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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Diagrama - Heresias cristãs



(fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Christology)

Durante muito tempo, procurei um esquema que explicasse bem as primeiras heresias, e como se foi definindo a doutrina cristã ao longo dos vários concílios. Este esquema, que afinal estava à mão de semear, está excelente.

No final do esquema, onde esta "chalcedonianism", leia-se "doutrina católica". A última ponta da ramificação (a mais no fundo) representa o credo católico definitivo e aceite no Concílio de Calcedónia (451). O diagrama ilustra bem como a Igreja foi formulando, com base na razão e no testemunho apostólico e escriturístico, uma ideia correcta acerca de Cristo, deixando as heresias para trás.

Já agora, vejamos as características de Cristo que foram definidas como credo cristão, e as respectivas heresias que foram rejeitadas em consequência da formulação da doutrina:

- verdadeiro Homem
(contra os docetistas)

- verdadeiro Deus
(contra os ebionitas)

- consubstancial ao Pai
(contra os arianos; o termo "homoousion", "consubstancial" é o único termo de jargão filosófico que surge no Credo)

- uma só hipóstase (um só indivíduo)
(contra os nestorianos)

- diofisita (dotado de de naturezas distintas: a humana e a divina)
(contra os monofisitas em geral, contra os eutiquianos, os apolinarianos e os miafisitas)

- diotelita (dotado de duas vontades distintas: a humana e a divina)
(contra os monotelitas)

Um ponto importante a reter é que a Igreja cristã não ia "criando" doutrina, mas sim "formulando" doutrina, ou seja, procurando a linguagem precisa necessária para se poder definir com a melhor precisão possível a doutrina deixada por Cristo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Um Bispo colossal

A 29 de Outubro de 2009, o congressista Patrick Kennedy fez a seguinte afirmação:

“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.”

Teve a resposta que merecia do Bispo de Providence, Monsenhor Thomas Tobin:

«Since our recent correspondence has been rather public, I hope you don’t mind if I share a few reflections about your practice of the faith in this public forum. I usually wouldn’t do that – that is speak about someone’s faith in a public setting – but in our well-documented exchange of letters about health care and abortion, it has emerged as an issue. I also share these words publicly with the thought that they might be instructive to other Catholics, including those in prominent positions of leadership.

For the moment I’d like to set aside the discussion of health care reform, as important and relevant as it is, and focus on one statement contained in your letter of October 29, 2009, in which you write, “The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” That sentence certainly caught my attention and deserves a public response, lest it go unchallenged and lead others to believe it’s true. And it raises an important question: What does it mean to be a Catholic?

“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” Well, in fact, Congressman, in a way it does. Although I wouldn’t choose those particular words, when someone rejects the teachings of the Church, especially on a grave matter, a life-and-death issue like abortion, it certainly does diminish their ecclesial communion, their unity with the Church. This principle is based on the Sacred Scripture and Tradition of the Church and is made more explicit in recent documents.

For example, the “Code of Canon Law” says, “Lay persons are bound by an obligation and possess the right to acquire a knowledge of Christian doctrine adapted to their capacity and condition so that they can live in accord with that doctrine.” (Canon 229, #1)

The “Catechism of the Catholic Church” says this: “Mindful of Christ’s words to his apostles, ‘He who hears you, hears me,’ the faithful receive with docility the teaching and directives that their pastors give them in different forms.” (#87)

Or consider this statement of the Church: “It would be a mistake to confuse the proper autonomy exercised by Catholics in political life with the claim of a principle that prescinds from the moral and social teaching of the Church.” (Congregation for the Doctrine of the Faith, 2002)

There’s lots of canonical and theological verbiage there, Congressman, but what it means is that if you don’t accept the teachings of the Church your communion with the Church is flawed, or in your own words, makes you “less of a Catholic.”

But let’s get down to a more practical question; let’s approach it this way: What does it mean, really, to be a Catholic? After all, being a Catholic has to mean something, right?

Well, in simple terms – and here I refer only to those more visible, structural elements of Church membership – being a Catholic means that you’re part of a faith community that possesses a clearly defined authority and doctrine, obligations and expectations. It means that you believe and accept the teachings of the Church, especially on essential matters of faith and morals; that you belong to a local Catholic community, a parish; that you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly; that you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially.

Congressman, I’m not sure whether or not you fulfill the basic requirements of being a Catholic, so let me ask: Do you accept the teachings of the Church on essential matters of faith and morals, including our stance on abortion? Do you belong to a local Catholic community, a parish? Do you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly? Do you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially?

In your letter you say that you “embrace your faith.” Terrific. But if you don’t fulfill the basic requirements of membership, what is it exactly that makes you a Catholic? Your baptism as an infant? Your family ties? Your cultural heritage?

Your letter also says that your faith “acknowledges the existence of an imperfect humanity.” Absolutely true. But in confronting your rejection of the Church’s teaching, we’re not dealing just with “an imperfect humanity” – as we do when we wrestle with sins such as anger, pride, greed, impurity or dishonesty. We all struggle with those things, and often fail.

Your rejection of the Church’s teaching on abortion falls into a different category – it’s a deliberate and obstinate act of the will; a conscious decision that you’ve re-affirmed on many occasions. Sorry, you can’t chalk it up to an “imperfect humanity.” Your position is unacceptable to the Church and scandalous to many of our members. It absolutely diminishes your communion with the Church.

Congressman Kennedy, I write these words not to embarrass you or to judge the state of your conscience or soul. That’s ultimately between you and God. But your description of your relationship with the Church is now a matter of public record, and it needs to be challenged. I invite you, as your bishop and brother in Christ, to enter into a sincere process of discernment, conversion and repentance. It’s not too late for you to repair your relationship with the Church, redeem your public image, and emerge as an authentic “profile in courage,” especially by defending the sanctity of human life for all people, including unborn children. And if I can ever be of assistance as you travel the road of faith, I would be honored and happy to do so.

Sincerely yours,

Thomas J. Tobin

Bishop of Providence»

- Bishop Tobin's Public Letter to Rep. Kennedy

Quem fala assim não é gago.
Em Portugal, há muito político "católico" a precisar de ouvir coisas destas...

terça-feira, 19 de maio de 2009

Paulo Rangel e a Igreja Católica

Comentário à entrevista de Paulo Rangel para a revista "i", intitulada: "A Igreja deveria abrir mais na questão homossexual".

A coerência, como valor pessoal e intelectual fundamental, está fora de moda.
Muitas figuras públicas, sobretudo nos meandos da política, são descaradamente incoerentes, e não se preocupam por aí além.
Hoje em dia, é sobretudo valorizada a dissidência, ou seja, uma espécie de atitude de "jovem rebelde" ou "livre-pensador". A coerência passa para segundo plano, ou sai mesmo de cena. O que deve fazer um eleitor que procure, hoje em dia, um político coerente em quem depositar o seu voto?

«É um católico mesmo praticante? Vai à missa?

Sim, mas sou um progressista, não me revejo na moral de costumes da Igreja Católica, na não ordenação das mulheres, no não casamento dos padres.»


É realmente espantoso que seja católico (mesmo da tal estirpe especial e minoritária dos "praticantes") e não se reveja em questões importantes da doutrina da Igreja.
É caso para perguntar: porque escolheu a Igreja Católica, quando há outras religiões que não apresentam a Paulo Rangel as objecções que ele levanta?

«Defende o casamento dos padres?

Em primeiro lugar defendo a ordenação das mulheres. Não compreendo que hoje, 2009, a Igreja tenha esta restrição. Olhe, o São Paulo, que tem aura de ser um autor sexista, em grande parte das igrejas que fundou as chefes eram mulheres. O que revela bem que o estatuto da mulher não era assim tão subalterno quanto pode parecer da leitura de alguns textos.» (negrito meu)


Este trecho é uma contradição.
Paulo Rangel defende a ordenação das mulheres na Igreja Católica, e logo a seguir, diz que "não compreende" essa restrição. Se não a compreende, como pode ser contra ela? Trata-se de simples lógica: se não compreende uma tese T, então não pode concordar com T nem com a sua negação: simplesmente não pode ter uma posição enquanto não compreender a tese T, e decidir a seu favor ou contra ela.

Outra erro terrível para qualquer católico é o de considerar que o sacerdote é um "chefe". É perfeitamente normal que São Paulo tenha dado responsabilidades de chefia a mulheres, mas isso não fez delas sacerdotes. As funções de sacerdote não são as funções de um "chefe".

«Na Igreja é [subalterno, o papel da mulher].

Na igreja institucional, sim. Mas com Jesus Cristo não. Tudo o que se conhece até aponta para um certo escândalo por ele ter mulheres apóstolas. E São Paulo também, curiosamente.»


Paulo Rangel diz que, na Igreja Católica institucional, o papel da mulher é subalterno. O que, mais uma vez, nos faz pensar porque razão terá Paulo Rangel escolhido uma religião machista para dela fazer parte. Mas, mais uma vez, Paulo Rangel erra, ao considerar que o papel da mulher na Igreja Católica é subalterno, e pelas razões atrás mencionadas: o sacerdote não é um "chefe".

«Concordou com a despenalização do aborto?

Eu estou de acordo com a posição da Igreja quanto ao aborto e à eutanásia. No resto não. Nos anticonceptivos sou um radical activista contra as posições da Igreja. Na moral sexual em geral sou contra: casamento, divórcio, a questão dos homossexuais.»


Paulo Rangel, aqui, usa a Igreja Católica como um supermercado. Vai ao corredor procurado, retira as partes que deseja, deixa o resto de parte. Uma religião "self-service". Note-se que Paulo Rangel, para além de se afirmar como um "radical activista" diz que na moral sexual, em geral, é contra as posições da Igreja. De novo, surge a teimosa pergunta: então, se é contra, porque razão escolheu a Igreja Católica?

«Defende o casamento gay?

Não é uma coisa que eu defenda hoje. Defendo uma instituição à parte.

A solução inglesa?

Um instituto análogo ao casamento. Para a sociedade portuguesa seria a melhor solução agora. Não porque eu não reconheça o direito? Eu percebo muito bem as reivindicações dos activistas e das activistas dos movimentos gay, mas acho que sociologicamente também temos que respeitar as convicções da maioria da população portuguesa, que é muito conservadora nesta matéria. Temos de encontrar um equilíbrio. A terceira via é um bom equilíbrio. Aliás, nas associações activistas há uma certa contradição. Elas dizem: agora falamos em casamento e mais tarde na adopção, é preciso um primeiro passo. Mas eu acho que é preciso um primeiro passo antes do casamento. Se aceitássemos a teoria gradualista, criavam- -se menos fracturas.»


Disfarçada sobre a capa de "respeito" pelas "convicções da maioria da população portuguesa", está uma escandalosa arrogância: a de pensar que a sociedade portuguesa ainda é "muito conservadora nesta matéria", o que é o mesmo que dizer que ele, Paulo Rangel, e os que pensam como ele, estão do lado do progresso, e que é só uma questão de tempo até os "atrasados" apanharem o comboio do progresso.

Outro problema para o Paulo Rangel católico: os católicos não se opõem ao "casamento gay" apenas porque isso "usurparia" uma palavra que lhes é cara. Eles opõem-se ao "casamento gay" porque se opõem à homossexualidade como tendência imoral, ou seja, errada.

«Mas eu percebo que há aqui questões sociológicas, de respeito pelas convicções dominantes na sociedade. E também têm de ser tidas em conta, não há aqui só direitos de uns. Prefiro uma engenharia social gradual. Mas acho que é aqui, na relação com os homossexuais, que a Igreja deveria abrir mais. Em toda a moral sexual é preciso uma grande renovação na Igreja. E há coisas que não compreendo de maneira nenhuma: a ordenação das mulheres, o casamento dos padres, a questão dos anticonceptivos, não percebo como é que se consegue continuar com este discurso.» (negrito meu)


Para além de uma linguagem metafórica ridícula (a da Igreja "fechada" e "aberta"), que se aplica a portas e janelas, e não a uma doutrina, Paulo Rangel mostra, neste trecho final, a incoerência apontada atrás: na mesma frase, sugere alterações profundas para a Igreja Católica, ao mesmo tempo que usa repetidamente expressões como "não compreendo" e "não percebo".

Recomendo a Paulo Rangel a consulta urgente do Catecismo da Igreja Católica.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Escândalo na Universidade Notre Dame

Uma das mais prestigiadas universidades católicas norte-americanas vai convidar, para o discurso de inauguração no próximo dia 17 de Maio, o Presidente Barack Obama. Para além disso, Obama vai receber uma condecoração académica honorífica.

