April 27, 2009
The Rev. John I. Jenkins, C.S.C.
President
University of Notre Dame
Dear Father Jenkins,
When you informed me in December 2008 that I had been selected to receive Notre Dame’s Laetare Medal, I was profoundly moved. I treasure the memory of receiving an honorary degree from Notre Dame in 1996, and I have always felt honored that the commencement speech I gave that year was included in the anthology of Notre Dame’s most memorable commencement speeches. So I immediately began working on an acceptance speech that I hoped would be worthy of the occasion, of the honor of the medal, and of your students and faculty.
Last month, when you called to tell me that the commencement speech was to be given by President Obama, I mentioned to you that I would have to rewrite my speech. Over the ensuing weeks, the task that once seemed so delightful has been complicated by a number of factors.
First, as a longtime consultant to the U.S. Conference of Catholic Bishops, I could not help but be dismayed by the news that Notre Dame also planned to award the president an honorary degree. This, as you must know, was in disregard of the U.S. bishops’ express request of 2004 that Catholic institutions “should not honor those who act in defiance of our fundamental moral principles” and that such persons “should not be given awards, honors or platforms which would suggest support for their actions.” That request, which in no way seeks to control or interfere with an institution’s freedom to invite and engage in serious debate with whomever it wishes, seems to me so reasonable that I am at a loss to understand why a Catholic university should disrespect it.
Then I learned that “talking points” issued by Notre Dame in response to widespread criticism of its decision included two statements implying that my acceptance speech would somehow balance the event:
• “President Obama won’t be doing all the talking. Mary Ann Glendon, the former U.S. ambassador to the Vatican, will be speaking as the recipient of the Laetare Medal.”
• “We think having the president come to Notre Dame, see our graduates, meet our leaders, and hear a talk from Mary Ann Glendon is a good thing for the president and for the causes we care about.”
A commencement, however, is supposed to be a joyous day for the graduates and their families. It is not the right place, nor is a brief acceptance speech the right vehicle, for engagement with the very serious problems raised by Notre Dame’s decision—in disregard of the settled position of the U.S. bishops—to honor a prominent and uncompromising opponent of the Church’s position on issues involving fundamental principles of justice.
Finally, with recent news reports that other Catholic schools are similarly choosing to disregard the bishops’ guidelines, I am concerned that Notre Dame’s example could have an unfortunate ripple effect.
It is with great sadness, therefore, that I have concluded that I cannot accept the Laetare Medal or participate in the May 17 graduation ceremony.
In order to avoid the inevitable speculation about the reasons for my decision, I will release this letter to the press, but I do not plan to make any further comment on the matter at this time.
Yours Very Truly,
Mary Ann Glendon
(Mary Ann Glendon is Learned Hand Professor of Law at Harvard Law School. A member of the editorial and advisory board of First Things , she served as the U.S. Ambassador to the Vatican from 2007 to 2009.)
Retirado do First Things.
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
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quinta-feira, 7 de maio de 2009
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Escândalo na Universidade Notre Dame
Uma das mais prestigiadas universidades católicas norte-americanas vai convidar, para o discurso de inauguração no próximo dia 17 de Maio, o Presidente Barack Obama. Para além disso, Obama vai receber uma condecoração académica honorífica.
A pouca-vergonha resulta de um convite feito pelo Pe. Jenkins, presidente da dita universidade. O convite está a fazer escândalo na comunidade católica norte-americana, que se organiza agora para tentar impedir o ultrage: Notre-Dame Scandal.
A Conferência Episcopal Norte-Americana está revoltada com o convite, e já fez saber a sua opinião através do seu presidente, o Bispo Francis George, de Chicago.
Há muita gente a pedir a demissão do Pe. Jenkins e o cancelamento desta palhaçada.
Oxalá consigam... É uma questão de decência elementar. Se o Pe. Jenkins não tem bom senso nem discernimento moral, alguém tem que intervir para impedir esta miséria.
As posições éticas de Obama, no que diz respeito à sua não protecção do direito à vida dos seres humanos não nascidos, são bem conhecidas de toda a gente. Dar-lhe o palanque de uma respeitável universidade católica para ele discursar, e ainda atribuir-lhe uma condecoração, é ridicularizar todo o esforço pró-vida, não só nos EUA como no resto do mundo.
Oxalá isto não venha a acontecer...
PS: Em contraste absoluto com a triste decisão do Pe. Jenkins, eis as palavras de um grande Bispo, o Bispo Robert Finn, de Kansas City - St. Joseph, pronunciadas na recente convenção "Gospel of Life": "We are at war!"
A pouca-vergonha resulta de um convite feito pelo Pe. Jenkins, presidente da dita universidade. O convite está a fazer escândalo na comunidade católica norte-americana, que se organiza agora para tentar impedir o ultrage: Notre-Dame Scandal.
A Conferência Episcopal Norte-Americana está revoltada com o convite, e já fez saber a sua opinião através do seu presidente, o Bispo Francis George, de Chicago.
Há muita gente a pedir a demissão do Pe. Jenkins e o cancelamento desta palhaçada.
Oxalá consigam... É uma questão de decência elementar. Se o Pe. Jenkins não tem bom senso nem discernimento moral, alguém tem que intervir para impedir esta miséria.
As posições éticas de Obama, no que diz respeito à sua não protecção do direito à vida dos seres humanos não nascidos, são bem conhecidas de toda a gente. Dar-lhe o palanque de uma respeitável universidade católica para ele discursar, e ainda atribuir-lhe uma condecoração, é ridicularizar todo o esforço pró-vida, não só nos EUA como no resto do mundo.
Oxalá isto não venha a acontecer...
PS: Em contraste absoluto com a triste decisão do Pe. Jenkins, eis as palavras de um grande Bispo, o Bispo Robert Finn, de Kansas City - St. Joseph, pronunciadas na recente convenção "Gospel of Life": "We are at war!"
Conferência
A pedido do Miguel Conceição, divulga-se o seguinte evento:
O brasileiro Mateus Soares de Azevedo vem a Lisboa.
Está prevista uma palestra para o próximo dia 30 de Abril.
Mais detalhes aqui: Apresentação de livros em Lisboa
O brasileiro Mateus Soares de Azevedo vem a Lisboa.
Está prevista uma palestra para o próximo dia 30 de Abril.
Mais detalhes aqui: Apresentação de livros em Lisboa
terça-feira, 7 de abril de 2009
La sua Africa
Fundamental, este artigo recente do Massimo Introvigne:
La sua Africa. Il magistero di Benedetto XVI sull’Africa e il viaggio in Camerun e Angola
La sua Africa. Il magistero di Benedetto XVI sull’Africa e il viaggio in Camerun e Angola
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Luvas de boxe
Por:
Nuno Serras Pereira
06. 04. 2009 (via Infovitae)
Sua Santidade o Papa na conferência de imprensa que deu a bordo do avião aquando da sua viagem apostólica a Espanha em 2010, como fosse interrogado sobre as luvas de boxe como meio de combate à violência doméstica, respondeu que a distribuição das ditas luvas não resolvia o problema da violência e que pelo contrário poderia agravá-la. Que o importante era mudar os comportamentos, suscitar a educação, formar para a responsabilidade, induzir ao respeito e ao amor. A notícia correu, pressurosa e indignada, as redacções do mundo inteiro. Políticos, jornalistas e eclesiásticos abespinhados conclamaram à uma que o Papa era um mata-mulheres, genocida do género feminino, ignorante troglodita, personagem imundo, etc. Por aqui não se ouviu uma voz episcopal que denunciasse o escárnio sacrílego com que o Santo Padre foi agredido. Pelo contrário, alguns Bispos professaram publicamente a sua fé nas luvas de boxe e admoestaram severamente que era não só aconselhável mas eticamente obrigatório o seu uso, por quem não prescindisse de espancar as suas mulheres.
Nuno Serras Pereira
06. 04. 2009 (via Infovitae)
Sua Santidade o Papa na conferência de imprensa que deu a bordo do avião aquando da sua viagem apostólica a Espanha em 2010, como fosse interrogado sobre as luvas de boxe como meio de combate à violência doméstica, respondeu que a distribuição das ditas luvas não resolvia o problema da violência e que pelo contrário poderia agravá-la. Que o importante era mudar os comportamentos, suscitar a educação, formar para a responsabilidade, induzir ao respeito e ao amor. A notícia correu, pressurosa e indignada, as redacções do mundo inteiro. Políticos, jornalistas e eclesiásticos abespinhados conclamaram à uma que o Papa era um mata-mulheres, genocida do género feminino, ignorante troglodita, personagem imundo, etc. Por aqui não se ouviu uma voz episcopal que denunciasse o escárnio sacrílego com que o Santo Padre foi agredido. Pelo contrário, alguns Bispos professaram publicamente a sua fé nas luvas de boxe e admoestaram severamente que era não só aconselhável mas eticamente obrigatório o seu uso, por quem não prescindisse de espancar as suas mulheres.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Condoms, HIV, and Pope Benedict
Condoms, HIV, and Pope Benedict
Leading HIV researcher Edward C. Green says criticism of the pope 'unfair.'
Interview by Timothy C. Morgan | posted 3/20/2009 04:27PM
Harvard Researcher agrees with Pope on condoms in Africa
Leading HIV researcher Edward C. Green says criticism of the pope 'unfair.'
Interview by Timothy C. Morgan | posted 3/20/2009 04:27PM
Harvard Researcher agrees with Pope on condoms in Africa
segunda-feira, 23 de março de 2009
Esquizofrenia anti-papal
Num número demasiado grande de jornalistas (arriscaria dizer que se trata da maioria), vive um ódio bizarro à Igreja Católica e ao Papa, seja ele qual for. Hoje em dia, está na moda, para quem gosta de parecer "moderado", dizer que o Papa anterior é que era simpático, e que este é o mau da fita. Agem como se ninguém se lembrasse das bordoadas que então davam com gosto no Papa João Paulo II, sempre que este se pronunciava sobre o que quer que fosse.
Hoje em dia, nada mudou. Dão-se bordoadas no Papa Bento XVI por qualquer coisa que ele diga. Não por ser Bento XVI, porque também se davam bordoadas em João Paulo II, e em Paulo VI. Dão-se bordoadas porque uma boa parte dos "media" detesta a Igreja Católica e o papel de Papa. E não há quaisquer dúvidas de que muitos profissionais dos "media" têm conseguido imprimir à opinião pública os seus preconceitos ideológicos e as suas esquizofrenias.
A maralha decidiu recentemente linchar o Papa pelas suas corajosas declarações acerca da SIDA em África e da ineficácia das campanhas baseadas na distribuição de preservativos. O Papa afirmou que tais campanhas são claramente ineficazes, e mais, que tais campanhas estão a aumentar o flagelo da SIDA.
Imediatamente, tombou o anátema da Comunicação Social. Recordo-me de ouvir uma jovem jornalista na rádio, com um tom de voz revelador, muito irritada, dizer que tinha notícias "mais do que polémicas" relativamente ao Papa. Estava mortinha por repetir na antena as palavras de Bento XVI, e por lhes dar um tom pessoal de bazófia, de forma a transmitir a sua irritação contra o Papa, através dos feixes hertzianos, aos ouvintes da estação.
No entanto, o Papa não estava a mentir, nem a dizer uma novidade por aí além. Estava a dizer a mais pura das verdades. Estava alinhado com os melhores estudos sobre o tema, com aqueles estudos feitos sem objectivos ideológicos, com aqueles estudos que não são financiados por fabricantes de preservativos.
Edward C. Green, professor de Harvard, Director do AIDS Prevention Research Center, curiosamente concorda com Bento XVI na frase que tanta polémica gerou:
Este investigador, cuja lista de publicações sobre o tema é impressionante, corrobora as palavras do Papa. Quase ninguém deu por isso, enquanto muitos se esforçavam por criticar o Papa, mesmo de dentro da Igreja. D. Januário Torgal Ferreira fez declarações pouco felizes, ao dizer que «as pessoas que estão aconselhar o Papa deveriam ser mais cultas». A tragédia destas palavras torna-se mais evidente quando elas são comparadas com o apoio do Prof. Green ao Papa.
Mais artigos de Green sobre o tema:
AIDS and the Churches: Getting the Story Right
Uganda's HIV Prevention Success: The Role of Sexual Behavior Change and the National Response
PS: Note-se que o raciocínio de Green e do Papa Bento XVI é perfeitamente racional e até intuitivo. Aliás, a esmagadora maioria dos que vociferam contra o Papa estariam de acordo em aplicar exactamente o mesmo raciocínio noutra área não ideológica. Ninguém advoga, por exemplo, que a solução para as mortes na estrada passa, sobretudo, pelo fabrico de mais e mais viaturas apetrechadas de ABS e air-bags. Muitos, no caso dado como exemplo, advogam que o problema é comportamental, que o problema é o da condução em excesso de velocidade, ou sob o efeito de álcool ou estupefacientes. No caso dos acidentes na estrada, todos concordam que o problema é comportamental, e que o caminho certo é alterar comportamentos. No caso da SIDA, dá-se uma esquizofrenia ideologicamente motivada, na qual quase toda uma sociedade fica escrava daquilo que lhe dizem para pensar, fica escrava do politicamente correcto: e quase todos caem no ridículo de desprezar as causas comportamentais para a SIDA; e quase todos fecham os olhos à origem do problema. Com autismos ideologicamente motivados, não se vai longe...
