"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A Igreja Católica e a Maçonaria
No passado Sábado fiz uma palestra intitulada A Igreja Católica e a Maçonaria, na qual expus as origens históricas da Maçonaria moderna (especulativa, simbólica) e alguns detalhes acerca da primeira condenação papal e das suas razões. Historicamente, cingi-me apenas ao século XVIII, pelo que esta apresentação, necessariamente, nada contém acerca da maçonaria irregular ou da fase anticlerical de certas correntes maçónicas. Creio que, demonstrando de que forma a Maçonaria, na sua génese cristã (protestante) e inglesa, já é incompatível com a doutrina católica, será ainda mais evidente a sua incompatibilidade em ulteriores épocas históricas quando certos elementos e correntes da Maçonaria trabalharam contra a Igreja Católica e contra o cristianismo.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Curso "Ciência e Fé"
No próximo semestre, vou leccionar um Curso "Ciência e Fé", para a Escola de Leigos do Instituto Diocesano da Formação Cristã. O curso terá quinze sessões, e decorrerá todas as segundas-feiras das 21h30 às 23h na Igreja de Miraflores (Algés), a partir de 17 de Outubro inclusive, até 6 de Fevereiro. Só não haverá curso nas segundas-feiras de 26 de Dezembro e 2 de Janeiro. A inscrição no curso custa 35€.
Agradeço muito a vossa ajuda na divulgação, uma vez que só se fará o curso se existirem pelo menos 30 pessoas inscritas. O formulário para a inscrição encontra-se aqui.
O curso será composto por vários módulos. Os módulos (ainda não definitivos) serão estes:
I- Introdução: o alegado "conflito" entre a Igreja Católica e a Ciência
II- Filosofia grega e cosmologia grega
III- Filosofia medieval e ciência medieval
IV- Inquisição e Ciência
V e VI - O caso Galileu
VII- A revolução científica
VIII- Darwin e a Igreja Católica
IX- Os Argumentos Cosmológico e Teleológico para a existência de Deus
X- Filosofia da Mente e Inteligência Artificial
XI- Milagres e Ciência
XII- Desafios ao diálogo entre Fé e Ciência
Agradeço muito a vossa ajuda na divulgação, uma vez que só se fará o curso se existirem pelo menos 30 pessoas inscritas. O formulário para a inscrição encontra-se aqui.
O curso será composto por vários módulos. Os módulos (ainda não definitivos) serão estes:
I- Introdução: o alegado "conflito" entre a Igreja Católica e a Ciência
II- Filosofia grega e cosmologia grega
III- Filosofia medieval e ciência medieval
IV- Inquisição e Ciência
V e VI - O caso Galileu
VII- A revolução científica
VIII- Darwin e a Igreja Católica
IX- Os Argumentos Cosmológico e Teleológico para a existência de Deus
X- Filosofia da Mente e Inteligência Artificial
XI- Milagres e Ciência
XII- Desafios ao diálogo entre Fé e Ciência
quinta-feira, 31 de março de 2011
O Quinto Evangelho?
Há poucas coisas, dentro do cristianismo, que gerem mais polémica e atenção do que as discussões acerca de "novos evangelhos" para além dos quatro canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João). A motivação para esta polémica tem dois sabores, consoante as convicções do cristão que nela se envolve:
a) o cristão coerente que esteja pouco informado acerca das origens do cristianismo fica assustado, e preocupa-se com a eventual possibilidade de o Novo Testamento não ser verídico, ou de existirem fontes cristãs mais antigas (e presumidamente mais fidedignas) que o invalidassem ou colocassem em causa; este cristão está, obviamente, interessado na credibilidade do Novo Testamento, e assusta-se quando surge algo que parece colocá-la em causa;
b) o cristão incoerente e o não cristão, por outro lado, mais ou menos informados acerca das origens do cristianismo (desde o ignorante ao académico), procuram o oposto: enfraquecer a doutrina cristã; uma forma óbvia de o fazer é tentar minar a credibilidade do Novo Testamento.
Na história recente do criticismo neotestamentário, nada agitou mais as águas do que o dito "Evangelho de Tomé". Para toda uma horda de adversários do cristianismo ortodoxo, o Evangelho de Tomé é tido como "a fonte", ou seja, como o local onde podemos encontrar os vestígios de um cristianismo genuíno, antes de ele ser "estragado" pela ortodoxia da Igreja.
O centro da polémica é, como é típico neste tema, a questão da datação. E, posto de forma simples, se o Evangelho de Tomé fosse anterior aos Evangelhos canónicos, então estaria mais perto da "fonte", ou seja, dos acontecimentos do final da vida de Cristo e logo após a Sua morte. Alguns teólogos liberais, como os do The Jesus Seminar, chegaram ao ponto de chamar ao Evangelho de Tomé o "quinto evangelho", publicando mesmo versões "actualizadas" do Novo Testamento, com o de Tomé anexado aos quatro canónicos.
Ora, por muito que isso desanime os adversários do cristianismo ortodoxo, o Evangelho de Tomé é um texto tardio, bastante posterior aos textos canónicos do Novo Testamento. O Evangelho de Tomé pertence, seguramente, ao século II d.C., e com grande probabilidade, data do final desse século. O golpe fatal nas fantasias em torno do Evangelho de Tomé foi desferido recentemente por via da obra do académico norte-americano Nicholas Perrin (Wheaton College, Illinois). Perrin demonstrou que o Evangelho de Tomé tem origem na tradição síria do segundo século da nossa era, o que destrói de vez as fantasias que pretendem fazer deste texto uma fonte pré-canónica do primeiro século.
O Evangelho de Tomé, um conjunto de dizeres ("lógia" no plural, "lógion" no singular) gnósticos atribuídos a Jesus, é hoje conhecido na sua versão presumidamente completa graças às descobertas arqueológicas feitas no Egipto, em Nag Hammadi, em 1945, que trouxeram à luz um texto escrito em copta, contendo o dito Evangelho. Esse texto copta condizia com certos excertos dos papiros de Oxirrinco (texto em grego), descobertos no Egipto, em 1898. A tese que apaixonou os adversários do cristianismo ortodoxo era a de que os "lógia" constantes no Evangelho de Tomé revelavam um Jesus gnóstico e radicalmente distinto do Jesus canónico. Algures no meio da sanha anticristã de alguns académicos encontramos algumas pérolas de contradição, como a adesão de investigadoras feministas ao sonho de que Cristo seria um mestre gnóstico proto-feminista, casado com Maria Madalena, e anunciador da "religião da Deusa", pese embora o duro facto de que os gnósticos tinham uma ideia muito negativa da mulher, pelo seu papel biológico na reprodução (os gnósticos repudiavam a reprodução humana, vista por eles como o perpetuar da escravidão da carne, que impedia as almas "puras" de se libertarem).
Perrin não foi pioneiro na tese da origem síria deste Evangelho, mas tem o mérito de a ter demonstrado de forma irrefutável. Perrin fez uma comparação entre o Evangelho de Tomé (texto copta) e o texto sírio do Diatessaron (c. 160-175) da autoria de Taciano, o Assírio (c. 120-180), discípulo de Justino Mártir, em Roma. As semelhanças são notáveis, e permitem inferir uma relação inequívoca entre o Diatessaron e o Evangelho de Tomé. Perrin fez a experiência de reverter o texto copta do Evangelho de Tomé para grego e para sírio, e as semelhanças saltam à vista, sobretudo na tradução para sírio: 89% dos "lógia" surgem ligados em ambos os lados com excertos do Diatessaron:
Pela sua importância, deixamos aqui uma parte do trabalho de Nicholas Perrin acerca deste tema:
a) o cristão coerente que esteja pouco informado acerca das origens do cristianismo fica assustado, e preocupa-se com a eventual possibilidade de o Novo Testamento não ser verídico, ou de existirem fontes cristãs mais antigas (e presumidamente mais fidedignas) que o invalidassem ou colocassem em causa; este cristão está, obviamente, interessado na credibilidade do Novo Testamento, e assusta-se quando surge algo que parece colocá-la em causa;
b) o cristão incoerente e o não cristão, por outro lado, mais ou menos informados acerca das origens do cristianismo (desde o ignorante ao académico), procuram o oposto: enfraquecer a doutrina cristã; uma forma óbvia de o fazer é tentar minar a credibilidade do Novo Testamento.
Na história recente do criticismo neotestamentário, nada agitou mais as águas do que o dito "Evangelho de Tomé". Para toda uma horda de adversários do cristianismo ortodoxo, o Evangelho de Tomé é tido como "a fonte", ou seja, como o local onde podemos encontrar os vestígios de um cristianismo genuíno, antes de ele ser "estragado" pela ortodoxia da Igreja.
O centro da polémica é, como é típico neste tema, a questão da datação. E, posto de forma simples, se o Evangelho de Tomé fosse anterior aos Evangelhos canónicos, então estaria mais perto da "fonte", ou seja, dos acontecimentos do final da vida de Cristo e logo após a Sua morte. Alguns teólogos liberais, como os do The Jesus Seminar, chegaram ao ponto de chamar ao Evangelho de Tomé o "quinto evangelho", publicando mesmo versões "actualizadas" do Novo Testamento, com o de Tomé anexado aos quatro canónicos.
Ora, por muito que isso desanime os adversários do cristianismo ortodoxo, o Evangelho de Tomé é um texto tardio, bastante posterior aos textos canónicos do Novo Testamento. O Evangelho de Tomé pertence, seguramente, ao século II d.C., e com grande probabilidade, data do final desse século. O golpe fatal nas fantasias em torno do Evangelho de Tomé foi desferido recentemente por via da obra do académico norte-americano Nicholas Perrin (Wheaton College, Illinois). Perrin demonstrou que o Evangelho de Tomé tem origem na tradição síria do segundo século da nossa era, o que destrói de vez as fantasias que pretendem fazer deste texto uma fonte pré-canónica do primeiro século.
(última página do Evangelho de Tomé, onde se lê o título: "peuagelion pkata tomas" - Códice II de Nag Hammadi)
O Evangelho de Tomé, um conjunto de dizeres ("lógia" no plural, "lógion" no singular) gnósticos atribuídos a Jesus, é hoje conhecido na sua versão presumidamente completa graças às descobertas arqueológicas feitas no Egipto, em Nag Hammadi, em 1945, que trouxeram à luz um texto escrito em copta, contendo o dito Evangelho. Esse texto copta condizia com certos excertos dos papiros de Oxirrinco (texto em grego), descobertos no Egipto, em 1898. A tese que apaixonou os adversários do cristianismo ortodoxo era a de que os "lógia" constantes no Evangelho de Tomé revelavam um Jesus gnóstico e radicalmente distinto do Jesus canónico. Algures no meio da sanha anticristã de alguns académicos encontramos algumas pérolas de contradição, como a adesão de investigadoras feministas ao sonho de que Cristo seria um mestre gnóstico proto-feminista, casado com Maria Madalena, e anunciador da "religião da Deusa", pese embora o duro facto de que os gnósticos tinham uma ideia muito negativa da mulher, pelo seu papel biológico na reprodução (os gnósticos repudiavam a reprodução humana, vista por eles como o perpetuar da escravidão da carne, que impedia as almas "puras" de se libertarem).
Perrin não foi pioneiro na tese da origem síria deste Evangelho, mas tem o mérito de a ter demonstrado de forma irrefutável. Perrin fez uma comparação entre o Evangelho de Tomé (texto copta) e o texto sírio do Diatessaron (c. 160-175) da autoria de Taciano, o Assírio (c. 120-180), discípulo de Justino Mártir, em Roma. As semelhanças são notáveis, e permitem inferir uma relação inequívoca entre o Diatessaron e o Evangelho de Tomé. Perrin fez a experiência de reverter o texto copta do Evangelho de Tomé para grego e para sírio, e as semelhanças saltam à vista, sobretudo na tradução para sírio: 89% dos "lógia" surgem ligados em ambos os lados com excertos do Diatessaron:
Pela sua importância, deixamos aqui uma parte do trabalho de Nicholas Perrin acerca deste tema:
- Thomas: The Fifth Gospel? (Artigo em PDF)
- Thomas and Tatian: The Relationship between the "Gospel of Thomas" and the "Diatessaron" (Livro académico)
- Thomas: The Other Gospel (Livro de divulgação)
PS: Aconselho a leitura do capítulo 10, "How scholars fabricate Jesus", da autoria do académico Craig Evans, da obra Contending with Christianity's Critics, editada por Paul Copan e William Lane Craig, Nashville, Tennessee, 2009. Graças à leitura deste capítulo, pude dar-me conta do valor do trabalho feito por Nicholas Perrin em torno do Evangelho de Tomé.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Porque razão está Bento XVI a reintroduzir a comunhão de joelhos
Um interessantíssimo artigo de Sandro Magister explica as razões de Bento XVI para a recuperação do bom hábito da genuflexão. O artigo traz, no final, um valioso e surpreendente texto de Monsenhor Marco Agostini, que explica que a beleza dos pavimentos de muitas das igrejas mais antigas tinha como destinatários principais os fiéis ajoelhados.
sábado, 7 de agosto de 2010
Resposta à Leonor
Por comodidade, decidi responder desta forma a um comentário da Leonor no meu último "post", pois as caixas de comentário não são adequadas a respostas extensas.
