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terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Papa e os ateístas

Mesmo comentadores ateus moderados e ponderados com o Ludwig caem, frequentemente, numa situação de falta de objectividade quando se trata de criticar a Igreja Católica.

Há um pressuposto, um "parti pris" anticatólico, que tolda a visão mesmo do ateu mais esclarecido e ponderado.

No seu blogue, o Ludwig criticou recentemente as palavras do Papa Bento XVI na sua visita ao Reino Unido. E é espantoso verificar como, num texto que o Ludwig intitulou de Treta da semana: papal disparatismo, o Ludwig se entala em várias tretas e disparates. Sem dúvida, todos não desejados. Não se trata de questionar a honestidade do Ludwig, mas sim a sua falta de objectividade quanto se trata de comentar este tipo de temas.

Vejamos disparate a disparate.
Ou se preferirmos, vejamos treta a treta...

1. Bento XVI teria classificado o nazismo de ateu

Este é, claramente, um problema de leitura. Ou se quisermos, de interpretação do texto lido. Diz o Ludwig:

«Criticando o que chama de “secularismo agressivo”, o Papa recordou aos britânicos a sua luta corajosa «contra uma tirania Nazi que queria erradicar Deus da sociedade»(3). Isto porque, de outra forma, os britânicos só se recordariam dos bombardeamentos e das invasões, esquecendo que o maior perigo da segunda grande guerra foi o ateísmo»

Ora isto é totalmente um tiro ao lado. Bento XVI, homem culto, não está a chamar Hitler de ateu nem está a classificar o Terceiro Reich de projecto ateísta. Eis as palavras do Papa, que raramente são lidas na fonte pelos seus críticos (Ludwig faz o típico: cita jornais):

«Também na nossa época podemos recordar como a Grã-Bretanha e os seus chefes se opuseram a uma tirania nazista que tinha no ânimo desenraizar Deus da sociedade e negava a muitos a nossa comum humanidade, sobretudo aos judeus, que eram considerados como não dignos de viver.»

O que quer o Papa dizer com o objectivo nazi de "desenraizar Deus da sociedade"? Estará o Papa a culpar o ateísmo pelos crimes nazis? Não se vê como... O Papa refere-se ao objectivo nazi de descristianizar a sociedade alemã, e por arrasto, a Europa. O plano nazi passava por remover a doutrina e a moral cristã da "weltanschauung" do comum dos mortais. E substituí-la pela cosmovisão nazi. Era ateia, essa cosmovisão? Não: era de tipo pagão, apesar de também ter o ateísmo como um dos seus ingredientes. Era uma mistura de mitos nórdico-germânicos com esoterismo "à la carte" (teosofista, neognóstico, neotemplário, ocultista, etc.) e com o ateísmo de Nietzsche. A doutrina nazi era uma mistura algo indigesta, mas seria pouco rigoroso classificá-la de ateísta.

Bento XVI está a afirmar algo que é bem sabido: Hitler queria desalojar Cristo, o Deus dos Cristãos, da cultura. Há aliás inúmeras citações de Hitler, de Himmler, ou de Goebbels a dizer precisamente isso. Basta aliás ler o "Mein Kampf" para se ver todo o programa de descristianização da sociedade.

Diz ainda o Ludwig sobre esta questão:

«Além das incorrecções históricas, a ligação entre o ateísmo e o nazismo é falaciosa. Mesmo que Hitler tivesse sido ateu, coisa que estava longe de ser, não se podia inferir daí que o problema do nazismo era o ateísmo.»

É caso para perguntar: e o Papa diz isso? Diz que Hitler era ateu, ou que o problema do nazismo era o ateísmo? É caso para recomendar ao Ludwig: "Lê o texto do Papa!". Não seria mais interessante criticar as palavras do Papa em vez de criticar a leitura que um jornalista da BBC fez sobre essas palavras?

Depois, segue-se a segunda argolada do Ludwig:

2. O nacional-socialismo teria uma base cristã

Diz o Ludwig: «Ratzinger esqueceu, no entanto, a base cristã do nacional socialismo.». Isto dá vontade de rir, mas o melhor era chorar.

O Ludwig não explica como é que o nazismo, essa ideologia do ariano nórdico montada sobre mitos e ideias de força, de supremacia do poder, se concilia com a doutrina cristã do pobre, manso e humilde Cristo. De tal forma o nazismo não pega com o cristianismo que Hitler se viu obrigado a inventar uma pseudo-igreja alemã intitulada "Deutsche Christen", sustentada numa patética deturpação do cristianismo, na qual Cristo seria ariano e não judeu.

Mas por detrás da confusão do Ludwig, há uma verdade. Hitler, realmente, capitalizou sobre os sentimentos antisemitas dos alemães e dos austríacos. Hitler, aliás, esteve mergulhado desde novo nesses sentimentos. E é sabido que esses sentimentos, alguns velhos de séculos, antes de serem racistas foram teológicos, inspirando-se naqueles que diziam que os Judeus eram os assassinos de Cristo. Só que uma coisa é má teologia, e outra coisa é a doutrina racista que se constrói em cima dessa má teologia, e sobretudo quando essa construção se faz noutro século e noutro contexto. O teólogo que, com fins de "propaganda fide", diz que o Judeu é pérfido porque não reconhece Cristo tem um problema teológico com o Judeu. Obviamente, essa não é a mesma pessoa que, séculos mais tarde, por causa da crise económica e da inveja, vai desenterrar velhos ódios antijudaicos para os transformar numa doutrina de ódio racial, suportada em ideias eugénicas e estruturada sobre a aplicação ilícita do darwinismo ao melhoramento da raça humana.

Agora a terceira treta...

3. A Igreja Católica apoiou Hitler

Enterra-se o Ludwig com esta frase: "E Ratzinger omitiu também o apoio da Igreja Católica a Hitler". A frase está sustentada na nota de rodapé número (5). Entusiasmado, salto para a nota, à procura de uma citação de um Harold Deutsch, de um Rhodes, de um Gilbert, ou mesmo de uma erudita adversária da Igreja como uma Susan Zuccotti. Teria sido muito simples ir buscar frases a mais historiadores críticos da atitude da Santa Sé durante a Guerra: haveria um Carlo Falconi ou um Saul Friedlander, ou ainda um Guenter Lewi para socorrerem à causa anticatólica. Mas em vez destes investigadores com obra feita, que encontro? Está isto na nota (5): "Por exemplo, o Ricado Alves...", e já nem é preciso ler mais... O Ludwig, na sua cabal acusação à Igreja Católica, a forte acusação de colaboração com os nazis, sustenta-se na propaganda anticatólica do Ricardo Alves, cujos pseudo-argumentos não têm o menor vislumbre de suporte documental, e que se apoiam, fragilmente e de forma auto-contraditória em vários locais, sobre uma leitura deturpada e multiplamente equivocada dos dados históricos.

Evito aprofundar mais uma óbvia treta, mas não queria deixar de a referir "en passant": a dos preservativos em África, pois sai do tema. O Ludwig preferiu misturar preservativos e SIDA ao nacional-socialismo. Entende-se, quando o objectivo é atirar lama à Igreja Católica. Aliás, faz parte da cartilha, e o Ludwig, com algum esforço e não pouco talento, seria capaz de lá meter o Galileu. E um Torquemada. Mas já debati a questão da SIDA com ele várias vezes, e infelizmente o diálogo não progride perante o preconceito.

Deixo apenas uma pergunta, perante a tese que pretende que a Igreja Católica é a responsável pela não eficácia do combate à SIDA. Um africano infiel à sua mulher usa, evidentemente, preservativo para evitar as consequências óbvias da sua infidelidade. Logo, o preservativo sustenta o seu comportamento infiel e é fundamental para um estilo de vida promíscuo e para o aumento de situações de risco de contágio. Isto é evidente, mas o Ludwig nega. Mas pergunto: faz sentido supor que o africano médio obedece à Igreja na questão do preservativo e desobedece na questão da fidelidade? Está para nascer o anticatólico que me explique esta contradição na simplista teoria que liga a Igreja à proliferação da SIDA.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pio XII - "Much-maligned pontiff"

Much-maligned pontiff, um artigo de Dimitri Cavalli, no Haaretz. Este artigo vem referido no boletim Zenit de 1 de Fevereiro de 2010.

Alguns excertos (o negrito é meu)...

(...)

