"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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terça-feira, 8 de novembro de 2011
Lully - "Marcha para a cerimónia turca"
A "Marcha para a cerimónia turca" do francês Jean-Baptiste Lully (1632-1687), compositor da corte de Luís XIV de França. Esta marcha faz parte da comédia-ballet em cinco actos, "Le bourgeois Gentilhomme" (1670). A orquestra é a do "Concert des Nations", dirigida por Jordi Savall.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Tárrega - Capricho Árabe
O norte-americano Jason Vieaux, numa interpretação incrível do "Capricho Árabe", uma peça do espanhol Francisco Tárrega (1852-1909). Vieaux usa toda a gama dinâmica da guitarra, aplicando todos os artifícios expressivos nos sítios certos, nos momentos certos. Quando eu for grande, gostava de tocar assim...
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Patiño - Nevando Está
O guitarrista sueco Göran Söllscher interpreta a peça Nevando Está, do compositor boliviano Adrian Patiño Carpio (1895-1951).
De notar que a peça, em ritmo "fox trot", não foi escrita por Patiño para guitarra. Söllscher interpreta uma adaptação para guitarra da autoria do guitarrista e compositor argentino Eduardo Falú (1923-). Este arranjo de Falú tornou a peça Nevando Está numa das peças favoritas para guitarra clássica. Na minha opinião, a interpretação de Söllscher é uma das mais bem sucedidas. É uma peça riquíssima, quer melódica, quer harmónica, quer ritmicamente. Note-se, no final da execução, o uso da tâmbora, que consiste em percutir o tampo da guitarra, mais especificamente a ponte, usando-se a ressonância do instrumento para acrescentar uma camada de percussão à peça.
A peça original
A interpretação de Falú, autor do arranjo para guitarra
De notar que a peça, em ritmo "fox trot", não foi escrita por Patiño para guitarra. Söllscher interpreta uma adaptação para guitarra da autoria do guitarrista e compositor argentino Eduardo Falú (1923-). Este arranjo de Falú tornou a peça Nevando Está numa das peças favoritas para guitarra clássica. Na minha opinião, a interpretação de Söllscher é uma das mais bem sucedidas. É uma peça riquíssima, quer melódica, quer harmónica, quer ritmicamente. Note-se, no final da execução, o uso da tâmbora, que consiste em percutir o tampo da guitarra, mais especificamente a ponte, usando-se a ressonância do instrumento para acrescentar uma camada de percussão à peça.
A peça original
A interpretação de Falú, autor do arranjo para guitarra
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Barrios - Un Sueño en la floresta
O paraguaio Agustín Pío Barrios (1885-1944), que se auto-intitulava "Agustín Barrios Mangoré" (em honra da cultura Guarani), é um dos mais geniais compositores para guitarra. Há quem o chame o Bach das Américas, mas o estilo de Barrios é suficientemente único e brilhante para não precisar de comparações. Barrios não era apenas um grande guitarrista, era também um grande homem, com uma grande alma. "Un sueño en la floresta", aqui executada pela sua conterrânea Berta Rojas, é uma das suas obras mais notáveis, sobretudo pela beleza das frases em trémolo.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
David Gilmour - Marooned
Esta incrível exibição do David Gilmour teve lugar em 2004, por ocasião do 50º aniversário da guitarra Fender Stratocaster. A música Marooned é do álbum dos Pink Floyd, The Division Bell (1994).
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Te lucis ante terminum
O cântico "Te lucis ante terminum" para as Completas (Liturgia das Horas), cantado pelo coro dos monges cistercientes da Abadia de Stift Heiligencreuz (Áustria):
Te lucis ante terminum,
rerum Creator, poscimus,
ut solita clementia,
sis praesul ad custodiam.
Te corda nostra somnient,
te per soporem sentiant
tuamque semper gloriam
vicina luce concinant.
Vitam salubrem tribue
nostrum calorem refice
taetram noctis caliginem
tua collustret claritas.
Praesta, Pater omnipotens
per Iesum Christum Dominum
qui tecum in perpetuum
regnat cum Sancto Spirito.
Amen.
PS: Esta versão do Te lucis ante terminum é a que é cantada na Quaresma. Ver todas as versões aqui.
Te lucis ante terminum,
rerum Creator, poscimus,
ut solita clementia,
sis praesul ad custodiam.
Te corda nostra somnient,
te per soporem sentiant
tuamque semper gloriam
vicina luce concinant.
Vitam salubrem tribue
nostrum calorem refice
taetram noctis caliginem
tua collustret claritas.
Praesta, Pater omnipotens
per Iesum Christum Dominum
qui tecum in perpetuum
regnat cum Sancto Spirito.
Amen.
PS: Esta versão do Te lucis ante terminum é a que é cantada na Quaresma. Ver todas as versões aqui.
Te Deum
O hino "Te Deum", aqui cantado pelos monges beneditinos da Abadia de São Maurício e São Mauro (Clairvaux, Luxemburgo), é atribuído tradicionalmente a Santo Ambrósio e a Santo Agostinho. Teria sido composto por volta do ano 387.
Te Deum laudamus:
te Dominum confitemur.
Te aeternum Patrem
omnis terra veneratur.
Tibi omnes Angeli;
tibi caeli et universae Potestates;
Tibi Cherubim et Seraphim
incessabili voce proclamant:
Sanctus, Sanctus, Sanctus,
Dominus Deus Sabaoth.
Pleni sunt caeli et terra
maiestatis gloriae tuae.
Te gloriosus Apostolorum chorus,
Te Prophetarum laudabilis numerus,
Te Martyrum candidatus laudat exercitus.
Te per orbem terrarum
sancta confitetur Ecclesia,
Patrem immensae maiestatis:
Venerandum tuum verum et unicum Filium;
Sanctum quoque Paraclitum Spiritum.
Tu Rex gloriae, Christe.
Tu Patris sempiternus es Filius.
Tu ad liberandum suscepturus hominem,
non horruisti Virginis uterum.
Tu, devicto mortis aculeo,
aperuisti credentibus regna caelorum.
Tu ad dexteram Dei sedes, in gloria Patris.
Iudex crederis esse venturus.
Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni:
quos pretioso sanguine redemisti.
Aeterna fac cum sanctis tuis in gloria numerari.
Salvum fac populum tuum,
Domine, et benedic hereditati tuae.
Et rege eos, et extolle illos usque in aeternum.
Per singulos dies benedicimus te;
Et laudamus Nomen tuum in saeculum, et in saeculum saeculi.
Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire.
Miserere nostri Domine, miserere nostri.
Fiat misericordia tua,
Domine, super nos, quemadmodum speravimus in te.
