar enquanto tal: que fazemos nós quando lemos um texto, bíblico ou não? É o filósofo e o teólogo protestante, Schleiermacher que, em primeiro lugar, formula a exigência de uma hermenêutica geral (1819): «Não existe uma hermenêutica geral que seja uma arte de compreender, existem [apenas] diversas hermenêuticas especiais» (9). Este tema será retomado pelo seu longínquo discípulo Dilthey que o desenvolverá num método geral das ciências da cultura (em alemão as «ciências do espírito», Geisteswissenschaften): Origem e desenvolvimento da hermenêutica (1900) [10]. A partir de Dilthey, com Husserl e sobretudo Heidegger, a reflexão filosófica sobre o acto de interpretar, ou seja, o acto pelo quando nós conferimos tal significado, não só a tal elemento cultural, mas ainda a todos os dados da nossa existência, adquire a sua maior generalidade: o homem não regista apenas os factos, ele compreende-os e interpreta-os como os signos de um certo sentido da existência; aqui, a hermenêutica identifica-se à própria filosofia. Cremos todavia, com Gadamer e Ricœur, que não há «hermenêutica do dasein [11]», de interpretação fundamental da experiência de existir, que não seja informada por uma certa tradição cultural, a qual, para nós, apela necessariamente a uma revelação. A compreensão de si mesmo e do mundo, a «leitura» que fazemos da vida e das coisas efectua-se sempre sobre a base e com a ajuda das chaves da tradição simbólica universal.
(1) Jean Borella, op. cit., pp. 34-35.
(2) Pe. Berthier, Abrégé de théologie dogmatique et morale, E. Vitte, 1927, n.º 214.
(3) Platão, Política, 260d.
(4) Hinos homéricos, Mercúrio, I, 1.
(5) Actos dos Apóstolos, XIV, 12.
(6) Tratado dos Princípios, IV, 8-27; Da doutrina cristã, II e III.
[7] de 18 de Novembro de 1893 (N. T.).
(8) Cf. o artigo «Herméneutique» de E. Mangenot, no Dictionnaire de la Bible de Vigouroux, tomo III, 1903, col. 612-633.
(9) Hermeneutik, editado por Kimmerle, Academia das Ciências e da Cultura de Heidelberg, 1959, p. 79).
[10] Em alemão, Die Entstehung der Hermeneutik (N. T.).
[11] Palavra alemã cujo significado é o de "existência". Contudo, com o filósofo Heidegger, a palavra adquiriu um significado filosófico próprio (N. T.).
domingo, 10 de julho de 2005
Desabafos
Depois de ler a animada troca de comentários entre o Machogrosso e o CA relativamente ao meu último post, apeteceu-me escrever estes desabafos. Peço a quem me lê que veja isto como meros desabafos, cujo reduzido valor serve como boa desculpa para a linguagem ligeira por mim utilizada.
Agradecendo a ajuda do Machogrosso, meu amigo transatlântico, que muitas vezes por cá passa para me demonstrar que eu não estou louco, e que, graças a Deus, ainda há pessoas a tentar pensar e a colocar questões com clareza, queria tecer alguns comentários, à laia de desabafo, depois de ter lido o que escreveu o CA.
O CA recorda-me uma fase da minha vida, na qual eu também diabolizava as "estruturas" do Vaticano, e procurava colocar todas as minhas ignorâncias dentro dessa grande caixa negra de "futilidades vaticanas". Assim, nessa óptica, eu era um protestante sem o saber. Era um protestante que ia à missa, convicto de que não precisava de toda aquela "tralha" inventada por um Vaticano "burocrático" e "déspota".
Mas caramba, eu tinha então vinte anos e era muito ingénuo!
Estava profundamente formatado pela opinionite inculcada pelos mass media.
Desde essa altura, tenho feito um esforço considerável para me instruir em doutrina católica, para aprender o máximo que posso sobre a História da Igreja Católica, para esclarecer as minhas inúmeras dúvidas junto de fontes sérias e credíveis.
Faz-me uma imensa confusão que se considerem as ilacções doutrinárias da Congregação para a Doutrina da Fé como coisas acessórias para a fé do católico.
E porquê?
Porque, do meu estudo das heresias e da história agitada dos primeiros séculos de cristianismo, recordo-me dos excessos de certas seitas que, detestando todo o tipo de estrutura hierárquica, procuravam, numa quase anarquia, o que eles achavam que era "cristianismo original".
A hierarquia foi estabelecida, à luz da doutrina, pelo próprio Jesus Cristo, que escolheu a figura de Pedro como cabeça do seu movimento:
Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam
Não poucas vezes, vejo crentes católicos repudiarem dogmas como o da Infalibilidade Papal, ou o da Imaculada Conceição de Maria, só porque são, para eles, "invenções modernas". Estes dogmas, mesmo surgindo na era moderna, são os frutos da tradição apostólica, do desabrochar das potencialidades da fé crística. Será a maçã, recentemente formada, de natureza diferente da árvore que a gerou?
A tradição apostólica faz da Igreja Católica um dos mais complexos, mas também dos mais coerentes, movimentos que a Humanidade já conheceu.
É da mais simples e discreta humildade que o crente, perante uma naturalíssima dúvida, dê o benefício a uma doutrina com dois mil anos de tradição.
Por outro lado, é da mais abjecta arrogância recorrer à diabolização do Vaticano (transformado em máquina infernal de fúteis invenções doutrinárias) para tentar ocultar atrás de uma opinionite aguda graves deficiências de cultura católica.
Como é possível que um crente, profundamente desconhecedor das questões fundamentais do cristianismo, seja tão egocêntrico ao ponto de achar que a sua opinião ignorante, puro flatus voci, vale alguma coisa contra a solidez de temas tratados durante milénios pelas mais brilhantes cabeças que o Ocidente conheceu?
Usa-se, hoje em dia, e abusa-se, de termos como "tolerância", ou "liberdade de expressão", ou ainda "liberdade de opinião".
Nada tenho a opor-me a estes termos, nem às liberdades por eles defendidas. Contudo, ninguém me poderá negar o direito a expor este vício moderno, a opinionite, pela qual a ignorância pretende subir ao palanque para arrancar à força os louros que antes cabiam à sabedoria.
Opiniões, todos as podemos ter.
Contudo, evitemos confundir opiniões com factos.
É um facto que a doutrina católica professa a existência do Diabo, dos seres intermédios (vulgo "anjos" e "demónios"), bem como usa rituais adequados para lidar com certas situações de real possessão demoníaca.
A opinionite dos católicos "modernistas", cuja intelectualidade está já irremediavelmente materialista, positivista e empirista, nada poderá fazer contra este facto, mesmo que hoje em dia poucos sejam aqueles que o reconhecem como facto.
Ajudados como estão por, também eles "modernos" e "progressistas", teólogos que hoje em dia já são sobretudo "kantianos", "hegelianos", "schopenauerianos", "cartesianos", "jamesianos", teólogos que já não se interessam pela santa doutrina que herdaram dos nossos antepassados na fé, os modernos crentes católicos tentam transformar o catolicismo numa grande tenda, onde cabem todos, bem ao estilo dos tempos modernos.
No que me toca, da minha miserável condição de ser humano que nunca poderá evitar a "marcha do mundo", não me calarei e não prescindirei da denúncia dos vícios modernistas, que se infiltram ininterruptamente e subrepticiamente na doutrina católica.
Os católicos "modernistas", não se dão conta que, de facto, são meros instrumentos nesta marcha inexorável em direcção à dissolução do temporal. Lêem, entusiasmados, um Teilhard de Chardin (criador da excentricidade do "deus evolutor"), com o fascínio com que deveriam ler um São Tomás de Aquino!
O que quererá isto dizer sobre o catolicismo moderno, e sobre o destino que muitos lhe querem imprimir?
Agradecendo a ajuda do Machogrosso, meu amigo transatlântico, que muitas vezes por cá passa para me demonstrar que eu não estou louco, e que, graças a Deus, ainda há pessoas a tentar pensar e a colocar questões com clareza, queria tecer alguns comentários, à laia de desabafo, depois de ter lido o que escreveu o CA.
O CA recorda-me uma fase da minha vida, na qual eu também diabolizava as "estruturas" do Vaticano, e procurava colocar todas as minhas ignorâncias dentro dessa grande caixa negra de "futilidades vaticanas". Assim, nessa óptica, eu era um protestante sem o saber. Era um protestante que ia à missa, convicto de que não precisava de toda aquela "tralha" inventada por um Vaticano "burocrático" e "déspota".
