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sábado, 28 de maio de 2011

15 de Maio de 2011: o rito antigo de volta a São Pedro!


Quando foi eleito para a cátedra de São Pedro, Bento XVI foi considerado por muitos como um papa de transição. Com seis anos de papado concluídos, Bento XVI não pára de surpreender, refutando os que o viam como um Papa meramente transitório entre João Paulo II e um futuro Papa mais novo (Joseph Ratzinger foi eleito Papa com 78 anos de idade).

No dia 7 de Julho de 2007, Bento XVI encerrou um capítulo doloroso para a Igreja, e escancarou as portas do futuro da liturgia romana, com a promulgação da Carta Apostólica Summorum Pontificum, na qual liberou o uso do rito antigo, agora chamado de "forma extraordinária" da liturgia romana, cuja última edição datava de 1962, durante o Papado de João XXIII. Digo doloroso, porque na esteira de reforma litúrgica que culminou com a publicação do novo missal (agora chamado de "forma ordinária" da liturgia romana) de Paulo VI, não foram poucas as pessoas que quiseram, desde então, manter a prática do rito antigo, enquanto este era abandonado um pouco por toda a parte. E, tragicamente, alguns grupos de católicos, por vezes chamados de "tradicionalistas", associaram a manutenção da prática desse rito à rejeição do Concílio Vaticano II. Alguns mais extremistas, rejeitando não só a reforma litúrgica e o Vaticano II, chegaram ao ponto de dizer que a Sé de Pedro estava vaga desde Pio XII, considerando hereges todos os papas posteriores (são os "sedevacantistas"). Estes movimentos, cuja desobediência a Roma varia em maior ou menor grau, afastaram-se da Igreja Católica, e o seu afastamento gerou feridas. Por outro lado, outros movimentos dentro da Igreja, cuja heresia modernista varia em maior ou menor grau, promovendo consciente ou inconscientemente uma erosão da liturgia (aliás, em contraste com as decisões do Concílio), geraram feridas de sinal oposto. Bento XVI está a colocar um ponto final em tudo isto, dando uma lição, quer aos "tradicionalistas" que desobedecem ao Santo Padre, quer aos hereges "modernistas" que têm promovido, no último meio século, a dissolução da tradição católica, nomeadamente da liturgia.

Bento XVI, em 2007, com a Summorum Pontificum, sarou essas feridas. Bento XVI não iniciou este processo, uma vez que João Paulo II já tinha dado passos importantes no sentido do que veio a ser a Summorum Pontificum (por exemplo, a Carta Apostólica Ecclesia Dei, de 1998). Mas Bento XVI levou o processo até ao fim.

Porque é que tudo isto é importante?
Alguns católicos julgam que isto não passa de saudosismos inúteis. Outros julgam que isto implica o regresso do latim à liturgia. Os equívocos são imensos. O missal de Paulo VI era em latim, e o rito ordinário previa o uso do vernáculo como excepção. Infelizmente, o vernáculo tornou-se regra, a tal ponto que hoje em dia o comum dos fiéis tem enormes dificuldades em pronunciar as mais simples expressões litúrgicas em latim. No espaço de meio século, os católicos praticamente perderam um património litúrgico multissecular, quer simbólico, quer pictórico, quer arquitectónico, quer musical, quer textual, quer gestual.

A depredação litúrgica que se seguiu ao Vaticano II não consistiu numa obediência a esse grande concílio, mas sim numa traição ao mesmo. Hoje em dia, as nossas liturgias estão marcadas pela banalização de gestos espúrios à tradição católica, confusões infindáveis acerca do papel dos leigos e do sacerdote na liturgia, e emprego de formas musicais de tão má qualidade, e de origem tão pouco sacra, que se tornou impossível reconhecê-las como música litúrgica. Deitámos fora um tesouro.

Bento XVI está a recuperar esse tesouro, que todos nós deitamos na lixeira há meio século atrás. Esta recuperação ficará na História como uma das marcas mais indeléveis do seu papado. Mantendo a fidelidade ao Concílio Vaticano II, e à reforma litúrgica que culminou no Missal de Paulo VI (afinal de contas, o rito ordinário, ou seja, principal da liturgia romana), o actual Papa trouxe de volta o usus antiquior, e com ele voltou todo o esplendor litúrgico dessa tradição. Como o Papa explica, a forma ordinária da liturgia romana pode ser enriquecida com a prática da forma extraordinária, e vice-versa. É precisamente a mesma hermenêutica da "reforma na continuidade", aplicada agora à liturgia, que Bento XVI tem aplicado de forma incansável em defesa da correcta leitura do Vaticano II.