«Tenho algumas dúvidas quanto aquilo que argumentas e até mesmo naquilo que acreditas. Até porque noutras ocasiões demonstras que não és um criacionista. Fico algo confusa...»
Em caso de dúvida, é bastante seguro ver-me como um cristão. Não como um cristão herege como os que tenho criticado, mas sim como um cristão que segue a tradição cristã da Igreja Católica. Importa recordar que "heresia" significa, literalmente, "escolha". Os primeiros hereges eram assim chamados porque eles "escolhiam" uma fé diferente da recebida. A oposição, então, é entre a heresia (a "escolha" de uma doutrina pessoal) e a tradição (a profissão de uma doutrina "recebida").
Hoje em dia, os "media" adoram os cristãos hereges, e dão-lhes ampla plataforma de expressão. Para além disso, quando se trata de clero herege, os superiores hierárquicos desses cristãos hereges acham que seria anti-moderno criticar os seus subordinados. E então, as consequências notórias da exposição mediática destes hereges são:
1) a confusão para os não cristãos, que ficam sem perceber, afinal de contas, o que é o cristianismo, pois assistem a relatos contraditórios: o cristão coerente diz que há Diabo, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que Cristo está presente na Eucaristia, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que temos que confessar os pecados e procurar a salvação, evitando a condenação, e o cristão herege diz que não há Inferno e que o conceito de pecado está ultrapassado, e assim por diante
2) a confusão para muitos cristãos menos informados ou com menos formação cristã, que perante a ausência de contraditório por parte dos superiores destes padres e teólogos hereges, julgam que eles falam com verdade e autoridade
É então perfeitamente natural que estejas confusa. É-te certamente muito difícil compreender o cristianismo, pois o que vês dele está distorcido pela comunicação social e por uma assimétrica concessão de tempo de antena a dissidentes do cristianismo. Hoje em dia, a única forma de se ter contacto real com o cristianismo é mesmo a do convívio pessoal com cristãos de fé coerente e prática religiosa consistente.
Agora a tua questão... A expressão "criacionista" tornou-se demasiado vaga, pois diferentes sistemas de ideias reivindicam-na. Para simplificar, diria que há dois tipos de criacionismo:
a) o que considera Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas não necessariamente como o criador imediato de todos os seres; quem pensa assim, considera que Deus pode muito bem ter criado um Cosmos com leis próprias e dinamismos próprios, que conduzem ao surgimento da vida pelas chamadas "causas segundas": a expressão "causa segunda" vem da escolástica, e designa as coisas que surgiram, não por causa imediata de Deus, mas sim por causas indirectas
b) o que, para além de considerar Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, diz ainda que Deus é o criador imediato e directo de todos os seres; necessariamente, este tipo de criacionismo rejeita a teoria científica do darwinismo; nota que eu escrevi "teoria científica do darwinismo", pois o darwinismo é uma categoria vasta que hoje em dia abrange muito mais do que a teoria científica original (entretanto, surgiu o darwinismo como filosofia materialista, o darwinismo social e cultural, etc.); este tipo de criacionismo é muito popular entre protestantes, mas nem todos os protestantes são criacionistas neste sentido, e haverá certamente alguns católicos que também se revêem neste tipo de criacionismo, sobretudo quando têm sérias dúvidas acerca do darwinismo científico
Qual é a minha posição? Sendo católico, tendo para um criacionismo de tipo a). Porque escrevi "tendo"? Porque ainda não existem dados científicos suficientes sobre a questão do surgimento da vida para que ela possa ser encerrada. Porque prefiro o tipo a)? Por uma razão simples: o conceito de liberdade criatural é intrínseco à teologia católica, e com a Escolástica, amadurecemos muito a compreensão intelectual do conceito de causa e efeito, necessária para a distinção entre causas primeiras e causas segundas: ora, estas causas segundas têm muito a ver com a liberdade intrínseca da Criação, com a noção muito católica de que Deus não é um "mestre de fantoches" a puxar os cordelinhos, manipulando a Criação como se esta fosse uma marioneta.
Para além disto, o católico é um entusiasta natural pela Ciência, o que levou a que muitos católicos se destacassem como cientistas brilhantes e tivessem inaugurado a ciência moderna. Do lado protestante, um literalismo bíblico desligado da Tradição levou, muitas vezes, a um desprezo pela Ciência. Hoje em dia, vejo que há mais do que razões para se dar crédito à teoria científica da evolução das espécies, e por isso, não sou anti-darwinista. Mas mantenho um espírito aberto acerca desta questão, pois o surgimento da primeira forma de vida está ainda por explicar, além de que o surgimento de uma espécie nova nunca foi reproduzido ou testado (uma boa razão pode ser porque tal fenómeno demora muito tempo, tempo demais para ser observado por seres humanos).
Em suma: com os dados da Ciência moderna, constato que o Universo está "afinado", e que esta afinação faz do nosso Universo uma realidade muito especial. Essa "afinação", para o cristão, resulta da vontade livre de Deus, que quis fazer o Universo deste modo. Por isso, se o nosso Cosmos está estruturado de tal forma que nele acaba por surgir vida, e vida inteligente, isso só abona em favor da inteligência do Criador. Se o Criador decidiu fazer um Universo dotado das leis e dinâmicas internas necessárias e suficientes para delas surgir vida, e vida inteligente, então posso ser um criacionista de tipo a) sem problemas nenhuns, pois o meu criacionismo, para além de consistente, é compatível com os dados da ciência e respeita a já colossal recolha de argumentos científicos a favor da teoria científica de Darwin.
No entanto, é igualmente lógica a tese (em tempos largamente aceite por todos os cristãos) de que Deus teria criado individualmente cada espécie. Aqui importa fazer outra distinção, separando a categoria b) em duas sub-categorias:
b1) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir do nada, ou seja, as espécies teriam surgido instantânea e imediatamente, sem que Deus recorresse a matéria já existente
b2) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir de material orgânico ou inorgânico pré-existente
Repito que ambas estas teses, a b1) e a b2), têm coerência interna, ou seja, são lógicas. No entanto, ambas são muito difíceis de compatibilizar com os dados científicos do darwinismo. Insisto que a minha posição é a do criacionista de tipo a), mas se eu tivesse que optar entre uma das formas b) que apresentei, preferiria a b2), pois não vejo porque razão não poderia Deus aproveitar partes do já criado para criar algo novo.
À laia de síntese, o criacionista de tipo a), categoria na qual me revejo, é sempre um criacionista, conquanto afirma que Deus é a fonte primeira e última da existência de tudo. No entanto, Deus pode ter criado um Cosmos que, por sua vez, teria as condições e os dinamismos necessários para fazer surgir vida por "causas segundas", sem intervenção directa e imediata de Deus no surgimento dessa vida.
E a Bíblia?
Necessariamente, como Cristão, vejo a Bíblia como livro de salvação, contendo sobretudo verdades doutrinais e morais. Contém ainda outras verdades menores, face ao desígnio do livro, mas que são todavia verdades presentes: verdades históricas e factuais.
O Génesis apresenta um relato da Criação. É um relato figurado, no sentido em que recorre a imagens simples, mas ao mesmo tempo muito belas, que descreve verdades objectivas e concretas.
Aceito o Génesis, e toda a Bíblia, como uma obra isenta de erro, no sentido em que nenhum leitor, entrosado na tradição cristã de leitura bíblica, vai ser induzido em erro ao lê-la. Como qualquer obra escrita, a Bíblia necessita de uma correcta leitura. Essa leitura é feita dentro da Igreja, por via da Tradição. A leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz do que Cristo nos revelou. Para os judeus, a leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz da revelação feita por Iavé aos profetas e ao povo de Israel. Nesse sentido, o Antigo Testamento é o testemunho de um povo à procura de Deus e de Deus à procura de um povo em concreto, para fazer dele "local" de surgimento do Salvador. Com o Novo Testamento, Cristo fecha e completa (não destrói nem anula) o Antigo Testamento. Cristo é a "chave dos Profetas", pois a Sua vida dá uma leitura final e definitiva a todos os anseios do Antigo Testamento. Através de Cristo, Deus dá-Se a conhecer, finalmente, ao seu Povo. E a mensagem é surpreendente: Cristo vem morrer para nos redimir dos nossos pecados, e vem para que levemos a Boa Nova da sua vitória sobre a morte a todos os cantos da Terra. Com o Novo Testamento, a mensagem de salvação sai do campo de Israel e torna-se universal.
A presença de imagens, figuras, parábolas e metáforas não implica falsidade, erro ou mentira.
Por exemplo, quando um índio Sioux ou Cherokee se referia a um comboio que tinha passado na planície como sendo um "cavalo de ferro", ele não estava a mentir. Com grande probablidade, o comboio teria mesmo passado à frente dos seus olhos. O índio estava a usar a linguagem e os símbolos ao seu dispor para relatar o que tinha presenciado.
É assim o Génesis: a verdade chega ao escriba vinda de Deus. É o Espírito Santo que inspira o escriba do Génesis a escrever. O escriba não recebe um texto inteiro, estilo ditado. Essa é a tese o Islão, que vê o Corão como texto ditado palavra a palavra a Maomé. O escriba do Antigo Testamento, o escriba do Novo Testamento, recebe ideias no seu intelecto, ideias essas que vêm de Deus. Mas escreve-as com os símbolos e as imagens do próprio escriba. Quando o autor do livro do Génesis escreve que Adão e Eva comeram da maçã da árvore do Bem e do Mal, nenhum leitor erudito da Bíblia pensou que se tratava necessariamente de um fruto físico. A leitura que sempre se fez era no sentido de que Adão e Eva tinham usado da sua liberdade para transgredir a Lei de Deus. E dessa forma, tinham pela primeira vez optado pelo Mal. A serpente simboliza o pai da mentira, o Diabo, ser que já existia antes do Homem, e que sugeriu ao primeiro casal que se autonomizassem de Deus.
Outra nota importante, relativa a uma confusão que os novos ateístas teimam em fazer. Quando o povo hebreu atribui certa vitória militar sobre os seus inimigos à acção de Deus, não temos Deus a concordar com essa leitura. A batalha militar será factual, e a vitória também, mas que sabemos nós acerca da "participação" de Deus nessa vitória? É o povo de Israel que faz essa leitura, mas não temos que aceitar essa leitura como sendo a de Deus. Dizer isto não é dizer que a Bíblia erra, pois todo o cristão (e todo o judeu) sabe que Deus não ditou a Bíblia, e que esta foi escrita por escribas humanos. Ao mesmo tempo, o testemunho de que Israel leu este ou aquele episódio histórico desta ou daquela maneira, é um testemunho vivo da procura de Deus por parte desse povo. Outra coisa óbvia: se determinada figura bíblica comete um crime (algo frequente!), é evidente que não se deve ler o texto no sentido de concordar com esse crime. Esses relatos são abundantes, contendo o ensinamento de que, após a Queda, o ser humano tem uma tendência não inata, mas adquirida com a Queda, para a asneira, e que esse caminho da asneira é o caminho oposto ao que nos leva a Deus.
Assim, o cristão fala do Génesis como o livro que relata, entre outras coisas, as verdades fundamentais de Deus Criador do Universo, da Tentação pelo Diabo, e da Queda do primeiro casal. Eu aceito necessariamente tudo isso como verdades, enquanto posso reconhecer que as palavras que são usadas constituem imagens que ajudam a aceder à verdade: a serpente, a maçã, a árvore, etc.; já Santo Agostinho, na sua obra "De Genesi ad litteram", dizia que a Criação não teria, necessariamente, que ter durado seis dias em sentido literal, ou seja, seis dias de 24 horas. No entanto, é correcta leitura do Génesis ler o texto da Criação como relatando uma sequência verdadeira e real: trevas iniciais, surgimento da luz, etc. Se notares bem, não é muito complicado (apesar de ser arriscado e ainda incerto, à luz do conhecimento actual) ver aqui vislumbres do "fiat lux" que representa o Big Bang. O relato do Génesis é gradual: primeiro, surgem as condições para a vida, e depois surge a vida. Tudo isto é lógico e faz sentido à luz do conhecimento actual.
Na visão cristã das coisas, entram sempre duas regras de ouro:
a) respeitar a tradição recebida de Cristo
b) respeitar a razão e as verdades seguras que fomos descobrindo por via racional
«Ao ler este teu post tenho a sensação que tomas o relato bíblico como real quando afirmas que Deus criou o universo, o mundo, os anjos, o Homem, etc. Ou seja, em parte alguma do teu discurso dizes que o relato da criação é uma interpretação do universo de uns quantos homens que viveram há uns bons milhares de anos atrás.»
Tens toda a razão. Eu tomo como real que Deus criou o Universo, os anjos, o Homem, etc., Mas espero ter deixado claro que há muitas nuances na palavra "criou"...
«E desculpa a minha ignorância... Como é que tu sabes? Se não for através da interpretação que homens fazem das palavras de outros homens, como é que tu podes saber?»