A pouca-vergonha resulta de um convite feito pelo Pe. Jenkins, presidente da dita universidade. O convite está a fazer escândalo na comunidade católica norte-americana, que se organiza agora para tentar impedir o ultrage: Notre-Dame Scandal.

A Conferência Episcopal Norte-Americana está revoltada com o convite, e já fez saber a sua opinião através do seu presidente, o Bispo Francis George, de Chicago.

Há muita gente a pedir a demissão do Pe. Jenkins e o cancelamento desta palhaçada.
Oxalá consigam... É uma questão de decência elementar. Se o Pe. Jenkins não tem bom senso nem discernimento moral, alguém tem que intervir para impedir esta miséria.

As posições éticas de Obama, no que diz respeito à sua não protecção do direito à vida dos seres humanos não nascidos, são bem conhecidas de toda a gente. Dar-lhe o palanque de uma respeitável universidade católica para ele discursar, e ainda atribuir-lhe uma condecoração, é ridicularizar todo o esforço pró-vida, não só nos EUA como no resto do mundo.

Oxalá isto não venha a acontecer...

PS: Em contraste absoluto com a triste decisão do Pe. Jenkins, eis as palavras de um grande Bispo, o Bispo Robert Finn, de Kansas City - St. Joseph, pronunciadas na recente convenção "Gospel of Life": "We are at war!"

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Richard Williamson

"O Santo Padre e o meu Superior, bispo Bernard Fellay, solicitaram que eu reconsidere as observações que fiz na televisão sueca quatro meses atrás, pois suas consequências têm sido muito pesadas.

Observando essas consequências, posso verdadeiramente dizer que lamento ter feito essas observações, e que se eu soubesse de antemão todo dano e dor que elas dariam origem, especialmente para a Igreja, mas também para os sobreviventes e parentes das vítimas da injustiça sob o Terceiro Reich, eu não as teria feito.

Na televisão sueca, eu manifestei apenas a opinião (..."eu penso"..."eu acho"...) de uma pessoa que não é um historiador, uma opinião formada há 20 anos com base nas provas disponíveis então, e raramente expressa em público desde então. No entanto, os eventos das últimas semanas e os conselhos de membros da Fraternidade São Pio X persuadiram-me da minha responsabilidade por tanto sofrimento causado. Para todas as almas que ficaram verdadeiramente escandalizadas com o que eu disse, diante de Deus, peço perdão.

Como o Santo Padre tem dito, todo ato de violência injusta contra um homem fere toda a humanidade.

+ Richard Williamson,

Londres, 26 de fevereiro de 2009."


(tradução do inglês por Zenit - www.zenit.org)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A histeria do caso Williamson

Os factos:

- o Bispo Williamson, da Sociedade de São Pio X, sociedade ainda em cisma com a Igreja Católica, faz uma série de afirmações públicas negando ou mostrando dúvida sobre a historicidade de certos factos relativos ao Holocausto

- o Papa Bento XVI, após décadas de esforços de aproximação à Sociedade de São Pio X, decide, num gesto de misericórdia, levantar a excomunhão a quatro bispos da dita Sociedade, entre os quais, Williamson

- a histeria instala-se em todos os quadrantes, católicos e não católicos, mediáticos, políticos, diplomáticos: desde os moderados que manifestam perplexidade pela decisão papal, até aos radicais que propõem que o Papa abdique

O que é que Williamson não afirmou:

- Williamson não afirmou que o Holocausto fora uma coisa boa, ou até desculpável ou compreensível: isso colocava-o numa situação incompatível com a moral católica

- Williamson não afirmou que os nazis não mataram judeus: ele afirmou que o número de mortos foi substancialmente menor que o número avançado pelos historiadores, e que não foram usadas câmaras de gás

Os erros de Williamson nesta matéria:

- são erros históricos, que podem ser um preocupante sinal da proximidade a ideias políticas de mau gosto e reputação, como a dos famigerados Protocolos dos Sábios de Sião, e outras teorias conspiratórias pouco recomendáveis

- não são erros morais, no sentido em que Williamson nunca afirmou ter concordado com os crimes morais do Terceiro Reich

- apesar de serem gritantes, os erros de Williamson não fazem dele um puro negacionista, pois ele não nega que houve Holocausto, mas sim a sua extensão e alguns dos macabros procedimentos que foram usados

- a mais elementar justiça faz com que se pondere o seguinte: há, na Igreja, pessoas em cargos de responsabilidade que perfilham ideias doutrinais e morais incompatíveis com a doutrina e com a moral católicas: tais casos são, sem sombra de dúvidas, mais graves do que o caso Williamson

O Papa errou?

- o levantamento da excomunhão foi um acto de misericórdia, que se cinge ao remover de uma pena canónica, imposta pela desobediência de Monsenhor Lefébvre e pela conivência dos quatro bispos em questão

- tal levantamento não conduz os bispos ao exercício de actividades dentro da Igreja: eles ainda fazem parte de um grupo cismático, e o cisma não foi resolvido

- é para todos evidente que o Papa não pode concordar com as posições pessoais do bispo Williamson sobre o Holocausto; é claro o aviso recente do Papa a Williamson, de que este deve rejeitar tais posições sobre o Holocausto, bem como as suas ideias cismáticas, para poder exercer um cargo na Igreja

- por tudo isto, o Papa não errou, nem nas intenções nem nas acções que tomou; apesar de ser sensato supor que a gestão interna e externa deste caso possa ter sido mal conduzida por certos órgãos da Curia Romana

O que está por detrás da histeria?

Na Alemanha, figuras importantes como os bispos de Hamburgo, e de Rotemburgo-Estugarda confessaram sentimentos de "incerteza, incompreensão e decepção" e ainda constataram "uma óbvia perda de confiança" no Papa Bento XVI. Um teólogo alemão, Hermann Haering, chegou à posição extremista de pedir que Bento XVI resignasse "para fazer algum bem à Igreja".

O que está por detrás disto tudo?
Muitos jornalistas explicaram estas posições radicais por parte de prelados e teólogos alemães recorrendo ao facto de que o negacionismo é crime na Alemanha. Isto explica? Eu acho que não.

A explicação parece estar noutro lado: a já velha tradição de alguma teologia alemã em contestar a doutrina católica, com este caso Williamson, veio toda cá para fora e resolveu, atraída pelos microfones e pelas câmaras de televisão, dar um ar da sua graça.
É inegável o aproveitamento deste caso por parte dos ditos "católicos liberais", termo vago que se refere aos católicos que contestam o catolicismo. Para mim, é isso que se torna claro como a água nesta histeria em torno de Williamson, que noutro contexto mais não seria do que uma pessoa com ideias tontas acerca do Holocausto: este caso, e a reacção histérica a ele, não é mais do que um sinal das forças de bloqueio ao Papa que ainda estão vivas, apesar de mais moribundas do que há trinta anos.

Para o papado, para o primado de Pedro na Igreja Católica, é muito maior o risco extremista e auto-destrutivo dos teólogos "liberais", que nestas ocasiões são os primeiros a lançar pedras ao Papa, do que as tontices que Williamson disse sobre o Holocausto.

Como católicos, devemos estar atentos a uma certa atitude malsã contra a Sociedade de São Pio X. Se há algo que me divide, como católico, dessa cismática sociedade é a atitude por ela demonstrada de desobediência ao Papa e de não aceitação do Concílio Vaticano II. São pontos graves, estes, que separam católicos de lefebvristas, mas devemos estar atentos aos imensos pontos que nos unem, em termos de tradição católica, de doutrina, de fé sincera e coerente, de amor a Cristo.

Há muita gente, "soi-disant" católica, que baseia a sua raiva malsã contra os lefebvristas, não sobre os pontos importantes que acima referi, mas sobre uma evidente agenda modernista, que promovem abertamente em contradição com a doutrina católica que se dizem professar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Acerca do artigo “O Código Escondido da Virgem Maria”

(Publicado na Revista Sábado em 18-12-2008)

Serve o presente texto para corrigir uma série de erros factuais e interpretativos que surgem no referido artigo da revista Sábado. As citações do artigo surgem entre aspas, enquanto que os comentários e correcções surgem logo a seguir a cada citação. Por simplicidade, este "post" não contém notas de rodapé nem referências: estas podem ser consultadas na versão Acrobat PDF deste texto, na secção lateral "Artigos". O autor deste texto agradece a quem identificar eventuais erros nas correcções que aqui são feitas.

«Maria poderia ser consagrada co-redentora e isso significaria que Jesus teria tido a ajuda da mãe na salvação da Humanidade. Algo impensável para a Igreja mais conservadora»


Porquê “impensável”?
É uma consequência lógica da doutrina cristã: sem o “sim” voluntário de Maria, Cristo não teria nascido. Logo, Maria desempenha um papel decisivo na salvação da Humanidade. O prefixo “co” em “co-redentora” vem do latim “cum”, ou seja, “com”. Não implica igualdade entre Maria e Cristo, mas sim uma cooperação entre ambos.

«Os evangelhos canónicos (…) quase não falam dela. (…) Em todo o Novo Testamento, o seu nome é designado uma dezena de vezes (…)»


Trata-se de um erro factual. O nome concreto de Maria surge dezanove vezes, o dobro do indicado no artigo. Mas se procurarmos por “mãe de Jesus” ou por “sua mãe” (de Jesus), surgem trinta e três ocorrências, o triplo do indicado no artigo. Ver no Anexo (disponível na versão Acrobat PDF deste texto, na secção lateral "Artigos") o elenco completo das referências à mãe de Jesus em todo o Novo Testamento.

«Paulo, o apóstolo mais importante no desenvolvimento do cristianismo e autor de 14 dos 27 textos que constituem o Novo Testamento, nunca se refere a Maria.»


Paulo (Saulo de Tarso) não conheceu Maria pessoalmente, nem acompanhou Jesus no seu percurso terreno. No entanto, esse distanciamento físico dos acontecimentos não implica um distanciamento em relação à doutrina cristã sobre Maria. As cartas de Paulo têm funções específicas e um conteúdo teológico concreto: transmitir aos gentios a doutrina da Incarnação de Deus em Cristo, proclamar a sua Morte e Ressurreição, bem como o carácter salvífico de Cristo. Paulo não pretendeu com as suas cartas narrar episódios históricos como o da infância de Jesus ou o da Anunciação a Maria.
Mas ao mesmo tempo, Lucas, o evangelista que mais escreve sobre Maria, foi companheiro de viagem de Paulo e seu colaborador próximo , pelo que certamente teriam tido ampla oportunidade para falar sobre Maria e o seu papel na salvação. Pela elevada estima que Paulo demonstra pelo médico Lucas , é inverosímil que não partilhassem da mesma doutrina acerca de Maria. Lucas recolheu os detalhes acerca de Maria nas suas viagens, quando ia ao encontro dos apóstolos e dos demais discípulos que conheceram Cristo e Maria pessoalmente.
Paulo refere (Gálatas 4, 4) que Cristo nasceu de uma mulher tendo em mente a promessa de Deus feita acerca da Mulher e da serpente (Génesis, 3, 15): que seria através de uma mulher que se venceria o Mal, devido à perpétua inimizade fixada por Deus entre a descendência de Eva e a da serpente e da superioridade daquela em relação a esta. Por isso, esse único ponto em que Paulo fala concretamente sobre Maria é crucial porque demonstra que ele tinha bem presente o carácter central e providencial de Maria para a salvação da Humanidade.
Paulo cita ainda na sua carta a Timóteo (Timóteo 5, 18) um versículo do Evangelho de Lucas (Lucas 10, 7), o que prova que conhecia o texto; e fá-lo usando a expressão “como diz a Escritura” o que permite constatar que Paulo considera o texto de Lucas como parte integrante das Sagradas Escrituras.

«”A imagem que conhecemos de Nossa Senhora ao colo tem origem nas imagens de Ísis com o filho Horus”, explica Paulo Mendes Pinto.»