Mas caramba, eu tinha então vinte anos e era muito ingénuo!
Estava profundamente formatado pela opinionite inculcada pelos mass media.
Desde essa altura, tenho feito um esforço considerável para me instruir em doutrina católica, para aprender o máximo que posso sobre a História da Igreja Católica, para esclarecer as minhas inúmeras dúvidas junto de fontes sérias e credíveis.
Faz-me uma imensa confusão que se considerem as ilacções doutrinárias da Congregação para a Doutrina da Fé como coisas acessórias para a fé do católico.
E porquê?
Porque, do meu estudo das heresias e da história agitada dos primeiros séculos de cristianismo, recordo-me dos excessos de certas seitas que, detestando todo o tipo de estrutura hierárquica, procuravam, numa quase anarquia, o que eles achavam que era "cristianismo original".
A hierarquia foi estabelecida, à luz da doutrina, pelo próprio Jesus Cristo, que escolheu a figura de Pedro como cabeça do seu movimento:
Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam
Não poucas vezes, vejo crentes católicos repudiarem dogmas como o da Infalibilidade Papal, ou o da Imaculada Conceição de Maria, só porque são, para eles, "invenções modernas". Estes dogmas, mesmo surgindo na era moderna, são os frutos da tradição apostólica, do desabrochar das potencialidades da fé crística. Será a maçã, recentemente formada, de natureza diferente da árvore que a gerou?
A tradição apostólica faz da Igreja Católica um dos mais complexos, mas também dos mais coerentes, movimentos que a Humanidade já conheceu.
É da mais simples e discreta humildade que o crente, perante uma naturalíssima dúvida, dê o benefício a uma doutrina com dois mil anos de tradição.
Por outro lado, é da mais abjecta arrogância recorrer à diabolização do Vaticano (transformado em máquina infernal de fúteis invenções doutrinárias) para tentar ocultar atrás de uma opinionite aguda graves deficiências de cultura católica.
Como é possível que um crente, profundamente desconhecedor das questões fundamentais do cristianismo, seja tão egocêntrico ao ponto de achar que a sua opinião ignorante, puro flatus voci, vale alguma coisa contra a solidez de temas tratados durante milénios pelas mais brilhantes cabeças que o Ocidente conheceu?
Usa-se, hoje em dia, e abusa-se, de termos como "tolerância", ou "liberdade de expressão", ou ainda "liberdade de opinião".
Nada tenho a opor-me a estes termos, nem às liberdades por eles defendidas. Contudo, ninguém me poderá negar o direito a expor este vício moderno, a opinionite, pela qual a ignorância pretende subir ao palanque para arrancar à força os louros que antes cabiam à sabedoria.
Opiniões, todos as podemos ter.
Contudo, evitemos confundir opiniões com factos.
É um facto que a doutrina católica professa a existência do Diabo, dos seres intermédios (vulgo "anjos" e "demónios"), bem como usa rituais adequados para lidar com certas situações de real possessão demoníaca.
A opinionite dos católicos "modernistas", cuja intelectualidade está já irremediavelmente materialista, positivista e empirista, nada poderá fazer contra este facto, mesmo que hoje em dia poucos sejam aqueles que o reconhecem como facto.
Ajudados como estão por, também eles "modernos" e "progressistas", teólogos que hoje em dia já são sobretudo "kantianos", "hegelianos", "schopenauerianos", "cartesianos", "jamesianos", teólogos que já não se interessam pela santa doutrina que herdaram dos nossos antepassados na fé, os modernos crentes católicos tentam transformar o catolicismo numa grande tenda, onde cabem todos, bem ao estilo dos tempos modernos.
No que me toca, da minha miserável condição de ser humano que nunca poderá evitar a "marcha do mundo", não me calarei e não prescindirei da denúncia dos vícios modernistas, que se infiltram ininterruptamente e subrepticiamente na doutrina católica.
Os católicos "modernistas", não se dão conta que, de facto, são meros instrumentos nesta marcha inexorável em direcção à dissolução do temporal. Lêem, entusiasmados, um Teilhard de Chardin (criador da excentricidade do "deus evolutor"), com o fascínio com que deveriam ler um São Tomás de Aquino!
O que quererá isto dizer sobre o catolicismo moderno, e sobre o destino que muitos lhe querem imprimir?
sexta-feira, 1 de julho de 2005
Instrução sobre o Exorcismo
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
INSTRUÇÃO SOBRE O EXORCISMO
24 de Setembro de 1985
Excelentíssimo Senhor,
Há alguns anos, certos grupos eclesiais multiplicam reuniões para orar no intuito de obter a libertação do influxo dos demônios, embora não se trate de exorcismo propriamente dito. Tais reuniões são efetuadas sob a direção de leigos, mesmo quando está presente um sacerdote.
Visto que a Congregação para a Doutrina da Fé foi interrogada a respeito do que pensar diante de tais fatos, este Dicastério julga necessário transmitir a todos os Ordinários a seguinte resposta:
1. O cânon 1172 do Código de Direito Canônico declara que a ninguém é lícito proferir exorcismo sobre pessoas possessas, a não ser que o Ordinário do lugar tenha concedido peculiar e explícita licença para tanto (1º). Determina também que esta licença só pode ser concedida pelo Ordinário do lugar a um presbítero dotado de piedade, sabedoria, prudência e integridade de vida (2º). Por conseguinte, os srs. Bispos são convidados a urgir a observância de tais preceitos.
2. Destas prescrições, segue-se que não é lícito aos fiéis cristãos utilizar a fórmula de exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, contida no Rito que foi publicado por ordem do Sumo Pontífice Leão XIII; muito menos lhes é lícito aplicar o texto inteiro deste exorcismo. Os srs. Bispos tratem de admoestar os fiéis a propósito, desde que haja necessidade.
3. Por fim, pelas mesmas razões, os srs. Bispos são solicitados a que vigiem para que - mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica - pessoas não devidamente autorizadas não orientem reuniões nas quais se façam orações para obter a expulsão do demônio, orações que diretamente interpelem os demônios ou manifestem o anseio de conhecer a identidade dos mesmos.
A formulação destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis de rezar para que, como Jesus nos ensinou, sejam livres do mal (cf. Mt 6,13). Além disso, os Pastores poderão valer-se desta oportunidade para lembrar o que a Tradição da Igreja ensina a rrespeito da função própria dos Sacramentos e a propósito da intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos na luta espiritual dos cristãos contra os espíritos malignos.
Aproveito o ensejo para exprimir a Vossa Excelência meus sentimentos de estima, enquanto lhe fico sendo dedicado no Senhor.
Joseph Card. Ratzinger
Prefeito
Retirado de Instrução sobre o Exorcismo - Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, do site oficial do Vaticano.
Posto isto, com um texto tão claro como este, como é possível que tantos católicos ainda considerem que a existência do Diabo e dos demónios é matéria opcional de fé?
E como é possível que tantos católicos não entendam a necessidade do rito de exorcismo, mesmo que ele apenas tenha que ser usado raríssimas vezes?
INSTRUÇÃO SOBRE O EXORCISMO
24 de Setembro de 1985
Excelentíssimo Senhor,
Há alguns anos, certos grupos eclesiais multiplicam reuniões para orar no intuito de obter a libertação do influxo dos demônios, embora não se trate de exorcismo propriamente dito. Tais reuniões são efetuadas sob a direção de leigos, mesmo quando está presente um sacerdote.
Visto que a Congregação para a Doutrina da Fé foi interrogada a respeito do que pensar diante de tais fatos, este Dicastério julga necessário transmitir a todos os Ordinários a seguinte resposta:
1. O cânon 1172 do Código de Direito Canônico declara que a ninguém é lícito proferir exorcismo sobre pessoas possessas, a não ser que o Ordinário do lugar tenha concedido peculiar e explícita licença para tanto (1º). Determina também que esta licença só pode ser concedida pelo Ordinário do lugar a um presbítero dotado de piedade, sabedoria, prudência e integridade de vida (2º). Por conseguinte, os srs. Bispos são convidados a urgir a observância de tais preceitos.