On April 4, 1933, Eugenio Cardinal Pacelli, the Vatican secretary of state, instructed the papal nuncio in Germany to see what he could do to oppose the Nazis' anti-Semitic policies.

On behalf of Pope Pius XI, Cardinal Pacelli drafted an encyclical, entitled "Mit brennender Sorge" ("With Burning Anxiety"), that condemned Nazi doctrines and persecution of the Catholic Church. The encyclical was smuggled into Germany and read from Catholic pulpits on March 21, 1937.

Although many Vatican critics today dismiss the encyclical as a light slap on the wrist, the Germans saw it as a security threat. For example, on March 26, 1937, Hans Dieckhoff, an official in the German foreign ministry, wrote that the "encyclical contains attacks of the severest nature upon the German government, calls upon Catholic citizens to rebel against the authority of the state, and therefore signifies an attempt to endanger internal peace."

(...)

After the death of Pius XI, Cardinal Pacelli was elected pope, on March 2, 1939. The Nazis were displeased with the new pontiff, who took the name Pius XII. On March 4, Joseph Goebbels, the German propaganda minister, wrote in his diary: "Midday with the Fuehrer. He is considering whether we should abrogate the concordat with Rome in light of Pacelli's election as pope."

During the war, the pope was far from silent: In numerous speeches and encyclicals, he championed human rights for all people and called on the belligerent nations to respect the rights of all civilians and prisoners of war. Unlike many of the pope's latter-day detractors, the Nazis understood him very well. After studying Pius XII's 1942 Christmas message, the Reich Central Security Office concluded: "In a manner never known before the pope has repudiated the National Socialist New European Order ... Here he is virtually accusing the German people of injustice toward the Jews and makes himself the mouthpiece of the Jewish war criminals." (Pick up any book that criticizes Pius XII, and you won't find any mention of this important report.)

In early 1940, the pope acted as an intermediary between a group of German generals who wanted to overthrow Hitler and the British government. Although the conspiracy never went forward, Pius XII kept in close contact with the German resistance and heard about two other plots against Hitler.

(...)

Throughout the war, the pope's deputies frequently ordered the Vatican's diplomatic representatives in many Nazi-occupied and Axis countries to intervene on behalf of endangered Jews. Up until Pius XII's death in 1958, many Jewish organizations, newspapers and leaders lauded his efforts. To cite one of many examples, in his April 7, 1944, letter to the papal nuncio in Romania, Alexander Shafran, chief rabbi of Bucharest, wrote: "It is not easy for us to find the right words to express the warmth and consolation we experienced because of the concern of the supreme pontiff, who offered a large sum to relieve the sufferings of deported Jews ... The Jews of Romania will never forget these facts of historic importance."

The campaign against Pope Pius XII is doomed to failure because his detractors cannot sustain their main charges against him - that he was silent, pro-Nazi, and did little or nothing to help the Jews - with evidence. Perhaps only in a backward world such as ours would the one man who did more than any other wartime leader to help Jews and other Nazi victims, receive the greatest condemnation.

(...)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ordem de Pio XII para acolher hebreus nos mosteiros

Após e durante a ocupação nazi de Roma, ocorrida em Setembro de 1943, e com o início da deportação dos judeus romanos para os campos de concentração, foram dadas ordens por Pio XII para salvar o máximo possível de judeus, escondendo-os em propriedades eclesiásticas.

As testemunhas orais sempre abundaram, mas os críticos de Pio XII sempre duvidaram. É a força do preconceito. Evidentemente, a raridade documental tem uma explicação: qualquer prova escrita relativa ao abrigo clandestino de hebreus constituía um documento muito perigoso para quem o detinha. As ordens eram orais, e raramente eram passadas a escrito.

No ano passado, o Padre Peter Gumpel trouxe à luz do dia um desses raros documentos escritos: o diário do ano 1943 das freiras agostinianas de clausura, do mosteiro dos Quatro Santos Coroados, em Roma:

«Chegadas a este mês de Novembro, devemos estar prontas a render serviços de caridade de uma forma totalmente inesperada.

O Santo Padre Pio XII, de coração paterno, sente todo o sofrimento do momento.

Com a entrada dos alemães em Roma, ocorrida no mês de Setembro, inicia-se uma guerra cruel contra os hebreus que se querem exterminar mediante atrocidades sugeridas na mais negra barbárie. Juntam-se os jovens italianos, os homens da política, para os torturarem e fazê-los morrer entre tremendos suplícios.

Nesta dolorosa situação, o Santo Padre quer salvar os seus filhos, mesmo os hebreus, e ordena que nos mosteiros se dê hospitalidade a estes perseguidos, e mesmo as clausuras devem aderir ao desejo do Sumo Pontífice, e ao dia 4 de Novembro, nós hospedamos até ao 6 de Junho próximo as pessoas a seguir elencadas:

(24 nomes)»
- ver texto completo.

Note-se a referência aos plurais "nos mosteiros" e "as clausuras", ou seja, para além de se depreender que a ordem fora dada a vários mosteiros de Roma (bem como aos seminários, mas isso não se depreende deste diário), também os mosteiros de clausura devem aderir ao pedido do Papa.

Para saber mais: O Santo Padre ordena...

. Antonio Gaspari, Nascosti in convento, Milão, Ancora, 1999
. Enzo Forcella, La resistenza in convento, Einaudi, 1999
. Alessia Falifigli, Salvàti dai conventi. L’aiuto della Chiesa agli ebrei di Roma durante l’occupazione nazista, Cinisello Balsamo, San Paolo, 2005
. Renzo de Felice, Storia degli ebrei italiani sotto il fascismo, Einaudi, 2005

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Pio XII e a conspiração para depor Hitler

Do historiador alemão Michael Hesemann, num seu artigo recente:

High Treason - Pius XII, Stauffenberg and the Conspiracy against Hitler

Although the plot of the German resistance failed, the bravery of the Pope, according to the eminent historian Harold Deutsch “one of the most stunning events in the modern history of the papacy”, reveals a lot about his character. He was anything but the coward, Rolf Hochhuth made of him in his controversial play “The Deputy”, and even less John Cornwell’s “Hitler’s Pope”. Instead, the German historian Erich Kosthorst is right with his comment:

“When the Pope ignored all justified concerns and lent through his authority the best possible credence to the German Military Opposition, than this is a statesmanlike act of the highest rank. It does not loses its importance just because it did not create the peace it was supposed to serve.”

Also the men of the plot of July 20, 1944 did not lack of heroism just because their attempt failed so tragically.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Coincidência?

Eu tenho sempre a mania (involuntária) de entrar numa discussão quando ela já arrefeceu... O que é uma chatice, porque quando tenho coisas para dizer, a sala fica vazia! Mas, simplesmente, não tenho tempo para estar atento a toda a blogosfera, e é só muito de vez em quando que tropeço em coisas que chamam a minha atenção.

Ontem, deparei-me com isto, do Nuno Ramos de Almeida (do 5 dias):

Coincidências

É claro que não podia ficar calado quando se distorce, voluntaria ou involuntariamente, a verdade histórica. Mas até agora, nada! Como os comentários já estavam adormecidos, a razão do silêncio de Nuno Ramos de Almeida deverá ser a simples: ainda não leu os meus comentários. Por isso, para já, o silêncio deverá ser coincidência com o facto de que comentei já tarde. Vamos ver... O tempo dirá!

Não posso deixar de agradecer ao André, pela simpatia em me ter referido num seu comentário. Foi graças a esse comentário que descobri o texto em questão.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Bibliografia sobre Pio XII e a Segunda Guerra Mundial

Eis a lista de algumas boas obras que não surgem nos sites anti-católicos e de difamação anti-Pio XII. Alguns destes livros, já os tenho, outros ainda não. Agradeço a quem me estiver a ler que me comunique se por acaso tiver alguns dos títulos marcados com um "*".
Estas obras são boa ajuda para aqueles que querem mergulhar às profundezas da questão, e escapar ao marasmo da ignorância preconceituosa que abunda na opinião pública.

* «A Santa Sé e a questão judaica (1933-1945)», da editora italiana Studium, escrito pelo professor Alessandro Duce, professor extraordinário de História das Relações Internacionais nas Faculdades de Ciências Políticas e de Jurisprudência da Universidade de Parma.

«The Pius War: Responses to the Critics of Pius XII», William Doino, 2004, Lexington Books. Doino é colaborador da revista americana «Inside the Vatican».

