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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

In memoriam - Stanley Jaki (1924-2009)

Hoje faria 91 anos Stanley Jaki (1924-2009), Padre beneditino e Professor de Física na Universidade de Seton Hall, em New Jersey. Duplamente doutorado em Teologia (Instituto Pontifício de Santo Anselmo, em Roma, 1950) e em Física (Fordham, 1958), o Padre Jaki deixou uma vasta e indispensável obra em História da Ciência e Filosofia da Ciência.

O seu primeiro livro em inglês, “The Relevance of Physics” (1966, University of Chicago Press), continua a ser hoje um insuperado “tour de force” de História da Ciência. Nesse livro, que contém uma impressionante recolha de citações pouco conhecidas dos principais cientistas da História, o leitor fica esmagado pela profundidade da pesquisa histórica feita pelo Padre Jaki, e pelo seu domínio interpretativo dos acontecimentos.

O Padre Jaki veio a Portugal algumas vezes, quer para investigar os acontecimentos de Fátima, com vista à publicação da sua obra de referência sobre o milagre do Sol (“God and the Sun at Fatima”, 1999), quer para fazer três conferências em 2001. Nessa altura, eu nunca tinha ouvido falar dele. Lamento não o ter conhecido pessoalmente. Comecei a ler vorazmente os seus livros quando ele já estava no fim da sua vida terrena. Devo-lhe imenso. Sei que vou usar os livros dele para aprender até morrer. A sua escrita é densa. Não porque Jaki utilize palavras eruditas naquela típica atitude de arrogância intelectual. Nada que se pareça. Mas porque condensa muita informação em poucas palavras, o que obriga a uma leitura muito atenta. Todo o tempo investido na obra de Jaki traz retorno, e multiplicado.

Aqui fica um exemplo: o artigo “The Physicist and the Metaphysician”, no qual o Padre Jaki comenta o diálogo pouco conhecido entre o físico Pierre Duhem (1861-1916) e o metafísico Réginald Garrigou-Lagrange (1877-1964). 

(Duhem foi o historiador de Ciência cuja obra-prima “Le Système du Monde - Histoire des doctrines cosmologiques de Platon à Copernic” - dez volumes editados entre 1913-1959 - desenterrou o edifício da ciência medieval, mostrando as raízes medievais da Ciência moderna com base em documentação de primeira mão, arrancada arduamente do esquecimento com o trabalho de uma vida inteira. Esta sua incómoda obra, fatal para a “tese do conflito” entre a Igreja Católica e a Ciência, só estaria finalmente editada na sua totalidade em 1959, 43 anos depois da sua morte, graças ao esforço incansável da sua filha Helène. O dominicano Garrigou-Lagrange, por seu lado, é um colosso do tomismo do século XX: um dos melhores expositores e defensores da filosofia e da teologia de São Tomás de Aquino.)

Jaki analisa a correspondência entre Duhem e Garrigou-Lagrange acerca do tema do movimento inercial. Duhem explica o ponto de vista físico. Garrigou-Lagrange explica o ponto de vista metafísico. Essa correspondência mostra o valor do diálogo humilde entre dois especialistas.
Eis a conclusão do artigo do Padre Jaki:
“For physics after all deals with reality. Its different aspects can be separated in a conceptual way but they remain inseparable from one another in their actual existence. Things as far as they exist certainly witness to their being and becoming which are not quantitative notions as such. But any physical being and becoming is known through sensory perception which is never without quantitative contents. There is no purely ontological realm as far as material things are concerned, nor can their quantitative features be consistently spoken of as if they were not embedded in a broader and more fundamental kind of reality, the reality of being and becoming. 
Therein lies the source of the perplexity or uneasiness of Garrigou-Lagrange, the metaphysician. He did not display sufficient awareness of a fundamental problem as he dealt with the question posed by the principle of inertia for the proof of the existence of God from motion. This is the perennial problem of the one versus the many, in the sense that one and the same thing or process has multiple aspects that are conceptually irreducible to one another. 
Distinguishing them we can, but separate them we cannot. Unite them we must, for knowledge is a quest for unitary understanding. Yet that quest is always fraught with the risk that fusion becomes confusion. That there is no escape from this predicament is probably the deepest lesson to be drawn from the exchange of ideas between a great physicist and a great metaphysician on a basic question of physics which is also a basic question for metaphysics.”
O movimento inercial é uma só realidade, como explica o Padre Jaki. Mas que, para ser compreendida, tem que ser analisada com competência sob os distintos aspectos da física e da metafísica. Isto implica, naturalmente, que o movimento não tem apenas um aspecto físico (quantitativo, científico), mas também um aspecto metafísico, relacionado com o "ser" (o que o corpo em movimento inercial é em cada instante) e com o "devir" (as sucessivas mudanças de posição no corpo que se move com movimento inercial). Só assim se recupera uma compreensão una do mesmo fenómeno real.

