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sábado, 28 de maio de 2011

15 de Maio de 2011: o rito antigo de volta a São Pedro!


Quando foi eleito para a cátedra de São Pedro, Bento XVI foi considerado por muitos como um papa de transição. Com seis anos de papado concluídos, Bento XVI não pára de surpreender, refutando os que o viam como um Papa meramente transitório entre João Paulo II e um futuro Papa mais novo (Joseph Ratzinger foi eleito Papa com 78 anos de idade).

No dia 7 de Julho de 2007, Bento XVI encerrou um capítulo doloroso para a Igreja, e escancarou as portas do futuro da liturgia romana, com a promulgação da Carta Apostólica Summorum Pontificum, na qual liberou o uso do rito antigo, agora chamado de "forma extraordinária" da liturgia romana, cuja última edição datava de 1962, durante o Papado de João XXIII. Digo doloroso, porque na esteira de reforma litúrgica que culminou com a publicação do novo missal (agora chamado de "forma ordinária" da liturgia romana) de Paulo VI, não foram poucas as pessoas que quiseram, desde então, manter a prática do rito antigo, enquanto este era abandonado um pouco por toda a parte. E, tragicamente, alguns grupos de católicos, por vezes chamados de "tradicionalistas", associaram a manutenção da prática desse rito à rejeição do Concílio Vaticano II. Alguns mais extremistas, rejeitando não só a reforma litúrgica e o Vaticano II, chegaram ao ponto de dizer que a Sé de Pedro estava vaga desde Pio XII, considerando hereges todos os papas posteriores (são os "sedevacantistas"). Estes movimentos, cuja desobediência a Roma varia em maior ou menor grau, afastaram-se da Igreja Católica, e o seu afastamento gerou feridas. Por outro lado, outros movimentos dentro da Igreja, cuja heresia modernista varia em maior ou menor grau, promovendo consciente ou inconscientemente uma erosão da liturgia (aliás, em contraste com as decisões do Concílio), geraram feridas de sinal oposto. Bento XVI está a colocar um ponto final em tudo isto, dando uma lição, quer aos "tradicionalistas" que desobedecem ao Santo Padre, quer aos hereges "modernistas" que têm promovido, no último meio século, a dissolução da tradição católica, nomeadamente da liturgia.

Bento XVI, em 2007, com a Summorum Pontificum, sarou essas feridas. Bento XVI não iniciou este processo, uma vez que João Paulo II já tinha dado passos importantes no sentido do que veio a ser a Summorum Pontificum (por exemplo, a Carta Apostólica Ecclesia Dei, de 1998). Mas Bento XVI levou o processo até ao fim.

Porque é que tudo isto é importante?
Alguns católicos julgam que isto não passa de saudosismos inúteis. Outros julgam que isto implica o regresso do latim à liturgia. Os equívocos são imensos. O missal de Paulo VI era em latim, e o rito ordinário previa o uso do vernáculo como excepção. Infelizmente, o vernáculo tornou-se regra, a tal ponto que hoje em dia o comum dos fiéis tem enormes dificuldades em pronunciar as mais simples expressões litúrgicas em latim. No espaço de meio século, os católicos praticamente perderam um património litúrgico multissecular, quer simbólico, quer pictórico, quer arquitectónico, quer musical, quer textual, quer gestual.

A depredação litúrgica que se seguiu ao Vaticano II não consistiu numa obediência a esse grande concílio, mas sim numa traição ao mesmo. Hoje em dia, as nossas liturgias estão marcadas pela banalização de gestos espúrios à tradição católica, confusões infindáveis acerca do papel dos leigos e do sacerdote na liturgia, e emprego de formas musicais de tão má qualidade, e de origem tão pouco sacra, que se tornou impossível reconhecê-las como música litúrgica. Deitámos fora um tesouro.

Bento XVI está a recuperar esse tesouro, que todos nós deitamos na lixeira há meio século atrás. Esta recuperação ficará na História como uma das marcas mais indeléveis do seu papado. Mantendo a fidelidade ao Concílio Vaticano II, e à reforma litúrgica que culminou no Missal de Paulo VI (afinal de contas, o rito ordinário, ou seja, principal da liturgia romana), o actual Papa trouxe de volta o usus antiquior, e com ele voltou todo o esplendor litúrgico dessa tradição. Como o Papa explica, a forma ordinária da liturgia romana pode ser enriquecida com a prática da forma extraordinária, e vice-versa. É precisamente a mesma hermenêutica da "reforma na continuidade", aplicada agora à liturgia, que Bento XVI tem aplicado de forma incansável em defesa da correcta leitura do Vaticano II.