«Pie XII et la Seconde Guerre mondiale d'après les archives du Vatican», Pierre Blet, Perrin, 1997.

«The Conspiracy Against Hitler in the Twilight War», Harold C. Deutsch, University of Minnesota Press, 1968. Essencial para compreender o papel de Pio XII na conspiração da oposição alemã para depor Hitler.

«The Vatican in the Age of the Dictators (1922-1945)», Anthony Rhodes, Holt, Rinehart and Winston, 1973. Síntese da atitude diplomática da Santa Sé durante o período "quente" das ditaduras europeias.

* «Actes et documents du Saint Siège relatifs à la Seconde Guerre Mondiale», resenha documental, vários autores, 11 volumes, 1965-1981. Que eu saiba, não disponível para compra. A Biblioteca João Paulo II, na Universidade Católica, em Lisboa, tem uma cópia listada no seu arquivo.

«A Special Mission: Hitler's Secret Plot to Seize the Vatican and Kidnap Pope Pius the XII», Dan Kurzman, Perseus Books Group, 2007.

«The Myth of Hitler's Pope: Pope Pius XII and His Secret War Against Nazi Germany», Rabbi David Dalin, Regnery Publishing, 2005.

"Three Popes and the Jews", Pinchas Lapide, Hawthorn Books, 1967.

* «Vatican Diplomacy. A Study of Church and State on the International Plane», Robert A. Graham, Princeton University Press, 1959.

«Nothing Sacred: Nazi Espionage Against the Vatican, 1939-1945», David Alvarez, Robert A. Graham, Irish Academic Press, 1997.

A lista poderia continuar indefinidamente. Tentarei actualizá-la de tempos a tempos.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Raptar o "papa de Hitler"?



O jornalista Dan Kurzman, correspondente do The Washington Post, foi, em 1970, o primeiro a entrevistar o SS Karl Wolff (1900-1984), que naquele ano tinha sido libertado da sua pena de prisão, tendo regressado à sua casa em Darmstadt.

Kurzman acaba de ver publicada (em Maio último) a sua mais recente obra A Special Mission: Hitler's Secret Plot to Seize the Vatican and Kidnap Pope Pius the XII, um refrescante livro que conta com bastantes detalhes o plano delineado por Hitler em Setembro de 1943 para raptar o Papa Pio XII, assassinando no processo toda a Curia romana.

O General Karl Wolff, ajudante de Heinrich Himmler, uma das figuras de proa das SS, recebeu de Hitler a incumbência de executar esta terrível missão. Wolff, de forma oportunista, procurou protelar durante vários meses estas ordens de Hitler, acabando por contar mais tarde todo o plano ao Papa Pio XII, de forma a aparecer aos olhos do Papa, e consequentemente dos vencedores Aliados, como amigo da Santa Sé.

Wolff, suspeitando que a Alemanha iria perder a guerra, jogou a carta certa num jogo arriscado: pelo seu papel pacífico relativamente à Santa Sé, e sobretudo pelo facto de ter entregue as forças armadas sem protesto aos Aliados na Primavera de 1945, escapou ao cadafalso, tendo recebido uma curta pena de prisão em Nuremberga.

Desobedecendo a Hitler, numa série de actos que se qualificariam de alta traição ao Terceiro Reich, Karl Wolff evitou o que seria a repetição histórica de mais um atentado contra a integridade física de um pontífice, algo que já tinha sucedido no passado, bastando recordar os actos de líderes como Napoleão e Filipe IV de França.

O mais curioso neste recente livro de Kurzman, que se lê como um policial de espionagem (contudo, bem documentado e referenciado), é a forma como esta documentação trazida à luz do dia ridiculariza de forma trágica a tese de um John Cornwell, de que Pio XII seria "o Papa de Hitler".

Há dois momentos históricos, infelizmente pouco conhecidos, que resumem o absurdo da tese do "papa de Hitler":

a) o plano de Hitler para assassinar toda a Curia e raptar (ou matar) Pio XII, revelado magistralmente nesta obra de Kurzman; porquê todo este ódio de Hitler por aquele que, segundo Cornwell, seria "o seu Papa"? Responder a esta questão implica mergulhar na verdade histórica, o que nem sempre é fácil nem desejável para certos fazedores de opinião;

b) a conspiração de altas figuras da Oposição alemã a Hitler para depor ou assassinar o ditador, que terminou em fatídico falhanço no Outono de 1939, conspiração na qual o Papa Pio XII, jogando um jogo tremendamente arriscado, fez não só de patrocinador mas também de "pombo-correio", numa cadeia de comunicação complexa, que percorria linearmente todas estas figuras:
- os líderes da Oposição alemã a Hitler (Beck, Canaris, Halder, etc.)
- o "emissário" da Oposição no Vaticano, o Dr. Joseph Muller
- o padre jesuíta Robert Leiber (homem da confiança pessoal de Pio XII)
- o Papa Pio XII
- o embaixador do Reino Unido na Santa Sé, D'Arcy Osborne
- o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Lord Halifax

A cadeia de comunicação seguia, depois, o caminho inverso, de regresso à Oposição na Alemanha. Note-se que nenhuma peça de informação acerca desta conspiração atravessava a cadeia de comunicação da Oposição em direcção ao Foreign Office, ou na direcção inversa, sem passar pelas próprias mãos de Pio XII!

Mais detalhes sobre este segundo ponto surgem explanados na obra densa e académica de Harold C. Deutsch, The Conspiracy Against Hitler in the Twilight War (1968, University of Minnesota Press). Deutsch explica bem como o Santo Padre, temendo os enormes riscos de tal operação, quis reservar estas tarefas secretas para si mesmo e para menos de meia dúzia de confidentes. Anos mais tarde, após a Guerra, o padre Leiber viria a dizer que o Papa Pio XII "fora longe demais"!

Encontrar o pontífice Pio XII na cadeia de uma conspiração para depor o ditador Hitler é algo de tão exótico e surpreendente que nos faz ver com outros olhos as teses propagandísticas daqueles autores recentes que querem convencer o mundo de que Pio XII, o maior inimigo de Hitler, era, de facto, uma espécie de "Papa de Hitler"...

As conclusões finais acerca de toda esta polémica só serão sanadas (aos olhos dos especialistas, visto que na opinião pública, o mal já está feito e é quase irremediável) quando finalmente toda a documentação da Santa Sé relativa a este período estiver catalogada e acessível aos investigadores, algo que ainda poderá demorar mais alguns anos.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Peter Gumpel comenta revelações de Ion Pacepa

O padre Peter Gumpel, relator da causa de beatificação de Pio XII, comentou recentemente, em entrevista à agência noticiosa Zenit, o artigo-revelação do ex-espião soviético Ion Mihai Pacepa. Vale a pena ler o que Peter Gumpel tem para dizer, ele que é um dos especialistas neste período histórico e na carreira papal de Pio XII:

Houve um complô da KGB contra Pio XII?

Apesar do peso e da importância das históricas revelações de Ion Pacepa, a verdade é que se trata de um ex-espião, e não faria sentido levar à letra tudo o que ele afirma sem fazer um confronto com a verdade histórica e com os documentos. Peter Gumpel lança luz sobre algumas partes mais obscuras do artigo de Pacepa, nomeadamente sobre o presumido papel do diplomata da Santa Sé, monsenhor Agostino Casaroli, numa também presumida manobra de ospolitik relativa a um presumido empréstimo a ser prestado pela Santa Sé, sem juros, e durante 25 anos, de mil milhões de dólares à Roménia.

Na segunda parte de suas revelações o general Pacepa sustenta que se encontrou em Genebra com o então monsenhor Agostino Casaroli, futuro secretário de Estado, para facilitar um «modus vivendi» entre a Santa Sé e a União Soviética, e haveria tido inclusive uma oferta de dinheiro.

Para Gumpel, «toda esta parte é muito difícil de crer. Ainda que devo admitir que pessoalmente fui muito cético sobre a ‘Ospolitik’ e não somente pelo que sabia do mundo comunista, mas também pelo que diversos cardeais, que viviam na parte ocupada pelos russos, me haviam dito».

«Graças aos contatos diretos que tinha com os cardeais Alfred Bengsch de Berlim, László Lékai e József Mindszenty da Hungria --sublinha--, posso dizer que os três eram muito contrários à ‘Ospolitik’. Não queriam ouvir falar dela».

