«Feliz o homem que dá; feliz o homem que não utiliza a vida em proveito próprio, mas que a dá; feliz o homem misericordioso, bom e justo; feliz o homem que vive no amor de Deus e do próximo. É assim que se vive bem e, vivendo assim, não precisamos de ter medo da morte, porque estamos na felicidade que vem de Deus e nunca acaba»
- Catequese da Audiência Geral de 2 de Novembro de 2005, em "Bento XVI, Pensamentos espirituais", n.º 65, Lucerna, 2006, recebido via lista de distribuição É o Carteiro
Esta é uma excelente definição de felicidade, e ligada de forma muito simples e clara à verdade da vida eterna.
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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quinta-feira, 29 de abril de 2010
domingo, 11 de abril de 2010
Vida aberta à vocação
O modo de vida actual, as prioridades que tantas vezes nos são impostas para que possamos alcançar uma vida que se enquadre naquilo que é considerado uma vida de sucesso, leva-nos a crer que tudo depende apenas de nós, das nossas capacidades técnicas. Esta ideia que tantos homens carregam, limita a interpretação do mundo, levando parte da humanidade a acreditar que todo o desenvolvimento depende apenas da técnica. É esta forma de pensar que está na base da corrente filosófica, muito em voga desde o Sec. XIX, denominada por cientismo, filosofia materialista que pretende que apenas o conhecimento científico seja racional ou verdadeiro. Esta corrente de pensamento que nega a dimensão transcendente do desenvolvimento, considerando-o à sua inteira disposição, revela-nos uma visão de um mundo vazio, desconexo e absurdo, reduzindo o homem à categoria de meio para o desenvolvimento.
Em sentido inverso a esta forma limitada e limitadora de interpretar o mundo o Papa Bento XVI analisa na sua última carta encíclica Caritas In Veritate a mensagem que Paulo VI nos deixou sobre o verdadeiro desenvolvimento, na carta encíclica Populorum progressio: “Na Populorum progressio, Paulo VI quis dizer-nos, antes de mais nada, que o progresso é, na sua origem e na sua essência, uma vocação: «Nos desígnios de Deus, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação»” (…) “Dizer que o desenvolvimento é vocação equivale a reconhecer, por um lado, que o mesmo nasce de um apelo transcendente e, por outro, que é incapaz por si mesmo de atribuir-se o próprio significado último. Não é sem motivo que a palavra «vocação» volta a aparecer noutra passagem da encíclica, onde se afirma: «Não há, portanto, verdadeiro humanismo senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a ideia exacta do que é a vida humana». Esta visão do desenvolvimento é o coração da Populorum progressio e motiva todas as reflexões de Paulo VI sobre a liberdade, a verdade e a caridade no desenvolvimento. É também a razão principal por que tal encíclica continua actual nos nossos dias.”
A verdade é que todas as formas de interpretar o mundo que estejam fechadas à vocação se revelam incompletas e, sobretudo, falsas. Voltando a pegar no exemplo do cientismo, e como afirmou Bernardo Motta na conferência A ciência conduz ao ateísmo: “o grande problema do cientismo está em que ele mesmo não se auto-demonstra, pois sendo uma tese filosófica, não pode ser demonstrado pelo método científico.” Contudo, apesar de falsas, estas correntes de pensamento lançam sobre a humanidade uma ideia errada acerca da interpretação da vida, tornando o homem escravo das coisas materiais e facilmente mensuráveis, fazendo-o acreditar que tudo para além disso é falso ou irrelevante para a conquista da tal vida de sucesso.
Isto torna o homem cada vez mais individualista e solitário, uma vez que se enraíza nele a percepção de que tudo está nas suas mãos, que a melhoria das suas capacidades técnicas é a finalidade última da vida, uma vez que tudo depende delas. É progressivamente mais especializado nas suas funções técnicas, mas menos conhecedor do mundo e da vida porque vive parcialmente alheado de tudo aquilo que transcende a sua especialidade. Está de tal forma centrado em si, nos seus sucessos e fracassos, que já não perscruta o sentido esotérico da vida e das coisas, limitando-se a encontrar o que é meramente observável. E aqui chegamos ao grande paradoxo da vida actual. Se por um lado o único conhecimento que é considerado válido é aquele que é observável e comprovado cientificamente, por outro lado somos levados a observar cada vez menos. Vivemos na era do conhecimento abstracto, na ideia que temos das coisas porque estamos cada vez mais limitados na observação que fazemos do mundo. A nossa capacidade de nos espantarmos com o mundo e de nos enamorarmos pelo próximo é mais e mais limitada, na medida em que a nossa vida estiver fechada à vocação e estiver apenas centrada naquilo que é técnico.