2. Destas prescrições, segue-se que não é lícito aos fiéis cristãos utilizar a fórmula de exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, contida no Rito que foi publicado por ordem do Sumo Pontífice Leão XIII; muito menos lhes é lícito aplicar o texto inteiro deste exorcismo. Os srs. Bispos tratem de admoestar os fiéis a propósito, desde que haja necessidade.
3. Por fim, pelas mesmas razões, os srs. Bispos são solicitados a que vigiem para que - mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica - pessoas não devidamente autorizadas não orientem reuniões nas quais se façam orações para obter a expulsão do demônio, orações que diretamente interpelem os demônios ou manifestem o anseio de conhecer a identidade dos mesmos.
A formulação destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis de rezar para que, como Jesus nos ensinou, sejam livres do mal (cf. Mt 6,13). Além disso, os Pastores poderão valer-se desta oportunidade para lembrar o que a Tradição da Igreja ensina a rrespeito da função própria dos Sacramentos e a propósito da intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos na luta espiritual dos cristãos contra os espíritos malignos.
Aproveito o ensejo para exprimir a Vossa Excelência meus sentimentos de estima, enquanto lhe fico sendo dedicado no Senhor.
Joseph Card. Ratzinger
Prefeito
Retirado de Instrução sobre o Exorcismo - Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, do site oficial do Vaticano.
Posto isto, com um texto tão claro como este, como é possível que tantos católicos ainda considerem que a existência do Diabo e dos demónios é matéria opcional de fé?
E como é possível que tantos católicos não entendam a necessidade do rito de exorcismo, mesmo que ele apenas tenha que ser usado raríssimas vezes?
terça-feira, 28 de junho de 2005
O católico e as suas obrigações
O Lutz dedicou este post à discussão que tem corrido nestes dias sobre a questão do Diabo à luz da doutrina católica.
Desde já, agradeço-lhe o post, que demonstra a sua tenacidade em reflectir sobre este assunto, e em tentar tirar do tema todas as ilacções possíveis.
Contudo, sinto-me profundamente injustiçado, e sinto que a minha posição foi totalmente incompreendida.
No texto do Lutz, saem enaltecidos os católicos que toleram tudo dentro da sua religião, que num esforço por tolerar o outro, também concordam com o erro do outro. Ora isso não é tolerância. Isso é incoerência.
Uma das maiores facetas da caridade é corrigir o próximo. Nada me parece mais importante do que corrigir o próximo e deixar-me corrigir por ele. Nos dias que correm, as pessoas andam demasiado preocupadas com os seus egos.
Para elas, as minhas palavras eram uma intimação: "Se crês no Diabo, fica! Se não crês, sai!".
Mas alguma vez era essa a minha intenção, Lutz?
Alguma vez?
O que eu disse, e que continuo (teimosamente, se calhar) a dizer é simples e claro como a água: ser católico implica professar a doutrina católica.
A doutrina católica tem uma forma particular e característica de ver o Mundo. É através dessa forma peculiar de ver o mundo que o católico se define como tal, em pensamentos e em actos.
Será que os meus críticos reagiriam do mesmo modo se eu afirmasse ser necessário crer em Jesus Cristo como Deus para ser católico?
Vamos fazer uma suposição: o meu post era sobre Jesus Cristo ser Deus, Filho de Deus feito homem. Estaria eu a ser "intolerante" se eu afirmasse que um católico tem que crer que Jesus é Deus?
Pois qual é a diferença?
Haverá diferença de natureza nas duas situações?
Creio que não há.
Há apenas uma diferença de importância: é notoriamente mais importante para o ser católico crer em Jesus como Deus do que professar a existência do Diabo. Contudo, esta diferença de importância não estabelece uma separação de naturezas: ou seja, o católico, apesar de dever saber dar prioridades nas suas convicções, não pode traçar arbitrariamente a fronteira do que é a crença católica e do que são opiniões pessoais.
Para evitar essa arbitrariedade, existem inúmeros documentos que ajudam o crente a saber, exactamente, o que é a doutrina que ele professa. Um desses documentos é o Catecismo.
O que sucedeu nos posts do Lutz, e por outras bandas, foi que certos católicos decidiram fazer ridícula a minha posição. Quando o que eu apenas lhes afirmei foi o que está no Catecismo da Igreja Católica. O meu post era uma chamada à reflexão para católicos (e também para não-católicos). Não era um julgamento inquisitorial!
No Pai Nosso, dizemos: "Mas livrai-nos do Mal". O que é esse Mal?
Era esse o cerne do meu post, e era a essa reflexão que eu estava a convidar quem estivesse interessado.
Não sou juíz de ninguém, porque primeiro tenho que ajuízar sobre mim próprio.
Mas não faz sentido ser-se católico, e usar o Catecismo à la carte.
Não é uma questão de obediência. É uma questão de coerência.
Desde já, agradeço-lhe o post, que demonstra a sua tenacidade em reflectir sobre este assunto, e em tentar tirar do tema todas as ilacções possíveis.
Contudo, sinto-me profundamente injustiçado, e sinto que a minha posição foi totalmente incompreendida.
No texto do Lutz, saem enaltecidos os católicos que toleram tudo dentro da sua religião, que num esforço por tolerar o outro, também concordam com o erro do outro. Ora isso não é tolerância. Isso é incoerência.
Uma das maiores facetas da caridade é corrigir o próximo. Nada me parece mais importante do que corrigir o próximo e deixar-me corrigir por ele. Nos dias que correm, as pessoas andam demasiado preocupadas com os seus egos.
Para elas, as minhas palavras eram uma intimação: "Se crês no Diabo, fica! Se não crês, sai!".
Mas alguma vez era essa a minha intenção, Lutz?
Alguma vez?
O que eu disse, e que continuo (teimosamente, se calhar) a dizer é simples e claro como a água: ser católico implica professar a doutrina católica.
A doutrina católica tem uma forma particular e característica de ver o Mundo. É através dessa forma peculiar de ver o mundo que o católico se define como tal, em pensamentos e em actos.
Será que os meus críticos reagiriam do mesmo modo se eu afirmasse ser necessário crer em Jesus Cristo como Deus para ser católico?
Vamos fazer uma suposição: o meu post era sobre Jesus Cristo ser Deus, Filho de Deus feito homem. Estaria eu a ser "intolerante" se eu afirmasse que um católico tem que crer que Jesus é Deus?
Pois qual é a diferença?
Haverá diferença de natureza nas duas situações?
Creio que não há.
Há apenas uma diferença de importância: é notoriamente mais importante para o ser católico crer em Jesus como Deus do que professar a existência do Diabo. Contudo, esta diferença de importância não estabelece uma separação de naturezas: ou seja, o católico, apesar de dever saber dar prioridades nas suas convicções, não pode traçar arbitrariamente a fronteira do que é a crença católica e do que são opiniões pessoais.
Para evitar essa arbitrariedade, existem inúmeros documentos que ajudam o crente a saber, exactamente, o que é a doutrina que ele professa. Um desses documentos é o Catecismo.
O que sucedeu nos posts do Lutz, e por outras bandas, foi que certos católicos decidiram fazer ridícula a minha posição. Quando o que eu apenas lhes afirmei foi o que está no Catecismo da Igreja Católica. O meu post era uma chamada à reflexão para católicos (e também para não-católicos). Não era um julgamento inquisitorial!
No Pai Nosso, dizemos: "Mas livrai-nos do Mal". O que é esse Mal?
Era esse o cerne do meu post, e era a essa reflexão que eu estava a convidar quem estivesse interessado.
Não sou juíz de ninguém, porque primeiro tenho que ajuízar sobre mim próprio.
Mas não faz sentido ser-se católico, e usar o Catecismo à la carte.
Não é uma questão de obediência. É uma questão de coerência.
terça-feira, 21 de junho de 2005
O Diabo à luz da doutrina judaica e cristã
A pedido do Pedro Fontela, eis alguns esclarecimentos rápidos e muito sucintos sobre esta questão. Como são vários os termos empregues para representar o Diabo, convém ter alguma precaução, porque cada termo possui um contexto e um significado diferentes.
Comecemos por Satanás, ou Satã.
Vem do hebreu "shatan", que significa simplesmente "adversário".
Era neste sentido que a palavra era usada vulgarmente pelos hebreus, no sentido de um adversário ou de um inimigo (pessoa individual ou colectividade).