O padre Gumpel explica que «há que ser extremamente prudentes e tentar verificar os fatos. Há perguntas sobre as que não temos resposta. Por exemplo, quando se encontrou com Casaroli? Em que hotel? Por exemplo, ele diz que há documentos no Arquivo Secreto Vaticano, documentos escritos por quem? Dirigidos a quem? Datados quando? Que tipo de documentos?, etc.».

«Definitivamente --conclui--, há que levar em conta que os espiões devem justificar sua existência e devem dar valor também a coisas de escassa ou nenhuma importância. Muitas vezes não são sérios e em alguns casos inventam coisas...».

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

O KGB e o "Papa de Hitler"

The KGB Campaign Against Pius XII

Vale a pena ler este artigo de George Weigel, que não há muito tempo esteve em Portugal, tendo proferido uma série de interessantes palestras. Weigel, como muitos, manifesta-se desanimado perante a indiferença da opinião pública face às recentes evoluções no "caso Pio XII".

A 25 de Janeiro de 2007, surgiu um artigo no National Review Online, da autoria do ex-agente secreto comunista romeno, o General Ion Mihai Pacepa, que dava conta de uma série de informação nova (mas já suspeitada há muito pela maioria dos eruditos que estudam este tema) acerca da responsabilidade do KGB na criação da "lenda negra" acerca do Papa Pio XII, caluniado como sendo o "Papa de Hitler".

O artigo do General Ion Mihai Pacepa é fundamental, é histórico e deveria ter levantado, no mínimo, a mesma polémica que as falsas e caluniosas polémicas contra Pio XII.
É claro que isso nunca vai suceder. A mentira, aos olhos da ignorante opinião pública, é quase impossível de apagar. Mentir e caluniar é fácil e tem efeitos perpétuos e duradouros na imagem pública das suas vítimas. Apesar de a verdade vir sempre ao de cima, há muitos que estão interessados em que essa verdade agora revelada de forma mais nítida e clara seja rapidamente varrida para debaixo do tapete.

O mito do "Papa de Hitler" tem que continuar vivo. Há muitos académicos ideologicamente comprometidos que investiram as suas carreiras nesta "lenda negra" e prostituiram a ciência histórica ao serviço de uma guerra cultural anti-católica.

sábado, 23 de setembro de 2006

Pio XII e o Nazismo - Parte II

Porque nasceu o mito do "Papa de Hitler"

«By the middle of 1997, I was in a state of moral shock. The material I had gathered amounted not to an exoneration but to an indictment more scandalous than Hochhuth's. The evidence was explosive. It showed for the first time that Pacelli was patently, and by the proof of his own words, anti-Jewish. It revealed that he had helped Hitler to power and at the same time undermined potential Catholic resistance in Germany. It showed that he had implicitly denied and trivialized the Holocaust, despite having reliable knowledge of its true extent. And, worse, that he was a hypocrite, for after the war he had retrospectively taken undue credit for speaking out boldly against the Nazi persecution of the Jews.» - John Cornwell

Por detrás da obra Hitler's Pope, de John Cornwell (1999) esconde-se um fenómeno cultural de grandes proporções e que se manifesta nesta e noutras muitas formas. Uma crise no seio do catolicismo, crise essa que divide uma corrente crescente e revolucionária, chamada frequentemente de "corrente liberal", de uma corrente conservadora e tradicionalista.
John Cornwell, ex-seminarista, abandonou uma possível carreira no sacerdócio em 1965 (1), tendo-se debatido deste então com a situação da Igreja Católica na modernidade, e com o rumo que ela deveria, segundo ele, tomar. Muitas das atitudes de Cornwell demonstram uma opção decidida pelas ideias ditas "liberais".
Tentemos mergulhar um pouco nestes termos polarizados: "liberal" e "conservador". São termos que provêm do mundo da política, e que, na minha opinião, são usados abusivamente quando surgem fora do seu domínio original. No presente caso, são usados no domínio da religião, um domínio no qual não deveriam ser usados. E explico porquê...
A Política regula a organização e a gestão das sociedades. Neste sentido, apesar de existir objectividade em princípios políticos quase universalmente aceites hoje em dia (como por exemplo, partindo da "Declaração Universal dos Direitos do Homem"), a aplicação destes princípios, a forma pela qual eles são instituídos, sempre foi fortemente condicionada pelo local e pelo tempo.
Cada sociedade, cada civilização, procura construir a sua forma de fazer política. E em política, faz sentido o uso de termos como "conservador" para representar aqueles que, tendencialmente, dão prioridade ao carácter perene das ideias em política, e "liberal" para representar aqueles que, tendencialmente, dão prioridade ao carácter transitório das ideias em política.
Muitos liberais poderiam contestar as minhas palavras, sobretudo aqueles que são adeptos da teoria do Progresso, segundo a qual a Humanidade tem progredido ao longo dos últimos séculos, e está neste momento a progredir, sendo que a espera um futuro que só poderá ser risonho, desde que continuem a ter espaço na sociedade as políticas liberais.
Os políticos liberais consideram que o liberalismo "liberta" progressivamente a Humanidade. Ou seja, desde que se seja "liberal", desde que se contestem ideias excessivamente perenes, a Humanidade seguirá o seu caminho de Progresso. Segundo os políticos liberais, as ideias demasiado rígidas e fixas limitam o Progresso.
É evidente que é natural e que há espaço, em Política, para a polarização nestas duas formas de pensar a organização das sociedades: uns dando primazia à manutenção de um cerne de ideias perenes e outros dando primazia à constante mudança com vista a um aperfeiçoamento que consideram inevitável e que não deve ser travado.

Contudo, em religião, estes conceitos polarizantes, quando aplicados, dão sempre resultados insatisfatórios. Ultrapassando a esfera do Ocidente e do Médio Oriente, espaço geográfico das religiões abraâmicas, e usando uma expressão mais geral como a de "doutrinas tradicionais", as sociedades nas quais a espiritualidade se revestiu da forma de uma doutrina organizada institucionalmente sempre valorizaram o carácter perene dessa doutrina. Por natureza, as grandes tradições espirituais da Humanidade são perenialistas. Sucede isto fora do espaço religioso abraâmico com o Hinduísmo, com o Taoísmo, com o Budismo, entre outras tradições. Uma ideia antiga como o Mundo é a de que uma doutrina espiritual, para ser verdadeira porque divinamente inspirada, deve ser perene. E isto porque deve vigorar sempre, independentemente do tempo e do espaço. Porque uma doutrina espiritual, sendo de origem transcendente, não deve vogar ao sabor das volições humanas. Assim, torna-se evidente que o pensamento tradicional em religião é algo de perfeitamente natural e está intimamente associado a esta ideia de "perene" de qualquer mensagem que se venera como sendo divinamente inspirada.
Por estas razões, deveria ser entendido de uma vez por todas que qualquer doutrina espiritual digna desse nome é tradicional, ou seja, apoia-se na transmissão ("traditio") idealmente inalterada de doutrinas perenes.
Contudo, e a partir dos finais do século XVIII, começou a crescer na Europa uma corrente intelectual que advogava para a Religião uma fórmula semelhante à do liberalismo político: a Religião, para progredir, ou seja, para acompanhar um Progresso que se crê imparável, deveria estar preparada para rever as suas doutrinas, para adaptá-las ao tempo e ao espaço.
É, então, a partir do desprezo da essência tradicional de qualquer religião, e do Cristianismo em particular, que nasce no Ocidente a ideia de uma "liberalização" da Religião. Esta ideia, a par com uma crescente contestação à centralização representada na figura do Papa, contestação essa que principiou com a Reforma protestante, daria lugar, no século XIX, à ideia de um "retorno às origens", a um cristianismo que fosse mais próximo do que se julgava serem os ensinamentos de Cristo, de um cristianismo que fosse despojado do peso da autoridade papal e que "aligeirasse" a doutrina do seu carácter impositivo e dogmático.
Simultaneamente, o significado atribuído pela opinião pública ao termo "dogma" também sofreu uma radical transformação, passando a ser visto como um termo pejorativo.
Na sua acepção grega original, a palavra "dogma" era usada em dois contextos diferentes: significava ora um decreto ora uma opinião. Mais tarde, já num contexto cristão, a palavra foi usada pela primeira vez para designar os decretos resultantes do Primeiro Concílio de Jerusalém (2). Para os cristãos, a palavra "dogma" tinha agora o significado de doutrina, de postulado ou axioma religioso, e era usada para fixar em conceitos sintéticos a tradição oral apostólica. Mas a bem sucedida campanha de diabolização da palavra "dogma" trá-la, em pleno século XX, para junto da opinião pública já numa forma distorcida. O "dogma" seria então o instrumento privilegiado do poder da Igreja Católica, uma organização vista como déspota, que prezaria o crente obediente e que não questiona, e que silenciaria com tirânicos "dogmas" o crente desafiador e interrogativo.
Como se vê, a intrusão desadequada do termo "liberalismo" no seio da intelectualidade católica moderna, a par com a perda do significado primevo do conceito de "dogma", tão valorizado pela patrística muito antes ainda de a Igreja de Roma se revestir do poder e autoridade de que mais tarde veio a usufruir, provocou a actual situação de evidente fractura.
Tal qual como num qualquer Parlamento, os católicos vão-se dividindo hoje em dia entre os chamados "católicos liberais", também vistos convenientemente por uma certa opinião anti-clerical como "modernos" ou "moderados", um grupo cada vez mais crescente e dominante mesmo nalgumas camadas da hierarquia da Igreja, e os chamados "católicos conservadores", que nalguns sectores violentamente anti-clericais são mesmo chamados de católicos "fundamentalistas", ou "fanáticos".
Assim, nos dias de hoje, a adesão de um católico à Tradição perene da Igreja, conforme chegou aos nossos dias através das vidas e obras de de homens e mulheres durante dois mil anos, é sinal de falta de espírito crítico, de obediência cega às hierarquias, de um receio de modernidade que só pode ser fruto da ignorância e da falta de espírito científico.
Por outro lado, aquele católico que contesta todas as principais facetas da doutrina católica é visto como alguém com maturidade intelectual, como alguém que tenta trazer a Igreja para os dias de hoje, para a modernidade.
É neste contexto que tantos católicos se sentem divididos. John Cornwell é apenas mais um desses católicos indecisos entre a atracção pela revolução doutrinal e pela contestação à hierarquia e o receio perante um evidente apodrecimento da essência do ser católico, o chamado "sensus catholicus". Na sua entrevista à Crisis Magazine, Cornwell dá já sinais claros dessa sua permanente dúvida interior, dando as suas palavras um exemplo disso mesmo quando ele fala acerca do empobrecimento crescente da liturgia nos tempos modernos:

«... é que o Missal Romano foi menosprezado de uma forma que contribui para este processo geral de Pelagianismo na Igreja, roubando-nos do nosso sentido de imerecimento e também roubando-nos, no próprio coração da Missa, do sentido da Trindade.»

Na presente situação, é normal que muitos católicos se sintam confusos como Cornwell, contudo é de censurar a atitude precipitada (presumo alguma boa fé nas suas intenções, não arriscando a tese de premeditação) do autor em escrever o grave erro histórico que é o seu livro Hitler's Pope.
Ao constatarmos que, de entre os vários nomes dos actuais críticos e detractores de Pio XII, encontramos católicos da chamada corrente "liberal", ficamos com a nítida impressão de que por detrás de uma aparente crítica académica à actuação deste Papa, está toda uma crítica macroscópica à Igreja e à forma como esta lida com a modernidade. Ao criticar o estatismo e a autoridade de Pio XII, Cornwell não está a procurar esclarecer, de modo académico, um episódio da recente história europeia mas sim a provocar um acentuar da contestação à Igreja Católica. Cornwell conseguiu com a sua obra, conscientemente ou não, motivar um grande número de católicos para a "revolução liberal". Pasmo-me ao vê-lo em 2004, apenas quatro anos volvidos da publicação da sua polémica obra, tão preocupado com questões de preservação litúrgica quando ele é o principal responsável pelo relançamento, na viragem do século XX para o século XXI, do mito do "papa de Hitler" na opinião pública.
Nas fileiras católicas "liberais" encontramos muitos dos detractores de Pio XII, e citando apenas alguns nomes referidos por David Dalin na sua recente obra The Myth of Hitler's Pope, temos: os ex-seminaristas Garry Wills (autor de Papal Sin) e John Cornwell, juntamente com o ex-sacerdote James Carroll, autor de Constantine's Sword - The Church and the Jews - a History. Une-os a vontade de promover uma agenda liberal: juntamente com a contestação à hierarquia surgem outras contestações, nomeadamente à moral sexual da Igreja e aos métodos contraceptivos, à questão da licitude do aborto, à questão da homossexualidade, da ordenação sacerdotal de mulheres, do divórcio católico, entre tantas outras questões "fracturantes".

Apesar de John Cornwell ter, em grande parte, acatado as contestações às suas premissas historicamente infundadas (3), a verdade é que toda esta campanha de "liberalismo" católico foi aproveitada, como não podia deixar de ser, pelos radicalizados sectores anti-clericais, que não perderam a oportunidade para louvar o "academicismo" do trabalho de Cornwell e a utilidade e validade do seu trabalho. Evidentemente, aos sectores anti-clericais interessará tudo o que possa dividir o universo católico. A afinidade verificada por muitos dos anti-clericais com os católicos ditos "liberais" é apenas aparente: os primeiros vêem os últimos como úteis e necessários para fazer soçobrar o que resta do edifício católico.

Como católico que seria rapidamente classificado como "fanático" por certos radicais ateus ou mesmo por católicos, escrevo estes textos como exortação aos católicos do nosso tempo, para que façam duas coisas antes de tomar uma posição considerada "liberal" ou "conservadora":

1. Em relação a cada questão fracturante, tentar estudar a fundo a questão, obter os documentos essenciais, procurar as fontes, tentar compreender ambos os lados da questão, tanto os defensores como os detractores

2. Regressar a um estudo sério do catolicismo; o "sensus catholicus" pode e deve ser nutrido com a leitura, com o aprofundamento da cultura cristã pessoal de cada católico.

Um católico consciente, nos dias de hoje, não pode tomar uma decisão pessoal contra o Papa ou contra a Igreja Católica apenas baseando-se nos "media", veículo comunicativo saturado de ruído em relação a estes temas, sem sequer dar a si mesmo a possibilidade de saber o que diz a Igreja sobre cada assunto.

O mito do "Papa de Hitler" nasceu pouco depois da morte de Pio XII. E é, embora sendo central, apenas mais uma das muitas peças de intenção anti-católica que, infelizmente, é também promovida por católicos e não só pelos anti-clericais.
É todo o viver tradicional religioso que está ameaçado pela actual "kulturkampf" anti-católica. É uma guerra silenciosa, ignorada pelos "media", considerada inexistente e exagerada pelos inimigos da Igreja. Mas é uma guerra evidente para todos aqueles que já se deram conta das ameaças de uma secularização excessivamente anti-clerical com ambições totalitárias e que visa a erradicação do viver religioso das sociedades modernas.
É por isso mesmo que o Rabi David Dalin, autor da obra The Myth of Hitler's Pope, consciente da sua responsabilidade na preservação do legado espiritual judaico, se sentiu obrigado a repor a verdade acerca do justo Eugenio Pacelli, Papa Pio XII. Também Dalin sente os efeitos desta secularização radical no seio do próprio judaísmo. Todo e qualquer homem ou mulher que sinta a profundeza espiritual da sua tradição, seja ela cristã, muçulmana, judaica, ou outra qualquer, sentir-se-á necessariamente solidário com esta urgência: deter ou tentar travar esta guerra cultural anti-católica.
Antes de a tentarmos travar, em primeiro lugar, temos que nos dar conta de que ela existe.
No decurso do estudo da História, ao procurarmos encontrar a verdade acerca de cada assunto, não devemos temer o que vamos encontrar: apenas a Verdade liberta. Para mim, esta é uma das mais importantes lições de qualquer fé: a Verdade liberta.

(1) Crisis Magazine, Interview with John Cornwell
(2) Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, p. 108.
(3) "(...) I did not object to those who criticized the arguments and disputed the historical evidence. But I was dismayed by those who used ad hominem arguments, claiming that I was not a Catholic and disputing that I had started out intending to defend Pius XII.", na entrevista à Crisis Magazine atrás citada.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Pio XII e o Nazismo - Parte I

Pio XII (Eugenio Pacelli)
Fonte: Wikipedia

As opiniões anti-clericais relativamente ao tema das relações entre a Santa Sé e o regime de Hitler têm andado agitadas nos últimos tempos. A eterna questão, que vigora desde os anos sessenta, voltou à ordem do dia. É a título puramente pessoal que escreverei o que vou escrever, enquanto indivíduo apaixonado pela História e católico apaixonado pelo Catolicismo. As minhas palavras não pertendem representar nenhuma posição oficial da Igreja Católica uma vez que eu não tenho qualquer legitimidade para tal.