In te, Domine, speravi:
non confundar in aeternum.
PS: Veja-se o detalhe realista da gravação, com o som de um banco de madeira a cair no chão, por volta da palavra "Apostolorum".
Te Deum laudamus:
te Dominum confitemur.
Te aeternum Patrem
omnis terra veneratur.
Tibi omnes Angeli;
tibi caeli et universae Potestates;
Tibi Cherubim et Seraphim
incessabili voce proclamant:
Sanctus, Sanctus, Sanctus,
Dominus Deus Sabaoth.
Pleni sunt caeli et terra
maiestatis gloriae tuae.
Te gloriosus Apostolorum chorus,
Te Prophetarum laudabilis numerus,
Te Martyrum candidatus laudat exercitus.
Te per orbem terrarum
sancta confitetur Ecclesia,
Patrem immensae maiestatis:
Venerandum tuum verum et unicum Filium;
Sanctum quoque Paraclitum Spiritum.
Tu Rex gloriae, Christe.
Tu Patris sempiternus es Filius.
Tu ad liberandum suscepturus hominem,
non horruisti Virginis uterum.
Tu, devicto mortis aculeo,
aperuisti credentibus regna caelorum.
Tu ad dexteram Dei sedes, in gloria Patris.
Iudex crederis esse venturus.
Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni:
quos pretioso sanguine redemisti.
Aeterna fac cum sanctis tuis in gloria numerari.
Salvum fac populum tuum,
Domine, et benedic hereditati tuae.
Et rege eos, et extolle illos usque in aeternum.
Per singulos dies benedicimus te;
Et laudamus Nomen tuum in saeculum, et in saeculum saeculi.
Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire.
Miserere nostri Domine, miserere nostri.
Fiat misericordia tua,
Domine, super nos, quemadmodum speravimus in te.
In te, Domine, speravi:
non confundar in aeternum.
PS: Veja-se o detalhe realista da gravação, com o som de um banco de madeira a cair no chão, por volta da palavra "Apostolorum".
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Castelnuovo-Tedesco - Concerto N.º 1 para Guitarra e Orquestra
Este é o segundo andamento do Concerto N.º 1 para Guitarra e Orquestra, Op. 99 em Ré Maior, do compositor florentino Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968), composto em 1939. A interpretação é da guitarrista Irina Kulikova.
Este Concerto é magnífico e dispensa comentários.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Heitor Villa-Lobos - Prelúdio n.º 1
Acabo de descobrir esta rara interpretação do Prelúdio N.º 1 de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), e também esta guitarrista: a francesa Ida Presti (1924-1967). Uma interpretação espantosa (apesar da má qualidade da gravação), que revela a técnica e a intuição musical de uma guitarrista extraordinária. Este prelúdio faz parte de uma série de cinco prelúdios escritos pelo compositor carioca, em 1940, e dedicados à sua segunda mulher, Mindinha (Arminda Neves d'Almeida).
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Biber - Missa Bruxellensis
Heinrich Ignaz Franz von Biber (1644 - 1704), Missa Bruxellensis a 23 vozes. Uma das missas mais espantosas do barroco de Salzburgo.
Data e Local da gravação: BBC Proms - 10 de Agosto de 2004, Royal Albert Hall
Maestro: Paul Goodwin
Solistas:
Emma Kirkby (soprano)
Joanne Lunn (soprano)
Michael Chance (contra-tenor)
Tim Mead (contra-tenor)
Rufus Müller (tenor)
Robert Murray (tenor)
Michael George (baixo)
Stephen Richardson (baixo)
Kyrie
Gloria
Credo
Sanctus e Benedictus
Agnus Dei
Data e Local da gravação: BBC Proms - 10 de Agosto de 2004, Royal Albert Hall
Maestro: Paul Goodwin
Solistas:
Emma Kirkby (soprano)
Joanne Lunn (soprano)
Michael Chance (contra-tenor)
Tim Mead (contra-tenor)
Rufus Müller (tenor)
Robert Murray (tenor)
Michael George (baixo)
Stephen Richardson (baixo)
Kyrie
Gloria
Credo
Sanctus e Benedictus
Agnus Dei
segunda-feira, 21 de março de 2011
Missa com canto gregoriano na Encarnação (Chiado)
Comunhão para o 2º Domingo da Quaresma, retirado do Graduale Triplex, cantado pelo Coro gregoriano da Paróquia da Encarnação, que canta no 3º Domingo de cada mês, na missa das 12h30:
Gradual para 2º Domingo da Quaresma, retirado dos "Chants Abrégés" de 1925:
PS: Felizmente, o coro é excelente e profissional, conseguindo ocultar com eficácia a minha voz de cana rachada, que se ouve ligeiramente em pano de fundo, a estragar tudo, em total desafinação e arritmia.
PPS: Mais informações aqui e aqui.
Gradual para 2º Domingo da Quaresma, retirado dos "Chants Abrégés" de 1925:
PS: Felizmente, o coro é excelente e profissional, conseguindo ocultar com eficácia a minha voz de cana rachada, que se ouve ligeiramente em pano de fundo, a estragar tudo, em total desafinação e arritmia.
PPS: Mais informações aqui e aqui.
quarta-feira, 9 de março de 2011
O Salmo de hoje, Quarta-Feira de Cinzas
Permitam-me a repetição de um "post" anterior. É que é especialmente apropriado ao dia de hoje, Quarta-Feira de Cinzas, início da Quaresma. Hoje, na missa, escutámos o Salmo 51:
«Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut iustificeris in sermonibus tuis, et vincas cum iudicaris.
Ecce enim in inquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi.
Asperges me, hyssopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea iustitiam tuam. Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Ierusalem.
Tunc acceptabis sacrificium iustitiae, oblationes, et holocausta: tunc imponent super altare tuum vitulos.»
«Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade; pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
Lava-me de toda a iniquidade; purifica-me dos meus delitos.
Reconheço as minhas culpas e tenho sempre diante de mim os meus pecados.
Contra ti pequei, só contra ti, fiz o mal diante dos teus olhos;
por isso é justa a tua sentença e recto o teu julgamento.
Eis que nasci na culpa e a minha mãe concebeu-me em pecado.
Tu aprecias a verdade no íntimo do ser e ensinas-me a sabedoria no íntimo da alma.
Purifica-me com o hissope e ficarei puro, lava-me e ficarei mais branco do que a neve.
Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria e exultem estes ossos que trituraste.
Desvia o teu rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas culpas.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito.
Não me afastes da tua presença, nem me prives do teu santo espírito!
Dá-me de novo a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito generoso.
Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores hão-de voltar para ti.
Ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue, e a minha língua anunciará a tua justiça.