Na Parábola do Bom Samaritano Jesus fala-nos de quatro personagens; o homem que caiu nas mãos dos ladrões que o roubaram e o abandonaram meio morto à beira da estrada, de um levita e de um sacerdote, conhecedores da Lei, peritos quanto às grandes questões da Salvação, mas que não se compadeceram do homem que jazia à beira da estrada e seguiram o seu caminho, e, finalmente, de um samaritano. Este último, encheu-se de compaixão pelo sofrimento daquele homem, tratou dele e levou-o a uma estalagem. Aos olhos da moral e dos costumes dos judeus da altura, daqueles três homens, o samaritano seria o que teria menos obrigações perante aquela pessoa, uma vez que os samaritanos eram um povo proscrito pelos judeus e que não era considerado “próximo” deles, por ser visto como impuro. A verdade é que o samaritano não foi capaz de ficar indiferente ao sofrimento do outro, fê-lo seu próximo porque observou toda aquela cena com uma alma virgem, com um coração cheio de Deus.
Enquanto os outros dois personagens de que Jesus fala se limitaram a percorrer um caminho de terra e, provavelmente, rapidamente se esqueceram da cena que tinham presenciado pouco tempo antes, o samaritano transformou aquele caminho de terra e pedras num caminho interior, num caminho de carne que o uniu ao homem que jazia na beira da estrada no amor infinito de Deus. Este caminho de carne que o samaritano e o homem moribundo percorreram é algo que só uma vida aberta à vocação e ao amor de Deus pode alcançar, porque transcende tudo aquilo que a técnica consegue explicar.
O Papa Bento XVI dizia-nos na Homilia que proferiu na missa de Natal de 2009: “A respeito dos pastores, diz-se em primeiro lugar que eram pessoas vigilantes e que a mensagem pôde chegar até eles precisamente porque estavam acordados. Nós temos de despertar, para que a mensagem chegue até nós. Devemos tornar-nos pessoas verdadeiramente vigilantes. Que significa isto? A diferença entre um que sonha e outro que está acordado consiste, antes de mais nada, no facto de aquele que sonha se encontrar num mundo particular. Ele está, com o seu eu, fechado neste mundo do sonho que é apenas dele e não o relaciona com os outros. Acordar significa sair desse mundo particular do eu e entrar na realidade comum, na única verdade que a todos une” (…) “Acordai: diz-nos o Evangelho. Vinde para fora, a fim de entrar na grande verdade comum, na comunhão do único Deus. Acordar significa, portanto, desenvolver a sensibilidade para com Deus, para com os sinais silenciosos pelos quais Ele quer guiar-nos, para com os múltiplos indícios da sua presença.”
Duarte Macieira Fragoso
Em sentido inverso a esta forma limitada e limitadora de interpretar o mundo o Papa Bento XVI analisa na sua última carta encíclica Caritas In Veritate a mensagem que Paulo VI nos deixou sobre o verdadeiro desenvolvimento, na carta encíclica Populorum progressio: “Na Populorum progressio, Paulo VI quis dizer-nos, antes de mais nada, que o progresso é, na sua origem e na sua essência, uma vocação: «Nos desígnios de Deus, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação»” (…) “Dizer que o desenvolvimento é vocação equivale a reconhecer, por um lado, que o mesmo nasce de um apelo transcendente e, por outro, que é incapaz por si mesmo de atribuir-se o próprio significado último. Não é sem motivo que a palavra «vocação» volta a aparecer noutra passagem da encíclica, onde se afirma: «Não há, portanto, verdadeiro humanismo senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a ideia exacta do que é a vida humana». Esta visão do desenvolvimento é o coração da Populorum progressio e motiva todas as reflexões de Paulo VI sobre a liberdade, a verdade e a caridade no desenvolvimento. É também a razão principal por que tal encíclica continua actual nos nossos dias.”