A imagem de uma mãe com o filho ao colo é suficientemente universal na cultura da humanidade, e por isso não é necessário forçar ligações ao Antigo Egipto. Se é certo que, nos primeiros séculos da nossa era, existia um importante culto popular a Ísis e a Hórus, há que afirmar que esse culto subsistia já desligado da tradição sacerdotal egípcia. A religião egípcia enquanto tal, à falta de representantes autênticos, estava praticamente extinta.
Se é legítimo afirmar que um artista cristão, eventualmente exposto à arte egípcia, se poderia inspirar nas formas artísticas das representações de Ísis e Hórus para criar obras representativas de Maria com o Menino, por outro lado, é ilegítimo fazer derivar todas estas representações artísticas cristãs da tradição artística relativa a Ísis e Hórus.
As conquistas de Alexandre, o Grande, espalharam a cultura helénica pela bacia do Mediterrâneo e pelo Médio Oriente. Nos primeiros séculos da nossa era, Alexandria era a capital dessa cultura, que sem dúvida marcou muito mais o cristianismo do que a egípcia.

«Os cristãos dividiam-se em facções e uma delas, a dos arianos, defendia mesmo que Jesus era o filho natural de Maria e José e só depois se tornara o Messias»


Não é correcto falar em facção ariana, uma vez que os cristãos sempre procuraram preservar uma doutrina comum de tradição apostólica. Mas é certo que, ao longo da História, surgiram correntes que se desviaram dessa tradição, e por isso mesmo foram rejeitadas pelo cristianismo, como é o caso de Ário de Alexandria e dos seus seguidores, mas esta corrente, mesmo no auge da sua importância, era minoritária no colégio episcopal, como se vê pela sua derrota esmagadora, por voto, no Concílio de Niceia em 325. As ideias do bispo Ário contrariavam a tradição apostólica, e por isso mesmo, foram rejeitadas pela clara maioria dos bispos reunidos em Niceia. De um total aproximado de 220 bispos, apenas são conhecidos dois apoiantes de Ário: Teónas de Marmarica e Segundo de Ptolemais.

«Perante uma situação que ameaçava tornar-se incontrolável, era urgente definir o culto a Jesus e reduzir o papel de Maria. Foi com este objectivo que, no ano de 325, se convocou o primeiro concílio fundador da Igreja – que só podia acabar da pior maneira, com uma demonstração radical de força. Os bispos reuniram em Niceia (Turquia) e, por maioria, afirmaram Jesus como filho de Deus.»


O Concílio de Niceia não se reuniu para definir o culto a Jesus ou reduzir o papel de Maria, mas sim para condenar as ideias heréticas do bispo Ário, que contra a tradição apostólica, pretendia reduzir a divindade de Cristo; o Concílio definiu ainda a forma de calcular a data da Páscoa, uma festa móvel ;
Porquê “demonstração radical de força”? Uma votação “inter pares”, entre bispos, sobre questões de doutrina é uma demonstração radical de força?
Em Niceia, não se votou Jesus como Deus: deliberou-se o afastamento dos que não O viam plenamente como tal, os seguidores da heresia de Ário, tendo o Concílio sugerido a palavra “consubstancial” (em grego «homoousios») como expressão verbal da unidade divina (em substância) do Pai com o Filho; Jesus sempre foi visto como Deus pelos seus seguidores: um bom exemplo desta doutrina encontra-se na obra de Santo Ireneu, datada do final do século II , e portanto, anterior ao Concílio de Niceia;

«Atanásio, Bispo de Alexandria, aproveitou o momento e determinou os textos que fariam parte do cânone da Igreja. (…) Sem surpresa, ficou de fora o texto que mais se refere a Maria, o Proto-Evangelho de Tiago.»


O Concílio de Niceia em 325 não determinou os textos do cânone: o tema nem sequer constou da ordem de trabalhos;
Os textos do Novo Testamento datam do século I d.C, conforme o acordo dos especialistas; quando muito, o Evangelho de São João e o Livro do Apocalipse de São João datarão do início do século II;
As compilações do Novo Testamento já estavam consolidadas no final do século II d.C. (o Codex Muratori , a mais antiga compilação conhecida dos textos neotestamentários, é datada quase unanimemente entre 180-200 d.C.);
O Proto-evangelho de Tiago não foi deixado de parte por se referir a Maria: o texto não apresenta problemas doutrinais, e de facto, não poucos dos seus elementos passaram a integrar a tradição popular cristã; o texto foi excluído do cânone do Novo Testamento por conter detalhes fantasiosos e inverosímeis .

«De tal forma que, no século V, a Igreja foi obrigada a reconhecê-lo. (…) E, em 10 dias, Maria passaria de segredo envergonhado a rainha da Igreja»


Custa a acreditar que uma transformação tão profunda, a ter ocorrido, como se pretende no artigo, teria ocorrido em apenas dez dias. Qual é a base histórica para esta afirmação? Porque razão seria a mãe de Cristo (Deus para os cristãos) um “segredo envergonhado”? A conclusão de Éfeso, de que Maria é Mãe de Deus (“teotokos”), é a conclusão lógica e necessária para todo aquele que defende que Cristo é Deus, uma vez que Maria é mãe de Cristo.

«O concílio decorreu em Julho de 431 na cidade de Éfeso (Turquia) e foi no mínimo escandaloso. Cirilo, que partia em desvantagem, uma vez que o imperador apoiava Nestório, enviou agentes a Constantinopla e distribuiu prendas e subornos entre os bispos. Depois, aproveitou a sorte. Foi o primeiro a chegar a Éfeso e nem esperou pelos bispos partidários de Nestório. Sem autorização imperial, abriu o concílio e, recorrendo-se de todos os textos antigos, mesmo dos não reconhecidos pela Igreja, contou a história de Maria e acrescentou novidades. Apresentou-a como virgem perpétua e garantiu que, depois de morrer, fora elevada ao céu ali mesmo, em Éfeso.»


Porque razão se diz que o concílio “foi no mínimo escandaloso”?
Porque razão se diz que “Cirilo partia em desvantagem”, quando era o séquito de Cirilo (50 bispos) o maior, quando comparado com os apoiantes de Nestório (16 bispos)? Para mais, o papa Celestino I, numa carta de 11 de Agosto de 430, encarrega o Patriarca Cirilo da responsabilidade de dirigir o Concílio; o imperador bizantino, não tendo autoridade em teologia, tomou inicialmente o partido de Nestório, mas após o fecho do concílio, aceitou as suas conclusões;
Quais são as evidências históricas dos ditos “subornos”?
“Foi o primeiro a chegar a Éfeso” é um erro factual: Nestório chegou antes de Cirilo, ou na melhor das hipóteses, chegou no mesmo dia que este (vide Actas Coptas), um pouco antes do Pentecostes;
O papa Celestino I, tendo declarado heréticas as ideias de Nestório, deu-lhe dez dias para as repudiar; a intenção do Papa era usar o concílio para julgar as ideias de Nestório; no entanto, este não quis comparecer nas sessões: foi três vezes convocado para comparecer, e recusou todas; o mandato de Cirilo dava-lhe poder para iniciar o concílio após os dez dias concedidos a Nestório; Cirilo deu um prazo maior, tendo iniciado o concílio apenas a 22 de Junho;
Não se sabe se o atraso do Patriarca João de Antioquia, amigo de Nestório, foi um atraso propositado ou acidental; ao chegar ao concílio apenas no dia 27 de Junho, João decidiu acusar Cirilo de heresia, mas a sua posição foi rejeitada por todos os restantes bispos, e foi o próprio João a ver-se excomungado pelo Concílio .

«"Maria tinha as características necessárias para ser uma figura divina: era mulher e mãe (…)", explica o professor de Ciência das Religiões Paulo Mendes Pinto.»


Esta afirmação é incompreensível no contexto cristão. Sabe-se que, em certos politeísmos, certas deusas eram associadas à sexualidade e à maternidade. Mas no cristianismo, só há um Deus, e Deus não tem sexo, nem masculino nem feminino. Maria não é nenhuma “deusa”, nem nunca foi definida como divina pela doutrina cristã.
A doutrina cristã é muito explícita no considerar Maria como humana e não divina. A doutrina da Imaculada Conceição, definindo que Maria desde o seu início não foi tocada pelo pecado original, entre outras coisas equipara-a ao estado de Adão e Eva antes de pecarem, pelo que essa doutrina não a eleva a um estatuto divino. A doutrina da sua assunção aos céus também não altera a sua natureza humana, bem como a doutrina da sua virgindade perpétua. Ser declarada mãe de Deus também não a torna divina: ela é a progenitora humana de Cristo, que é Deus feito Homem.

«Os primeiros indícios desta teoria surgiram por volta do ano 178 d.C. No texto Da Verdadeira Doutrina, o filósofo grego Celso escreveu que Maria “engravidara de um soldado romano chamado Panthera”»


É preciso dizer que a dita obra Alethes Logos, do filósofo platónico Celso (que seria romano e não grego), está desaparecida há séculos e só a conhecemos através da extensa obra (oito volumes) de refutação escrita pelo escritor cristão Orígenes em 248, Contra Celsum . Orígenes teve tanto cuidado na sua refutação que foi possível a partir dela reconstruir a quase totalidade do texto original de Celso. Este facto vai contra a ideia geral do artigo, que seria a de que a Igreja teria tentado ocultar verdades sobre Maria e sobre Jesus. Ora a verdade é que só sabemos desta teoria de Celsus acerca do soldado romano Panthera porque um autor cristão, Orígenes, a contestou por escrito. Se o objectivo fosse a ocultação do segredo, porque não teria Orígenes ficado calado?
Para mais, a teoria proposta por Celso é uma corruptela de uma teoria hebraica mais antiga. Segundo algumas fontes hebraicas que visavam desacreditar o relato cristão , Jesus seria filho de Pandira (ou Panthira) e Stada e teria vivido no tempo dos Macabeus, ou seja, um século antes de Cristo. Ele teria aprendido magia no Egipto, teria sido um “sedutor do povo” e teria sido enforcado numa árvore na véspera da Páscoa. O objectivo desta propaganda hebraica anticristã estava em situar a vida de Cristo um século antes da destruição do Segundo Templo, para contrariar a associação de Cristo às profecias do Antigo Testamento acerca do destino do Templo.

«Mas em 1859 foi descoberta na Alemanha uma nova peça do puzzle. Num cemitério romano foi encontrada uma lápide de um soldado romano chamado Tiberius Julius Abdes Pantera. No epitáfio lia-se que Pantera era de Sídon, uma vila a norte da Galileia, e prestara serviço na primeira coorte de arqueiros, a mesma que segundo registos romanos esteve presente na Rebelião da Galileia, no ano 4 a.C. – o que coloca Panthera perto de Nazaré na altura em que Maria teria engravidado»


Não compreendemos como é que isto pode ser considerado sequer um indício histórico. Em História não se trabalha com bases tão frágeis. Pantera era um apelido muito frequente, sobretudo entre soldados romanos . Descobrir um soldado de apelido Pantera na província da Galileia por altura do nascimento de Cristo não faz desse soldado pai de Cristo.

«A Igreja ensina que, mesmo depois de dar à luz Jesus, Maria permaneceu virgem até morrer. Uma ideia estranha se pensarmos que no tempo de Jesus o conceito de voto de virgindade não existia na cultura judaica. “Permanecer virgem era impensável, todas as mulheres judias sonhavam em conceber o Messias”, explica Rui Alberto Silva.»


A dar voz aos relatos dos apócrifos, nomeadamente ao Proto-Evangelho de Tiago, José teria idade avançada quando se casou com Maria, e para permanecer virgem, bastaria que Maria não tivesse voltado a casar depois de enviuvar. Mas certos apócrifos, como o Proto-Evangelho de Tiago, não foram incluídos no cânone precisamente por conterem dados inverosímeis, e a tradição apócrifa de José ser idoso quando se casou com Maria pode representar um desses casos. Para mais, os Evangelhos são omissos quanto a este ponto.
Independentemente desta questão, o que é estranho nas palavras de Rui Alberto Silva, mesmo admitindo um contexto cultural adverso ao celibato, é que este parece sugerir que, entre o povo judeu ao tempo de Jesus, não existiria nem um só caso de uma mulher que tivesse permanecido virgem durante toda a vida!
Por outras palavras, um contexto cultural adverso a votos de virgindade não implica a total inexistência de mulheres ou homens virgens durante toda a vida!

«Outros responsabilizam o autor do evangelho por ter traduzido mal a palavra grega adelfós, que significaria primos.»


Trata-se de um equívoco: a palavra grega “adelphos” deve ser traduzida literalmente como “irmão” . Pode significar, quer um irmão biológico, quer um “irmão” na fé cristã. Os primeiros cristãos não se chamavam a si mesmos “cristãos” mas sim “irmãos” . Sem factos que o comprovem, não há razões para interpretar a palavra “adelphos” em São Marcos 6 no sentido biológico.
Em relação à frase do artigo, há ainda outro equívoco quando se diz que Marcos teria “traduzido mal a palavra grega adelfós”,: o Evangelho segundo São Marcos é já uma obra grega no seu original. Logo, o autor do evangelho escreveu-o em grego, e portanto, não fez qualquer tradução.