Abre, Senhor, os meus lábios, para que a minha boca possa anunciar o teu louvor.
Não te comprazes nos sacrifícios nem te agrada qualquer holocausto que eu te ofereça.
O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito; ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido.
Pela tua bondade, trata bem a Sião; reconstrói os muros de Jerusalém.
Então aceitarás com agrado os sacrifícios devidos, os holocaustos e as ofertas; então serão oferecidos novilhos no teu altar.»
[Partitura]
«Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut iustificeris in sermonibus tuis, et vincas cum iudicaris.
Ecce enim in inquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi.
Asperges me, hyssopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea iustitiam tuam. Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Ierusalem.
Tunc acceptabis sacrificium iustitiae, oblationes, et holocausta: tunc imponent super altare tuum vitulos.»
«Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade; pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
Lava-me de toda a iniquidade; purifica-me dos meus delitos.
Reconheço as minhas culpas e tenho sempre diante de mim os meus pecados.
Contra ti pequei, só contra ti, fiz o mal diante dos teus olhos;
por isso é justa a tua sentença e recto o teu julgamento.
Eis que nasci na culpa e a minha mãe concebeu-me em pecado.
Tu aprecias a verdade no íntimo do ser e ensinas-me a sabedoria no íntimo da alma.
Purifica-me com o hissope e ficarei puro, lava-me e ficarei mais branco do que a neve.
Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria e exultem estes ossos que trituraste.
Desvia o teu rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas culpas.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito.
Não me afastes da tua presença, nem me prives do teu santo espírito!
Dá-me de novo a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito generoso.
Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores hão-de voltar para ti.
Ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue, e a minha língua anunciará a tua justiça.
Abre, Senhor, os meus lábios, para que a minha boca possa anunciar o teu louvor.
Não te comprazes nos sacrifícios nem te agrada qualquer holocausto que eu te ofereça.
O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito; ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido.
Pela tua bondade, trata bem a Sião; reconstrói os muros de Jerusalém.
Então aceitarás com agrado os sacrifícios devidos, os holocaustos e as ofertas; então serão oferecidos novilhos no teu altar.»
[Partitura]
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Uma origem darwiniana da Beleza?
Denis Dutton (1944-2010) era professor de Filosofia na Universidade de Cantebury, Christchurch (Nova Zelândia). Ouvi falar dele pela primeira vez há umas semanas atrás, ao ver na Internet o vídeo de uma conferência TED por ele proferida no ano passado, intitulada A Darwinian theory of beauty. Quando assisti ao vídeo no início de Janeiro deste ano, não sabia que Dutton tinha acabado de morrer de cancro a 28 de Dezembro de 2010. Dei-me conta disso agora mesmo, ao começar a escrever este texto. Fiquei sinceramente triste com a notícia. Quem vir o vídeo da conferência TED entenderá o que eu quero dizer. É impossível não simpatizar com este senhor: basta ouvi-lo a falar e fica-se com a clara sensação de que a Humanidade ficou mais pobre sem Denis Dutton.
Enquanto ouvia, pela primeira vez, a conferência A Darwinian theory of beauty, o meu pensamento vagueava constantemente, pois começava já a imaginar escrever este texto, apontando uma série de discordâncias e de protestos face à opinião de Dutton. Mas estava dividido: dividido entre uma simpatia instantânea para com um orador tão empático e uma repulsa visceral que sentia pelas ideias que tal orador estava a defender.
Essas ideias têm um eixo claro, que está patente no título da palestra: a beleza, a criação de beleza, a apreciação da beleza, quer natural quer artificial, segundo Dutton, são realidades que têm uma derradeira explicação darwinista. Temos que nos dar conta do que está aqui em jogo: segundo Denis Dutton, a beleza é uma realidade cuja causa última é puramente naturalista: mutação, cruzamento, selecção natural.
Por um lado, a teoria de Dutton, e sem menosprezar o mérito da sua fundamentação e formulação, é a consequência lógica de um darwinismo que é filosoficamente interpretado de forma materialista, ou naturalista. É verdade que o darwinismo, como teoria científica, tanto pode ser defendido por uma pessoa com uma visão filosófica materialista como por uma pessoa com uma visão diametralmente oposta ao materialismo, como a visão cristã. Assim, há que distinguir entre teoria científica darwinista e teoria filosófica materialista. Dutton, nesta palestra, não faz apenas uma defesa do darwinismo científico. Isso seria incontroverso, algo que transformaria a palestra num evento para especialistas de Biologia, e não em algo que realmente mexe com o comum dos mortais. Dutton faz uma defesa do darwinismo materialista, ou seja, da combinação da teoria científica do darwinismo com a teoria filosófica do materialismo.
Quando um orador apresenta o darwinismo materialista a uma plateia, desde que mantenha o tema no abstracto, a coisa até pode correr bem, ou seja, a percentagem de espectadores chocados pode ser muito baixa ou mesmo nula. Mas Dutton arriscou apresentar o seu darwinismo materialista sob o ponto de vista da beleza, o que dá à sua palestra uma amplitude tal que equivale a envolver toda a humanidade.
Será mesmo verdade? Será a beleza o produto final de um processo cem por cento natural de selecção natural darwiniana com genética mendeliana?
Uma repulsa instintiva
A razão da minha repulsa explica-se facilmente. A repulsa começou por ser instintiva, e só depois tentei articular uma repulsa mais racional. Instintivamente, lembrei-me de um dos inesgotáveis exemplos de beleza com os quais nos deparamos durante a nossa vida. Neste caso em concreto, lembrei-me do notável Concerto para Violino e Orquestra (Op. 47) em Ré Menor, de Jean Sibelius (1865-1957), e de uma execução magnífica do mesmo, que vi no Youtube, pelas mãos de Ida Haendel, sob a direcção do maestro Franz Paul Decker.
