Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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terça-feira, 10 de novembro de 2015
Deus existe?
O vídeo da minha conferência "Deus existe?", feita na passada Quinta-feira, 5 de Novembro de 2015.
Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
Apresento três argumentos em defesa do teísmo: o argumento cosmológico de Leibniz, o argumento cosmológico "kalam" do William Lane Craig, e o argumento teleológico, na modalidade defendida por Robin Collins. Muito obrigado ao José Maria Coelho pelo convite, e a todos os que estiveram presentes e participaram no debate que se seguiu!
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segunda-feira, 17 de agosto de 2015
In memoriam - Stanley Jaki (1924-2009)
Hoje faria 91 anos Stanley Jaki (1924-2009), Padre beneditino e Professor de Física na Universidade de Seton Hall, em New Jersey. Duplamente doutorado em Teologia (Instituto Pontifício de Santo Anselmo, em Roma, 1950) e em Física (Fordham, 1958), o Padre Jaki deixou uma vasta e indispensável obra em História da Ciência e Filosofia da Ciência.
O seu primeiro livro em inglês, “The Relevance of Physics” (1966, University of Chicago Press), continua a ser hoje um insuperado “tour de force” de História da Ciência. Nesse livro, que contém uma impressionante recolha de citações pouco conhecidas dos principais cientistas da História, o leitor fica esmagado pela profundidade da pesquisa histórica feita pelo Padre Jaki, e pelo seu domínio interpretativo dos acontecimentos.
O Padre Jaki veio a Portugal algumas vezes, quer para investigar os acontecimentos de Fátima, com vista à publicação da sua obra de referência sobre o milagre do Sol (“God and the Sun at Fatima”, 1999), quer para fazer três conferências em 2001. Nessa altura, eu nunca tinha ouvido falar dele. Lamento não o ter conhecido pessoalmente. Comecei a ler vorazmente os seus livros quando ele já estava no fim da sua vida terrena. Devo-lhe imenso. Sei que vou usar os livros dele para aprender até morrer. A sua escrita é densa. Não porque Jaki utilize palavras eruditas naquela típica atitude de arrogância intelectual. Nada que se pareça. Mas porque condensa muita informação em poucas palavras, o que obriga a uma leitura muito atenta. Todo o tempo investido na obra de Jaki traz retorno, e multiplicado.
Aqui fica um exemplo: o artigo “The Physicist and the Metaphysician”, no qual o Padre Jaki comenta o diálogo pouco conhecido entre o físico Pierre Duhem (1861-1916) e o metafísico Réginald Garrigou-Lagrange (1877-1964).
(Duhem foi o historiador de Ciência cuja obra-prima “Le Système du Monde - Histoire des doctrines cosmologiques de Platon à Copernic” - dez volumes editados entre 1913-1959 - desenterrou o edifício da ciência medieval, mostrando as raízes medievais da Ciência moderna com base em documentação de primeira mão, arrancada arduamente do esquecimento com o trabalho de uma vida inteira. Esta sua incómoda obra, fatal para a “tese do conflito” entre a Igreja Católica e a Ciência, só estaria finalmente editada na sua totalidade em 1959, 43 anos depois da sua morte, graças ao esforço incansável da sua filha Helène. O dominicano Garrigou-Lagrange, por seu lado, é um colosso do tomismo do século XX: um dos melhores expositores e defensores da filosofia e da teologia de São Tomás de Aquino.)
Jaki analisa a correspondência entre Duhem e Garrigou-Lagrange acerca do tema do movimento inercial. Duhem explica o ponto de vista físico. Garrigou-Lagrange explica o ponto de vista metafísico. Essa correspondência mostra o valor do diálogo humilde entre dois especialistas.
Eis a conclusão do artigo do Padre Jaki:
Eis a conclusão do artigo do Padre Jaki:
“For physics after all deals with reality. Its different aspects can be separated in a conceptual way but they remain inseparable from one another in their actual existence. Things as far as they exist certainly witness to their being and becoming which are not quantitative notions as such. But any physical being and becoming is known through sensory perception which is never without quantitative contents. There is no purely ontological realm as far as material things are concerned, nor can their quantitative features be consistently spoken of as if they were not embedded in a broader and more fundamental kind of reality, the reality of being and becoming.
Therein lies the source of the perplexity or uneasiness of Garrigou-Lagrange, the metaphysician. He did not display sufficient awareness of a fundamental problem as he dealt with the question posed by the principle of inertia for the proof of the existence of God from motion. This is the perennial problem of the one versus the many, in the sense that one and the same thing or process has multiple aspects that are conceptually irreducible to one another.
Distinguishing them we can, but separate them we cannot. Unite them we must, for knowledge is a quest for unitary understanding. Yet that quest is always fraught with the risk that fusion becomes confusion. That there is no escape from this predicament is probably the deepest lesson to be drawn from the exchange of ideas between a great physicist and a great metaphysician on a basic question of physics which is also a basic question for metaphysics.”O movimento inercial é uma só realidade, como explica o Padre Jaki. Mas que, para ser compreendida, tem que ser analisada com competência sob os distintos aspectos da física e da metafísica. Isto implica, naturalmente, que o movimento não tem apenas um aspecto físico (quantitativo, científico), mas também um aspecto metafísico, relacionado com o "ser" (o que o corpo em movimento inercial é em cada instante) e com o "devir" (as sucessivas mudanças de posição no corpo que se move com movimento inercial). Só assim se recupera uma compreensão una do mesmo fenómeno real.
Fonte: Stanley Jaki, “The Physicist and the Metaphysician”, em: http://www.u.arizona.edu/~aversa/scholastic/The%20Physicist%20and%20the%20Metaphysician%20(Jaki).pdf
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Debate "Deus (não) existe?"
O debate da passada Quinta-feira, 21 de Novembro, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, colocou-me frente a frente com o Ricardo Silvestre. Eu defendi a existência de Deus usando argumentação científico-filosófica, enquanto que o Ricardo procurou defender a inexistência de Deus. Os meus "slides" podem ser encontrados aqui.
(este ficheiro PDF contém mais "slides" do que os que eu usei: na minha primeira parte, usei todos os "slides" até ao 19, mas saltei o slide 12; os restantes "slides" eram de reserva, e só mostrei alguns deles na minha segunda parte, quando foi necessário)
Na minha primeira intervenção, apresentei dois argumentos filosófico-científicos a favor da existência de Deus:
A1: Argumento Cosmológico (versão de Leibniz):
Demonstrei existir uma entidade:
A2: Argumento Teleológico (versão de Robin Collins):
Em resposta a esta objecção, regressei ao esquema do "slide" 8 e expliquei que, mesmo que existam várias coisas encadeadas entre o Universo e uma primeira coisa, uma primeira coisa tem que existir, e tem que ter em si mesma a explicação para a sua existência, ou seja, tem mesmo que ser uma "primeira" coisa, e não podemos ter uma regressão infinita de explicações / causas.
Aviso: o argumento de Leibniz também se aplica caso o Universo fosse eterno: as explicações para a existência do Universo fazem sempre falta, mesmo que o Universo seja eterno, porque se o Universo podia ser diferente do que é, então não tem existência obrigatória (não tem em si mesmo a sua razão de existir) e por isso requer uma explicação distinta dele mesmo. Por isso, quando digo "primeira coisa", falo em "primeira explicação", uma explicação fundamental que não requer mais explicações.
Vamos ver porquê, supondo que o Ricardo tinha razão. Vamos supor que há uma cadeia infinita de explicações das explicações das explicações, e assim por diante, cadeia essa que numa das direcções termina no Universo, mas que na outra direcção não tem fim: regride infinitamente. Se assim fosse, aplicaríamos o PRS a essa cadeia infinita para perguntar: porque é que existe esta cadeia infinita, em vez de nada? Porque é que esta cadeia infinita existe, e porque é que ela é como é? Como o Universo faz parte dessa cadeia, e o Universo podia ser diferente do que é, então a cadeia como um todo, mesmo sendo infinita, poderia ser diferente do que é. Então, a cadeia infinita não teria em si mesma a sua própria explicação para existir. Então, como vemos, a cadeia infinita necessitaria de uma explicação distinta dela mesma. Logo, caímos sempre na necessidade de uma primeira explicação, na necessidade de existir uma primeira coisa que tem em si mesma a sua razão de existir.
Sugerir uma cadeia infinita de explicações, como fez o Ricardo, é tentar fugir do PRS, para acabar por ter que voltar a recorrer ao PRS para confirmar que é forçoso existir uma "primeira coisa" de existência obrigatória. Uma primeira coisa distinta do Universo, que existe por si própria, que tem existência obrigatória, e que é imaterial, porque tudo o que é feito de matéria ou energia podia ser diferente do que é.
Uma das principais (e importantes) críticas que me fizeram, no rescaldo do debate, foi a de eu ter deixado sem resposta uma série de questões levantadas pelo Ricardo durante o debate. Na verdade, na fase de perguntas e respostas, pude interagir com algumas delas e refutá-las. Mas é verdade que várias questões do Ricardo ficaram sem resposta da minha parte. Na minha segunda intervenção da noite, optei por aprofundar a defesa dos dois argumentos que tinha levado, respondendo às objecções que o Ricardo levantou de forma pertinente contra esses argumentos. Poderia ter usado a minha segunda intervenção para responder às questões do Ricardo, mas optei por me manter no tema da noite: os melhores argumentos a favor da (ou contra a) existência de Deus.
Respostas às questões e objecções do Ricardo
Aproveito agora para deixar respostas resumidas e breves às questões e objecções importantes levantadas pelo Ricardo durante o debate, para as quais não dei resposta na altura, ou então respondi de forma incompleta por falta de tempo. Como se pode ver abaixo, a grande variedade de questões que o Ricardo levantou durante as suas comunicações mostra bem que, caso eu tivesse optado por responder ponto por ponto, o debate teria claramente descarrilado para fora do tema central.
(este ficheiro PDF contém mais "slides" do que os que eu usei: na minha primeira parte, usei todos os "slides" até ao 19, mas saltei o slide 12; os restantes "slides" eram de reserva, e só mostrei alguns deles na minha segunda parte, quando foi necessário)
Na minha primeira intervenção, apresentei dois argumentos filosófico-científicos a favor da existência de Deus:
A1: Argumento Cosmológico (versão de Leibniz):
Demonstrei existir uma entidade:
- Que tem em si mesma a sua razão de existir
- Que não poderia não existir, e portanto é eterna (ou pelo menos perpétua)
- Que é imaterial: não é feita de massa / energia
A2: Argumento Teleológico (versão de Robin Collins):
- Apresentei diversos exemplos de que o nosso Universo está afinado para existir vida, e em alguns casos, está afinado para haver Química elementar (uma tabela de elementos suficientemente variada) e afinado para termos estabilidade atómica, essencial para toda a Química (e portanto, para a existência de qualquer forma de vida conhecida ou desconhecida):
- Que as leis da Natureza estão afinadas
- Que as constantes que figuram nas equações das leis da Natureza estão afinadas
- Que as condições iniciais do nosso Universo estavam afinadas
- Mostrei que a afinação do Universo é muitíssimo mais expectável dado o teísmo do que dado o ateísmo, e por isso, perante essa afinação, a atitude racional é acreditar que Deus existe
- Expliquei que este argumento A2 aponta para a inteligência da entidade que o argumento A1 demonstrou existir, pela razão de que o nosso Universo está minuciosamente estruturado e afinado de forma inteligente
Perante estes argumentos, o Ricardo tinha que fazer duas coisas:
- Refutar os argumentos que apresentei em defesa da existência de Deus
- Apresentar argumentos seus em defesa da inexistência de Deus
Na sua primeira intervenção, o Ricardo colocou as seguintes objecções aos meus argumentos:
A1: Argumento Cosmológico de Leibniz: o Ricardo criticou a necessidade de terminar a regressão infinita de explicações / causas, alegando que era arbitrário fazer parar a regressão num primeiro ente, ou seja, numa "causa primeira".
A2: Argumento Teleológico: o Ricardo sugeriu o multiverso como a melhor explicação para a afinação do nosso Universo.
Na minha segunda intervenção, respondi da seguinte forma às objecções do Ricardo:
A1: Argumento Cosmológico de Leibniz:
Este argumento parte de duas premissas:
- Que é válido o Princípio da Razão Suficiente (PRS), que diz que toda a coisa C existente é explicada:
- ou por algo já existente, e que explica a coisa C
- ou pela própria coisa C, caso essa coisa C tenha em si mesma a sua razão de existir (C teria existência obrigatória)
- Que o nosso Universo existe
Em resposta a esta objecção, regressei ao esquema do "slide" 8 e expliquei que, mesmo que existam várias coisas encadeadas entre o Universo e uma primeira coisa, uma primeira coisa tem que existir, e tem que ter em si mesma a explicação para a sua existência, ou seja, tem mesmo que ser uma "primeira" coisa, e não podemos ter uma regressão infinita de explicações / causas.
Aviso: o argumento de Leibniz também se aplica caso o Universo fosse eterno: as explicações para a existência do Universo fazem sempre falta, mesmo que o Universo seja eterno, porque se o Universo podia ser diferente do que é, então não tem existência obrigatória (não tem em si mesmo a sua razão de existir) e por isso requer uma explicação distinta dele mesmo. Por isso, quando digo "primeira coisa", falo em "primeira explicação", uma explicação fundamental que não requer mais explicações.
Vamos ver porquê, supondo que o Ricardo tinha razão. Vamos supor que há uma cadeia infinita de explicações das explicações das explicações, e assim por diante, cadeia essa que numa das direcções termina no Universo, mas que na outra direcção não tem fim: regride infinitamente. Se assim fosse, aplicaríamos o PRS a essa cadeia infinita para perguntar: porque é que existe esta cadeia infinita, em vez de nada? Porque é que esta cadeia infinita existe, e porque é que ela é como é? Como o Universo faz parte dessa cadeia, e o Universo podia ser diferente do que é, então a cadeia como um todo, mesmo sendo infinita, poderia ser diferente do que é. Então, a cadeia infinita não teria em si mesma a sua própria explicação para existir. Então, como vemos, a cadeia infinita necessitaria de uma explicação distinta dela mesma. Logo, caímos sempre na necessidade de uma primeira explicação, na necessidade de existir uma primeira coisa que tem em si mesma a sua razão de existir.
Sugerir uma cadeia infinita de explicações, como fez o Ricardo, é tentar fugir do PRS, para acabar por ter que voltar a recorrer ao PRS para confirmar que é forçoso existir uma "primeira coisa" de existência obrigatória. Uma primeira coisa distinta do Universo, que existe por si própria, que tem existência obrigatória, e que é imaterial, porque tudo o que é feito de matéria ou energia podia ser diferente do que é.
A2: Argumento Teleológico: o Ricardo sugeriu o multiverso como a melhor explicação para a afinação do nosso Universo. Contra esta resposta, argumentei:
- Que o multiverso é ainda especulação sem suporte experimental
- Que o multiverso não resolve a afinação das leis da natureza: apenas "transporta" o problema da afinação do nosso Universo para o patamar mais fundamental do multiverso
- Que um eventual multiverso no qual são gerados os inúmeros universos teria que ser muito especial e afinado para produzir universos afinados para a existência de vida
Em suma:
- O Ricardo não conseguiu refutar os meus argumentos, pelo que eles permaneceram válidos durante todo o debate e até ao final da noite
- O Ricardo fez uma série de críticas à ideia de existir Deus, sobretudo à ideia de existir um Deus Bom, levantou várias questões, e eu apenas respondi a algumas delas
Respostas às questões e objecções do Ricardo
Aproveito agora para deixar respostas resumidas e breves às questões e objecções importantes levantadas pelo Ricardo durante o debate, para as quais não dei resposta na altura, ou então respondi de forma incompleta por falta de tempo. Como se pode ver abaixo, a grande variedade de questões que o Ricardo levantou durante as suas comunicações mostra bem que, caso eu tivesse optado por responder ponto por ponto, o debate teria claramente descarrilado para fora do tema central.