Elaine Pagels, na sua obra The Origins of Satan, defende a tese de que o Diabo era, originalmente, apenas o inimigo.
É totalmente verdadeiro o que o Pedro Fontela afirma, a saber, que a demonologia judaica e a demonologia cristã são muito diferentes.
Uma das características mais notórias é que a demonologia do Antigo Testamento fica àquem, no que toca à complexidade e ao detalhe, de outras demonologias do Médio Oriente, como a dos Assírios, a dos Acadianos, ou a do Avestá (Iranianos).
Embora o Antigo Testamento seja rico em detalhes angeológicos (arcanjos, serafins, querubins, anjos), é pobre no que toca à demonologia.
Mas tal não significa que ela não exista. O Mal está presente na história da serpente, no Génesis. Está em Job, em Reis, no livro de Zacarias. O Levítico adverte contra bruxarias. Isaías fala em demónios (cap. 34, vs. 14). O livro de Tobias (se bem que não faça parte da Bíblica hebraica, mas sim da Cristã) fala no demónio Asmodeus. E há muito mais casos...
Por tudo isto, não me parece correcta a leitura excessivamente académica de Elaine Pagels, que simplifica uma questão complexa. É correcto que os Judeus usavam a palavra "satã" para designar os seus adversários. Mas isso não chega para afirmar que eles não possuiam uma genuína demonologia nem professavam a crença numa criatura personificadora do Mal.
Outro esclarecimento impõe-se no que toca ao termo Lúcifer, que quer apenas dizer "Portador da Luz". Lúficer é a palavra latina para o hebreu "helel", ou o grego "heosphoros". Representa quase sempre a "estrela da manhã", ou seja o planeta Vénus, que se vê logo na aurora (Job 11:17, Salmo 109:3). Lucífer é um termo teologicamente inadequado para representar o Diabo enquanto criatura caída, uma vez que a tradição sempre considerou que o termo apenas se aplicaria ao Diabo na sua condição luminosa antes da Queda (o próprio nome o indica).
Como curiosidade, o termo "Lúcifer" é também aplicado a outras personagens, como por exempo ao Rei da Babilónia (Isaías 14:12), ao Sumo Sacerdote Simão, filho de Onias (Eclesiastes 50:6), e mesmo ao próprio Jesus Cristo (Pedro II 1:19; Apocalipse 22:16). E isto porque a palavra quer mesmo dizer "o portador da Luz", e neste sentido serviu para ser usada em vários contextos.
Por esta razão, o termo correcto, na doutrina católica, para a personificação do Mal é Satã, Satanás, ou simplesmente Diabo.
Etimologicamente, a palavra "diabo" vem do latim "diabolus", que por sua vez vem do grego "diabolos", e representa o líder das hostes demoníacas.
No Novo Testamento, são mais evidentes as referências ao Diabo, como o trecho de Mateus que referi no post anterior. O Apocalipse faz também várias referências ao Diabo, e de uma grande riqueza teológica.
A doutrina católica fixou de forma bastante literal a existência do Diabo e dos demónios:
"Diabolus enim et alii dæmones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali." - Concílio Latrão IV
("o Diabo e os outros demónios foram criados por Deus bons na sua natureza mas eles próprios se fizeram maus.")
Tenho a perfeita noção de que aflorei apenas a ponta do icebergue. Se o Pedro quiser, poderemos ir mais ao detalhe nalguma questão.
Referências:
Catholic Encyclopedia - Devil
Catholic Encyclopedia - Lucifer
Catholic Encyclopedia - Demonology
Comecemos por Satanás, ou Satã.
Vem do hebreu "shatan", que significa simplesmente "adversário".
Era neste sentido que a palavra era usada vulgarmente pelos hebreus, no sentido de um adversário ou de um inimigo (pessoa individual ou colectividade).
Elaine Pagels, na sua obra The Origins of Satan, defende a tese de que o Diabo era, originalmente, apenas o inimigo.
É totalmente verdadeiro o que o Pedro Fontela afirma, a saber, que a demonologia judaica e a demonologia cristã são muito diferentes.
Uma das características mais notórias é que a demonologia do Antigo Testamento fica àquem, no que toca à complexidade e ao detalhe, de outras demonologias do Médio Oriente, como a dos Assírios, a dos Acadianos, ou a do Avestá (Iranianos).
Embora o Antigo Testamento seja rico em detalhes angeológicos (arcanjos, serafins, querubins, anjos), é pobre no que toca à demonologia.
Mas tal não significa que ela não exista. O Mal está presente na história da serpente, no Génesis. Está em Job, em Reis, no livro de Zacarias. O Levítico adverte contra bruxarias. Isaías fala em demónios (cap. 34, vs. 14). O livro de Tobias (se bem que não faça parte da Bíblica hebraica, mas sim da Cristã) fala no demónio Asmodeus. E há muito mais casos...
Por tudo isto, não me parece correcta a leitura excessivamente académica de Elaine Pagels, que simplifica uma questão complexa. É correcto que os Judeus usavam a palavra "satã" para designar os seus adversários. Mas isso não chega para afirmar que eles não possuiam uma genuína demonologia nem professavam a crença numa criatura personificadora do Mal.
Outro esclarecimento impõe-se no que toca ao termo Lúcifer, que quer apenas dizer "Portador da Luz". Lúficer é a palavra latina para o hebreu "helel", ou o grego "heosphoros". Representa quase sempre a "estrela da manhã", ou seja o planeta Vénus, que se vê logo na aurora (Job 11:17, Salmo 109:3). Lucífer é um termo teologicamente inadequado para representar o Diabo enquanto criatura caída, uma vez que a tradição sempre considerou que o termo apenas se aplicaria ao Diabo na sua condição luminosa antes da Queda (o próprio nome o indica).
Como curiosidade, o termo "Lúcifer" é também aplicado a outras personagens, como por exempo ao Rei da Babilónia (Isaías 14:12), ao Sumo Sacerdote Simão, filho de Onias (Eclesiastes 50:6), e mesmo ao próprio Jesus Cristo (Pedro II 1:19; Apocalipse 22:16). E isto porque a palavra quer mesmo dizer "o portador da Luz", e neste sentido serviu para ser usada em vários contextos.
Por esta razão, o termo correcto, na doutrina católica, para a personificação do Mal é Satã, Satanás, ou simplesmente Diabo.
Etimologicamente, a palavra "diabo" vem do latim "diabolus", que por sua vez vem do grego "diabolos", e representa o líder das hostes demoníacas.
No Novo Testamento, são mais evidentes as referências ao Diabo, como o trecho de Mateus que referi no post anterior. O Apocalipse faz também várias referências ao Diabo, e de uma grande riqueza teológica.
A doutrina católica fixou de forma bastante literal a existência do Diabo e dos demónios:
"Diabolus enim et alii dæmones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali." - Concílio Latrão IV
("o Diabo e os outros demónios foram criados por Deus bons na sua natureza mas eles próprios se fizeram maus.")
Tenho a perfeita noção de que aflorei apenas a ponta do icebergue. Se o Pedro quiser, poderemos ir mais ao detalhe nalguma questão.
Referências:
Catholic Encyclopedia - Devil
Catholic Encyclopedia - Lucifer
Catholic Encyclopedia - Demonology
O Diabo no Novo Testamento
"Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e disse-Lhe:
«Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».
Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O."
- Mateus 4, 1-11.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e disse-Lhe:
«Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».
Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O."
- Mateus 4, 1-11.
Ainda o Diabo...
Eu já sabia que este tema iria gerar alguma incompreensão.
O meu amigo Lutz, conterrâneo de outras andanças, criticou o meu texto anterior sobre o Diabo, perguntando-me se os católicos que recusam o Diabo e a validade dos exorcismos ainda são católicos.
Ora bem, a questão parece-me assaz simples. O catolicismo é o que é porque está doutrinalmente definido. Os textos conciliares, as encíclicas apostólicas, as cartas pontifícias, o Catecismo da Igreja Católica, são tudo fontes fidedignas para saber o que é isto de ser católico.
Se a Igreja Católica fosse o IKEA, qualquer católico poderia entrar na loja, escolher as partes que gostava, e sair de lá de dentro com a "sua" doutrina.
Sucede que a Igreja Católica não é o IKEA.