Os velhos do Restelo dirão que a forma extraordinária é antiquada. Mas, um pouco como dizia o Chesterton, há algo de curioso acerca das coisas consideradas antiquadas pelos que se acham "modernos". Se uma coisa sobrevive tempo suficiente para ser considerada antiquada pelos "modernos", é porque tem certamente mais valor do que outras coisas que nem sequer sobreviveram para receber esse epíteto dos bem-pensantes do nosso tempo.

Aqui em Portugal, não tem faltado resistência à Summorum Pontificum. Dizem-nos que é porque os portugueses não estão interessados na forma extraordinária, ou porque já se esqueceram do latim. Uma curiosa ironia, visto que, como referi atrás, o rito ordinário, o de Paulo VI, prescreve o latim como norma. Ou seja, os guardiães do rito ordinário não o têm aplicado bem, o que teve com consequência a óbvia erosão da cultura litúrgica dos fiéis. No entanto, cresce de dia para dia o número de católicos desejosos de conhecer e de viver essa experiência litúrgica multissecular que é a forma extraordinária do rito romano.

Na Summorum Pontificum, Bento XVI propôs um período de três anos para se avaliar a eficácia da sua aplicação e para se debaterem eventuais dificuldades. Passado esse período, e depois de realizados três Congressos dedicados ao tema, a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei assinou, no passado dia 30 de Abril, a instrução Universae Ecclesiae, tornada pública a 13 de Maio, uma data que certamente não é uma coincidência.

Este documento torna definitiva a liberalização do rito antigo para todos os fiéis que o pretenderem, esclarecendo certos termos e expressões da Summorum Pontificum que tinham recebido interpretações erradamente restritivas. Aguardo com grande expectativa a primeira missa segundo o usus antiquior aqui em Lisboa. Será certamente algo de admirável e memorável!

No passado dia 15 de Maio, quase meio século depois, a forma extraordinária do rito romano regressou à Basílica de São Pedro. Uma data histórica! Foi celebrada Missa Pontifícia no Faldistório, no altar da Cátedra, pelo Cardeal Walter Brandmüller. O facto de ter sido o Cardeal Brandmüller a celebrá-la enche-me de imensa satisfação. Trata-se de um grande historiador, um dos maiores especialistas em história conciliar, e um dos braços direitos de Bento XVI na defesa da interpretação do Concílio Vaticano II segundo a hermenêutica da continuidade, e contra a hermenêutica da ruptura, que pretende fazer do Vaticano II um Concílio contra todos os anteriores. Brandmüller é um dos mais recentes cardeais do Colégio Cardinalício (20 de Novembro de 2010), mas a sua obra publicada é há muito conhecida dos que se interessam por certos temas importantes da História da Igreja, como sejam o caso Galileu, o papel da Igreja Católica na Segunda Guerra Mundial, ou a história dos Concílios.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Te lucis ante terminum

O cântico "Te lucis ante terminum" para as Completas (Liturgia das Horas), cantado pelo coro dos monges cistercientes da Abadia de Stift Heiligencreuz (Áustria):



Te lucis ante terminum,
rerum Creator, poscimus,
ut solita clementia,
sis praesul ad custodiam.

Te corda nostra somnient,
te per soporem sentiant
tuamque semper gloriam
vicina luce concinant.

Vitam salubrem tribue
nostrum calorem refice
taetram noctis caliginem
tua collustret claritas.

Praesta, Pater omnipotens
per Iesum Christum Dominum
qui tecum in perpetuum
regnat cum Sancto Spirito.

Amen.


PS: Esta versão do Te lucis ante terminum é a que é cantada na Quaresma. Ver todas as versões aqui.

Te Deum

O hino "Te Deum", aqui cantado pelos monges beneditinos da Abadia de São Maurício e São Mauro (Clairvaux, Luxemburgo), é atribuído tradicionalmente a Santo Ambrósio e a Santo Agostinho. Teria sido composto por volta do ano 387.




Te Deum laudamus:
te Dominum confitemur.
Te aeternum Patrem
omnis terra veneratur.
Tibi omnes Angeli;
tibi caeli et universae Potestates;
Tibi Cherubim et Seraphim
incessabili voce proclamant:
Sanctus, Sanctus, Sanctus,
Dominus Deus Sabaoth.
Pleni sunt caeli et terra
maiestatis gloriae tuae.
Te gloriosus Apostolorum chorus,
Te Prophetarum laudabilis numerus,
Te Martyrum candidatus laudat exercitus.
Te per orbem terrarum
sancta confitetur Ecclesia,
Patrem immensae maiestatis:
Venerandum tuum verum et unicum Filium;
Sanctum quoque Paraclitum Spiritum.
Tu Rex gloriae, Christe.
Tu Patris sempiternus es Filius.
Tu ad liberandum suscepturus hominem,
non horruisti Virginis uterum.
Tu, devicto mortis aculeo,
aperuisti credentibus regna caelorum.
Tu ad dexteram Dei sedes, in gloria Patris.
Iudex crederis esse venturus.
Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni:
quos pretioso sanguine redemisti.
Aeterna fac cum sanctis tuis in gloria numerari.
Salvum fac populum tuum,
Domine, et benedic hereditati tuae.
Et rege eos, et extolle illos usque in aeternum.
Per singulos dies benedicimus te;
Et laudamus Nomen tuum in saeculum, et in saeculum saeculi.
Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire.
Miserere nostri Domine, miserere nostri.
Fiat misericordia tua,
Domine, super nos, quemadmodum speravimus in te.
In te, Domine, speravi:
non confundar in aeternum.