A verdade é que todas as formas de interpretar o mundo que estejam fechadas à vocação se revelam incompletas e, sobretudo, falsas. Voltando a pegar no exemplo do cientismo, e como afirmou Bernardo Motta na conferência A ciência conduz ao ateísmo: “o grande problema do cientismo está em que ele mesmo não se auto-demonstra, pois sendo uma tese filosófica, não pode ser demonstrado pelo método científico.” Contudo, apesar de falsas, estas correntes de pensamento lançam sobre a humanidade uma ideia errada acerca da interpretação da vida, tornando o homem escravo das coisas materiais e facilmente mensuráveis, fazendo-o acreditar que tudo para além disso é falso ou irrelevante para a conquista da tal vida de sucesso.
Isto torna o homem cada vez mais individualista e solitário, uma vez que se enraíza nele a percepção de que tudo está nas suas mãos, que a melhoria das suas capacidades técnicas é a finalidade última da vida, uma vez que tudo depende delas. É progressivamente mais especializado nas suas funções técnicas, mas menos conhecedor do mundo e da vida porque vive parcialmente alheado de tudo aquilo que transcende a sua especialidade. Está de tal forma centrado em si, nos seus sucessos e fracassos, que já não perscruta o sentido esotérico da vida e das coisas, limitando-se a encontrar o que é meramente observável. E aqui chegamos ao grande paradoxo da vida actual. Se por um lado o único conhecimento que é considerado válido é aquele que é observável e comprovado cientificamente, por outro lado somos levados a observar cada vez menos. Vivemos na era do conhecimento abstracto, na ideia que temos das coisas porque estamos cada vez mais limitados na observação que fazemos do mundo. A nossa capacidade de nos espantarmos com o mundo e de nos enamorarmos pelo próximo é mais e mais limitada, na medida em que a nossa vida estiver fechada à vocação e estiver apenas centrada naquilo que é técnico.
Na Parábola do Bom Samaritano Jesus fala-nos de quatro personagens; o homem que caiu nas mãos dos ladrões que o roubaram e o abandonaram meio morto à beira da estrada, de um levita e de um sacerdote, conhecedores da Lei, peritos quanto às grandes questões da Salvação, mas que não se compadeceram do homem que jazia à beira da estrada e seguiram o seu caminho, e, finalmente, de um samaritano. Este último, encheu-se de compaixão pelo sofrimento daquele homem, tratou dele e levou-o a uma estalagem. Aos olhos da moral e dos costumes dos judeus da altura, daqueles três homens, o samaritano seria o que teria menos obrigações perante aquela pessoa, uma vez que os samaritanos eram um povo proscrito pelos judeus e que não era considerado “próximo” deles, por ser visto como impuro. A verdade é que o samaritano não foi capaz de ficar indiferente ao sofrimento do outro, fê-lo seu próximo porque observou toda aquela cena com uma alma virgem, com um coração cheio de Deus.
Enquanto os outros dois personagens de que Jesus fala se limitaram a percorrer um caminho de terra e, provavelmente, rapidamente se esqueceram da cena que tinham presenciado pouco tempo antes, o samaritano transformou aquele caminho de terra e pedras num caminho interior, num caminho de carne que o uniu ao homem que jazia na beira da estrada no amor infinito de Deus. Este caminho de carne que o samaritano e o homem moribundo percorreram é algo que só uma vida aberta à vocação e ao amor de Deus pode alcançar, porque transcende tudo aquilo que a técnica consegue explicar.
O Papa Bento XVI dizia-nos na Homilia que proferiu na missa de Natal de 2009: “A respeito dos pastores, diz-se em primeiro lugar que eram pessoas vigilantes e que a mensagem pôde chegar até eles precisamente porque estavam acordados. Nós temos de despertar, para que a mensagem chegue até nós. Devemos tornar-nos pessoas verdadeiramente vigilantes. Que significa isto? A diferença entre um que sonha e outro que está acordado consiste, antes de mais nada, no facto de aquele que sonha se encontrar num mundo particular. Ele está, com o seu eu, fechado neste mundo do sonho que é apenas dele e não o relaciona com os outros. Acordar significa sair desse mundo particular do eu e entrar na realidade comum, na única verdade que a todos une” (…) “Acordai: diz-nos o Evangelho. Vinde para fora, a fim de entrar na grande verdade comum, na comunhão do único Deus. Acordar significa, portanto, desenvolver a sensibilidade para com Deus, para com os sinais silenciosos pelos quais Ele quer guiar-nos, para com os múltiplos indícios da sua presença.”