Podemos ler, no Catecismo da Igreja Católica (por comodidade, não traduzi do inglês):
II. THE FALL OF THE ANGELS
391 Behind the disobedient choice of our first parents lurks a seductive voice, opposed to God, which makes them fall into death out of envy.266 Scripture and the Church's Tradition see in this being a fallen angel, called "Satan" or the "devil".267 The Church teaches that Satan was at first a good angel, made by God: "The devil and the other demons were indeed created naturally good by God, but they became evil by their own doing."268
392 Scripture speaks of a sin of these angels.269 This "fall" consists in the free choice of these created spirits, who radically and irrevocably rejected God and his reign. We find a reflection of that rebellion in the tempter's words to our first parents: "You will be like God."270 The devil "has sinned from the beginning"; he is "a liar and the father of lies".271
393 It is the irrevocable character of their choice, and not a defect in the infinite divine mercy, that makes the angels' sin unforgivable. "There is no repentance for the angels after their fall, just as there is no repentance for men after death."272
394 Scripture witnesses to the disastrous influence of the one Jesus calls "a murderer from the beginning", who would even try to divert Jesus from the mission received from his Father.273 "The reason the Son of God appeared was to destroy the works of the devil."274 In its consequences the gravest of these works was the mendacious seduction that led man to disobey God.
395 The power of Satan is, nonetheless, not infinite. He is only a creature, powerful from the fact that he is pure spirit, but still a creature. He cannot prevent the building up of God's reign. Although Satan may act in the world out of hatred for God and his kingdom in Christ Jesus, and although his action may cause grave injuries - of a spiritual nature and, indirectly, even of a physical nature - to each man and to society, the action is permitted by divine providence which with strength and gentleness guides human and cosmic history. It is a great mystery that providence should permit diabolical activity, but "we know that in everything God works for good with those who love him."275
Dirijo uma pergunta ao meu amigo Lutz, que eu lhe peço que responda com base no seu bom senso: faz sentido um católico não seguir o Catecismo?
Se o Catecismo compila a estrutura e o conteúdo doutrinários da Igreja Católica, e se os crentes escolhem como lhes apetece o que lhes convém (ou melhor, o que convém às mentes distorcidas pelos preconceitos da sociedade moderna, que é materialista até ao âmago), para que serve o Catecismo?
Eu espantar-me-ia se, numa sondagem à boca das Igrejas, mais de metade dos inquiridos tivesse a coragem para assumir que acredita no miraculoso! Muitos crentes fugiriam do assunto, ficariam corados! E se a pergunta fosse "Acredita na existência do Diabo?", as respostas seriam ainda mais escandalosas e ainda mais contraditórias face ao que ensina o Catecismo.
Qual é a minha ideia?
Propor obediência cega ao Catecismo?
Nada disso! Proponho, humildemente, aos meus irmãos católicos:
a) uma leitura atenta do Catecismo, e uma profunda revisão de consciência e do que implica ser católico e professar o catolicismo;
b) um estudo aprofundado sobre estes temas; porque aquilo que é compreeendido é mais facilmente professado.
Não defendo a existência do Diabo para obedecer à Igreja!
Defendo-a porque a doutrina, para mim, só faz sentido assim. Defendo-a, porque acho que corresponde ao real.
Para terminar, Lutz, acho que este teu trecho pode ser muito falacioso:
"Tenho muitos amigos católicos que discordam consigo. Pelo que percebi, nega-lhes o direito de se considerar católicos."
O que tu me dizes é que eu, por respeito para com os teus amigos (também tenho amigos que pensam o mesmo), deveria tentar acomodar (sabe-se lá como) estas opiniões divergentes e contraditórias com o magistério da Igreja?
O que deve fazer a doutrina católica perante os católicos que afirmam que o Diabo não existe? Deve a doutrina riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam que Jesus Cristo está presente na Eucaristia? Se calhar, por respeito, a Igreja também deveria riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam em milagres? Deverá a Igreja também riscar os milagres do mapa?
O que é que restaria do catolicismo? O que é que o diferenciaria, por exemplo, do protestantismo?
Parece-me que o teu argumento, caro Lutz, é emocional e não racional. Em nome de uma uma suposta (e falsa) "tolerância", ou por respeito para com as opiniões dos crentes, a Igreja Católica deve começar a cortar partes do Catecismo?
E quem terá mais credibilidade?
A) A Igreja com o seu magistério duas vezes milenar
B) O crente que não lê o Catecismo, não lê a Bíblia, não lê os textos oficiais, não sabe nada da História da Igreja
No fundo, e com todo o respeito, Lutz, o crente católico que me descreves, e que nega a existência do Diabo e a validade dos exorcismos, tem apenas "uma opinião" sobre a matéria, e nada mais. E uma opinião não fundamentada, se me permites.
O meu amigo Lutz, conterrâneo de outras andanças, criticou o meu texto anterior sobre o Diabo, perguntando-me se os católicos que recusam o Diabo e a validade dos exorcismos ainda são católicos.
Ora bem, a questão parece-me assaz simples. O catolicismo é o que é porque está doutrinalmente definido. Os textos conciliares, as encíclicas apostólicas, as cartas pontifícias, o Catecismo da Igreja Católica, são tudo fontes fidedignas para saber o que é isto de ser católico.
Se a Igreja Católica fosse o IKEA, qualquer católico poderia entrar na loja, escolher as partes que gostava, e sair de lá de dentro com a "sua" doutrina.
Sucede que a Igreja Católica não é o IKEA.
Podemos ler, no Catecismo da Igreja Católica (por comodidade, não traduzi do inglês):
II. THE FALL OF THE ANGELS
391 Behind the disobedient choice of our first parents lurks a seductive voice, opposed to God, which makes them fall into death out of envy.266 Scripture and the Church's Tradition see in this being a fallen angel, called "Satan" or the "devil".267 The Church teaches that Satan was at first a good angel, made by God: "The devil and the other demons were indeed created naturally good by God, but they became evil by their own doing."268
392 Scripture speaks of a sin of these angels.269 This "fall" consists in the free choice of these created spirits, who radically and irrevocably rejected God and his reign. We find a reflection of that rebellion in the tempter's words to our first parents: "You will be like God."270 The devil "has sinned from the beginning"; he is "a liar and the father of lies".271
393 It is the irrevocable character of their choice, and not a defect in the infinite divine mercy, that makes the angels' sin unforgivable. "There is no repentance for the angels after their fall, just as there is no repentance for men after death."272
394 Scripture witnesses to the disastrous influence of the one Jesus calls "a murderer from the beginning", who would even try to divert Jesus from the mission received from his Father.273 "The reason the Son of God appeared was to destroy the works of the devil."274 In its consequences the gravest of these works was the mendacious seduction that led man to disobey God.
395 The power of Satan is, nonetheless, not infinite. He is only a creature, powerful from the fact that he is pure spirit, but still a creature. He cannot prevent the building up of God's reign. Although Satan may act in the world out of hatred for God and his kingdom in Christ Jesus, and although his action may cause grave injuries - of a spiritual nature and, indirectly, even of a physical nature - to each man and to society, the action is permitted by divine providence which with strength and gentleness guides human and cosmic history. It is a great mystery that providence should permit diabolical activity, but "we know that in everything God works for good with those who love him."275
Dirijo uma pergunta ao meu amigo Lutz, que eu lhe peço que responda com base no seu bom senso: faz sentido um católico não seguir o Catecismo?
Se o Catecismo compila a estrutura e o conteúdo doutrinários da Igreja Católica, e se os crentes escolhem como lhes apetece o que lhes convém (ou melhor, o que convém às mentes distorcidas pelos preconceitos da sociedade moderna, que é materialista até ao âmago), para que serve o Catecismo?
Eu espantar-me-ia se, numa sondagem à boca das Igrejas, mais de metade dos inquiridos tivesse a coragem para assumir que acredita no miraculoso! Muitos crentes fugiriam do assunto, ficariam corados! E se a pergunta fosse "Acredita na existência do Diabo?", as respostas seriam ainda mais escandalosas e ainda mais contraditórias face ao que ensina o Catecismo.
Qual é a minha ideia?
Propor obediência cega ao Catecismo?
Nada disso! Proponho, humildemente, aos meus irmãos católicos:
a) uma leitura atenta do Catecismo, e uma profunda revisão de consciência e do que implica ser católico e professar o catolicismo;
b) um estudo aprofundado sobre estes temas; porque aquilo que é compreeendido é mais facilmente professado.