- Há provas científicas de que Deus existe?
- O conhecimento científico de São Tomás de Aquino está ultrapassado.
- Porque não uma regressão infinita de explicações ou causas?
- Porque não uma regressão circular de explicações ou causas?
- Porque é que o multiverso não explica as evidências de afinação do nosso Universo?
- Porque é que o Universo é tão grande? Para quê?
- Porque é que há mal no Universo? Imperfeições? Doenças? Desastres naturais?
- Poderá Deus ser Bom? Paradoxo de Epicuro.
- Todas as alegações de milagres têm sido cientificamente refutadas.
- O livre-arbítrio é uma ilusão.
- A Igreja Católica limita a investigação científica com os seus dogmas morais.
- A alma é uma ficção.
- Uma pessoa de outra religião que teve o azar de não nascer na religião "certa" não se vai salvar?
- Se a mensagem do cristianismo é assim tão importante, porque é que Deus a não a torna mais óbvia? Porque é que Deus não se torna mais óbvio?
- Onde está a "assinatura" de Deus?
- Porque é que Deus deixou o Universo ao acaso?
domingo, 15 de maio de 2011
Halos e milagres
Fotografia: Agência Lusa
A notícia tem dado que falar. Na passada sexta-feira, no Santuário de Fátima, no momento em que se exibia um filme sobre o Beato João Paulo II, surgiu no céu um halo em torno do Sol. Trata-se de um fenómeno meteorológico bem conhecido, causado pela refracção dos raios solares em partículas de gelo, normalmente pertencentes a nuvens do tipo cirro. O fenómeno da passada sexta-feira causou comoção em vários peregrinos que estavam no Santuário, tendo alguns exclamado espontaneamente: "milagre!"
Assim que os "media" começaram a divulgar o sucedido, logo surgiram os corifeus do materialismo dito "científico", que se apressaram a soterrar as exclamações populares sob pilhas de suposta erudição científica. Falou-se, de forma arrogante e elitista, contra o "povo ignorante" que não saberia o que é um halo ou o que causa um halo. Ora, o mais elementar bom senso obriga-me a distinguir as coisas: até acredito que uma parte do povo não soubesse explicar o mecanismo que provoca o fenómeno meteorológico em discussão. Mas já não acredito que a maioria das pessoas presentes em Fátima nunca tivesse visto um halo, dado que sendo um fenómeno relativamente raro, não é assim tão raro que uma pessoa possa viver uma vida inteira sem o ver.
Eu, que não tenho formação universitária em Meteorologia, quando vi as fotografias não hesitei nem por um instante de que se tratasse de um halo solar. Não me recordo se alguma vez vi um "ao vivo", mas certamente que já tinha visto fotografias de halos, pelo que reconheci logo o fenómeno.
Assim, do grupo de pessoas que em Fátima gritaram "milagre!", será que nenhuma delas tinha visto antes um halo solar? Duvido. E no entanto, essas pessoas gritaram "milagre!". Estarão erradas?
Os auto-proclamados sábios do nosso tempo dizem que sim. Eles pontificam que, havendo uma explicação científica, então não podemos estar perante um milagre. E aqui é que se espalham ao comprido, revelando simultaneamente uma crassa ignorância, quer filosófica quer teológica.
Em primeiro lugar, vamos às definições: a palavra "milagre" vem do latim "miraculum", cuja raiz etimológica remete para o verbo latino "miror", que significa contemplar algo de maravilhoso, de deslumbrante, algo "admirável" (palavra com a mesma raiz que "milagre"). Assim, como se vê, o povo que gritou "milagre", eventualmente desconhecendo a raiz etimológica da palavra, não a aplicou mal, pois a beleza do fenómeno de um halo solar merece ser admirada, e é de facto deslumbrante. Vê-se então o primeiro erro dos opinadores anticristãos, que pelos vistos dominam mal o latim e não sabem de onde vêm as palavras que usam no dia-a-dia. Ora é sabido que a amnésia etimológica faz mal ao raciocínio: não conhecer a raiz e o significado de uma palavra é meio caminho andado para pensar mal, ou pelo menos para não se ser capaz de transmitir correctamente uma ideia.
Em segundo lugar, vamos à tal objecção dos opinadores anticristãos, que pretendem que um dado fenómeno com explicação científica não pode ser milagroso. Teologicamente, um milagre é entendido como um fenómeno de efeito natural (sensorial, empírico, apreensível pelos sentidos) cuja causa primeira é sobrenatural. Ora se é certo que um fenómeno sem explicação científica pode (escrevi "pode" e não "deve") ter uma causa sobrenatural, e desse modo ser realmente milagroso, já não é verdade o oposto, ou seja, que um fenómeno com explicação científica não pode ter causa sobrenatural.
Defender que a presença de uma explicação científica elimina a presença de causas sobrenaturais implica dois erros filosóficos graves, a saber:
- Confundir "explicação" com "causa": nem sempre são a mesma coisa; por exemplo, um médico pode explicar ao seu paciente, através de sintomas e de resultados de exames, que ele padece de cancro, sem no entanto ser necessário, para essa explicação ser eficaz, que o médico explique a causa (ou causas) que geraram o cancro;
- Confundir "explicação natural (ou científica)" com "explicação pessoal": o filósofo Richard Swinburne (The Existence of God, 1979) distingue-as deste modo: enquanto que uma explicação natural (ou científica) deduz (como sugeriram Hempel e Oppenheim) um determinado estado (E) a partir de certas condições iniciais (C), e de uma ou mais leis naturais (L), uma explicação pessoal resulta, segundo Swinburne, da "acção intencional de um agente racional".
Enquanto que o primeiro erro é inegável, porque é facílimo encontrar inúmeros exemplos de explicações de fenómenos que não contêm, ou não esgotam, as suas causas, sendo no entanto explicações bastante boas desse fenómeno, já o segundo erro é mais subtil...
Penso que é útil recorrer a um exemplo do dia-a-dia: se eu, depois do almoço, vou ao quiosque da Olá buscar um Magnum Sandwich (algo que, comigo, acontece com uma regularidade quase científica), e se nesse dia me apetecer filosofar enquanto como o gelado, posso chegar aos dois tipos de explicação:
- Explicação científica: o agregado biológico da espécie "Homo Sapiens", civilmente identificado como "Bernardo Motta", efectuou uma determinada trajectória com origem no assento do local onde almoçou e com destino no local exacto de determinado quiosque da Olá; chegado ao local, o agregado emitiu padrões sonoros que foram interpretados de certa maneira pelo outro agregado da espécie "Homo Sapiens" que estava dentro do quiosque, e na sequência, esse agregado movimentou um agregado feito de farinha, chocolate, leite, aroma de baunilha, e outros aditivos, à temperatura de cerca de -6 ºC, da arca frigorífica na qual se encontrava para a depositar na mão do primeiro agregado biológico, que por sua vez movimentou da sua carteira um conjunto de chapas metálicas (moedas) em direcção às mãos do segundo agregado; nota: não quis enjoar o leitor, mas esta explicação científica poderia ter muitíssimo mais detalhe, e estar repleta de sistemas de equações diferenciais; desse modo, os meus movimentos, os movimentos do vendedor de gelados, e os movimentos de todos os objectos inanimados envolvidos na cena, seriam descritos com adequado rigor físico e matemático;
- Explicação pessoal: depois de meditar por breves instantes no tamanho da minha barriga, e começando a visualizar mentalmente um Magnum Sandwich fresquinho, levantei-me do local onde almocei e dirigi-me, com confiança e sem vergonha, na direcção do quiosque da Olá, e comprei o gelado; e sim: comi-o sem arrependimento (o arrependimento vem mais tarde, e requer uma balança, ou um cinto que estranhamente ficou pequeno).
O que é preciso compreender, com este simples exemplo, é que isto se aplica a todas as acções efectuadas por agentes livres e racionais. Assim, tais acções, mesmo que puramente mentais, têm uma explicação científica que se pode construir com base em modelos matemáticos. No entanto, essa explicação não é suficiente para justificar a acção humana de forma completa, e a explicação pessoal entra então em campo, a par da explicação científica, e frequentemente é bem mais útil que esta!
O que também é preciso compreender é que mesmo que eu tivesse a melhor e mais precisa das explicações científicas, eu não teria nada para explicar se o meu fito último não fosse o de comer o gelado, e se eu não tivesse decidido pôr em marcha o meu plano gastronómico. A causa última do fenómeno é a minha decisão, que eu vos garanto que é tomada livremente. Outras causas segundas entram no fenómeno, e então temos toda uma panóplia de leis físicas, pois como qualquer ser humano, sou um agente dotado de um corpo físico que está sujeito às restrições e às leis que regem os sistemas físicos.
Está claro que a existência de livre arbítrio, ou seja, da faculdade que todos temos de tomar decisões livres sem estarmos preocupados com o violar de leis da Natureza, é um facto inegável (a não ser pelos loucos dos materialistas), e que nos levaria, entre outras conclusões, à necessidade da existência da alma (ou mente), ou seja, de algo de imaterial em nós, sob pena de não termos real livre arbítrio. Tem que haver algo em nós que, sendo imaterial (e desse modo, fora do âmbito das leis da Natureza), nos permita agir livremente.
Está também claro que o louco do materialista, para negar a todo o custo a existência de coisas imateriais, ou a realidade do sobrenatural, está disposto a vender o seu livre arbítrio se isso for preciso. Para escapar à evidente capacidade que todos temos de tomar decisões livres, e de o fazer a toda a hora sem violar quaisquer leis da Natureza, o materialista vê-se obrigado ao supremo tiro no pé: negar que toma decisões livres, ou afirmar que o livre arbítrio que tomamos como real é uma mera ilusão. Necessariamente, nesse triste estado intelectual, o materialista deve, em coerência, afirmar que o seu próprio materialismo deve ser explicado pelas leis da Natureza, e que portanto, ele não tem qualquer razão para pretender ter razão.
Regressemos ao dito milagre do halo, da passada Sexta-feira, em Fátima. Foi um milagre? Em sentido lato, e de acordo com a etimologia do termo, sim, foi um fenómeno admirável, de rara beleza, e portanto, "miraculoso". No entanto, no sentido teológico estrito, só haverá milagre se Deus, através da Sua permanente soberania sobre toda a Criação, incluindo as "causas segundas", ou seja, as leis da Natureza por Ele criada, decidiu que tal fenómeno meteorológico deveria ter lugar no preciso momento em que se visionava um filme sobre o Beato João Paulo II. Como sabê-lo? Como saber se Deus quis deliberadamente fazer surgir um halo solar na passada sexta-feira àquela hora? Eu julgo que não temos forma de o saber com certeza...
Mas se, no caso de agentes humanos, certamente livres e racionais (uns mais que outros), uma explicação pessoal (da intencionalidade do agente) pode coexistir com uma explicação científica, então, por analogia, não poderia dar-se o caso de um determinado fenómeno, como por exemplo este halo, ter em simultâneo uma explicação pessoal (da intencionalidade de Deus) e uma explicação científica?
Claro que pode. E é esta conclusão filosófica que, em simultâneo, coloca em cautela aqueles que afirmam com total certeza a origem divina do fenómeno, e ao mesmo tempo, refuta os que negam dogmaticamente qualquer causalidade divina por detrás de fenómenos naturais.
O envolvimento do Sol e de cristais de gelo num fenómeno visível na Cova da Iria e arredores faz-nos recordar o muito mais espantoso e feérico fenómeno do 13 de Outubro de 1917. Também esse raríssimo fenómeno tem, julgo eu, uma explicação científica, como fenómeno meteorológico que tudo indica ter sido. No entanto, só mesmo um ateu para, perante a precisão espantosa da previsão (data, hora e local: veja-se que o fenómeno começou no exacto momento em que Lúcia pediu aos presentes para fecharem os chapéus de chuva), afirmar de forma irracional: "coincidência!" É típica a tentação em recorrer à palavra "coincidência" quando não se consegue encontrar, dentro de determinada visão amputada da realidade, uma explicação plenamente naturalista para determinado fenómeno extraordinário.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Debate Craig vs. Hitchens
Este debate entre o filósofo evangélico norte-americano William Lane Craig e o jornalista ateu britânico Christopher Hitchens, que versou sobre o tema "Does God Exist?", encheu a 4 de Abril de 2009 um enorme auditório na Universidade de Biola, em Los Angeles, nos Estados Unidos, e foi seguido por milhares de pessoas. É um debate imperdível. Apesar do evidente charme e retórica de Hitchens, que periodicamente arrancava mais umas gargalhadas da plateia, fica patente a incapacidade deste ateu em conseguir debater argumentos filosóficos.
Craig avança com os seguintes argumentos filosóficos, sem recorrer a qualquer fundamentação religiosa ou teológica: Argumento Cosmológico, Argumento Teleológico, Argumento pela Moral e Argumento pelas evidências da ressurreição de Cristo. Logo na abertura do debate, Craig baliza a sua intervenção: argumentos filosóficos para defender que a tese da existência de Deus é mais forte e mais provável que a tese da inexistência de Deus. Mas Hitchens não só não mantém o debate em torno deste tópico central, que afinal correspondia na íntegra ao tema do debate, como não parece conseguir lidar com os argumentos de Craig.
Veja-se a leitura deste debate, feita pelo ateu Luke Muehlhauser, do blogue Common-sense Atheism:
«The debate went exactly as I expected. Craig was flawless and unstoppable. Hitchens was rambling and incoherent, with the occasional rhetorical jab. Frankly, Craig spanked Hitchens like a foolish child. Perhaps Hitchens realized how bad things were for him after Craig’s opening speech, as even Hitchens’ rhetorical flourishes were not as confident as usual. Hitchens wasted his cross-examination time with questions like, “If a baby was born in Palestine, would you rather it be a Muslim baby or an atheist baby?” He did not even bother to give his concluding remarks, ceding the time instead to Q&A.»
Num daqueles raros momentos em que Hitchens contestava, realmente, alguma das premissas dos argumentos avançados por Craig, o resultado era desanimador. Acerca do argumento cosmológico, Hitchens lançou a velha falácia de Dawkins: "Who designed the designer". Assim, o debate foi canja para Craig, que já confidenciou várias vezes que não gosta de debater argumentos filosóficos com pessoas sem trabalho académico na área. Do ponto de vista filosófico, o debate não chegou a existir, pois Hitchens não conseguia interagir nesse registo. Do ponto de vista mediático, o evento demonstrou a superficialidade deste representante do "novo ateísmo", e mostrou de forma cabal que autores como Dawkins, Harris, Hitchens e Dennett, apesar de venderem muitos milhares de livros, baseiam a sua argumentação em chistes e falácias superficiais, sem consistência, argumentação essa que não resiste ao embate com um filósofo profissional como Craig.
Fica então a questão: porque razão obras tão fracas e superficiais se tornam "best-sellers"? A questão é semelhante há que tantos fizeram aquando do romance mediático "The Da Vinci Code", do iletrado Dan Brown. E a resposta dada então parece-me permanecer válida. Juntem-se os seguintes ingredientes: vontade de fazer mega-dólares por parte dos editores e distribuidores, mega-investimentos na promoção destes produtos, tema apelativo (religião), escrita incendiária e falta de cultura e formação por parte dos consumidores deste tipo de produto.
PS: Por ser um marco em matéria de apologética, este vídeo fica disponível na nova secção "Debates", na barra lateral direita do blogue.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Humanos vs. Chimpanzés: apenas mais neurónios?
O Ludwig gostou deste vídeo do Robert Sapolsky:
Diz o Luwdig:
«Finalmente descobri o que é a alma. Aquilo que nós temos e que os outros animais não têm.
É mais neurónios. Nem é melhores neurónios nem nada de especial nos neurónios. É simplesmente mais.»