Todas as notas emanadas do violino de Ida Haendel refutam, na prática, a teoria da origem darwiniana da beleza, que é defendida por Dutton. Aliás, basta uma só nota para se obter esse efeito. Dutton dá-nos explicações darwinianas ("survival of the fittest") para o surgimento e para o aperfeiçoamento do sentido estético da Humanidade. Dutton explica-nos que quando gostamos de uma paisagem com o verde da vegetação e com o azul da água, ou com a presença de animais nas imediações, isso acontece porque há genes evoluídos que nos fazem apreciar esse tipo de paisagens. Segundo Dutton, nas paisagens que hoje apreciamos há um eco das savanas do Plistocénico. Alguns dos nossos genes evoluíram porque a procura da proximidade desses locais dava aos seres humanos vantagens competitivas. A beleza é reduzida a um produto de uma luta pela sobrevivência. Para que compôs Sibelius o seu Concerto para Violiono e Orquestra? Que savana do Plistocénico imaginava ele, ao escrever a cadenza do violino? Quando se tenta aplicar a teoria de Dutton a uma peça musical como esta, fica patente a insuficiência da teoria. Ida Haendel recebeu do próprio Sibelius estes elogios, após ouvi-la tocar o seu Concerto: "[Ida Haendel] played it masterfully in every respect. I congratulate myself that my concerto has found an interpreter of your rare standard". Ida comentou, acerca deste Concerto: "The Sibelius Violin Concerto is one of the most exciting, emotionally and technically, in the entire repertoire for my instrument". Deveras! Este Concerto é uma vertigem emocional e intelectual. É um feito notável do génio humano. Não pode ser produto apenas da matéria. E a beleza desta peça apresenta, como sucede em toda a música, uma simetria entre compositor e executante. A beleza da composição de Sibelius alinha-se com a beleza da execução de Ida Haendel. E tudo isto, todo este hino à beleza, receberia uma explicação naturalista? Evolucionista? Darwinista? Pergunta: serão as geniais faculdades musicais de Sibelius puramente genéticas? O Concerto é bom porque os genes são bons? Outra pergunta: será que essas faculdades musicais deram a Sibelius alguma vantagem darwiniana? Irão os descendentes de Sibelius presentear a Humanidade com mais peças destas? Era bom...
Veja-se ainda, no terceiro andamento, o momento (por volta dos 5'13'') em que Ida Haendel toca quatro compassos em trémolo, seguidos de uma belíssima linha melódica com harmónicos oitavados: é de se ir às lágrimas! Eu não sei explicar o que pretende Sibelius com este trecho: apenas sei que é fenomenal. Diz o materialista, em jeito de explicação: o cérebro humano adaptou-se à interpretação de estímulos sonoros como forma de diferenciar ameaças, ou como forma de comunicação com os da sua espécie, com vista à sobrevivência do grupo. E porque não? Mas isso explica este troço fenomenal de Sibelius? Explica a forma visceral como Ida Haendel se entrega à execução desta peça, como se empregasse toda a sua existência na execução deste Concerto? Aos 5 minutos e 20 segundos do primeiro andamento, Ida Haendel verte uma lágrima. É a intérprete musical no seu esplendor! Reflexo darwiniano? Ou não será antes essa lágrima o reflexo fisiológico de uma pessoa cuja alma está sublimada pela beleza? Cuja alma está de janelas abertas para a eternidade? Não será essa lágrima, discreta, um pequeno sinal exterior do turbilhão, da vertigem de beleza que se apoderou da sua alma?
Um tiro no pé?
O problema lógico de todo o darwinismo materialista, é que se trata de uma posição que se refuta a si mesma. É certo que Dutton, homem culto, apreciador de cultura, viveu toda a sua vida apaixonado pelas coisas de que gostava, de entre elas a beleza, o estudo e o ensino filosófico da beleza. Como académico, buscou a verdade acerca da beleza. Será que toda essa busca, de uma vida inteira, se reduz a um esforço pela sobrevivência? Por outras palavras, será que a explicação darwiniana da beleza não será, também ela, um fenómeno darwiniano? Ou seja, como pode haver um fundo de verdade em qualquer teoria que afirme que toda a actividade humana tem uma explicação derradeira que é cem por cento materialista? Essa teoria pisa o seu próprio pé. Morde a sua própria canela. Dutton defende que, em última análise, a beleza só existe por causa de um processo natural e material. Isso destrói, não a beleza (que manifestamente existe), mas o fim da beleza, o gozo último da beleza, a razão de ser da beleza. Afinal de contas, o belo é apenas o produto de um processo natural e material? Ora bolas...
Mas a ideia de Dutton insere-se no contexto auto-destrutivo de todas as teorias darwinistas materialistas. O darwinismo materialista destrói o próprio conceito de verdade, e não apenas o da verdade acerca da beleza. Num mundo em que as causas derradeiras de tudo são darwinistas, não há verdade. A própria defesa intelectual da verdade, a própria procura da verdade, seria o efeito de algo determinado pelo darwinismo. Seríamos ateus por razões darwinistas. Seriamos agnósticos por razões darwinistas. Seriamos cristãos por razões darwinistas. Gostaríamos de Sibelius por razões darwinistas. Gostaríamos de Metallica por razões darwinistas. O darwinismo, expandido para fora da fronteira da Ciência, e transformado em "weltanschauung" filosófica omnipotente, torna-se numa ideia que é auto-destrutiva, que é suicida. Numa vertente mais prática, apesar de Dutton nos dar exemplos, na sua palestra, de coisas manifestamente belas, a verdade é que ele poderia dar exemplos perfeitamente darwinistas de coisas manifestamente feias. Fotografias de Auschwitz tiradas aquando do seu uso para exterminar judeus seriam exemplos pertinentes de coisas horrorosas com pleno enquadramento num quadro darwinista: sobrevivência dos mais aptos: o ariano, o forte, sobrevive ao judeu, o fraco. É tão legítimo, em termos estritamente darwinianos, que o leão mate a gazela ou que o ariano mate o judeu. O nazismo representa um dos melhores exemplos dos perigos de transportar o darwinismo para fora da Ciência, transformando-o numa cosmovisão. Não se pode montar uma ética válida sobre o darwinismo: até Richard Dawkins o reconhece. Logo, é um beco sem saída, o caminho de justificar tudo no Homem pela via do darwinismo.
Dutton era um orador talentoso. A sua palestra TED é um magnífico exemplo de oratória e de eficácia comunicativa. Mas Dutton não deu à sua plateia nenhum exemplo de coisas feias que também podem ter boas explicações darwinistas. A lei da sobrevivência do mais forte, quando vivida à letra, pode dar origem a coisas muito feias, e no entanto, é perfeitamente darwinista.
Seria superficial dizer que a explicação darwinista da beleza, conforme defendida por Denis Dutton, é cem por cento falsa. Eu não acredito nisso, e não me atrevo a dizer que Dutton estava cem por cento errado. Não é fácil acreditar em afirmações cem por cento falsas. Desconfiamos delas. Se me dissessem: "ontem, na Gulbenkian, um chimpanzé evadido do Jardim Zoológico, munido de um Stradivarius, tocou o Concerto para Violino e Orquestra de Sibelius", eu mandava essa pessoa passear. Uma falsidade tão irreal, sem qualquer base de verdade, é literalmente inacreditável. Por isso, apesar de eu achar que a teoria de Dutton é falsa, no sentido em que falha em encontrar a explicação derradeira para a beleza, eu acho que a dita teoria tem qualquer coisa de verdadeiro.