Não defendo a existência do Diabo para obedecer à Igreja!
Defendo-a porque a doutrina, para mim, só faz sentido assim. Defendo-a, porque acho que corresponde ao real.
Para terminar, Lutz, acho que este teu trecho pode ser muito falacioso:
"Tenho muitos amigos católicos que discordam consigo. Pelo que percebi, nega-lhes o direito de se considerar católicos."
O que tu me dizes é que eu, por respeito para com os teus amigos (também tenho amigos que pensam o mesmo), deveria tentar acomodar (sabe-se lá como) estas opiniões divergentes e contraditórias com o magistério da Igreja?
O que deve fazer a doutrina católica perante os católicos que afirmam que o Diabo não existe? Deve a doutrina riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam que Jesus Cristo está presente na Eucaristia? Se calhar, por respeito, a Igreja também deveria riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam em milagres? Deverá a Igreja também riscar os milagres do mapa?
O que é que restaria do catolicismo? O que é que o diferenciaria, por exemplo, do protestantismo?
Parece-me que o teu argumento, caro Lutz, é emocional e não racional. Em nome de uma uma suposta (e falsa) "tolerância", ou por respeito para com as opiniões dos crentes, a Igreja Católica deve começar a cortar partes do Catecismo?
E quem terá mais credibilidade?
A) A Igreja com o seu magistério duas vezes milenar
B) O crente que não lê o Catecismo, não lê a Bíblia, não lê os textos oficiais, não sabe nada da História da Igreja
No fundo, e com todo o respeito, Lutz, o crente católico que me descreves, e que nega a existência do Diabo e a validade dos exorcismos, tem apenas "uma opinião" sobre a matéria, e nada mais. E uma opinião não fundamentada, se me permites.
terça-feira, 7 de junho de 2005
O Diabo
(publicado em simultâneo no Afixe)

Nos dias que correm, não poucas dificuldades se apresentam ao crente que vive já num mundo laicizado, racionalista e materialista.
Uma dessas grandes dificuldades apresenta-se com a existência (ou influência) do Mal como entidade distinta. Por outras palavras, a existência do que se chama vulgarmente de "Diabo". Ou se quisermos ser mais generalistas, a existência de entidades malignas ou demoníacas.
Uma das tácticas (porventura usadas inconscientemente) dos adversários militantes de qualquer religião consiste na infantilização e no desprezo de quem crê na existência do Diabo.
Dizem muitos que a crença no Diabo não se coaduna com a mente do "homem moderno", nem é compatível com a Ciência moderna. De forma totalmente desonesta, muitos tentam extravasar a Ciência moderna para fora dos seus limites, que são estritamente empíricos, querendo aplicá-la a tudo.
E, curiosamente, criou-se esta estranha ideia, que se entranha dia após dia: o Diabo era uma superstição dos nossos avós, uma coisa de gente atrasada, inculta, cientificamente analfabeta. Algo que "as Luzes" já teriam, supostamente, refutado.
No caso específico da Igreja Católica (contexto que me é particularmente caro), é curioso notar a campanha que se faz, nos dias que correm, contra o exorcismo e contra a crença nas entidades demoníacas.
Hoje em dia, não poucos católicos teriam coragem para, abertamente, professar a crença no Diabo. No entanto, deveriam saber que a sua liturgia, a liturgia católica, possui ainda rituais de exorcismo, que, ao invés de serem meros caprichos antiquados de gente perversa, fazem parte do corpo da doutrina da própria Igreja Católica.
Bastaria lermos, por exemplo, a Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, na Primeira Parte, onde se discutem os seres demoníacos.
Será que os católicos dos dias de hoje estão tão iluminados pelo positivismo científico que se envergonham das palavras do aquinate, um dos maiores doutores da Igreja, cuja obra teológica é hoje ainda um dos pilares do seu magistério?
Espero que não me interpretem mal!
(grande lata, é evidente que me vão interpretar mal!)
Não estou a fazer qualquer tipo de propaganda doutrinária. Penso que esta matéria interessa a crentes e a descrentes.
Os primeiros deveriam saber que não faz sentido ser católico e recusar a crença no Diabo, porque isso só advém de uma incompreensão grave da doutrina que professam.
Os segundos deveriam sabê-lo, quanto mais não fosse para conhecerem melhor o que é isto de ser católico e com que linhas se cose a doutrina de um católico.
Ah, já estou a ver este post a dar estalada e gritos, de certeza!
Basta ter bom senso: no dia em que o ritual do exorcismo desaparecer da prática da Igreja Católica, ter-se-á dado uma enorme machadada na estrutura basilar da concepção católica do mundo criado por Deus. Ter-se-á distorcido, para além dos limites do razoável, o próprio conceito do Mal.
Não julgo que as entidades demoníacas tenham abandonado o nosso Mundo! Acho que nunca estiveram tão presentes. O problema é que, nos dias que correm, poucos são aqueles que sequer as concebem como reais!
Termino com uma máxima famosa:
«La plus grande ruse du Diable est de faire croire qu'il n'existe pas» - Charles Baudelaire (1821-1867)

Nos dias que correm, não poucas dificuldades se apresentam ao crente que vive já num mundo laicizado, racionalista e materialista.
Uma dessas grandes dificuldades apresenta-se com a existência (ou influência) do Mal como entidade distinta. Por outras palavras, a existência do que se chama vulgarmente de "Diabo". Ou se quisermos ser mais generalistas, a existência de entidades malignas ou demoníacas.
Uma das tácticas (porventura usadas inconscientemente) dos adversários militantes de qualquer religião consiste na infantilização e no desprezo de quem crê na existência do Diabo.
Dizem muitos que a crença no Diabo não se coaduna com a mente do "homem moderno", nem é compatível com a Ciência moderna. De forma totalmente desonesta, muitos tentam extravasar a Ciência moderna para fora dos seus limites, que são estritamente empíricos, querendo aplicá-la a tudo.
E, curiosamente, criou-se esta estranha ideia, que se entranha dia após dia: o Diabo era uma superstição dos nossos avós, uma coisa de gente atrasada, inculta, cientificamente analfabeta. Algo que "as Luzes" já teriam, supostamente, refutado.
No caso específico da Igreja Católica (contexto que me é particularmente caro), é curioso notar a campanha que se faz, nos dias que correm, contra o exorcismo e contra a crença nas entidades demoníacas.
Hoje em dia, não poucos católicos teriam coragem para, abertamente, professar a crença no Diabo. No entanto, deveriam saber que a sua liturgia, a liturgia católica, possui ainda rituais de exorcismo, que, ao invés de serem meros caprichos antiquados de gente perversa, fazem parte do corpo da doutrina da própria Igreja Católica.
Bastaria lermos, por exemplo, a Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, na Primeira Parte, onde se discutem os seres demoníacos.
Será que os católicos dos dias de hoje estão tão iluminados pelo positivismo científico que se envergonham das palavras do aquinate, um dos maiores doutores da Igreja, cuja obra teológica é hoje ainda um dos pilares do seu magistério?
Espero que não me interpretem mal!
(grande lata, é evidente que me vão interpretar mal!)
Não estou a fazer qualquer tipo de propaganda doutrinária. Penso que esta matéria interessa a crentes e a descrentes.
Os primeiros deveriam saber que não faz sentido ser católico e recusar a crença no Diabo, porque isso só advém de uma incompreensão grave da doutrina que professam.
Os segundos deveriam sabê-lo, quanto mais não fosse para conhecerem melhor o que é isto de ser católico e com que linhas se cose a doutrina de um católico.
Ah, já estou a ver este post a dar estalada e gritos, de certeza!
Basta ter bom senso: no dia em que o ritual do exorcismo desaparecer da prática da Igreja Católica, ter-se-á dado uma enorme machadada na estrutura basilar da concepção católica do mundo criado por Deus. Ter-se-á distorcido, para além dos limites do razoável, o próprio conceito do Mal.
Não julgo que as entidades demoníacas tenham abandonado o nosso Mundo! Acho que nunca estiveram tão presentes. O problema é que, nos dias que correm, poucos são aqueles que sequer as concebem como reais!
Termino com uma máxima famosa:
«La plus grande ruse du Diable est de faire croire qu'il n'existe pas» - Charles Baudelaire (1821-1867)
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005
Crítica ao Diário Ateísta
(publicado em simultâneo no Afixe)
Criticarei, de novo, um artigo do Diário Ateísta.