Sapolsky refere o bem estabelecido facto científico de que o 98,9% do genoma humano é comum ao genoma do chimpanzé. Os materialistas adoram isto, pois parece adaptar-se perfeitamente à sua filosofia infantil. Sapolsky aponta um facto científico importante: o cérebro humano, na fase de desenvolvimento fetal, desenvolve aproximadamente o triplo de células neuronais do chimpanzé. É verdade! E depois, que brilhante conclusão é que o Sapolsky retira?
«...Take a chimp brain, fetally, and let it go through two or three more rounds of division, and you get a human brain instead, and out come symphonies, and ideology, and hopscotch and everything else there, what that tells you is: with enough quantity you invent quality.»
Estes materialistas, que estão a braços com a humilhante impotência dos seus actuais argumentos filosóficos, face à óbvia força dos argumentos filosóficos dos teístas, em vez de se meterem a trabalhar em bons argumentos materialistas e na refutação dos argumentos teístas, preferem brincar com palavras.
Este Sapolsky, obviamente ignorante da burrada filosófica que acabou de proferir, nem se dá conta do ridículo:
1) Por um lado, confunde uma condição necessária para a inteligência humana (o número de neurónios) com uma condição suficiente para a inteligência humana; quem nega que o ser humano precisa do triplo dos neurónios do chimpanzé? A questão é: isso é suficiente, ter o triplo dos neurónios, ou é apenas uma condição necessária?
2) Em vez de tirar conclusões falaciosas, derivadas da sua confusão entre condição necessária e condição suficiente, ele deveria focar-se na resolução dos problemas fatais do seu materialismo filosófico: nenhuma filosofia materialista pode ter a pretensão de ser verdadeira, uma vez que todas as filosofias materialistas são obrigadas a adoptar, ou uma explicação determinista para os fenómenos mentais, ou uma explicação estocástica para os mesmos, ou um "mix" de ambas
Para o materialista, ou o intelecto humano é o epifenómeno de processos determinísticos no interior dos neurónios, ou de processos estocásticos, ou de um "mix" de ambos os tipos. Em qualquer dos casos, ou temos um intelecto "zombie", ou um intelecto "caótico", ou uma triste mistura de ambas as coisas.
Ter mais neurónios implica montes de coisas impressionantes para o cérebro humano: mais memória, maior capacidade de relacionar informação, e assim por diante. Mas não chega para explicar a racionalidade humana. Filosoficamente falando, a actividade intelectiva pressupõe, no ser humano, algo de imaterial. Em filosofia, nunca houve grande pudor em usar a palavra "alma", mas hoje em dia, fala-se em "mente" ou "intelecto".
Os filósofos profissionais conhecem bem os problemas do materialismo, problemas relacionados com a sua completa impotência para explicar a racionalidade, a capacidade de abstracção, o livre arbítrio que os seres humanos demonstram possuir. Infelizmente, há muitos cientistas materialistas, grupo do qual Sapolsky pelos vistos faz parte, que são filosoficamente analfabetos. Não se sentem obrigados a, sequer, considerar os problemas filosóficos do materialismo. Provavelmente, Sapolsky nem sequer sabe que o materialismo tem problemas graves por resolver. Quanto mais estar preparado para lidar com eles...
«With enough quantity, you invent quality»
Este cientista reagirá certamente com justificado horror e repúdio a manifestações de pseudo-ciência. Mas, pelos vistos, convive bem com a sua pseudo-filosofia de pacotilha.
Diz o Luwdig:
«Finalmente descobri o que é a alma. Aquilo que nós temos e que os outros animais não têm.
É mais neurónios. Nem é melhores neurónios nem nada de especial nos neurónios. É simplesmente mais.»
Sapolsky refere o bem estabelecido facto científico de que o 98,9% do genoma humano é comum ao genoma do chimpanzé. Os materialistas adoram isto, pois parece adaptar-se perfeitamente à sua filosofia infantil. Sapolsky aponta um facto científico importante: o cérebro humano, na fase de desenvolvimento fetal, desenvolve aproximadamente o triplo de células neuronais do chimpanzé. É verdade! E depois, que brilhante conclusão é que o Sapolsky retira?
«...Take a chimp brain, fetally, and let it go through two or three more rounds of division, and you get a human brain instead, and out come symphonies, and ideology, and hopscotch and everything else there, what that tells you is: with enough quantity you invent quality.»
Estes materialistas, que estão a braços com a humilhante impotência dos seus actuais argumentos filosóficos, face à óbvia força dos argumentos filosóficos dos teístas, em vez de se meterem a trabalhar em bons argumentos materialistas e na refutação dos argumentos teístas, preferem brincar com palavras.
Este Sapolsky, obviamente ignorante da burrada filosófica que acabou de proferir, nem se dá conta do ridículo:
1) Por um lado, confunde uma condição necessária para a inteligência humana (o número de neurónios) com uma condição suficiente para a inteligência humana; quem nega que o ser humano precisa do triplo dos neurónios do chimpanzé? A questão é: isso é suficiente, ter o triplo dos neurónios, ou é apenas uma condição necessária?
2) Em vez de tirar conclusões falaciosas, derivadas da sua confusão entre condição necessária e condição suficiente, ele deveria focar-se na resolução dos problemas fatais do seu materialismo filosófico: nenhuma filosofia materialista pode ter a pretensão de ser verdadeira, uma vez que todas as filosofias materialistas são obrigadas a adoptar, ou uma explicação determinista para os fenómenos mentais, ou uma explicação estocástica para os mesmos, ou um "mix" de ambas
Para o materialista, ou o intelecto humano é o epifenómeno de processos determinísticos no interior dos neurónios, ou de processos estocásticos, ou de um "mix" de ambos os tipos. Em qualquer dos casos, ou temos um intelecto "zombie", ou um intelecto "caótico", ou uma triste mistura de ambas as coisas.
Ter mais neurónios implica montes de coisas impressionantes para o cérebro humano: mais memória, maior capacidade de relacionar informação, e assim por diante. Mas não chega para explicar a racionalidade humana. Filosoficamente falando, a actividade intelectiva pressupõe, no ser humano, algo de imaterial. Em filosofia, nunca houve grande pudor em usar a palavra "alma", mas hoje em dia, fala-se em "mente" ou "intelecto".
Os filósofos profissionais conhecem bem os problemas do materialismo, problemas relacionados com a sua completa impotência para explicar a racionalidade, a capacidade de abstracção, o livre arbítrio que os seres humanos demonstram possuir. Infelizmente, há muitos cientistas materialistas, grupo do qual Sapolsky pelos vistos faz parte, que são filosoficamente analfabetos. Não se sentem obrigados a, sequer, considerar os problemas filosóficos do materialismo. Provavelmente, Sapolsky nem sequer sabe que o materialismo tem problemas graves por resolver. Quanto mais estar preparado para lidar com eles...
«With enough quantity, you invent quality»
Este cientista reagirá certamente com justificado horror e repúdio a manifestações de pseudo-ciência. Mas, pelos vistos, convive bem com a sua pseudo-filosofia de pacotilha.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
O ocaso do ateísmo filosófico
É uma ideia comummente aceite pela opinião pública: os ateus lideram no mundo académico. Alguns ateus, mais atrevidos, dão um salto em frente, e auto-intitulam-se "brights". A ideia aqui é simples: o ateu é o tipo inteligente. O crente é burro.
Vamos analisar um pouco essa ideia, não só porque ela é completamente falsa, mas porque quem a defende demonstra não conhecer nada da realidade actual do mundo académico.
A tal ideia-fantoche costuma basear-se nesta afirmação generalista: "a maioria dos cientistas não concorda com a tese da existência de Deus". Qual é o problema com esta ideia? É que a defesa da existência, ou inexistência, de Deus é uma questão que só pode ser abordada em duas áreas do saber humano: Filosofia ou Teologia. A Ciência é neutra em relação a teses metafísicas. Estão fora do seu alcance epistemológico.
Dada a altíssima compartimentação do saber humano actual, é discutível que um excelente cientista seja, automaticamente, um excelente (ou sequer bom) filósofo ou teólogo. Então, usar a expressão "a maioria dos cientistas não concorda com a tese na existência de Deus" como suposto argumento pró-ateísmo é uma treta. Equivale a afirmar algo como "a maioria dos juristas não concorda com o modelo cosmológico standard". Até poderia ser verdade: e daí?
Assim, o que há a fazer, se formos sérios, é analisar o "status quo" no mundo académico que trata da questão da existência de Deus como área de trabalho intelectual. Então, há que avaliar o "status quo" nos domínios específicos da Filosofia e da Teologia, pois as pessoas nesses ramos do saber é que estão profissionalmente preparadas para apresentar o estado-da-arte acerca da questão da existência de Deus.
Já quase que ouvimos a próxima crítica: os teólogos são parciais. Então fiquemos só pelos filósofos.
Quase um século depois da proposta do Círculo de Viena, o sonho do empiricismo lógico está morto e enterrado. No entanto, muita gente ainda julga, hoje em dia, que a Filosofia obliterou a discussão filosófica da existência de Deus, considerando que a tese da existência de Deus não tem sentido. Isto sucede, sobretudo, com alguns cientistas, ou entusiastas da Ciência, que sofrendo de uma distorção profissional (por ignorarem outras áreas do saber como a Filosofia), acham que uma tese só é racional (digna de ser provada ou refutada) se couber dentro do âmbito do método científico. Confundem "racional" com "cientificamente demonstrável".
O mundo mudou. Os grandes empiricistas lógicos estão mortos e enterrados. Infelizmente para o ateísta convicto, o mundo académico da Filosofia está em revolução há pelo menos quarenta anos, com um número cada vez maior de filósofos a abraçar o teísmo e a defender filosoficamente o teísmo. Num artigo para a revista Philo, o filósofo ateu Quentin Smith (Western Michigan University) afirmou-o categoricamente num artigo intitulado The Metaphilosophy of Naturalism. Smith começa por sublinhar o papel único da obra filosófica de Alvin Plantinga nos anos 60 e 70:
«The secularization of mainstream academia began to quickly unravel upon the publication of Plantinga’s influential book on realist theism, God and Other Minds, in 1967. It became apparent to the philosophical profession that this book displayed that realist theists were not outmatched by naturalists in terms of the most valued standards of analytic philosophy: conceptual precision, rigor of argumentation, technical erudition, and an in-depth defense of an original world-view. This book, followed seven years later by Plantinga’s even more impressive book, The Nature of Necessity, made it manifest that a realist theist was writing at the highest qualitative level of analytic philosophy, on the same playing field as Carnap, Russell, Moore, Grünbaum, and other naturalists.»
Smith descreve deste modo a viragem, no campo da Filosofia, que se verificou no que diz respeito ao teísmo (para os mais distraídos, sim, Quentin Smith é um filósofo ateu):
«But in philosophy, it became, almost overnight, “academically respectable” to argue for theism, making philosophy a favored field of entry for the most intelligent and talented theists entering academia today. A count would show that in Oxford University Press’ 2000–2001 catalogue, there are 96 recently published books on the philosophy of religion (94 advancing theism and 2 presenting “both sides”). By contrast, there are 28 books in this catalogue on the philosophy of language, 23 on epistemology (including religious epistemology, such as Plantinga’s Warranted Christian Belief), 14 on metaphysics, 61 books on the philosophy of mind, and 51 books on the philosophy of science.»
Smith afirma cabalmente: "God is not “dead” in academia; he returned to life in the late 1960s and is now alive and well in his last academic stronghold, philosophy departments". No entanto, não é esta a ideia que a opinião pública tem acerca do teísmo. A visão neo-ateísta pretende o inverso: se alguém é inteligente, acabará por se tornar ateu. A racionalidade estaria do lado do ateísmo. A sofisticação intelectual seria apanágio do ateu. A inteligência sofisticada e a posse de vastas quantidades de conhecimento seriam a marca do ateu. E finalmente, a visão neo-ateísta pretende inculcar este preconceito na cabeça das pessoas: a Universidade tornou-se ateia. Ora, no campo da Filosofia, nada poderia ser mais falso.
Smith queixa-se precisamente do oposto: do estado em que as coisas caíram, do ponto de vista do ateísmo filosófico. Segundo Smith, o lado do "adversário" está claramente a ganhar terreno:
«Due to the typical attitude of the contemporary naturalist (...) the vast majority of naturalist philosophers have come to hold (since the late 1960s) an unjustified belief in naturalism. Their justifications have been defeated by arguments developed by theistic philosophers, and now naturalist philosophers, for the most part, live in darkness about the justification for naturalism. They may have a true belief in naturalism, but they have no knowledge that naturalism is true since they do not have an undefeated justification for their belief. If naturalism is true, then their belief in naturalism is accidentally true. This philosophical failure (ignoring theism and thereby allowing themselves to become unjustified naturalists) has led to a cultural failure since theists, witnessing this failure, have increasingly become motivated to assume or argue for supernaturalism in their academic work, to an extent that academia has now lost its mainstream secularization.» (negrito meu)
A parte a negrito pareceu-me especialmente certeira. A marca do neo-ateísmo é, afinal de contas, o inverso do que nos contam. Segundo Smith, que insisto ser um filósofo ateu, a vasta maioria dos filósofos naturalistas não têm justificação (filosófica) para o seu naturalismo. Nesse cenário, o filósofo teísta ganha terreno. O que está, realmente, a suceder.
Será que estamos a assistir ao ocaso do ateísmo filosófico? Seria demasiado optimista. Certamente que estamos a assistir a um claro recuo do ateísmo filosófico perante o teísmo filosófico e a razão é simples: a ineficácia argumentativa do actual ateísmo filosófico perante a força argumentativa do actual teísmo filosófico.
Quem me lê pode estar espantado, pois os "media" retratam, um pouco por todo o lado, o aparente triunfalismo de neo-ateístas como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris ou Christopher Hitchens. Mas mesmo essa lista é enganadora: apenas Dennett é filósofo profissional! Dawkins é biólogo, Hitchens é jornalista e crítico literário. Harris tem uma licenciatura em Filosofia, mas a sua área de especialidade é a das neurociências, onde se doutorou. Harris nem sequer é muito coerente, ao procurar incorporar no seu ateísmo as espiritualidades orientais.
Mas estes famosos "quatro cavaleiros do apocalipse" ateísta, apesar do incrível número de obras que conseguiram vender, não representam, de forma alguma, o estado-da-arte em matéria de Filosofia. Pelo contrário: as suas obras não são académicas, são obras populares, escritas muitas vezes em tom inflamatório, mal argumentadas, e sobretudo, são obras que não lidam, nem sequer de perto, com o estado-da-arte das teses filosóficas teístas.
Têm-nos estado a vender a banha-da-cobra. Quentin Smith lançou o aviso. O problema existe: o ateísmo filosófico contemporâneo tem pés de barro. Há duas atitudes: ou a fuga para a frente, pretendendo (como Hawking e Mlodinow) que a Filosofia está morta (ou seja, ignorando o que dizem os filosófos, sejam eles ateus, agnósticos ou teístas), ou então pegando no problema: estudando os melhores argumentos teístas e procurando refutá-los, e em paralelo, montando bons argumentos ateístas que possam resistir a refutações teístas.
PS: Veja-se, a propósito, William Lane Craig a dizer precisamente o mesmo que Quentin Smith:
Vamos analisar um pouco essa ideia, não só porque ela é completamente falsa, mas porque quem a defende demonstra não conhecer nada da realidade actual do mundo académico.
A tal ideia-fantoche costuma basear-se nesta afirmação generalista: "a maioria dos cientistas não concorda com a tese da existência de Deus". Qual é o problema com esta ideia? É que a defesa da existência, ou inexistência, de Deus é uma questão que só pode ser abordada em duas áreas do saber humano: Filosofia ou Teologia. A Ciência é neutra em relação a teses metafísicas. Estão fora do seu alcance epistemológico.