Duarte Macieira Fragoso
terça-feira, 9 de março de 2010
Somos nómadas e peregrinos...
“…Somos nómadas e peregrinos. É assim que devemos entender a Terra, a nossa vida, a forma de nos relacionarmos uns com os outros. Somos apenas hóspedes na Terra; mas isto também nos faz recordar a nossa peregrinação mais profunda e misteriosa, faz-nos lembrar que a Terra não é a nossa meta definitiva, que estamos a caminho de um mundo novo e que também as coisas da Terra não são as derradeiras e definitivas. Mal ousamos dizê-lo, porque somos censurados por aqueles que alegam que os cristãos não se preocupam com as coisas terrenas e descuram a edificação da cidade nova neste mundo, porque julgam ter sempre o pretexto de se refugiarem no outro. Mas isto não é verdade. Aquele que se lança de cabeça no mundo e para quem a Terra é o único céu transforma a Terra num inferno, porque faz dela o que ela não pode ser, porque quer ter nela o que é definitivo…”
Neste pequeno excerto da extraordinária reflexão Pascal “Mistério Pascal”, o então Cardeal Joseph Ratzinger, agora o nosso Papa Bento XVI, exorta-nos a viver como nómadas, como peregrinos que buscam uma chegada, mas cientes que o seu caminho não está traçado, cientes que o caminho se faz andando. Não se trata de profetizar uma forma de vida inconsequente, leviana ou irresponsável; pelo contrário, trata-se de anunciar a vida como ela é e assim descobrir como viver na plena consciência da nossa condição. E é a consciência desta condição de nómadas que somos na Terra que nos liberta e nos leva aos outros, com a simplicidade de quem busca e de quem leva tudo o que possui no coração.
Deus fez-Se homem em Jesus Cristo, desceu à nossa condição e entrou no tempo e no espaço. Foi verdadeiramente homem, igual a nós, no sofrimento, na exposição à tentação, na dor, no medo, foi igual a nós em tudo excepto no pecado. Foi através do amor infinito que se esgota e renasce no próximo que Deus feito homem salvou a humanidade, que a libertou do pecado anunciando o mandamento novo, “Que vos ameis uns aos outros, como Deus vos Ama”. Acabaram-se as trevas, o medo, o sofrimento eterno.
Jesus Ressuscitado mostrou-nos que o Amor vence a morte e nos transporta para a dimensão da vida eterna. Mas só quem vive como nómada nesta Terra pode descobrir esse amor extraordinário que Jesus anuncia no mandamento novo. Quem, por seu turno, procura na “Terra o seu único céu transforma a Terra num inferno”.
Nesta altura em que nos preparamos para a festa da Páscoa, lembremos a partida de Jesus para o deserto, onde jejuou durante quarenta dias e foi tentado três vezes por Satanás. De todas as vezes que o Diabo tentou Jesus, começou sempre da mesma forma, “Se Tu és filho de Deus…”. Tal como nos lembra o Papa Bento XVI no seu livro Jesus de Nazaré, os soldados romanos, quando jogavam sortes sobre as vestes de Jesus, repetiam esta mesma frase, “Se és filho de Deus, desce da cruz”. Esta frase tão típica da humanidade tem, como podemos constatar ao ler os Evangelhos, origem no Diabo, fonte de todo o mal e de todo o pecado. E é uma frase do Diabo porque, de facto, a sua essência nega Deus, ou seja, limita a nossa capacidade de amar porque procura condicionar o Amor e a verdade de Deus à nossa lógica.