Em tempos, mesmo tendo sido sempre católico, tive uma opinião muito negativa acerca deste Papa, motivada principalmente pelos "media" e pela leitura de um livro pouco sério, Hitler's Pope, de John Cornwell. Nesta obra, o “católico” Cornwell revela ao leitor que, tendo começado a investigar com o objectivo de limpar a memória de Pio XII, teria entrado num estado de “choque moral” (“moral shock”) com o que tinha descoberto durante a investigação. As conclusões de Cornwell eram afinal as de que Pio XII tinha uma boa parte da culpa pelo sucedido durante a Shoa, e que os seus gestos ou a falta deles deveriam ser interpretados como tendo origem no seu espírito anti-semita e na sua preferência pelo nazismo como força de combate ao comunismo.
Esta leitura de Cornwell é totalmente incompatível com a documentação histórica.

De certo modo, tento sempre considerar como uma possibilidade real a mudança radical da minha opinião acerca da figura de Pio XII e do seu papel durante a Segunda Guerra Mundial. Deveria também ficar claro que, conceptualmente, não tenho quaisquer dificuldades com a possibilidade de um Papa cometer crimes, não só morais mas também materiais. A opinião pública confunde muitas vezes o dogma da Infalibilidade Papal (que apenas está definido num contexto "ex cathedra", quando o Sumo Pontífice se pronuncia sobre questões de doutrina no seu papel de "alter Petrus") com a ideia de que os Papas seriam infalíveis enquanto pessoas, o que deveria ser visto como uma ideia absurda por todos. Usando um exemplo exagerado, um Papa poderia cometer homicídio (o que seria claramente um pecado pessoal de grande gravidade), que isso não beliscaria a validade do seu Papado enquanto protector do "Depósito de Pedro", ou seja, desde que esse Papa, com os seus actos, não destruísse nem adulterasse a doutrina, o seu cargo enquanto Papa manter-se-ia válido. Uma coisa é a imagem de bom ou mau cristão que um Papa transmite com a sua vida e obra (e aqui, existiram certamente melhores e piores Papas), outra coisa totalmente diferente é o correcto desempenhar de uma missão de protecção de uma doutrina com dois mil anos de antiguidade. Como se vê, é possível que um Papa desempenhe bem esta última missão (basta não alterar a doutrina!), mesmo tendo uma vida corrupta ou dissoluta. O que sucedeu no passado algumas vezes: basta citar o exemplo do bórgia Rodrigo, que ascendeu ao papado com o nome de Alexandre VI, sendo certo que existiram mais casos semelhantes. Mas não queria perder a oportunidade, ao falar de Alexandre VI, para apresentar como curiosidade o facto de este Papa, cuja carreira será censurável em tantos aspectos, ter sido um grande protector dos Judeus! Alexandre VI instituiu a cátedra de Hebraico na Universidade de Roma. Durante o seu papado, o número de judeus acolhidos em Roma practicamente passou para o dobro porque Alexandre VI acolhia os judeus que haviam sido expulsos de Espanha e de Portugal. Na continuidade de uma tradição pontifícia secular, o médico pessoal de Alexandre VI era um judeu de seu nome Bonet de Lattes (natural da Provença). Este criou um artefacto astronómico e escreveu uma obra sobre a sua invenção, que dedicou «ao seu amigo e patrono Papa Alexandre VI» (1). A História mostra, como ficará evidente nos artigos seguintes que tenciono escrever, que a tendência pró-semita dos pontífices romanos, desde os últimos séculos tem-se mantido constante e firme.

Mas regressemos a Pio XII...
Pela força dos factos de que comecei a ter conhecimento, mudei totalmente a minha ideia acerca deste Papa, assim que me dei conta de que o material que tinha lido sobre ele estava totalmente viciado, e mais do que tudo, esse material tinha sido preparado minuciosamente para causar um forte efeito de repulsa por Pio XII.

Mas tenho a perfeita noção de que, sem o meu condicionalismo católico, se calhar eu não teria tido a vontade de pesquisar, e talvez não tivesse consequentemente mudado de opinião. Não nego que, sendo eu católico, exista em mim um desejo profundo e emocional de que Pio XII tenha sido uma boa pessoa. Do mesmo modo que, sendo os meus adversários ideológicos ateus e anti-clericais por convicção, exista neles um desejo profundo e emocional de que Pio XII tenha colaborado com o Nazismo. Somos falíveis, porque humanos. E separar a emoção da razão é tarefa desejável, mas quase impossível. De parte a parte. O que interessa, sendo-se crente ou ateu, é saber avaliar da forma mais neutra possível o que de facto se passou com base em documentação histórica que ninguém conteste.

Todos nós estamos, de certo modo, condicionados pelas nossas idiossincrasias. Mas, tendo isto bem presente, e se formos honestos, também sabemos encontrar formas de não estarmos tão presos a estas condicionantes, sem no entanto nunca nos libertarmos totalmente delas, porque fazem parte do nosso ser. É assim que tentam trabalhar os historiadores sérios, sejam eles ateus ou crentes. Como recorda Bruno Cardoso Reis, citando o exemplo da colectânea preparada por historiadores crentes e ateus coordenada por Jean Delumeau, L'Historien et la foi, o essencial relativamente à qualidade do trabalho historiográfico está no modo de trabalhar as fontes históricas e não nas convicções pessoais do historiador. Ao invés do que sugeria a editora do Hitler's Pope de John Cornwell, e do que disseram elogiosamente certos comentadores estrangeiros e portugueses, e que tentaram promover a isenção e a validade desta obra pelo facto de esta ter sido escrita por um católico, não interessa nada para a validade científica da sua obra que Cornwell seja católico! A fé pessoal, ou a ausência dela, de qualquer investigador ou historiador nada diz sobre a validade ou invalidade do seu trabalho, sobre a forma como esse trabalho foi conduzido.

Assim, supondo eu que a maioria dos ateus anti-clericais, com grande probabilidade, nunca irá defender a vida e a obra do Papa Pio XII, eu já ficaria satisfeito, e muito, se tivesse conseguido fazê-los ver que certas ideias concretas que possuem acerca deste papado estão condicionadas erroneamente por uma campanha difamatória que nasce na Alemanha com o surgimento da peça teatral de Rolf Hochhuth, O Vigário (1963). Desde então, uma bem montada campanha de difamação tem vindo a crescer, envolvendo os media em largo espectro, mas atingindo também, infelizmente, figuras do meio universitário que colocam objectivos ideológicos à frente dos científicos.

Tenciono, por isto tudo, trazer a pouco e pouco para a blogosfera algum material por mim recolhido de fontes diversas, tendo eu evitado, sempre que possível, basear-me demasiado na Internet. Trata-se de um problema demasiado delicado para ser estudado pela Internet: há riscos no uso excessivo, para argumentação, de ligações para sites na Internet cuja credibilidade não é facilmente atestada. Nestes textos que irei publicar acerca deste tema irei dar, quase sempre, referências bibliográficas. As obras de que falarei estão acessíveis em bibliotecas públicas e poderão também ser adquiridas "on-line" nos grandes sites de vendas de livros na Internet.
É também evidente que a isenção e a qualidade de uma obra não ficam garantidas, à partida, por esta estar editada em papel em vez de estar na Internet! Há, certamente, excelentes sites bem melhores do que muitas obras desonestas editadas em papel. Mas dado o maior âmbito temporal de uma obra editada em papel, existe uma maior dose de compromisso e de responsabilidade por parte de um autor com uma obra editada neste suporte tradicional do que com um site, que a qualquer altura, se não estiver apoiada numa instituição duradoura, poderá desaparecer ou ver o seu conteúdo alterado radicalmente.