PS2: Devia-se ler o artigo de Green sobre o "case study" do Uganda, para se ver, além de resultados concretos de uma estratégia comportamental anti-SIDA, o que a Igreja Católica tem andado a fazer por África, enquanto os anti-papistas da praxe vertem as suas baboseiras na Comunicação Social acerca de um tema que não conhecem, nunca estudaram, e para o qual nunca contribuíram.
Hoje em dia, nada mudou. Dão-se bordoadas no Papa Bento XVI por qualquer coisa que ele diga. Não por ser Bento XVI, porque também se davam bordoadas em João Paulo II, e em Paulo VI. Dão-se bordoadas porque uma boa parte dos "media" detesta a Igreja Católica e o papel de Papa. E não há quaisquer dúvidas de que muitos profissionais dos "media" têm conseguido imprimir à opinião pública os seus preconceitos ideológicos e as suas esquizofrenias.
A maralha decidiu recentemente linchar o Papa pelas suas corajosas declarações acerca da SIDA em África e da ineficácia das campanhas baseadas na distribuição de preservativos. O Papa afirmou que tais campanhas são claramente ineficazes, e mais, que tais campanhas estão a aumentar o flagelo da SIDA.
Imediatamente, tombou o anátema da Comunicação Social. Recordo-me de ouvir uma jovem jornalista na rádio, com um tom de voz revelador, muito irritada, dizer que tinha notícias "mais do que polémicas" relativamente ao Papa. Estava mortinha por repetir na antena as palavras de Bento XVI, e por lhes dar um tom pessoal de bazófia, de forma a transmitir a sua irritação contra o Papa, através dos feixes hertzianos, aos ouvintes da estação.
No entanto, o Papa não estava a mentir, nem a dizer uma novidade por aí além. Estava a dizer a mais pura das verdades. Estava alinhado com os melhores estudos sobre o tema, com aqueles estudos feitos sem objectivos ideológicos, com aqueles estudos que não são financiados por fabricantes de preservativos.
Edward C. Green, professor de Harvard, Director do AIDS Prevention Research Center, curiosamente concorda com Bento XVI na frase que tanta polémica gerou:
‘We have found no consistent associations between condom use and lower HIV-infection rates, which, 25 years into the pandemic, we should be seeing if this intervention was working.”
So notes Edward C. Green, director of the AIDS Prevention Research Project at the Harvard Center for Population and Development Studies, in response to papal press comments en route to Africa this week.
Benedict XVI said, in response to a French reporter’s question asking him to defend the Church’s position on fighting the spread of AIDS, characterized by the reporter as “frequently considered unrealistic and ineffective”:
I would say that this problem of AIDS cannot be overcome with advertising slogans. If the soul is lacking, if Africans do not help one another, the scourge cannot be resolved by distributing condoms; quite the contrary, we risk worsening the problem. The solution can only come through a twofold commitment: firstly, the humanization of sexuality, in other words a spiritual and human renewal bringing a new way of behaving towards one another; and secondly, true friendship, above all with those who are suffering, a readiness — even through personal sacrifice — to be present with those who suffer. And these are the factors that help and bring visible progress.
“The pope is correct,” Green told National Review Online Wednesday, “or put it a better way, the best evidence we have supports the pope’s comments. He stresses that “condoms have been proven to not be effective at the ‘level of population.’”
“There is,” Green adds, “a consistent association shown by our best studies, including the U.S.-funded ‘Demographic Health Surveys,’ between greater availability and use of condoms and higher (not lower) HIV-infection rates. This may be due in part to a phenomenon known as risk compensation, meaning that when one uses a risk-reduction ‘technology’ such as condoms, one often loses the benefit (reduction in risk) by ‘compensating’ or taking greater chances than one would take without the risk-reduction technology.”
Green added: “I also noticed that the pope said ‘monogamy’ was the best single answer to African AIDS, rather than ‘abstinence.’ The best and latest empirical evidence indeed shows that reduction in multiple and concurrent sexual partners is the most important single behavior change associated with reduction in HIV-infection rates (the other major factor is male circumcision).” (negrito meu)
Este investigador, cuja lista de publicações sobre o tema é impressionante, corrobora as palavras do Papa. Quase ninguém deu por isso, enquanto muitos se esforçavam por criticar o Papa, mesmo de dentro da Igreja. D. Januário Torgal Ferreira fez declarações pouco felizes, ao dizer que «as pessoas que estão aconselhar o Papa deveriam ser mais cultas». A tragédia destas palavras torna-se mais evidente quando elas são comparadas com o apoio do Prof. Green ao Papa.
Mais artigos de Green sobre o tema:
AIDS and the Churches: Getting the Story Right
Uganda's HIV Prevention Success: The Role of Sexual Behavior Change and the National Response
PS: Note-se que o raciocínio de Green e do Papa Bento XVI é perfeitamente racional e até intuitivo. Aliás, a esmagadora maioria dos que vociferam contra o Papa estariam de acordo em aplicar exactamente o mesmo raciocínio noutra área não ideológica. Ninguém advoga, por exemplo, que a solução para as mortes na estrada passa, sobretudo, pelo fabrico de mais e mais viaturas apetrechadas de ABS e air-bags. Muitos, no caso dado como exemplo, advogam que o problema é comportamental, que o problema é o da condução em excesso de velocidade, ou sob o efeito de álcool ou estupefacientes. No caso dos acidentes na estrada, todos concordam que o problema é comportamental, e que o caminho certo é alterar comportamentos. No caso da SIDA, dá-se uma esquizofrenia ideologicamente motivada, na qual quase toda uma sociedade fica escrava daquilo que lhe dizem para pensar, fica escrava do politicamente correcto: e quase todos caem no ridículo de desprezar as causas comportamentais para a SIDA; e quase todos fecham os olhos à origem do problema. Com autismos ideologicamente motivados, não se vai longe...
PS2: Devia-se ler o artigo de Green sobre o "case study" do Uganda, para se ver, além de resultados concretos de uma estratégia comportamental anti-SIDA, o que a Igreja Católica tem andado a fazer por África, enquanto os anti-papistas da praxe vertem as suas baboseiras na Comunicação Social acerca de um tema que não conhecem, nunca estudaram, e para o qual nunca contribuíram.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Richard Williamson
"O Santo Padre e o meu Superior, bispo Bernard Fellay, solicitaram que eu reconsidere as observações que fiz na televisão sueca quatro meses atrás, pois suas consequências têm sido muito pesadas.
Observando essas consequências, posso verdadeiramente dizer que lamento ter feito essas observações, e que se eu soubesse de antemão todo dano e dor que elas dariam origem, especialmente para a Igreja, mas também para os sobreviventes e parentes das vítimas da injustiça sob o Terceiro Reich, eu não as teria feito.
Na televisão sueca, eu manifestei apenas a opinião (..."eu penso"..."eu acho"...) de uma pessoa que não é um historiador, uma opinião formada há 20 anos com base nas provas disponíveis então, e raramente expressa em público desde então. No entanto, os eventos das últimas semanas e os conselhos de membros da Fraternidade São Pio X persuadiram-me da minha responsabilidade por tanto sofrimento causado. Para todas as almas que ficaram verdadeiramente escandalizadas com o que eu disse, diante de Deus, peço perdão.
Como o Santo Padre tem dito, todo ato de violência injusta contra um homem fere toda a humanidade.
+ Richard Williamson,
Londres, 26 de fevereiro de 2009."
(tradução do inglês por Zenit - www.zenit.org)
Observando essas consequências, posso verdadeiramente dizer que lamento ter feito essas observações, e que se eu soubesse de antemão todo dano e dor que elas dariam origem, especialmente para a Igreja, mas também para os sobreviventes e parentes das vítimas da injustiça sob o Terceiro Reich, eu não as teria feito.
Na televisão sueca, eu manifestei apenas a opinião (..."eu penso"..."eu acho"...) de uma pessoa que não é um historiador, uma opinião formada há 20 anos com base nas provas disponíveis então, e raramente expressa em público desde então. No entanto, os eventos das últimas semanas e os conselhos de membros da Fraternidade São Pio X persuadiram-me da minha responsabilidade por tanto sofrimento causado. Para todas as almas que ficaram verdadeiramente escandalizadas com o que eu disse, diante de Deus, peço perdão.
Como o Santo Padre tem dito, todo ato de violência injusta contra um homem fere toda a humanidade.
+ Richard Williamson,
Londres, 26 de fevereiro de 2009."
(tradução do inglês por Zenit - www.zenit.org)
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A histeria do caso Williamson
Os factos:
- o Bispo Williamson, da Sociedade de São Pio X, sociedade ainda em cisma com a Igreja Católica, faz uma série de afirmações públicas negando ou mostrando dúvida sobre a historicidade de certos factos relativos ao Holocausto
- o Papa Bento XVI, após décadas de esforços de aproximação à Sociedade de São Pio X, decide, num gesto de misericórdia, levantar a excomunhão a quatro bispos da dita Sociedade, entre os quais, Williamson
- a histeria instala-se em todos os quadrantes, católicos e não católicos, mediáticos, políticos, diplomáticos: desde os moderados que manifestam perplexidade pela decisão papal, até aos radicais que propõem que o Papa abdique
O que é que Williamson não afirmou:
- Williamson não afirmou que o Holocausto fora uma coisa boa, ou até desculpável ou compreensível: isso colocava-o numa situação incompatível com a moral católica
- Williamson não afirmou que os nazis não mataram judeus: ele afirmou que o número de mortos foi substancialmente menor que o número avançado pelos historiadores, e que não foram usadas câmaras de gás
Os erros de Williamson nesta matéria:
- são erros históricos, que podem ser um preocupante sinal da proximidade a ideias políticas de mau gosto e reputação, como a dos famigerados Protocolos dos Sábios de Sião, e outras teorias conspiratórias pouco recomendáveis
- não são erros morais, no sentido em que Williamson nunca afirmou ter concordado com os crimes morais do Terceiro Reich
- apesar de serem gritantes, os erros de Williamson não fazem dele um puro negacionista, pois ele não nega que houve Holocausto, mas sim a sua extensão e alguns dos macabros procedimentos que foram usados
- a mais elementar justiça faz com que se pondere o seguinte: há, na Igreja, pessoas em cargos de responsabilidade que perfilham ideias doutrinais e morais incompatíveis com a doutrina e com a moral católicas: tais casos são, sem sombra de dúvidas, mais graves do que o caso Williamson
O Papa errou?
- o levantamento da excomunhão foi um acto de misericórdia, que se cinge ao remover de uma pena canónica, imposta pela desobediência de Monsenhor Lefébvre e pela conivência dos quatro bispos em questão
- tal levantamento não conduz os bispos ao exercício de actividades dentro da Igreja: eles ainda fazem parte de um grupo cismático, e o cisma não foi resolvido
- é para todos evidente que o Papa não pode concordar com as posições pessoais do bispo Williamson sobre o Holocausto; é claro o aviso recente do Papa a Williamson, de que este deve rejeitar tais posições sobre o Holocausto, bem como as suas ideias cismáticas, para poder exercer um cargo na Igreja
- por tudo isto, o Papa não errou, nem nas intenções nem nas acções que tomou; apesar de ser sensato supor que a gestão interna e externa deste caso possa ter sido mal conduzida por certos órgãos da Curia Romana
O que está por detrás da histeria?
Na Alemanha, figuras importantes como os bispos de Hamburgo, e de Rotemburgo-Estugarda confessaram sentimentos de "incerteza, incompreensão e decepção" e ainda constataram "uma óbvia perda de confiança" no Papa Bento XVI. Um teólogo alemão, Hermann Haering, chegou à posição extremista de pedir que Bento XVI resignasse "para fazer algum bem à Igreja".
O que está por detrás disto tudo?
Muitos jornalistas explicaram estas posições radicais por parte de prelados e teólogos alemães recorrendo ao facto de que o negacionismo é crime na Alemanha. Isto explica? Eu acho que não.
A explicação parece estar noutro lado: a já velha tradição de alguma teologia alemã em contestar a doutrina católica, com este caso Williamson, veio toda cá para fora e resolveu, atraída pelos microfones e pelas câmaras de televisão, dar um ar da sua graça.
É inegável o aproveitamento deste caso por parte dos ditos "católicos liberais", termo vago que se refere aos católicos que contestam o catolicismo. Para mim, é isso que se torna claro como a água nesta histeria em torno de Williamson, que noutro contexto mais não seria do que uma pessoa com ideias tontas acerca do Holocausto: este caso, e a reacção histérica a ele, não é mais do que um sinal das forças de bloqueio ao Papa que ainda estão vivas, apesar de mais moribundas do que há trinta anos.