Toda a solidez da minha posição advém, como referi, de confiar no que a Igreja me ensina, e confiar na razão e nas certezas do meu intelecto racional. Aqui há uma hierarquia: eu creio primeiro para entender depois ("credo ut intelligam"), e não ao contrário. Também isso é a prática humana de sempre. Quando estamos na aula, acreditamos no professor antes de entendermos. Quando o nosso pai nos ensina a nadar, acreditamos primeiro nele antes de sabermos nadar. E assim por diante. Claro que podes perguntar-me: "mas como sabes tu que a Igreja ensina o que Cristo ensinou?". Aqui podemos avançar muito, e mesmo muito, com o estudo dos dados históricos, com a leitura do próprio Novo Testamento, e com a sua análise histórica e historiográfica. Com a leitura da Didaché e de outros textos em uso pelos primeiros cristãos. Com a leitura da patrologia, ou seja, dos textos dos Padres da Igreja, escritos durante os primeiros séculos de cristianismo. A doutrina cristã, quando estudada com rigor, apresenta-se completa e consistente, na sua essência, desde os primórdios do Cristianismo.
«O ser humano tem errado ao longo de toda a sua existência. Ou afirmas que os homens que escreveram, compilaram e editaram a Bíblia, não erram, ou afirmas que o texto foi escrito pela própria mão de Deus...»
O ser humano erra. Mas erra muito menos quando tenta seguir a Palavra de Deus. Logo no primeiro século de cristianismo, tens centenas e milhares de pessoas a preferirem serem mortas para não serem obrigadas a renegar a verdade da ressurreição de Cristo. Seriam loucos? Vítimas de alucinação? Conheces muitos casos de grupos organizados de pessoas que preferem serem mortos por teimarem numa ideia?
Em três séculos, essa religião de mulheres e de escravos tomou conta do Império Romano. Isso não te diz nada? Cristo disse que conheceríamos a qualidade da árvore pela qualidade dos frutos. O cristianismo inaugurou uma nova era de direitos humanos, de cultura, de ciência, de justiça. Trouxe o conceito totalmente inovador e revolucionário de caridade. Isso não vale nada? Isso não poderá indicar a origem sobrenatural da ideia cristã?
Hoje achamos banal, a ideia. Mas ela é espantosa: o próprio Deus faz-Se Homem, deixa-Se matar às nossas mãos, e tudo porque nos ama? E tudo para resgatar-nos do nosso pecado? E tudo para nos lançar numa vida nova?
Nenhuma outra religião coloca Deus no teatro humano como faz o cristianismo. Cristo não é um "avatar" como os hindus, que acham que a divindade, de vez em quando, assume uma forma humana. A teologia cristã não é uma teologia de divindades que, de tempos a tempos, visitam um corpo humano. A teologia cristã diz que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. As regras da lógica levam-nos a ver aqui um vislumbre positivo em matéria de direitos humanos: afinal o homem até deve valer qualquer coisinha... Daqui até compreendermos a paixão cristã pela vida humana, vai um salto pequeno.
«Quando conferes autoridade absoluta aquilo que é descrito pelos autores do Novo Testamento, será que esqueces que não temos as palavras de Jesus, nem sequer dos seus discípulos directos?»
É claro que temos, Leonor. Não há consistência científica nenhuma na tese que defende que o Novo Testamento é fantasioso. O Novo Testamento tem, todo ele, uma estrutura factual e cronológica. Os Actos dos Apóstolos relatam, em primeira mão, acontecimentos presenciados pelo autor do livro. As cartas de São Paulo foram escritas pelo próprio, e enviadas a outros para serem lidas. Os autores dos Evangelhos não foram todos apóstolos directos de Cristo (João e Mateus sim, mas Marcos e Lucas não). Mas São Marcos viveu lado a lado com São Pedro durante tempo suficiente para absorver tudo dele. E São Lucas, médico companheiro de viagem de São Paulo, percorreu a viagem cristã por excelência: a missionação do Apóstolo dos Gentios, São Paulo.
«O que queres dizer, é que a Igreja, ou a tradição da Igreja diz que é assim e ponto final.»
Já terei referido que a crença em noções teológicas com base exclusiva em argumentos de autoridade é uma heresia, chamada "fideísmo". A tua frase, na sua essência, surge condenada pela própria Igreja como sendo herética. Obras imponentes como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino são exemplos do fascínio cristão pela argumentação racional, contra posições fideístas, consideradas erradas, pelo desprezo pela razão como fonte de aferição intelectual.
Se fosse como dizes, eu teria que dizer coisas refutadas pela ciência ou pela história. Onde estão essas refutações?
Se fosse como dizes, não haveria consistência histórica no Novo Testamento. Mas há! Que pensar então disso?
Um abraço!
«Tenho algumas dúvidas quanto aquilo que argumentas e até mesmo naquilo que acreditas. Até porque noutras ocasiões demonstras que não és um criacionista. Fico algo confusa...»
Em caso de dúvida, é bastante seguro ver-me como um cristão. Não como um cristão herege como os que tenho criticado, mas sim como um cristão que segue a tradição cristã da Igreja Católica. Importa recordar que "heresia" significa, literalmente, "escolha". Os primeiros hereges eram assim chamados porque eles "escolhiam" uma fé diferente da recebida. A oposição, então, é entre a heresia (a "escolha" de uma doutrina pessoal) e a tradição (a profissão de uma doutrina "recebida").
Hoje em dia, os "media" adoram os cristãos hereges, e dão-lhes ampla plataforma de expressão. Para além disso, quando se trata de clero herege, os superiores hierárquicos desses cristãos hereges acham que seria anti-moderno criticar os seus subordinados. E então, as consequências notórias da exposição mediática destes hereges são:
1) a confusão para os não cristãos, que ficam sem perceber, afinal de contas, o que é o cristianismo, pois assistem a relatos contraditórios: o cristão coerente diz que há Diabo, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que Cristo está presente na Eucaristia, o cristão herege diz que não, o cristão coerente diz que temos que confessar os pecados e procurar a salvação, evitando a condenação, e o cristão herege diz que não há Inferno e que o conceito de pecado está ultrapassado, e assim por diante
2) a confusão para muitos cristãos menos informados ou com menos formação cristã, que perante a ausência de contraditório por parte dos superiores destes padres e teólogos hereges, julgam que eles falam com verdade e autoridade
É então perfeitamente natural que estejas confusa. É-te certamente muito difícil compreender o cristianismo, pois o que vês dele está distorcido pela comunicação social e por uma assimétrica concessão de tempo de antena a dissidentes do cristianismo. Hoje em dia, a única forma de se ter contacto real com o cristianismo é mesmo a do convívio pessoal com cristãos de fé coerente e prática religiosa consistente.
Agora a tua questão... A expressão "criacionista" tornou-se demasiado vaga, pois diferentes sistemas de ideias reivindicam-na. Para simplificar, diria que há dois tipos de criacionismo:
a) o que considera Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas não necessariamente como o criador imediato de todos os seres; quem pensa assim, considera que Deus pode muito bem ter criado um Cosmos com leis próprias e dinamismos próprios, que conduzem ao surgimento da vida pelas chamadas "causas segundas": a expressão "causa segunda" vem da escolástica, e designa as coisas que surgiram, não por causa imediata de Deus, mas sim por causas indirectas
b) o que, para além de considerar Deus como Criador do Universo, e de todas as coisas visíveis e invisíveis, diz ainda que Deus é o criador imediato e directo de todos os seres; necessariamente, este tipo de criacionismo rejeita a teoria científica do darwinismo; nota que eu escrevi "teoria científica do darwinismo", pois o darwinismo é uma categoria vasta que hoje em dia abrange muito mais do que a teoria científica original (entretanto, surgiu o darwinismo como filosofia materialista, o darwinismo social e cultural, etc.); este tipo de criacionismo é muito popular entre protestantes, mas nem todos os protestantes são criacionistas neste sentido, e haverá certamente alguns católicos que também se revêem neste tipo de criacionismo, sobretudo quando têm sérias dúvidas acerca do darwinismo científico
Qual é a minha posição? Sendo católico, tendo para um criacionismo de tipo a). Porque escrevi "tendo"? Porque ainda não existem dados científicos suficientes sobre a questão do surgimento da vida para que ela possa ser encerrada. Porque prefiro o tipo a)? Por uma razão simples: o conceito de liberdade criatural é intrínseco à teologia católica, e com a Escolástica, amadurecemos muito a compreensão intelectual do conceito de causa e efeito, necessária para a distinção entre causas primeiras e causas segundas: ora, estas causas segundas têm muito a ver com a liberdade intrínseca da Criação, com a noção muito católica de que Deus não é um "mestre de fantoches" a puxar os cordelinhos, manipulando a Criação como se esta fosse uma marioneta.
Para além disto, o católico é um entusiasta natural pela Ciência, o que levou a que muitos católicos se destacassem como cientistas brilhantes e tivessem inaugurado a ciência moderna. Do lado protestante, um literalismo bíblico desligado da Tradição levou, muitas vezes, a um desprezo pela Ciência. Hoje em dia, vejo que há mais do que razões para se dar crédito à teoria científica da evolução das espécies, e por isso, não sou anti-darwinista. Mas mantenho um espírito aberto acerca desta questão, pois o surgimento da primeira forma de vida está ainda por explicar, além de que o surgimento de uma espécie nova nunca foi reproduzido ou testado (uma boa razão pode ser porque tal fenómeno demora muito tempo, tempo demais para ser observado por seres humanos).
Em suma: com os dados da Ciência moderna, constato que o Universo está "afinado", e que esta afinação faz do nosso Universo uma realidade muito especial. Essa "afinação", para o cristão, resulta da vontade livre de Deus, que quis fazer o Universo deste modo. Por isso, se o nosso Cosmos está estruturado de tal forma que nele acaba por surgir vida, e vida inteligente, isso só abona em favor da inteligência do Criador. Se o Criador decidiu fazer um Universo dotado das leis e dinâmicas internas necessárias e suficientes para delas surgir vida, e vida inteligente, então posso ser um criacionista de tipo a) sem problemas nenhuns, pois o meu criacionismo, para além de consistente, é compatível com os dados da ciência e respeita a já colossal recolha de argumentos científicos a favor da teoria científica de Darwin.
No entanto, é igualmente lógica a tese (em tempos largamente aceite por todos os cristãos) de que Deus teria criado individualmente cada espécie. Aqui importa fazer outra distinção, separando a categoria b) em duas sub-categorias:
b1) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir do nada, ou seja, as espécies teriam surgido instantânea e imediatamente, sem que Deus recorresse a matéria já existente
b2) Deus teria criado individualmente e instantaneamente cada espécie a partir de material orgânico ou inorgânico pré-existente
Repito que ambas estas teses, a b1) e a b2), têm coerência interna, ou seja, são lógicas. No entanto, ambas são muito difíceis de compatibilizar com os dados científicos do darwinismo. Insisto que a minha posição é a do criacionista de tipo a), mas se eu tivesse que optar entre uma das formas b) que apresentei, preferiria a b2), pois não vejo porque razão não poderia Deus aproveitar partes do já criado para criar algo novo.
À laia de síntese, o criacionista de tipo a), categoria na qual me revejo, é sempre um criacionista, conquanto afirma que Deus é a fonte primeira e última da existência de tudo. No entanto, Deus pode ter criado um Cosmos que, por sua vez, teria as condições e os dinamismos necessários para fazer surgir vida por "causas segundas", sem intervenção directa e imediata de Deus no surgimento dessa vida.
E a Bíblia?
Necessariamente, como Cristão, vejo a Bíblia como livro de salvação, contendo sobretudo verdades doutrinais e morais. Contém ainda outras verdades menores, face ao desígnio do livro, mas que são todavia verdades presentes: verdades históricas e factuais.
O Génesis apresenta um relato da Criação. É um relato figurado, no sentido em que recorre a imagens simples, mas ao mesmo tempo muito belas, que descreve verdades objectivas e concretas.
Aceito o Génesis, e toda a Bíblia, como uma obra isenta de erro, no sentido em que nenhum leitor, entrosado na tradição cristã de leitura bíblica, vai ser induzido em erro ao lê-la. Como qualquer obra escrita, a Bíblia necessita de uma correcta leitura. Essa leitura é feita dentro da Igreja, por via da Tradição. A leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz do que Cristo nos revelou. Para os judeus, a leitura correcta da Bíblia é a que é feita à luz da revelação feita por Iavé aos profetas e ao povo de Israel. Nesse sentido, o Antigo Testamento é o testemunho de um povo à procura de Deus e de Deus à procura de um povo em concreto, para fazer dele "local" de surgimento do Salvador. Com o Novo Testamento, Cristo fecha e completa (não destrói nem anula) o Antigo Testamento. Cristo é a "chave dos Profetas", pois a Sua vida dá uma leitura final e definitiva a todos os anseios do Antigo Testamento. Através de Cristo, Deus dá-Se a conhecer, finalmente, ao seu Povo. E a mensagem é surpreendente: Cristo vem morrer para nos redimir dos nossos pecados, e vem para que levemos a Boa Nova da sua vitória sobre a morte a todos os cantos da Terra. Com o Novo Testamento, a mensagem de salvação sai do campo de Israel e torna-se universal.