«Tiago seria o verdadeiro sucessor de Jesus, e não Pedro, como acabou por acontecer. Uma das provas reside no Evangelho de Tomé, descoberto no Egipto em 1945, e onde está escrito que Jesus designou Tiago como seu sucessor.»


Não se trata de uma prova: o facto de os autores do texto gnóstico intitulado “Evangelho de Tomé” atribuírem tais palavras a Jesus não prova que tal tenha ocorrido de facto. O dito Evangelho de Tomé é a segunda obra do códice II de Nag Hammadi, está escrito em copta e data do século IV. Provavelmente, foi composto na Síria. É quase certo que este texto se baseou parcialmente em textos ou fragmentos mais antigos , mas a datação e identificação das fontes usadas no Evangelho de Tomé é um tema ainda em aberto. Nenhum historiador sério afirma que este texto é da autoria do apóstolo Tomé.

Bernardo Motta

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Esclarecimento ao Helder Sanches

Relativamente a um texto do Helder Sanches que já havia referido há uns dias atrás, Jesus e a frequência do diálogo, quero aproveitar para responder neste espaço ao Helder, porque poderá ser útil a outras pessoas.

O Helder abordava duas questões diferentes, a do Jesus histórico e a da Santíssima Trindade, e manifestou-se intrigado pelo facto de eu me indignar com as dúvidas acerca do Jesus histórico, e depois aceitar a Santíssima Trindade sem qualquer hesitação.

É uma questão muito importante, e diz respeito à dualidade essencial entre Razão e Fé. Crer para entender. Entender para crer. O Helder Sanches esperava de mim o uso de critérios históricos quando eu me referisse à Santíssima Trindade. Diz o Helder:

«Você não respondeu às minhas dúvidas com os mesmos argumentos que utilizou inicialmente para justificar a verdade histórica de Jesus.»

Mas claro que não.
A questão da Santíssima Trindade não é uma questão histórica, mas sim pística, ou seja, uma questão de fé na doutrina da Igreja Católica. Como poderia eu usar os mesmos argumentos? Não quer isto dizer que não se possa argumentar racionalmente sobre a Trindade (os primeiros concílios ecuménicos praticamente só se dedicaram a esta questão). Há uns tempos atrás, falei do texto do filósofo Boécio acerca da Trindade, texto esse que expõe o conceito do Deus uno em essência mas trino em pessoas (ver De Trinitate), usando apenas raciocínio filosófico e sem fazer referências à revelação das Sagradas Escrituras.
Só que as argumentações, filosóficas ou teológicas, feitas sobre matéria de Revelação, como é o caso da Trindade, só se fazem "a posteriori" de uma adesão pística. Não vale de nada trabalhar racionalmente o conceito de Trindade se não recebemos tal conceito como verdadeiro através da graça da Fé, dom gratuito de Deus.

Nunca é demais insistir nestas questões, porque um conhecimento imperfeito acerca destes importantes detalhes teológicos e doutrinais é infinita fonte de problemas e de confusões.

A Teologia é o estudo racional da Revelação. Apoia-se, sobretudo, nas Sagradas Escrituras e na Tradição oral da Igreja. Usa, como ferramenta, uma filosofia cristã especialmente adequada para o tratamento destes temas.
Mas de nada serve a Teologia se não há Fé, se não há uma adesão intelectual inquestionável à veracidade da Revelação. Como posso caminhar no sentido de compreender melhor a luz divina se não a reconheço, se não a sigo, se não aponto o meu intelecto para ela?

«Afinal, você considera as dúvidas sobre a existência de Jesus um logro uma vez que, no seu entender, existem provas suficientes e comprovadas da verdade histórica do mesmo; agora, em relação a Deus e ao Espírito Santo você diz-me que qualquer cristão acredita na trindade porque Jesus fala dela. Bem, em que ficamos, então? Já não são precisas confirmações históricas fidedignas?

É que são domínios radicalmente diferentes, apesar de compatíveis. Nenhuma verdade histórica ou científica contradiz a doutrina revelada. E nenhuma parte da doutrina revelada contradiz algum facto ou evidência científico-histórica. Mas são coisas diferentes. Para falar de História, não preciso da Fé. Bastam-me os documentos, as provas, as "pistas" presentes em obras de autores do tempo que estudo, basta-me o rigor do método de trabalho, o rigor das ferramentas de trabalho, etc.
Um historiador digno desse título não procura defender a tese de que Cristo não existiu. Mesmo sem ter provas do ADN de Jesus, o historiador pode olhar para a colossal recolha de testemunhos indirectos de Jesus, da sua vida e obra, e reconhecer que a tese da sua inexistência não se adapta aos dados.

Não se trata de fazer o historiador jurar que Jesus existiu. Em Ciência não se trabalha assim. O historiador, como cientista, procura adaptar a melhor tese aos dados disponíveis. Face a esses dados, é insensato defender a tese de que Cristo não existiu. Mas a tese oposta não está demonstrada de forma irrefutável. E atrevo-me a dizer que são poucas as teses históricas demonstradas de forma irrefutável. Porque os eventos passados não são reprodutíveis em laboratório.

No entanto, isso não faz com a que a História perca o seu racional poder explicativo dos factos passados. Perante as evidências colossais, para quê, se não para patrocinar certas agendas ideológicas, propor uma tese histórica que não se adapta aos dados?

O Helder escreve ainda:

«Basta-lhe a palavra de alguém em quem você acredita, sabendo que esse alguém é deveras contestado historicamente?»

Sim, basta-me a palavra de Jesus Cristo em quem acredito totalmente e plenamente. Porque o vejo (graças à Fé) como Filho de Deus, Deus de Deus, e Deus não falha nem engana.

As contestações históricas que alguns fazem à existência de Jesus são feitas à revelia do rigor histórico. É sintomático da prática de má ciência história que muitos desses historiadores se recusem a usar referências documentais cristãs. Essa recusa é motivada por razões ideológicas e não científicas. Trata-se de, num claro abuso do que é ser historiador, dizer assim: "estes textos foram escritos por crentes cristãos - logo, são inúteis e falsos, porque são propaganda". Isto não é rigoroso nem científico. E já para não falar da "turma" dos que distorcem os dados históricos. Aqueles pseudo-historiadores que procuram propagar a chamada "alternative history", com pseudo-teorias incoerentes, ou desprovidas de provas, acerca de linhagens sagradas, túmulos de Jesus, casamentos com Maria Madalena, descendência, etc... Pergunte a um historiador ateu o que acha destas teses... Perante a falta de evidências, nada como fabricá-las, como fizeram os promotores e criadores do documentário "Bloodline".

«Lamentavelmente, voltamos à estaca zero e eu volto ao meu argumento inicial: uma vez mais, não importa, também no caso da Santíssima Trindade, qualquer validação histórica. Desde que o conceito venda, o mercado está garantido.»

Mas que validação histórica quer o Helder fazer à Santíssima Trindade, um conceito do mais transcendente que existe, e que podendo ser de certa maneira entendido pelo intelecto humano, é incompreensível porque o nosso finito intelecto não abarca (não "compreende") a totalidade da sua realidade, porque esta é infinita?

O que eu me limitei a escrever foi o óbvio: acreditamos na Santíssima Trindade porque Cristo nos falou do Pai e do Espírito como sendo Deus, e no entanto, pessoas distintas do Filho. A ideia da Santíssima Trindade não tem nada a ver com propaganda: basta ver a eficácia do Islão, que não usa nenhum conceito parecido. Porque razão a Santíssima Trindade ajudaria a um qualquer tipo de propaganda religiosa? A ideia em si é tão profunda, transcedente e sofisticada que não pode ter origem humana.

Faço-lhe um desafio: que livro imagina o Helder que venderá mais numa livraria? Uma obra filosófica explicativa da Trindade, como o De Trinitate de Boécio, ou um livro a apresentar mais uma sepultura com ossadas de Cristo, ou mais uma suposta prova de uma filha de Jesus com Maria Madalena? O que é que, realmente, funciona em termos de propaganda?
Estamos todos fartos de saber que a mentira vende sempre mais que a verdade...

«Só um à parte para o corrigir, se me permite, numa afirmação que faz: “A distinção das três pessoas é feita por Cristo. E por isso mesmo, é aceite pelos cristãos”. Isto não é verdade. A Santíssima Trindade é aceite, mas não por todos. Existem diversas facções cristãs - algumas bastante populares - que não subscrevem a doutrina trinitariana. Mas isso, claro, deve dever-se a questões de tradução e nunca a questões de veracidade.»

Caro Helder, gostaria de pegar no debate por este ponto. De que facções cristãs fala? É relativamente complicado a qualquer cristão que preza as Sagradas Escrituras como palavra de Deus negar a Santíssima Trindade. Há certos grupos que o fazem, mas não apresentam boa argumentação. Pode explicitar que grupos cristão "bastante populares" são esses?

A tradução dos textos sacros é matéria complexa e que exige muito rigor. Invocar "problemas de tradução" é apelar ao absurdo para tentar explicar o que não se compreende. Como é que o Helder Sanches argumenta no sentido de dizer que a noção de Santíssima Trindade dá azo a dúvidas interpretativas que se prendem com problemas de tradução?

Eu tenho um palpite: sucede com o Helder o que sucede com todos nós. Quando rejeitamos uma doutrina em bloco (como é o caso: o Helder rejeita o Cristianismo em bloco), tendemos a relativizar tudo. Para quem rejeita uma doutrina em bloco, todas as facções dentro dessa doutrina parecem igualmente erradas e irrelevantes para a veracidade das questões. Nesse contexto, o Helder, ou a maioria das pessoas que se encontram fora do contexto cristão, não sentem qualquer interesse em discernir quais dos grupos têm a verdade, porque eles acham que nenhum deles diz coisas verdadeiras.

É o relativismo do "outsider"!

E alguns, não digo que necessariamente o Helder, usam esse relativismo subjectivista para tentar argumentar assim: "Se diferentes grupos cristãos dizem coisas antagónicas a respeito de X, então X é falso ou não existe". Esta é uma dedução que eu não compreendo nem consigo seguir logicamente. Apoia-se em que regras da lógica? Se A diz que X existe e B diz que X não existe, devo admitir que X não existe? Porquê?

E isto pode ser extrapolado para um dos maiores erros clássicos do ateísmo relativista: "se várias religiões dizem coisas diferentes de Deus, então Deus não existe". Espantosa dedução lógica...

Um abraço ao Helder, cuja resposta fico a aguardar, sem pressas!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Coerência e unidade

O Prof. José Manuel Pureza escrevia ontem, em texto divulgado no Ecclesia, acerca da Mensagem de Paz do Papa Bento XVI, expressando-se nestes termos:

«As violências que marcam o nosso quotidiano, em todas as escalas - sejam físicas, estruturais ou culturais - são o avesso de uma condição familiar.»


Sem qualquer consideração moral sobre a pessoa do Prof. José Manuel Pureza, e sem colocar minimamente em causa o seu trabalho na Comissão Nacional Justiça e Paz, devo confessar que achei o seu texto perturbante, por mostrar aquilo que me parece ser uma clara contradição num católico com carreira universitária, e louvável activismo católico.

Dito de outra forma, nem pessoas como o Prof. José Manuel Pureza estão a salvo de incorrerem em gravíssimas incoerências. Refiro-me à sua conhecida posição aquando do referendo de Fevereiro passado sobre o aborto, essa clara violência física, estrutural e cultural que é o avesso de uma condição familiar.

O Prof. José Manuel Pureza, não só votou "SIM" ao aborto legal, livre e subsidiado, como fez questão de dar o seu nome para vários destes movimentos. Surge listado no blogue Eu voto SIM. Foi também mandatário do Movimento de Cidadania e Responsabilidade pelo SIM.

Esta sua posição é incompreensível. Sem colocar em questão o perfeito catolicismo daqueles que procurariam uma redução da pena para o crime de aborto, ou até a sua eliminação em circunstâncias específicas, já o voto "SIM" no referendo de Fevereiro teria necessariamente que andar às arrecuas do catolicismo.