Para o papado, para o primado de Pedro na Igreja Católica, é muito maior o risco extremista e auto-destrutivo dos teólogos "liberais", que nestas ocasiões são os primeiros a lançar pedras ao Papa, do que as tontices que Williamson disse sobre o Holocausto.
Como católicos, devemos estar atentos a uma certa atitude malsã contra a Sociedade de São Pio X. Se há algo que me divide, como católico, dessa cismática sociedade é a atitude por ela demonstrada de desobediência ao Papa e de não aceitação do Concílio Vaticano II. São pontos graves, estes, que separam católicos de lefebvristas, mas devemos estar atentos aos imensos pontos que nos unem, em termos de tradição católica, de doutrina, de fé sincera e coerente, de amor a Cristo.
Há muita gente, "soi-disant" católica, que baseia a sua raiva malsã contra os lefebvristas, não sobre os pontos importantes que acima referi, mas sobre uma evidente agenda modernista, que promovem abertamente em contradição com a doutrina católica que se dizem professar.
- o Bispo Williamson, da Sociedade de São Pio X, sociedade ainda em cisma com a Igreja Católica, faz uma série de afirmações públicas negando ou mostrando dúvida sobre a historicidade de certos factos relativos ao Holocausto
- o Papa Bento XVI, após décadas de esforços de aproximação à Sociedade de São Pio X, decide, num gesto de misericórdia, levantar a excomunhão a quatro bispos da dita Sociedade, entre os quais, Williamson
- a histeria instala-se em todos os quadrantes, católicos e não católicos, mediáticos, políticos, diplomáticos: desde os moderados que manifestam perplexidade pela decisão papal, até aos radicais que propõem que o Papa abdique
O que é que Williamson não afirmou:
- Williamson não afirmou que o Holocausto fora uma coisa boa, ou até desculpável ou compreensível: isso colocava-o numa situação incompatível com a moral católica
- Williamson não afirmou que os nazis não mataram judeus: ele afirmou que o número de mortos foi substancialmente menor que o número avançado pelos historiadores, e que não foram usadas câmaras de gás
Os erros de Williamson nesta matéria:
- são erros históricos, que podem ser um preocupante sinal da proximidade a ideias políticas de mau gosto e reputação, como a dos famigerados Protocolos dos Sábios de Sião, e outras teorias conspiratórias pouco recomendáveis
- não são erros morais, no sentido em que Williamson nunca afirmou ter concordado com os crimes morais do Terceiro Reich
- apesar de serem gritantes, os erros de Williamson não fazem dele um puro negacionista, pois ele não nega que houve Holocausto, mas sim a sua extensão e alguns dos macabros procedimentos que foram usados
- a mais elementar justiça faz com que se pondere o seguinte: há, na Igreja, pessoas em cargos de responsabilidade que perfilham ideias doutrinais e morais incompatíveis com a doutrina e com a moral católicas: tais casos são, sem sombra de dúvidas, mais graves do que o caso Williamson
O Papa errou?
- o levantamento da excomunhão foi um acto de misericórdia, que se cinge ao remover de uma pena canónica, imposta pela desobediência de Monsenhor Lefébvre e pela conivência dos quatro bispos em questão
- tal levantamento não conduz os bispos ao exercício de actividades dentro da Igreja: eles ainda fazem parte de um grupo cismático, e o cisma não foi resolvido
- é para todos evidente que o Papa não pode concordar com as posições pessoais do bispo Williamson sobre o Holocausto; é claro o aviso recente do Papa a Williamson, de que este deve rejeitar tais posições sobre o Holocausto, bem como as suas ideias cismáticas, para poder exercer um cargo na Igreja
- por tudo isto, o Papa não errou, nem nas intenções nem nas acções que tomou; apesar de ser sensato supor que a gestão interna e externa deste caso possa ter sido mal conduzida por certos órgãos da Curia Romana
O que está por detrás da histeria?
Na Alemanha, figuras importantes como os bispos de Hamburgo, e de Rotemburgo-Estugarda confessaram sentimentos de "incerteza, incompreensão e decepção" e ainda constataram "uma óbvia perda de confiança" no Papa Bento XVI. Um teólogo alemão, Hermann Haering, chegou à posição extremista de pedir que Bento XVI resignasse "para fazer algum bem à Igreja".
O que está por detrás disto tudo?
Muitos jornalistas explicaram estas posições radicais por parte de prelados e teólogos alemães recorrendo ao facto de que o negacionismo é crime na Alemanha. Isto explica? Eu acho que não.
A explicação parece estar noutro lado: a já velha tradição de alguma teologia alemã em contestar a doutrina católica, com este caso Williamson, veio toda cá para fora e resolveu, atraída pelos microfones e pelas câmaras de televisão, dar um ar da sua graça.
É inegável o aproveitamento deste caso por parte dos ditos "católicos liberais", termo vago que se refere aos católicos que contestam o catolicismo. Para mim, é isso que se torna claro como a água nesta histeria em torno de Williamson, que noutro contexto mais não seria do que uma pessoa com ideias tontas acerca do Holocausto: este caso, e a reacção histérica a ele, não é mais do que um sinal das forças de bloqueio ao Papa que ainda estão vivas, apesar de mais moribundas do que há trinta anos.
Para o papado, para o primado de Pedro na Igreja Católica, é muito maior o risco extremista e auto-destrutivo dos teólogos "liberais", que nestas ocasiões são os primeiros a lançar pedras ao Papa, do que as tontices que Williamson disse sobre o Holocausto.
Como católicos, devemos estar atentos a uma certa atitude malsã contra a Sociedade de São Pio X. Se há algo que me divide, como católico, dessa cismática sociedade é a atitude por ela demonstrada de desobediência ao Papa e de não aceitação do Concílio Vaticano II. São pontos graves, estes, que separam católicos de lefebvristas, mas devemos estar atentos aos imensos pontos que nos unem, em termos de tradição católica, de doutrina, de fé sincera e coerente, de amor a Cristo.
Há muita gente, "soi-disant" católica, que baseia a sua raiva malsã contra os lefebvristas, não sobre os pontos importantes que acima referi, mas sobre uma evidente agenda modernista, que promovem abertamente em contradição com a doutrina católica que se dizem professar.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Será que aprendemos com a História?
(Segue-se um texto do meu amigo José Maria André, cuja divulgação o autor agradece)
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Será que aprendemos com a História?
Para quando a verdade sobre a conferência de Ratzinger em 1990?
As recentes atitudes desagradáveis na «La Sapienza» recordaram-me um velho episódio no «Diário de Notícias», que deformou completamente a Conferência do Cardeal Ratzinger em Parma em 1990. Agora, deparei-me com o mesmo erro, desta vez no «Público», em 2008.
No dia 21 de Janeiro de 2008, a última página do «Público» trouxe um artigo azedo contra a Igreja e o Papa Bento XVI. O título, «No Index», prometia evocar as falhas mais desagradáveis da História da Igreja e o corpo do artigo satisfazia a expectativa, em sucessivas estocadas rápidas, à primeira vista fulminantes.
Só que o autor não conhecia bem o tema e não teve tempo de confirmar as frases e os episódios que criticou, pelo que o resultado foi apenas uma sequência de afirmações falsas, escritas num tom muito agreste.
A situação é fácil de compreender, porque os clichés que serviram de mote a cada estocada contra a Igreja tinham aparecido na Imprensa e, como se sabe, é frequente os jornalistas reproduzirem o que leram algures, sem verificar os factos. Pode acontecer a qualquer um, basear-se em referências erradas e tirar delas conclusões inválidas, por debilidade das premissas. E pode acontecer com mais facilidade e aparato a quem publica abundantemente, cultivando um estilo mordaz. Por isso, não custa perceber o percalço, apesar de o autor não ter tido intenção de faltar à verdade. Neste caso, a boa recordação de outras crónicas dele no «Público», sobre outros assuntos, pode ajudar-nos a relativizar a infelicidade daquele texto.
Quase todos os pontos de partida do artigo estavam errados, mas não interessa escalpelizar agora tantos erros factuais. Quero apenas fixar-me na referência directa àquela conferência do Cardeal Ratzinger:
«(...) Já em 1990, para comentar o caso Galileu, Ratzinger tivera de se socorrer das palavras de Paul Feyerabend (...). E foram as palavras do relativista Feyerabend, que o anti-relativista Ratzinger citava aprovadoramente quando pareciam desculpar a Inquisição no processo de Galileu, que agora voltaram para assombrar o anti-relativista Ratzinger diante de físicos (...)».
Como se sabe, Ratzinger não usou as palavras de Feyerabend a seu favor, nem as citou aprovadoramente. Pelo contrário, declarou bem claramente na conferência: «Seria ingénuo construir uma apologética improvisada, com base nestas afirmações; a fé não cresce a partir do ressentimento e de se pôr em questão a racionalidade, mas só cresce com um profundo apreço pela razão e com uma mais ampla compreensão intelectual (...)». E acrescentou: «Mencionei tudo isto só como um exemplo sintomático, que manifesta como é profunda hoje a problematização que a modernidade, a ciência e a técnica fazem de si mesmas».
Obviamente, a fonte deste disparate de pretender que «Ratzinger cita aprovadoramente Feyerabend...» não é o texto original, mas algum comentário, em segunda ou terceira mão, que os jornais publicaram nestes dias. Resolvi, por isso, enviar ao autor o texto da conferência, que ele tinha criticado sem conhecer, e alertá-lo para as outras incorrecções.
Algumas semanas depois, pareceu-me oportuno recordar ao autor a importância de ler a conferência do Cardeal e de repor aqueles factos mais mal noticiados no seu artigo, mas desta vez não houve resposta. Podem ter-se metido outras tarefas pelo meio, mas o facto é que os erros não foram corrigidos.
Assim, mais uma vez, a imagem da Igreja junto da Opinião Pública acumulou elementos falsos, sem se conseguir repor a verdade.
Algo de comparável ocorreu no século XVII e seguintes, quando as autoridades eclesiásticas não tiveram coragem de dizer imediatamente que o julgamento de Galileu tinha sido uma farsa. Passaram anos, à espera de que o assunto deixasse de ser importante e se «resolvesse» por esquecimento. Alguns jornais dos nossos dias actuam da mesma maneira.
Como sempre, Deus é a vítima das vaidades humanas. Assiste sem nenhum espírito de vingança aos nossos erros e à teimosia com que fugimos de os corrigir. Sofre as impertinências dos padres e as pesporrências dos leigos, as imprudências dos que estão afastados e a vaidade de todos. É caso para Lhe agradecer de todo o coração que o ar que respiramos não desapareça e cada manhã nos volte a oferecer o calor aconchegado do sol e a beleza da vida.
Escrevo estas páginas para repor (na medida do possível) a realidade que foi distorcida no artigo mencionado acima e também para ponderar sobre esta dificuldade imensa da natureza humana, de emendar o erro. Convinha-nos aprender da História e, mais ainda, convir-nos-ia aprender com a paciência de Deus.
José Maria C. S. André
Lisboa, 15 de Fevereiro de 2008
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Será que aprendemos com a História?
Para quando a verdade sobre a conferência de Ratzinger em 1990?
As recentes atitudes desagradáveis na «La Sapienza» recordaram-me um velho episódio no «Diário de Notícias», que deformou completamente a Conferência do Cardeal Ratzinger em Parma em 1990. Agora, deparei-me com o mesmo erro, desta vez no «Público», em 2008.
No dia 21 de Janeiro de 2008, a última página do «Público» trouxe um artigo azedo contra a Igreja e o Papa Bento XVI. O título, «No Index», prometia evocar as falhas mais desagradáveis da História da Igreja e o corpo do artigo satisfazia a expectativa, em sucessivas estocadas rápidas, à primeira vista fulminantes.
Só que o autor não conhecia bem o tema e não teve tempo de confirmar as frases e os episódios que criticou, pelo que o resultado foi apenas uma sequência de afirmações falsas, escritas num tom muito agreste.
A situação é fácil de compreender, porque os clichés que serviram de mote a cada estocada contra a Igreja tinham aparecido na Imprensa e, como se sabe, é frequente os jornalistas reproduzirem o que leram algures, sem verificar os factos. Pode acontecer a qualquer um, basear-se em referências erradas e tirar delas conclusões inválidas, por debilidade das premissas. E pode acontecer com mais facilidade e aparato a quem publica abundantemente, cultivando um estilo mordaz. Por isso, não custa perceber o percalço, apesar de o autor não ter tido intenção de faltar à verdade. Neste caso, a boa recordação de outras crónicas dele no «Público», sobre outros assuntos, pode ajudar-nos a relativizar a infelicidade daquele texto.
Quase todos os pontos de partida do artigo estavam errados, mas não interessa escalpelizar agora tantos erros factuais. Quero apenas fixar-me na referência directa àquela conferência do Cardeal Ratzinger:
«(...) Já em 1990, para comentar o caso Galileu, Ratzinger tivera de se socorrer das palavras de Paul Feyerabend (...). E foram as palavras do relativista Feyerabend, que o anti-relativista Ratzinger citava aprovadoramente quando pareciam desculpar a Inquisição no processo de Galileu, que agora voltaram para assombrar o anti-relativista Ratzinger diante de físicos (...)».