A presença de imagens, figuras, parábolas e metáforas não implica falsidade, erro ou mentira.
Por exemplo, quando um índio Sioux ou Cherokee se referia a um comboio que tinha passado na planície como sendo um "cavalo de ferro", ele não estava a mentir. Com grande probablidade, o comboio teria mesmo passado à frente dos seus olhos. O índio estava a usar a linguagem e os símbolos ao seu dispor para relatar o que tinha presenciado.
É assim o Génesis: a verdade chega ao escriba vinda de Deus. É o Espírito Santo que inspira o escriba do Génesis a escrever. O escriba não recebe um texto inteiro, estilo ditado. Essa é a tese o Islão, que vê o Corão como texto ditado palavra a palavra a Maomé. O escriba do Antigo Testamento, o escriba do Novo Testamento, recebe ideias no seu intelecto, ideias essas que vêm de Deus. Mas escreve-as com os símbolos e as imagens do próprio escriba. Quando o autor do livro do Génesis escreve que Adão e Eva comeram da maçã da árvore do Bem e do Mal, nenhum leitor erudito da Bíblia pensou que se tratava necessariamente de um fruto físico. A leitura que sempre se fez era no sentido de que Adão e Eva tinham usado da sua liberdade para transgredir a Lei de Deus. E dessa forma, tinham pela primeira vez optado pelo Mal. A serpente simboliza o pai da mentira, o Diabo, ser que já existia antes do Homem, e que sugeriu ao primeiro casal que se autonomizassem de Deus.
Outra nota importante, relativa a uma confusão que os novos ateístas teimam em fazer. Quando o povo hebreu atribui certa vitória militar sobre os seus inimigos à acção de Deus, não temos Deus a concordar com essa leitura. A batalha militar será factual, e a vitória também, mas que sabemos nós acerca da "participação" de Deus nessa vitória? É o povo de Israel que faz essa leitura, mas não temos que aceitar essa leitura como sendo a de Deus. Dizer isto não é dizer que a Bíblia erra, pois todo o cristão (e todo o judeu) sabe que Deus não ditou a Bíblia, e que esta foi escrita por escribas humanos. Ao mesmo tempo, o testemunho de que Israel leu este ou aquele episódio histórico desta ou daquela maneira, é um testemunho vivo da procura de Deus por parte desse povo. Outra coisa óbvia: se determinada figura bíblica comete um crime (algo frequente!), é evidente que não se deve ler o texto no sentido de concordar com esse crime. Esses relatos são abundantes, contendo o ensinamento de que, após a Queda, o ser humano tem uma tendência não inata, mas adquirida com a Queda, para a asneira, e que esse caminho da asneira é o caminho oposto ao que nos leva a Deus.
Assim, o cristão fala do Génesis como o livro que relata, entre outras coisas, as verdades fundamentais de Deus Criador do Universo, da Tentação pelo Diabo, e da Queda do primeiro casal. Eu aceito necessariamente tudo isso como verdades, enquanto posso reconhecer que as palavras que são usadas constituem imagens que ajudam a aceder à verdade: a serpente, a maçã, a árvore, etc.; já Santo Agostinho, na sua obra "De Genesi ad litteram", dizia que a Criação não teria, necessariamente, que ter durado seis dias em sentido literal, ou seja, seis dias de 24 horas. No entanto, é correcta leitura do Génesis ler o texto da Criação como relatando uma sequência verdadeira e real: trevas iniciais, surgimento da luz, etc. Se notares bem, não é muito complicado (apesar de ser arriscado e ainda incerto, à luz do conhecimento actual) ver aqui vislumbres do "fiat lux" que representa o Big Bang. O relato do Génesis é gradual: primeiro, surgem as condições para a vida, e depois surge a vida. Tudo isto é lógico e faz sentido à luz do conhecimento actual.
Na visão cristã das coisas, entram sempre duas regras de ouro:
a) respeitar a tradição recebida de Cristo
b) respeitar a razão e as verdades seguras que fomos descobrindo por via racional
«Ao ler este teu post tenho a sensação que tomas o relato bíblico como real quando afirmas que Deus criou o universo, o mundo, os anjos, o Homem, etc. Ou seja, em parte alguma do teu discurso dizes que o relato da criação é uma interpretação do universo de uns quantos homens que viveram há uns bons milhares de anos atrás.»
Tens toda a razão. Eu tomo como real que Deus criou o Universo, os anjos, o Homem, etc., Mas espero ter deixado claro que há muitas nuances na palavra "criou"...
«E desculpa a minha ignorância... Como é que tu sabes? Se não for através da interpretação que homens fazem das palavras de outros homens, como é que tu podes saber?»
Toda a solidez da minha posição advém, como referi, de confiar no que a Igreja me ensina, e confiar na razão e nas certezas do meu intelecto racional. Aqui há uma hierarquia: eu creio primeiro para entender depois ("credo ut intelligam"), e não ao contrário. Também isso é a prática humana de sempre. Quando estamos na aula, acreditamos no professor antes de entendermos. Quando o nosso pai nos ensina a nadar, acreditamos primeiro nele antes de sabermos nadar. E assim por diante. Claro que podes perguntar-me: "mas como sabes tu que a Igreja ensina o que Cristo ensinou?". Aqui podemos avançar muito, e mesmo muito, com o estudo dos dados históricos, com a leitura do próprio Novo Testamento, e com a sua análise histórica e historiográfica. Com a leitura da Didaché e de outros textos em uso pelos primeiros cristãos. Com a leitura da patrologia, ou seja, dos textos dos Padres da Igreja, escritos durante os primeiros séculos de cristianismo. A doutrina cristã, quando estudada com rigor, apresenta-se completa e consistente, na sua essência, desde os primórdios do Cristianismo.
«O ser humano tem errado ao longo de toda a sua existência. Ou afirmas que os homens que escreveram, compilaram e editaram a Bíblia, não erram, ou afirmas que o texto foi escrito pela própria mão de Deus...»
O ser humano erra. Mas erra muito menos quando tenta seguir a Palavra de Deus. Logo no primeiro século de cristianismo, tens centenas e milhares de pessoas a preferirem serem mortas para não serem obrigadas a renegar a verdade da ressurreição de Cristo. Seriam loucos? Vítimas de alucinação? Conheces muitos casos de grupos organizados de pessoas que preferem serem mortos por teimarem numa ideia?
Em três séculos, essa religião de mulheres e de escravos tomou conta do Império Romano. Isso não te diz nada? Cristo disse que conheceríamos a qualidade da árvore pela qualidade dos frutos. O cristianismo inaugurou uma nova era de direitos humanos, de cultura, de ciência, de justiça. Trouxe o conceito totalmente inovador e revolucionário de caridade. Isso não vale nada? Isso não poderá indicar a origem sobrenatural da ideia cristã?
Hoje achamos banal, a ideia. Mas ela é espantosa: o próprio Deus faz-Se Homem, deixa-Se matar às nossas mãos, e tudo porque nos ama? E tudo para resgatar-nos do nosso pecado? E tudo para nos lançar numa vida nova?
Nenhuma outra religião coloca Deus no teatro humano como faz o cristianismo. Cristo não é um "avatar" como os hindus, que acham que a divindade, de vez em quando, assume uma forma humana. A teologia cristã não é uma teologia de divindades que, de tempos a tempos, visitam um corpo humano. A teologia cristã diz que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. As regras da lógica levam-nos a ver aqui um vislumbre positivo em matéria de direitos humanos: afinal o homem até deve valer qualquer coisinha... Daqui até compreendermos a paixão cristã pela vida humana, vai um salto pequeno.
«Quando conferes autoridade absoluta aquilo que é descrito pelos autores do Novo Testamento, será que esqueces que não temos as palavras de Jesus, nem sequer dos seus discípulos directos?»
É claro que temos, Leonor. Não há consistência científica nenhuma na tese que defende que o Novo Testamento é fantasioso. O Novo Testamento tem, todo ele, uma estrutura factual e cronológica. Os Actos dos Apóstolos relatam, em primeira mão, acontecimentos presenciados pelo autor do livro. As cartas de São Paulo foram escritas pelo próprio, e enviadas a outros para serem lidas. Os autores dos Evangelhos não foram todos apóstolos directos de Cristo (João e Mateus sim, mas Marcos e Lucas não). Mas São Marcos viveu lado a lado com São Pedro durante tempo suficiente para absorver tudo dele. E São Lucas, médico companheiro de viagem de São Paulo, percorreu a viagem cristã por excelência: a missionação do Apóstolo dos Gentios, São Paulo.
«O que queres dizer, é que a Igreja, ou a tradição da Igreja diz que é assim e ponto final.»
Já terei referido que a crença em noções teológicas com base exclusiva em argumentos de autoridade é uma heresia, chamada "fideísmo". A tua frase, na sua essência, surge condenada pela própria Igreja como sendo herética. Obras imponentes como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino são exemplos do fascínio cristão pela argumentação racional, contra posições fideístas, consideradas erradas, pelo desprezo pela razão como fonte de aferição intelectual.
Se fosse como dizes, eu teria que dizer coisas refutadas pela ciência ou pela história. Onde estão essas refutações?
Se fosse como dizes, não haveria consistência histórica no Novo Testamento. Mas há! Que pensar então disso?
Um abraço!
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Mais sobre a "papisa Joana"
(Foto: © Constantin Film)
Como todas as boas histórias de ficção, a lenda da "papisa Joana" sobrevive, hoje mais do que nunca graças a um generalizado ambiente anticatólico nos agentes mediáticos (jornais, televisões, cinema, etc.), conjugado com uma invencível ignorância (não direi que a perfídia é generalizada) desses mesmos agentes acerca da História da Igreja e de antigas polémicas, há muito refutadas, mas que teimam em vir à superfície.
Atrás, reproduzi o artigo de Elizabeth Lev, da Zenit.
E agora, trago mais alguma informação pertinente para este tema.
Numa altura em que os protestantes, na sua generalidade, regozijavam-se com toda a boa historieta que manchasse a reputação de Roma, dois protestantes de notável erudição levantaram as suas vozes contra esta farsa, David Blondel e Pierre Bayle.
O francês David Blondel (1591-1655), escreveu uma obra inteira, que fez polémica entre os adeptos da lenda, intitulada De Joanna Papissa (póstuma, Amsterdão, 1657).
Por sua vez, o francês Pierre Bayle (1647-1706), no tomo dezasseis do seu Dictionnaire historique et critique, na entrada "PAPESSE" (pág. 501), usa os termos "conte" e "fable" para se referir à lenda da "papisa Joana".
Se não bastavam dois pesos pesados da erudição protestante, insuspeitos de qualquer proselitismo papal, ainda se podiam ir buscar mais exemplos de rejeição desta lenda, mas fica sempre bem ir buscar uma citação de Edward Gibbon, esse zeloso crítico do cristianismo, que na sua obra The decline and fall of the Roman Empire (1776-1788), refere-se à historieta da "papisa" como "the fable of a female pope". Veja-se o que o britânico escreve nas nota 139 e 140 da página 818 (cap. XLIX):
«139. As false, it deserves that name; but I would not pronounce it incredible (...)»
Mas é claro, Gibbon! Porque razão se diria que a história não poderia ter acontecido? O que interessa, realmente, para quem gosta da verdade, é saber se a história aconteceu mesmo! Gibbon não tem dúvidas: "as false, it deserves that name". Vinda de alguém que não perde uma oportunidade para denegrir o cristianismo, esta frase é valiosa. Vejamos agora a nota 140:
«140. Till the Reformation, the tale was repeated and believed without offense; and Joan's female statue long occupied her place among the Popes in the cathedral of Sienna (Pagi, Critica, tom. iii., p. 624-626). She has been annihilated by two learned Protestants, Blondel and Bayle (Dictionnaire Critique, Papesse, Polonus, Blondel); but their brethen were scandalized by this equitable and generous criticism. Spanheim and Lenfant attempt to save this poor engine of controversy; and even Mosheim condescends to cherish some doubt and suspicion (p. 289).»
"Poor engine of controversy", é assim que Edward Gibbon intitula a historieta da "papisa Joana". Pena é que, tanto Donna Woofolk Cross, a autora do livro Pope Joan que alimenta o recente filme Die Päpstin (2009), como o guionista do dito filme, Heinrich Hadding, não estejam na posse destes conhecimentos básicos, e usem a literatura e a sétima arte como veículos de mentira e de propaganda. Espero que inconscientemente, e apenas por causa da sua ignorância histórica.
Como todas as boas histórias de ficção, a lenda da "papisa Joana" sobrevive, hoje mais do que nunca graças a um generalizado ambiente anticatólico nos agentes mediáticos (jornais, televisões, cinema, etc.), conjugado com uma invencível ignorância (não direi que a perfídia é generalizada) desses mesmos agentes acerca da História da Igreja e de antigas polémicas, há muito refutadas, mas que teimam em vir à superfície.
Atrás, reproduzi o artigo de Elizabeth Lev, da Zenit.
E agora, trago mais alguma informação pertinente para este tema.