Dada a altíssima compartimentação do saber humano actual, é discutível que um excelente cientista seja, automaticamente, um excelente (ou sequer bom) filósofo ou teólogo. Então, usar a expressão "a maioria dos cientistas não concorda com a tese na existência de Deus" como suposto argumento pró-ateísmo é uma treta. Equivale a afirmar algo como "a maioria dos juristas não concorda com o modelo cosmológico standard". Até poderia ser verdade: e daí?
Assim, o que há a fazer, se formos sérios, é analisar o "status quo" no mundo académico que trata da questão da existência de Deus como área de trabalho intelectual. Então, há que avaliar o "status quo" nos domínios específicos da Filosofia e da Teologia, pois as pessoas nesses ramos do saber é que estão profissionalmente preparadas para apresentar o estado-da-arte acerca da questão da existência de Deus.
Já quase que ouvimos a próxima crítica: os teólogos são parciais. Então fiquemos só pelos filósofos.
Quase um século depois da proposta do Círculo de Viena, o sonho do empiricismo lógico está morto e enterrado. No entanto, muita gente ainda julga, hoje em dia, que a Filosofia obliterou a discussão filosófica da existência de Deus, considerando que a tese da existência de Deus não tem sentido. Isto sucede, sobretudo, com alguns cientistas, ou entusiastas da Ciência, que sofrendo de uma distorção profissional (por ignorarem outras áreas do saber como a Filosofia), acham que uma tese só é racional (digna de ser provada ou refutada) se couber dentro do âmbito do método científico. Confundem "racional" com "cientificamente demonstrável".
O mundo mudou. Os grandes empiricistas lógicos estão mortos e enterrados. Infelizmente para o ateísta convicto, o mundo académico da Filosofia está em revolução há pelo menos quarenta anos, com um número cada vez maior de filósofos a abraçar o teísmo e a defender filosoficamente o teísmo. Num artigo para a revista Philo, o filósofo ateu Quentin Smith (Western Michigan University) afirmou-o categoricamente num artigo intitulado The Metaphilosophy of Naturalism. Smith começa por sublinhar o papel único da obra filosófica de Alvin Plantinga nos anos 60 e 70:
«The secularization of mainstream academia began to quickly unravel upon the publication of Plantinga’s influential book on realist theism, God and Other Minds, in 1967. It became apparent to the philosophical profession that this book displayed that realist theists were not outmatched by naturalists in terms of the most valued standards of analytic philosophy: conceptual precision, rigor of argumentation, technical erudition, and an in-depth defense of an original world-view. This book, followed seven years later by Plantinga’s even more impressive book, The Nature of Necessity, made it manifest that a realist theist was writing at the highest qualitative level of analytic philosophy, on the same playing field as Carnap, Russell, Moore, Grünbaum, and other naturalists.»
Smith descreve deste modo a viragem, no campo da Filosofia, que se verificou no que diz respeito ao teísmo (para os mais distraídos, sim, Quentin Smith é um filósofo ateu):
«But in philosophy, it became, almost overnight, “academically respectable” to argue for theism, making philosophy a favored field of entry for the most intelligent and talented theists entering academia today. A count would show that in Oxford University Press’ 2000–2001 catalogue, there are 96 recently published books on the philosophy of religion (94 advancing theism and 2 presenting “both sides”). By contrast, there are 28 books in this catalogue on the philosophy of language, 23 on epistemology (including religious epistemology, such as Plantinga’s Warranted Christian Belief), 14 on metaphysics, 61 books on the philosophy of mind, and 51 books on the philosophy of science.»
Smith afirma cabalmente: "God is not “dead” in academia; he returned to life in the late 1960s and is now alive and well in his last academic stronghold, philosophy departments". No entanto, não é esta a ideia que a opinião pública tem acerca do teísmo. A visão neo-ateísta pretende o inverso: se alguém é inteligente, acabará por se tornar ateu. A racionalidade estaria do lado do ateísmo. A sofisticação intelectual seria apanágio do ateu. A inteligência sofisticada e a posse de vastas quantidades de conhecimento seriam a marca do ateu. E finalmente, a visão neo-ateísta pretende inculcar este preconceito na cabeça das pessoas: a Universidade tornou-se ateia. Ora, no campo da Filosofia, nada poderia ser mais falso.
Smith queixa-se precisamente do oposto: do estado em que as coisas caíram, do ponto de vista do ateísmo filosófico. Segundo Smith, o lado do "adversário" está claramente a ganhar terreno:
«Due to the typical attitude of the contemporary naturalist (...) the vast majority of naturalist philosophers have come to hold (since the late 1960s) an unjustified belief in naturalism. Their justifications have been defeated by arguments developed by theistic philosophers, and now naturalist philosophers, for the most part, live in darkness about the justification for naturalism. They may have a true belief in naturalism, but they have no knowledge that naturalism is true since they do not have an undefeated justification for their belief. If naturalism is true, then their belief in naturalism is accidentally true. This philosophical failure (ignoring theism and thereby allowing themselves to become unjustified naturalists) has led to a cultural failure since theists, witnessing this failure, have increasingly become motivated to assume or argue for supernaturalism in their academic work, to an extent that academia has now lost its mainstream secularization.» (negrito meu)
A parte a negrito pareceu-me especialmente certeira. A marca do neo-ateísmo é, afinal de contas, o inverso do que nos contam. Segundo Smith, que insisto ser um filósofo ateu, a vasta maioria dos filósofos naturalistas não têm justificação (filosófica) para o seu naturalismo. Nesse cenário, o filósofo teísta ganha terreno. O que está, realmente, a suceder.
Será que estamos a assistir ao ocaso do ateísmo filosófico? Seria demasiado optimista. Certamente que estamos a assistir a um claro recuo do ateísmo filosófico perante o teísmo filosófico e a razão é simples: a ineficácia argumentativa do actual ateísmo filosófico perante a força argumentativa do actual teísmo filosófico.
Quem me lê pode estar espantado, pois os "media" retratam, um pouco por todo o lado, o aparente triunfalismo de neo-ateístas como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris ou Christopher Hitchens. Mas mesmo essa lista é enganadora: apenas Dennett é filósofo profissional! Dawkins é biólogo, Hitchens é jornalista e crítico literário. Harris tem uma licenciatura em Filosofia, mas a sua área de especialidade é a das neurociências, onde se doutorou. Harris nem sequer é muito coerente, ao procurar incorporar no seu ateísmo as espiritualidades orientais.
Mas estes famosos "quatro cavaleiros do apocalipse" ateísta, apesar do incrível número de obras que conseguiram vender, não representam, de forma alguma, o estado-da-arte em matéria de Filosofia. Pelo contrário: as suas obras não são académicas, são obras populares, escritas muitas vezes em tom inflamatório, mal argumentadas, e sobretudo, são obras que não lidam, nem sequer de perto, com o estado-da-arte das teses filosóficas teístas.
Têm-nos estado a vender a banha-da-cobra. Quentin Smith lançou o aviso. O problema existe: o ateísmo filosófico contemporâneo tem pés de barro. Há duas atitudes: ou a fuga para a frente, pretendendo (como Hawking e Mlodinow) que a Filosofia está morta (ou seja, ignorando o que dizem os filosófos, sejam eles ateus, agnósticos ou teístas), ou então pegando no problema: estudando os melhores argumentos teístas e procurando refutá-los, e em paralelo, montando bons argumentos ateístas que possam resistir a refutações teístas.
PS: Veja-se, a propósito, William Lane Craig a dizer precisamente o mesmo que Quentin Smith:
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
In memoriam - António Telmo (1927-2010)
Ainda me lembro do espanto, quando há uma catrefada de anos eu perguntei à minha amiga Joana Vitorino: "O António Telmo é teu tio?!". Na altura, ignorantão, eu não conhecia a valiosa obra do próprio pai da Joana, o Orlando Vitorino (1922-2003). Mal refeito do espanto, pois na altura eu devorava os livros de António Telmo, disse à Joana: "E achas que eu poderia um dia falar com o teu tio?". Ela confirmou, claro, dizendo-me que o tio estava a viver em Estremoz, e que poderíamos combinar ir lá um dia. Eu respondi, sempre optimista: "Sim, vamos combinar isso!". Nunca combinei essa ida a Estremoz. Sou irremediavelmente estúpido. A notícia da sua morte a 21 de Agosto último, noticiada ontem na televisão, caiu ontem sobre mim como um balde de água gelada.
Para quem não conhece a obra destes irmãos, é difícil entender este meu fascínio. A dada altura, mergulhado nas páginas de um dos livros de António Telmo, dei comigo a pensar: "esta é uma das melhores mentes portuguesas vivas!". Era mesmo... Eram filósofos grandes. Grandes pelos seus conhecimentos e pela sua largueza de vistas. Grandes pela humildade. Grandes pelo seu amor a Portugal.
Na quinta-feira, pelas 18 horas, na Biblioteca Nacional, haverá uma homenagem ao António Telmo. Será apresentado o livro "O Portugal de António Telmo". Falará outro grande: o Pinharanda Gomes. Um evento imperdível.
Eis os dados biográficos básicos sobre António Telmo...
«António Telmo Carvalho Vitorino, nascido a 2 de Maio de 1927, em Almeida (Guarda) integrou aos 23 anos o grupo Filosofia Portuguesa depois de ter tido contacto com José Marinho (1904-1975) e Álvaro Ribeiro (1905-1981). A convite de Agostinho da Silva (1906-1994) e de Eudoro de Sousa (1911-1987), foi professor de Literatura Portuguesa durante três anos, na Univers 2 de Maio de 1927, em Almeida (Guarda) integrou aos 23 anos o grupo Filosofia Portuguesa depois de ter tido contacto com José Marinho (1904-1975) e Álvaro Ribeiro (1905-1981). A convite de Agostinho da Silva (1906-1994) e de Eudoro de Sousa (1911-1987), foi professor de Literatura Portuguesa durante três anos, na Universidade de Brasília. Leccionou ainda em Granada e, de regresso a Portugal, foi director da Biblioteca de Sesimbra, onde residira, e posteriormente radicou-se em Estremoz, onde foi professor de Português.»
Eis a sua obra escrita...
- Arte Poética, Lisboa, Guimarães, 1963.
- História Secreta de Portugal, Lisboa, Vega, 1977.
- Gramática secreta da língua portuguesa, Lisboa, Guimarães, 1981.
- Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Lisboa, Guimarães, 1982.
- Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães, 1989.
- O Bateleur, Lisboa, Átrio, 1992.
- Horóscopo de Portugal, Lisboa, Guimarães, 1997.
- Contos, Lisboa, Aríon, 1999.
- O Mistério de Portugal na História e n’ Os Lusíadas, Lisboa, Ésquilo, 2004.
- Viagem a Granada, Lisboa, Fundação Lusíada, 2005.
- Contos Secretos, Chaves, Tartaruga, 2007.
- A Verdade do Amor, seguido de Adoração: Cânticos de amor, de Leonardo Coimbra, Lisboa, Zéfiro, 2008.
- Congeminações de um neopitagórico, Vale de Lázaro, Al-Barzakh, 2006/ Lisboa, Zéfiro, 2009.
- A Aventura Maçónica, Lisboa, Zéfiro, 2010.
- Luís de Camões, Estremoz, Al-Barzakh, 2010.
- O Portugal de António Telmo, Lisboa, Guimarães, 2010.
PS: Ler este magnífico À conversa com António Telmo. É uma forma de tocarmos ao de leve no intelecto deste pensador de vulto.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Grande confusão
No seu "post" Q&A, o Ludwig, na tentativa de esclarecer a sua posição, gerou uma grande confusão.
Parece-me estranho que alguém racional e cerebral como o Ludwig adopte dois pesos e duas medidas sistematicamente. Penso que não se dá conta disso. Refiro-me ao facto de o Luwdig ser tão cumpridor das tradições estabelecidas quando fala acerca de Ciência, e tão rebelde e incumpridor quando se trata das tradições filosóficas e epistemológicas.
É como se, dentro da cabeça do Ludwig, existisse uma mente de cientista (com obra feita e competência que não discuto) e simultaneamente uma mente de anti-filósofo, de alguém que rejeita toda a tradição filosófica, e mais grave ainda, toda a tradição epistemológica.
Isto nada tem a ver com ateísmo. Um ateu pode e deve definir a sua posição filosófica com algum rigor filosófico. Um ateu pode e deve conhecer a tradição epistemológica para a saber usar quando fala de Ciência, pois enquanto que o trabalho científico é Ciência, a reflexão filosófica acerca do trabalho científico é meta-Ciência, é epistemologia.
O Ludwig não pode tratar como Ciência a reflexão acerca do conhecimento científico, pois isso seria raciocínio auto-referencial, e sofreria da falácia de petição de princípio e dos problemas da circularidade.
Ora é isso que eu depreendo de vários pontos do texto dele.
«Basta que se possa inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus.»
Eu nem sei bem o que isto quer dizer. Mas poderá ter duas leituras, julgo eu. Por um lado, que o Ludwig pretenderia que a hipótese Deus pudesse ser testada empiricamente. O que é algo de bizarro, uma vez que toda a tradição filosófica trata a hipótese Deus como uma hipótese metafísica, logo não testável empiricamente. Talvez o Ludwig não pretendesse dizer isto mas sim algo mais sofisticado, a saber, que a hipótese Deus, sendo verdadeira, deveria deixar um "rasto empírico". Ora bolas, mas a tradição filosófica também tem algo a dizer acerca disso, nomeadamente quando fala acerca da finalidade, ou seja, da causa final. O raciocínio meta-científico (filosófico) acerca das coisas que encontramos no Cosmos leva-nos à necessidade de causas finais para essas várias coisas. O argumento cosmológico, como argumento "a posteriori" que é, parte da observação da realidade empírica para montar um argumento filosófico acerca da existência de Deus. O movimento é indutivo, partindo-se da observação do Cosmos e chegando-se a uma tese metafísica.
Sendo assim, é possível fazer o que o Ludwig pede, mas como filósofo e não como cientista. Um filósofo pode inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus, se como filósofo, vir nas coisas naturais contingentes uma causa final que remete para a causa primeira, necessária. Não estamos ainda a pretender inferir a infinitude da causa primeira a partir da observação, pois isso é muito espinhoso e difícil, e nem sei se será possível. Estamos a inferir que há uma causa primeira, e essa causa é "exterior" ao Cosmos, por não ser condicionada, por não ser contingente, por ser necessária.
Parece que Ludwig manda às malvas tudo isto, ignorando o debate filosófico como se fosse irrelevante, e não tendo a mesma preocupação com as teses filosóficas que tem com as teses científicas.
A falta de noção de fronteira fica patente também nesta frase:
«e formarmos as nossas ideias de maneira a poder descobrir quando erramos, elas dão-nos um caminho para o conhecimento. E isso é ciência.»
Pode não ser ciência. Pode ser filosofia. Quando eu afirmo "não há juízos verdadeiros de sujeito singular e predicado universal" eu tenho um método intelectual para saber com toda a certeza que acabei de errar. Chama-se a isso o método de retorsão, e é uma ferramenta filosófica muito antiga e útil para estabelecer com solidez os primeiros princípios, e neste caso em concreto, para eu saber que errei: é um caminho para um certo tipo de conhecimento sólido e seguro, só que não se trata de conhecimento científico (em sentido moderno), pois não foi obtido por via empírica. Logo, pode-se chamar esse conhecimento de conhecimento filosófico. Só este exemplo demonstra a estreiteza de vistas que o Ludwig parece postular.
