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domingo, 15 de maio de 2011

Halos e milagres

Fotografia: Agência Lusa

A notícia tem dado que falar. Na passada sexta-feira, no Santuário de Fátima, no momento em que se exibia um filme sobre o Beato João Paulo II, surgiu no céu um halo em torno do Sol. Trata-se de um fenómeno meteorológico bem conhecido, causado pela refracção dos raios solares em partículas de gelo, normalmente pertencentes a nuvens do tipo cirro. O fenómeno da passada sexta-feira causou comoção em vários peregrinos que estavam no Santuário, tendo alguns exclamado espontaneamente: "milagre!"
Assim que os "media" começaram a divulgar o sucedido, logo surgiram os corifeus do materialismo dito "científico", que se apressaram a soterrar as exclamações populares sob pilhas de suposta erudição científica. Falou-se, de forma arrogante e elitista, contra o "povo ignorante" que não saberia o que é um halo ou o que causa um halo. Ora, o mais elementar bom senso obriga-me a distinguir as coisas: até acredito que uma parte do povo não soubesse explicar o mecanismo que provoca o fenómeno meteorológico em discussão. Mas já não acredito que a maioria das pessoas presentes em Fátima nunca tivesse visto um halo, dado que sendo um fenómeno relativamente raro, não é assim tão raro que uma pessoa possa viver uma vida inteira sem o ver.
Eu, que não tenho formação universitária em Meteorologia, quando vi as fotografias não hesitei nem por um instante de que se tratasse de um halo solar. Não me recordo se alguma vez vi um "ao vivo", mas certamente que já tinha visto fotografias de halos, pelo que reconheci logo o fenómeno.
Assim, do grupo de pessoas que em Fátima gritaram "milagre!", será que nenhuma delas tinha visto antes um halo solar? Duvido. E no entanto, essas pessoas gritaram "milagre!". Estarão erradas?
Os auto-proclamados sábios do nosso tempo dizem que sim. Eles pontificam que, havendo uma explicação científica, então não podemos estar perante um milagre. E aqui é que se espalham ao comprido, revelando simultaneamente uma crassa ignorância, quer filosófica quer teológica.

Em primeiro lugar, vamos às definições: a palavra "milagre" vem do latim "miraculum", cuja raiz etimológica remete para o verbo latino "miror", que significa contemplar algo de maravilhoso, de deslumbrante, algo "admirável" (palavra com a mesma raiz que "milagre"). Assim, como se vê, o povo que gritou "milagre", eventualmente desconhecendo a raiz etimológica da palavra, não a aplicou mal, pois a beleza do fenómeno de um halo solar merece ser admirada, e é de facto deslumbrante. Vê-se então o primeiro erro dos opinadores anticristãos, que pelos vistos dominam mal o latim e não sabem de onde vêm as palavras que usam no dia-a-dia. Ora é sabido que a amnésia etimológica faz mal ao raciocínio: não conhecer a raiz e o significado de uma palavra é meio caminho andado para pensar mal, ou pelo menos para não se ser capaz de transmitir correctamente uma ideia. 