PS: Veja-se o detalhe realista da gravação, com o som de um banco de madeira a cair no chão, por volta da palavra "Apostolorum".

segunda-feira, 21 de março de 2011

Missa com canto gregoriano na Encarnação (Chiado)

Comunhão para o 2º Domingo da Quaresma, retirado do Graduale Triplex, cantado pelo Coro gregoriano da Paróquia da Encarnação, que canta no 3º Domingo de cada mês, na missa das 12h30:



Gradual para 2º Domingo da Quaresma, retirado dos "Chants Abrégés" de 1925:


PS: Felizmente, o coro é excelente e profissional, conseguindo ocultar com eficácia a minha voz de cana rachada, que se ouve ligeiramente em pano de fundo, a estragar tudo, em total desafinação e arritmia.

PPS: Mais informações aqui e aqui.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O Salmo de hoje, Quarta-Feira de Cinzas

Permitam-me a repetição de um "post" anterior. É que é especialmente apropriado ao dia de hoje, Quarta-Feira de Cinzas, início da Quaresma. Hoje, na missa, escutámos o Salmo 51:



«Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut iustificeris in sermonibus tuis, et vincas cum iudicaris.
Ecce enim in inquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi.
Asperges me, hyssopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea iustitiam tuam. Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Ierusalem.
Tunc acceptabis sacrificium iustitiae, oblationes, et holocausta: tunc imponent super altare tuum vitulos.»

«Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade; pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
Lava-me de toda a iniquidade; purifica-me dos meus delitos.
Reconheço as minhas culpas e tenho sempre diante de mim os meus pecados.
Contra ti pequei, só contra ti, fiz o mal diante dos teus olhos;
por isso é justa a tua sentença e recto o teu julgamento.
Eis que nasci na culpa e a minha mãe concebeu-me em pecado.
Tu aprecias a verdade no íntimo do ser e ensinas-me a sabedoria no íntimo da alma.
Purifica-me com o hissope e ficarei puro, lava-me e ficarei mais branco do que a neve.
Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria e exultem estes ossos que trituraste.
Desvia o teu rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas culpas.

Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito.
Não me afastes da tua presença, nem me prives do teu santo espírito!
Dá-me de novo a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito generoso.
Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores hão-de voltar para ti.
Ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue, e a minha língua anunciará a tua justiça.

Abre, Senhor, os meus lábios, para que a minha boca possa anunciar o teu louvor.
Não te comprazes nos sacrifícios nem te agrada qualquer holocausto que eu te ofereça.
O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito; ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido.

Pela tua bondade, trata bem a Sião; reconstrói os muros de Jerusalém.
Então aceitarás com agrado os sacrifícios devidos, os holocaustos e as ofertas; então serão oferecidos novilhos no teu altar.»


[Partitura]

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Um dia na Jerusalém Celeste

(foto: J. Salmoral)

Não sei explicar o que se passou no passado dia 7 de Novembro, na missa de dedicação da nova Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, presidida pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI. Só sei que gostava de lá ter estado. Aqui fica um vislumbre de um dia na Jerusalém Celeste. O cenário é, claro, a magnífica obra do grande Antonio Gaudí, o justamente chamado "Arquitecto de Deus". O que se segue é o texto, retirado do Missal, do momento da iluminação do altar e da igreja. Ver o vídeo deste exacto momento aqui. O cântico Alça’t ja, Jerusalem é magnífico, quer pela beleza da língua catalã, quer pela música em si mesma.

Barcelona, 7 de Novembro de 2010, Igreja da Sagrada Família

Iluminação do Altar e da Igreja

O Santo Padre entrega uma vela acesa a um diácono, dizendo:

Que brilli en l’Església la llum de Crist,
perquè tots els pobles arribin
a la plenitud de la veritat.