Fonte: Stanley Jaki, “The Physicist and the Metaphysician”, em: http://www.u.arizona.edu/~aversa/scholastic/The%20Physicist%20and%20the%20Metaphysician%20(Jaki).pdf

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Curso "Ciência e Fé"

No próximo semestre, vou leccionar um Curso "Ciência e Fé", para a Escola de Leigos do Instituto Diocesano da Formação Cristã. O curso terá quinze sessões, e decorrerá todas as segundas-feiras das 21h30 às 23h na Igreja de Miraflores (Algés), a partir de 17 de Outubro inclusive, até 6 de Fevereiro. Só não haverá curso nas segundas-feiras de 26 de Dezembro e 2 de Janeiro. A inscrição no curso custa 35€.

Agradeço muito a vossa ajuda na divulgação, uma vez que só se fará o curso se existirem pelo menos 30 pessoas inscritas. O formulário para a inscrição encontra-se aqui.

O curso será composto por vários módulos. Os módulos (ainda não definitivos) serão estes:

I- Introdução: o alegado "conflito" entre a Igreja Católica e a Ciência
II- Filosofia grega e cosmologia grega
III- Filosofia medieval e ciência medieval
IV- Inquisição e Ciência
V e VI - O caso Galileu
VII- A revolução científica
VIII- Darwin e a Igreja Católica
IX- Os Argumentos Cosmológico e Teleológico para a existência de Deus
X- Filosofia da Mente e Inteligência Artificial
XI- Milagres e Ciência
XII- Desafios ao diálogo entre Fé e Ciência

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O mito de Hipátia

"Agora" and Hypatia - Hollywood Strikes Again

Excelente leitura, recomendada pelo Pedro Gaspar, a quem agradeço profundamente. Só à conta desta dica valiosa, já acrescentei mais um livro à minha lista na Amazon.

Cá vai o "trailer" do filme "Agora", mais uma peça de propaganda anticristã primária, baseada em ignorância histórica, que certamente vai ter assistência e vai dar conforto aos preconceitos ignorantes de muita gente:



Como explica o Tim O'Neill no artigo acima referido, não é fácil encontrar cientistas "mártires" mortos pelo cristianismo por causa de um suposto conflito entre religião cristã e ciência. Fizeram do mago e bruxo Giordano Bruno um cientista. Já foi obra. O caso de Hipátia é um bocado diferente, como explica O'Neill: ela era uma verdadeira cientista (para evitar anacronismos, era uma verdadeira filósofa). Só que não foi morta por causa dos seus conhecimentos científicos. A causa da morte de Hipátia foi política, como explica O'Neill de forma magistral.

PS: No "trailer" do filme, gostei muito das cruzinhas que aquela maltosa toda transportava na mão, enquanto tomavam tudo de assalto. Dá imenso jeito ter as mãos ocupadas enquanto se massacra e se toma alguma coisa de assalto. E metendo-lhes umas cruzes na mão e no peito, garante-se que o espectador deste filme não perde a mensagem central: aquela cambada de assassinos do saber e do conhecimento científico era toda cristã.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Artigos de Stanley Jaki

Com o recente desaparecimento do Pe. Jaki, começam a multiplicar-se os artigos da sua autoria que são colocados "online". Não sei se estes artigos seus, editados nas publicações do Intercollegiate Studies Institute, já estavam "online" há muito tempo ou não, mas só os descobri hoje no site do First Principles, e são inestimáveis:

A Thousand Years from Now
Science and the Future of Religion
The Modernity of the Middle Ages
The Physics of Impetus and the Impetus of the Koran
History as Science and Science in History
Science: Revolutionary or Conservative?
The Three Faces of Technology
Censorship and Science
Einstein and the Absolute Beneath the Relative

Estes textos (e basicamente tudo o que escreveu o Pe. Jaki em mais de quarenta livros e incontáveis artigos) são de leitura obrigatória, tanto para o católico que precisa de aprender que a sua fé católica é a mãe da ciência moderna, como para qualquer pessoa que ainda esteja sob o efeito nocivo da mitologia anticlerical dos últimos séculos.

Não são poucos os que têm tentado, ao longo de gerações e a todo o custo, criar uma artificial incompatibilidade entre cristianismo e ciência, e que têm tido sucesso na propaganda do conceito de "cristianismo obscurantista", de uma Igreja Católica inimiga do conhecimento científico. Aproveita-se a parca cultura de muita gente para lhes incutir ideias diametralmente opostas à verdade dos factos.

Também em Portugal, com a "lenda negra" acerca dos Jesuítas, tem-se tentado a todo o custo esconder a produção científica portuguesa nos séculos que antecederam o "iluminismo" do Marquês de Pombal. A razão é simples: essa produção científica está em choque frontal com a ideologia em voga, que atribui à Companhia de Jesus, e à Igreja Católica, todo o presumido "atraso" científico do nosso país.

Com o trabalho de Jaki, damo-nos conta de que este fenómeno propagandístico anticristão assume uma escala global. E quem sofre, nestas jogadas de bastidor, é a própria Ciência.