Sem querer reproduzir aqui, de novo, os argumentos que invoquei para explicar o mal ético do aborto, e o erro fatal de um católico votar "SIM" em tal referendo, remeto os interessados nos detalhes para o documento que se encontra na parte lateral deste blogue, na secção Artigos. Na sua versão longa, chamo a atenção para o capítulo 3.4, que principia na página 33, onde se encontra a argumentação para o que vou afirmar de seguida.

Todo o votante no "SIM", para além de concordar com a despenalização do crime de aborto (o que é evidente, e relativamente inócuo), também concordou com a legalização desse crime (uma contradição nos termos), e pior ainda, concordou com o uso de dinheiros públicos do Sistema Nacional de Saúde para efectuar esses crimes.

Não é evidente a razão pela qual qualquer pessoa de bom senso, amiga da verdade, respeitadora da vida, deveria ter votado "não"?
E, sendo tal pessoa um católico, não é de bradar aos céus tal incoerência? Tal nítida contradição, que rompe profundamente a união de tal pessoa com o catolicismo, e no seu âmago?

O Prof. José Manuel Pureza, juntamente com todos os que votaram "SIM", é co-responsável de duas graves consequências sociais:

a) a de o crime de aborto deixar de ser visto legalmente como tal (falência ética)

b) a de o crime de aborto passar a ser pago pelos impostos de todos os portugueses (perversão moral)

E também vale de pouco invocar o facto que de a pergunta do referendo não legitimaria muitas das opções políticas do governo Sócrates. Tal invocação é sinal de ingenuidade e de falta de maturidade. Os projectos-lei estavam à vista de todos, bem antes do referendo, e sabia-se bem o que significava, politicamente, um "sim" ao referendo.

Deste modo, quando Portugal se assemelhar a Espanha, e o aborto se generalizar para fetos acima das "miraculosas" dez semanas (recorde-se, para os "intelectuais" pró-aborto, essa é a idade mágica com a qual ganhamos direito a viver), e começarmos a assistir ao circo perverso dos Carlos Moríns do nosso país, também deveremos chamar à barra o Prof. José Manuel Pureza, e todos os que com ele votaram "sim", uma vez que abriram caminho, na nossa sociedade, para o relativismo moral e ético.

É que a Ética, em sociedade, respeita-se quando todos somos responsáveis pelo seu respeito. Basta que um de nós, só um, vacile nesta responsabilidade, para toda a sociedade estar eticamente em risco. Isto permite, hoje em dia, que se fale na "ética de cada um", porque deixámos de concordar na "ética de todos": o barão do aborto, Carlos Morín, responsável pela morte de milhares de seres humanos, gravado ocultamente num documentário espanhol, e perante a pergunta de se considerava éticas as suas acções, afirmava: "vocês têm a vossa ética, eu tenho a minha!".

Votar "sim" foi uma contradição ética.
E toda esta contradição ética, note-se, sob a capa de movimentos cujo nome invoca termos tão louváveis como "cidadania" e "responsabilidade".

Cada ser humano morto nas clínicas infanticidas, públicas ou privadas, na sua curta vida terminada brutal e violentamente, é um grito que ecoa até aos céus, até ao âmago divino. Nada poderá apagar tais crimes, porque não são mortes por acidente, ou mortes por outro tipo de infortúnios sem culpa humana, como doenças, ou catástrofes naturais. Tais crimes são de bradar, porque são mortes de inocentes às mãos de seres humanos conscientes do crime que cometem.

Regressando aos católicos, há quem diga que as igrejas estão a ficar mais vazias porque a Igreja Católica não permite o aborto, não sanciona a homossexualidade, não reconhece os divórcios, não ordena as mulheres, não deixa os padres casarem, entre outras tontas (porque erradas) reivindicações.

É ver o problema ao contrário: as igrejas estão a ficar vazias, e a sociedade está a perder a espiritualidade que lhe dá vida, porque os católicos cada vez mais se esquecem da relação entre coerência e unidade. Não é ideal a unidade baseada na obediência (se bem que seja sensato obedecer a quem tem razão), mas sim a unidade baseada na adesão livre a uma proposta coerente, verdadeira e radical como é a de Cristo.

Coloco-me na pele do não católico: que interesse haverá em aderir a uma doutrina cujos professantes nem sequer se entendem a respeito da ética mais básica, do crime de retirar uma vida humana? Quando um não católico olha para teólogos como um frei Bento Domingues ou Anselmo Borges, o que vê? Quando um não católico olha para o Prof. José Manuel Pureza, o que vê? Muitos vêem teólogos e leigos católicos maduros, progressistas, clarividentes. É pena. Porque se vissem mais de perto veriam que um católico que votou "sim" no referendo de Fevereiro, está terrivelmente equivocado na forma como deveria defender a sua convicção cristã mais profunda: o Amor.

Para além disto, é certo o enorme mal que tais posições incoerentes provocam na sociedade, sobretudo nos adversários da proposta cristã. Veja-se este exemplo paradigmático, intitulado Sim de Crentes.

O que torna este texto recente do Prof. José Manuel Beleza no Ecclesia espantosamente vexante, é a circunstância da sua posição contraditória face ao aborto, porque o texto está correctíssimo no seu conteúdo e forma. Ao invocar a Paz, enquanto concorda com o aborto, dá sinais evidentes de uma grave contradição ética e moral.

Dizia Madre Teresa de Calcutá que o aborto era a maior ameaça à paz mundial. O insensato Richard Dawkins, na sua recente e medíocre obra de polémica contra Deus ("The God Delusion"), perguntava porque razão teriam dado o Nobel da Paz a uma "mulher tonta" (se as palavras não são estas, o sentido é este), porque, segundo ele, o aborto nunca poderia ser a maior ameaça à Paz.

Estas palavras foram escritas pelo mesmo homem que, bem perto deste trecho, escrevia que o nascimento era o "Rubicão" do direito à vida. Ou seja, defendia que era a saída do útero materno que conferia direito a viver. Seguindo este imbecil raciocínio, na "ética Dawkins", seria legítimo dar uma injecção fatal no coração da criança de nove meses, prestes a nascer. Segundo esta lógica profundamente errada, estar para lá ou para cá do útero parece ter qualquer tipo de significado ético.

O aborto é, sem dúvida, a maior ameaça à paz mundial. Porque se permitimos que se matem inocentes, invocando apenas as tristes razões do nosso conforto ou da nossa subsistência económica (oferecendo os Estados às mães em dificuldades a "solução final" para os seus filhos), se achamos bem que se destruam vidas humanas inocentes, que nem sequer tiveram a possibilidade de errar nesta vida, então o Mal está realmente à solta, e não há razão para imaginar que poderemos ter Justiça para com os adultos, culpados ou inocentes, visto que a negamos aos mais pequenos e frágeis de entre nós.

Finalmente, um humilde pedido de exame de consciência para todos os católicos (que também se aplica a mim). Uma reflexão acerca de coerência e unidade. Cada vez que, perante outros amigos e familiares, católicos ou não, fazemos um comentário negativo acerca de um movimento católico, ou fazemos chacota da devoção ou piedade de outro católico, ou quando, receosos da reacção do Mundo, fingimos discordar das opções fundamentais da Igreja, estamos a fazer anti-evangelização. Damos um sinal de contradição. E contradição é erro. E ninguém quer seguir pessoas erradas.

Sempre que, enquanto católicos, professamos uma ideia anti-católica, estamos a minar a nossa coerência, e com ela, a unidade de todos os cristãos. Numa altura em que o Papa Bento XVI move todos os esforços no sentido de recuperar a unidade entre católicos e ortodoxos, convenhamos que é bem triste constatar que tantos ainda marcham no sentido contrário, em direcção à incoerência.

Peçamos a Deus a coragem para sermos coerentes e unos. Só assim poderemos anunciar Cristo ao Mundo de forma convincente.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Milagres e a ciência empírica

Recentemente, o Ludwig escreveu:

«Ora eu não sou ateu por princípio. Sou ateu em consequência da forma como avalio qualquer hipótese, comparando-a com as alternativas e optando por aquela que melhor corresponde à informação que tenho. É isto que me faz rejeitar o deus cristão, por exemplo. Omnipotente e omnisciente, pode fazer qualquer coisa que julguemos impossível, refutando toda a ciência moderna. É contraditório, pois sabe de certeza o que vai fazer amanhã mas pode fazer o contrário. E não há vestígio dele.»

É espantoso! Como (quase) sempre, estamos a falar de conceitos diferentes.
É como eu dizer "Eu acredito no Manuel!", e o Ludwig responder "Não, o João não pode existir. Eu não acredito no João!".

Se Deus fosse como o "deus-à-Ludwig", eu não era crente. Mas, felizmente, o conceito que Ludwig usa para Deus não é o do Deus verdadeiro. É uma ideia errada de Deus.

Vamos por partes:

1. Deus é um ente metafísico: por definição, ele é O ENTE SUPREMO metafísico;

2. O possível metafísico é o real, ou seja, tudo o que é metafisicamente possível é real; o irreal não é rigorosamente nada, idem para o impossível; ou seja, não existem coisas impossíveis nem irreais, nem no mundo físico nem no metafísico;

3. Deus, não deixando de ser omnipotente, não faz o impossível, porque Deus não se ocupa a fazer o nada; o nada não foi feito, não vai ser feito, e não tem que ser feito: não existe;

4. Deus não é contraditório, nem pode ser contraditório, nem nada de contraditório tem existência real;

Argumentar que os pontos 2, 3 e 4 são limitações ao epíteto de "omnipotente" que se atribui a Deus, é insensato: Deus não é limitado de forma alguma por questões rigorosamente nulas. O "0" não limita a Possibilidade.

Deste modo, Ludwig está a negar um outro deus qualquer, o tal "deus-à-Ludwig", porque está na posse de uma definição metafisicamente incorrecta de Deus. Logo, está a falhar o alvo.

O Deus no qual acredito, o verdadeiro Deus, o Deus Criador de tudo o que existe, não viola o possível, não tem apetências pelo impossível, não é contraditório, nem ilógico (a violação das leis da lógica é um erro, e o erro é um puro nada, em termos ontológicos). Seria interessante evocar a palestra recente de Bento XVI em Regensburgo, na Alemanha. Curiosamente, o Papa referiu nessa palestra precisamente a questão que nos ocupa agora: será Deus compatível com violações à razão? Certamente que não, e o erro que mina a ideia que Ludwig faz de Deus não anda longe das confusões medievais de um Duns Escoto.

Ora, a imediata objecção que a confusa mente moderna levanta a esta exposição é: "e como justificar os milagres nos quais os crentes acreditam?".

Deus, ao contrário do que pretende o Ludwig, não refuta "toda a ciência moderna". Até podemos dizer, com toda a segurança, que Deus não refuta nem viola qualquer lei física.

Pegando num exemplo: os corpos físicos mais densos que a água não pairam sobre ela, logo é impossível um ser humano andar sobre a água. Logo, pela lógica ludwiguiana, Cristo não teria andado sobre a água.

Mas Cristo-Deus, o Deus incarnado num corpo humano, não é apenas um corpo físico. Cristo, como Ser metafísico supremo, é Senhor de tudo, inclusive da matéria.

Logo, especulando, Ele pode manifestar-Se, momentaneamente, num corpo em tudo idêntico ao corpo de um homem, mas com uma densidade inferior à da água. Ou pode, localmente, alterar a densidade da água sob os Seus pés. Ou pode, localmente, alterar as forças electromagnéticas em seu redor, para poder flutuar sobre as águas. As possibilidades são imensas, conquanto se entenda que estamos a falar de um ser que não está limitado às regras e às potencialidades estritas dos seres físicos.

Também é útil explicar o que é um milagre: trata-se de um fenómeno inesperado (tem que ser fenomenoménico, ou seja, empiricamente detectável) e extraordinário, cuja causa é metafísica.

Há três tipos diferentes de milagres (ver um estudo completo aqui), que poderíamos chamar de:

a) milagres sobre-naturais: efeitos extraordinários que seriam impossíveis a quaisquer forças naturais (por exemplo, o ressuscitar de um morto)

b) milagres extra-naturais: efeitos extraordinários que seriam possíveis a forças naturais, mas que envolvem um processo radicalmente diferente, ou mais rápido ou mais eficiente ou mais profundo (por exemplo, a cura imediata de um doente)

c) milagres contra-naturais: efeitos extraordinários que são possíveis a forças naturais, mas que se manifestam contra a tendência normal da natureza (por exemplo, andar sobre as águas, voar ou estar no meio das chamas sem perigo)

O exemplo que demos, no qual Cristo anda sobre a superfície das águas sem se afundar, é do terceiro tipo. Ao fazê-lo, Cristo não viola quaisquer regras físicas. O efeito seria o mesmo se utilizássemos estruturas compressoras que aumentassem drasticamente a pressão num dado metro cúbico de água: com a necessária pressão, e eventualmente com alterações químicas que produzissem maiores tensões superficiais no líquido, um homem poderia andar sobre a superfície dessa água. A diferença é que Cristo, ao fazê-lo, valeu-se de causas sobrenaturais que provocaram localmente um efeito contra-natural (mas sem violar as leis da física), ou seja, contrário ao comportamento esperado deste líquido na natureza, quando não estão presentes causas sobrenaturais.