Doze seminaristas ajudam à iluminação plena da Igreja: é a imagem da presença de Cristo, luz do mundo, na assembleia, e também da luz que estamos chamados a irradiar, assim como da glória luminosa do Céu. Enquanto se leva a cabo esta iluminação e ornamentação do altar e da Igreja, o povo dos fiéis canta: Alça’t ja, Jerusalem:

Alça't ja, Jerusalem, sigues radiosa!
Car ha vingut del cel una llum clara,
perquè il·lumini els pobles de la terra;
ens ve a portar el goig, la veritat.
Alça't ja, Jerusalem, perquè el Senyor ha vingut a tu.


1. La tenebra s'estén damunt la terra,
tots els pobles es perden en la nit.
Però a tu, el Senyor un jorn vindrà
i sa glòria en tu resplendirà.
Jerusalem, desvetlla't ja.

2. D'Orient cap a tu vénen fent via
tots els pobles, portant els seus presents.
Car en tu ha nascut un Déu Infant,
el Messies pel món tan esperat.
Jerusalem, desvetlla't ja.

sábado, 5 de junho de 2010

Miserere - Gregorio Allegri (1582-1652)



«Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut iustificeris in sermonibus tuis, et vincas cum iudicaris.
Ecce enim in inquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi.
Asperges me, hyssopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea iustitiam tuam. Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Ierusalem.

Tunc acceptabis sacrificium iustitiae, oblationes, et holocausta: tunc imponent super altare tuum vitulos.»

[Partitura]

domingo, 23 de março de 2008

A noite das noites

Se a missa é o centro gravítico do cristão, a da Vigília Pascal é o centro gravítico de todas as missas. Esta é a noite das noites, porque em torno dela gira todo o ano litúrgico.

A cerimónia principia com toda a igreja às escuras e em silêncio.

A ausência de luz e de som traz aos presentes a experiência do sepúlcro.

Há mais de 2.000 anos, numa sepultura escavada na rocha, na Cidade Santa de Jerusalém, num Sábado de Páscoa, jazia um corpo morto, na mais profunda escuridão e pesado silêncio.

Foi nessa noite de Sábado, desde então dito de Aleluia, que, do meio da escuridão sepulcral, saiu uma luz. O corpo morto de Jesus Cristo regressou à vida.

É esse o acontecimento central do cristianismo, e atrevo-me a dizer, da Humanidade. Porque a vitória de Cristo sobre a morte prefigura a nossa própria vitória, enquanto seres humanos, sobre a morte natural e sobre a morte espiritual.

Não é fácil ficar-se indiferente a este acontecimento: por ele, muitos dedicaram e dedicam a sua vida a Cristo. Contra ele, muitos outros dedicaram e dedicam a sua vida a tentar negá-lo ou ignorá-lo.

Essa luz é inesgotável. Do mesmo modo que o círio pascal, no início da cerimónia, espalha a sua luz a todas as velas sem ele mesmo perder o seu brilho, e iluminando deste modo toda a igreja, também a luz da Ressurreição de Cristo se espalha por todo o Universo sem perder o seu brilho, e iluminando toda a Criação.

Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e os cristãos são as mais miseráveis das criaturas.

Por outro lado, se Cristo ressuscitou, é então em vão que se nega este acontecimento central. Porque a luz de Cristo dissipa todas as trevas do erro e do pecado, e a verdade aparece tal qual ela é. Por essa mesma razão, Deus fez-Se Homem, morreu por nós, lavou os nossos pecados, e ressuscitou, para Se nos mostrar como Ele é.

Cristo ressuscitou!
Aleluia!

domingo, 8 de julho de 2007

Novo «motu proprio» do Papa Bento XVI

Ontem, 7 de Julho de 2007, foi publicado o texto (para já, apenas na língua oficial latina) do mais recente «motu proprio» do Papa Bento XVI, "Summorum pontificum", que altera a regulamentação relativa ao uso do tradicional Missal de S. Pio V, na sua última versão que incluiu modificações feitas pelo Papa João XXIII em 1962.

Este Missal tradicional passa a estar acessível aos fiéis, sem que seja, evidentemente, revogado o Missal de Paulo VI (1970), que permanece como a versão ordinária do rito católico latino.

Desde 1988, após decisão do Papa João Paulo II, era já possível usar a versão tradicional do rito latino, mas apenas após autorização episcopal. Este recente "motu proprio" do Papa Bento XVI libera agora o uso do Missal tradicional de 1962, mantendo, no entanto, o novo Missal de 1970 como o ordinário.

Summorum Pontificum (em latim)

O próprio Papa Bento XVI dá a explicação necessária a este importante acontecimento, como podemos ler neste texto explicativo (em português):

Explicação papal

Deixando explicações mais detalhadas para quando tivermos disponível o texto do "motu proprio" em português, é importante clarificar alguns mal-entendidos, previsíveis, e já bem conhecidos de quem segue a forma como alguma má Comunicação Social costuma distorcer o que não compreende, ou o que insiste em distorcer, sabe-se lá com que intenções...