Como se sabe, Ratzinger não usou as palavras de Feyerabend a seu favor, nem as citou aprovadoramente. Pelo contrário, declarou bem claramente na conferência: «Seria ingénuo construir uma apologética improvisada, com base nestas afirmações; a fé não cresce a partir do ressentimento e de se pôr em questão a racionalidade, mas só cresce com um profundo apreço pela razão e com uma mais ampla compreensão intelectual (...)». E acrescentou: «Mencionei tudo isto só como um exemplo sintomático, que manifesta como é profunda hoje a problematização que a modernidade, a ciência e a técnica fazem de si mesmas».
Obviamente, a fonte deste disparate de pretender que «Ratzinger cita aprovadoramente Feyerabend...» não é o texto original, mas algum comentário, em segunda ou terceira mão, que os jornais publicaram nestes dias. Resolvi, por isso, enviar ao autor o texto da conferência, que ele tinha criticado sem conhecer, e alertá-lo para as outras incorrecções.
Algumas semanas depois, pareceu-me oportuno recordar ao autor a importância de ler a conferência do Cardeal e de repor aqueles factos mais mal noticiados no seu artigo, mas desta vez não houve resposta. Podem ter-se metido outras tarefas pelo meio, mas o facto é que os erros não foram corrigidos.
Assim, mais uma vez, a imagem da Igreja junto da Opinião Pública acumulou elementos falsos, sem se conseguir repor a verdade.
Algo de comparável ocorreu no século XVII e seguintes, quando as autoridades eclesiásticas não tiveram coragem de dizer imediatamente que o julgamento de Galileu tinha sido uma farsa. Passaram anos, à espera de que o assunto deixasse de ser importante e se «resolvesse» por esquecimento. Alguns jornais dos nossos dias actuam da mesma maneira.
Como sempre, Deus é a vítima das vaidades humanas. Assiste sem nenhum espírito de vingança aos nossos erros e à teimosia com que fugimos de os corrigir. Sofre as impertinências dos padres e as pesporrências dos leigos, as imprudências dos que estão afastados e a vaidade de todos. É caso para Lhe agradecer de todo o coração que o ar que respiramos não desapareça e cada manhã nos volte a oferecer o calor aconchegado do sol e a beleza da vida.
Escrevo estas páginas para repor (na medida do possível) a realidade que foi distorcida no artigo mencionado acima e também para ponderar sobre esta dificuldade imensa da natureza humana, de emendar o erro. Convinha-nos aprender da História e, mais ainda, convir-nos-ia aprender com a paciência de Deus.
José Maria C. S. André
Lisboa, 15 de Fevereiro de 2008
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
A caça ao Rei e ao Príncipe
Naquela manhã fria de 1 de Fevereiro de 1908, dois selvagens levantaram-se da enxerga onde dormiam para viver o seu grande dia: o dia da caçada à Família Real. Alfredo Costa e Manuel Buíça, ardentes republicanos treinados nas artes da oratória e da argumentação, decidiram acabar com a Monarquia da forma mais eloquente de todas: o fuzil.
Pelas 17 horas desse dia, morriam às mãos destes dois selvagens Sua Alteza o Rei D. Carlos I e o Principe Real, D. Luís Filipe. Foram caçados. Ao virar do Terreiro do Paço para a Rua do Arsenal, e aos olhos de toda a gente que assistia chocada, foram disparados os tiros certeiros que resolveram o "problema" monárquico de forma definitiva: erradicando os representantes máximos da Nação.
A República não começa a 5 de Outubro de 1910. Essa é só a data oficial. Começa a 1 de Fevereiro de 1908, em cima do sangue real derramado pelos dois selvagens Costa e Buíça. Por muito que os republicanos de 1910 tenham querido repudiar publicamente o crime de 1908, sempre souberam bem que sem este crime não teria havido margem de manobra para uma troca de regime.
As altas esferas do moralismo republicano repudiaram o regicídio. O maçon Sebastião Magalhães Lima, que chegou à categoria de Grão-Mestre, nunca se quis associar ao crime, e assim tem acontecido com os maçons do Grande Oriente Lusitano desde então: olhar para o regicídio como um acto isolado, uma acção desesperada de um pequeno grupelho de carbonários, uma medida tomada sem a autorização dos grandes aventais.
Veja-se este elegante exemplo de retórica maçónica:
A Maçonaria condenou o regicídio de 1908
Podemos dizer que foi tudo um acto isolado de uma insignificante carbonária. Podemos fingir que não houve conspiração a alto nível. Podemos considerar como "boatos infundados" os testemunhos de que o próprio Aquilino Ribeiro (há pouco tempo trasladado em honras para o Panteão) estaria com um grupo de assassinos à espera, no Corpo Santo, caso o grupo do Terreiro do Paço não desse conta do recado.
Tem sido sempre assim: olhar para o regicídio como acto isolado da Carbonária tem sido a forma escolhida para tentar limpar a boa moral republicana neste Portugal que se sente tão satisfeito com a República e que sente tanto desdém pelos nossos sete séculos de Monarquia.
A República é um sistema de governo bastante razoável. Não é isso que está em causa. Mas a história da República em Portugal tem sangue. E a ferida está aberta. O republicano dos dias de hoje não pode fingir que esta ferida não existe: reconhecer que a República começou com o pé esquerdo é reconhecer o óbvio. Em 1908, não houve espaço para um debate sereno acerca de modelos alternativos para a governação. Eu sou monárquico, e tenho as minhas razões, mas estou sempre disposto a ouvir a argumentação de um republicano. Em 1908, o que se ouviu no Terreiro do Paço foi o som implacável dos tiros, que matou não só a argumentação como os adversários naturais do republicanismo. Literalmente.
Recordemos, hoje, os caídos às mãos dos assassinos.
Pelas 17 horas desse dia, morriam às mãos destes dois selvagens Sua Alteza o Rei D. Carlos I e o Principe Real, D. Luís Filipe. Foram caçados. Ao virar do Terreiro do Paço para a Rua do Arsenal, e aos olhos de toda a gente que assistia chocada, foram disparados os tiros certeiros que resolveram o "problema" monárquico de forma definitiva: erradicando os representantes máximos da Nação.
A República não começa a 5 de Outubro de 1910. Essa é só a data oficial. Começa a 1 de Fevereiro de 1908, em cima do sangue real derramado pelos dois selvagens Costa e Buíça. Por muito que os republicanos de 1910 tenham querido repudiar publicamente o crime de 1908, sempre souberam bem que sem este crime não teria havido margem de manobra para uma troca de regime.
As altas esferas do moralismo republicano repudiaram o regicídio. O maçon Sebastião Magalhães Lima, que chegou à categoria de Grão-Mestre, nunca se quis associar ao crime, e assim tem acontecido com os maçons do Grande Oriente Lusitano desde então: olhar para o regicídio como um acto isolado, uma acção desesperada de um pequeno grupelho de carbonários, uma medida tomada sem a autorização dos grandes aventais.
Veja-se este elegante exemplo de retórica maçónica:
A Maçonaria condenou o regicídio de 1908
Podemos dizer que foi tudo um acto isolado de uma insignificante carbonária. Podemos fingir que não houve conspiração a alto nível. Podemos considerar como "boatos infundados" os testemunhos de que o próprio Aquilino Ribeiro (há pouco tempo trasladado em honras para o Panteão) estaria com um grupo de assassinos à espera, no Corpo Santo, caso o grupo do Terreiro do Paço não desse conta do recado.
Tem sido sempre assim: olhar para o regicídio como acto isolado da Carbonária tem sido a forma escolhida para tentar limpar a boa moral republicana neste Portugal que se sente tão satisfeito com a República e que sente tanto desdém pelos nossos sete séculos de Monarquia.
A República é um sistema de governo bastante razoável. Não é isso que está em causa. Mas a história da República em Portugal tem sangue. E a ferida está aberta. O republicano dos dias de hoje não pode fingir que esta ferida não existe: reconhecer que a República começou com o pé esquerdo é reconhecer o óbvio. Em 1908, não houve espaço para um debate sereno acerca de modelos alternativos para a governação. Eu sou monárquico, e tenho as minhas razões, mas estou sempre disposto a ouvir a argumentação de um republicano. Em 1908, o que se ouviu no Terreiro do Paço foi o som implacável dos tiros, que matou não só a argumentação como os adversários naturais do republicanismo. Literalmente.
Recordemos, hoje, os caídos às mãos dos assassinos.
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Embriões híbridos - núcleo humano em citoplasma animal
HFEA statement on its decision regarding hybrid embryos
Um pequeno passo para o Homem...
Um GRANDE passo para a Besta!
Um pequeno passo para o Homem...
Um GRANDE passo para a Besta!
domingo, 26 de agosto de 2007
Materialismo em estado puro
Parte I - Prelúdio
O Ludwig escreveu hoje uma sátira no seu blogue, sob a pena do alter-ego "Dom Mário Neto", que representa a ideia que o Ludwig faz de uma realidade que ele ainda não conhece nem compreende: a da Teologia (e do teólogo). "Dom Mário Neto" é aquilo que o Ludwig imagina ser um teólogo, e usa esse alter-ego para satirizar as crenças religiosas em geral, com especial incidência, por razões óbvias (culturais) no cristianismo.
A discussão começara ontem, quando o Ludwig satirizou um trecho do Primeiro Livro de Samuel. Os detalhes podem ser lidos aqui.
O início da discussão não é interessante por si mesmo (uma disputa acerca da tradução de um termo hebraico), mas sim pelas realidades que faz ressaltar. Devo confessar que até há um quarto de hora atrás, eu não tinha ainda compreendido a objecção do Ludwig: achava que ele queria simplesmente teimar num determinado suposto absurdo conceptual que ele teria encontrado num dos livros do Antigo Testamento. Compreensão lenta a minha, porque na realidade, o problema do Luwdig estava na eterna questão da relação entre os bens materiais e a religião. Juro que só agora é que entendi que este sempre foi o cerne da questão levantada pelo Ludwig no seu texto de Sábado.
Com este comentário do Ludwig, apresentado de seguida, fica-se com a ideia de que o capítulo em questão constitui, para ele, uma prova de algo de muito grave em termos da atitude religiosa de um crente:
«Este relato continua a revelar algo de profundamente ridículo e perturbante com estas crenças religiosas.»
Não pode ser coisa pouca!
Na mesma caixa de comentários, Ludwig escreveu:
«Mesmo com a sua explicação, cuja ideia já conhecia, a minha opinião mantém-se. Ninguém oferece os pecados. Hoje em dia oferece-se dinheiro e jóias, e antigamente era comida, dinheiro e jóias. Ou seja, coisas de valor e não as coisas más de que nos queremos livrar.
E isso é quase universal na religião humana porque todos temos uma grande costela de comerciante.»
Vemos então que, afinal, a questão sempre foi a do ouro, e não tinha propriamente a ver com problemas de tradução. Para Ludwig, o "desastre" revelado no capítulo 6 do Primeiro Livro de Samuel era o facto de que seres humanos (racionais), neste caso os Filisteus, ofereceram ouro a um deus para expiação de pecados.
Este pode bem ser definido como um dos grandes "pecados mortais" do ateísmo esclarecido. Aos olhos destes iluminados, estamos perante algo não menor do que suicídio racionalista. A morte do bom senso. O enterro da Razão.
Parte II - Uma aparente condenação do materialismo
Numa primeira abordagem, Ludwig escolhe um caminho já bem trilhado e pisado por muitos antes dele, nos últimos séculos. A crítica à relação da Igreja com os bens materiais (vou cingir-me ao cristianismo, mas sei que o Ludwig aponta para algo em sentido lato, algo que vise todas as principais religiões). Para o Ludwig, e penso não estar a fazer um juízo errado, toda a Igreja, tendo que existir (idealmente, não existiria no mundo perfeito imaginado por Ludwig, composto por pessoas inteligentes e racionais), deveria ser composta por "Sãos Franciscos", por pessoas totalmente mendicantes, que nunca tocassem em bens materiais. Só dessa forma, na cosmovisão ludwiguiana, a Igreja seria coerente com aquilo que professa.
Trocado por miúdos, esta é a catequese iluminista, defendida por Ludwig, e que hoje em dia se tornou num facto consumado para uma crescente parte dos nossos concidadãos, num verdadeiro mito moderno:
A. Deus não existe (axioma).
1. Os crentes são pessoas pouco cultivadas: uma pessoa com conhecimentos não precisa de Deus para nada.
2. Os crentes de antigamente procuravam consolo na religião porque tinham medo da morte, mas também porque não conseguiam explicar certos fenómenos, hoje explicados pela Ciência; a Ciência deveria ter tornado a Religião num fenómeno caduco e condenado a desaparecer.