Poderão alguns questionar-se acerca do porquê deste meu interesse pelo Diário Ateísta.
O interesse é já antigo. Pessoalmente, atraem-me as questões sociológicas que a leitura deste site suscita.
Deixei de intervir há largos meses com comentários no Diário Ateísta porque o diálogo se tornou, infelizmente, numa conversa de surdos.
Mas continua a parecer-me útil criticar alguns dos textos que surgem neste site ateísta. Infelizmente, é pela mediocridade que me sinto obrigado a tecer críticas a este site ateísta. Por isso, longe de querer que as minhas críticas sejam críticas ao ateísmo, estas críticas são puramente culturais e históricas, e não incidem sobre qualquer questão pística.
Não há proselitismo católico nas minhas críticas.
Tenho apenas uma intenção didáctica. A intenção de dirigir um convite à reflexão, ao estudo, e a um aprofundamento de cultura histórica e religiosa aos membros do Diário Ateísta.
Creio que, para se combater eficazmente um adversário, é pertinente conhecê-lo bem.
Creio também que não é o que sucede com o Diário Ateísta, onde todos os dias vemos demonstrações de lacunas culturais, que a meu ver, dado o número elevado de visitas ao Diário Ateísta, prejudicam a imagem do próprio ateísmo na Internet, pelo menos aos olhos dos visitantes mais cultos.
Vamos ao teor da crítica de hoje.
André Esteves é o autor de um artigo intitulado "Doutorados e Ignorantes".
Segundo André Esteves,
"Nalgumas igrejas evangélicas e fundamentalistas americanas tornou-se um valor comum não tirar cursos universitários, ou ser-se «intelectual» porque são coisas seculares ou da carne."
O passado evangélico de André Esteves poderá, parece-me, explicar o seu interesse pelos movimentos evangélicos norte-americanos. Sou da opinião que muitos desses movimentos cristãos têm posturas fanáticas (prefiro este termo ao termo "fundamentalista", uma vez que me parece bom ter-se fundamentos). Nisto concordo com o André Esteves.
Contudo, parece-me inadequado usar estes casos de fanatismo evangélico norte-americano para extrapolar conclusões gerais relativamente ao universo dos crentes.
Assim, a frase que se segue, de André Esteves, é para mim uma generalização inaceitável:
"O medo de se tornar num «liberal» é palpável entre os jovens crentes das igrejas, para os quais uma universidade reputada ou o prosseguimento de estudos além da licenciatura, se tornaram sinónimos da perdição espiritual."
Antes de mais, faz-me especial confusão que se use o termo "liberal" para classificar a opção pela formação académica complementar à licenciatura. É um "liberal" aquele que prossegue os seus estudos após o grau de licenciatura?
Depois, a generalização. Partindo dos evangélicos norte-americanos, André Esteves partilha da opinião de que certas posturas fanáticas são para generalizar aos "jovens crentes das igrejas".
Por fim, chegamos ao ponto onde me parece se revelar com mais nitidez a lacuna cultural que me fez escrever esta crítica:
"Por cá, Deus demonstra-se complicado: a Conferência Episcopal definiu que para se ser bispo em Portugal tem que se ser doutorado. Antigamente aos desígnios de Deus para serem compreendidos bastavam a tonsura e aljubeta. Agora o capelo também se torna necessário."

É curiosa esta afirmação, que revela que André Esteves desconhece a obra e vida dos doutores da Igreja, sobretudo a de S. Tomás de Aquino. O aquinate é uma figura incontornável no reavivar da vida universitária medieval. Usando como tema central da sua actividade intelectual a conciliação entre o saber clássico grego (nomeadamente, a obra de Aristóteles) e a revelação cristã, S. Tomás de Aquino revolucionou a vida académica, dando um significado rejuvenescido e profundo ao que é o trabalho "universitário".
As "quaestiones disputatae" de S. Tomás primam por um esforço de rigor dialético e argumentativo, no qual uma tese é colocada em análise, sendo fornecidos argumentos a favor, e argumentos em contrário.
Todo o processo de uma "quaestio" é conduzido de forma a fazer surgir a conclusão de modo natural e justo, considerando todos os dados relevantes no processo.
A universidade moderna não seria igual ao que é hoje sem S. Tomás de Aquino. Parece-me pertinente conhecer apenas as linhas gerais da vida e obra desta figura chave da intelectualidade europeia, para que se possam evitar considerações destas, que revelam da parte do senhor André Esteves uma postura proselitista duvidosa, que só pode funcionar com uma audiência desprovida das mais elementares referências culturais.
Para saber mais sobre S. Tomás, recomendo vivamente o texto introdutório do professor Luiz Jean Lauand.
Bernardo
Criticarei, de novo, um artigo do Diário Ateísta.
Poderão alguns questionar-se acerca do porquê deste meu interesse pelo Diário Ateísta.
O interesse é já antigo. Pessoalmente, atraem-me as questões sociológicas que a leitura deste site suscita.
Deixei de intervir há largos meses com comentários no Diário Ateísta porque o diálogo se tornou, infelizmente, numa conversa de surdos.
Mas continua a parecer-me útil criticar alguns dos textos que surgem neste site ateísta. Infelizmente, é pela mediocridade que me sinto obrigado a tecer críticas a este site ateísta. Por isso, longe de querer que as minhas críticas sejam críticas ao ateísmo, estas críticas são puramente culturais e históricas, e não incidem sobre qualquer questão pística.
Não há proselitismo católico nas minhas críticas.
Tenho apenas uma intenção didáctica. A intenção de dirigir um convite à reflexão, ao estudo, e a um aprofundamento de cultura histórica e religiosa aos membros do Diário Ateísta.
Creio que, para se combater eficazmente um adversário, é pertinente conhecê-lo bem.
Creio também que não é o que sucede com o Diário Ateísta, onde todos os dias vemos demonstrações de lacunas culturais, que a meu ver, dado o número elevado de visitas ao Diário Ateísta, prejudicam a imagem do próprio ateísmo na Internet, pelo menos aos olhos dos visitantes mais cultos.
Vamos ao teor da crítica de hoje.
André Esteves é o autor de um artigo intitulado "Doutorados e Ignorantes".
Segundo André Esteves,
"Nalgumas igrejas evangélicas e fundamentalistas americanas tornou-se um valor comum não tirar cursos universitários, ou ser-se «intelectual» porque são coisas seculares ou da carne."
O passado evangélico de André Esteves poderá, parece-me, explicar o seu interesse pelos movimentos evangélicos norte-americanos. Sou da opinião que muitos desses movimentos cristãos têm posturas fanáticas (prefiro este termo ao termo "fundamentalista", uma vez que me parece bom ter-se fundamentos). Nisto concordo com o André Esteves.
Contudo, parece-me inadequado usar estes casos de fanatismo evangélico norte-americano para extrapolar conclusões gerais relativamente ao universo dos crentes.
Assim, a frase que se segue, de André Esteves, é para mim uma generalização inaceitável:
"O medo de se tornar num «liberal» é palpável entre os jovens crentes das igrejas, para os quais uma universidade reputada ou o prosseguimento de estudos além da licenciatura, se tornaram sinónimos da perdição espiritual."
Antes de mais, faz-me especial confusão que se use o termo "liberal" para classificar a opção pela formação académica complementar à licenciatura. É um "liberal" aquele que prossegue os seus estudos após o grau de licenciatura?
Depois, a generalização. Partindo dos evangélicos norte-americanos, André Esteves partilha da opinião de que certas posturas fanáticas são para generalizar aos "jovens crentes das igrejas".
Por fim, chegamos ao ponto onde me parece se revelar com mais nitidez a lacuna cultural que me fez escrever esta crítica:
"Por cá, Deus demonstra-se complicado: a Conferência Episcopal definiu que para se ser bispo em Portugal tem que se ser doutorado. Antigamente aos desígnios de Deus para serem compreendidos bastavam a tonsura e aljubeta. Agora o capelo também se torna necessário."

É curiosa esta afirmação, que revela que André Esteves desconhece a obra e vida dos doutores da Igreja, sobretudo a de S. Tomás de Aquino. O aquinate é uma figura incontornável no reavivar da vida universitária medieval. Usando como tema central da sua actividade intelectual a conciliação entre o saber clássico grego (nomeadamente, a obra de Aristóteles) e a revelação cristã, S. Tomás de Aquino revolucionou a vida académica, dando um significado rejuvenescido e profundo ao que é o trabalho "universitário".