A interação entre objectos físicos rege-se por equilíbrios e desequilíbrios de forças. Um ser humano pode participar, ou influenciar, essa interacção provocando ele mesmo forças de equilíbrio ou de desequilíbrio. Tais perturbações são então as causas naturais para os fenómenos físicos quotidianos, ou ordinários, provocados voluntariamente pelo Homem. Contudo, é perfeitamente possível que determinadas perturbações em sistemas físicos de forças sejam causadas metafisicamente, pela vontade de agentes metafísicos. É disso que estamos a falar neste caso.

Um cientista católico pode admitir, em teoria, uma tese metafísica como a do referido milagre de Cristo, e ao mesmo tempo, estudar dinâmica de fluidos sem entrar em incoerência intelectual. E com a plena certeza de que o Deus que venera não viola leis físicas quando produz milagres, directamente, ou através de outros seres humanos.

Para terminar: é certo que a ausência de provas empíricas, úteis para o método científico, de que tais fenómenos acontecem (de que Cristo andou sobre as águas) não nos permite ter a certeza científica da realidade dos mesmos. Mas tal ausência de provas não nos pode levar a, nem nos permite, negar a possibilidade teórica dos mesmos. Basta admitir a possibilidade de causas supra-empíricas (invisíveis, extra-sensoriais) para determinados fenómenos empíricos. Tal possibilidade não pode nunca contradizer os actuais postulados físicos.

É certo que a admissão de tal possibilidade não pode ser fortuita. No caso da Igreja, apoia-se em algo muito forte chamado Revelação. O Ludwig tem razão quando diz que o crente acredita por princípio. Esse princípio acabou de ser referido. A fé é um acto de confiança: não uma confiança no vazio mas sim no legado de Cristo e dos Apóstolos. Uma confiança na Santa Madre Igreja.

Por outro lado, a opção pística do Luwdig (é o que ela é), ao decidir-se pelo ateísmo, baseando-se, entre outras coisas, numa crença apriorística na impossibilidade de fenómenos que não são empiricamente reproduzíveis em laboratório, é então uma opção de princípio. O seu ateísmo é de princípio.

domingo, 23 de setembro de 2007

Filosofia para o ateu moderno

É bem sabido que a Filosofia pode servir de terreno fértil ao debate entre ateus e crentes, visto que pode bem ser a única área do saber que contém conceitos passíveis de serem aceites por ambos os lados.

No entanto, não tem sido fácil encontrar um diálogo filosoficamente fértil do lado de lá da barricada. Não sem uma ponta de esperança, dediquei uma referência a Boécio ao Ludwig Krippahl, que se limitou, enquanto vigiava um teste, a escamotear o texto e, por arrasto, toda a filosofia aristotélica.

Ludwig, não tanto pela incapacidade intelectual, mas sobretudo pela indisponibilidade temporal (ler Boécio enquanto se vigia um teste é uma má ideia, porque estudar Filosofia requer alguma concentração), achou por bem escamotear o meu convite ao debate filosófico.

E fê-lo de forma empobrecedora. Acerca do facto (incontestável) de que a categoria aristotélica de "relação" se aplica necessariamente a dois entes, Ludwig achou que era uma boa ideia usar a palavra "errado" em relação a este facto. Assim mesmo, sem apelo nem agravo. Como uma buzina num concurso televisivo, o veredicto ludwiguiano caiu a direito que nem uma espada sobre a cabeça de Boécio: "Errado", Boécio!

O que poderíamos dizer?
Que Ludwig não sabe que Boécio estudou Aristóteles? Que Boécio, ao usar a palavra "relação", não está a usá-la num contexto popular ou simplório, mas sim filosófico, no contexto da herança de Aristóteles? Os alunos de Filosofia sabem, desde cedo, e de cor, as dez categorias aristotélicas dos entes: lugar, tempo, relação, substância, quantidade, qualidade, estado, hábito, paixão (ou passividade) e acção (ou acitividade).

Boécio escreve, no início capítulo VI:

«Mas, como toda relação sempre se refere a outro, pois a predicação que se refere ao próprio sujeito é sem relação, a numerosidade da Trindade é garantida pela categoria relação, enquanto a unidade é preservada pelo fato de que não há diferen-ça de substância ou de operação ou de qualquer predicado substancial. Assim, a subs-tância é responsável pela unidade e a relação faz a Trindade.»

Ludwig refuta Boécio deste modo:

«A relação entre mim e os filhos do meu pai não é necessariamente uma relação que se refere a outro. Afinal, eu também sou filho do meu pai.»

Ninguém duvidará que o Ludwig tem que ser filho do seu pai, sem deixar de ser o Ludwig. Só que a categoria "relação" não é aplicada assim, entre entes e predicados. "Relação" é uma categoria aristotélica entre dois entes. E o Ludwdig, sendo obviamente um ente, não pode ter uma relação com o predicado "filhos do seu pai", porque tal predicado cabe-lhe a si enquanto ente. Da parte que me toca, eu não tenho uma relação com o meu umbigo, com os meus 73 quilogramas, ou com o meu cabelo.

Trocado por miúdos... Se eu digo "Bernardo" e também digo "homem de 30 anos", é evidente que este predicado é parte integrante do meu ser. Por isso, não há relação, em sentido aristotélico, entre "Bernardo" e "homem de 30 anos", porque este último não é um ente, mas sim um predicado que me corresponde (transitoriamente, até ao dia 28 de Outubro deste ano) a mim enquanto ente.

Será que o Ludwig não sabe o que é "relação" para Aristóteles (e correspondentemente para Boécio)? Se calhar...
Ou será que o Ludwig quis gozar com a Filosofia?
Se calhar...

No entanto, gozos ludwiguianos à parte, a relação continua a ser uma categoria aristotélica, e continua a ser verdadeiro ontologicamente que a relação pressupõe dois entes. Era mais interessante, neste contexto intelectualmente turvo que constitui a intelectualidade hodierna, que esta verdade óbvia que acabei de referir fosse dita por um filósofo encartado, e não por mim. As pessoas que me lêem vão dar pouco crédito a isto, porque sou apenas um estudioso amador da Filosofia, sem formação académica.

Isto porque, para espíritos turvos incapazes de reconhecer uma verdade mesmo quando tropeçam nela, uma verdade torna-se sempre mais fácil de aceitar quando é dita por alguém com o canudo na mão.

Só gostava de encontrar um interlocutor interessado por Filosofia que gostasse de debater estas coisas de forma filosófica.

Por exemplo, se o Ludwig tivesse lido o texto de Boécio noutro contexto que lhe permitisse uma leitura mais atenta, poderia ter aproveitado a oportunidade para me retorquir, e levantar esta pertintente questão: "Se a relação é entre dois entes, então Boécio está a dizer que as pessoas da Trindade são entes diferentes entre si! Lá se vai a unidade!".

Mas Boécio também pensou nesta eventual contestação, e explica de forma clara que, sendo a relação sempre entre dois entes, isso não implica que tais entes sejam distintos em substância. Certamente que as criaturas, pela sua condição, são sempre distintas em substância. Já as pessoas da Trindade, possuindo relação entre si (é ela que origina a Trindade), não são entes substancialmente distintos. São entes iguais em substância.

Outro esforço para tentar refutar a Trindade, já com alguns meses, foi escrito pelo João Vasco, do Diário Ateísta. Só que o João Vasco, julgando que estávamos a falar de Matemática, limitou-se a referir o óbvio num contexto de lógica matemática. Que, aliás, se aplica à Trindade enquanto substância, curiosamente: A=B=C, enquanto Pai, Filho e Espírito Santo são idênticos e uma e a mesma substância divina.

No Instituto Superior Técnico, nobre instituição onde também me formei, ensina-se boa Matemática, e o João Vasco tem toda a razão na afirmação que faz, e que até explica a unidade das três pessoas divinas; só que ela não chega para compreender um conceito de âmbito filosófico como é o da relação, do qual deriva a trindade de pessoas divinas. E, infelizmente, faltam ao ensino da Engenharia e da Matemática umas boas bases rudimentares de Filosofia e Epistemologia, que valeriam ouro para qualquer aluno a estudar nestas faculdades.

Para o João Vasco compreender a Trindade, tem que saber o que é relação em sentido aristotélico. Ou seja, tem que compreender um conceito ontológico. Ou seja, tem que saber que estamos a falar de conceitos filosóficos e não matemáticos.

Desidério? Não nos quer dar uma mão? Como eu gostaria de ler uma refutação ao Boécio escrita pelo Desidério, usando metafísica modal...

terça-feira, 18 de setembro de 2007

De Trinitate

A Trindade.
Faz confusão.
Deus uno. Mas três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.
1 = 3 ?
Esta é a pergunta.
A resposta ateísta é: não! Rapidamente, concluem que os crentes não sabem fazer contas. Que nunca ensinaram Matemática aos teólogos que escreveram sobre a Trindade.

Por estas e por outras, nada como a refrescante leitura de uma das obras fundamentais do pensar filosófico ocidental, o De Trinitate, de Boécio (c. 480-525), numa generosa tradução on-line para português da autoria de Luiz Jean Lauand.

Como explica Lauand na sua introdução (de leitura obrigatória), uma das características mais notáveis desta obra de Boécio é a de que o autor escreve sobre um complexo tema metafísico como é o da Trindade sem se referir às Sagradas Escrituras. É certo, relembra Lauand, que já Santo Agostinho alternava os dois métodos de proceder teologicamente, per auctoritates (recurso à autoridade, a Tradição escrita e oral), ou per rationes (recurso exclusivo à razão, ao intelecto).

Mas Boécio tem a particularidade de que escreve este curto, mas profundo, tratado sobre a Trindade usando apenas argumentação filosófica. Não se deve adiar a leitura deste texto fundamental. Hoje em dia já não se encontra com tanta frequência esta forma límpida de pensar.

Para os mais curiosos e impacientes, deixo aqui a conclusão de Boécio: «A substância é responsável pela unidade; a relação faz a Trindade».
É claro que, para esta conclusão ser totalmente perceptível, há que ler tudo.

Dedico este texto ao meu caro Ludwig Krippahl, do Que Treta!.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Existirá a Matéria?

É o título de um artigo do bravo Gustavo Corção (1896-1978), publicado no Diário de Notícias (do Rio de Janeiro) a 31 de Janeiro de 1960.

Foi notável a defesa do tomismo-aristotelismo por parte de Corção. Foi das raras mentes contemporâneas a dar-se conta de que as ciências empiristas, ditas "modernas", em nada contradiziam (como poderiam?) a velhinha filosofia cristã, plasmada no seu auge de sofisticação e veracidade na escolástica medieval, ao tempo de São Tomás de Aquino.

Neste seu artigo, Corção expõe de forma clara um dos mais importantes debates filosóficos da modernidade, o da existência e natureza da Matéria. É um artigo que merece ser impresso para ser lido e meditado com calma e várias vezes.

Opondo Berkeley ao grupo dos materialistas (Descartes, Hobbes, Locke), Corção explica porque razão ambos os lados estão errados quando comparados com a visão correcta do tomismo-aristotelismo.

Como poderá ter acontecido tal tragédia intelectual? Como se terá perdido o acesso aos conceitos mais fundamentais de Filosofia? Porque razão deitámos fora os maiores feitos intelectuais do Ocidente? Porque razão afirmam os ignorantes de hoje que Aristóteles foi refutado? Que São Tomás está caduco? Saberão eles do que falam?

Penso que a explicação se deve, como em muitas outras situações, às misérias e defeitos, tanto da memória como da inteligência do ser humano.

Vejamos porquê...
No tempo de um Descartes, de um Hobbes, de um Locke ou de um Berkeley, a escolástica estava confinada, como nos recorda Corção, aos seminários, únicos locais onde era ensinada, e, desgraça das desgraças, mal ensinada.