3. Os crentes de hoje ainda procuram consolo na religião porque têm medo da morte, mas também porque precisam ainda de uma explicação fácil para as injustiças: a religião é, e sempre foi, uma atitude subjectiva porque totalmente sentimental.
4. As Igrejas são dirigidas por comerciantes, que trocam bens materiais por consolo psicológico.
Sem o axioma, tudo isto cai, certamente, por terra. É na firme certeza filosófica (pela sua natureza, não pode ser uma certeza científica) de que Deus não existe que eles radicam a sua visão de que a religião é um gigantesco engano (para alguns, o maior engano de todos). Há então os que enganam (o clero) e os que são enganados (o povo). A religião, vista como algo que Marx apelidou de "ópio do povo".
A luta da Ciência contra a Religião, levada a cabo por estes bravos lutadores pós-Iluminismo, é então a eterna luta da Luz racionalista contra as Trevas da religião.
Em suma, o ateu esclarecido tem a resposta na ponta da língua:
a) O que quer um papa ou um bispo?
OURO e PODER
b) O que quer o crente?
CONSOLO
Supor que existam altos dirigentes da Igreja que vivem uma vida de fé sincera e devota é algo de aberrante: um alto dirigente da Igreja só lá está pelo poder e pelo ouro.
Supor que existam padres com pouco poder e crentes pobres já é algo de compreensível: são pessoas ignorantes exploradas pelo "sistema" religioso.
Para uma pessoa como o Ludwig, um mártir (que dá a sua vida por Cristo) representa uma tragédia humana enorme, não pelo sacrifício pessoal mas pelo absurdo da causa. O mártir deverá ser, para Ludwig, o supremo da loucura: uma pessoa dar a sua vida (para eles, a única) para encher a barriga e os cofres da padralhada.
Esta visão, está claro, é preconceituosa e baseia-se na ignorância. E é errada. O que é terrível, sobretudo quando tal visão é defendida por espíritos inteligentes, que deveriam ter alguma capacidade para escapar às condicionantes sociais que nos impõem esses preconceitos diariamente...
Parte III - A profissão (inconsciente) do mais arreigado materialismo
A atitude do Ludwig, disse atrás, parece à primeira vista (e parecer-lhe-á a ele mesmo) uma crítica do materialismo da Igreja. Ou seja, uma posição que teria tudo para ser anti-materialista. O Ludwig não aceita que as oferendas a Deus (por intermédio da Igreja) possam ter um significado sofisticado ou metafísico, ou possam ser gestos razoáveis ou aceitáveis. Para o Ludwig, tais significados metafísicos são normalmente "cozinhados" pelo blinólogo Dom Mário Neto de serviço. Porque não há, para o Ludwig, nenhum mistério numa oferenda destas: é apenas um crente a ir na argolada da Igreja.
Para o Ludwig, quando uma pessoa crente como eu coloca uma moeda no cestinho do ofertório, durante a Missa, está a ser burlado: a trocar consolo por dinheiro. Do lado de lá do altar, está o supremo comerciante: o padreco, esse gatuno do trabalho dos outros.
Esta visão, tão típica (será das mais típicas) do Iluminismo, do Modernismo, e ainda viva nesta época pós-modernista, longe de ser anti-materialista, é, na realidade, uma visão no extremo máximo do materialismo.
Sem modelos nem referências transcendentais, o ateu radica a sua existência no hic et nunc, no "aqui e agora" utilitarista, na fruição da experiência existencial tal qual ela é, sem grandes interrogações ou suposições metafísicas.
Por isso, a vida do ateu é explicada de forma simples: "Trabalho para obter dinheiro; uso o dinheiro para obter comida; como para me manter vivo; morro. Ponto final.".
Neste sentido, os bens materiais são preciosos para o ateu: são o combustível que mantém em movimento toda a máquina existencial ateísta: o corpo humano, esse robô sofisticado que um dia, segundo eles, a Ciência não só emulará, mas melhorará infinitamente. O ateu luta arduamente para evitar a morte. Ficar vivo só porque sim, só para aproveitar a vida, os bens materiais desta vida, é isso que o ateu quer.
Haverá então maior pecado ateísta, maior violação ética ao código comportamental do ateu, do que desperdiçar bens materiais? Do que perder a vida? Do que não procurar a satisfação sensorial? Do que perder a oportunidade de fruir destes bens numa sofreguidão individualista e epicurista?
Violar o carpe diem, este é o maior pecado do Homem aos olhos do ateu...
Isto é puro materialismo.
Como diz o Ludwig, o ser humano tem sempre algo de comerciante. O ateu radica a existência humana nos bens materiais, é deles que tudo parte, é para eles que tudo regressa. Os bens materiais explicam tudo. "Money makes the world go round!".
No fundo, na base da crítica que o Ludwig faz à existência de uma relação entre os bens materiais e a Igreja, está, paradoxalmente, um amor enorme (não confessado) aos bens materiais, essa bóia de salvação existencial, essa realidade tangível (para eles, o intangível é inútil, mais, é irreal) que dá aos ateus a sua sensação de segurança ontológica.
Parte IV - A religião e os bens materiais
Para o crente, que não sofre destes dilemas existenciais insolúveis, a coisa é relativamente simples:
1. Deus criou tudo. Rigorosamente tudo, incluindo os bens materiais.
2. A vida não pertence ao Homem, mas sim a Deus: é um dom de Deus para o Homem.
3. Os bens materiais não pertencem ao Homem: são colocados por Deus à disposição do Homem.
4. Os homens entregam o fruto do seu trabalho (em géneros ou dinheiro) em oferenda a Deus, colocando-o nas mãos daqueles que vivem exclusivamente para o serviço a Deus (o clero).
5. O clero fica responsável (depositário) de bens que não lhe pertencem, e que se destinam ao serviço divino.
Quando vemos um determinado prelado a viver uma vida de luxo desnecessário, podemos indignar-nos com razão: aquele homem está a esbanjar algo que não lhe pertence, não está a aplicar os bens que lhe foram confiados para servir a Deus.
Mas, e esta é a tragédia da incompreensão do Ludwig, há um abismo enorme entre esta atitude de cupidez humana, infelizmente demasiado frequente devido à nossa fraca natureza, e a atitude do prelado responsável, que gere bem os bens que lhe são confiados, e que os usa nas variadas vertentes do serviço a Deus, que passa pela ajuda aos que não têm, pelo trabalho de evangelização, pela defesa do património cultural do cristianismo, pela defesa da Igreja face aos seus agressores externos.
Quando eu entrego a minha dádiva no cesto, durante o Ofertório, tenho a perfeita consciência de que essa deve ser a menor parte da minha dádiva à sociedade, à Igreja, e a Deus enquanto cristão. Tenho muito mais que posso dar, e devo procurar oferecer, sobretudo, bens imateriais. Mas também tenho a consciência de que estou a depositar algo de material e que tem valor, à guarda de pessoas nas quais confio. Em muitos casos, porque o sacerdote costuma dizê-lo, até posso saber o destino dessa dádiva.
Se determinadas pessoas falham nessa minha confiança, se usam mal esses bens, serão elas a responder perante o Criador, e não eu. Acima de tudo, não é o acto de oferecer que está errado. Não é quem oferece que está errado. Oferecer está certíssimo. É a forma natural e racional de proceder.
Assim, como vemos, para o crente, os bens materiais devem fluir na sociedade, não só para a subsistência material da mesma, mas também para a maior glória de Deus. É nesse sentido que todo o crente razoável sabe que o trabalho de Deus nesta Terra também requer bens materiais. Em maior ou menor quantidade, consoante o destino dos mesmos. Esse destino tem é que ser justo e proporcional, mas isso é uma questão secundária e não central ao acto de dar.
A Igreja não é gnóstica: não há nada de maligno na Criação, nem nos bens, nem sequer no ouro, na prata, ou nas pedras preciosas. O que a Igreja ensina é algo de elementar e simples: quanto mais valioso é o bem, maior a responsabilidade do seu proprietário (ou do seu guardião) em dar-lhe bom uso.
Os bens servem o Homem. Mas isto tem muitas dimensões, para além da biológica, orgânica, psicológica ou social. Para o crente, o serviço dos bens ao Homem terá que passar, indiscutivelmente, por aproximá-lo de Deus. Logo, o destino mais elevado de um bem material é o de ser empregue para a glória de Deus, para fazer a ponte entre o Homem e Deus.
Na verdade, o bom crente dá um valor relativo aos bens materiais. Um valor não nulo, um valor positivo, mas incomparavelmente menor que o valor que um ateu lhes dá. Porque o crente sabe que a sua vida é finita. Que um dia acaba. E que nada de material, nem sequer o nosso corpo, se leva desta vida para a outra. Para o ateu, tudo o que há é para ser gozado nesta vida, que para eles é a única.
Assim, o ateísmo é, na verdade, um puro materialismo. Por definição.
Sobre a cupidez dos padres, muitos e santos homens escreveram afincadamente. Por exemplo, o nosso Santo António de Lisboa dedicou-lhes muitas e duras palavras (ver, entre muitos outros, o sermão do 5º Domingo depois da Páscoa, I, 663, sobre os vícios dos sacerdotes). O sacerdote que dá mau uso aos bens ao seu cuidado, e que não se arrependa a tempo, está perdido. Pobres de tais sacerdotes, indignos servidores de Deus, traidores na causa mais nobre. O mais triste é que tais pessoas estão reféns de um bloqueio intelectual que os faz servir o senhor errado. Servem o metal em vez de servir a Deus. Mas isso não faz do metal algo de mau, nem obriga a um divórcio entre os bens materiais e o serviço a Deus.
Este conceito que procurei explicar, o da utilidade e justeza do uso dos bens materiais no serviço a Deus, é incompreensível à "luz" (que raio de luz, esta, que escurece as mentes!) da distorcida cosmovisão do "ateísmo esclarecido", nascido da defesa dos novos dogmas decretados pela soi disant "Razão" contra Deus no século XVIII.
O Ludwig escreveu hoje uma sátira no seu blogue, sob a pena do alter-ego "Dom Mário Neto", que representa a ideia que o Ludwig faz de uma realidade que ele ainda não conhece nem compreende: a da Teologia (e do teólogo). "Dom Mário Neto" é aquilo que o Ludwig imagina ser um teólogo, e usa esse alter-ego para satirizar as crenças religiosas em geral, com especial incidência, por razões óbvias (culturais) no cristianismo.
A discussão começara ontem, quando o Ludwig satirizou um trecho do Primeiro Livro de Samuel. Os detalhes podem ser lidos aqui.
O início da discussão não é interessante por si mesmo (uma disputa acerca da tradução de um termo hebraico), mas sim pelas realidades que faz ressaltar. Devo confessar que até há um quarto de hora atrás, eu não tinha ainda compreendido a objecção do Ludwig: achava que ele queria simplesmente teimar num determinado suposto absurdo conceptual que ele teria encontrado num dos livros do Antigo Testamento. Compreensão lenta a minha, porque na realidade, o problema do Luwdig estava na eterna questão da relação entre os bens materiais e a religião. Juro que só agora é que entendi que este sempre foi o cerne da questão levantada pelo Ludwig no seu texto de Sábado.
Com este comentário do Ludwig, apresentado de seguida, fica-se com a ideia de que o capítulo em questão constitui, para ele, uma prova de algo de muito grave em termos da atitude religiosa de um crente:
«Este relato continua a revelar algo de profundamente ridículo e perturbante com estas crenças religiosas.»
Não pode ser coisa pouca!
Na mesma caixa de comentários, Ludwig escreveu:
«Mesmo com a sua explicação, cuja ideia já conhecia, a minha opinião mantém-se. Ninguém oferece os pecados. Hoje em dia oferece-se dinheiro e jóias, e antigamente era comida, dinheiro e jóias. Ou seja, coisas de valor e não as coisas más de que nos queremos livrar.
E isso é quase universal na religião humana porque todos temos uma grande costela de comerciante.»
Vemos então que, afinal, a questão sempre foi a do ouro, e não tinha propriamente a ver com problemas de tradução. Para Ludwig, o "desastre" revelado no capítulo 6 do Primeiro Livro de Samuel era o facto de que seres humanos (racionais), neste caso os Filisteus, ofereceram ouro a um deus para expiação de pecados.
Este pode bem ser definido como um dos grandes "pecados mortais" do ateísmo esclarecido. Aos olhos destes iluminados, estamos perante algo não menor do que suicídio racionalista. A morte do bom senso. O enterro da Razão.
Parte II - Uma aparente condenação do materialismo
Numa primeira abordagem, Ludwig escolhe um caminho já bem trilhado e pisado por muitos antes dele, nos últimos séculos. A crítica à relação da Igreja com os bens materiais (vou cingir-me ao cristianismo, mas sei que o Ludwig aponta para algo em sentido lato, algo que vise todas as principais religiões). Para o Ludwig, e penso não estar a fazer um juízo errado, toda a Igreja, tendo que existir (idealmente, não existiria no mundo perfeito imaginado por Ludwig, composto por pessoas inteligentes e racionais), deveria ser composta por "Sãos Franciscos", por pessoas totalmente mendicantes, que nunca tocassem em bens materiais. Só dessa forma, na cosmovisão ludwiguiana, a Igreja seria coerente com aquilo que professa.