As "quaestiones disputatae" de S. Tomás primam por um esforço de rigor dialético e argumentativo, no qual uma tese é colocada em análise, sendo fornecidos argumentos a favor, e argumentos em contrário.
Todo o processo de uma "quaestio" é conduzido de forma a fazer surgir a conclusão de modo natural e justo, considerando todos os dados relevantes no processo.
A universidade moderna não seria igual ao que é hoje sem S. Tomás de Aquino. Parece-me pertinente conhecer apenas as linhas gerais da vida e obra desta figura chave da intelectualidade europeia, para que se possam evitar considerações destas, que revelam da parte do senhor André Esteves uma postura proselitista duvidosa, que só pode funcionar com uma audiência desprovida das mais elementares referências culturais.
Para saber mais sobre S. Tomás, recomendo vivamente o texto introdutório do professor Luiz Jean Lauand.
Bernardo
quarta-feira, 1 de setembro de 2004
Cá vem a tradução...
... do excerto de Jean Borella que apresentei no último artigo.
Caro Francisco, sempre às ordens! Desculpa só a fraca qualidade da tradução, mas não tenho um dicionário à mão e isto vai ser feito a olho!
"Não há, então, inconveniência radical entre a essência feminina e o sacerdócio. Não podem senão existir inconveniências relativas à natureza particular, e mesmo única, do sacerdócio cristão. E, antes de mais, dever-se-ia afirmar que estas inconveniências relativas não são senão a contrapartida de uma conveniência maior para uma outra função [da mulher] na economia geral do cristianismo. É então a natureza do sacerdócio cristão, desejada por Cristo, que determina conveniência e inconveniência, sendo entendido, mais uma vez, que estas nada têm de arbitrário, e contribuem pelo contrário a fazer do homem e da mulher o que eles devem ser para Deus. Assim, a abolição desta distinção quanto à aptidão dos dois sexos ao sacerdócio teria por efeito, não somente alterar (ou mesmo enfraquecer) a essência verdadeira do sacerdócio cristão, mas ainda perverter a relação que a mulher cirstã possui com a economia da salvação, e por via das consequências, arruinar definitivamente a ordem da sociedade cristã. Porque não é indiferente, para esta sociedade, que a distinção dos sexos, que está na base de toda a organização social, esteja sancionada e conservada por uma instituição divina, que, sózinha, lhe dá o seu sentido verdadeiro. Repousando apenas em critérios biológicos, ou seja, em última análise, animais, é toda a organização social que passa a estar "animalizada". E cada qual sabe que um homem reduzido à sua animalidade não é mais que uma besta. Querendo apagar todos os sinais distintivos dos dois sexos, os feministas não se dão conta que se condenam necessariamente a sofrer a ditadura da inapagável distinção psicológica, a qual, reinando, não conhece outros limites que os da sua própria satisfação e não pode senão ir ao ponto de transformar as mulheres em puras fêmeas para machos reduzidos à função genesíaca. Esta é a verdade rigorosamente inscrita na revolução do «segundo sexo»." - Jean Borella, "De la Femme et du Sacerdoce".
A tradução é má, mas que fique bem claro que Jean Borella repudia a expressão "segundo sexo"! Para ele, e eu partilho desta opinião, o feminismo é um dos maiores atentados à verdadeira essência da mulher que a História humana alguma vez assistiu. Obviamente que o machismo, nem é preciso dizer, é uma postura de, e para, imbecis. A "luta dos sexos" só tem lugar no mundo complexo, variável e inconstante da psique e da emotividade humanas. No plano de Deus, apesar de terem "papéis" diferentes, homem e mulher são seres em "igualdade hierárquica".
Se algo ficou pouco claro deste pequeno excerto, porque eu tive que escolher uma parte pequena (o resto pode ser lido no site que indiquei), foi como expõe Jean Borella o papel da mulher no plano salvífico de Deus, de acordo com a doutrina católica. Remeto os leitores para o artigo de Jean Borella, porque isso exigiria um artigo grande só por si. Se eu puder, regressarei a este tema, traduzindo mais alguns excertos do referido artigo, sobretudo nesta última parte do papel da mulher, que é deveras interessante.
Um abraço,
Bernardo
ADENDA: Quando usei a palavra "feminismo", fi-lo, aliás como Jean Borella, no sentido de "extremismo feminista". Evidentemente que não podemos estar contra a protecção da mulher e dos seus genuínos direitos, bem como a protecção dos genuínos direitos de quem quer que seja. Contudo, e fica bem claro pela posição aqui apresentada, não considero o sacerdócio na sua forma especificamente cristã um direito genuíno da mulher.
Caro Francisco, sempre às ordens! Desculpa só a fraca qualidade da tradução, mas não tenho um dicionário à mão e isto vai ser feito a olho!
"Não há, então, inconveniência radical entre a essência feminina e o sacerdócio. Não podem senão existir inconveniências relativas à natureza particular, e mesmo única, do sacerdócio cristão. E, antes de mais, dever-se-ia afirmar que estas inconveniências relativas não são senão a contrapartida de uma conveniência maior para uma outra função [da mulher] na economia geral do cristianismo. É então a natureza do sacerdócio cristão, desejada por Cristo, que determina conveniência e inconveniência, sendo entendido, mais uma vez, que estas nada têm de arbitrário, e contribuem pelo contrário a fazer do homem e da mulher o que eles devem ser para Deus. Assim, a abolição desta distinção quanto à aptidão dos dois sexos ao sacerdócio teria por efeito, não somente alterar (ou mesmo enfraquecer) a essência verdadeira do sacerdócio cristão, mas ainda perverter a relação que a mulher cirstã possui com a economia da salvação, e por via das consequências, arruinar definitivamente a ordem da sociedade cristã. Porque não é indiferente, para esta sociedade, que a distinção dos sexos, que está na base de toda a organização social, esteja sancionada e conservada por uma instituição divina, que, sózinha, lhe dá o seu sentido verdadeiro. Repousando apenas em critérios biológicos, ou seja, em última análise, animais, é toda a organização social que passa a estar "animalizada". E cada qual sabe que um homem reduzido à sua animalidade não é mais que uma besta. Querendo apagar todos os sinais distintivos dos dois sexos, os feministas não se dão conta que se condenam necessariamente a sofrer a ditadura da inapagável distinção psicológica, a qual, reinando, não conhece outros limites que os da sua própria satisfação e não pode senão ir ao ponto de transformar as mulheres em puras fêmeas para machos reduzidos à função genesíaca. Esta é a verdade rigorosamente inscrita na revolução do «segundo sexo»." - Jean Borella, "De la Femme et du Sacerdoce".
A tradução é má, mas que fique bem claro que Jean Borella repudia a expressão "segundo sexo"! Para ele, e eu partilho desta opinião, o feminismo é um dos maiores atentados à verdadeira essência da mulher que a História humana alguma vez assistiu. Obviamente que o machismo, nem é preciso dizer, é uma postura de, e para, imbecis. A "luta dos sexos" só tem lugar no mundo complexo, variável e inconstante da psique e da emotividade humanas. No plano de Deus, apesar de terem "papéis" diferentes, homem e mulher são seres em "igualdade hierárquica".
Se algo ficou pouco claro deste pequeno excerto, porque eu tive que escolher uma parte pequena (o resto pode ser lido no site que indiquei), foi como expõe Jean Borella o papel da mulher no plano salvífico de Deus, de acordo com a doutrina católica. Remeto os leitores para o artigo de Jean Borella, porque isso exigiria um artigo grande só por si. Se eu puder, regressarei a este tema, traduzindo mais alguns excertos do referido artigo, sobretudo nesta última parte do papel da mulher, que é deveras interessante.
Um abraço,
Bernardo
ADENDA: Quando usei a palavra "feminismo", fi-lo, aliás como Jean Borella, no sentido de "extremismo feminista". Evidentemente que não podemos estar contra a protecção da mulher e dos seus genuínos direitos, bem como a protecção dos genuínos direitos de quem quer que seja. Contudo, e fica bem claro pela posição aqui apresentada, não considero o sacerdócio na sua forma especificamente cristã um direito genuíno da mulher.
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