Ele escreve como um adepto do cientismo. Eu sei que ele detesta "ismos", mas é uma constatação incontornável. O adepto do cientismo, antes de mais, é um materialista, ou seja, pretende que toda a realidade é empírica. Para além disso, o adepto do cientismo pretende que só é conhecimento aquilo que se pode colocar sob o crivo do método científico. Tal postura não é científica: é filosófica. Tal tese não é científica, é filosófica. E é má filosofia: é uma treta de uma tese, como aliás se demonstra facilmente:
1. O adepto do cientismo diz que uma tese só representa um caminho para o conhecimento se houver um método empírico para a testar
2. O adepto do cientismo não apresenta um método empírico para testar a tese que acabou de formular
3. Com essa sua tese inútil e auto-refutatória, o adepto do cientismo não trouxe qualquer conhecimento verdadeiro para a discussão
A incapacidade que o Ludwig parece demonstrar no que toca a traçar fronteiras há muito estabelecidas é patente, mais uma vez, neste trecho:
«Há muito na ciência que não é “causa entre outras causas” nem “ser entre outros seres”, desde o princípio de incerteza de Heisenberg às leis da termodinâmica, e incluindo todas as abstracções lógicas e matemáticas que usamos para construir modelos, como a raiz quadrada de dois ou as funções trigonométricas.»
Eu já nem parto para o debate (perfeitamente razoável) acerca do estatuto das Matemáticas, pois parece-me extremamente abusivo pretender que as Matemáticas façam parte do que hoje em dia se convencionou chamar Ciência, visto que as Matemáticas têm uma autonomia filosófica, e não dependem de confirmações ou refutações empíricas (pela via do método científico) para se susterem como conhecimento válido.
Mas deixando de lado, por agora, as Matemáticas, será que o Ludwig pretende que, por exemplo, o princípio lógico do terceiro excluído é conhecimento científico, no sentido moderno do termo? A lógica não pertence ao domínio da ciência, mas sim ao da filosofia, mais especificamente, ao domínio da metafísica, ou seja, dos primeiros princípios do conhecimento intelectual. Como pretende o Ludwig provar pelo método científico os primeiros princípios? Como se prova em laboratório a lógica clássica? E, para tomar outro exemplo, as verdades de sempre acerca dos silogismos, tão bem estudadas e conhecidas já na Idade Média e mesmo em Aristóteles? Vieram ao conhecimento humano por via do método científico? Como é que eu sei que um silogismo em Barbara é sempre verdadeiro, se as suas teses maior e menor forem verdadeiras? Medi isso com que aparelho?
O sistemático desprezo pela Filosofia, a atitude persistente em ignorar a diferença entre trabalho científico (Ciência) e reflexão filosófica acerca desse mesmo trabalho (Epistemologia) é a marca do adepto da superstição do cientismo, essa simplificação grotesca que pretende que todo o conhecimento humano com pretensão de validade deve estar sob a alçada do método científico.
Se eu fui injusto para com o Ludwig, distorcendo as suas ideias, eu agradecia imenso se ele pudesse ajudar a esclarecer estas questões, mormente a explicar, de uma vez por todas, o que pensa ele da epistemologia e da filosofia, e de que forma vê ele o conhecimento humano no seu todo, incluindo o (mas não limitado ao) conhecimento científico.
Parece-me estranho que alguém racional e cerebral como o Ludwig adopte dois pesos e duas medidas sistematicamente. Penso que não se dá conta disso. Refiro-me ao facto de o Luwdig ser tão cumpridor das tradições estabelecidas quando fala acerca de Ciência, e tão rebelde e incumpridor quando se trata das tradições filosóficas e epistemológicas.
É como se, dentro da cabeça do Ludwig, existisse uma mente de cientista (com obra feita e competência que não discuto) e simultaneamente uma mente de anti-filósofo, de alguém que rejeita toda a tradição filosófica, e mais grave ainda, toda a tradição epistemológica.
Isto nada tem a ver com ateísmo. Um ateu pode e deve definir a sua posição filosófica com algum rigor filosófico. Um ateu pode e deve conhecer a tradição epistemológica para a saber usar quando fala de Ciência, pois enquanto que o trabalho científico é Ciência, a reflexão filosófica acerca do trabalho científico é meta-Ciência, é epistemologia.
O Ludwig não pode tratar como Ciência a reflexão acerca do conhecimento científico, pois isso seria raciocínio auto-referencial, e sofreria da falácia de petição de princípio e dos problemas da circularidade.
Ora é isso que eu depreendo de vários pontos do texto dele.
«Basta que se possa inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus.»
Eu nem sei bem o que isto quer dizer. Mas poderá ter duas leituras, julgo eu. Por um lado, que o Ludwig pretenderia que a hipótese Deus pudesse ser testada empiricamente. O que é algo de bizarro, uma vez que toda a tradição filosófica trata a hipótese Deus como uma hipótese metafísica, logo não testável empiricamente. Talvez o Ludwig não pretendesse dizer isto mas sim algo mais sofisticado, a saber, que a hipótese Deus, sendo verdadeira, deveria deixar um "rasto empírico". Ora bolas, mas a tradição filosófica também tem algo a dizer acerca disso, nomeadamente quando fala acerca da finalidade, ou seja, da causa final. O raciocínio meta-científico (filosófico) acerca das coisas que encontramos no Cosmos leva-nos à necessidade de causas finais para essas várias coisas. O argumento cosmológico, como argumento "a posteriori" que é, parte da observação da realidade empírica para montar um argumento filosófico acerca da existência de Deus. O movimento é indutivo, partindo-se da observação do Cosmos e chegando-se a uma tese metafísica.
Sendo assim, é possível fazer o que o Ludwig pede, mas como filósofo e não como cientista. Um filósofo pode inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus, se como filósofo, vir nas coisas naturais contingentes uma causa final que remete para a causa primeira, necessária. Não estamos ainda a pretender inferir a infinitude da causa primeira a partir da observação, pois isso é muito espinhoso e difícil, e nem sei se será possível. Estamos a inferir que há uma causa primeira, e essa causa é "exterior" ao Cosmos, por não ser condicionada, por não ser contingente, por ser necessária.
Parece que Ludwig manda às malvas tudo isto, ignorando o debate filosófico como se fosse irrelevante, e não tendo a mesma preocupação com as teses filosóficas que tem com as teses científicas.
A falta de noção de fronteira fica patente também nesta frase:
«e formarmos as nossas ideias de maneira a poder descobrir quando erramos, elas dão-nos um caminho para o conhecimento. E isso é ciência.»
Pode não ser ciência. Pode ser filosofia. Quando eu afirmo "não há juízos verdadeiros de sujeito singular e predicado universal" eu tenho um método intelectual para saber com toda a certeza que acabei de errar. Chama-se a isso o método de retorsão, e é uma ferramenta filosófica muito antiga e útil para estabelecer com solidez os primeiros princípios, e neste caso em concreto, para eu saber que errei: é um caminho para um certo tipo de conhecimento sólido e seguro, só que não se trata de conhecimento científico (em sentido moderno), pois não foi obtido por via empírica. Logo, pode-se chamar esse conhecimento de conhecimento filosófico. Só este exemplo demonstra a estreiteza de vistas que o Ludwig parece postular.
Ele escreve como um adepto do cientismo. Eu sei que ele detesta "ismos", mas é uma constatação incontornável. O adepto do cientismo, antes de mais, é um materialista, ou seja, pretende que toda a realidade é empírica. Para além disso, o adepto do cientismo pretende que só é conhecimento aquilo que se pode colocar sob o crivo do método científico. Tal postura não é científica: é filosófica. Tal tese não é científica, é filosófica. E é má filosofia: é uma treta de uma tese, como aliás se demonstra facilmente:
1. O adepto do cientismo diz que uma tese só representa um caminho para o conhecimento se houver um método empírico para a testar
2. O adepto do cientismo não apresenta um método empírico para testar a tese que acabou de formular
3. Com essa sua tese inútil e auto-refutatória, o adepto do cientismo não trouxe qualquer conhecimento verdadeiro para a discussão
A incapacidade que o Ludwig parece demonstrar no que toca a traçar fronteiras há muito estabelecidas é patente, mais uma vez, neste trecho:
«Há muito na ciência que não é “causa entre outras causas” nem “ser entre outros seres”, desde o princípio de incerteza de Heisenberg às leis da termodinâmica, e incluindo todas as abstracções lógicas e matemáticas que usamos para construir modelos, como a raiz quadrada de dois ou as funções trigonométricas.»
Eu já nem parto para o debate (perfeitamente razoável) acerca do estatuto das Matemáticas, pois parece-me extremamente abusivo pretender que as Matemáticas façam parte do que hoje em dia se convencionou chamar Ciência, visto que as Matemáticas têm uma autonomia filosófica, e não dependem de confirmações ou refutações empíricas (pela via do método científico) para se susterem como conhecimento válido.
Mas deixando de lado, por agora, as Matemáticas, será que o Ludwig pretende que, por exemplo, o princípio lógico do terceiro excluído é conhecimento científico, no sentido moderno do termo? A lógica não pertence ao domínio da ciência, mas sim ao da filosofia, mais especificamente, ao domínio da metafísica, ou seja, dos primeiros princípios do conhecimento intelectual. Como pretende o Ludwig provar pelo método científico os primeiros princípios? Como se prova em laboratório a lógica clássica? E, para tomar outro exemplo, as verdades de sempre acerca dos silogismos, tão bem estudadas e conhecidas já na Idade Média e mesmo em Aristóteles? Vieram ao conhecimento humano por via do método científico? Como é que eu sei que um silogismo em Barbara é sempre verdadeiro, se as suas teses maior e menor forem verdadeiras? Medi isso com que aparelho?
O sistemático desprezo pela Filosofia, a atitude persistente em ignorar a diferença entre trabalho científico (Ciência) e reflexão filosófica acerca desse mesmo trabalho (Epistemologia) é a marca do adepto da superstição do cientismo, essa simplificação grotesca que pretende que todo o conhecimento humano com pretensão de validade deve estar sob a alçada do método científico.
Se eu fui injusto para com o Ludwig, distorcendo as suas ideias, eu agradecia imenso se ele pudesse ajudar a esclarecer estas questões, mormente a explicar, de uma vez por todas, o que pensa ele da epistemologia e da filosofia, e de que forma vê ele o conhecimento humano no seu todo, incluindo o (mas não limitado ao) conhecimento científico.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Gaston Isaye e a fundamentação rigorosa da metafísica
Eis o livro que me deu a volta à cabeça durante o Verão:
L'affirmation de l'être et les sciences positives
Uma obra pequena, humilde, mas muito sintética e poderosa. Se compreendesse esta obra, e fosse intelectualmente honesto, Dawkins nunca teria escrito um só livro ateísta.
O sonho do padre Isaye era grande, mas belo: montar uma argumentação racional para defender os primeiros princípios da metafísica. Defender de quem? Daqueles que ele chama os “hipercríticos”, ou seja, aqueles loucos que preferem o suicídio intelectual a aceitar a força dos primeiros princípios. Contra esses cépticos irrazoáveis, Isaye lança toda a força do velho método de retorsão, por ele refrescado e actualizado.
Isaye demonstra que o problema do ateísmo, ou seja, da convicção de que não existe um Ser necessário e infinito, é um problema epistemológico, e não lógico. Contra aqueles crentes que procuram o fugitivo argumento ontológico, ou seja, uma forma de provar que o ateísmo é ilógico e o teísmo é logicamente necessário, Isaye segue outra via, muito mais eficaz. Segundo Isaye, a afirmação ateísta é lógica, ou seja, não apresenta contradição interna. Isaye demonstra que o erro do ateísmo está no exercício de fazer afirmações que se pretendem verdadeiras. Então, é “in actu” que o ateu se demonstra incoerente. A frase “Deus não existe” não apresenta contradição interna, assim como a frase “Deus existe” também não a apresenta (ao contrário do que afirmava o pateta do Sartre). O problema, ensina Isaye, não se resolve acusando a outra parte de contradição nos termos das respectivas afirmações. O problema resolve-se analisando filosoficamente o acto de afirmar. E aí, quem sai mal é o ateu. O ateu que pretende afirmar coisas verdadeiras dá um tiro filosófico no pé.
Mais para breve…
L'affirmation de l'être et les sciences positives
Uma obra pequena, humilde, mas muito sintética e poderosa. Se compreendesse esta obra, e fosse intelectualmente honesto, Dawkins nunca teria escrito um só livro ateísta.
O sonho do padre Isaye era grande, mas belo: montar uma argumentação racional para defender os primeiros princípios da metafísica. Defender de quem? Daqueles que ele chama os “hipercríticos”, ou seja, aqueles loucos que preferem o suicídio intelectual a aceitar a força dos primeiros princípios. Contra esses cépticos irrazoáveis, Isaye lança toda a força do velho método de retorsão, por ele refrescado e actualizado.
Isaye demonstra que o problema do ateísmo, ou seja, da convicção de que não existe um Ser necessário e infinito, é um problema epistemológico, e não lógico. Contra aqueles crentes que procuram o fugitivo argumento ontológico, ou seja, uma forma de provar que o ateísmo é ilógico e o teísmo é logicamente necessário, Isaye segue outra via, muito mais eficaz. Segundo Isaye, a afirmação ateísta é lógica, ou seja, não apresenta contradição interna. Isaye demonstra que o erro do ateísmo está no exercício de fazer afirmações que se pretendem verdadeiras. Então, é “in actu” que o ateu se demonstra incoerente. A frase “Deus não existe” não apresenta contradição interna, assim como a frase “Deus existe” também não a apresenta (ao contrário do que afirmava o pateta do Sartre). O problema, ensina Isaye, não se resolve acusando a outra parte de contradição nos termos das respectivas afirmações. O problema resolve-se analisando filosoficamente o acto de afirmar. E aí, quem sai mal é o ateu. O ateu que pretende afirmar coisas verdadeiras dá um tiro filosófico no pé.
Mais para breve…
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Desconfiados do Diabo
Os meus últimos textos sobre o Diabo e sobre os fenómenos demoníacos atraíram a atenção do Ludwig, que dedicou um “post” à questão.
Antes de irmos a esse “post”, uma curta introdução: escrevi esses textos sobre o Diabo, pelas mesmas razões que escrevi outros dedicados ao mesmo tema, e que se encontram no passado deste blogue, sob a etiqueta "Diabo".
Os textos destinam-se a cristãos (mas gosto sempre de ser lido por não cristãos), e as razões são simples: recordar aos cristãos do meu tempo a importância destes aspectos da doutrina, e se o faço é porque me parece importante frisar que eles nunca foram abandonados: há quem pense que sim! O Magistério da Igreja Católica nunca, em momento algum, abandonou a doutrina acerca dos anjos e dos demónios, e em particular, a existência real do Diabo e a sua influência na Criação, e mais especificamente na vida humana, desde o Pecado Original até aos nossos dias (veja-se, como exemplo recente do Magistério, datando de 1985, a instrução sobre o Exorcismo, da Congregação para a Doutrina da Fé). Jesus Cristo menciona o Diabo várias vezes, e a dada altura é mesmo tentado pelo dito. Cristo pratica exorcismos vários. Na oração que Ele ensina aos seus discípulos, o Pai Nosso, a última petição diz assim: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal”. Nunca esta última palavra “Mal” foi interpretada com sendo alegórica ou figurativa. No tempo de Jesus, ninguém duvidaria de que a expressão final era para interpretar como sinónima de “… mas livrai-nos do Maligno”.
Então porquê recordar o que todo o cristão deveria conhecer? É que o materialismo, uma das mais atraentes modas filosóficas contemporâneas, é como a água mole, e faz furos até em pedra dura. Essa doutrina filosófica, mesmo desprovida de fundamento racional, tem vindo a corroer a visão cristã do Mundo. Não são só os não crentes que aderem a ela. Hoje em dia, inúmeros cristãos, alguns mesmo sacerdotes, estão sob o jugo do erro materialista e aderiram à visão redutora que essa filosofia implica. Desse modo, surgem, no nosso tempo, e pela primeira vez na História da Igreja, cristãos que interpretam o Diabo metaforicamente e que não acreditam na realidade dos fenómenos demoníacos!