Trocado por miúdos, esta é a catequese iluminista, defendida por Ludwig, e que hoje em dia se tornou num facto consumado para uma crescente parte dos nossos concidadãos, num verdadeiro mito moderno:
A. Deus não existe (axioma).
1. Os crentes são pessoas pouco cultivadas: uma pessoa com conhecimentos não precisa de Deus para nada.
2. Os crentes de antigamente procuravam consolo na religião porque tinham medo da morte, mas também porque não conseguiam explicar certos fenómenos, hoje explicados pela Ciência; a Ciência deveria ter tornado a Religião num fenómeno caduco e condenado a desaparecer.
3. Os crentes de hoje ainda procuram consolo na religião porque têm medo da morte, mas também porque precisam ainda de uma explicação fácil para as injustiças: a religião é, e sempre foi, uma atitude subjectiva porque totalmente sentimental.
4. As Igrejas são dirigidas por comerciantes, que trocam bens materiais por consolo psicológico.
Sem o axioma, tudo isto cai, certamente, por terra. É na firme certeza filosófica (pela sua natureza, não pode ser uma certeza científica) de que Deus não existe que eles radicam a sua visão de que a religião é um gigantesco engano (para alguns, o maior engano de todos). Há então os que enganam (o clero) e os que são enganados (o povo). A religião, vista como algo que Marx apelidou de "ópio do povo".
A luta da Ciência contra a Religião, levada a cabo por estes bravos lutadores pós-Iluminismo, é então a eterna luta da Luz racionalista contra as Trevas da religião.
Em suma, o ateu esclarecido tem a resposta na ponta da língua:
a) O que quer um papa ou um bispo?
OURO e PODER
b) O que quer o crente?
CONSOLO
Supor que existam altos dirigentes da Igreja que vivem uma vida de fé sincera e devota é algo de aberrante: um alto dirigente da Igreja só lá está pelo poder e pelo ouro.
Supor que existam padres com pouco poder e crentes pobres já é algo de compreensível: são pessoas ignorantes exploradas pelo "sistema" religioso.
Para uma pessoa como o Ludwig, um mártir (que dá a sua vida por Cristo) representa uma tragédia humana enorme, não pelo sacrifício pessoal mas pelo absurdo da causa. O mártir deverá ser, para Ludwig, o supremo da loucura: uma pessoa dar a sua vida (para eles, a única) para encher a barriga e os cofres da padralhada.
Esta visão, está claro, é preconceituosa e baseia-se na ignorância. E é errada. O que é terrível, sobretudo quando tal visão é defendida por espíritos inteligentes, que deveriam ter alguma capacidade para escapar às condicionantes sociais que nos impõem esses preconceitos diariamente...
Parte III - A profissão (inconsciente) do mais arreigado materialismo
A atitude do Ludwig, disse atrás, parece à primeira vista (e parecer-lhe-á a ele mesmo) uma crítica do materialismo da Igreja. Ou seja, uma posição que teria tudo para ser anti-materialista. O Ludwig não aceita que as oferendas a Deus (por intermédio da Igreja) possam ter um significado sofisticado ou metafísico, ou possam ser gestos razoáveis ou aceitáveis. Para o Ludwig, tais significados metafísicos são normalmente "cozinhados" pelo blinólogo Dom Mário Neto de serviço. Porque não há, para o Ludwig, nenhum mistério numa oferenda destas: é apenas um crente a ir na argolada da Igreja.
Para o Ludwig, quando uma pessoa crente como eu coloca uma moeda no cestinho do ofertório, durante a Missa, está a ser burlado: a trocar consolo por dinheiro. Do lado de lá do altar, está o supremo comerciante: o padreco, esse gatuno do trabalho dos outros.
Esta visão, tão típica (será das mais típicas) do Iluminismo, do Modernismo, e ainda viva nesta época pós-modernista, longe de ser anti-materialista, é, na realidade, uma visão no extremo máximo do materialismo.
Sem modelos nem referências transcendentais, o ateu radica a sua existência no hic et nunc, no "aqui e agora" utilitarista, na fruição da experiência existencial tal qual ela é, sem grandes interrogações ou suposições metafísicas.
Por isso, a vida do ateu é explicada de forma simples: "Trabalho para obter dinheiro; uso o dinheiro para obter comida; como para me manter vivo; morro. Ponto final.".
Neste sentido, os bens materiais são preciosos para o ateu: são o combustível que mantém em movimento toda a máquina existencial ateísta: o corpo humano, esse robô sofisticado que um dia, segundo eles, a Ciência não só emulará, mas melhorará infinitamente. O ateu luta arduamente para evitar a morte. Ficar vivo só porque sim, só para aproveitar a vida, os bens materiais desta vida, é isso que o ateu quer.
Haverá então maior pecado ateísta, maior violação ética ao código comportamental do ateu, do que desperdiçar bens materiais? Do que perder a vida? Do que não procurar a satisfação sensorial? Do que perder a oportunidade de fruir destes bens numa sofreguidão individualista e epicurista?
Violar o carpe diem, este é o maior pecado do Homem aos olhos do ateu...
Isto é puro materialismo.
Como diz o Ludwig, o ser humano tem sempre algo de comerciante. O ateu radica a existência humana nos bens materiais, é deles que tudo parte, é para eles que tudo regressa. Os bens materiais explicam tudo. "Money makes the world go round!".
No fundo, na base da crítica que o Ludwig faz à existência de uma relação entre os bens materiais e a Igreja, está, paradoxalmente, um amor enorme (não confessado) aos bens materiais, essa bóia de salvação existencial, essa realidade tangível (para eles, o intangível é inútil, mais, é irreal) que dá aos ateus a sua sensação de segurança ontológica.
Parte IV - A religião e os bens materiais
Para o crente, que não sofre destes dilemas existenciais insolúveis, a coisa é relativamente simples:
1. Deus criou tudo. Rigorosamente tudo, incluindo os bens materiais.
2. A vida não pertence ao Homem, mas sim a Deus: é um dom de Deus para o Homem.
3. Os bens materiais não pertencem ao Homem: são colocados por Deus à disposição do Homem.
4. Os homens entregam o fruto do seu trabalho (em géneros ou dinheiro) em oferenda a Deus, colocando-o nas mãos daqueles que vivem exclusivamente para o serviço a Deus (o clero).
5. O clero fica responsável (depositário) de bens que não lhe pertencem, e que se destinam ao serviço divino.
Quando vemos um determinado prelado a viver uma vida de luxo desnecessário, podemos indignar-nos com razão: aquele homem está a esbanjar algo que não lhe pertence, não está a aplicar os bens que lhe foram confiados para servir a Deus.
Mas, e esta é a tragédia da incompreensão do Ludwig, há um abismo enorme entre esta atitude de cupidez humana, infelizmente demasiado frequente devido à nossa fraca natureza, e a atitude do prelado responsável, que gere bem os bens que lhe são confiados, e que os usa nas variadas vertentes do serviço a Deus, que passa pela ajuda aos que não têm, pelo trabalho de evangelização, pela defesa do património cultural do cristianismo, pela defesa da Igreja face aos seus agressores externos.
Quando eu entrego a minha dádiva no cesto, durante o Ofertório, tenho a perfeita consciência de que essa deve ser a menor parte da minha dádiva à sociedade, à Igreja, e a Deus enquanto cristão. Tenho muito mais que posso dar, e devo procurar oferecer, sobretudo, bens imateriais. Mas também tenho a consciência de que estou a depositar algo de material e que tem valor, à guarda de pessoas nas quais confio. Em muitos casos, porque o sacerdote costuma dizê-lo, até posso saber o destino dessa dádiva.
Se determinadas pessoas falham nessa minha confiança, se usam mal esses bens, serão elas a responder perante o Criador, e não eu. Acima de tudo, não é o acto de oferecer que está errado. Não é quem oferece que está errado. Oferecer está certíssimo. É a forma natural e racional de proceder.
Assim, como vemos, para o crente, os bens materiais devem fluir na sociedade, não só para a subsistência material da mesma, mas também para a maior glória de Deus. É nesse sentido que todo o crente razoável sabe que o trabalho de Deus nesta Terra também requer bens materiais. Em maior ou menor quantidade, consoante o destino dos mesmos. Esse destino tem é que ser justo e proporcional, mas isso é uma questão secundária e não central ao acto de dar.
A Igreja não é gnóstica: não há nada de maligno na Criação, nem nos bens, nem sequer no ouro, na prata, ou nas pedras preciosas. O que a Igreja ensina é algo de elementar e simples: quanto mais valioso é o bem, maior a responsabilidade do seu proprietário (ou do seu guardião) em dar-lhe bom uso.
Os bens servem o Homem. Mas isto tem muitas dimensões, para além da biológica, orgânica, psicológica ou social. Para o crente, o serviço dos bens ao Homem terá que passar, indiscutivelmente, por aproximá-lo de Deus. Logo, o destino mais elevado de um bem material é o de ser empregue para a glória de Deus, para fazer a ponte entre o Homem e Deus.
Na verdade, o bom crente dá um valor relativo aos bens materiais. Um valor não nulo, um valor positivo, mas incomparavelmente menor que o valor que um ateu lhes dá. Porque o crente sabe que a sua vida é finita. Que um dia acaba. E que nada de material, nem sequer o nosso corpo, se leva desta vida para a outra. Para o ateu, tudo o que há é para ser gozado nesta vida, que para eles é a única.
Assim, o ateísmo é, na verdade, um puro materialismo. Por definição.
Sobre a cupidez dos padres, muitos e santos homens escreveram afincadamente. Por exemplo, o nosso Santo António de Lisboa dedicou-lhes muitas e duras palavras (ver, entre muitos outros, o sermão do 5º Domingo depois da Páscoa, I, 663, sobre os vícios dos sacerdotes). O sacerdote que dá mau uso aos bens ao seu cuidado, e que não se arrependa a tempo, está perdido. Pobres de tais sacerdotes, indignos servidores de Deus, traidores na causa mais nobre. O mais triste é que tais pessoas estão reféns de um bloqueio intelectual que os faz servir o senhor errado. Servem o metal em vez de servir a Deus. Mas isso não faz do metal algo de mau, nem obriga a um divórcio entre os bens materiais e o serviço a Deus.
Este conceito que procurei explicar, o da utilidade e justeza do uso dos bens materiais no serviço a Deus, é incompreensível à "luz" (que raio de luz, esta, que escurece as mentes!) da distorcida cosmovisão do "ateísmo esclarecido", nascido da defesa dos novos dogmas decretados pela soi disant "Razão" contra Deus no século XVIII.
sábado, 25 de agosto de 2007
Verde miséria
O desregulamento intelectual das sociedades modernas traz ao de cima, como um dos seus mais preocupantes sintomas, a multiplicação dos paradoxos morais.
Recentemente, um bando de indigentes "ecoterroristas", que usam uma fachada de pseudo-ecologia para entrar em acções agressivas, subversivas e anárquicas, destruiu parte de uma plantação de milho transgénico.
Chamar este acto analfabeto de "activismo ecológico", não passa, certamente, de um "verde" eufemismo...
O assunto foi noticiado ad nauseam pela Imprensa, ao ponto de se tornar irrelevante discutir os detalhes. Sobretudo, é precoce discutir o facto de a polícia pouco ou nada ter feito, e de os nossos "ecoterroristas" não terem sido sancionados ou obrigados a pagar os estragos físicos e psicológicos, porque o problema encontra-se mais a montante.
Quer se queira, quer não, tornou-se socialmente aceitável usar da violência em nome de certas causas "politicamente correctas" como a ecologia, a protecção dos animais, ou mesmo essa vaga e intelectualmente confrangedora luta contra o "G-8".
Os nossos políticos, independentemente do seu quadrante (sendo certamente mais presentes na extrema esquerda a tendência para a apologia e mesmo patrocínio deste tipo de violência), começam a pouco e pouco a aceitar certos actos de violência como parte da liberdade de expressão.
Queimar viaturas passa a ter uma causa justa: a opressão económica do G-8 sobre o Mundo!
Conspurcar e vandalizar praças de toiros passa a ter uma causa justa: defender o pobre toiro da violência humana.
Destruir colheitas passa a ter uma causa justa: lutar contra os alimentos geneticamente modificados (independentemente do gene que é modificado, até porque tal gente não sabe bem o que é isso de genética).
Contudo, os mesmos activistas, apostando numa versão invertida e perversa de "causa justa", distorcem o real significado do que é uma luta por uma causa justa.
A ética mais justa e universal considera que é justo lutar (usar da violência) em auto-defesa, ou em defesa daqueles que temos à nossa responsabilidade.