As minhas referências principais são muito modestas, e puramente introdutórias. Tenho, por isso, a perfeita noção de que apenas aflorei a ponta do icebergue e de que tenho pela frente anos de trabalho árduo para me inteirar dos detalhes da questão. Mas, na minha opinião, o que pude ler é mais do que suficiente para colocarmos de lado os preconceitos de um Pio XII filo-nazi ou anti-semita. E também para colocarmos de lado o juízo injusto de que este Papa teria preferido o silêncio acerca da morte dos judeus só para aproveitar uma suposta proximidade com os nazis para beneficiar desse efeito no combate ao comunismo.
Baseei-me fundamentalmente na obra recente de Andrea Tornielli e de Matteo Napolitano, "Il Papa che salvò gli ebrei", Piemme, 2004. Trata-se, evidentemente, de uma obra apologética, mas baseada num manancial documental de valor e numa bibliografia com credibilidade, visto que os autores se socorrem dos grandes especialistas nesta temática, mesmo daqueles que são mais críticos das opções tomadas pela Santa Sé. Estes dois autores italianos puderam também beneficiar da abertura aos investigadores em 2003, por ordem de João Paulo II, do imenso dossiê "Germania", contendo, entre outras coisas, a fundamental correspondência diplomática entre a Santa Sé e Berlim durante aqueles anos quentes da ascensão e queda do nazismo na Alemanha.
Matteo Napolitano é docente de História na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Urbino e Andrea Tornielli é um conhecido jornalista e vaticanista italiano.
Baseei-me na obra recente do judeu e rabi David Dalin, professor de História e Ciência Política na Unversidade Ave Maria, na Florida, E.U.A., sendo que este autor serve de actual porta-voz ao que de melhor se tem escrito por académicos judeus em defesa de Pio XII, numa linha de continuidade que passa por grandes figuras como Pinchas Lapide, Joseph Lichten, Jeno Levai, Michelle Tagliacozzo (ele próprio sobrevivente das purgas nazis ao ghetto de Roma), entre muitos outros.
Também me baseei num breve, mas valioso, artigo da autoria de Bruno Cardoso Reis, contendo uma análise crítica da referida obra de John Cornwell, publicado na Análise Social, número 157, vol. XXXV, 2000.
Em todo o caso, considero estas referências como uma excelente introdução, visto que são fontes concisas, e que ambas apontam para um elenco considerável de obras a consultar posteriormente, destacando-se as obras dos especialistas Andrea Riccardi, Robert Graham, e Annie Lacroix-Riz. De notar que não se tratam apenas de autores que apoiem a tese que defendo, uma vez que a obra desta última, e só para citar um exemplo, segundo Bruno Cardoso Reis, "é a verdadeira referência para quem queira atacar a política externa da Santa Sé". Cá fica a dica acerca desta autora para benefício dos meus adversários ideológicos!
Por último, necessariamente, recorri ao site da Santa Sé, que contém inúmera documentação, incluindo as encíclicas papais importantes para esta questão.

Começo por alertar aqueles que criticam Pio XII de que não basta uma leitura destas encíclicas, mesmo que seja uma leitura atenta, para se poder emitir uma opinião. Contra mim mesmo falo, mas deveria ser evidente para os meus caros adversários ideológicos que há que fazer uma auto-avaliação para nos darmos conta de se já estamos ou não preparados para emitir uma opinião válida. Opiniões, todos as podem ter. Mas uma opinião válida deve estar bem fundamentada. É pura perda de tempo emitir uma opinião acerca da política de Pio XI e de Pio II face ao nazismo e mesmo face ao fascismo apenas pela leitura das respectivas encíclicas. Há todo um imenso acervo documental, composto principalmente por correspondência entre a Santa Sé e Berlim, que deve ser analisado com minúcia.

Para além de tudo isto, deveria ser evidente que o simples facto de ter sido assinada uma Concordata entre a Santa Sé e a Alemanha nazi a 20 de Julho de 1933 não chega para se poder deduzir qualquer tipo de apoio à política de Hitler. Com a confirmação final do poder de Hitler após a sua estrondosa vitória na consulta popular de 5 de Março de 1933, a Santa Sé tinha forçosamente que ratificar o documento concordatário com o novo governo recém-eleito. O documento em questão era a sequência natural das anteriores concordatas assinadas com a República de Weimar, e anteriormente, com a Baviera e o Baden-Baden.
Deduzir qualquer apoio da Santa Sé ao governo recém-eleito de Hitler não faz qualquer sentido, tendo em consideração que a Concordata era um dos últimos recursos diplomáticos de que a Santa Sé dispunha para conseguir que Hitler se comprometesse por escrito com a preservação de alguns direitos fundamentais para a sobrevivência do catolicismo na Alemanha, direitos esses que já vinham de trás, e que a Santa Sé queria, naquele conturbado ano de 1933, confirmar de novo por escrito com a Alemanha.

Não negando a vocação da Igreja para a protecção de todos os que sofrem, e seguramente que os judeus foram os que mais sofreram às mãos de Hitler, não podemos também tecer falsos moralismos, retirando à Santa Sé a legitimidade para proteger e defender o catolicismo e os católicos na Alemanha nazi. O nazismo hitleriano não tinha como alvo apenas a erradicação dos judeus, tinha também como outros objectivos a erradicação dos portadores de deficiências psíquicas ou físicas, a erradicação de outras etnias (por exemplo, os ciganos), e por último, a erradicação do cristianismo. A Santa Sé, e pretendo dar exemplos concretos nas partes que se seguirão a esta, muito fez em prol dos judeus (não falo apenas dos convertidos, ou seja, de judeus baptizados, falo também dos judeus que praticavam o judaísmo), mas não podemos retirar-lhe o legítimo direito de proteger o catolicismo e os católicos que sofriam as perseguições do nazismo nos países ocupados.

O texto já vai longo, mas desta vez vou ficar por aqui, visto que a necessária introdução já obrigou a um grande dispêndio de tempo e espaço!
Termino esta primeira parte explicando o que eu não tenciono fazer com estes textos, contrapondo ao que tenciono fazer.
Não tenciono, de forma alguma, gerar uma demonstração e uma argumentação de carácter científico da validade da tese que defendo, uma vez que não possuo os conhecimentos para tal. Estes meus textos devem ser lidos como um trabalho individual de pesquisa histórica de carácter amador.
O que eu tenciono, sobretudo, é trazer para a linha da frente documentação e testemunhos que costumam andar “perdidos” ou esquecidos. Tenho a plena convicção de que é bem mais difícil a uma mente honesta continuar defender certas ideias preconceituosas depois de se tomar contacto com a documentação que pretendo apresentar.
Este meu trabalho pode ser visto como um trabalho apologético de defesa do bom-nome e da imagem de Eugenio Pacelli, Papa Pio XII, que na minha modesta opinião não merece a difamação de que tem sido alvo. Não quero classificar todos os actos deste Papa como perfeitos, nem fazer o mesmo face à sua carreira anterior ao Papado, como Secretário de Estado da Santa Sé desde 1930 a 1939, e antes disso como núncio em Munique, na Baviera. Importa sublinhar a importância diplomática do cargo de Pacelli antes de ser nomeado Papa: estando a Alemanha, naquele tempo, dividida entre a Prússia e a Baviera, e sendo que na Prússia a Santa Sé não tinha nunciatura, na prática, Pacelli era mais do que apenas o núncio na Baviera porque a sua esfera de influência diplomática católica englobava também a Prússia.
Não me compete a mim julgar Pio XII, nem de modo negativo nem de modo positivo porque considero que não tenho legitimidade para tal. Obviamente que ninguém é perfeito, e seguramente o próprio Pacelli admitiria, como o fazem todas as pessoas honestas e cientes das suas limitações, que poderia ter melhorado vários aspectos da sua actuação.
Se muitos querem criticar Pacelli, a sua vida e a sua obra, os seus silêncios, pois que o façam livremente, mas à luz da documentação e respeitando as regras do trabalho historiográfico. Quando se lê um determinado texto, seja ele uma simples e modesta carta diplomática ou uma formal proclamação encíclica papal, não podemos interpretar o que lemos apenas à procura de argumentos para chegar a uma conclusão por nós estabelecida “a priori”. Temos a obrigação moral de entender as motivações daqueles que escreveram esses documentos, temos a obrigação moral de conhecer os eventos que geraram esses documentos. E depois, munidos do devido contexto histórico, pronunciarmo-nos sobre esses factos conforme nos ditar a nossa consciência de ateu, agnóstico ou crente.