As misérias e os defeitos da memória humana explicam porque razão os cérebros que leccionavam nos seminários e nas universidades da Renascença e da Modernidade, encarregados de preservar, transmitir e explicar às novas gerações o legado inestimável do tomismo-aristotelismo, fizeram um péssimo trabalho, dando mau nome à esplêndida doutrina.
O tempo erodiu a qualidade da doutrina ensinada às novas gerações.

Por sua vez, as misérias e os defeitos da inteligência humana explicam porque razão os filósofos da Renascença e da Modernidade, ao lerem os clássicos de São Tomás e de Aristóteles, não compreenderam o que leram, o que degenerou no surgimento de novas e erradas ideias filosóficas.

A novidade, em Filosofia, tem-se revelado ser uma desgraça. É um mau princípio, nortear uma área do conhecimento pela novidade, em vez de o fazer pela verdade.

Hoje em dia, a esmagadora maioria dos equívocos intelectuais que estão na base da presumida incompatibilidade entre Ciência Empírica e Teologia, deve-se a graves equívocos filosóficos e epistémicos, que surgem naturalmente do abandono (voluntário ou não) da herança tomista-aristotélica, local maior, no Ocidente, da verdade filosófica.

Só tal miséria intelectual no campo da Filosofia moderna e contemporânea poderá explicar que, hoje em dia, alguns tontos pretendam que as modernas ciências empíricas refutaram a velha, mas perene, Teologia.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Dúvidas de fé

Ainda está para nascer, se é que alguma vez nascerá, o crente sensato que nunca teve dúvidas de fé. Que nunca duvidou da existência de Deus.

Existem, e existirão sempre, pessoas que não pensam sobre estas questões metafísicas. Crentes que são crentes sem pensar. Ateus que são ateus sem pensar. Agnósticos que são agnósticos sem pensar.

Contudo, o próprio processo humano de pensar obriga à dúvida, à confrontação de ideias opostas, de respostas contraditórias para as questões essenciais da vida.

Toda a comunicação social está em êxtase com as revelações das dúvidas de fé de Madre Teresa de Calcutá. Grande choque! Tudo é hiperbolizado, como se fosse impossível que tal pessoa tivesse dúvidas de fé.

Mas quem não as tem? Só os tontos.

A atitude de fé é indissociável da confiança interpessoal. Se não confiamos em ninguém, não podemos ter fé. A fé amadurece, e aprofunda-se, partindo da semente que é a confiança, e usando da inteligência e da razão para a aprofundar.

Se repararmos, é exactamente, a mesma atitude (só o âmbito do conhecimento é diferente) que o cientista deve adoptar. Nenhum cientista tem tempo nesta vida para estudar tudo, para verificar individualmente os resultados de todos os seus colegas cientistas em todas as áreas do saber empírico moderno. Por isso, qualquer cientista tem que, dentro da razoabilidade, aceitar os resultados dos trabalhos de outros cientistas. Poderá, aqui e acolá, sobretudo se se tratar de um trabalho na sua área, querer reproduzir esse trabalho para averiguar acerca da sua justeza. Mas um especialista em biologia, por exemplo, não teria tempo suficiente na sua vida para estudar, em paralelo, tudo o que há de publicações científicas sobre meteorologia, geologia, matemática, física, química, história, geografia, entre outras.

A inteligência humana adquire conhecimento através de um processo sempre igual, e que, se seguido de forma diligente, dá normalmente bons resultados:

a) uma atitude de fé: numa pessoa, numa obra ou trabalho, numa organização

b) uma atitude de investigação e trabalho intelectual individual

As dúvidas de fé são tão legítimas, na mente do crente pensante, como as dúvidas do cientista. Não há progresso científico sem a ajuda preciosa da dúvida. E não haveria Igreja Católica como a conhecemos hoje, com a estabilidade doutrinal que esta apresenta, sem vinte séculos de dúvidas e debates intelectuais acerca de todos os mais ínfimos e infindáveis detalhes doutrinais.

sábado, 10 de março de 2007

Separação e distinção

A primeira reacção quando se lê uma obra de metafísica a sério, como o Les états multiples de l'être, do René Guénon, é de pura e total confusão mental. E é normal. Apesar da linguagem límpida e objectiva do autor, a verdade é que a mente ocidental moderna está totalmente destreinada no pensar metafísico. As estruturas mentais não estão preparadas: uma natural consequência, não só da uniformização do ensino e da sistematização das ciências, mas também do "nivelamento por baixo" do conhecimento em geral. Desde que nascemos que somos ensinados e formatados para pensarmos de forma sistemática e nada sintética. Nem é por mal: é porque aqueles que deveriam ter sido, ou deveriam ser, os nossos mestres também não têm esse treino mental e portanto não são capazes de nos ensinar a pensar desse modo. O mundo moderno prefere a análise à síntese, as caixinhas pequenas, seguras e controladas dos "sistemas" à arriscada intuição intelectual da Metafísica.

Hoje, já nem me recordo bem porquê, dei comigo a pensar nestes dois termos: separação e distinção. À partida pareciam-me sinónimos, mas comecei a tentar vê-los de um prisma metafísico primário, nada complexo, nada profundo, e a coisa ficou clara.

Porque é que uma coisa distinta de outra deve estar separada dela? Porque é que duas coisas distintas não podem coexistir? De repente, este simples dilema fez-me aplicar esta questão a diversas áreas.

Exoterismo e esoterismo
Muitos católicos não sabem, hoje em dia, que existe um lado esotérico ("esotérikos", grego para "interior") da doutrina cristã. Muitos experimentam-no sem sequer se aperceberem que se trata de algo esotérico. Os sacramentos católicos são exotéricos no ritual e esotéricos na influência sacramental (mistérica) que exercem sobre o seu receptor. Assustados (e com razão) pelo avançar galopante de um pseudo-esoterismo rasteiro, New Age, neopagão e superficial, é normal que a palavra "esoterismo" evoque a muitos católicos um Paulo Coelho ou um Dan Brown. Porventura, não sabem que um Padre da Igreja como Clemente de Alexandria usava o termo "esotérikos" em textos doutrinais perfeitamente ortodoxos.
Afinal, a dualidade esoterismo-exoterismo é uma dualidade normal e corresponde a um espelhar, se bem que assimétrico, do processo de conhecimento de uma doutrina. De um lado, temos a exterioridade da forma, na sua multiplicidade e inconstância. Do outro, temos a interioridade da essência, na sua unidade e constância. Uma doutrina sem esoterismo é uma casca sem miolo.
E o inverso?
Um esoterismo sem exoterismo?
Igual asneira. Num mundo em mudança incessante, é fundamental possuir alicerces sólidos que nem rocha. Por essa razão, o interessado em perseguir conhecimentos esotéricos não deve abdicar de uma prática exotérica rigorosa. É impossível penetrar na gnose cristã sem o exercício regular de uma prática religiosa ortodoxa. Não foi à toa que Jesus Cristo considerou São Pedro como a "pedra" sobre a qual seria edificada a Sua Igreja.
Um esoterismo sem exoterismo divaga facilmente, e cai rapidamente no erro, na heresia. Um exoterismo sem esoterismo é pobre, é superficial.

Teologia sacramental
Como é possível que, durante a Eucaristia, uma hóstia se torne no Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo? Afinal, desde pequenos que somos ensinados na "catequese cartesiana" a separar o espírito da matéria, e de repente, ficamos sem forma de compreender a presença divina na Eucaristia. Deveríamos ter sido, ao invés, ensinados a distinguir o espírito da matéria, sem termos que imaginar que tais ordens da realidade estejam, de facto, separadas ao ponto de existir um vazio entre ambas. Aliás, o vazio é algo que não existe. Toda e qualquer partícula da hóstia consagrada, que pressentimos nas papilas gustativas como hóstia, serve de receptáculo formal para uma essência divina que "desce" (na epiclese) do domínio informal ao domínio formal no momento da consagração. Isto sucede por simples vontade e decreto divinos, visto que Cristo ensinou aos seus discípulos como proceder "em sua memória" (anamnese, ou seja, evitar o esquecimento, "amnésis") para repetir este sacramento. E o efeito é sempre o mesmo e invariável, dependendo apenas do rito e não do celebrante ("ex opere operato", e não "ex opere operantis"). A forma "exterior" da hóstia suscita nas papilas gustativas uma reacção sensorial igual a qualquer outra hóstia, mesmo não consagrada. No entanto, a essência divina contida no "interior" dessa forma é comunicada, durante a comunhão, à alma do crente que comunga. Ou melhor, a alma individual do crente (essa sim contingente) comunga da fonte inesgotável que é a essência divina.
Esta noção de fonte tem uma enorme profundidade analógica e simbólica, pois da mesma fonte podem "beber" múltiplos seres sem que aquela deixe de ser a mesma inalterada fonte. A essência divina que "desce" a, ou que se manifesta em, toda e qualquer hóstia consagrada permanece una e imutável no domínio do Espírito, enquanto que a forma do seu "recipiente" é sempre múltipla e contingente. Há, então, uma distinção entre a matéria da hóstia consagrada e a essência divina que a preenche. Mas não há separação! O ente "hóstia" muda radicalmente de natureza após a consagração, porque ganha uma co-existência com o espírito divino que a transforma (literalmente, que a eleva para lá do formal).
Isto apenas é possível se duas realidades distintas não tiverem que estar verdadeiramente separadas, no sentido de possuirem existências separadas. Não obstante ser certo que há pouco rigor linguístico no uso da palavra "existência" para o Espírito, uma vez que este é o Ser sobre o qual todos os seres têm fixa a sua existência ("ex-stare", "ex-essere"), a conclusão não deixa de fazer sentido: a distinção não elimina a coexistência.

Vejamos mais aplicações...

Agnosticismo e Panteísmo
Para compreender o conceito de Criação é também importante ter bem claro o que se disse atrás acerca de distinção e de separação. Deus é seguramente distinto da criatura finita (o panteísta erra ao discordar disto). No entanto, a criatura finita tem a sua existência em Deus. Mais um exemplo de co-existência de todos os seres no Ser, sem que isso nos faça perder de vista a radical diferenciação entre o Uno Infinito (Deus) e os indefinidamente múltiplos finitos (criaturas). Temos de novo uma distinção sem separação. Não há "vazios" existenciais, uma vez que todos os seres estão contidos no Ser, sem no entanto serem confundidos com Ele.
Se o agnóstico erra ao conceber um abismo existencial entre a criatura e Deus, negando à primeira o acesso ao último, o panteísta erra ao conceber que a finita criatura consegue "acomodar" a infinitude divina. Impossibilidade metafísica!

Receio que poderia estar horas a encontrar mais exemplos que se apoiam nesta ideia: distinção sem separação. Co-existência de realidades ou entes distintos, mas não separados. Poderia pegar na angeologia e falar no Anjo da Guarda ("anjo", criatura imaterial de puro intelecto) que cada um tem atribuído a si por Deus, e a quem podemos rezar para obter intercessão divina. Mas por hoje, chega!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Ortodoxia

«Nothing more strangely indicates an enormous and silent evil of modern society than the extraordinary use which is made nowadays of the word "orthodox." In former days the heretic was proud of not being a heretic. It was the kingdoms of the world and the police and the judges who were heretics. He was orthodox. He had no pride in having rebelled against them; they had rebelled against him. The armies with their cruel security, the kings with their cold faces, the decorous processes of State, the reasonable processes of law--all these like sheep had gone astray. The man was proud of being orthodox, was proud of being right. If he stood alone in a howling wilderness he was more than a man; he was a church. He was the centre of the universe; it was round him that the stars swung. All the tortures torn out of forgotten hells could not make him admit that he was heretical. But a few modern phrases have made him boast of it. He says, with a conscious laugh, "I suppose I am very heretical," and looks round for applause. The word "heresy" not only means no longer being wrong; it practically means being clear-headed and courageous. The word "orthodoxy" not only no longer means being right; it practically means being wrong. All this can mean one thing, and one thing only. It means that people care less for whether they are philosophically right. For obviously a man ought to confess himself crazy before he confesses himself heretical. The Bohemian, with a red tie, ought to pique himself on his orthodoxy. The dynamiter, laying a bomb, ought to feel that, whatever else he is, at least he is orthodox.» - Gilbert K. Chesterton (1908), Heretics, cap. I.