1. A diferença não se prende apenas com a língua latina: o missal do Papa Paulo VI (pós-conciliar) também foi editado em latim e está acessível nesta língua (a oficial da Santa Sé); da versão latina, emanam todas as versões vernaculares;

2. Em ambos os casos, trata-se do mesmo rito, o rito latino; este rito, após o novo Missal de 1970, passou a dispor de duas formas de celebração, a antiga/tradicional (1962) e a nova/pós-conciliar (1970); contudo, não existia regulamentação específica em relação à forma antiga (o Papa João Paulo II tentou corrigir a situação, que agora é rectificada pelo Papa Bento XVI);

3. O rito ordinário (o prescrito) continua a ser o novo rito do Missal do Papa Paulo VI;

4. O rito antigo e tradicional sempre teve legalidade e regularidade litúrgica: nunca poderia ser classificado de inválido ou prejudicial, uma vez que serviu (e serve) a Igreja durante a esmagadora maioria da sua História.

Parecem evidentes três vantagens desta recente decisão pontifícia:

A. Honrar a beleza e a importância do rito antigo
B. Defender e reforçar a importância do rito novo
C. Evitar divisões no interior da Igreja: ambos os ritos são importantes para a fé dos católicos

terça-feira, 10 de abril de 2007

Precisamos de sacerdotes com fé e coragem

Num gesto pouco surpreendente, tendo deixado passar o prazo para submeter a nova lei ao juízo do Tribunal Constitucional, o Presidente da República decidiu hoje promulgar a nova lei do aborto:

Presidente promulga nova lei da despenalização do aborto

Antes de mais, devo dizer que tenho o Presidente da República em grande consideração e estima, e não duvido por um instante das suas boas intenções e da tremenda dificuldade do problema que teve em mãos.

Por outro lado, sendo que o Prof. Cavaco Silva é católico, o que hoje sucedeu reveste-se de uma gravidade moral objectiva, uma vez que o Prof. Cavaco Silva não pode facilmente alegar o desconhecimento do erro moral do seu acto de promulgação de uma lei iníqua e assassina.

A lei que foi hoje promulgada legitima a morte de seres humanos com menos de dez semanas de idade. É uma lei injusta, criminosa, eticamente ilícita e inconstitucional.
O Presidente da República estava perante um grande dilema, e não há dúvidas de que a sua presidência ficaria gravemente em risco, caso decidisse vetar a lei.

As hipóteses alternativas à promulgação não eram muitas, mas eram as suficientes para que uma pessoa de bem tomasse uma decisão acertada. O Presidente da República poderia ter vetado a lei. Ela regressaria ao Parlamento, de onde poderia regressar ao Palácio de Belém (alterada ou não), desde que aprovada por maioria simples. Caso a redação final da lei persistisse no erro ético do aborto a pedido, então o Presidente tinha duas alternativas, qualquer uma delas muito difícil em termos políticos:

a) dissolver a Assembleia e convocar eleições antecipadas
b) demitir-se, por se recusar a pactuar com uma lei iníqua

É certo: ouviremos muitos católicos virem em socorro do Prof. Cavaco Silva, afirmando que estava em jogo a estabilidade do país. De novo, a confusão intelectual reinante impede que até os católicos mais atentos se dêem conta da trágica troca de prioridades. A estabilidade política ou económica do país não se deve apoiar na morte de seres humanos. É disso que estamos a falar, e de nada menor do que isso.

O acto do Presidente da República é grave para qualquer ser humano. É mais grave para um católico, que deveria estar ciente da gravidade moral intrínseca do seu acto. Sigamos as palavras do Padre Nuno Serras Pereira, que tem diligentemente trabalhado no sentido de que se compreenda melhor o catolicismo, e de que este seja praticado, vivido e defendido com mais coerência e maturidade:

«Esta “lei”, hoje promulgada, é gravemente injusta e o acto da sua promulgação consiste numa cooperação formal com o mal intrínseco do aborto provocado, tornando o Presidente Aníbal Cavaco Silva moralmente imputável por todos os homicídios/abortos, e demais consequências nefandas, praticados ao abrigo desta “lei”, isto é, desta violência crudelíssima.

No Juízo particular e no Juízo final, depois da morte, Aníbal Cavaco Silva terá de responder perante Deus, e não perante os votos e as maiorias, não se podendo escudar na obediência aos mecanismos formais da democracia, como se estes fossem substitutos da moralidade ou da consciência. Ser-lhe-ão pedidas contas de todos e cada um dos assassínios/abortos, e demais consequências negativas, cometidos ao abrigo da iniquidade promulgada.»
- boletim electrónico "Infovitae", 10 de Abril de 2007.