Bernardo

(1) David Dalin, The Myth of Hitler's Pope, pp. 23-24.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

O suposto "papa de Hitler"

(publicado em simultâneo no Afixe)



Pio XII - Eugenio Pacelli - 1876-1958

Já lá vão dois anos que li o "Hitler's Pope", de John Cornwell. Foi um livro que vendeu bem, e teve até honras de tradução portuguesa - "O Papa de Hitler" (precisamente porque venderia bem, traduziu-se). Por cá, sei que muitas pessoas o leram, e quem o leu entenderá o que eu vou dizer de seguida.

Lido a uma velocidade estonteante, o livro de John Cornwell foi escrito para não deixar margem para dúvidas ao novato. Eu era um novato. Ao final do livro não tinha dúvidas. Eu tinha-me transformado num anti-Pio XII. Mas um novato nunca dá por nada. Não sabe ler nas entrelinhas. Lê tudo. Papa tudo. E eu dizia a toda a gente que Pio XII era um dos piores papas do século XX, e toca a andar...

Naturalmente, e graças a Deus, as pessoas amadurecem e eu não fui excepção. Navegando na Internet, já se tornava cada vez mais frequente encontrar páginas refutatórias destes ataques a Pio XII, pelo que, a pouco e pouco, comecei a suspeitar de que o nosso amigo John Cornwell tinha deturpado um bocadito as coisas.

Pode-se datar o início da campanha anti-Pacelli à peça de teatro "O Vigário" do escritor alemão Rolf Hochhuth (1963). Sim, porque fique-se a saber que, desde o final da guerra em 1945 até 1963, os ataques a Pacelli eram praticamente inexistentes. Antes pelo contrário, os louvores sucederam-se a uma velocidade estonteante, e começaram mesmo a meio da Guerra, como se poderá ver mais abaixo.

De 1963 até aos dias de hoje, a avalanche anti-Pio XII tem crescido. Os media, como sempre, gostam de dar uns retoques surrealistas para apimentar a discussão. O filme "Amen" de Constantin Costa-Gravas, é um belo exemplo desses processos mediáticos de profunda deturpação histórica, quando o que conta é o que vende, e o que vende é o "papa de Hitler".

Da esplêndida obra de Matteo L. Napolitano e Andrea Tornielli, "Il Papa che salvò gli ebrei" (2004), podem-se agora tirar ilacções totalmente diferentes daquelas que os media têm tentado impor à mente do "consumidor". Estes dois autores, aproveitando-se da abertura recente do Arquivo Secreto do Vaticano relativo aos anos "quentes" do pré e do pós Segunda Guerra Mundial, por autorização e ordem expressa do Papa João Paulo II, puderam elaborar várias obras em torno do tema, das quais destaco aquela atrás citada.

Assim, o livro que cito, bem mais pequeno que o de Cornwell, está, contudo, repleto de excertos fulcrais de cartas e documentos originais do Vaticano. Está repleto de trechos vitais de correspondência entre embaixadores, núncios apostólicos, papas (o período abrange os papados de Pio XI - Achille Ratti - e Pio XII - Eugenio Pacelli), dirigentes políticos, representantes de associações judaicas, entre outros.

Napolitano e Tornielli não se perdem em grandes especulações. Limitam-se a intercalar uma citação de um documento com um ou outro comentário. O que interessou, para eles, foi colocar num volume de fácil leitura, o máximo possível de factos concretos provenientes da documentação oficial, agora que ela foi tornada pública.

Que podemos ler nesses documentos?
O filonazista Pacelli?
O germanófilo Pacelli?
O antisemita Pacelli?

Não me parece...

Ao folhear as páginas deste livro, que estão tão repletas de refutações às teses do "papa de Hitler" que dá vontade de bater nos difamadores, dei-me conta de uma curiosidade: na sua obra supracitada também John Cornwell tinha cedido à tentação de dizer algo como: "no início eu queria verificar que a tese do papa de Hitler estava errada, mas no desenrolar da minha investigação, eu tive que mudar de opinião", etc, etc... (não foram estas as palavras, não tenho o livro agora aqui à mão, mas foi algo de parecido o que ele disse). Onde é que eu já tinha visto isto? Esta conversa fiada?

Aqueles que leram o livro do trio britânico Henry Lincoln, Michael Baigent, e Richard Leigh, sobre o mistério de Rennes e o Priorado de Sião, sabem a que conversa fiada me refiro: também este maravilhoso trio de investigadores tinha decidido "partir à procura da refutação", mas inevitavelmente teriam sempre que concluir que, afinal, "era tudo verdade".

Ou seja, uma táctica bem conhecida de bluff intelectual. Mas que funciona. É eficaz.

Isto já vai longo. Queria deixar-vos com algumas citações deste livro. Em primeiro lugar, esta, do prefácio de Sérgio Romano:

"Ma in bocca a certi studiosi come quelli citati da Napolitano e Tornielli nel loro libro, certi giudizi su Pacelli mi sembrano configurare il più grave dei peccati che gli storici commettono talvolta nel loro lavoro. Si chiama anacronismo."

Algumas citações de posições a favor de Pio XII e da Igreja Católica durante este periodo conturbado (tentei traduzi-las a olho, quem não gostar da tradução pode pedir-me os excertos originais em italiano):

"Tenho na minha mesa [de trabalho], em Israel, uma pasta intitulada «Calúnias contra Pio XII». Sem ele, muitos dos nossos não estariam vivos" - Rabi-chefe de Roma, Israel Zolli.

"Se o papa tivesse falado [abertamente contra o regime de Hitler], Hitler teria provavelmente massacrado mais de seis milhões de hebreus e talvez dez vezes dez milhões de Católicos, se tivesse tido o poder para o fazer" - Rabi-chefe da Dinamarca, Marcus Melchior.

"Qualquer ofensa propagandística da Igreja Católica contra o Reich hitleriano teria sido não só um provocatório suicídio, mas também teria acelerado a execução de muitos outros hebreus e padres" - Robert M. W. Kempner, juíz de instrução do processo de Nuremberga.

"Só a Igreja contrariou de forma decisiva a campanha de Hitler para suprimir a verdade. Eu nunca nutri interesse especial de qualquer tipo em relação à Igreja anteriormente, mas agora tenho um afecto e uma admiração profunda porque só a Igreja teve a coragem e a persistência de se erguer em favor da verdade intelectual e da liberdade moral. Sou levado a confessar que aquilo que eu via há já tempo com desprezo, agora louvo-o sem reservas." - Albert Einstein, em entrevista à Time (1940).

"A Santa Sé está a prestar a sua potente ajuda onde pode para mitigar o facto dos meus correlegionários perseguidos" - Chaim Weizmann, durante a Guerra, antes de se vir a tornar no futuro primeiro presidente do Estado de Israel.

"Disse-lhe que o meu primeiro dever era agradecer-lhe, e através dele agradecer da parte do povo hebreu à Igreja Católica, por tudo o que tinha feito nos vários países para salvar os hebreus" - Moshe Sharrett, o segundo presidente do Conselho israelita, em visita a Pio XII, em Abril de 1945.

"O povo de Israel nunca mais esquecerá o quanto Sua Santidade e os seus ilustres delegados, inspirados no eterno princípio da religião, que forma o verdadeiro fundamento da verdadeira civilização, estão a fazer pelos nossos desafortunados irmãos e irmãs na hora mais trágica da nossa história, e que é a prova viva da Divina Providência neste mundo" - Isaak Herzog, Rabi-chefe da Terra Santa, em carta dirigida ao Delegado apostólico de Istambul, Angelo Roncalli, em Fevereiro de 1944.

Mas Napolitano e Tornielli não se ficam por aqui. Por simples citações. Numa análise surpreendentemente tão lúcida quanto sucinta, eles passam revista a todas as teses anti-Pacelli, apoiando-se em argumentos e documentos refutatórios credíveis e verificáveis, porque, ao contrário do livro de Cornwell escrito numa altura em que a verificação no Arquivo Secreto era ainda privilégio de poucos, agora os arquivos estão abertos. Sobretudo o dossier "Germania", que contém um acervo impressionante de correspondência fulcral.

Espero regressar a este tema polémico em breve. A minha intenção foi apenas a de partilhar convosco alguns fortes pontos de vista de quem contesta em voz alta e com indignação esta onda infame do "papa de Hitler".

Na minha opinião estritamente pessoal, não consigo isolar esta onda anti-Pacelli da onda das pseudo-teses de Dan Brown. Para mim, fazem parte de uma longa e profunda ofensiva anti-católica, que está activa há muitos anos, e a crescer em força e em alcance mediático.

Bernardo