Na Carta Encíclica Spe Salvi o Santo Padre abordou as principais correntes ateístas que marcaram profundamente a história dos últimos séculos da sociedade ocidental (a Revolução Francesa, o Marxismo, entre outras) e constatou que todas elas, sucessivamente, se revelaram falsas, sobretudo porque procuraram obter da Terra algo que ela não lhes podia dar, ou seja, “o seu único céu”, aquele que é definitivo. Este abandono de Deus, que tem levado a humanidade a tanto sofrimento, consubstancia-se na incapacidade de amar o outro pelo outro. Porque quando amamos o outro apenas por aquilo que ele é, descobrimos nele algo de extraordinário, algo de divino, descobrimos nele o milagre da criação de Deus. Mas se retiramos Deus das nossas vidas deixamos de ter a capacidade de amar o outro pelo outro e passamos a amá-lo em função de nós próprios, das nossas necessidades, desejos, projectos e aspirações... Deixa de ser um amor gratuito e passa a ser um amor que cobra. Deixamos de cumprir o Mandamento Novo e tornamo-nos seres que, em lugar de viver para servir, vivem para ser servidos. E assim conhecemos o frio da noite e o horror do penhasco porque estamos irremediavelmente sós.
É este ateísmo que se enraíza na tentação, porque como lembra o Papa Bento XVI, mais uma vez no seu livro Jesus de Nazaré, “Faz parte da natureza da tentação a sua aparência moral: não nos convida directamente a realizar o mal, seria demasiado grosseiro. Finge que indica o melhor: abandonar finalmente as ilusões e empregar eficazmente as nossas forças para melhorar o mundo. Além disso, apresenta-se com a pretensão do verdadeiro realismo. O real é o que se constata: poder e pão. Comparadas com isto, as coisas de Deus aparecem irreais, um mundo secundário de que verdadeiramente não há necessidade”, que guiou a humanidade à encruzilhada onde se encontra:
- Colonizações e descolonizações absolutamente desregradas que foram e são fonte de tanta angústia, sofrimento e morte;
- Guerras e acções terroristas que devastam a humanidade;
- Metade do mundo a viver abaixo do limiar da pobreza, numa situação de total falta de dignidade, sem acesso aos bens mais básicos como a água potável e a alimentação;
- Em contra-ciclo, a outra metade do mundo vive na sociedade da abundância, na era dos direitos que ignoram os deveres: reclama para si todos os direitos, mesmo os supérfluos, e ignora de uma forma fria e insensível o sofrimento dos seus irmãos que nada têm;
- A economia mundial que se desliga progressivamente da política e passa a olhar o lucro como o fim último de toda a sua actividade, esquecendo que a razão da sua existência é o desenvolvimento da humanidade;
- A imoralidade que se confunde com a moralidade, o ataque à família, o aborto, a droga...
Tudo isto nos revela dois mundos distintos; um mundo de pessoas que vivem sem as condições mínimas, mesmo sem que aquelas que a dignidade humana pressupõe; e um outro mundo que vive centrado no conforto, mas que dá mostras de sofrer de uma doença maligna: basta olhar para o aumento das taxas de suicídio, para o disparo do consumo dos anti-depressivos, para a solidão que ataca sem remorso.
Tudo isto se consubstancia na ausência de Deus.
Tudo se consubstancia na procura do único céu, do céu definitivo, aqui na Terra.
Contudo, como peregrinos que somos, fazemos a nossa caminhada para a Páscoa. Tal como Jesus, passamos agora pelo deserto; mas, também como Jesus, depende de nós resistir à tentação. Jesus veio anunciar-nos a boa nova do perdão e da esperança. Basta que coloquemos Deus no centro das nossas vidas para podermos edificar na Terra a Civilização do Amor. Como dizia S. Paulo “Agora vemos por um espelho, e de maneira obscura, o que depois veremos face a face. Agora conheço apenas uma parte, mas não conhecerei conforme também sou conhecido. Agora permanecem fé, esperança, amor, todos juntos. Mas o maior de todos é o amor.”
Tal como Cristo Crucificado, façamos também nós com que o mundo fique suspenso pelo nosso amor e assim descobriremos a beleza da nova civilização, a civilização do amor, que a Ressurreição de Jesus anunciou.
Uma Santa Páscoa,
Duarte Macieira Fragoso
segunda-feira, 1 de março de 2010
Oprah e as Irmãs Dominicanas
Simplesmente espantoso...
Oprah Winfrey entrevista as Irmãs Dominicanas de Maria.
A idade média, nesta comunidade de freiras dominicanas nas imediações de Detroit, é de 26 anos. Temos muito que aprender com os católicos norte-americanos!