As falsidades poderosas, as que sobrevivem mais tempo, são as que incorporam em si mesmas alguns ingredientes verdadeiros. Assim, há certamente algo de verdadeiro na teoria darwinista da beleza, conforme apresentada por Dutton. Afinal de contas, fazemos parte do mundo material, somos pessoas de corpo e alma, e o corpo é seguramente natural, material. Por isso, é de esperar que, do mesmo modo que reflexos como o do susto podem ter origem darwiniana e explicação genética, pois quem tem esses reflexos escapa melhor aos perigos e sobrevive para deixar descendência a quem passar esses genes eficazes, também certos aspectos acerca da nossa interpretação sensorial podem ter algum fundamento darwiniano e genético. Parte da nossa psique pode ter características em cujas causas concorre o darwinismo. Afinal de contas, os nossos sentidos estão profundamente adaptados à realidade natural. Também somos feitos de matéria. E da mesma matéria que o Universo.
Conclusão
Afinal, onde está a verdade?
O cristão vê-se, mais uma vez, obrigado a defender o bom senso, e a evitar dois erros opostos: por um lado, o cristão protesta contra os erros do materialismo, que quer reduzir o Homem ao corpo, à matéria. Por outro lado, o cristão protesta contra os erros do gnosticismo, que quer reduzir o Homem à alma, sem matéria. Vivemos tempos entusiasmantes, mas ao mesmo tempo, de extremos. Todos os dias deparamo-nos com dois tipos de louco: o louco que nos quer convencer que somos o nosso corpo, e o louco que nos quer convencer que o nosso corpo pode, em certos casos, não ter nada a ver connosco.
Dutton não era louco. Paz à sua alma: rezamos por ele a Deus, para que se converta e o Senhor lhe conceda a graça do perdão. Todo o Homem que procura a beleza procura a Deus, e mesmo que equivocado no caminho, tem uma sede de beleza que, em si mesma, tem valor. Dutton cometeu, a meu ver, o erro de desequilibrar a correcta visão do Homem num dado sentido, o do materialismo. Outros cometem o erro de desequilibrar essa visão no sentido oposto, o do gnosticismo. Por exemplo, os defensores da ideologia de género acreditam que o nosso corpo pode, em certos casos, não ter nada a ver connosco, e por isso defendem a ideia louca de que podemos ser homens em corpo de mulher, ou mulheres em corpo de homem. E, de forma mais frequente, os gnósticos modernos defendem a loucura de que não existe moral sexual. A loucura de que não há tal coisa como uma "ortopraxia" (uma prática correcta) da nossa sexualidade. Como se o corpo, não sendo parte constituinte do nosso ser, fosse apenas um instrumento que o nosso "eu" imaterial usaria para obter prazer. Como se o nosso corpo não fizesse parte do nosso "eu". Claro que faz. E toda a ética que não veja o corpo como parte integrante do ser humano é uma falsa ética. A ética não é uma coisa de almas imateriais: é uma coisa de seres humanos de corpo e alma.
O cristão sabe onde está a verdade acerca do ser humano. Está em ver o ser humano como feito de corpo e alma. Está em ver o ser humano como uma pessoa cujo corpo material é constituído pelos mesmos elementos que encontramos no Universo e cuja alma imaterial é criada directamente por Deus, uma alma que não pode ser reduzida ao material, uma alma livre, com capacidades racionais e artísticas, capacidades que não vêm da matéria. Finalmente, uma alma com capacidade de amar, porque a capacidade de amar também não vem da matéria.
A verdadeira origem da beleza está em Deus, fonte de toda a beleza. Origem e destino da beleza. Toda a beleza que podemos encontrar é um reflexo da beleza divina. O fim último do ser humano é o encontro com Deus, é o contemplar Deus na sua infinita beleza e bondade. Suprema aspiração e fim admirável da raça humana!
PS: A palestra de Dutton tem o mérito de procurar refutar as teorias modernas e pós-modernas de beleza. Mas troca-as por uma teoria igualmente falsa. A explicação verdadeira da beleza está na doutrina cristã. Não é necessário procurá-la mais longe.
PPS: Em jeito de corolário ao que acabei de escrever, veja-se Maxim Vengerov, numa "masterclass" do Concerto para Violino e Orquestra de Sibelius, a explicar na prática o que é a beleza... Veja-se, sobretudo, a partir do 1'40''. Aos 2'', Vengerov diz, com razão: "This is beauty!"
Enquanto ouvia, pela primeira vez, a conferência A Darwinian theory of beauty, o meu pensamento vagueava constantemente, pois começava já a imaginar escrever este texto, apontando uma série de discordâncias e de protestos face à opinião de Dutton. Mas estava dividido: dividido entre uma simpatia instantânea para com um orador tão empático e uma repulsa visceral que sentia pelas ideias que tal orador estava a defender.
Essas ideias têm um eixo claro, que está patente no título da palestra: a beleza, a criação de beleza, a apreciação da beleza, quer natural quer artificial, segundo Dutton, são realidades que têm uma derradeira explicação darwinista. Temos que nos dar conta do que está aqui em jogo: segundo Denis Dutton, a beleza é uma realidade cuja causa última é puramente naturalista: mutação, cruzamento, selecção natural.
Por um lado, a teoria de Dutton, e sem menosprezar o mérito da sua fundamentação e formulação, é a consequência lógica de um darwinismo que é filosoficamente interpretado de forma materialista, ou naturalista. É verdade que o darwinismo, como teoria científica, tanto pode ser defendido por uma pessoa com uma visão filosófica materialista como por uma pessoa com uma visão diametralmente oposta ao materialismo, como a visão cristã. Assim, há que distinguir entre teoria científica darwinista e teoria filosófica materialista. Dutton, nesta palestra, não faz apenas uma defesa do darwinismo científico. Isso seria incontroverso, algo que transformaria a palestra num evento para especialistas de Biologia, e não em algo que realmente mexe com o comum dos mortais. Dutton faz uma defesa do darwinismo materialista, ou seja, da combinação da teoria científica do darwinismo com a teoria filosófica do materialismo.
Quando um orador apresenta o darwinismo materialista a uma plateia, desde que mantenha o tema no abstracto, a coisa até pode correr bem, ou seja, a percentagem de espectadores chocados pode ser muito baixa ou mesmo nula. Mas Dutton arriscou apresentar o seu darwinismo materialista sob o ponto de vista da beleza, o que dá à sua palestra uma amplitude tal que equivale a envolver toda a humanidade.
Será mesmo verdade? Será a beleza o produto final de um processo cem por cento natural de selecção natural darwiniana com genética mendeliana?