De nada vale invocar, como é hábito, o "mito Nuno Serras Pereira", essa distorção da realidade que consiste em retratá-lo como padre fanático que não é em vez de ser visto como padre católico que é. Até porque muitos mais sacerdotes, sem dúvida "alvos" não tão preferidos pela da Comunicação Social, pensam do mesmo modo, a começar, obviamente, pelo Papa.
Por outro lado, será sempre de censurar o sacerdote católico que, administrando a comunhão ao Prof. Cavaco Silva sem que ele se arrependa da promulgação desta lei, abdique deste modo da sua obrigação pastoral. Aceito de bom grado, dada a imagem que tenho do Prof. Cavaco Silva como uma pessoa de boas intenções, que é apenas por puro desconhecimento que ele arrisca incorrer, com este seu acto de hoje, em excomunhão latae sententiae (automática), o que o impediria de se aproximar da Eucaristia.

Portugal precisa de sacerdotes com fé e coragem.
De sacerdotes como o Padre Nuno Serras Pereira.

Tenho a firme convicção de que, vendo negado o seu acesso à eucaristia por um sacerdote corajoso, o Prof. Cavaco Silva, como homem inteligente que é, rapidamente se aperceberia da gravidade moral do seu acto, e certamente que se arrependeria dessa decisão, que coloca a imoralidade objectiva deste seu acto ao serviço da estabilidade política do país.

Seria insensato pensar que todos os católicos que comungam o fazem em pleno direito. Normalmente, o sacerdote não sabe se o comungante está ou não preparado. No caso de figuras públicas católicas, a coisa muda de figura: quando a tomada de posição pública, e os actos públicos, contradizem o Magistério, a perda de comunhão com a doutrina católica torna-se notória aos olhos do Mundo. Dar a comunhão, nestas situações, pode causar escândalo aos fiéis e, bem pior, constituir um uso abusivo da Eucaristia.

Ser católico coerente (aliás, ser coerente nesta vida) é tarefa dura e gera muita incompreensão.
Sei-o bem porque prevejo consequências, no meu círculo de amigos e conhecidos, desta minha tomada de posição em defesa da posição de católicos coerentes como o Padre Nuno Serras Pereira, em detrimento da posição de católicos incoerentes como o Prof. Cavaco Silva.
Mas o que sei é que a coerência é condição necessária para se estar certo.
Pode não ser suficiente, mas é necessária.

Não é possível manter-se uma verdade moral pessoal, enquanto se que tolera uma "verdade alternativa" votada por maioria democrática. O católico que acreditar que pode ter a sua moral pessoal, enquanto pactua (com o seu acordo, com a sua assinatura) com a antitética "moral" do Mundo (mesmo que democraticamente distorcida), incorre em heresia.

Levar as coisas às últimas consequências seria, para Cavaco Silva, abdicar do seu mandato. Uma decisão difícil e dura, como sucede a todos os católicos que combatem e que não se deixam vencer pelo Mal. Mas poderia tal decisão, mesmo que dura, comparar-se à dos santos mártires que deram a sua vida corpórea por Cristo?

Se o Prof. Cavaco Silva levasse a sua coerência católica às últimas consequências, então, como diz o Padre Nuno, «renunciava ao mandato, explicando, em qualquer dos casos, as razões porque o fazia, a saber, a impossibilidade moral de cooperar numa injustiça de tal gravidade, dando, deste modo, testemunho de uma consciência verdadeira e recta, e mostrando ser um homem de boa vontade. Posto o povo diante de tal verticalidade e desassombro, bem poderia despertar para a extrema gravidade do que estava em questão e haver um geral sobressalto mobilizador contra o aborto, a favor da vida.».

Ora nem mais!
Esta oportunidade está perdida.
Mas ficamos, pelo menos, com um perfeito exemplo desta grande verdade milenar da Igreja: quando o sacerdote vacila e perde coragem ou a fé (a perda de uma acarreta a da outra), fracassando nos seus deveres pastorais, é toda a humanidade (não só a comunidade católica) que perde, seja pela falta de exemplo, seja pelo mau exemplo.
Mais um dia triste, este...

quinta-feira, 15 de março de 2007

Exortação Apostólica do Papa Bento XVI

[Nota: o último parágrafo deste texto foi revisto face à versão originalmente publicada]

Já está disponível para consulta o texto completo da primeira exortação apostólica de Bento XVI, Sacramentum Caritatis.

A leitura é altamente recomendada, sobretudo aos católicos. É evidente que qualquer proclamação papal tem uma importância enorme, e deveria ser recebida por todo o universo católico. Infelizmente, estes textos são pouco divulgados. Mas com o advento da Internet, cada vez é mais fácil estar atento aos textos emanados da Santa Sé.