Oprah Winfrey entrevista as Irmãs Dominicanas de Maria.
A idade média, nesta comunidade de freiras dominicanas nas imediações de Detroit, é de 26 anos. Temos muito que aprender com os católicos norte-americanos!
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Ditos e feitos dos padres do deserto
"Havia no deserto um anacoreta que pastava com os búfalos. Um dia dirigiu-se a Deus e perguntou-lhe: «Senhor, ensina-me aquilo que me falta». Então uma voz respondeu-lhe: «Entra num certo cenóbio e faz aquilo que te disserem». Ele dirigiu-se então a esse cenóbio e aí permaneceu. Não conhecia nada dos trabalhos dos monges, até que os pobres monges começaram a ensinar-lhe os diversos trabalhos, dizendo-lhe: «Faz isto, idiota! Faz aquilo, velho tonto». Aflito, o anacoreta disse a Deus: «Senhor, o trabalho dos homens não entendo, mandai-me novamente para junto dos búfalos». Deus consentiu e ele regressou ao campo para pastar no meio dos búfalos. Mas nesse lugar os homens tinham colocado umas redes. Alguns búfalos caíram nelas e, em certa altura, caiu também o ancião. E ele teve então o seguinte pensamento: «Tu que tens mãos, solta-te das redes». Mas depois respondeu-lhe outro pensamento: «Se és um homem, decide-te e vai viver com os homens. Mas se és búfalo, então deixa de ter mãos». E ficou envolto nas redes até ao outro dia. Quando os homens vieram apanhar os búfalos, ao verem o velho ficaram tolhidos pelo terror. Ele não disse palavra. Soltaram-no e deixaram-no partir. E ele fugiu, correndo, atrás dos búfalos."
Apotegma N. 516, de Apotegmas do manuscrito Coislin, 126, publicado em parte por F. Nau em «Revue de l'Orient chrétien» (ROC), 1907-1913. Retirado da obra Ditos e feitos dos padres do deserto, p.237, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
Dúvidas de fé
Ainda está para nascer, se é que alguma vez nascerá, o crente sensato que nunca teve dúvidas de fé. Que nunca duvidou da existência de Deus.
Existem, e existirão sempre, pessoas que não pensam sobre estas questões metafísicas. Crentes que são crentes sem pensar. Ateus que são ateus sem pensar. Agnósticos que são agnósticos sem pensar.
Contudo, o próprio processo humano de pensar obriga à dúvida, à confrontação de ideias opostas, de respostas contraditórias para as questões essenciais da vida.
Toda a comunicação social está em êxtase com as revelações das dúvidas de fé de Madre Teresa de Calcutá. Grande choque! Tudo é hiperbolizado, como se fosse impossível que tal pessoa tivesse dúvidas de fé.
Mas quem não as tem? Só os tontos.
A atitude de fé é indissociável da confiança interpessoal. Se não confiamos em ninguém, não podemos ter fé. A fé amadurece, e aprofunda-se, partindo da semente que é a confiança, e usando da inteligência e da razão para a aprofundar.
Se repararmos, é exactamente, a mesma atitude (só o âmbito do conhecimento é diferente) que o cientista deve adoptar. Nenhum cientista tem tempo nesta vida para estudar tudo, para verificar individualmente os resultados de todos os seus colegas cientistas em todas as áreas do saber empírico moderno. Por isso, qualquer cientista tem que, dentro da razoabilidade, aceitar os resultados dos trabalhos de outros cientistas. Poderá, aqui e acolá, sobretudo se se tratar de um trabalho na sua área, querer reproduzir esse trabalho para averiguar acerca da sua justeza. Mas um especialista em biologia, por exemplo, não teria tempo suficiente na sua vida para estudar, em paralelo, tudo o que há de publicações científicas sobre meteorologia, geologia, matemática, física, química, história, geografia, entre outras.
A inteligência humana adquire conhecimento através de um processo sempre igual, e que, se seguido de forma diligente, dá normalmente bons resultados:
a) uma atitude de fé: numa pessoa, numa obra ou trabalho, numa organização
b) uma atitude de investigação e trabalho intelectual individual
As dúvidas de fé são tão legítimas, na mente do crente pensante, como as dúvidas do cientista. Não há progresso científico sem a ajuda preciosa da dúvida. E não haveria Igreja Católica como a conhecemos hoje, com a estabilidade doutrinal que esta apresenta, sem vinte séculos de dúvidas e debates intelectuais acerca de todos os mais ínfimos e infindáveis detalhes doutrinais.