Numa altura em que os protestantes, na sua generalidade, regozijavam-se com toda a boa historieta que manchasse a reputação de Roma, dois protestantes de notável erudição levantaram as suas vozes contra esta farsa, David Blondel e Pierre Bayle.
O francês David Blondel (1591-1655), escreveu uma obra inteira, que fez polémica entre os adeptos da lenda, intitulada De Joanna Papissa (póstuma, Amsterdão, 1657).
Por sua vez, o francês Pierre Bayle (1647-1706), no tomo dezasseis do seu Dictionnaire historique et critique, na entrada "PAPESSE" (pág. 501), usa os termos "conte" e "fable" para se referir à lenda da "papisa Joana".
Se não bastavam dois pesos pesados da erudição protestante, insuspeitos de qualquer proselitismo papal, ainda se podiam ir buscar mais exemplos de rejeição desta lenda, mas fica sempre bem ir buscar uma citação de Edward Gibbon, esse zeloso crítico do cristianismo, que na sua obra The decline and fall of the Roman Empire (1776-1788), refere-se à historieta da "papisa" como "the fable of a female pope". Veja-se o que o britânico escreve nas nota 139 e 140 da página 818 (cap. XLIX):
«139. As false, it deserves that name; but I would not pronounce it incredible (...)»
Mas é claro, Gibbon! Porque razão se diria que a história não poderia ter acontecido? O que interessa, realmente, para quem gosta da verdade, é saber se a história aconteceu mesmo! Gibbon não tem dúvidas: "as false, it deserves that name". Vinda de alguém que não perde uma oportunidade para denegrir o cristianismo, esta frase é valiosa. Vejamos agora a nota 140:
«140. Till the Reformation, the tale was repeated and believed without offense; and Joan's female statue long occupied her place among the Popes in the cathedral of Sienna (Pagi, Critica, tom. iii., p. 624-626). She has been annihilated by two learned Protestants, Blondel and Bayle (Dictionnaire Critique, Papesse, Polonus, Blondel); but their brethen were scandalized by this equitable and generous criticism. Spanheim and Lenfant attempt to save this poor engine of controversy; and even Mosheim condescends to cherish some doubt and suspicion (p. 289).»
"Poor engine of controversy", é assim que Edward Gibbon intitula a historieta da "papisa Joana". Pena é que, tanto Donna Woofolk Cross, a autora do livro Pope Joan que alimenta o recente filme Die Päpstin (2009), como o guionista do dito filme, Heinrich Hadding, não estejam na posse destes conhecimentos básicos, e usem a literatura e a sétima arte como veículos de mentira e de propaganda. Espero que inconscientemente, e apenas por causa da sua ignorância histórica.
“A Papisa”, História de um Papa que jamais existiu
Por Elizabeth Lev
ROMA, quarta-feira, 7 de julho de 2010 (ZENIT.org) - «Desde a antiguidade, os romanos sempre adoraram uma boa farsa. De Plauto a Neri Parenti, mulheres fantasiadas de homens, personagens de clichê e bufões têm deleitado os habitantes da Cidade Eterna.
O novo filme alemão “A Papisa”, que estréia nesta semana nos cinemas italianos, porém, esquivou-se do âmbito da comédia para apresentar a história fictícia de um Papa do sexo feminino, numa narrativa longa e cansativa que nos faz lembrar os Monty Python com nostalgia.
“A Papisa” baseia-se no livro homônimo da escritora norte-americana Donna Woolfolk Cross. Publicado em 1996 após “sete anos de pesquisas”, narra uma fábula com suficientes viradas grotescas para ser digna dos irmãos Grimm.
A história gira em torno de Joana, uma jovem criada na Alemanha do século IX por um sacerdote que se recusava a reconhecer suas qualidades intelectuais, uma vez que “sob a perspectiva católica”, as mulheres seriam inferiores.
Este último aspecto, destacado pelos múltiplos maus-tratos sofridos pela protagonista, evidencia a convicção pessoal da autora da “evidente carência da Igreja católica” de um toque feminino.
Joana cresce travestida de homem, e mediante uma série de incidentes providenciais, chega a Roma, onde, graças às suas aptidões médicas únicas, seu alter ego, "Giovanni Anglicus", torna-se confidente do Papa Sérgio II (844-847). Com a morte prematura do Pontífice, provocada por intrigas, "Giovanni Anglicus" torna-se Papa por aclamação popular.
Joana dedica-se então a uma série de reformas, que incluem a implementação das “escolas catedrais” para mulheres (ainda que, na verdade, tais escolas só fossem surgir dois séculos mais tarde), a reforma dos aquedutos e melhorias na vida cívica. Obviamente, a missa, a oração e os sacramentos não tem lugar na vida atarefada de Joana, e o filme não faz menção a uma possível ordenação de "Giovanni Anglicus".
Seu breve pontificado encerra-se com sua morte, durante a procissão do Domingo de Páscoa, em razão de um aborto. Seu nome teria sido então apagado do Liber Pontificalis por vingança.
O filme apresenta uma típica visão do pontificado como uma corporação, na qual uma mulher pode exercer o papel de “diretora executiva” como qualquer homem. As cenas sensuais que retratam a relação de Joana com seu amante, o Conde Gerold (interpretado por David Wetham, o “Faramir” de “O Senhor dos anéis”), lembram cenas de “Sex in the City”.
A lenda da Papisa Joana nasceu há cerca de 800 anos, e é atribuída aos hereges cátaros. Há muitas discrepâncias nas diferentes versões: algumas dizem que teria sido eleita em 847, outras falam em 1087; algumas afirmam que seu nome era Joana (Giovanna), outras Agnese ou Giberta; o que é certo é que não há registros anteriores a 1250 da história, quando a Crônica Universal de Menz a menciona pela primeira vez.
O mito foi retomado pelos protestantes no século XVI e divulgado a fim de danificar a imagem do pontificado. David Blondel demonstrou a falsidade da história em uma série de estudos publicados em Amsterdã em 1650.
Como a maior parte dos filmes anti-católicos, “A Papisa” faz uso livre das palavras de São Paulo sobre as mulheres, a fim de sustentar que a Igreja as tem oprimido desde as origens. Ignora, por exemplo, que a mais antiga universidade do ocidente - a Universidade de Bolonha - já admitia estudantes mulheres desde o início de suas atividades, em 1088.
O filme se toma muito a sério, mas o resultado são 2 horas e 19 minutos de tédio. Na tentativa de resgatar o expectador do estado de torpor, quando a história é transportada para Roma, as cenas rurais desaparecem para dar lugar à suntuosa corte papal, enquanto os aposentos (situados erroneamente em São Pedro e não em São João Latrão) ostentam brilhantes colunas de mármore negro e um leito papal faraônico, com cortinas de veludo e estátuas douradas.
Embora o filme ainda não tenha encontrado um distribuidor nos EUA, estreou na telas italianas a tempo para as comemorações de São Pedro e São Paulo; e enquanto o mundo celebrava o testemunho daquele que foi o primeiro Papa, seus expectadores puderam acompanhar a história de um papa que jamais existiu.»
ROMA, quarta-feira, 7 de julho de 2010 (ZENIT.org) - «Desde a antiguidade, os romanos sempre adoraram uma boa farsa. De Plauto a Neri Parenti, mulheres fantasiadas de homens, personagens de clichê e bufões têm deleitado os habitantes da Cidade Eterna.
O novo filme alemão “A Papisa”, que estréia nesta semana nos cinemas italianos, porém, esquivou-se do âmbito da comédia para apresentar a história fictícia de um Papa do sexo feminino, numa narrativa longa e cansativa que nos faz lembrar os Monty Python com nostalgia.
“A Papisa” baseia-se no livro homônimo da escritora norte-americana Donna Woolfolk Cross. Publicado em 1996 após “sete anos de pesquisas”, narra uma fábula com suficientes viradas grotescas para ser digna dos irmãos Grimm.
A história gira em torno de Joana, uma jovem criada na Alemanha do século IX por um sacerdote que se recusava a reconhecer suas qualidades intelectuais, uma vez que “sob a perspectiva católica”, as mulheres seriam inferiores.
Este último aspecto, destacado pelos múltiplos maus-tratos sofridos pela protagonista, evidencia a convicção pessoal da autora da “evidente carência da Igreja católica” de um toque feminino.
Joana cresce travestida de homem, e mediante uma série de incidentes providenciais, chega a Roma, onde, graças às suas aptidões médicas únicas, seu alter ego, "Giovanni Anglicus", torna-se confidente do Papa Sérgio II (844-847). Com a morte prematura do Pontífice, provocada por intrigas, "Giovanni Anglicus" torna-se Papa por aclamação popular.
Joana dedica-se então a uma série de reformas, que incluem a implementação das “escolas catedrais” para mulheres (ainda que, na verdade, tais escolas só fossem surgir dois séculos mais tarde), a reforma dos aquedutos e melhorias na vida cívica. Obviamente, a missa, a oração e os sacramentos não tem lugar na vida atarefada de Joana, e o filme não faz menção a uma possível ordenação de "Giovanni Anglicus".
Seu breve pontificado encerra-se com sua morte, durante a procissão do Domingo de Páscoa, em razão de um aborto. Seu nome teria sido então apagado do Liber Pontificalis por vingança.
O filme apresenta uma típica visão do pontificado como uma corporação, na qual uma mulher pode exercer o papel de “diretora executiva” como qualquer homem. As cenas sensuais que retratam a relação de Joana com seu amante, o Conde Gerold (interpretado por David Wetham, o “Faramir” de “O Senhor dos anéis”), lembram cenas de “Sex in the City”.
A lenda da Papisa Joana nasceu há cerca de 800 anos, e é atribuída aos hereges cátaros. Há muitas discrepâncias nas diferentes versões: algumas dizem que teria sido eleita em 847, outras falam em 1087; algumas afirmam que seu nome era Joana (Giovanna), outras Agnese ou Giberta; o que é certo é que não há registros anteriores a 1250 da história, quando a Crônica Universal de Menz a menciona pela primeira vez.
O mito foi retomado pelos protestantes no século XVI e divulgado a fim de danificar a imagem do pontificado. David Blondel demonstrou a falsidade da história em uma série de estudos publicados em Amsterdã em 1650.
Como a maior parte dos filmes anti-católicos, “A Papisa” faz uso livre das palavras de São Paulo sobre as mulheres, a fim de sustentar que a Igreja as tem oprimido desde as origens. Ignora, por exemplo, que a mais antiga universidade do ocidente - a Universidade de Bolonha - já admitia estudantes mulheres desde o início de suas atividades, em 1088.
O filme se toma muito a sério, mas o resultado são 2 horas e 19 minutos de tédio. Na tentativa de resgatar o expectador do estado de torpor, quando a história é transportada para Roma, as cenas rurais desaparecem para dar lugar à suntuosa corte papal, enquanto os aposentos (situados erroneamente em São Pedro e não em São João Latrão) ostentam brilhantes colunas de mármore negro e um leito papal faraônico, com cortinas de veludo e estátuas douradas.
Embora o filme ainda não tenha encontrado um distribuidor nos EUA, estreou na telas italianas a tempo para as comemorações de São Pedro e São Paulo; e enquanto o mundo celebrava o testemunho daquele que foi o primeiro Papa, seus expectadores puderam acompanhar a história de um papa que jamais existiu.»
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
São Nuno Álvares Pereira (1360-1431)
CIDADE DO VATICANO, domingo, 26 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI canonizou na manhã de hoje, na Praça de São Pedro, o antigo general português Nuno Álvares Pereira, qualificando-o de “herói e santo de Portugal”.
“«Sabei que o Senhor me fez maravilhas. Ele me ouve, quando eu o chamo» (Sal 4,4). Estas palavras do Salmo Responsorial exprimem o segredo da vida do bem-aventurado Nuno de Santa Maria, herói e santo de Portugal”, disse o Papa em língua portuguesa, na homilia de missa de canonização.
Bento XVI recordou que os setenta anos da vida do herói português situam-se na segunda metade do século XIV e primeira do século XV, “que viram aquela nação consolidar a sua independência de Castela e estender-se depois pelos Oceanos – não sem um desígnio particular de Deus –, abrindo novas rotas que haviam de propiciar a chegada do Evangelho de Cristo até aos confins da terra”.
“São Nuno sente-se instrumento deste desígnio superior e alistado na militia Christi, ou seja, no serviço de testemunho que cada cristão é chamado a dar no mundo. Características dele são uma intensa vida de oração e absoluta confiança no auxílio divino.”
“Embora fosse um ótimo militar e um grande chefe –prosseguiu o Papa–, nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à acção suprema que vem de Deus.”
São Nuno “esforçava-se por não pôr obstáculos à ação de Deus na sua vida, imitando Nossa Senhora, de Quem era devotíssimo e a Quem atribuía publicamente as suas vitórias. No ocaso da sua vida, retirou-se para o convento do Carmo por ele mandado construir”.
O Papa confessou sentir-se “feliz por apontar à Igreja inteira esta figura exemplar nomeadamente pela presença duma vida de fé e oração em contextos aparentemente pouco favoráveis à mesma, sendo a prova de que em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélica, é possível atuar e realizar os valores e princípios da vida cristã, sobretudo se esta é colocada ao serviço do bem comum e da glória de Deus”.