Em segundo lugar, vamos à tal objecção dos opinadores anticristãos, que pretendem que um dado fenómeno com explicação científica não pode ser milagroso. Teologicamente, um milagre é entendido como um fenómeno de efeito natural (sensorial, empírico, apreensível pelos sentidos) cuja causa primeira é sobrenatural. Ora se é certo que um fenómeno sem explicação científica pode (escrevi "pode" e não "deve") ter uma causa sobrenatural, e desse modo ser realmente milagroso, já não é verdade o oposto, ou seja, que um fenómeno com explicação científica não pode ter causa sobrenatural.
Defender que a presença de uma explicação científica elimina a presença de causas sobrenaturais implica dois erros filosóficos graves, a saber:
  1. Confundir "explicação" com "causa": nem sempre são a mesma coisa; por exemplo, um médico pode explicar ao seu paciente, através de sintomas e de resultados de exames, que ele padece de cancro, sem no entanto ser necessário, para essa explicação ser eficaz, que o médico explique a causa (ou causas) que geraram o cancro;
  2. Confundir "explicação natural (ou científica)" com "explicação pessoal": o filósofo Richard Swinburne (The Existence of God, 1979) distingue-as deste modo: enquanto que uma explicação natural (ou científica) deduz (como sugeriram Hempel e Oppenheim) um determinado estado (E) a partir de certas condições iniciais (C), e de uma ou mais leis naturais (L), uma explicação pessoal resulta, segundo Swinburne, da "acção intencional de um agente racional".
Enquanto que o primeiro erro é inegável, porque é facílimo encontrar inúmeros exemplos de explicações de fenómenos que não contêm, ou não esgotam, as suas causas, sendo no entanto explicações bastante boas desse fenómeno, já o segundo erro é mais subtil...
Penso que é útil recorrer a um exemplo do dia-a-dia: se eu, depois do almoço, vou ao quiosque da Olá buscar um Magnum Sandwich (algo que, comigo, acontece com uma regularidade quase científica), e se nesse dia me apetecer filosofar enquanto como o gelado, posso chegar aos dois tipos de explicação:
  • Explicação científica: o agregado biológico da espécie "Homo Sapiens", civilmente identificado como "Bernardo Motta", efectuou uma determinada trajectória com origem no assento do local onde almoçou e com destino no local exacto de determinado quiosque da Olá; chegado ao local, o agregado emitiu padrões sonoros que foram interpretados de certa maneira pelo outro agregado da espécie "Homo Sapiens" que estava dentro do quiosque, e na sequência, esse agregado movimentou um agregado feito de farinha, chocolate, leite, aroma de baunilha, e outros aditivos, à temperatura de cerca de -6 ºC, da arca frigorífica na qual se encontrava para a depositar na mão do primeiro agregado biológico, que por sua vez movimentou da sua carteira um conjunto de chapas metálicas (moedas) em direcção às mãos do segundo agregado; nota: não quis enjoar o leitor, mas esta explicação científica poderia ter muitíssimo mais detalhe, e estar repleta de sistemas de equações diferenciais; desse modo, os meus movimentos, os movimentos do vendedor de gelados, e os movimentos de todos os objectos inanimados envolvidos na cena, seriam descritos com adequado rigor físico e matemático;
  • Explicação pessoal: depois de meditar por breves instantes no tamanho da minha barriga, e começando a visualizar mentalmente um Magnum Sandwich fresquinho, levantei-me do local onde almocei e dirigi-me, com confiança e sem vergonha, na direcção do quiosque da Olá, e comprei o gelado; e sim: comi-o sem arrependimento (o arrependimento vem mais tarde, e requer uma balança, ou um cinto que estranhamente ficou pequeno).
O que é preciso compreender, com este simples exemplo, é que isto se aplica a todas as acções efectuadas por agentes livres e racionais. Assim, tais acções, mesmo que puramente mentais, têm uma explicação científica que se pode construir com base em modelos matemáticos. No entanto, essa explicação não é suficiente para justificar a acção humana de forma completa, e a explicação pessoal entra então em campo, a par da explicação científica, e frequentemente é bem mais útil que esta!
O que também é preciso compreender é que mesmo que eu tivesse a melhor e mais precisa das explicações científicas, eu não teria nada para explicar se o meu fito último não fosse o de comer o gelado, e se eu não tivesse decidido pôr em marcha o meu plano gastronómico. A causa última do fenómeno é a minha decisão, que eu vos garanto que é tomada livremente. Outras causas segundas entram no fenómeno, e então temos toda uma panóplia de leis físicas, pois como qualquer ser humano, sou um agente dotado de um corpo físico que está sujeito às restrições e às leis que regem os sistemas físicos.
Está claro que a existência de livre arbítrio, ou seja, da faculdade que todos temos de tomar decisões livres sem estarmos preocupados com o violar de leis da Natureza, é um facto inegável (a não ser pelos loucos dos materialistas), e que nos levaria, entre outras conclusões, à necessidade da existência da alma (ou mente), ou seja, de algo de imaterial em nós, sob pena de não termos real livre arbítrio. Tem que haver algo em nós que, sendo imaterial (e desse modo, fora do âmbito das leis da Natureza), nos permita agir livremente.
Está também claro que o louco do materialista, para negar a todo o custo a existência de coisas imateriais, ou a realidade do sobrenatural, está disposto a vender o seu livre arbítrio se isso for preciso. Para escapar à evidente capacidade que todos temos de tomar decisões livres, e de o fazer a toda a hora sem violar quaisquer leis da Natureza, o materialista vê-se obrigado ao supremo tiro no pé: negar que toma decisões livres, ou afirmar que o livre arbítrio que tomamos como real é uma mera ilusão. Necessariamente, nesse triste estado intelectual, o materialista deve, em coerência, afirmar que o seu próprio materialismo deve ser explicado pelas leis da Natureza, e que portanto, ele não tem qualquer razão para pretender ter razão.