Os velhos do Restelo dirão que a forma extraordinária é antiquada. Mas, um pouco como dizia o Chesterton, há algo de curioso acerca das coisas consideradas antiquadas pelos que se acham "modernos". Se uma coisa sobrevive tempo suficiente para ser considerada antiquada pelos "modernos", é porque tem certamente mais valor do que outras coisas que nem sequer sobreviveram para receber esse epíteto dos bem-pensantes do nosso tempo.

Aqui em Portugal, não tem faltado resistência à Summorum Pontificum. Dizem-nos que é porque os portugueses não estão interessados na forma extraordinária, ou porque já se esqueceram do latim. Uma curiosa ironia, visto que, como referi atrás, o rito ordinário, o de Paulo VI, prescreve o latim como norma. Ou seja, os guardiães do rito ordinário não o têm aplicado bem, o que teve com consequência a óbvia erosão da cultura litúrgica dos fiéis. No entanto, cresce de dia para dia o número de católicos desejosos de conhecer e de viver essa experiência litúrgica multissecular que é a forma extraordinária do rito romano.

Na Summorum Pontificum, Bento XVI propôs um período de três anos para se avaliar a eficácia da sua aplicação e para se debaterem eventuais dificuldades. Passado esse período, e depois de realizados três Congressos dedicados ao tema, a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei assinou, no passado dia 30 de Abril, a instrução Universae Ecclesiae, tornada pública a 13 de Maio, uma data que certamente não é uma coincidência.

Este documento torna definitiva a liberalização do rito antigo para todos os fiéis que o pretenderem, esclarecendo certos termos e expressões da Summorum Pontificum que tinham recebido interpretações erradamente restritivas. Aguardo com grande expectativa a primeira missa segundo o usus antiquior aqui em Lisboa. Será certamente algo de admirável e memorável!

No passado dia 15 de Maio, quase meio século depois, a forma extraordinária do rito romano regressou à Basílica de São Pedro. Uma data histórica! Foi celebrada Missa Pontifícia no Faldistório, no altar da Cátedra, pelo Cardeal Walter Brandmüller. O facto de ter sido o Cardeal Brandmüller a celebrá-la enche-me de imensa satisfação. Trata-se de um grande historiador, um dos maiores especialistas em história conciliar, e um dos braços direitos de Bento XVI na defesa da interpretação do Concílio Vaticano II segundo a hermenêutica da continuidade, e contra a hermenêutica da ruptura, que pretende fazer do Vaticano II um Concílio contra todos os anteriores. Brandmüller é um dos mais recentes cardeais do Colégio Cardinalício (20 de Novembro de 2010), mas a sua obra publicada é há muito conhecida dos que se interessam por certos temas importantes da História da Igreja, como sejam o caso Galileu, o papel da Igreja Católica na Segunda Guerra Mundial, ou a história dos Concílios.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Nós somos Igreja" - relato de um confronto

«There can be no combination on the basis of truth without an organ of truth» - Beato John Henry Cardeal Newman (1801-1890)

No passado Sábado, dia 2 de Abril, teve lugar no Convento de São Domingos um debate intitulado O Concílio Vaticano II: onde está?, organizado pelo movimento "Nós Somos Igreja". A minha primeira reacção à notícia deste debate, via Agência Ecclesia, foi de espanto e de indignação. Estava, e ainda estou, indignado com o facto de uma agência noticiosa católica dar cobertura a um evento herético.