É então por estas razões que tenho vindo a recordar estes aspectos da doutrina católica. Há quem diga que a crença na existência do Diabo e nos fenómenos demoníacos nos faz parecer ridículos aos olhos do Mundo, e que somos gozados por isso. Ora essa afirmação é espantosa: que outra coisa é o cristianismo senão algo que nos faz parecer ridículos aos olhos do Mundo? Dar a outra face? Amar o inimigo? Morrer pelo outro? Um Deus que Se fez Homem e que Se deixou morrer na cruz para resgatar os pecados da Humanidade? Ao pé destas ideias loucas e radicais, convenhamos que a da existência do Diabo é coisinha pouca.
Tenho sincera pena de todo o cristão que não acredita no Diabo por recear ser gozado pelo Mundo. Provavelmente, esse cristão não acredita no Diabo porque a sua fé se deteriorou e adquiriu um sabor materialista, e o receio do ridículo é só algo que se acrescenta ao materialismo. Já o cristão que entende e vê a doutrina cristã como um todo, quando confrontado com a incompreensão e com a sátira de quem não partilha da mesma fé, que pode fazer? Quando se sabe que algo é verdadeiro, e se é alvo da chacota de quem ainda não chegou lá, que fazer? Podemos encolher os ombros e não fazer nada (atitude pouco cristã), ou então insistir na pertinência e na verdade da doutrina que defendemos.
Mas insisto que é pura tontice um cristão temer contrariar a opinião dos não cristãos. Se teme isso, então está na religião errada, e encontra no imenso espectro das religiões do Mundo uma série de doutrinas que são muito mais “religiosamente correctas” para a ortodoxia contemporânea. No imenso supermercado das multiformes crenças, há toda uma panóplia de tretas de aspecto moderno como a Meditação Transcendental, o Teosofismo, a Cientologia, ou mesmo a mixórdia de meditação e física quântica do Deepak Chopra. Até se pode criar uma fé pessoal que seja um “mix” de várias doutrinas heteróclitas! Monta-se uma fé ao gosto do freguês, e nada melhor para receber os louvores dos nossos pares, e para estarmos alinhados com as telenovelas, as revistas “light” e os romances de Verão.
No entanto, é claro que o cristão sério não quer nada disto, e encara o seu cristianismo como uma doutrina coerente e perfeitamente adequada à realidade, ou seja, verdadeira.
Terminada esta introdução, regressemos ao Ludwig…
Olhando para o “post” do Ludwig, não é fácil encontrar uma metodologia. Claro que o Ludwig pode ter, simplesmente, desabafado por escrito acerca desta questão, sem preocupações rigoristas ou metodológicas. Tem todo o direito. Mas se o “post” dele não apresenta argumentos substanciais contra a existência do Diabo, enquanto que faz críticas rasteirinhas aos argumentos da outra parte (criticando de forma subjectiva, fazendo chacota, equiparando coisas diferentes, minimizando a outra parte, etc.), o debate tende a ficar atolado. Também é justo se o Ludwig não considerar que existe um patamar mínimo para debater, mas eu sei que ele gosta de um bom debate.
Procurando então, na atitude subjacente ao texto do Ludwig, algo de estruturante, penso ter encontrado o que me parece ser central à sua crítica: uma atitude de desconfiança. Essa atitude é perfeitamente consistente com o materialismo do Ludwig, e não se esperava outra coisa de um materialista.
Porque o problema do Ludwig está longe de ser raro, intitulei este texto “Desconfiados do Diabo”. Deliberadamente, deixei de parte a palavra “cépticos” e preferi a palavra “desconfiados”. Convenhamos que um céptico tem sempre mais pinta, e parece mais moderno, do que um desconfiado. Facilmente, com esse tipo de malabarismos eufemísticos, o problema da desconfiança do Ludwig, originado pela sua filosofia materialista, poderia ser comutado, erradamente, numa espécie de virtude do cepticismo do Ludwig. Ora o Ludwig julga que, na raiz da sua desconfiança, está uma atitude racional, que ele confunde com atitude científica. Ora racional é tudo o que é conforme à razão, ou seja, aos ditames da lógica e do pensamento estruturado. O científico é a aplicação dessa atitude racional a tudo o que é empírico. Por definição, a Ciência não trata, nem pode tratar, de explicar fenómenos que ultrapassem a sua própria (e auto-definida) esfera de trabalho. Se uma explicação científica é sempre, por definição, uma explicação que faz uso exclusivo de causas naturais, tudo o que é sobrenatural está fora do seu âmbito.
Ora, por uma estranha patologia do pensamento, aquela cultura cristã que deu origem ao pensamento científico, que de nos deu tantos e tão bons cientistas cristãos desprovidos de preconceitos materialistas, deteriorou-se em poucos séculos apenas, e transformou-se numa subcultura de elites descrentes, tão bem satirizada pelo genial John Cleese:
Essa subcultura manteve a Ciência, mas trocou de filosofia. Trocou a filosofia cristã pela filosofia materialista. Ficou pior com a troca, porque a boa filosofia é crucial para se interpretar Ciência. E aos olhos desta filosofia degenerada, aquilo que a Ciência não trata (as realidades imateriais), simplesmente não existe. Material e real tornam-se sinónimos. Se algo realmente existe, só será reconhecido como tal se for demonstrado cientificamente, ou seja, materialmente. A refutação evidente deste erro é esta: há montes de coisas que experimentamos, e que aos olhos desta filosofia, não deveriam existir. Mas se as experimentamos, é porque existem. Por exemplo, o amor não existe para os materialistas pois não é cientificamente demonstrável. O livre arbítrio também não. Apesar de os materialistas serem capazes de amar e de usarem o seu livre arbítrio para serem materialistas. É esta a patética incoerência da filosofia materialista: ela auto-refuta-se.
Essa subcultura manteve a Ciência, mas trocou de filosofia. Trocou a filosofia cristã pela filosofia materialista. Ficou pior com a troca, porque a boa filosofia é crucial para se interpretar Ciência. E aos olhos desta filosofia degenerada, aquilo que a Ciência não trata (as realidades imateriais), simplesmente não existe. Material e real tornam-se sinónimos. Se algo realmente existe, só será reconhecido como tal se for demonstrado cientificamente, ou seja, materialmente. A refutação evidente deste erro é esta: há montes de coisas que experimentamos, e que aos olhos desta filosofia, não deveriam existir. Mas se as experimentamos, é porque existem. Por exemplo, o amor não existe para os materialistas pois não é cientificamente demonstrável. O livre arbítrio também não. Apesar de os materialistas serem capazes de amar e de usarem o seu livre arbítrio para serem materialistas. É esta a patética incoerência da filosofia materialista: ela auto-refuta-se.
É, então, nesta nova filosofia degenerada que encontra berço a ideia peregrina de que uma explicação científica (material) é equivalente, no sentido de ser o mesmo, a uma explicação racional.
- Explicação científica e explicação racional
A atitude do materialista, exemplificada na visão do Ludwig, é a de rejeitar a existência do Diabo e os fenómenos demoníacos porque não pode haver explicação científica para eles. Apenas esta última parte está correcta: essa explicação não existe nem existirá. A não ser que a Ciência passe a admitir explicações sobrenaturais, o que me parece má ideia. A Ciência chegou onde chegou porque delimitou bem o seu âmbito às causas naturais. Mas nem tudo o que pensamos de forma racional e com qualidade é raciocínio científico. Por exemplo, a Ciência nunca demonstrou, nem demonstrará, a verdade dos princípios da Lógica. Em bom rigor, a Ciência nunca demonstrou, sequer, um teorema matemático, pois os teoremas matemáticos são demonstrados por intelectos humanos, cuja essência é imaterial. Um teorema matemático não é demonstrado pela matéria, mas sim pelo intelecto. Por essa razão, todo o cientista não contaminado pelo materialismo tem a noção do papel superior (na hierarquia do conhecimento) das matemáticas, e do seu carácter imaterial e transcendente. Uma lei matemática não se “monta” com coisas materiais. Ela pode ser descoberta pela observação empírica, ou não. Mas quem descobre é sempre o intelecto, que pode, nalguns casos, fazer uso dos sentidos para obter os necessários dados empíricos. O último teorema de Fermat, recentemente demonstrado em 1995, não foi deduzido de observações empíricas. Já as leis da termodinâmica e as leis de Newton, leis da Física, surgiram pela aplicação do intelecto humano a observações empíricas. O movimento começa na indução: o cientista intui a lei científica, e depois procura refutá-la ou confirmá-la. Deduz dela previsões e compara as previsões com medições. Não parte da dedução, ou seja, fazendo surgir uma lei directamente a partir de dados empíricos. A descoberta de uma nova lei científica não nasce de um somar de dados materiais, ela é feita no intelecto e principia com uma intuição.
Mas regressemos à Matemática: ela é uma área racional do saber humano que não parte, nem se apoia, em processos materiais. Logo, as verdades matemáticas caem fora da esfera das explicações científicas.
Mas regressemos à Matemática: ela é uma área racional do saber humano que não parte, nem se apoia, em processos materiais. Logo, as verdades matemáticas caem fora da esfera das explicações científicas.
Responde o materialista: “mas hoje há computadores que demonstram teoremas matemáticos! Logo, até a matemática é material como o computador”. Pobre materialista: esses computadores não são mais do que complexos emaranhados de interruptores microscópicos, auxiliados por suportes físicos de memória: eles executam demonstrações previamente preparadas pelos respectivos programadores, e fazem-no com base em regras de sintaxe: nada sabem de semântica, e para eles, demonstrar um teorema ou montar um vídeo caseiro tem o mesmo significado. Os computadores não têm real inteligência, e trabalham graças ao engenho do intelecto humano. A real inteligência é a humana, e é imaterial. É que há certas e determinadas verdades matemáticas que o intelecto humano demonstrou serem verdadeiras, enquanto que um computador nunca o conseguirá fazer. O matemático austríaco Kurt Gödel, nos seus teoremas da incompletude, demonstrou de forma brilhante que, num sistema formal consistente, existem proposições indecidíveis com base nas regras e nos axiomas do sistemas, mas que o matemático demonstrou serem, não obstante, verdadeiras. Reflectindo filosoficamente sobre o alcance dos resultados do trabalho de Gödel, chegamos à conclusão (como o filósofo John Lucas e o físico Roger Penrose) de que o nosso intelecto não pode ser apenas um computador biológico (material) sofisticado, visto que somos capazes de atingir verdades matemáticas impossíveis de serem obtidas por formalização matemática (ou computacional). O nosso intelecto, mesmo que no futuro possa ser demonstrado como mais lento ou com menos memória quando comparado com um computador avançado, vai sempre ser capaz de ir mais longe, em termos de poder gnoseológico, que esse computador: é esta a necessária conclusão filosófica a tirar do trabalho de Gödel.
Mas regressemos às explicações racionais…
Há, também, outro tipo de explicações racionais: as explicações pessoais. Quando eu decido, a seguir ao almoço, comer um gelado, não está por detrás dessa opção nenhuma lei cósmica ou matemática. A opção livre de comer um gelado não está no âmbito da Ciência e nunca poderá estar. É uma opção livre de um intelecto livre. E é também uma opção racional: para satisfazer um desejo, toma-se a opção que o irá, realmente, satisfazer: age-se de forma estruturada e consistente com vista ao fim determinado previamente. O materialista, esse sim, refém de uma filosofia pobrezinha, tem que admitir ser escravo de umas quaisquer leis cósmicas que o levam a comer um gelado depois do almoço. Em bom rigor, o pobre do materialista é forçado, assim lhe exige a sua filosofia, a admitir que ele mesmo é materialista por causa de determinismos no seu cérebro. O materialista não tem qualquer base filosófica para afirmar que o materialismo é verdadeiro, pois afinal, tudo o que o materialista pensa, diz e faz, está determinado pela matéria.
Podíamos dar inúmeros exemplos: a convicção de que o Universo está regido por leis, convicção essa reforçada (mas nunca provada) pelas observações empíricas, nunca pode ser uma certeza: poderíamos viver num Universo “matrix”, no qual dados empíricos adulterados seriam induzidos no nosso intelecto por uma rede sofisticada de mecanismos de engano. Obviamente, ninguém no seu juízo acredita num Universo “matrix”, e este é um exemplo de convicção racional, mas não demonstrada cientificamente. Usei a palavra convicção para ser mais facilmente compreendido, mas poderia ter usado a palavra “fé”. Temos fé em como não vivemos num Universo “matrix”, como temos fé em como vivemos num Universo explicável por leis estáveis e constantes. São tipos perfeitamente racionais de fé. Aceitamo-los de forma axiomática e dogmática, não os questionamos (se quisermos manter a sanidade mental), mas não os podemos demonstrar cientificamente.
- O lugar da confiança nas explicações racionais
“Enquanto não vir, não acredito”. Este vício do intelecto, ilustrado pela conhecida história de São Tomé, que duvidava da ressurreição do Divino Mestre só porque ainda não O vira ressuscitado, é um vício de sempre. Por isso, as palavras de Cristo, “Felizes os que crêem sem terem visto” são palavras sempre úteis, e hoje em dia, quem sabe ainda mais úteis. Evidentemente, não se pede, nem se defende, que se acredite em tudo. Cristo não pede uma suspensão da razão, mas sim uma suspensão da desconfiança, quando há boas razões para tal. Deve-se, então, confiar em tudo e em todos? De forma alguma. O mesmo Cristo diz-nos para sermos “prudentes como as serpentes”. O cristianismo é sempre uma tensão entre dois pólos positivos: confiança e prudência, fé e razão, contemplação e acção, e assim por diante. Se juntarmos os dois conselhos cristãos atrás referidos, o da confiança e o da prudência, temos então a conclusão racional de que só devemos entregar a nossa confiança a quem julgamos merecê-la, e devemos ser prudentes nesse juízo.
O estilo de escrita do Ludwig passa uma mensagem de confusão: "... apesar do feitiço ser simples a bruxaria só funciona...", escreve. O Ludwig pensa que entre a demonologia dos cristãos e o professor Karamba não há grande diferença. Isso confunde tudo, pois mascara as reais e cruciais diferenças:
a) O professor Karamba cobra, e o exorcista não;
b) O professor Karamba diz que a sua pessoa tem poderes mágicos especiais, enquanto que o exorcista diz que todo o poder vem de Cristo;
c) O objectivo dos métodos do professor Karamba pode ser instrumental (ganhar dinheiro, ter sorte no amor, prever o futuro, etc.), enquanto que o objectivo do exorcista nunca é instrumental (em caso algum se faz um exorcismo se não for apenas para curar alguém de influências demoníacas);
d) A Igreja Católica, e consequentemente o exorcista, sempre condenou as práticas mágicas; para a Igreja, não há boa magia, toda a magia é má; para o professor Karamba, a magia que ele faz é boa;
e) Os métodos do professor Karamba não estão assentes numa filosofia coerente e que pretenda explicar toda a realidade, quer visível quer invisível; o exorcista assenta os seus métodos na filosofia cristã (veja-se São Tomás de Aquino), pelo que as explicações dos fenómenos demonológicos e da eficácia dos exorcismos encontram explicações racionais na filosofia e na teologia cristã, explicações que se encaixam na visão global do cristianismo;
f) O professor Karamba é um recém-chegado; o cristianismo anda nisto há 2.000 anos; os Bispos da Igreja Católica, os únicos dotados de autoridade de nomear exorcistas, conseguem traçar a sua sucessão apostólica, indicando nome a nome os seus antecessores, até aos Apóstolos e Jesus Cristo; e o professor Karamba?
g) O exorcista colabora sempre com os médicos e não interfere com o seu trabalho; o exorcista nunca trata com o exorcismo aqueles casos que são do foro psiquiátrico ou fisiológico, pois ele respeita o âmbito dos saberes científicos: ele sabe que um fenómeno psiquiátrico ou fisiológico tem causas naturais, pelo que o exorcismo nesses casos é inútil; o professor Karamba, ao invés, pretende estar na posse de uma “ciência oculta” que dispensa totalmente as ciências positivas.