Regressemos ao dito milagre do halo, da passada Sexta-feira, em Fátima. Foi um milagre? Em sentido lato, e de acordo com a etimologia do termo, sim, foi um fenómeno admirável, de rara beleza, e portanto, "miraculoso". No entanto, no sentido teológico estrito, só haverá milagre se Deus, através da Sua permanente soberania sobre toda a Criação, incluindo as "causas segundas", ou seja, as leis da Natureza por Ele criada, decidiu que tal fenómeno meteorológico deveria ter lugar no preciso momento em que se visionava um filme sobre o Beato João Paulo II. Como sabê-lo? Como saber se Deus quis deliberadamente fazer surgir um halo solar na passada sexta-feira àquela hora? Eu julgo que não temos forma de o saber com certeza...
Mas se, no caso de agentes humanos, certamente livres e racionais (uns mais que outros), uma explicação pessoal (da intencionalidade do agente) pode coexistir com uma explicação científica, então, por analogia, não poderia dar-se o caso de um determinado fenómeno, como por exemplo este halo, ter em simultâneo uma explicação pessoal (da intencionalidade de Deus) e uma explicação científica?
Claro que pode. E é esta conclusão filosófica que, em simultâneo, coloca em cautela aqueles que afirmam com total certeza a origem divina do fenómeno, e ao mesmo tempo, refuta os que negam dogmaticamente qualquer causalidade divina por detrás de fenómenos naturais.
O envolvimento do Sol e de cristais de gelo num fenómeno visível na Cova da Iria e arredores faz-nos recordar o muito mais espantoso e feérico fenómeno do 13 de Outubro de 1917. Também esse raríssimo fenómeno tem, julgo eu, uma explicação científica, como fenómeno meteorológico que tudo indica ter sido. No entanto, só mesmo um ateu para, perante a precisão espantosa da previsão (data, hora e local: veja-se que o fenómeno começou no exacto momento em que Lúcia pediu aos presentes para fecharem os chapéus de chuva), afirmar de forma irracional: "coincidência!" É típica a tentação em recorrer à palavra "coincidência" quando não se consegue encontrar, dentro de determinada visão amputada da realidade, uma explicação plenamente naturalista para determinado fenómeno extraordinário.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 de Maio de 1917 - Cova da Iria

Na fotografia: Os pastorinhos Jacinta Marto, Lúcia de Jesus e Francisco Marto (Fonte

Testemunho da Irmã Lúcia do Coração Imaculado, nascida Lúcia de Jesus dos Santos (Fátima, 28 de Março de 1907 - Coimbra, 13 de Fevereiro de 2005), acerca dos acontecimentos de 13 de Maio de 1917, na Cova da Iria, por ela vividos, juntamente com os seus primos Jacinta e Francisco Marto:

Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria a fazer uma paredezita em volta de uma moita, vimos de repente como que um relâmpago.
– É melhor irmos embora para casa. Disse a meus primos:
– Estão a fazer relâmpagos e pode vir trovoada.
E começamos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar mais ou menos a meio da encosta quase junto de uma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e dados alguns passos mais adiante vimos sobre uma carrasqueira uma Senhora vestida toda de branco mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio de água cristalina atravessado pelos raios do sol mais ardente. 
Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que a cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos.
Então Nossa Senhora disse-nos:
– Não tenhais medo, Eu não vos faço mal.
– De onde é Vossemecê? - lhe perguntei.
– Sou do Céu!
– E que é que Vossemecê me quer?
– Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi Quem sou e o que quero. Depois voltarei aqui ainda uma sétima vez.
– E eu também vou para o Céu?
– Sim, vais!
– E a Jacinta?
– Também.
– E o Francisco?
– Também, mas tem que rezar muitos terços...
Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com a minha irmã mais velha.
- A Maria das Neves já está no Céu?
- Sim está. (Parece-me que devia ter uns 16 anos).
- E a Amélia?
- Estará no Purgatório até ao fim do mundo. (Parece-me que devia ter 18 a 20 anos). 
Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos.
– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.
Foi ao pronunciar estas últimas palavras «a graça de Deus, etc.» que abriu, pela primeira vez, as mãos comunicando-nos uma luz tão íntima, como que reflexo que delas expedia que, penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus. Que era essa luz; mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos.
Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetimos intimamente: «Ó Santíssima Trindade eu Vos adoro; meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento». Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:
- Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.
Em seguida, começou-se a elevar, serenamente subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivo por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu.»,
in Fátima - Altar do Mundo, 2.º volume, Ocidental Editora, Porto, 1954, pp. 63-64.

Este é o testemunho verdadeiro dos acontecimentos daquele dia. Digo verdadeiro, pois dado o que se sabe acerca dos pastorinhos, não é plausível supor que eles mentiram ou alucinaram. Dado o inferno ao qual foram sujeitos, da parte de quase toda a gente, pois queriam à viva força que eles confessassem terem inventado tudo, e dada a sua tenacidade e coragem em manterem o relato fiel do sucedido, o seu testemunho torna-se muito credível. E depois há, claro, a comprovação de que falaram verdade: o milagre de 13 de Outubro de 1917.
Também há quem ache que os pastorinhos mentiram ou alucinaram. Quase sempre, esses cépticos sabem pouco do sucedido na Cova da Iria, não estudaram a personalidade das testemunhas, nem as diatribes às quais foram sujeitos. Dizem esses cépticos que a Igreja é que montou estas fantasias, quando alguns dos primeiros cépticos faziam parte do clero, e tentaram à viva força levar as crianças a negar o sucedido. No entanto, faltam coisas essenciais à tese da aldrabice: motivo (relatar as aparições só trouxe o inferno à vida dos videntes), hábito (na vida dos pastorinhos, deveríamos encontrar outras mentiras ou uma propensão para a fantasia) e cultura (três pastores analfabetos não poderiam ter inventado certos detalhes das aparições, nomeadamente os de teor político).
Os pastorinhos, claramente, falaram a verdade. Nossa Senhora apareceu-lhes repetidas vezes na Cova da Iria. Foram aparições pessoais, apenas vividas por eles, experiências acerca das quais se poderia especular em termos do seu carácter mais ou menos sensorial, mais ou menos interior, mas não menos reais por causa disso. No entanto, para os cépticos, isso não chega. Eles dão mais credibilidade à sua crença céptica (por eles ironicamente considerada como "racional") do que ao testemunho convicto de pessoas mentalmente sãs e sem razões para mentir. Pessoas essas, pelo contrário, com inúmeras razões para não inventar algo semelhante. Em nome desta suposta "mentira", que não lhes trazia qualquer vantagem, correram real risco de vida e foram maltratados várias vezes. Mas testemunhos como este não chegam para certas pessoas convictas da racionalidade do seu cepticismo irracional. Não chega nem o fenómeno de 13 de Outubro de 1917, esse sim público, sensorial, testemunhado por milhares de pessoas de todos os estratos sociais, e previsto pelos pastorinhos para aquela data, hora e local. O fenómeno milagroso desse dia, como cumprimento por parte de Nossa Senhora de uma promessa por Ela feita aos pastorinhos, atesta de forma clara a realidade e a verdade das aparições marianas na Cova da Iria, assim como a verdade dos testemunhos dos pastorinhos.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Fátima e o dito "milagre do Sol"