Uma repulsa instintiva
A razão da minha repulsa explica-se facilmente. A repulsa começou por ser instintiva, e só depois tentei articular uma repulsa mais racional. Instintivamente, lembrei-me de um dos inesgotáveis exemplos de beleza com os quais nos deparamos durante a nossa vida. Neste caso em concreto, lembrei-me do notável Concerto para Violino e Orquestra (Op. 47) em Ré Menor, de Jean Sibelius (1865-1957), e de uma execução magnífica do mesmo, que vi no Youtube, pelas mãos de Ida Haendel, sob a direcção do maestro Franz Paul Decker.
Todas as notas emanadas do violino de Ida Haendel refutam, na prática, a teoria da origem darwiniana da beleza, que é defendida por Dutton. Aliás, basta uma só nota para se obter esse efeito. Dutton dá-nos explicações darwinianas ("survival of the fittest") para o surgimento e para o aperfeiçoamento do sentido estético da Humanidade. Dutton explica-nos que quando gostamos de uma paisagem com o verde da vegetação e com o azul da água, ou com a presença de animais nas imediações, isso acontece porque há genes evoluídos que nos fazem apreciar esse tipo de paisagens. Segundo Dutton, nas paisagens que hoje apreciamos há um eco das savanas do Plistocénico. Alguns dos nossos genes evoluíram porque a procura da proximidade desses locais dava aos seres humanos vantagens competitivas. A beleza é reduzida a um produto de uma luta pela sobrevivência. Para que compôs Sibelius o seu Concerto para Violiono e Orquestra? Que savana do Plistocénico imaginava ele, ao escrever a cadenza do violino? Quando se tenta aplicar a teoria de Dutton a uma peça musical como esta, fica patente a insuficiência da teoria. Ida Haendel recebeu do próprio Sibelius estes elogios, após ouvi-la tocar o seu Concerto: "[Ida Haendel] played it masterfully in every respect. I congratulate myself that my concerto has found an interpreter of your rare standard". Ida comentou, acerca deste Concerto: "The Sibelius Violin Concerto is one of the most exciting, emotionally and technically, in the entire repertoire for my instrument". Deveras! Este Concerto é uma vertigem emocional e intelectual. É um feito notável do génio humano. Não pode ser produto apenas da matéria. E a beleza desta peça apresenta, como sucede em toda a música, uma simetria entre compositor e executante. A beleza da composição de Sibelius alinha-se com a beleza da execução de Ida Haendel. E tudo isto, todo este hino à beleza, receberia uma explicação naturalista? Evolucionista? Darwinista? Pergunta: serão as geniais faculdades musicais de Sibelius puramente genéticas? O Concerto é bom porque os genes são bons? Outra pergunta: será que essas faculdades musicais deram a Sibelius alguma vantagem darwiniana? Irão os descendentes de Sibelius presentear a Humanidade com mais peças destas? Era bom...
Veja-se ainda, no terceiro andamento, o momento (por volta dos 5'13'') em que Ida Haendel toca quatro compassos em trémolo, seguidos de uma belíssima linha melódica com harmónicos oitavados: é de se ir às lágrimas! Eu não sei explicar o que pretende Sibelius com este trecho: apenas sei que é fenomenal. Diz o materialista, em jeito de explicação: o cérebro humano adaptou-se à interpretação de estímulos sonoros como forma de diferenciar ameaças, ou como forma de comunicação com os da sua espécie, com vista à sobrevivência do grupo. E porque não? Mas isso explica este troço fenomenal de Sibelius? Explica a forma visceral como Ida Haendel se entrega à execução desta peça, como se empregasse toda a sua existência na execução deste Concerto? Aos 5 minutos e 20 segundos do primeiro andamento, Ida Haendel verte uma lágrima. É a intérprete musical no seu esplendor! Reflexo darwiniano? Ou não será antes essa lágrima o reflexo fisiológico de uma pessoa cuja alma está sublimada pela beleza? Cuja alma está de janelas abertas para a eternidade? Não será essa lágrima, discreta, um pequeno sinal exterior do turbilhão, da vertigem de beleza que se apoderou da sua alma?
Um tiro no pé?
O problema lógico de todo o darwinismo materialista, é que se trata de uma posição que se refuta a si mesma. É certo que Dutton, homem culto, apreciador de cultura, viveu toda a sua vida apaixonado pelas coisas de que gostava, de entre elas a beleza, o estudo e o ensino filosófico da beleza. Como académico, buscou a verdade acerca da beleza. Será que toda essa busca, de uma vida inteira, se reduz a um esforço pela sobrevivência? Por outras palavras, será que a explicação darwiniana da beleza não será, também ela, um fenómeno darwiniano? Ou seja, como pode haver um fundo de verdade em qualquer teoria que afirme que toda a actividade humana tem uma explicação derradeira que é cem por cento materialista? Essa teoria pisa o seu próprio pé. Morde a sua própria canela. Dutton defende que, em última análise, a beleza só existe por causa de um processo natural e material. Isso destrói, não a beleza (que manifestamente existe), mas o fim da beleza, o gozo último da beleza, a razão de ser da beleza. Afinal de contas, o belo é apenas o produto de um processo natural e material? Ora bolas...
Mas a ideia de Dutton insere-se no contexto auto-destrutivo de todas as teorias darwinistas materialistas. O darwinismo materialista destrói o próprio conceito de verdade, e não apenas o da verdade acerca da beleza. Num mundo em que as causas derradeiras de tudo são darwinistas, não há verdade. A própria defesa intelectual da verdade, a própria procura da verdade, seria o efeito de algo determinado pelo darwinismo. Seríamos ateus por razões darwinistas. Seriamos agnósticos por razões darwinistas. Seriamos cristãos por razões darwinistas. Gostaríamos de Sibelius por razões darwinistas. Gostaríamos de Metallica por razões darwinistas. O darwinismo, expandido para fora da fronteira da Ciência, e transformado em "weltanschauung" filosófica omnipotente, torna-se numa ideia que é auto-destrutiva, que é suicida. Numa vertente mais prática, apesar de Dutton nos dar exemplos, na sua palestra, de coisas manifestamente belas, a verdade é que ele poderia dar exemplos perfeitamente darwinistas de coisas manifestamente feias. Fotografias de Auschwitz tiradas aquando do seu uso para exterminar judeus seriam exemplos pertinentes de coisas horrorosas com pleno enquadramento num quadro darwinista: sobrevivência dos mais aptos: o ariano, o forte, sobrevive ao judeu, o fraco. É tão legítimo, em termos estritamente darwinianos, que o leão mate a gazela ou que o ariano mate o judeu. O nazismo representa um dos melhores exemplos dos perigos de transportar o darwinismo para fora da Ciência, transformando-o numa cosmovisão. Não se pode montar uma ética válida sobre o darwinismo: até Richard Dawkins o reconhece. Logo, é um beco sem saída, o caminho de justificar tudo no Homem pela via do darwinismo.