E poderia elencar mais, e mais…
O Padre Amorth é o exorcista de Roma, a diocese do sucessor de Pedro. Tem aprovação e mandato directo do seu superior, o Bispo de Roma, o Papa Bento XVI. O professor Karamba mete os anúncio dos seus serviços no Destak. Para o Ludwig, tudo isto são diferenças menores, mas para outras pessoas, as diferenças são abissais.
Essas diferenças abissais permitem a qualquer cristão atribuir confiança a um exorcista, que para mais, é designado caso a caso por um Bispo. O exorcista encaixa numa hierarquia, e está sujeito a vários mecanismos de controlo interno. O professor Karamba é um “free lancer”: não tem cartas de patente, não se sabe de onde vem, ao que vem, nem para onde vai. Por tudo isto, o Padre Amorth, e os exorcistas em geral, merecem confiança. Pelo menos, muito mais confiança do que os professores Karamba desta vida.
- Duas formas diferentes de explicar os fenómenos demonológicos e a eficácia dos exorcismos
a) Para o cristão, a coisa é simples, e sempre foi simples, desde que Cristo o exemplificou: o exorcista é eficaz graças a Cristo, que realmente é o agente do exorcismo e da cura: é a Ele que os demónios temem; exorcisar, neste caso, nada mais é do que invocar Jesus Cristo para libertar alguém de influências demoníacas, ou nos casos mais graves, para libertar alguém de possessão demoníaca; o cristão não se admira quando ouve relatos de exorcismos nos quais ele não participou, pois o cristão sabe que Cristo exorcizou e que a história da Igreja está repleta de casos de exorcismo, e que eles têm explicação filosófica e teológica
b) Para o materialista, a coisa também é simples: ou os exorcistas mentem conscientemente, ou então mentem inconscientemente; ou seja, ou são aldrabões, ou são vítimas de alucinações (são loucos)
Como se vê, o materialista, neste caso o Ludwig, não explica nada. A explicação que ele nos quer dar, e que devemos supostamente aceitar, renegando a nossa fé, é uma explicação tonta, que consiste em achar que os outros é que são tontos. Curiosamente, justificaríamos então a nossa estreiteza filosófica de vistas com base em patologias atribuídas arbitrariamente a outras pessoas. É a velha máxima: “os outros é que são os malucos”.
O materialismo força o Ludwig a rejeitar uma explicação decente, só porque ela não se coaduna com a filosofia que ele decidiu adoptar, sem explicar essa opção. Pelo contrário, o cristão é muito mais sensato: em momento algum, o cristão considera impossíveis as explicações dos materialistas, pois realmente não é impossível que todos os exorcistas fossem aldrabões ou loucos, ou ambas as coisas. E a tese do Ludwig até poderia ser testada cientificamente: o detective demonstrava, caso a caso, a aldrabice dos exorcistas aldrabões, e o psiquiatra demonstrava, caso a caso, a loucura dos exorcistas loucos.
No entanto, o cristão é sensato: ele prefere uma simples explicação sobrenatural para os fenómenos demonológicos do que uma rebuscada explicação científica para os ditos. O cristão sabe que ninguém tem tempo para demonstrar a tese do Ludwig, e que nem vale a pena fazê-lo, pois é uma tese que não faz muito sentido.
À laia de síntese, o Ludwig poderia afirmar: “tu nunca viste fenómenos sobrenaturais, e por isso não devias acreditar neles, e eu só acredito neles se os vir”. Mas isso é um tiro ao lado. Eu não preciso de ver tudo o que é real, para saber o que é real. Isso é, mais uma vez, um “a priori” filosófico, o de achar que apenas o empírico, o experimentável sensorialmente, é que é real. E, caso o Ludwig, ou qualquer outro materialista, visse fenómenos sobrenaturais, caso eles acompanhassem um exorcista e o vissem em acção, de nada serviria tal experiência pessoal, se eles mantivessem a sua filosofia materialista. É que um materialista, ao ver um exorcismo, pode manter-se materialista e arranjar a sua explicação naturalista para aquilo que ele está a ver, a cheirar ou a ouvir. Neste caso, e em qualquer caso, presenciar um fenómeno natural de causa sobrenatural não é suficiente para curar um materialista desse vírus mental, pois o vírus é resistente: o materialista, de forma circular, vai dizer que aquilo que ele viu, cheirou e ouviu tem que ser explicado por causas naturais. E porquê? Porque, segundo o materialismo, só há causas naturais. E porquê? Porque, segundo o materialismo, só é real o que é demonstrado cientificamente, e como a Ciência só trabalha sobre causas naturais, não há causas sobrenaturais. E assim por diante…
Toda uma existência explicada pelo materialismo!
Grande programa, o desta filosofia da treta que se auto-refuta, pois o materialista não tem livre arbítrio para atingir a verdade sobre o que quer que seja: para o materialista coerente, o seu materialismo não é nem verdadeiro nem falso, é aquela conclusão à qual ele chega pelo labutar interno do seu cérebro, ou seja, pela actividade electroquímica dos seus neurónios, e em última análise, pelas leis da Física. O neurónio faz surgir o raciocínio científico sobre neurónios, que por sua vez, explicam o neurónio. Esta é a triste circularidade de uma filosofia que abdicou da razão livre e da procura da verdade, seja ela qual for…
quarta-feira, 30 de junho de 2010
O estatuto ético do zigoto humano
Com vista ao enriquecimento do debate ético em torno do estatuto ético do zigoto humano, e na defesa do direito à vida do ser humano deste a sua concepção (fertilização do óvulo pelo espermatozóide) até à morte, apresento do lado direito deste blogue, na secção "Artigos em PDF", um pequeno texto de três páginas intitulado O estatuto ético do zigoto humano.
É um texto curto, que não está preparado para responder a todas as objecções provenientes dos defensores do direito ao aborto em geral. Para responder a essas objecções, já existem, na mesma secção "Artigos em PDF", outros textos extensos e detalhados.
Este novo texto pretende ser uma síntese do direito à vida desde a concepção, centrada no reconhecimento do direito à vida do zigoto humano, e baseada apenas em argumentação racional (científica e filosófica).
O texto pode ser útil para:
a) rebater a má argumentação dos defensores do direito ao aborto
b) rebater a má argumentação dos defensores da legitimidade da destruição de zigotos e embriões humanos
c) rebater todos aqueles que dizem que a defesa do direito à vida desde a concepção é sempre feita com base em argumentação religiosa ou teológica, e que não há argumentos científicos ou filosóficos para sustentar essa posição: como se vê, isso é falso
Como sempre, agradeço aos pacientes leitores deste novo texto toda a sugestão de correcção ou melhoramento que me queiram fazer.
PS: Aqui há tempos, escrevi um texto para rebater a ideia errada de que a defesa do direito à vida desde a concepção implicaria o direito à vida de todo o tipo de célula humana. Aqui fica, por comodidade, o dito texto: Aborto e clonagem.
PS2: Hoje, dia 2 de Julho, actualizei a versão do artigo O estatuto ético do zigoto humano, com pequenas correcções e melhorias na linguagem.
É um texto curto, que não está preparado para responder a todas as objecções provenientes dos defensores do direito ao aborto em geral. Para responder a essas objecções, já existem, na mesma secção "Artigos em PDF", outros textos extensos e detalhados.
Este novo texto pretende ser uma síntese do direito à vida desde a concepção, centrada no reconhecimento do direito à vida do zigoto humano, e baseada apenas em argumentação racional (científica e filosófica).
O texto pode ser útil para:
a) rebater a má argumentação dos defensores do direito ao aborto
b) rebater a má argumentação dos defensores da legitimidade da destruição de zigotos e embriões humanos
c) rebater todos aqueles que dizem que a defesa do direito à vida desde a concepção é sempre feita com base em argumentação religiosa ou teológica, e que não há argumentos científicos ou filosóficos para sustentar essa posição: como se vê, isso é falso
Como sempre, agradeço aos pacientes leitores deste novo texto toda a sugestão de correcção ou melhoramento que me queiram fazer.
PS: Aqui há tempos, escrevi um texto para rebater a ideia errada de que a defesa do direito à vida desde a concepção implicaria o direito à vida de todo o tipo de célula humana. Aqui fica, por comodidade, o dito texto: Aborto e clonagem.
PS2: Hoje, dia 2 de Julho, actualizei a versão do artigo O estatuto ético do zigoto humano, com pequenas correcções e melhorias na linguagem.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
A noção filosófica de "forma substancial"
Preâmbulo
Ensina a escolástica que a "alma humana" é a "forma substancial" do ser humano.
A palavra "alma" tornou-se, nos dias de hoje, num alçapão linguístico. Não por culpa do termo em si, certamente, mas devido à ignorância filosófica. Crentes usam-na sem conhecer as suas raízes filosóficas, não crentes repudiam-na como se se tratasse de jargão supersticioso e obscuro. A ignorância está na base destas atitudes erradas.
É, por isso, cada vez mais premente a recuperação das bases filosóficas do conceito, a defesa da justeza dessas bases, e o vincar da importância do mesmo, sobretudo no diálogo entre filosofia e ciência.
Filosofia e Ciência
A filosofia e a ciência são companheiras no eterno trabalho de estudo do mundo natural. Uma não serve para nada sem a outra.
A base da ciência é empírica: está no uso dos sentidos para obter informação sobre a realidade sensível que nos rodeia. A evolução tecnológica tem permitido levar as fronteiras dos sentidos do ser humano para limites surpreendentes, sendo hoje possível descobrir com os mesmos cinco sentidos aspectos da realidade que desconhecíamos por completo. No entanto, a evolução tecnológica não altera em nada o carácter empírico da ciência.
A base da filosofia é intelectual: está no uso da razão humana para compreender, compilar, unificar e estruturar o conhecimento científico.
Certos cientistas trabalham sem se darem conta de que, no dia-a-dia, filosofam (bem ou mal) sobre dados empíricos.
Por outro lado, certos filósofos especulam "ad libitum" sem se preocuparem com o confronto das suas teorias com os dados empíricos.
Este "divórcio", na prática, entre os dois pilares do conhecimento humano tem gerado dissabores, equívocos e atrasos no seu desejável progresso.
A alma e os seus vários tipos
Antes de passarmos à questão filosófica da forma substancial, há que fazer alguns esclarecimentos sobre terminologia, no âmbito do quadro filosófico que defendemos (que é o da filosofia clássica tomista-aristotélica).
Como se disse, a alma humana é a forma substancial do ser humano. Mas a alma, em geral, é a forma substancial dos seres vivos.
O termo "alma" vem do latim "anima". Todo o ser vivo tem alma, porque todo o ser vivo está animado por definição (está vivo). A alma distingue o ser vivo da matéria inanimada. No entanto, há diferenças importantes nos vários tipos de alma, consoante as faculdades que esta apresenta em cada classe de ser vivo.
Há seres vivos cuja actividade fisiológica apenas consiste na nutrição e na reprodução: é o caso dos membros do reino vegetal.
Há seres vivos cuja actividade fisiológica, para além da nutrição e da reprodução, inclui ainda a locomoção e a sensação (o uso dos sentidos): é o caso dos membros do reino animal. Alguns dos membros deste reino têm ainda faculdades de memória, que lhes permitem armazenar no seu sistema neuronal determinados padrões obtidos por via sensorial. O chamado "instinto" impele estes animais a executar certas acções quando um determinado padrão sensorial se lhes apresenta, sem que no entanto exista intelecção e compreensão desses padrões.
Por fim, há seres vivos que, para além de tudo isto, ainda apresentam actividade intelectiva e racional: é o caso (único) dos seres humanos. São os únicos seres capazes de abstracção intelectual, ou seja, de formar ideias abstractas que transcendem os dados empíricos.
Forma substancial e alma
A forma substancial, termo filosófico, designa a forma (composição, arranjo, estrutura) única e irrepetível de um dado agregado material. Na tradição filosófica clássica, a forma substancial dos seres vivos recebe o nome de "alma".
A forma substancial é uma realidade indetectável pelos sentidos, ou seja, só é "detectada" com o raciocínio filosófico próprio do intelecto humano. Por isso, a forma substancial não é um termo científico, mas sim filosófico. Não pode ser provada pelo método científico, mas é demonstrável como necessária e essencial para o pensamento humano.
Estamos em crer que o equívoco fatal do Intelligent Design, não obstante tratar-se de uma sugestão interessante e merecedora de atenção, está em procurar provas empíricas para a realidade filosófica que é a forma substancial das coisas (neste caso, dos seres vivos).
Forma substancial como princípio da individuação
A noção filosófica de individuação está em crise na filosofia moderna, mas não há razões de fundo para tal, senão a incompreensão de muitos filósofos modernos.
1. É possível individuar alguma entidade? Por exemplo, um átomo de Hidrogénio?
Não só é possível como é forçoso. A actividade intelectiva do ser humano está dependente da sua capacidade inata para distinguir coisas, mesmo quando pertecem a uma mesma categoria (real ou artificial). Uma certa corrente filosófica, bem antiga mas que costuma ressurgir de tempos a tempos com novas vestes, quis afirmar que as distinções eram todas artificiais, e que as coisas que nos pareciam diferentes eram, afinal, parte de um mesmo Todo indistinto.
Ora, isto é um absurdo: é razoável defender a distinção das coisas como uma realidade concreta, que o nosso intelecto é capaz de apreender, contra quem defende que as distinções são subjectivas, ou seja, são criações do nosso intelecto subjectivo. No entanto, é inegável que este trabalho de distinção, apoiando-se nos sentidos, é um trabalho filosófico.
É possível falar de uma entidade, enquanto tal, atendendo aos conceitos de "coesão" e de "estabilidade". Se uma dada entidade permanece estavelmente coesa, por muito ou por pouco tempo, mesmo usando o actual sentido da palavra "estabilidade" na moderna Teoria do Controlo, então essa entidade tende a realimentar negativamente toda e qualquer perturbação externa até certo limite. Por exemplo: nos animais ditos de "sangue quente", uma perturbação como a descida ou subida da temperatura ambiente é compensada por mecanismos internos de regulação térmica, que permitem que a temperatura do corpo não saia do seu valor estável. É através da compensação de perturbações que o ser vivo consegue resistir, coeso, a factores exteriores que o poderiam destruir. Algo de análogo sucede com a estabilidade de entidades inanimadas: é pela força da atracção gravítica gerada pelo campo gravítico da Terra que esta se mantém coesa e não se desfaz no vazio do espaço. É essa capacidade de auto-preservação que marca a fronteira entre uma entidade e outra, e que nos permite que as consigamos distinguir.
É evidente que tanto o ser vivo, como a Terra, como o átomo de Hidrogénio, todos têm um tempo de existência finito, seja ele pequeno ou grande. Enquanto um determinado átomo de Hidrogénio mantiver estável a sua coesão, poder-se-á falar "nesse átomo", ou "desse átomo": ele está individuado.
2. Como se individua um determinado átomo de Hidrogénio perante outros átomos de Hidrogénio?
Não pode ser com base apenas na sua posição no tempo ou no espaço. Isso não basta. Suponhamos que fixamos a nossa atenção numa zona limitada do espaço. Um observador que vigie esse espaço num instante t1 e lá veja um átomo de Hidrogénio poderia depois fechar os olhos e vigiar o mesmo espaço mais tarde no instante t2. Se visse de novo um átomo de Hidrogénio, estaria a ver o mesmo, mas noutra posição (ou na mesma), ou estaria perante um átomo diferente do que viu no início?