Uma data histórica para Portugal, porque sem São Nuno, hoje Portugal não existiria como nação independente.
Contra o "politicamente correcto", o Papa Bento XVI reforçou de forma clara a figura do Santo Condestável como "miles christi", ou seja, "soldado de Cristo". Assim, o Papa mostrou que é toda a vida do Santo Condestável que brilha, não seguindo Bento XVI a opção acabrunhada de alguns pelo exclusivo vincar dos anos finais do Santo, passados em oração e contemplação, como se a heróica vida de valoroso soldado fosse alguma coisa de vergonhoso ou que se devesse esconder.
Já agora, vale a pena ler o que escreveu Introvigne sobre a canonização do Santo: Benedetto XVI e San Nuno Alvares Pereira. Le lezioni di una canonizzazione.
“«Sabei que o Senhor me fez maravilhas. Ele me ouve, quando eu o chamo» (Sal 4,4). Estas palavras do Salmo Responsorial exprimem o segredo da vida do bem-aventurado Nuno de Santa Maria, herói e santo de Portugal”, disse o Papa em língua portuguesa, na homilia de missa de canonização.
Bento XVI recordou que os setenta anos da vida do herói português situam-se na segunda metade do século XIV e primeira do século XV, “que viram aquela nação consolidar a sua independência de Castela e estender-se depois pelos Oceanos – não sem um desígnio particular de Deus –, abrindo novas rotas que haviam de propiciar a chegada do Evangelho de Cristo até aos confins da terra”.
“São Nuno sente-se instrumento deste desígnio superior e alistado na militia Christi, ou seja, no serviço de testemunho que cada cristão é chamado a dar no mundo. Características dele são uma intensa vida de oração e absoluta confiança no auxílio divino.”
“Embora fosse um ótimo militar e um grande chefe –prosseguiu o Papa–, nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à acção suprema que vem de Deus.”
São Nuno “esforçava-se por não pôr obstáculos à ação de Deus na sua vida, imitando Nossa Senhora, de Quem era devotíssimo e a Quem atribuía publicamente as suas vitórias. No ocaso da sua vida, retirou-se para o convento do Carmo por ele mandado construir”.
O Papa confessou sentir-se “feliz por apontar à Igreja inteira esta figura exemplar nomeadamente pela presença duma vida de fé e oração em contextos aparentemente pouco favoráveis à mesma, sendo a prova de que em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélica, é possível atuar e realizar os valores e princípios da vida cristã, sobretudo se esta é colocada ao serviço do bem comum e da glória de Deus”.
Uma data histórica para Portugal, porque sem São Nuno, hoje Portugal não existiria como nação independente.
Contra o "politicamente correcto", o Papa Bento XVI reforçou de forma clara a figura do Santo Condestável como "miles christi", ou seja, "soldado de Cristo". Assim, o Papa mostrou que é toda a vida do Santo Condestável que brilha, não seguindo Bento XVI a opção acabrunhada de alguns pelo exclusivo vincar dos anos finais do Santo, passados em oração e contemplação, como se a heróica vida de valoroso soldado fosse alguma coisa de vergonhoso ou que se devesse esconder.
Já agora, vale a pena ler o que escreveu Introvigne sobre a canonização do Santo: Benedetto XVI e San Nuno Alvares Pereira. Le lezioni di una canonizzazione.
sábado, 25 de abril de 2009
Santos portugueses - fonte de inspiração
"Aproveitamos a oportunidade para vos recordar a lista daqueles que, nascidos em Portugal ou em terras de administração portuguesa, foram elevados às honras dos altares:
- S. Teotónio, nascido no Minho em 1082, falecido em 1161 e canonizado em 1163;
- Santo António, nascido em Lisboa em 1191, falecido em Pádua em 1231 e canonizado em 1232;
- Santa Beatriz da Silva, nascida em Campo Maior (ou em Ceuta) em 1424, falecida em 1492 e canonizada em 1976;
- S. João de Deus, nascido em Montemor-o-Novo em 1495, falecido em Granada em 1550 e canonizado em 1690;
- S. Gonçalo Garcia, nascido em Baçaim (Goa) por volta de 1560 , martirizado no Japão em 1597 e canonizado em 1862;
- S. João de Brito, nascido em Lisboa em 1647, martirizado na Índia em 1693 e canonizado em 1947;
- Santo António Sant’Anna Galvão, nascido no estado de São Paulo (Brasil) em 1739, falecido em 1822 e canonizado em 2007.
A esta lista teremos de acrescentar necessariamente Santa Isabel de Portugal, nascida em Aragão em 1270, rainha de Portugal de 1282 a 1325, falecida em Estremoz em 1336 e canonizada em 1625.
Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus, nascida em Itália em 1865, faleceu no Brasil em 1942 e foi canonizada em 2002, sendo considerada por todos uma “santa brasileira”. O mesmo se diga dos Mártires do Rio Grande do Sul (1628), canonizados em 1988, embora dois (Afonso Domingues e João de Castilho) tenham nascido em Espanha e o terceiro (Roque Gonzalez) no Paraguai.
Que todos eles, mais os muitos beatos saídos nas nossas terras, intercedam por nós neste tempo que vamos vivendo.
Com muita amizade
A equipa portuguesa de EAQ
PS: E já amanhã, o Santo Condestável junta-se a esta lista!
- S. Teotónio, nascido no Minho em 1082, falecido em 1161 e canonizado em 1163;
- Santo António, nascido em Lisboa em 1191, falecido em Pádua em 1231 e canonizado em 1232;
- Santa Beatriz da Silva, nascida em Campo Maior (ou em Ceuta) em 1424, falecida em 1492 e canonizada em 1976;
- S. João de Deus, nascido em Montemor-o-Novo em 1495, falecido em Granada em 1550 e canonizado em 1690;
- S. Gonçalo Garcia, nascido em Baçaim (Goa) por volta de 1560 , martirizado no Japão em 1597 e canonizado em 1862;
- S. João de Brito, nascido em Lisboa em 1647, martirizado na Índia em 1693 e canonizado em 1947;
- Santo António Sant’Anna Galvão, nascido no estado de São Paulo (Brasil) em 1739, falecido em 1822 e canonizado em 2007.
A esta lista teremos de acrescentar necessariamente Santa Isabel de Portugal, nascida em Aragão em 1270, rainha de Portugal de 1282 a 1325, falecida em Estremoz em 1336 e canonizada em 1625.
Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus, nascida em Itália em 1865, faleceu no Brasil em 1942 e foi canonizada em 2002, sendo considerada por todos uma “santa brasileira”. O mesmo se diga dos Mártires do Rio Grande do Sul (1628), canonizados em 1988, embora dois (Afonso Domingues e João de Castilho) tenham nascido em Espanha e o terceiro (Roque Gonzalez) no Paraguai.
Que todos eles, mais os muitos beatos saídos nas nossas terras, intercedam por nós neste tempo que vamos vivendo.
Com muita amizade
A equipa portuguesa de EAQ
PS: E já amanhã, o Santo Condestável junta-se a esta lista!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Acerca do artigo “O Código Escondido da Virgem Maria”
(Publicado na Revista Sábado em 18-12-2008)
Serve o presente texto para corrigir uma série de erros factuais e interpretativos que surgem no referido artigo da revista Sábado. As citações do artigo surgem entre aspas, enquanto que os comentários e correcções surgem logo a seguir a cada citação. Por simplicidade, este "post" não contém notas de rodapé nem referências: estas podem ser consultadas na versão Acrobat PDF deste texto, na secção lateral "Artigos". O autor deste texto agradece a quem identificar eventuais erros nas correcções que aqui são feitas.
Porquê “impensável”?
É uma consequência lógica da doutrina cristã: sem o “sim” voluntário de Maria, Cristo não teria nascido. Logo, Maria desempenha um papel decisivo na salvação da Humanidade. O prefixo “co” em “co-redentora” vem do latim “cum”, ou seja, “com”. Não implica igualdade entre Maria e Cristo, mas sim uma cooperação entre ambos.
Trata-se de um erro factual. O nome concreto de Maria surge dezanove vezes, o dobro do indicado no artigo. Mas se procurarmos por “mãe de Jesus” ou por “sua mãe” (de Jesus), surgem trinta e três ocorrências, o triplo do indicado no artigo. Ver no Anexo (disponível na versão Acrobat PDF deste texto, na secção lateral "Artigos") o elenco completo das referências à mãe de Jesus em todo o Novo Testamento.
Paulo (Saulo de Tarso) não conheceu Maria pessoalmente, nem acompanhou Jesus no seu percurso terreno. No entanto, esse distanciamento físico dos acontecimentos não implica um distanciamento em relação à doutrina cristã sobre Maria. As cartas de Paulo têm funções específicas e um conteúdo teológico concreto: transmitir aos gentios a doutrina da Incarnação de Deus em Cristo, proclamar a sua Morte e Ressurreição, bem como o carácter salvífico de Cristo. Paulo não pretendeu com as suas cartas narrar episódios históricos como o da infância de Jesus ou o da Anunciação a Maria.
Mas ao mesmo tempo, Lucas, o evangelista que mais escreve sobre Maria, foi companheiro de viagem de Paulo e seu colaborador próximo , pelo que certamente teriam tido ampla oportunidade para falar sobre Maria e o seu papel na salvação. Pela elevada estima que Paulo demonstra pelo médico Lucas , é inverosímil que não partilhassem da mesma doutrina acerca de Maria. Lucas recolheu os detalhes acerca de Maria nas suas viagens, quando ia ao encontro dos apóstolos e dos demais discípulos que conheceram Cristo e Maria pessoalmente.
Paulo refere (Gálatas 4, 4) que Cristo nasceu de uma mulher tendo em mente a promessa de Deus feita acerca da Mulher e da serpente (Génesis, 3, 15): que seria através de uma mulher que se venceria o Mal, devido à perpétua inimizade fixada por Deus entre a descendência de Eva e a da serpente e da superioridade daquela em relação a esta. Por isso, esse único ponto em que Paulo fala concretamente sobre Maria é crucial porque demonstra que ele tinha bem presente o carácter central e providencial de Maria para a salvação da Humanidade.
Paulo cita ainda na sua carta a Timóteo (Timóteo 5, 18) um versículo do Evangelho de Lucas (Lucas 10, 7), o que prova que conhecia o texto; e fá-lo usando a expressão “como diz a Escritura” o que permite constatar que Paulo considera o texto de Lucas como parte integrante das Sagradas Escrituras.
A imagem de uma mãe com o filho ao colo é suficientemente universal na cultura da humanidade, e por isso não é necessário forçar ligações ao Antigo Egipto. Se é certo que, nos primeiros séculos da nossa era, existia um importante culto popular a Ísis e a Hórus, há que afirmar que esse culto subsistia já desligado da tradição sacerdotal egípcia. A religião egípcia enquanto tal, à falta de representantes autênticos, estava praticamente extinta.
Se é legítimo afirmar que um artista cristão, eventualmente exposto à arte egípcia, se poderia inspirar nas formas artísticas das representações de Ísis e Hórus para criar obras representativas de Maria com o Menino, por outro lado, é ilegítimo fazer derivar todas estas representações artísticas cristãs da tradição artística relativa a Ísis e Hórus.
As conquistas de Alexandre, o Grande, espalharam a cultura helénica pela bacia do Mediterrâneo e pelo Médio Oriente. Nos primeiros séculos da nossa era, Alexandria era a capital dessa cultura, que sem dúvida marcou muito mais o cristianismo do que a egípcia.
Não é correcto falar em facção ariana, uma vez que os cristãos sempre procuraram preservar uma doutrina comum de tradição apostólica. Mas é certo que, ao longo da História, surgiram correntes que se desviaram dessa tradição, e por isso mesmo foram rejeitadas pelo cristianismo, como é o caso de Ário de Alexandria e dos seus seguidores, mas esta corrente, mesmo no auge da sua importância, era minoritária no colégio episcopal, como se vê pela sua derrota esmagadora, por voto, no Concílio de Niceia em 325. As ideias do bispo Ário contrariavam a tradição apostólica, e por isso mesmo, foram rejeitadas pela clara maioria dos bispos reunidos em Niceia. De um total aproximado de 220 bispos, apenas são conhecidos dois apoiantes de Ário: Teónas de Marmarica e Segundo de Ptolemais.
• O Concílio de Niceia não se reuniu para definir o culto a Jesus ou reduzir o papel de Maria, mas sim para condenar as ideias heréticas do bispo Ário, que contra a tradição apostólica, pretendia reduzir a divindade de Cristo; o Concílio definiu ainda a forma de calcular a data da Páscoa, uma festa móvel ;
• Porquê “demonstração radical de força”? Uma votação “inter pares”, entre bispos, sobre questões de doutrina é uma demonstração radical de força?