(fotografia tirada na Cova da Iria, a 13 de Outubro de 1917)

A Leonor Abrantes puxou recentemente o tema à baila no "post" A Criação de Fátima. Ora cá está uma oportunidade para falar sobre o dito "milagre do Sol".

Sem querer, de forma nenhuma, menosprezar a componente sociológica, religiosa e política do fenómeno de Fátima, pois tudo isso dá pano para mangas, queria apenas deixar claros alguns pontos bastante objectivos, que normalmente não são conhecidos.

1. Que os pastorinhos andavam a avisar as pessoas de que Nossa Senhora lhes prometera um sinal milagroso é facto bem sabido: por exemplo, a 13 de Setembro, certamente mais de dez mil pessoas estavam com eles na Cova da Iria, e sem discutir o que as pessoas viram nesse dia, o que é certo é que uma multidão seguiu-os na expectativa de verem sinais.

2. A previsão definitiva de um sinal milagroso foi feita pelos pastorinhos para o dia 13 de Outubro, e nesse dia, estavam 50.000 pessoas com eles; que outra razão para estarem lá senão a promessa de um grande sinal? Estiveram horas à chuva… os guarda-chuvas vêem-se nas fotografias desse dia.

3. Os pastorinhos, como dos dias 13 dos meses anteriores, trouxeram multidões para a Cova da Iria, por volta do meio-dia. Pouco depois dessa hora, por sugestão da Lúcia, as pessoas fecharam os guarda-chuvas e puseram-se todas a olhar para o céu, e isso está provado de forma documental, por várias fotografias.

4. Que não se tratou de uma alucinação colectiva é atestado pelo facto de que o poeta Afonso Lopes Vieira também viu o fenómeno a partir de sua casa em São Pedro de Moel, a menos de 40 km da Cova da Iria; ora fazendo as contas (como fez Stanley Jaki), para o fenómeno ser visto na Cova da Iria, e também em São Pedro de Moel, o fenómeno teria ocorrido pelo menos a 500 metros de altitude; se não foi visto a partir de locais mais afastados, é de supor que o fenómeno terá ocorrido na atmosfera, a uma baixa altitude (mas superior a 500 metros, aproximadamente), logo teria sido um fenómeno ATMOSFÉRICO e não astronómico; junte-se ainda o testemunho de um rapaz de seis anos, da aldeia de Alburitel, chamado Inácio Lourenço, que viu o fenómeno, estando a uns dez quilómetros da Cova da Iria.

5. A descrição do “bailar do Sol” é uma criação literária do jornalista Avelino de Almeida, do jornal “O Século”, e terá sido inspirada nos dizeres de certos populares que assistiram ao fenómeno.