Existem, e existirão sempre, pessoas que não pensam sobre estas questões metafísicas. Crentes que são crentes sem pensar. Ateus que são ateus sem pensar. Agnósticos que são agnósticos sem pensar.
Contudo, o próprio processo humano de pensar obriga à dúvida, à confrontação de ideias opostas, de respostas contraditórias para as questões essenciais da vida.
Toda a comunicação social está em êxtase com as revelações das dúvidas de fé de Madre Teresa de Calcutá. Grande choque! Tudo é hiperbolizado, como se fosse impossível que tal pessoa tivesse dúvidas de fé.
Mas quem não as tem? Só os tontos.
A atitude de fé é indissociável da confiança interpessoal. Se não confiamos em ninguém, não podemos ter fé. A fé amadurece, e aprofunda-se, partindo da semente que é a confiança, e usando da inteligência e da razão para a aprofundar.
Se repararmos, é exactamente, a mesma atitude (só o âmbito do conhecimento é diferente) que o cientista deve adoptar. Nenhum cientista tem tempo nesta vida para estudar tudo, para verificar individualmente os resultados de todos os seus colegas cientistas em todas as áreas do saber empírico moderno. Por isso, qualquer cientista tem que, dentro da razoabilidade, aceitar os resultados dos trabalhos de outros cientistas. Poderá, aqui e acolá, sobretudo se se tratar de um trabalho na sua área, querer reproduzir esse trabalho para averiguar acerca da sua justeza. Mas um especialista em biologia, por exemplo, não teria tempo suficiente na sua vida para estudar, em paralelo, tudo o que há de publicações científicas sobre meteorologia, geologia, matemática, física, química, história, geografia, entre outras.
A inteligência humana adquire conhecimento através de um processo sempre igual, e que, se seguido de forma diligente, dá normalmente bons resultados:
a) uma atitude de fé: numa pessoa, numa obra ou trabalho, numa organização
b) uma atitude de investigação e trabalho intelectual individual
As dúvidas de fé são tão legítimas, na mente do crente pensante, como as dúvidas do cientista. Não há progresso científico sem a ajuda preciosa da dúvida. E não haveria Igreja Católica como a conhecemos hoje, com a estabilidade doutrinal que esta apresenta, sem vinte séculos de dúvidas e debates intelectuais acerca de todos os mais ínfimos e infindáveis detalhes doutrinais.
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Ditos e feitos dos padres do deserto
"Um padre disse dum certo abade Paulo, originário do Baixo Egipto, mas que vivia na Tebaida: «Agarrava com as mãos víboras de chifre, áspides, serpentes e escorpiões e partia tudo em pedaços. Alguns irmãos, ao verem tal coisa, fizeram uma reverência e perguntaram-lhe: «Que obras haveis feito para obter semelhante graça?». E o abade respondeu: «Perdoem-me, irmãos, se acaso possuo a pureza que leva as criaturas a submeterem-se a mim, como estavam submetidas a Adão no paraíso, antes dele ter desobedecido às ordens de Deus»."
Paulo de Tebas
Paulo de Tebas
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Ditos e feitos dos padres do deserto
Um dia, certas pessoas foram a Tebaida para visitar um ancião. Levavam consigo um homem atormentado pelo demónio, a fim de que o ancião o curasse. Depois de haver feito uma longa oração, o ancião disse ao demónio: «Deixa essa criatura de Deus!» E o demónio respondeu: «Deixo, mas quero fazer-te uma pergunta: "Diz-me: quais são as cabras e quais são os cordeiros?"». E o ancião respondeu: «As cabras, sou eu; quanto aos cordeiros, só Deus o sabe». Com estas palavras, o demónio gritou: «Retiro-me por causa da tua humildade». E desapareceu num instante.
Apotegma N. 307, de Apotegmas do manuscrito Coislin, 126, publicado em parte por F. Nau em «Revue de l'Orient chrétien» (ROC), 1907-1913. Retirado da obra Ditos e feitos dos padres do deserto, p.51, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.
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