Acima de todos os direitos está o direito à vida. Quando certos activistas anti-aborto atacam os matadouros onde se pratica o aborto "legal", os mesmos defensores da violência contra o milho transgénico ou da violência contra as praças de touros, indignam-se perante actos que, segundo eles, atentam contra direitos da mulher. Chegam a chamar de fanáticos aqueles que atentam contra tais "clínicas".
Estranha distorção de conceitos...
É certamente ilegítimo matar um "médico" abortista, mesmo que durante a prática do seu vil acto, se existir uma alternativa não cruenta. Contudo, é eticamente discutível se será assim tão errado tentar impedir um aborto provocando estragos materiais, sem atentar contra a vida de ninguém.
Destruir material médico, ou partir vidros de uma clínica, como estratégia para evitar a morte de um feto humano parece-me algo que dificilmente poderá ser visto como não ético, a não ser numa nova forma "moderna" de ética que dá mais valor ético aos vidros e aos aparelhos médicos do que ao ser humano.
Mas a essência desta minha interrogação está aqui: que raio de perversão intelectual viverá na mente daqueles activistas (e respectivos protectores políticos) que usam da violência para defender o milho natural e os toiros, mas que não se sentem minimamente apiedados pela vida humana fetal ou embrionária?
Aos olhos de certos políticos da esquerda radical (mas a doença também se alastra para a direita), faz parte da moderna "kulturkampf" valorizar mais a vida animal ou vegetal do que a humana... A verdade é que a corrente utilitarista, que hoje em dia campeia no estudo da Ética, com prejuízo para a clássica ética deontológica, tem cumprido a sua função de dissolução da hierarquia de valores.
O ser humano moderno, viciado numa falsa intelectualidade, perdido na árdua batalha quotidiana para conseguir hierarquizar minimamente os seus valores éticos, está agora a ser convencido pela ética utilitarista moderna a abdicar totalmente desses mesmos valores, que são vistos pelos "novos pensantes" como algo semelhante a fósseis de uma antiga religiosidade caduca, que urge extinguir em nome do dogma do "Progresso".
Recentemente, um bando de indigentes "ecoterroristas", que usam uma fachada de pseudo-ecologia para entrar em acções agressivas, subversivas e anárquicas, destruiu parte de uma plantação de milho transgénico.
Chamar este acto analfabeto de "activismo ecológico", não passa, certamente, de um "verde" eufemismo...
O assunto foi noticiado ad nauseam pela Imprensa, ao ponto de se tornar irrelevante discutir os detalhes. Sobretudo, é precoce discutir o facto de a polícia pouco ou nada ter feito, e de os nossos "ecoterroristas" não terem sido sancionados ou obrigados a pagar os estragos físicos e psicológicos, porque o problema encontra-se mais a montante.
Quer se queira, quer não, tornou-se socialmente aceitável usar da violência em nome de certas causas "politicamente correctas" como a ecologia, a protecção dos animais, ou mesmo essa vaga e intelectualmente confrangedora luta contra o "G-8".
Os nossos políticos, independentemente do seu quadrante (sendo certamente mais presentes na extrema esquerda a tendência para a apologia e mesmo patrocínio deste tipo de violência), começam a pouco e pouco a aceitar certos actos de violência como parte da liberdade de expressão.
Queimar viaturas passa a ter uma causa justa: a opressão económica do G-8 sobre o Mundo!
Conspurcar e vandalizar praças de toiros passa a ter uma causa justa: defender o pobre toiro da violência humana.
Destruir colheitas passa a ter uma causa justa: lutar contra os alimentos geneticamente modificados (independentemente do gene que é modificado, até porque tal gente não sabe bem o que é isso de genética).
Contudo, os mesmos activistas, apostando numa versão invertida e perversa de "causa justa", distorcem o real significado do que é uma luta por uma causa justa.
A ética mais justa e universal considera que é justo lutar (usar da violência) em auto-defesa, ou em defesa daqueles que temos à nossa responsabilidade.
Acima de todos os direitos está o direito à vida. Quando certos activistas anti-aborto atacam os matadouros onde se pratica o aborto "legal", os mesmos defensores da violência contra o milho transgénico ou da violência contra as praças de touros, indignam-se perante actos que, segundo eles, atentam contra direitos da mulher. Chegam a chamar de fanáticos aqueles que atentam contra tais "clínicas".
Estranha distorção de conceitos...
É certamente ilegítimo matar um "médico" abortista, mesmo que durante a prática do seu vil acto, se existir uma alternativa não cruenta. Contudo, é eticamente discutível se será assim tão errado tentar impedir um aborto provocando estragos materiais, sem atentar contra a vida de ninguém.
Destruir material médico, ou partir vidros de uma clínica, como estratégia para evitar a morte de um feto humano parece-me algo que dificilmente poderá ser visto como não ético, a não ser numa nova forma "moderna" de ética que dá mais valor ético aos vidros e aos aparelhos médicos do que ao ser humano.
Mas a essência desta minha interrogação está aqui: que raio de perversão intelectual viverá na mente daqueles activistas (e respectivos protectores políticos) que usam da violência para defender o milho natural e os toiros, mas que não se sentem minimamente apiedados pela vida humana fetal ou embrionária?
Aos olhos de certos políticos da esquerda radical (mas a doença também se alastra para a direita), faz parte da moderna "kulturkampf" valorizar mais a vida animal ou vegetal do que a humana... A verdade é que a corrente utilitarista, que hoje em dia campeia no estudo da Ética, com prejuízo para a clássica ética deontológica, tem cumprido a sua função de dissolução da hierarquia de valores.
O ser humano moderno, viciado numa falsa intelectualidade, perdido na árdua batalha quotidiana para conseguir hierarquizar minimamente os seus valores éticos, está agora a ser convencido pela ética utilitarista moderna a abdicar totalmente desses mesmos valores, que são vistos pelos "novos pensantes" como algo semelhante a fósseis de uma antiga religiosidade caduca, que urge extinguir em nome do dogma do "Progresso".
domingo, 23 de maio de 2004
Roberto Calvi
São negros os contornos do assassinato de Roberto Calvi, mas bem ao estilo da Máfia. Em Junho de 1982, Roberto Calvi, administrador do Banco Ambrosiano, viajava para Londres após o colapso da instituição bancária à qual predisia.
Foi encontrado morto, a 18 de Junho de 1982, sob a Blackfriars Bridge, com tijolos nos bolsos e 15 mil libras em dinheiro. Provas de peritagem forense concluiram que o banqueiro nunca tocou nos tijolos que tinha nos bolsos.
O site "Misteri d'Italia" está carregado de informação sobre este e outros casos correlacionados.
A família, a viúva Calvi e o filho Roberto, sempre defenderam a tese do homicídio. Esperam há 22 anos que se encontrem e julguem, não só os perpetradores materiais do crime, mas também o seus instigadores, os autores morais.
A BBC News mencionou esta semana que quatro pessoas irão ser julgadas numa primeira fase pelo assassinato do banqueiro do Ambrosiano.
Algumas já são caras conhecidas: o mafioso Pippo Calo (que será julgado por videoconferência, uma vez que está a cumprir duas penas de prisão perpétua), e Flavio Carboni. Faz-se referência a uma mulher austríaca, capturada em Dezembro de 2003. As autoridades da Cidade de Londres estão a trabalhar activamente com a justiça italiana, e na sequência desta detenção no ano passado, o processo foi reaberto.
Roberto Calvi pertencia à loja maçónica Propaganda Due (P2), de Licio Gelli.
As suas ligações perigosas à Máfia são também sobejamente conhecidas. Contudo, a Máfia não mata sem uma razão forte. A Máfia também mata por encomenda.
O banco privado católico Ambrosiano, liderado por Roberto Calvi, teve um historial de contactos financeiros muito próximos com o IOR (Istituto Opere di Religione), o Banco do Vaticano.
Não quero com este artigo criticar, como é tradicional de certos movimentos anti-católicos, se o Vaticano deve ou não ter um Banco. É evidente que deve. Gostava, isso sim, de manifestar a minha vontade de ver este processo ir até ao fim, com a condenação dos autores materiais, mas também dos autores morais, que poderão ocupar importantes lugares em instituições supostas acima de suspeitas. Que se vá até ao fim! A dignidade e respeitabilidade da Igreja Católica, que está infelizmente muito próxima deste fumoso episódio Calvi, merecem que se descubram os culpados, que se aplique a Justiça, e que se evitem semelhantes situações no futuro.
Um certo pragmatismo de algumas elites liderantes, que crêem que os fins justificam os meios, mancham por vezes a folha de cadastro das instituições que lideram. Que caia por terra todo o tipo de pragmatismo! Os fins não justificam os meios. Que se reconheçam as faltas, e que se peça humildemente perdão aos Homens e a Deus...
Bernardo
Foi encontrado morto, a 18 de Junho de 1982, sob a Blackfriars Bridge, com tijolos nos bolsos e 15 mil libras em dinheiro. Provas de peritagem forense concluiram que o banqueiro nunca tocou nos tijolos que tinha nos bolsos.
O site "Misteri d'Italia" está carregado de informação sobre este e outros casos correlacionados.
A família, a viúva Calvi e o filho Roberto, sempre defenderam a tese do homicídio. Esperam há 22 anos que se encontrem e julguem, não só os perpetradores materiais do crime, mas também o seus instigadores, os autores morais.
A BBC News mencionou esta semana que quatro pessoas irão ser julgadas numa primeira fase pelo assassinato do banqueiro do Ambrosiano.
Algumas já são caras conhecidas: o mafioso Pippo Calo (que será julgado por videoconferência, uma vez que está a cumprir duas penas de prisão perpétua), e Flavio Carboni. Faz-se referência a uma mulher austríaca, capturada em Dezembro de 2003. As autoridades da Cidade de Londres estão a trabalhar activamente com a justiça italiana, e na sequência desta detenção no ano passado, o processo foi reaberto.
Roberto Calvi pertencia à loja maçónica Propaganda Due (P2), de Licio Gelli.
As suas ligações perigosas à Máfia são também sobejamente conhecidas. Contudo, a Máfia não mata sem uma razão forte. A Máfia também mata por encomenda.
O banco privado católico Ambrosiano, liderado por Roberto Calvi, teve um historial de contactos financeiros muito próximos com o IOR (Istituto Opere di Religione), o Banco do Vaticano.
Não quero com este artigo criticar, como é tradicional de certos movimentos anti-católicos, se o Vaticano deve ou não ter um Banco. É evidente que deve. Gostava, isso sim, de manifestar a minha vontade de ver este processo ir até ao fim, com a condenação dos autores materiais, mas também dos autores morais, que poderão ocupar importantes lugares em instituições supostas acima de suspeitas. Que se vá até ao fim! A dignidade e respeitabilidade da Igreja Católica, que está infelizmente muito próxima deste fumoso episódio Calvi, merecem que se descubram os culpados, que se aplique a Justiça, e que se evitem semelhantes situações no futuro.
Um certo pragmatismo de algumas elites liderantes, que crêem que os fins justificam os meios, mancham por vezes a folha de cadastro das instituições que lideram. Que caia por terra todo o tipo de pragmatismo! Os fins não justificam os meios. Que se reconheçam as faltas, e que se peça humildemente perdão aos Homens e a Deus...
Bernardo
quinta-feira, 6 de novembro de 2003
Camarate
Saiu hoje no Público a seguinte notícia:
"Auditoria ao Fundo de Defesa do Ultramar revela irregularidades"
O artigo avança, dir-se-ia a medo, com a seguinte frase introdutória: "Poderá sair reforçada a teoria de atentado no caso Camarate".
"Poderá sair reforçada"?
Ainda haverá alguém que duvide do atentado e das suas razões?
Obviamente, estas razões prendem-se com as movimentações do Fundo de Defesa do Ultramar, autêntico "saco azul" que foi usado repetidas vezes para negócios de armamento que importa esclarecer.
O livro de Ricardo Sá Fernandes, "O Crime de Camarate" já tem alguns anos, mas aparentemente não provocou ondas nenhumas, e isto apesar de ser um trabalho de investigação extenso, exaustivo e convincente. De que é que estamos à espera? Alguém ainda espera alguma coisa desta Comissão Parlamentar de Inquérito? Que andam eles a inquirir?
O problema é que alguns culpados e responsáveis ainda estão vivos. Só quando estas pessoas morrerem é que se poderá "saber" a verdade, até às últimas consequências. Estão envolvidas pessoas de todos os quadrantes políticos e também das Forças Armadas, sempre intocáveis.
Adelino Amaro da Costa foi assassinado no preciso momento em que ia iniciar uma investigação ao Fundo do Ultramar. Sá Carneiro teve o azar de partilhar o Cessna com Amaro da Costa.
E assim partiram juntos para o Porto naquela noite fatídica, numa viagem que terminou poucos minutos depois da descolagem com a detonação de um engenho explosivo.
As provas existem. Sá Fernandes apresenta-as de forma irrefutável. Vestígios de explosivos. Peritagem dos destroços. Depoimentos de pessoas envolvidas. Relatos de testemunhas oculares.
O português comum, como sempre, nada sabe sobre isto. Pior... Não se interessa.