6. É curioso que ninguém ligue nenhuma ao depoimento, não de populares iletrados, mas de académicos reputados: Gonçalo Xavier de Almeida Garrett, professor de Matemáticas em Coimbra, estava na Cova da Iria, juntamente com o seu filho José Maria, advogado. Ambos deixaram depoimentos escritos datados de 18 de Dezembro desse mesmo ano. José Maria usa, no seu depoimento, o termo técnico "cirros" para descrever as nuvens de alta altitude que observou no céu. Juntem-se ainda os testemunhos válidos da poetisa Maria Madalena de Martel Patrício, dado no final de 1917, e o testemunho do Barão de Alvaiázere, datado de 30 de Dezembro de 1917, nos quais ambos referem a presença de nebulosidade. E estes são apenas os mais conhecidos! O fenómeno teve inúmeras testemunhas.

7. Infelizmente, os depoimentos Almeida Garrett, valiosos porque escritos por quem tinha formação académica, nunca tiveram uma divulgação tão ampla e generalizada quanto as descrições distorcidas, como as da “dança” ou “baile” do Sol, ou pior ainda, quanto as especulações do jesuíta Pio Scatizzi, que publicou em 1947 uma das obras mais equivocadas acerca da interpretação científica do fenómeno: Fatima alla luce di fede e della scienza. Esta obra deixou para trás uma posteridade de equívocos, só porque o autor não se deu ao trabalho de investigar os factos e ouvir as testemunhas oculares.

8. O Físico e Padre beneditino Stanley Jaki (1924-2009) fez o trabalho de casa e veio a Portugal várias vezes investigar o tema, e deixou-nos com uma interpretação bastante decente do fenómeno. Segundo ele, o fenómeno é de natureza meteorológica, e é corroborado pelos depoimentos dos Almeida Garrett, e pelo testemunho do Afonso Lopes Vieira, que estava a 40 Km do local.

E então o milagre?

Ora bolas, o milagre é a previsão da data e da hora! Três pastores analfabetos prevêem a data e hora de um impressionante e raríssimo fenómeno meteorológico, resultante da conjugação improvável de nuvens do tipo cirro (a altas altitudes, feitas de cristais de gelo), nuvens de baixa altitude (feitas de partículas de água no estado líquido), e uma conjugação de ventos com a necessária orientação para moverem as partículas de água e gelo numa roda espiralada, que por sua vez gerou em simultâneo um feixe de cores cintilantes (resultantes da refracção dos raios solares nas partículas de água e gelo) e um raro efeito de “lente”, que explica a estupefacção das pessoas na Cova da Iria, que achavam que o Sol, aparentando aumentar de tamanho, se iria precipitar sobre elas..

Seria bizarro supor que as leis da Física teriam sido todas violadas, com o Sol aos saltos. É tolo imaginar, sequer, essa possibilidade. E mais tolo ainda, se tivermos em conta a falta de testemunhos de “desvios” do Sol, que teriam que ter sido detectados em vários observatórios um pouco por todo o planeta.

Como de costume, os verdadeiros milagres são sempre compatíveis com a Ciência, e parece-me que a previsão impressionante dos pastorinhos já é suficientemente improvável para se reconhecer que não existe explicação “naturalista” para essa previsão tão precisa, que é improvável quer pela precisão temporal, quer pela raridade do fenómeno meteorológico.

Fátima foi uma coisa grande que aconteceu a Portugal.
Estão enganados todos aqueles que julgam o contrário.

PS: Quando se tem preconceitos, quando se é ateu, quando se rejeita a existência de Deus, quando se rejeitam os milagres, não há nada que se possa dizer, nem mesmo a previsão precisa de um raro fenómeno meteorológico, para abalar a crença do céptico irrazoável. A pessoa que leva o cepticismo ao extremo de acreditar em coisas altamente improváveis e inexplicáveis não está disposta a considerar alternativas racionais que não se encaixem na sua visão estreita da realidade.

Referências:
Stanley L. Jaki, God and the sun at Fatima, Real View Books, 1999.
Stanley L. Jaki, The sun's miracle, or of something else?, Real View Books, 2000.
José Maria de Almeida Garrett, depoimento de testemunha ocular, 18 de Dezembro de 1917.
Memórias da Irmã Lúcia, Parte 1, Fátima, 2007.