O Papa Bento XVI presenteia-nos com um texto de grande qualidade e profundidade, relembrando a mentes mais distraídas a essência e a razão de ser de pontos fundamentais da doutrina católica. Aqui e acolá, os media já se vão acotovelando, apresentando títulos imbecis como Vaticano não aceita alteração - Papa mantém celibato de padres".

O carácter cretino desta notícia está no facto de ignorar totalmente a realidade que pretende retratar em modo jornalístico. Nesta notícia em concreto, não se percebe se o problema é a parcialidade anti-católica do jornalista ou se é pura ignorância. Ou um misto das duas.

Primeiro ponto: o uso desadequado do termo "Vaticano"; o Vaticano é um lugar, não é uma entidade ou uma organização. Afirmar que Vaticano e Santa Sé são a mesma coisa é uma asneira ao estilo de Dan Brown. A Santa Sé nem sempre esteve sedeada no Vaticano, que é apenas o nome de um lugar específico na cidade de Roma.

Segundo ponto: partir do pressuposto que a manutenção do celibato é uma opção pessoal deste Papa. Muitas pessoas continuam a ignorar o carácter especial da função petrina do Papa. Há coisas que vêm do próprio Cristo e que nenhum Papa pode mudar.

Por estas e por outras razões, vale muito a pena despender alguns minutos no meio da correria do dia-a-dia para ler o texto da Sacramentum Caritatis. Ele é especialmente útil para aqueles imensos católicos dos nossos tempos, que são presas do erro da heresia do modernismo (muitos sem o saberem). Está na altura de começarem a compreender porque razão é que certas coisas são como são, e para entenderem que as coisas são como são por honra, louvor e fidelidade ao magistério inaugurado pelo próprio Cristo.

Há muitos católicos que ainda se mantêm fiéis à Verdade revelada por Cristo, e fiéis aos ensinamentos da Igreja que nunca abandonou esta mesma Verdade.
Está na altura de estes católicos ganharem a coragem necessária para, mesmo sob pena de perda de popularidade, afirmarem alto e em bom som, para todo o Mundo ouvir e entender, que:

ESTAMOS COM O PAPA BENTO XVI!

sábado, 10 de março de 2007

Separação e distinção

A primeira reacção quando se lê uma obra de metafísica a sério, como o Les états multiples de l'être, do René Guénon, é de pura e total confusão mental. E é normal. Apesar da linguagem límpida e objectiva do autor, a verdade é que a mente ocidental moderna está totalmente destreinada no pensar metafísico. As estruturas mentais não estão preparadas: uma natural consequência, não só da uniformização do ensino e da sistematização das ciências, mas também do "nivelamento por baixo" do conhecimento em geral. Desde que nascemos que somos ensinados e formatados para pensarmos de forma sistemática e nada sintética. Nem é por mal: é porque aqueles que deveriam ter sido, ou deveriam ser, os nossos mestres também não têm esse treino mental e portanto não são capazes de nos ensinar a pensar desse modo. O mundo moderno prefere a análise à síntese, as caixinhas pequenas, seguras e controladas dos "sistemas" à arriscada intuição intelectual da Metafísica.

Hoje, já nem me recordo bem porquê, dei comigo a pensar nestes dois termos: separação e distinção. À partida pareciam-me sinónimos, mas comecei a tentar vê-los de um prisma metafísico primário, nada complexo, nada profundo, e a coisa ficou clara.

Porque é que uma coisa distinta de outra deve estar separada dela? Porque é que duas coisas distintas não podem coexistir? De repente, este simples dilema fez-me aplicar esta questão a diversas áreas.

Exoterismo e esoterismo
Muitos católicos não sabem, hoje em dia, que existe um lado esotérico ("esotérikos", grego para "interior") da doutrina cristã. Muitos experimentam-no sem sequer se aperceberem que se trata de algo esotérico. Os sacramentos católicos são exotéricos no ritual e esotéricos na influência sacramental (mistérica) que exercem sobre o seu receptor. Assustados (e com razão) pelo avançar galopante de um pseudo-esoterismo rasteiro, New Age, neopagão e superficial, é normal que a palavra "esoterismo" evoque a muitos católicos um Paulo Coelho ou um Dan Brown. Porventura, não sabem que um Padre da Igreja como Clemente de Alexandria usava o termo "esotérikos" em textos doutrinais perfeitamente ortodoxos.
Afinal, a dualidade esoterismo-exoterismo é uma dualidade normal e corresponde a um espelhar, se bem que assimétrico, do processo de conhecimento de uma doutrina. De um lado, temos a exterioridade da forma, na sua multiplicidade e inconstância. Do outro, temos a interioridade da essência, na sua unidade e constância. Uma doutrina sem esoterismo é uma casca sem miolo.
E o inverso?
Um esoterismo sem exoterismo?
Igual asneira. Num mundo em mudança incessante, é fundamental possuir alicerces sólidos que nem rocha. Por essa razão, o interessado em perseguir conhecimentos esotéricos não deve abdicar de uma prática exotérica rigorosa. É impossível penetrar na gnose cristã sem o exercício regular de uma prática religiosa ortodoxa. Não foi à toa que Jesus Cristo considerou São Pedro como a "pedra" sobre a qual seria edificada a Sua Igreja.
Um esoterismo sem exoterismo divaga facilmente, e cai rapidamente no erro, na heresia. Um exoterismo sem esoterismo é pobre, é superficial.