• Em Niceia, não se votou Jesus como Deus: deliberou-se o afastamento dos que não O viam plenamente como tal, os seguidores da heresia de Ário, tendo o Concílio sugerido a palavra “consubstancial” (em grego «homoousios») como expressão verbal da unidade divina (em substância) do Pai com o Filho; Jesus sempre foi visto como Deus pelos seus seguidores: um bom exemplo desta doutrina encontra-se na obra de Santo Ireneu, datada do final do século II , e portanto, anterior ao Concílio de Niceia;
• O Concílio de Niceia em 325 não determinou os textos do cânone: o tema nem sequer constou da ordem de trabalhos;
• Os textos do Novo Testamento datam do século I d.C, conforme o acordo dos especialistas; quando muito, o Evangelho de São João e o Livro do Apocalipse de São João datarão do início do século II;
• As compilações do Novo Testamento já estavam consolidadas no final do século II d.C. (o Codex Muratori , a mais antiga compilação conhecida dos textos neotestamentários, é datada quase unanimemente entre 180-200 d.C.);
• O Proto-evangelho de Tiago não foi deixado de parte por se referir a Maria: o texto não apresenta problemas doutrinais, e de facto, não poucos dos seus elementos passaram a integrar a tradição popular cristã; o texto foi excluído do cânone do Novo Testamento por conter detalhes fantasiosos e inverosímeis .
Custa a acreditar que uma transformação tão profunda, a ter ocorrido, como se pretende no artigo, teria ocorrido em apenas dez dias. Qual é a base histórica para esta afirmação? Porque razão seria a mãe de Cristo (Deus para os cristãos) um “segredo envergonhado”? A conclusão de Éfeso, de que Maria é Mãe de Deus (“teotokos”), é a conclusão lógica e necessária para todo aquele que defende que Cristo é Deus, uma vez que Maria é mãe de Cristo.
• Porque razão se diz que o concílio “foi no mínimo escandaloso”?
• Porque razão se diz que “Cirilo partia em desvantagem”, quando era o séquito de Cirilo (50 bispos) o maior, quando comparado com os apoiantes de Nestório (16 bispos)? Para mais, o papa Celestino I, numa carta de 11 de Agosto de 430, encarrega o Patriarca Cirilo da responsabilidade de dirigir o Concílio; o imperador bizantino, não tendo autoridade em teologia, tomou inicialmente o partido de Nestório, mas após o fecho do concílio, aceitou as suas conclusões;
• Quais são as evidências históricas dos ditos “subornos”?
• “Foi o primeiro a chegar a Éfeso” é um erro factual: Nestório chegou antes de Cirilo, ou na melhor das hipóteses, chegou no mesmo dia que este (vide Actas Coptas), um pouco antes do Pentecostes;
• O papa Celestino I, tendo declarado heréticas as ideias de Nestório, deu-lhe dez dias para as repudiar; a intenção do Papa era usar o concílio para julgar as ideias de Nestório; no entanto, este não quis comparecer nas sessões: foi três vezes convocado para comparecer, e recusou todas; o mandato de Cirilo dava-lhe poder para iniciar o concílio após os dez dias concedidos a Nestório; Cirilo deu um prazo maior, tendo iniciado o concílio apenas a 22 de Junho;
• Não se sabe se o atraso do Patriarca João de Antioquia, amigo de Nestório, foi um atraso propositado ou acidental; ao chegar ao concílio apenas no dia 27 de Junho, João decidiu acusar Cirilo de heresia, mas a sua posição foi rejeitada por todos os restantes bispos, e foi o próprio João a ver-se excomungado pelo Concílio .
Esta afirmação é incompreensível no contexto cristão. Sabe-se que, em certos politeísmos, certas deusas eram associadas à sexualidade e à maternidade. Mas no cristianismo, só há um Deus, e Deus não tem sexo, nem masculino nem feminino. Maria não é nenhuma “deusa”, nem nunca foi definida como divina pela doutrina cristã.
A doutrina cristã é muito explícita no considerar Maria como humana e não divina. A doutrina da Imaculada Conceição, definindo que Maria desde o seu início não foi tocada pelo pecado original, entre outras coisas equipara-a ao estado de Adão e Eva antes de pecarem, pelo que essa doutrina não a eleva a um estatuto divino. A doutrina da sua assunção aos céus também não altera a sua natureza humana, bem como a doutrina da sua virgindade perpétua. Ser declarada mãe de Deus também não a torna divina: ela é a progenitora humana de Cristo, que é Deus feito Homem.
É preciso dizer que a dita obra Alethes Logos, do filósofo platónico Celso (que seria romano e não grego), está desaparecida há séculos e só a conhecemos através da extensa obra (oito volumes) de refutação escrita pelo escritor cristão Orígenes em 248, Contra Celsum . Orígenes teve tanto cuidado na sua refutação que foi possível a partir dela reconstruir a quase totalidade do texto original de Celso. Este facto vai contra a ideia geral do artigo, que seria a de que a Igreja teria tentado ocultar verdades sobre Maria e sobre Jesus. Ora a verdade é que só sabemos desta teoria de Celsus acerca do soldado romano Panthera porque um autor cristão, Orígenes, a contestou por escrito. Se o objectivo fosse a ocultação do segredo, porque não teria Orígenes ficado calado?
Para mais, a teoria proposta por Celso é uma corruptela de uma teoria hebraica mais antiga. Segundo algumas fontes hebraicas que visavam desacreditar o relato cristão , Jesus seria filho de Pandira (ou Panthira) e Stada e teria vivido no tempo dos Macabeus, ou seja, um século antes de Cristo. Ele teria aprendido magia no Egipto, teria sido um “sedutor do povo” e teria sido enforcado numa árvore na véspera da Páscoa. O objectivo desta propaganda hebraica anticristã estava em situar a vida de Cristo um século antes da destruição do Segundo Templo, para contrariar a associação de Cristo às profecias do Antigo Testamento acerca do destino do Templo.
Não compreendemos como é que isto pode ser considerado sequer um indício histórico. Em História não se trabalha com bases tão frágeis. Pantera era um apelido muito frequente, sobretudo entre soldados romanos . Descobrir um soldado de apelido Pantera na província da Galileia por altura do nascimento de Cristo não faz desse soldado pai de Cristo.
A dar voz aos relatos dos apócrifos, nomeadamente ao Proto-Evangelho de Tiago, José teria idade avançada quando se casou com Maria, e para permanecer virgem, bastaria que Maria não tivesse voltado a casar depois de enviuvar. Mas certos apócrifos, como o Proto-Evangelho de Tiago, não foram incluídos no cânone precisamente por conterem dados inverosímeis, e a tradição apócrifa de José ser idoso quando se casou com Maria pode representar um desses casos. Para mais, os Evangelhos são omissos quanto a este ponto.
Independentemente desta questão, o que é estranho nas palavras de Rui Alberto Silva, mesmo admitindo um contexto cultural adverso ao celibato, é que este parece sugerir que, entre o povo judeu ao tempo de Jesus, não existiria nem um só caso de uma mulher que tivesse permanecido virgem durante toda a vida!
Por outras palavras, um contexto cultural adverso a votos de virgindade não implica a total inexistência de mulheres ou homens virgens durante toda a vida!
Trata-se de um equívoco: a palavra grega “adelphos” deve ser traduzida literalmente como “irmão” . Pode significar, quer um irmão biológico, quer um “irmão” na fé cristã. Os primeiros cristãos não se chamavam a si mesmos “cristãos” mas sim “irmãos” . Sem factos que o comprovem, não há razões para interpretar a palavra “adelphos” em São Marcos 6 no sentido biológico.
Em relação à frase do artigo, há ainda outro equívoco quando se diz que Marcos teria “traduzido mal a palavra grega adelfós”,: o Evangelho segundo São Marcos é já uma obra grega no seu original. Logo, o autor do evangelho escreveu-o em grego, e portanto, não fez qualquer tradução.
Não se trata de uma prova: o facto de os autores do texto gnóstico intitulado “Evangelho de Tomé” atribuírem tais palavras a Jesus não prova que tal tenha ocorrido de facto. O dito Evangelho de Tomé é a segunda obra do códice II de Nag Hammadi, está escrito em copta e data do século IV. Provavelmente, foi composto na Síria. É quase certo que este texto se baseou parcialmente em textos ou fragmentos mais antigos , mas a datação e identificação das fontes usadas no Evangelho de Tomé é um tema ainda em aberto. Nenhum historiador sério afirma que este texto é da autoria do apóstolo Tomé.
Bernardo Motta
Serve o presente texto para corrigir uma série de erros factuais e interpretativos que surgem no referido artigo da revista Sábado. As citações do artigo surgem entre aspas, enquanto que os comentários e correcções surgem logo a seguir a cada citação. Por simplicidade, este "post" não contém notas de rodapé nem referências: estas podem ser consultadas na versão Acrobat PDF deste texto, na secção lateral "Artigos". O autor deste texto agradece a quem identificar eventuais erros nas correcções que aqui são feitas.
«Maria poderia ser consagrada co-redentora e isso significaria que Jesus teria tido a ajuda da mãe na salvação da Humanidade. Algo impensável para a Igreja mais conservadora»
Porquê “impensável”?
É uma consequência lógica da doutrina cristã: sem o “sim” voluntário de Maria, Cristo não teria nascido. Logo, Maria desempenha um papel decisivo na salvação da Humanidade. O prefixo “co” em “co-redentora” vem do latim “cum”, ou seja, “com”. Não implica igualdade entre Maria e Cristo, mas sim uma cooperação entre ambos.
«Os evangelhos canónicos (…) quase não falam dela. (…) Em todo o Novo Testamento, o seu nome é designado uma dezena de vezes (…)»
Trata-se de um erro factual. O nome concreto de Maria surge dezanove vezes, o dobro do indicado no artigo. Mas se procurarmos por “mãe de Jesus” ou por “sua mãe” (de Jesus), surgem trinta e três ocorrências, o triplo do indicado no artigo. Ver no Anexo (disponível na versão Acrobat PDF deste texto, na secção lateral "Artigos") o elenco completo das referências à mãe de Jesus em todo o Novo Testamento.
«Paulo, o apóstolo mais importante no desenvolvimento do cristianismo e autor de 14 dos 27 textos que constituem o Novo Testamento, nunca se refere a Maria.»
Paulo (Saulo de Tarso) não conheceu Maria pessoalmente, nem acompanhou Jesus no seu percurso terreno. No entanto, esse distanciamento físico dos acontecimentos não implica um distanciamento em relação à doutrina cristã sobre Maria. As cartas de Paulo têm funções específicas e um conteúdo teológico concreto: transmitir aos gentios a doutrina da Incarnação de Deus em Cristo, proclamar a sua Morte e Ressurreição, bem como o carácter salvífico de Cristo. Paulo não pretendeu com as suas cartas narrar episódios históricos como o da infância de Jesus ou o da Anunciação a Maria.
Mas ao mesmo tempo, Lucas, o evangelista que mais escreve sobre Maria, foi companheiro de viagem de Paulo e seu colaborador próximo , pelo que certamente teriam tido ampla oportunidade para falar sobre Maria e o seu papel na salvação. Pela elevada estima que Paulo demonstra pelo médico Lucas , é inverosímil que não partilhassem da mesma doutrina acerca de Maria. Lucas recolheu os detalhes acerca de Maria nas suas viagens, quando ia ao encontro dos apóstolos e dos demais discípulos que conheceram Cristo e Maria pessoalmente.
Paulo refere (Gálatas 4, 4) que Cristo nasceu de uma mulher tendo em mente a promessa de Deus feita acerca da Mulher e da serpente (Génesis, 3, 15): que seria através de uma mulher que se venceria o Mal, devido à perpétua inimizade fixada por Deus entre a descendência de Eva e a da serpente e da superioridade daquela em relação a esta. Por isso, esse único ponto em que Paulo fala concretamente sobre Maria é crucial porque demonstra que ele tinha bem presente o carácter central e providencial de Maria para a salvação da Humanidade.
Paulo cita ainda na sua carta a Timóteo (Timóteo 5, 18) um versículo do Evangelho de Lucas (Lucas 10, 7), o que prova que conhecia o texto; e fá-lo usando a expressão “como diz a Escritura” o que permite constatar que Paulo considera o texto de Lucas como parte integrante das Sagradas Escrituras.
«”A imagem que conhecemos de Nossa Senhora ao colo tem origem nas imagens de Ísis com o filho Horus”, explica Paulo Mendes Pinto.»
A imagem de uma mãe com o filho ao colo é suficientemente universal na cultura da humanidade, e por isso não é necessário forçar ligações ao Antigo Egipto. Se é certo que, nos primeiros séculos da nossa era, existia um importante culto popular a Ísis e a Hórus, há que afirmar que esse culto subsistia já desligado da tradição sacerdotal egípcia. A religião egípcia enquanto tal, à falta de representantes autênticos, estava praticamente extinta.
Se é legítimo afirmar que um artista cristão, eventualmente exposto à arte egípcia, se poderia inspirar nas formas artísticas das representações de Ísis e Hórus para criar obras representativas de Maria com o Menino, por outro lado, é ilegítimo fazer derivar todas estas representações artísticas cristãs da tradição artística relativa a Ísis e Hórus.
As conquistas de Alexandre, o Grande, espalharam a cultura helénica pela bacia do Mediterrâneo e pelo Médio Oriente. Nos primeiros séculos da nossa era, Alexandria era a capital dessa cultura, que sem dúvida marcou muito mais o cristianismo do que a egípcia.