Dutton era um orador talentoso. A sua palestra TED é um magnífico exemplo de oratória e de eficácia comunicativa. Mas Dutton não deu à sua plateia nenhum exemplo de coisas feias que também podem ter boas explicações darwinistas. A lei da sobrevivência do mais forte, quando vivida à letra, pode dar origem a coisas muito feias, e no entanto, é perfeitamente darwinista.
Seria superficial dizer que a explicação darwinista da beleza, conforme defendida por Denis Dutton, é cem por cento falsa. Eu não acredito nisso, e não me atrevo a dizer que Dutton estava cem por cento errado. Não é fácil acreditar em afirmações cem por cento falsas. Desconfiamos delas. Se me dissessem: "ontem, na Gulbenkian, um chimpanzé evadido do Jardim Zoológico, munido de um Stradivarius, tocou o Concerto para Violino e Orquestra de Sibelius", eu mandava essa pessoa passear. Uma falsidade tão irreal, sem qualquer base de verdade, é literalmente inacreditável. Por isso, apesar de eu achar que a teoria de Dutton é falsa, no sentido em que falha em encontrar a explicação derradeira para a beleza, eu acho que a dita teoria tem qualquer coisa de verdadeiro.
As falsidades poderosas, as que sobrevivem mais tempo, são as que incorporam em si mesmas alguns ingredientes verdadeiros. Assim, há certamente algo de verdadeiro na teoria darwinista da beleza, conforme apresentada por Dutton. Afinal de contas, fazemos parte do mundo material, somos pessoas de corpo e alma, e o corpo é seguramente natural, material. Por isso, é de esperar que, do mesmo modo que reflexos como o do susto podem ter origem darwiniana e explicação genética, pois quem tem esses reflexos escapa melhor aos perigos e sobrevive para deixar descendência a quem passar esses genes eficazes, também certos aspectos acerca da nossa interpretação sensorial podem ter algum fundamento darwiniano e genético. Parte da nossa psique pode ter características em cujas causas concorre o darwinismo. Afinal de contas, os nossos sentidos estão profundamente adaptados à realidade natural. Também somos feitos de matéria. E da mesma matéria que o Universo.
Conclusão
Afinal, onde está a verdade?
O cristão vê-se, mais uma vez, obrigado a defender o bom senso, e a evitar dois erros opostos: por um lado, o cristão protesta contra os erros do materialismo, que quer reduzir o Homem ao corpo, à matéria. Por outro lado, o cristão protesta contra os erros do gnosticismo, que quer reduzir o Homem à alma, sem matéria. Vivemos tempos entusiasmantes, mas ao mesmo tempo, de extremos. Todos os dias deparamo-nos com dois tipos de louco: o louco que nos quer convencer que somos o nosso corpo, e o louco que nos quer convencer que o nosso corpo pode, em certos casos, não ter nada a ver connosco.
Dutton não era louco. Paz à sua alma: rezamos por ele a Deus, para que se converta e o Senhor lhe conceda a graça do perdão. Todo o Homem que procura a beleza procura a Deus, e mesmo que equivocado no caminho, tem uma sede de beleza que, em si mesma, tem valor. Dutton cometeu, a meu ver, o erro de desequilibrar a correcta visão do Homem num dado sentido, o do materialismo. Outros cometem o erro de desequilibrar essa visão no sentido oposto, o do gnosticismo. Por exemplo, os defensores da ideologia de género acreditam que o nosso corpo pode, em certos casos, não ter nada a ver connosco, e por isso defendem a ideia louca de que podemos ser homens em corpo de mulher, ou mulheres em corpo de homem. E, de forma mais frequente, os gnósticos modernos defendem a loucura de que não existe moral sexual. A loucura de que não há tal coisa como uma "ortopraxia" (uma prática correcta) da nossa sexualidade. Como se o corpo, não sendo parte constituinte do nosso ser, fosse apenas um instrumento que o nosso "eu" imaterial usaria para obter prazer. Como se o nosso corpo não fizesse parte do nosso "eu". Claro que faz. E toda a ética que não veja o corpo como parte integrante do ser humano é uma falsa ética. A ética não é uma coisa de almas imateriais: é uma coisa de seres humanos de corpo e alma.
O cristão sabe onde está a verdade acerca do ser humano. Está em ver o ser humano como feito de corpo e alma. Está em ver o ser humano como uma pessoa cujo corpo material é constituído pelos mesmos elementos que encontramos no Universo e cuja alma imaterial é criada directamente por Deus, uma alma que não pode ser reduzida ao material, uma alma livre, com capacidades racionais e artísticas, capacidades que não vêm da matéria. Finalmente, uma alma com capacidade de amar, porque a capacidade de amar também não vem da matéria.
A verdadeira origem da beleza está em Deus, fonte de toda a beleza. Origem e destino da beleza. Toda a beleza que podemos encontrar é um reflexo da beleza divina. O fim último do ser humano é o encontro com Deus, é o contemplar Deus na sua infinita beleza e bondade. Suprema aspiração e fim admirável da raça humana!
PS: A palestra de Dutton tem o mérito de procurar refutar as teorias modernas e pós-modernas de beleza. Mas troca-as por uma teoria igualmente falsa. A explicação verdadeira da beleza está na doutrina cristã. Não é necessário procurá-la mais longe.
PPS: Em jeito de corolário ao que acabei de escrever, veja-se Maxim Vengerov, numa "masterclass" do Concerto para Violino e Orquestra de Sibelius, a explicar na prática o que é a beleza... Veja-se, sobretudo, a partir do 1'40''. Aos 2'', Vengerov diz, com razão: "This is beauty!"
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Barrios - Julia Florida
O guitarrista Jason Vieaux toca a peça "Julia Florida" do compositor paraguaio Agustín Barrios. Local: Arkansas State University, 11 de Janeiro de 2007.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Jean Sibelius - Suite Karelia - Balada
Música bastante adequada ao frio que faz hoje em Lisboa.
Do compositor finlandês Jean Sibelius (1865-1957), o segundo andamento da Suite Karelia (Op. 11), executado pela Royal Philharmony Orchestra, direcção de Sir Charles Mackerass.
Sibelius nunca passa de moda...