O mundo seria melhor se todos tivessemos uma obra de Chesterton à cabeceira.
É, de facto, muito estranho que termos como "ortodoxia" e "heresia", nos dias que correm, tenham passado para o outro lado do juízo moral.
Continuamos hoje, e continuaremos sempre, a fazer juízos morais acerca destes termos, como acerca de outros, é certo.
No passado, ser "ortodoxo" era bom, era estar certo. Ser "herético" era mau: era estar errado. Nem o herético se via ao espelho como herético! Ele via-se como ortodoxo, considerando que todos os outros eram hereges!
Hoje em dia, sucede precisamente o oposto.
Como diz Chesterton, o herege afirma alto e em bom som a sua heresia, com orgulho, e olha à volta à espera de aplausos da audiência.
O que explica esta inversão total no significado das palavras?
O que explica esta inversão total na aprovação e reprovação popular destes termos?
Só mesmo uma inversão total da intelectualidade.

Fico sempre perplexo quando vejo tantos discordarem do facto de que o mundo moderno está intelectualmente moribundo.
Isso, para mim, é clarividente: estamos a usar as palavras ao contrário, não só estas mas muitas outras, e estamos a dar-lhes juízos morais opostos aos que deveríamos dar.
Sem a vitória do relativismo intelectual, não haveria espaço para este tremendo erro que consiste em negarmos a crise intelectual dos nossos tempos. É, precisamente, porque hoje em dia as opiniões se equivalem (as do ignorante pesam tanto como as do sábio), porque já não há absolutos, porque a verdade morreu aos olhos do Mundo, porque cada um tem "a sua Verdade", que já ninguém se dá conta de que a intelectualidade está às portas da morte.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Modernismo: «o fumo de Satanás»

Quando reflectimos acerca do que escrevi nos textos anteriores, ou seja, acerca do facto de existirem sacerdotes e teólogos soi-disant "católicos" que defendem uma doutrina muito pessoal, e pouco católica, torna-se inevitável abordar a questão do modernismo.
O modernismo é uma heresia nascida no século XIX, que adquire visibilidade com a obra de Alfred Loisy (1857-1940), espalhando-se depressa no universo católico, e que foi denunciada e combatida desde muito cedo por papas como São Pio X (1835-1914), que inclusive fez promulgar um Juramento Anti-Modernista que deveria ser feito por todo e qualquer sacerdote católico.
Na encíclica Pascendi Domini Grecis, Pio X classifica o modernismo como a "síntese de todas as heresias", por isso se vê que a matéria não é ligeira.

O modernismo é bastante complexo e não é simples sintetizá-lo, mas pode-se fazer uma aproximação segura vendo-o como sendo uma leitura materialista e anti-metafísica da Revelação Cristã. O modernista deixa de ver os textos revelados como verdadeiros em si mesmos, passando a vê-los como uma possível leitura histórica, que teria validade no tempo dos seus autores terrenos, mas cuja validade poderia ser revista hoje pelo homem moderno. S. Tomás de Aquino defendia a veracidade das Escrituras do mesmo modo que defendia a veracidade de qualquer coisa: adequatio rei et intellectus, ou seja, é verdadeiro tudo aquilo que consiste na adequação das coisas (do "real") ao intelecto humano. As Sagradas Escrituras, possuindo certamente diversos níveis interpretativos mais profundos, são seguramente verdadeiras no seu primeiro e mais básico nível, o literal, conquanto o exegeta esteja munido das ferramentas hermenêuticas adequadas, que lhe permitem afastar toda e qualquer aparência de contradição.

Com o modernismo, é feita uma leitura "histórica" (e portanto anti-metafísica, porque destrói a invariância de espaço e de tempo) da Revelação. Segundo os modernistas, a veracidade literal das Sagradas Escrituras deveria ser revista, porventura negada em muitos aspectos, e deveria ser acomodada com as então recentes teorias científicas (das quais uma das mais importantes foi a de Darwin acerca da Evolução das Espécies).

Pio X reage com a necessária firmeza, afirmando que tal leitura anti-metafísica das Sagradas Escrituras estava contra o que de mais fundamental havia na fé católica. Segundo esta, apesar de nenhum enunciado bíblico poder alguma vez ser contrário à Razão (porque esta procede de Deus, a fé nunca pode ser irracional), os enunciados bíblicos, pela sua natureza de textos revelados (com forma humana e essência divina), permitem certamente inúmeros e indefinidos níveis de significado metafísico e doutrinal, sem nunca deixar de parte o significado literal.

Para evitar confusões, há que distinguir esta doutrina católica da inerrância do problema da sola scriptura protestante. O erro de um certo literalismo da hermenêutica protestante está na recusa de boa parte da tradição oral católica e apostólica, que é o garante de uma hermenêutica correcta e ortodoxa. Por outras palavras, o literalismo de que aqui se fala, para ser católico, deve ser contextualizado numa tradição oral que, atrevo-me a dizê-lo, pode ser vista como mais importante do que a escrita. E isto porque a palavra escrita é sempre consequência da palavra pensada ou falada.

Continuando na questão do relativismo histórico imposto pelos modernistas, os postulados verdadeiramente universais que surgem plasmados nos textos revelados, pela sua universalidade (catolicidade), não podem ter o seu critério de veracidade baseado no momento ou no local históricos. Tudo o que é universal, é-o ontem, como hoje e como amanhã. E é-o em qualquer lugar.

O modernismo rejeita tudo isto, sendo na verdade a materialização de um "suicídio de fé", pelo facto de fazer uma materialista e inaudita anti-hermenêutica dos textos revelados. Por esta razão, Pio X a classificou justamente como sendo a heresia que sintetiza todas as heresias.

Não obstante, o modernismo prosperou durante todo o século XX. Manifestou-se durante o Concílio Vaticano II, durante o qual, por exemplo, o cardeal de Viena, Franz König (1905-2004), considerado por muitos (com boas razões) como sendo modernista, fez um famoso discurso tentando contrariar a inerrância da Bíblia.

Não anda longe deste tema central para o catolicismo do século XX a contestação que muitos passaram a fazer, após o Vaticano II, aos dogmas de fé da Igreja Católica. Surgiu a ideia errada de que os dogmas tinham a sua justificação numa dada época histórica, e que agora poderiam ser contestados, e mesmo rejeitados se isso fosse conveniente. Como se a revelação crística e os textos sagrados possuissem prazo de validade!
Para mais, como já o disse noutra ocasião, este erro nasce da ignorância acerca da natureza distinta dos dogmata (os conceitos "interiores" da doutrina, invariantes por natureza) e dos kérigmata (as proclamações formais, e portanto "exteriores" dos mesmos). É aceitável discutir o revestimento formal de uma doutrina, a formulação textual da mesma. Aliás, esta discussão é, e foi, feita de forma corrente em qualquer Concílio. Mas para se alterar os conceitos interiores da doutrina católica, é necessário transformá-la noutra coisa que não católica, ou seja, distorcê-la ou destruí-la na sua essência.

Nos dias que correm, a praga do modernismo tornou-se na heresia católica mais importante de todas. É certo que poderíamos também evocar a heresia do gnosticismo como sendo hoje cultural e intelectualmente relevante (basta pensar no fenómeno "Código da Vinci" e similares). Mas, na minha opinião, o espaço fértil para o surgimento do neo-gnosticismo foi preparado, conscientemente ou não, pelos hereges modernistas dos finais do século XIX e do século XX, muitos deles figuras importantes no Concílio e hoje considerados e venerados por muitos como "teólogos excepcionais".

Agastados pela presença do modernismo no Vaticano II, determinados grupos decidiram demarcar-se deste Concílio, alegando que a heresia modernista se tinha apoderado dos trabalhos ao ponto de invalidar o Concílio como um todo. É uma questão complexa demais para a minha presente ignorância, pelo que me limito a afirmar a minha posição actual, sem conseguir demonstrá-la teoricamente: acredito, até demonstração em contrário, que o Vaticano II foi um concílio válido. Não considero esta posição como absoluta, o que seria insensato, uma vez que a História da Igreja presenciou alguns concílios que foram declarados inválidos. Julgo que as más consequências modernistas que foram retiradas do Concílio Vaticano II foram o resultado da heresia modernista que estava embutida nas crenças de alguns dos protagonistas conciliares (obrigados por Juramento a rejeitar o Modernismo), e nas crenças de muitos sacerdotes espalhados por todo o Mundo. Por isso, a minha posição actual é a de que o modernismo não estará, eventualmente, plasmado nos textos e deliberações do Concílio, mas sim nas interpretações erradas e abusivas, e nas aplicações concretas, que certos modernistas delas fizeram.

Nestes tempos em que vivemos, nos quais uma comunicação social catolicamente analfabeta (ou ideologicamente comprometida) procura sempre deixar falar, dar espaço de antena, e entrevistar os padres e teólogos dissidentes, nunca é demais relembrar que o modernismo é uma heresia, que é um atentado contra o que de mais essencial existe no catolicismo, e que é um fenómeno que está longe de ser explicado apenas de forma empírica, histórica ou sociológica...

É importante, hoje mais do que nunca, recordar as notáveis palavras do Papa Paulo VI, numa célebre homilia de 29 de Junho de 1972,

«Crediamo - osserva il Santo Padre - in qualcosa di preternaturale venuto nel mondo proprio per turbare, per soffocare i frutti del Concilio Ecumenico, e per impedire che la Chiesa prorompesse nell’inno della gioia di aver riavuto in pienezza la coscienza di sé. Appunto per questo vorremmo essere capaci, più che mai in questo momento, di esercitare la funzione assegnata da Dio a Pietro, di confermare nella Fede i fratelli. Noi vorremmo comunicarvi questo carisma della certezza che il Signore dà a colui che lo rappresenta anche indegnamente su questa terra» (negrito meu)

«da qualche fessura sia entrato il fumo di Satana nel tempio di Dio»

Paulo VI afirmava então, perante as nefastas consequências que muitos retiraram ilicitamente do Segundo Concílio Vaticano, que "(...) [através] de qualquer fissura teria entrado o fumo de Satanás no templo de Deus".

Espero que com este texto se entenda melhor porque razão decidi "provocar" os católicos portugueses ao abordar a questão da existência do Diabo, que no fundo, é a mesma questão da existência de criaturas (como tal, infra-divinas) num estado ôntico acima do humano (criaturas feitas "de puro intelecto", se quisermos). Negar o anjo caído é negar a demonologia. É negar que o Mal é uma "criatura intelectual", que é uma "ideia criada", que era boa antes da Queda, e que se degenerou devido à sua própria vontade de criatura livre em desobedecer ao seu Criador. Negar a demonologia é negar a angeologia, porque no fundo, os demónios são as hostes de Satanás, os anjos caídos que, por sua vontade, negaram obedecer a Deus, seguindo o Diabo na sua Queda.

(O conceito de "vontade" e o conceito de "liberdade" têm um imenso alcance metafísico e são centrais para se compreender a angeologia, mas isso terá que ficar para outra altura. Para já, gostaria apenas de deixar aqui a ideia de que Satanás, criação divina, com a sua existência, torna manifesta a ideia de "liberdade total para errar, para rejeitar Deus". É, por isso, a "causa" ôntica de todo o Mal. Isto não remove a responsabilidade ao católico, visto que este tem a sua consciência, e a sua contra-parte, a vontade, para optar, livremente, entre seguir o "pai da Mentira" ou seguir o Pai celestial.)

Negando a angeologia, temos o caminho aberto para negar o sobrenatural, e consequentemente, o significado e a suprema realidade da divindade. É da negação do sobrenatural, e mais ainda, da negação do Infinito divino como fonte e sustento ôntico do real, que nascem as confusões modernistas.

A recusa de muitos católicos modernos em reconhecer a realidade ôntica do Demónio como "ideia criada", como "criatura", tem origem na mesma confusão que os faz negar a inerrância da Bíblia, a virgindade real (física, biológica) da Virgem Maria, a realidade histórica literal da Ressurreição de Cristo, a realidade física da presença divina na Eucaristia, e enfim, tudo o que o catolicismo tem de supra-empírico. Por outras palavras, o modernista nega tudo o que o catolicismo tem de católico. Isso faz com que surja o inacreditável e o impossível, como vermos sacerdotes e teólogos "católicos" defenderem a posição do "sim" no recente referendo acerca da liberalização do aborto, ou manifestarem ideias confusas acerca da origem do ser humano.
O modernismo é um naufrágio pístico e doutrinal, que resulta de erros intelectuais facilmente solúveis, assim houvesse vontade dos seus protagonistas em proceder à sua correcção por via do estudo da Metafísica.