«Os cristãos dividiam-se em facções e uma delas, a dos arianos, defendia mesmo que Jesus era o filho natural de Maria e José e só depois se tornara o Messias»
Não é correcto falar em facção ariana, uma vez que os cristãos sempre procuraram preservar uma doutrina comum de tradição apostólica. Mas é certo que, ao longo da História, surgiram correntes que se desviaram dessa tradição, e por isso mesmo foram rejeitadas pelo cristianismo, como é o caso de Ário de Alexandria e dos seus seguidores, mas esta corrente, mesmo no auge da sua importância, era minoritária no colégio episcopal, como se vê pela sua derrota esmagadora, por voto, no Concílio de Niceia em 325. As ideias do bispo Ário contrariavam a tradição apostólica, e por isso mesmo, foram rejeitadas pela clara maioria dos bispos reunidos em Niceia. De um total aproximado de 220 bispos, apenas são conhecidos dois apoiantes de Ário: Teónas de Marmarica e Segundo de Ptolemais.
«Perante uma situação que ameaçava tornar-se incontrolável, era urgente definir o culto a Jesus e reduzir o papel de Maria. Foi com este objectivo que, no ano de 325, se convocou o primeiro concílio fundador da Igreja – que só podia acabar da pior maneira, com uma demonstração radical de força. Os bispos reuniram em Niceia (Turquia) e, por maioria, afirmaram Jesus como filho de Deus.»
• O Concílio de Niceia não se reuniu para definir o culto a Jesus ou reduzir o papel de Maria, mas sim para condenar as ideias heréticas do bispo Ário, que contra a tradição apostólica, pretendia reduzir a divindade de Cristo; o Concílio definiu ainda a forma de calcular a data da Páscoa, uma festa móvel ;
• Porquê “demonstração radical de força”? Uma votação “inter pares”, entre bispos, sobre questões de doutrina é uma demonstração radical de força?
• Em Niceia, não se votou Jesus como Deus: deliberou-se o afastamento dos que não O viam plenamente como tal, os seguidores da heresia de Ário, tendo o Concílio sugerido a palavra “consubstancial” (em grego «homoousios») como expressão verbal da unidade divina (em substância) do Pai com o Filho; Jesus sempre foi visto como Deus pelos seus seguidores: um bom exemplo desta doutrina encontra-se na obra de Santo Ireneu, datada do final do século II , e portanto, anterior ao Concílio de Niceia;
«Atanásio, Bispo de Alexandria, aproveitou o momento e determinou os textos que fariam parte do cânone da Igreja. (…) Sem surpresa, ficou de fora o texto que mais se refere a Maria, o Proto-Evangelho de Tiago.»
• O Concílio de Niceia em 325 não determinou os textos do cânone: o tema nem sequer constou da ordem de trabalhos;
• Os textos do Novo Testamento datam do século I d.C, conforme o acordo dos especialistas; quando muito, o Evangelho de São João e o Livro do Apocalipse de São João datarão do início do século II;
• As compilações do Novo Testamento já estavam consolidadas no final do século II d.C. (o Codex Muratori , a mais antiga compilação conhecida dos textos neotestamentários, é datada quase unanimemente entre 180-200 d.C.);
• O Proto-evangelho de Tiago não foi deixado de parte por se referir a Maria: o texto não apresenta problemas doutrinais, e de facto, não poucos dos seus elementos passaram a integrar a tradição popular cristã; o texto foi excluído do cânone do Novo Testamento por conter detalhes fantasiosos e inverosímeis .
«De tal forma que, no século V, a Igreja foi obrigada a reconhecê-lo. (…) E, em 10 dias, Maria passaria de segredo envergonhado a rainha da Igreja»
Custa a acreditar que uma transformação tão profunda, a ter ocorrido, como se pretende no artigo, teria ocorrido em apenas dez dias. Qual é a base histórica para esta afirmação? Porque razão seria a mãe de Cristo (Deus para os cristãos) um “segredo envergonhado”? A conclusão de Éfeso, de que Maria é Mãe de Deus (“teotokos”), é a conclusão lógica e necessária para todo aquele que defende que Cristo é Deus, uma vez que Maria é mãe de Cristo.
«O concílio decorreu em Julho de 431 na cidade de Éfeso (Turquia) e foi no mínimo escandaloso. Cirilo, que partia em desvantagem, uma vez que o imperador apoiava Nestório, enviou agentes a Constantinopla e distribuiu prendas e subornos entre os bispos. Depois, aproveitou a sorte. Foi o primeiro a chegar a Éfeso e nem esperou pelos bispos partidários de Nestório. Sem autorização imperial, abriu o concílio e, recorrendo-se de todos os textos antigos, mesmo dos não reconhecidos pela Igreja, contou a história de Maria e acrescentou novidades. Apresentou-a como virgem perpétua e garantiu que, depois de morrer, fora elevada ao céu ali mesmo, em Éfeso.»
• Porque razão se diz que o concílio “foi no mínimo escandaloso”?
• Porque razão se diz que “Cirilo partia em desvantagem”, quando era o séquito de Cirilo (50 bispos) o maior, quando comparado com os apoiantes de Nestório (16 bispos)? Para mais, o papa Celestino I, numa carta de 11 de Agosto de 430, encarrega o Patriarca Cirilo da responsabilidade de dirigir o Concílio; o imperador bizantino, não tendo autoridade em teologia, tomou inicialmente o partido de Nestório, mas após o fecho do concílio, aceitou as suas conclusões;
• Quais são as evidências históricas dos ditos “subornos”?
• “Foi o primeiro a chegar a Éfeso” é um erro factual: Nestório chegou antes de Cirilo, ou na melhor das hipóteses, chegou no mesmo dia que este (vide Actas Coptas), um pouco antes do Pentecostes;
• O papa Celestino I, tendo declarado heréticas as ideias de Nestório, deu-lhe dez dias para as repudiar; a intenção do Papa era usar o concílio para julgar as ideias de Nestório; no entanto, este não quis comparecer nas sessões: foi três vezes convocado para comparecer, e recusou todas; o mandato de Cirilo dava-lhe poder para iniciar o concílio após os dez dias concedidos a Nestório; Cirilo deu um prazo maior, tendo iniciado o concílio apenas a 22 de Junho;
• Não se sabe se o atraso do Patriarca João de Antioquia, amigo de Nestório, foi um atraso propositado ou acidental; ao chegar ao concílio apenas no dia 27 de Junho, João decidiu acusar Cirilo de heresia, mas a sua posição foi rejeitada por todos os restantes bispos, e foi o próprio João a ver-se excomungado pelo Concílio .
«"Maria tinha as características necessárias para ser uma figura divina: era mulher e mãe (…)", explica o professor de Ciência das Religiões Paulo Mendes Pinto.»
Esta afirmação é incompreensível no contexto cristão. Sabe-se que, em certos politeísmos, certas deusas eram associadas à sexualidade e à maternidade. Mas no cristianismo, só há um Deus, e Deus não tem sexo, nem masculino nem feminino. Maria não é nenhuma “deusa”, nem nunca foi definida como divina pela doutrina cristã.
A doutrina cristã é muito explícita no considerar Maria como humana e não divina. A doutrina da Imaculada Conceição, definindo que Maria desde o seu início não foi tocada pelo pecado original, entre outras coisas equipara-a ao estado de Adão e Eva antes de pecarem, pelo que essa doutrina não a eleva a um estatuto divino. A doutrina da sua assunção aos céus também não altera a sua natureza humana, bem como a doutrina da sua virgindade perpétua. Ser declarada mãe de Deus também não a torna divina: ela é a progenitora humana de Cristo, que é Deus feito Homem.
«Os primeiros indícios desta teoria surgiram por volta do ano 178 d.C. No texto Da Verdadeira Doutrina, o filósofo grego Celso escreveu que Maria “engravidara de um soldado romano chamado Panthera”»
É preciso dizer que a dita obra Alethes Logos, do filósofo platónico Celso (que seria romano e não grego), está desaparecida há séculos e só a conhecemos através da extensa obra (oito volumes) de refutação escrita pelo escritor cristão Orígenes em 248, Contra Celsum . Orígenes teve tanto cuidado na sua refutação que foi possível a partir dela reconstruir a quase totalidade do texto original de Celso. Este facto vai contra a ideia geral do artigo, que seria a de que a Igreja teria tentado ocultar verdades sobre Maria e sobre Jesus. Ora a verdade é que só sabemos desta teoria de Celsus acerca do soldado romano Panthera porque um autor cristão, Orígenes, a contestou por escrito. Se o objectivo fosse a ocultação do segredo, porque não teria Orígenes ficado calado?
Para mais, a teoria proposta por Celso é uma corruptela de uma teoria hebraica mais antiga. Segundo algumas fontes hebraicas que visavam desacreditar o relato cristão , Jesus seria filho de Pandira (ou Panthira) e Stada e teria vivido no tempo dos Macabeus, ou seja, um século antes de Cristo. Ele teria aprendido magia no Egipto, teria sido um “sedutor do povo” e teria sido enforcado numa árvore na véspera da Páscoa. O objectivo desta propaganda hebraica anticristã estava em situar a vida de Cristo um século antes da destruição do Segundo Templo, para contrariar a associação de Cristo às profecias do Antigo Testamento acerca do destino do Templo.
«Mas em 1859 foi descoberta na Alemanha uma nova peça do puzzle. Num cemitério romano foi encontrada uma lápide de um soldado romano chamado Tiberius Julius Abdes Pantera. No epitáfio lia-se que Pantera era de Sídon, uma vila a norte da Galileia, e prestara serviço na primeira coorte de arqueiros, a mesma que segundo registos romanos esteve presente na Rebelião da Galileia, no ano 4 a.C. – o que coloca Panthera perto de Nazaré na altura em que Maria teria engravidado»
Não compreendemos como é que isto pode ser considerado sequer um indício histórico. Em História não se trabalha com bases tão frágeis. Pantera era um apelido muito frequente, sobretudo entre soldados romanos . Descobrir um soldado de apelido Pantera na província da Galileia por altura do nascimento de Cristo não faz desse soldado pai de Cristo.
«A Igreja ensina que, mesmo depois de dar à luz Jesus, Maria permaneceu virgem até morrer. Uma ideia estranha se pensarmos que no tempo de Jesus o conceito de voto de virgindade não existia na cultura judaica. “Permanecer virgem era impensável, todas as mulheres judias sonhavam em conceber o Messias”, explica Rui Alberto Silva.»
A dar voz aos relatos dos apócrifos, nomeadamente ao Proto-Evangelho de Tiago, José teria idade avançada quando se casou com Maria, e para permanecer virgem, bastaria que Maria não tivesse voltado a casar depois de enviuvar. Mas certos apócrifos, como o Proto-Evangelho de Tiago, não foram incluídos no cânone precisamente por conterem dados inverosímeis, e a tradição apócrifa de José ser idoso quando se casou com Maria pode representar um desses casos. Para mais, os Evangelhos são omissos quanto a este ponto.
Independentemente desta questão, o que é estranho nas palavras de Rui Alberto Silva, mesmo admitindo um contexto cultural adverso ao celibato, é que este parece sugerir que, entre o povo judeu ao tempo de Jesus, não existiria nem um só caso de uma mulher que tivesse permanecido virgem durante toda a vida!
Por outras palavras, um contexto cultural adverso a votos de virgindade não implica a total inexistência de mulheres ou homens virgens durante toda a vida!
«Outros responsabilizam o autor do evangelho por ter traduzido mal a palavra grega adelfós, que significaria primos.»
Trata-se de um equívoco: a palavra grega “adelphos” deve ser traduzida literalmente como “irmão” . Pode significar, quer um irmão biológico, quer um “irmão” na fé cristã. Os primeiros cristãos não se chamavam a si mesmos “cristãos” mas sim “irmãos” . Sem factos que o comprovem, não há razões para interpretar a palavra “adelphos” em São Marcos 6 no sentido biológico.
Em relação à frase do artigo, há ainda outro equívoco quando se diz que Marcos teria “traduzido mal a palavra grega adelfós”,: o Evangelho segundo São Marcos é já uma obra grega no seu original. Logo, o autor do evangelho escreveu-o em grego, e portanto, não fez qualquer tradução.
«Tiago seria o verdadeiro sucessor de Jesus, e não Pedro, como acabou por acontecer. Uma das provas reside no Evangelho de Tomé, descoberto no Egipto em 1945, e onde está escrito que Jesus designou Tiago como seu sucessor.»
Não se trata de uma prova: o facto de os autores do texto gnóstico intitulado “Evangelho de Tomé” atribuírem tais palavras a Jesus não prova que tal tenha ocorrido de facto. O dito Evangelho de Tomé é a segunda obra do códice II de Nag Hammadi, está escrito em copta e data do século IV. Provavelmente, foi composto na Síria. É quase certo que este texto se baseou parcialmente em textos ou fragmentos mais antigos , mas a datação e identificação das fontes usadas no Evangelho de Tomé é um tema ainda em aberto. Nenhum historiador sério afirma que este texto é da autoria do apóstolo Tomé.
Bernardo Motta
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