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Pink Floyd - Sorrow
Um clássico de sempre: Sorrow, dos Pink Floyd. Um tema composto por David Gilmour para o álbum A Momentary Lapse of Reason (1987), aqui tocado na digressão dos Pink Floyd após o álbum The Division Bell (1994). Numa altura em que o estilo "rock" é tão mal-tratado em subprodutos de plástico e de má qualidade, é sempre bom revisitar os músicos sérios e profissionais que ajudaram a criar as estruturas de muita da música contemporânea que outros tentam imitar.
Porventura isso irritará algum fã não cristão dos Pink Floyd, mas eu, como cristão, não consigo deixar de fazer uma leitura cristã da letra deste tema. Gilmour, que nunca se achou grande poeta, dando sempre a Roger Waters a primazia no que respeitava a letras, esmerou-se neste Sorrow:
The sweet smell of a great sorrow lies over the land
Plumes of smoke rise and merge into the leaden sky:
A man lies and dreams of green fields and rivers,
But awakes to a morning with no reason for waking
He's haunted by the memory of a lost paradise
In his youth or a dream, he can't be precise
He's chained forever to a world that's departed
It's not enough, it's not enough
His blood has frozen and curdled with fright
His knees have trembled and given way in the night
His hand has weakened at the moment of truth
His step has faltered
One world, one soul
Time pass, river roll
And he talks to the river of lost love and dedication
And silent replies that swirl invitation
Flow dark and troubled to an oily sea
A grim intimation of what is to be
There's an unceasing wind that blows through this night
And there's dust in my eyes, that blinds my sight
And silence that speaks so much louder than words,
Of promises broken
Que tem isto de cristão?
A música Sorrow pode ser interpretada como uma metáfora para as trevas do pecado, para o Homem em situação de Queda, após o Pecado Original. A primeira estrofe, que principia com uma quase citação de John Steinbeck ("The decay spreads over the State, and the sweet smell is a great sorrow on the land.", da obra "The Grapes of Wrath", em português, "As Vinhas da Ira"), reflecte o desânimo do Homem perante a obra da Morte, que entrou no Mundo por causa do pecado de Adão e Eva. O Homem, mergulhado num mundo da cor do chumbo, recorda-se dos rios e dos campos verdes de um paraíso perdido (não sabe se da sua infância, ou da infância da Humanidade, se de um sonho) enquanto contempla uma realidade desoladora: a realidade do seu presente de ser caído. A recordação do paraíso perdido, e a sensação de queda, de incompletude, a sede do infinito, a sede de Deus, são todos sentimentos humanos universais, multi-culturais, e não é por acaso que muitos artistas, mesmo não provenientes da tradição judaico-cristã, os evocam.
Não me atrevo a supor intenções cristãs em David Gilmour. O que se passa é que, dado que o cristianismo é a coisa mais humana que existe, no sentido de Cristo nos mostrar o que ser humano tem de melhor, e no sentido de o cristianismo nos contar a história verdadeira sobre a Humanidade, então sempre que um artista sério, com a sua obra honesta, toca no âmago do ser humano e da existência humana, ele não pode evitar o produzir algo de verdadeiramente cristão, mesmo que involuntariamente.
PS: É quase escusado dizer, mas o minucioso "tricotado" que Gilmour faz com a sua Fender Stratocaster nas várias versões do "solo" de Sorrow é algo que ficará para sempre nos anais da música. Gilmour é um poderoso comunicador, e se a letra de Sorrow não está nada má, a sua música diz coisas infindáveis e indescritíveis por palavras.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
We Three Kings of Orient Are
Um cântico tradicional do Natal, composto pelo episcopaliano Rev. John Henry Hopkins, Jr. (1820–1891), norte-americano natural de Pittsburgh. Quem canta é o coro do King's College, em Cambridge, num arranjo de Martin Neary.
1.
We three kings of Orient are
Bearing gifts we traverse afar.
Field and fountain, moor and mountain,
Following yonder star.
Refrão:
O Star of wonder, star of night,
Star with royal beauty bright,
Westward leading, still proceeding,
Guide us to Thy perfect light.
2. Melchior.
Born a King on Bethlehem's plain,
Gold I bring, to crown Him again,
King for ever, ceasing never,
Over us all to reign.
3. Gaspar.
Frankincense to offer have I,
Incense owns a Deity nigh.
Prayer and praising, all men raising,
Worship Him, God most High.
4. Baltazar.
Myrrh is mine, its bitter perfume
Breathes a life of gathering gloom;
Sorrowing, sighing, bleeding, dying,
Sealed in the stone-cold tomb.
5.
Glorious now behold Him arise,
King and God and sacrifice,
Alleluia, Alleluia;
Earth to the heavens replies.
PS: A partitura pode ser obtida aqui.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Schubert - Winterreise (D. 911) - Gute Nacht
O "lied" Gute Nacht, primeiro de um ciclo de 24 "lieder" de Franz Schubert (1797-1828), intitulado Winterreise ("Viagem de Inverno"), musicado sobre a poesia homónima de Wilhelm Müller (1794-1827).
Na voz, o grande barítono Dietrich Fischer-Dieskau (1925-), acompanhado ao piano por Gerald Moore (1899-1987), numa gravação de 1955. Pode-se ler aqui o poema original em alemão, acompanhado da tradução para inglês.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Balada n.º 1 em Sol Menor, Op. 23, de Chopin
Uma gravação antiga do magnífico Vladimir Horowitz (1903-1989), a interpretar uma das mais incríves e difíceis peças do repertório para piano solo.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Ravel - Concerto para Piano e Orquestra em Sol Maior - Adagio Assai
A pianista francesa Hélène Grimaud (1969-), uma das mais talentosas do nosso tempo, toca o segundo andamento do Concerto para Piano e Orquestra em Sol Maior de Maurice Ravel (1875-1937).
É frustrante tentar escrever alguma coisa de profundo acerca deste profundo Concerto. Digamos que este Concerto tem, lá dentro, quase tudo o que a vida tem. No segundo andamento abre-se uma janela para o Céu. Hélène Grimaud é uma excelente escolha para se escutar uma boa interpretação deste Concerto, porque ela "vestiu" a peça e, enquanto a toca, está a vivê-la.
Uma coisa magnífica, este segundo andamento. Uma das coisas mais bonitas que temos a sorte de presenciar nesta vida.
Faz-nos pensar que Ravel está vivo. Não daquela forma que se costuma dizer: "músico tal está vivo através da sua música, que ainda hoje é tocada". Não. Ravel está vivo porque a sua alma vive. Porque só uma alma imortal, como é a alma do ser humano, é capaz de transcender todo o Cosmos desta forma. O Cosmos não é suficientemente grande para lá caberem dentro duas notas desta peça, quanto mais toda a música criada pela Humanidade.
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