Bernardo
"Auditoria ao Fundo de Defesa do Ultramar revela irregularidades"
O artigo avança, dir-se-ia a medo, com a seguinte frase introdutória: "Poderá sair reforçada a teoria de atentado no caso Camarate".
"Poderá sair reforçada"?
Ainda haverá alguém que duvide do atentado e das suas razões?
Obviamente, estas razões prendem-se com as movimentações do Fundo de Defesa do Ultramar, autêntico "saco azul" que foi usado repetidas vezes para negócios de armamento que importa esclarecer.
O livro de Ricardo Sá Fernandes, "O Crime de Camarate" já tem alguns anos, mas aparentemente não provocou ondas nenhumas, e isto apesar de ser um trabalho de investigação extenso, exaustivo e convincente. De que é que estamos à espera? Alguém ainda espera alguma coisa desta Comissão Parlamentar de Inquérito? Que andam eles a inquirir?
O problema é que alguns culpados e responsáveis ainda estão vivos. Só quando estas pessoas morrerem é que se poderá "saber" a verdade, até às últimas consequências. Estão envolvidas pessoas de todos os quadrantes políticos e também das Forças Armadas, sempre intocáveis.
Adelino Amaro da Costa foi assassinado no preciso momento em que ia iniciar uma investigação ao Fundo do Ultramar. Sá Carneiro teve o azar de partilhar o Cessna com Amaro da Costa.
E assim partiram juntos para o Porto naquela noite fatídica, numa viagem que terminou poucos minutos depois da descolagem com a detonação de um engenho explosivo.
As provas existem. Sá Fernandes apresenta-as de forma irrefutável. Vestígios de explosivos. Peritagem dos destroços. Depoimentos de pessoas envolvidas. Relatos de testemunhas oculares.
O português comum, como sempre, nada sabe sobre isto. Pior... Não se interessa.
Bernardo
quarta-feira, 5 de novembro de 2003
ESTUDANTES!!!
O ano lectivo começou em Setembro e desde então até ao dia de hoje, 5 de Novembro, temos assistido a greves, invasões, vigílias e manifestações, protagonizadas e organizadas pelos estudantes do nosso ensino superior.
Tendo em conta o tempo despendido na participação e organização de tão distintos e importantes eventos, será que resta algum tempo aos estudantes para estudarem e assistirem às aulas?
Pois... é natural que também estejam contra a lei das prescrições!
Abraço,
Duarte
Tendo em conta o tempo despendido na participação e organização de tão distintos e importantes eventos, será que resta algum tempo aos estudantes para estudarem e assistirem às aulas?
Pois... é natural que também estejam contra a lei das prescrições!
Abraço,
Duarte
sexta-feira, 31 de outubro de 2003
SOBRE ESTA PEDRA
O Papa está a fazer uma coisa muito difícil, em que o “corpo é que paga”. Está a morrer diante de nós, depois de envelhecer diante de nós, restituindo a uma parte da vida, que escondemos em lares sórdidos para nosso conforto, uma dignidade essencial. É uma opção que muitos não compreenderam, porque têm o culto da juventude e da eficácia, da energia e da vitalidade, e não perceberam a última lucidez deste homem – a de nos devolver a integridade da vida toda.
O Papa é um dos homens de estado com maior influência na história do século XX, e, junto com Reagan, acabou com o império soviético. Mas não se ficou por aí: devolveu, pelo exemplo, à Igreja católica, uma imagem pública espiritual, que a burocratização do papado tinha perdido nos últimos séculos. A Igreja vai torná-lo santo rapidamente, mas desta vez o milagre está a ver-se todos os dias.
Pacheco Pereira
BLOG: Posted 18:35 by JPP em 01/10/2003
Abraço,
Duarte.
O Papa é um dos homens de estado com maior influência na história do século XX, e, junto com Reagan, acabou com o império soviético. Mas não se ficou por aí: devolveu, pelo exemplo, à Igreja católica, uma imagem pública espiritual, que a burocratização do papado tinha perdido nos últimos séculos. A Igreja vai torná-lo santo rapidamente, mas desta vez o milagre está a ver-se todos os dias.
Pacheco Pereira
BLOG: Posted 18:35 by JPP em 01/10/2003
Abraço,
Duarte.
quinta-feira, 30 de outubro de 2003
A anarquia de alguns "estudantes"...
Quem me conhece sabe que tenho pouca paciência para estudantes contestatários.
Sobretudo no que toca ao eterno assunto das propinas.
"Estudantes de Letras de Lisboa interrompem reunião de Conselho Directivo", li hoje no Público...
«Os estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa interromperam hoje uma reunião do Conselho Directivo em que devia ser aprovado o valor das propinas para este ano, o que levou à suspensão do encontro. O mesmo aconteceu há uma semana, quando os alunos interromperam a mesma reunião.
Os estudantes recorrem a este expediente para mostrar a sua oposição à fixação de qualquer valor para a propina na faculdade em resposta ao "sucessivo desinvestimento do Estado no ensino superior", tendo em conta que a nova legislação atribui às universidades a responsabilidade de fixar o valor de propina anual.»
O caos a que isto chegou é bem claro. A interrupção de uma reunião do Conselho Directivo parece-me, a mim que sou antiquado, uma ofensa grave por parte de todos os que nela participem.
Castigos?
Sanções disciplinares para estes pequenos anarcas, para estes jovens revolucionários?
Não me parece que venham a fazê-las...
Os "estudantes" da Faculdade de Letras que participaram nesta fantochada, e que serão na esmagadora maioria iletrados, mostram desta maneira como estão claramente contra conceitos como autoridade, respeito, dignidade, obediência, decência, civismo, educação, JUSTIÇA, entre tantos outros.
Ao menos quando se interrompem as sessões parlamentares em São Bento lá surge a PSP para mostrar aos abusadores o caminho para a saída!
Bernardo
Sobretudo no que toca ao eterno assunto das propinas.
"Estudantes de Letras de Lisboa interrompem reunião de Conselho Directivo", li hoje no Público...
«Os estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa interromperam hoje uma reunião do Conselho Directivo em que devia ser aprovado o valor das propinas para este ano, o que levou à suspensão do encontro. O mesmo aconteceu há uma semana, quando os alunos interromperam a mesma reunião.
Os estudantes recorrem a este expediente para mostrar a sua oposição à fixação de qualquer valor para a propina na faculdade em resposta ao "sucessivo desinvestimento do Estado no ensino superior", tendo em conta que a nova legislação atribui às universidades a responsabilidade de fixar o valor de propina anual.»
O caos a que isto chegou é bem claro. A interrupção de uma reunião do Conselho Directivo parece-me, a mim que sou antiquado, uma ofensa grave por parte de todos os que nela participem.
Castigos?
Sanções disciplinares para estes pequenos anarcas, para estes jovens revolucionários?
Não me parece que venham a fazê-las...
Os "estudantes" da Faculdade de Letras que participaram nesta fantochada, e que serão na esmagadora maioria iletrados, mostram desta maneira como estão claramente contra conceitos como autoridade, respeito, dignidade, obediência, decência, civismo, educação, JUSTIÇA, entre tantos outros.
Ao menos quando se interrompem as sessões parlamentares em São Bento lá surge a PSP para mostrar aos abusadores o caminho para a saída!
Bernardo
terça-feira, 28 de outubro de 2003
J. K. Rowling e a Sociedade Teosófica
Que raio de título! Explico-me...
Volto de novo ao Harry Potter da escritora J. K. Rowling.
Não resisti a escrever estas linhas depois de saber que, na escola de feitiçaria de Hogwarts, é usado pelos alunos (não sei bem em que contexto, talvez numa aula) um livro de Adivinhação, obviamente ficcional, chamado "Unfogging the Future", cuja autora se chama Cassandra Vlabatsky.
Todos sabemos que J. K. Rowling tem especial mestria na escolha dos nomes dos lugares e das personagens, e que os usa como jogos de palavras e charadas verdadeiramente surpreendentes e de grande efeito cómico.
Agora, o nome escolhido por Rowling para a autora deste livro ficcional é um nome, no mínimo, muito suspeito.
Cassandra Vlabatsky?
Claro que o grande público, nomeadamente 99,9 % dos leitores de Rowling, não deve fazer ideia de quem foi Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), nem em que consistiu e consiste a sua Sociedade Teosófica.
A Sociedade Teosófica, fundada por Blavatsky, foi a percursora do New Age. Blavatsky introduziu no Ocidente uma verdadeira avalanche de pseudo-doutrinas que não são mais do que a deturpação consciente e desonesta das verdadeiras doutrinas orientais. Blavastky e a Sociedade Teosófica exerceram uma enorme influência, prejudicial, nas mentalidades do século XX, e sucede que hoje em dia já quase se esqueceu esta mulher e a sua obra infernal.
Não vou atacar os livros de J. K. Rowling, nem menosprezar as suas histórias, que admito serem bastante complexas e empolgantes, apesar de não fazerem parte dos meus gostos de leitura. É obviamente desejável recuperar a literatura de aventura e o entusiasmo pela leitura em si, sobretudo junto da juventude, e J. K. Rowling é, nesse aspecto, uma autora que merece destaque.
Agora, não posso deixar de questionar que motivações estarão por trás da escolha do nome Vlabatsky por parte de Rowling. Pura coincidência? A pura coincidência parece-me muito pouco provável. Se, por outro lado, Rowling conhece bem Blavatsky e a sua obra, e quis fazer uma charada com o seu nome, lanço aqui um alerta aos leitores, e sobretudo aos pais dos leitores: estejam atentos e informem-se sobre quem era Blavatsky e sobre o que ela fez.
Seria muito perigoso, sobretudo para os leitores mais novos, se J. K. Rowling estivesse a deixar "transpirar" para as suas obras, e para um público não preparado, os ideais e as teorias da Sociedade Teosófica. Repito, já é bastante suspeito que ela brinque com coisas sérias, fazendo a deturpação Blavatsky/Vlabatsky. Faz-me pensar o que achará J. K. Rowling das ideias de Blavatsky, e na inspiração que poderá ter tirado de obras desta como "The Secret Doctrine" ou "Isis Unveiled".
Espero estar a exagerar, mas aqui fica o aviso.
Bernardo
Volto de novo ao Harry Potter da escritora J. K. Rowling.
Não resisti a escrever estas linhas depois de saber que, na escola de feitiçaria de Hogwarts, é usado pelos alunos (não sei bem em que contexto, talvez numa aula) um livro de Adivinhação, obviamente ficcional, chamado "Unfogging the Future", cuja autora se chama Cassandra Vlabatsky.
Todos sabemos que J. K. Rowling tem especial mestria na escolha dos nomes dos lugares e das personagens, e que os usa como jogos de palavras e charadas verdadeiramente surpreendentes e de grande efeito cómico.
Agora, o nome escolhido por Rowling para a autora deste livro ficcional é um nome, no mínimo, muito suspeito.
Cassandra Vlabatsky?
Claro que o grande público, nomeadamente 99,9 % dos leitores de Rowling, não deve fazer ideia de quem foi Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), nem em que consistiu e consiste a sua Sociedade Teosófica.
A Sociedade Teosófica, fundada por Blavatsky, foi a percursora do New Age. Blavatsky introduziu no Ocidente uma verdadeira avalanche de pseudo-doutrinas que não são mais do que a deturpação consciente e desonesta das verdadeiras doutrinas orientais. Blavastky e a Sociedade Teosófica exerceram uma enorme influência, prejudicial, nas mentalidades do século XX, e sucede que hoje em dia já quase se esqueceu esta mulher e a sua obra infernal.
Não vou atacar os livros de J. K. Rowling, nem menosprezar as suas histórias, que admito serem bastante complexas e empolgantes, apesar de não fazerem parte dos meus gostos de leitura. É obviamente desejável recuperar a literatura de aventura e o entusiasmo pela leitura em si, sobretudo junto da juventude, e J. K. Rowling é, nesse aspecto, uma autora que merece destaque.
Agora, não posso deixar de questionar que motivações estarão por trás da escolha do nome Vlabatsky por parte de Rowling. Pura coincidência? A pura coincidência parece-me muito pouco provável. Se, por outro lado, Rowling conhece bem Blavatsky e a sua obra, e quis fazer uma charada com o seu nome, lanço aqui um alerta aos leitores, e sobretudo aos pais dos leitores: estejam atentos e informem-se sobre quem era Blavatsky e sobre o que ela fez.
Seria muito perigoso, sobretudo para os leitores mais novos, se J. K. Rowling estivesse a deixar "transpirar" para as suas obras, e para um público não preparado, os ideais e as teorias da Sociedade Teosófica. Repito, já é bastante suspeito que ela brinque com coisas sérias, fazendo a deturpação Blavatsky/Vlabatsky. Faz-me pensar o que achará J. K. Rowling das ideias de Blavatsky, e na inspiração que poderá ter tirado de obras desta como "The Secret Doctrine" ou "Isis Unveiled".
Espero estar a exagerar, mas aqui fica o aviso.
Bernardo
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