Poderíamos dizer que, com a precisão suficiente, seria possível diferenciar os átomos: afinal, poderíamos usar, para os distinguir, factores de medida como a distância do electrão ao núcleo, ou a evolução temporal da trajectória do mesmo. Mas, por muito improvável que tal seja, poderia dar-se o caso de tais factores serem idênticos nos dois casos. Em todo o caso, tais distinções, à escala atómica, são muito difíceis, entre outras razões, por causa do princípio da incerteza de Heisenberg, e à nossa escala, são também muito difíceis pela complexidade material das coisas que nos rodeiam. Sabemos distinguir uma maçã de uma pêra. Mas, perante maçãs idênticas, com a mesma cor, com o mesmo peso, sem diferenças macroscópicas, temos um problema: só uma análise mais detalhada permite uma distinção segura. E o problema não é apenas distinguir, mas saber que a maçã A, aqui e agora, será reconhecida como a mesma maçã A, noutro local e noutro tempo. Atrelado ao problema da distinção, costuma vir o da correlação.
É por isso que a simples observação, por muito sofisticada, precisa e potente que seja, não chega para a individuação. A observação tem limites. Duas coisas distintas podem ser tão parecidas entre elas que iludem as nossas faculdades de observação. Deve-se defender, em filosofia, um realismo moderado, no qual as coisas tenham existência real, independentemente de nós as conseguirmos observar, bem ou mal, ou de nós as conseguirmos distinguir, bem ou mal. Mesmo que tivéssemos maus aparelhos de medida, uma maçã que fosse metida num navio de Lisboa para Nova Iorque seria a mesma maçã em Nova Iorque que era em Lisboa, mesmo que lá ninguém a conseguisse identificar como a maçã que saiu de cá.
O que distingue um átomo de Hidrogénio de outro átomo de Hidrogénio, ou o que distingue uma maçã de outra maçã, é a forma substancial. A forma substancial é o princípio da individuação. É a causa filosófica que faz uma coisa ser única e individual, mesmo que essa coisa possa pertencer a uma classe ou categoria de coisas com uma ou mais propriedades comuns.
Estamos a entrar na crítica questão filosófica dos "universais". Categorias como "maçãs" ou "pêras" são categorias reais ou são meras convenções humanas? Não falamos dos nomes que damos às categorias, mas sim das próprias categorias. Se aceitamos os "universais" como categorias de coisas com propriedades em comum, então é fundamental que tomemos algum princípio de individuação das várias instâncias dentro de uma categoria. Esse princípio é que nos salva de não confundir, filosoficamente, uma maçã com outra parecida, dentro da categoria das maçãs.
Conclusão
Vimos como a forma substancial é o conceito filosófico chave que permite individuar coisas materiais. E vimos que a forma substancial não é perceptível pelos sentidos (apesar de estes "alimentarem" a sua "detecção" intelectual). Por esta razão, a necessidade das formas substanciais (já vimos que são necessárias) serve como argumento anti-materialista. Se há certas coisas reais (como as formas substanciais) que não se percepcionam de forma suficiente pelos sentidos, ou seja, se a interacção física entre os nossos sistemas sensoriais e as coisas físicas não é suficiente para percepcionarmos as formas substanciais, então estas são imateriais, e o materialismo está errado.
Vimos também que as coisas são, elas mesmas, individuais, independentemente de nós as conseguirmos individuar através dos nossos sentidos e intelectos. E vimos ainda que certas coisas podem estar naturalmente correlacionadas em categorias de propriedades que partilham entre si, independentemente dos nomes que os seres humanos dão a tais categorias ou às propriedades partilhadas.
No caso concreto do ser humano, é o conceito de forma substancial que "salva" a eventual confusão entre gémeos verdadeiros que possuem códigos genéticos idênticos. Se a simples manifestação de um dado código genético fosse suficiente para individuar o ser humano, então os gémeos verdadeiros seriam um mesmo indivíduo, e o mesmo sucederia com um dado ser humano e um seu clone. E, como já vimos, as coordenadas que um ser humano ocupa, ao longo da sua vida, no tempo e no espaço, não servem como factor decisivo na individuação.
Assim, mesmo perante clones, ou mesmo perante gémeos verdadeiros, estamos perante dois indivíduos distintos: não o sabemos graças aos sentidos, ou aos instrumentos científicos, ou ao método científico. É graças ao raciocínio filosófico, que percepciona intelectualmente a forma substancial (partindo de dados empíricos, é certo), que sabemos com segurança que cada ser humano, mesmo que seja um clone de outro ser humano, é sempre único e irrepetivel.
Ensina a escolástica que a "alma humana" é a "forma substancial" do ser humano.
A palavra "alma" tornou-se, nos dias de hoje, num alçapão linguístico. Não por culpa do termo em si, certamente, mas devido à ignorância filosófica. Crentes usam-na sem conhecer as suas raízes filosóficas, não crentes repudiam-na como se se tratasse de jargão supersticioso e obscuro. A ignorância está na base destas atitudes erradas.
É, por isso, cada vez mais premente a recuperação das bases filosóficas do conceito, a defesa da justeza dessas bases, e o vincar da importância do mesmo, sobretudo no diálogo entre filosofia e ciência.
Filosofia e Ciência
A filosofia e a ciência são companheiras no eterno trabalho de estudo do mundo natural. Uma não serve para nada sem a outra.
A base da ciência é empírica: está no uso dos sentidos para obter informação sobre a realidade sensível que nos rodeia. A evolução tecnológica tem permitido levar as fronteiras dos sentidos do ser humano para limites surpreendentes, sendo hoje possível descobrir com os mesmos cinco sentidos aspectos da realidade que desconhecíamos por completo. No entanto, a evolução tecnológica não altera em nada o carácter empírico da ciência.
A base da filosofia é intelectual: está no uso da razão humana para compreender, compilar, unificar e estruturar o conhecimento científico.
Certos cientistas trabalham sem se darem conta de que, no dia-a-dia, filosofam (bem ou mal) sobre dados empíricos.
Por outro lado, certos filósofos especulam "ad libitum" sem se preocuparem com o confronto das suas teorias com os dados empíricos.
Este "divórcio", na prática, entre os dois pilares do conhecimento humano tem gerado dissabores, equívocos e atrasos no seu desejável progresso.
A alma e os seus vários tipos
Antes de passarmos à questão filosófica da forma substancial, há que fazer alguns esclarecimentos sobre terminologia, no âmbito do quadro filosófico que defendemos (que é o da filosofia clássica tomista-aristotélica).
Como se disse, a alma humana é a forma substancial do ser humano. Mas a alma, em geral, é a forma substancial dos seres vivos.
O termo "alma" vem do latim "anima". Todo o ser vivo tem alma, porque todo o ser vivo está animado por definição (está vivo). A alma distingue o ser vivo da matéria inanimada. No entanto, há diferenças importantes nos vários tipos de alma, consoante as faculdades que esta apresenta em cada classe de ser vivo.
Há seres vivos cuja actividade fisiológica apenas consiste na nutrição e na reprodução: é o caso dos membros do reino vegetal.
Há seres vivos cuja actividade fisiológica, para além da nutrição e da reprodução, inclui ainda a locomoção e a sensação (o uso dos sentidos): é o caso dos membros do reino animal. Alguns dos membros deste reino têm ainda faculdades de memória, que lhes permitem armazenar no seu sistema neuronal determinados padrões obtidos por via sensorial. O chamado "instinto" impele estes animais a executar certas acções quando um determinado padrão sensorial se lhes apresenta, sem que no entanto exista intelecção e compreensão desses padrões.
Por fim, há seres vivos que, para além de tudo isto, ainda apresentam actividade intelectiva e racional: é o caso (único) dos seres humanos. São os únicos seres capazes de abstracção intelectual, ou seja, de formar ideias abstractas que transcendem os dados empíricos.
Forma substancial e alma
A forma substancial, termo filosófico, designa a forma (composição, arranjo, estrutura) única e irrepetível de um dado agregado material. Na tradição filosófica clássica, a forma substancial dos seres vivos recebe o nome de "alma".
A forma substancial é uma realidade indetectável pelos sentidos, ou seja, só é "detectada" com o raciocínio filosófico próprio do intelecto humano. Por isso, a forma substancial não é um termo científico, mas sim filosófico. Não pode ser provada pelo método científico, mas é demonstrável como necessária e essencial para o pensamento humano.
Estamos em crer que o equívoco fatal do Intelligent Design, não obstante tratar-se de uma sugestão interessante e merecedora de atenção, está em procurar provas empíricas para a realidade filosófica que é a forma substancial das coisas (neste caso, dos seres vivos).
Forma substancial como princípio da individuação
A noção filosófica de individuação está em crise na filosofia moderna, mas não há razões de fundo para tal, senão a incompreensão de muitos filósofos modernos.
1. É possível individuar alguma entidade? Por exemplo, um átomo de Hidrogénio?
Não só é possível como é forçoso. A actividade intelectiva do ser humano está dependente da sua capacidade inata para distinguir coisas, mesmo quando pertecem a uma mesma categoria (real ou artificial). Uma certa corrente filosófica, bem antiga mas que costuma ressurgir de tempos a tempos com novas vestes, quis afirmar que as distinções eram todas artificiais, e que as coisas que nos pareciam diferentes eram, afinal, parte de um mesmo Todo indistinto.
Ora, isto é um absurdo: é razoável defender a distinção das coisas como uma realidade concreta, que o nosso intelecto é capaz de apreender, contra quem defende que as distinções são subjectivas, ou seja, são criações do nosso intelecto subjectivo. No entanto, é inegável que este trabalho de distinção, apoiando-se nos sentidos, é um trabalho filosófico.
É possível falar de uma entidade, enquanto tal, atendendo aos conceitos de "coesão" e de "estabilidade". Se uma dada entidade permanece estavelmente coesa, por muito ou por pouco tempo, mesmo usando o actual sentido da palavra "estabilidade" na moderna Teoria do Controlo, então essa entidade tende a realimentar negativamente toda e qualquer perturbação externa até certo limite. Por exemplo: nos animais ditos de "sangue quente", uma perturbação como a descida ou subida da temperatura ambiente é compensada por mecanismos internos de regulação térmica, que permitem que a temperatura do corpo não saia do seu valor estável. É através da compensação de perturbações que o ser vivo consegue resistir, coeso, a factores exteriores que o poderiam destruir. Algo de análogo sucede com a estabilidade de entidades inanimadas: é pela força da atracção gravítica gerada pelo campo gravítico da Terra que esta se mantém coesa e não se desfaz no vazio do espaço. É essa capacidade de auto-preservação que marca a fronteira entre uma entidade e outra, e que nos permite que as consigamos distinguir.
É evidente que tanto o ser vivo, como a Terra, como o átomo de Hidrogénio, todos têm um tempo de existência finito, seja ele pequeno ou grande. Enquanto um determinado átomo de Hidrogénio mantiver estável a sua coesão, poder-se-á falar "nesse átomo", ou "desse átomo": ele está individuado.
2. Como se individua um determinado átomo de Hidrogénio perante outros átomos de Hidrogénio?
Não pode ser com base apenas na sua posição no tempo ou no espaço. Isso não basta. Suponhamos que fixamos a nossa atenção numa zona limitada do espaço. Um observador que vigie esse espaço num instante t1 e lá veja um átomo de Hidrogénio poderia depois fechar os olhos e vigiar o mesmo espaço mais tarde no instante t2. Se visse de novo um átomo de Hidrogénio, estaria a ver o mesmo, mas noutra posição (ou na mesma), ou estaria perante um átomo diferente do que viu no início?
Poderíamos dizer que, com a precisão suficiente, seria possível diferenciar os átomos: afinal, poderíamos usar, para os distinguir, factores de medida como a distância do electrão ao núcleo, ou a evolução temporal da trajectória do mesmo. Mas, por muito improvável que tal seja, poderia dar-se o caso de tais factores serem idênticos nos dois casos. Em todo o caso, tais distinções, à escala atómica, são muito difíceis, entre outras razões, por causa do princípio da incerteza de Heisenberg, e à nossa escala, são também muito difíceis pela complexidade material das coisas que nos rodeiam. Sabemos distinguir uma maçã de uma pêra. Mas, perante maçãs idênticas, com a mesma cor, com o mesmo peso, sem diferenças macroscópicas, temos um problema: só uma análise mais detalhada permite uma distinção segura. E o problema não é apenas distinguir, mas saber que a maçã A, aqui e agora, será reconhecida como a mesma maçã A, noutro local e noutro tempo. Atrelado ao problema da distinção, costuma vir o da correlação.
É por isso que a simples observação, por muito sofisticada, precisa e potente que seja, não chega para a individuação. A observação tem limites. Duas coisas distintas podem ser tão parecidas entre elas que iludem as nossas faculdades de observação. Deve-se defender, em filosofia, um realismo moderado, no qual as coisas tenham existência real, independentemente de nós as conseguirmos observar, bem ou mal, ou de nós as conseguirmos distinguir, bem ou mal. Mesmo que tivéssemos maus aparelhos de medida, uma maçã que fosse metida num navio de Lisboa para Nova Iorque seria a mesma maçã em Nova Iorque que era em Lisboa, mesmo que lá ninguém a conseguisse identificar como a maçã que saiu de cá.
O que distingue um átomo de Hidrogénio de outro átomo de Hidrogénio, ou o que distingue uma maçã de outra maçã, é a forma substancial. A forma substancial é o princípio da individuação. É a causa filosófica que faz uma coisa ser única e individual, mesmo que essa coisa possa pertencer a uma classe ou categoria de coisas com uma ou mais propriedades comuns.
Estamos a entrar na crítica questão filosófica dos "universais". Categorias como "maçãs" ou "pêras" são categorias reais ou são meras convenções humanas? Não falamos dos nomes que damos às categorias, mas sim das próprias categorias. Se aceitamos os "universais" como categorias de coisas com propriedades em comum, então é fundamental que tomemos algum princípio de individuação das várias instâncias dentro de uma categoria. Esse princípio é que nos salva de não confundir, filosoficamente, uma maçã com outra parecida, dentro da categoria das maçãs.
Conclusão
Vimos como a forma substancial é o conceito filosófico chave que permite individuar coisas materiais. E vimos que a forma substancial não é perceptível pelos sentidos (apesar de estes "alimentarem" a sua "detecção" intelectual). Por esta razão, a necessidade das formas substanciais (já vimos que são necessárias) serve como argumento anti-materialista. Se há certas coisas reais (como as formas substanciais) que não se percepcionam de forma suficiente pelos sentidos, ou seja, se a interacção física entre os nossos sistemas sensoriais e as coisas físicas não é suficiente para percepcionarmos as formas substanciais, então estas são imateriais, e o materialismo está errado.
Vimos também que as coisas são, elas mesmas, individuais, independentemente de nós as conseguirmos individuar através dos nossos sentidos e intelectos. E vimos ainda que certas coisas podem estar naturalmente correlacionadas em categorias de propriedades que partilham entre si, independentemente dos nomes que os seres humanos dão a tais categorias ou às propriedades partilhadas.
No caso concreto do ser humano, é o conceito de forma substancial que "salva" a eventual confusão entre gémeos verdadeiros que possuem códigos genéticos idênticos. Se a simples manifestação de um dado código genético fosse suficiente para individuar o ser humano, então os gémeos verdadeiros seriam um mesmo indivíduo, e o mesmo sucederia com um dado ser humano e um seu clone. E, como já vimos, as coordenadas que um ser humano ocupa, ao longo da sua vida, no tempo e no espaço, não servem como factor decisivo na individuação.
Assim, mesmo perante clones, ou mesmo perante gémeos verdadeiros, estamos perante dois indivíduos distintos: não o sabemos graças aos sentidos, ou aos instrumentos científicos, ou ao método científico. É graças ao raciocínio filosófico, que percepciona intelectualmente a forma substancial (partindo de dados empíricos, é certo), que sabemos com segurança que cada ser humano, mesmo que seja um clone de outro ser humano, é sempre único e irrepetivel.
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