Teologia sacramental
Como é possível que, durante a Eucaristia, uma hóstia se torne no Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo? Afinal, desde pequenos que somos ensinados na "catequese cartesiana" a separar o espírito da matéria, e de repente, ficamos sem forma de compreender a presença divina na Eucaristia. Deveríamos ter sido, ao invés, ensinados a distinguir o espírito da matéria, sem termos que imaginar que tais ordens da realidade estejam, de facto, separadas ao ponto de existir um vazio entre ambas. Aliás, o vazio é algo que não existe. Toda e qualquer partícula da hóstia consagrada, que pressentimos nas papilas gustativas como hóstia, serve de receptáculo formal para uma essência divina que "desce" (na epiclese) do domínio informal ao domínio formal no momento da consagração. Isto sucede por simples vontade e decreto divinos, visto que Cristo ensinou aos seus discípulos como proceder "em sua memória" (anamnese, ou seja, evitar o esquecimento, "amnésis") para repetir este sacramento. E o efeito é sempre o mesmo e invariável, dependendo apenas do rito e não do celebrante ("ex opere operato", e não "ex opere operantis"). A forma "exterior" da hóstia suscita nas papilas gustativas uma reacção sensorial igual a qualquer outra hóstia, mesmo não consagrada. No entanto, a essência divina contida no "interior" dessa forma é comunicada, durante a comunhão, à alma do crente que comunga. Ou melhor, a alma individual do crente (essa sim contingente) comunga da fonte inesgotável que é a essência divina.
Esta noção de fonte tem uma enorme profundidade analógica e simbólica, pois da mesma fonte podem "beber" múltiplos seres sem que aquela deixe de ser a mesma inalterada fonte. A essência divina que "desce" a, ou que se manifesta em, toda e qualquer hóstia consagrada permanece una e imutável no domínio do Espírito, enquanto que a forma do seu "recipiente" é sempre múltipla e contingente. Há, então, uma distinção entre a matéria da hóstia consagrada e a essência divina que a preenche. Mas não há separação! O ente "hóstia" muda radicalmente de natureza após a consagração, porque ganha uma co-existência com o espírito divino que a transforma (literalmente, que a eleva para lá do formal).
Isto apenas é possível se duas realidades distintas não tiverem que estar verdadeiramente separadas, no sentido de possuirem existências separadas. Não obstante ser certo que há pouco rigor linguístico no uso da palavra "existência" para o Espírito, uma vez que este é o Ser sobre o qual todos os seres têm fixa a sua existência ("ex-stare", "ex-essere"), a conclusão não deixa de fazer sentido: a distinção não elimina a coexistência.

Vejamos mais aplicações...

Agnosticismo e Panteísmo
Para compreender o conceito de Criação é também importante ter bem claro o que se disse atrás acerca de distinção e de separação. Deus é seguramente distinto da criatura finita (o panteísta erra ao discordar disto). No entanto, a criatura finita tem a sua existência em Deus. Mais um exemplo de co-existência de todos os seres no Ser, sem que isso nos faça perder de vista a radical diferenciação entre o Uno Infinito (Deus) e os indefinidamente múltiplos finitos (criaturas). Temos de novo uma distinção sem separação. Não há "vazios" existenciais, uma vez que todos os seres estão contidos no Ser, sem no entanto serem confundidos com Ele.
Se o agnóstico erra ao conceber um abismo existencial entre a criatura e Deus, negando à primeira o acesso ao último, o panteísta erra ao conceber que a finita criatura consegue "acomodar" a infinitude divina. Impossibilidade metafísica!

Receio que poderia estar horas a encontrar mais exemplos que se apoiam nesta ideia: distinção sem separação. Co-existência de realidades ou entes distintos, mas não separados. Poderia pegar na angeologia e falar no Anjo da Guarda ("anjo", criatura imaterial de puro intelecto) que cada um tem atribuído a si por Deus, e a quem podemos rezar para obter intercessão divina. Mas por hoje, chega!