A palavra "herege" ainda assusta muita gente. E há boas e más razões para tal. As boas razões são evidentes: as heresias ferem a unidade eclesial e colocam os seus defensores numa indesejável situação espiritual. As más razões são menos evidentes, e prendem-se com o desconhecimento do significado do adjectivo "herege" ou do substantivo "heresia". Ambas as palavras têm uma origem etimológica no conceito de "escolha", e assim designam aqueles cristãos que optam por doutrinas diversas da que nos une. Quando alguém que pertence à Igreja de Cristo opta por uma doutrina diferente da doutrina cristã, é essa opção herética que é a causa da exclusão dessa pessoa da unidade eclesial. É quem diverge da doutrina que se exclui. Então, erram todos os que julgam que é a Igreja que exclui os hereges. Os hereges é que se auto-excluem da unidade eclesial. E enquanto que o acto de heresia, hoje em dia, é bem visto (parece "moderno"), paradoxalmente fica mal visto quem chama as coisas pelo seu nome. E raramente se censura o cristão que, persistindo na heresia, pretende arrastar mais cristãos com ele. E raramente se avaliam com seriedade os enormes riscos para a unidade eclesial de toda e qualquer iniciativa herética. Quando as ideias heréticas almejam, frequentemente, ter voz activa na Igreja, e mobilizam, também frequentemente, os poderes mediáticos para promover tal fim, o cristão tem o direito e o dever de levantar a sua voz. O Vaticano II, pelo destaque que dá ao papel dos leigos, legitima-nos a levantar a voz em defesa da unidade eclesial e contra aqueles que a pretendem ferir.

Contra uma errada dicotomia, que pretende o confronto entre o Magistério e o dito "Povo de Deus", o comum dos fiéis, que faz parte do Povo de Deus (sim, também fazemos parte!), tem o direito de levantar a sua voz e de dizer que, por acaso, até está com o Magistério da Igreja, que está com o Santo Padre e com os Bispos a ele unidos, e que lhes quer bem. Não por eles serem excelentes pessoas (que muitas vezes são), mas porque a eles corresponde, por mandato divino, a difícil e nobre missão de preservar, transmitir e ensinar a doutrina que nos foi legada por Jesus Cristo, Senhor Nosso.

Considero que seria faltar à caridade cristã ficar-me apenas pelo comentário blogosférico, ou ficar-me pelo "e-mail" que escrevi à Agência Ecclesia, a protestar pela divulgação do dito evento promovido pelo movimento herético "Nós Somos Igreja". Qualquer cristão, em podendo, não foge a dar a cara pelas suas convicções. E foi por isso que me dirigi, no passado Sábado, à casa dos Dominicanos em Lisboa, junto à Avenida Lusíada, para escutar o dito debate, cujo tema era o Concílio Vaticano II.

Entrei na sala do debate com genuíno espírito de escuta. Escutei atentamente, com respeito, e com o coração aberto, todos os oradores do painel. Apesar da seriedade do tema, e das minhas discordâncias de fundo, não deixei de sorrir quando surgiram legítimas razões para tal: quando os participantes do debate disseram coisas com as quais concordava, acenei com a cabeça e manifestei discretamente a minha concordância pontual. Nunca deixei de os ver como meus irmãos em Cristo, como são todos os baptizados. E que não haja a menor dúvida de que a minha atitude, a minha presença, as minhas críticas, só fazem sentido se eu os considerar como tal. Alguém que não é cristão não poderia ser chamado de herege, logo, se uso o termo herege para adjectivar os apoiantes do movimento "Nós Somos Igreja" isso implica, forçosamente, que eu os veja como meus irmãos. Para além disso, o cristão, quando critica, quer corrigir o que está errado. E essa atitude é sempre uma atitude de caridade, e que deve ser caritativa, quer na forma quer no conteúdo. Ora, o acto de tentar corrigir uma heresia é sempre caritativo no conteúdo, mas deve também ser na forma, e nem sempre o é. Precisamente para eu tentar escapar a minha tendência para a escrita agressiva, e para contrariar a minha tendência para a soberba, optei por estar presente no debate, por estabelecer o contacto pessoal, por ver e debater com os meus irmãos olhos nos olhos.

Ouvi muitas coisas de que não gostei, sobretudo porque eram coisas que traíam os ensinamentos de Cristo e feriam a Igreja e a unidade eclesial. Mas, em verdade, também ouvi algumas coisas de que gostei. Pelo que a minha impressão geral, depois de conhecer os membros e apoiantes deste movimento, é a de que parecem ser pessoas empenhadas, que procuram o bem e a justiça, e que só por isso, merecem pelo menos a nossa consideração e a nossa fraternidade. No entanto, por detrás das melhores intenções, estão medidas inaceitáveis, resumidas na já bem conhecida Petição do Povo de Deus. Tais medidas atacam, uma a uma, matéria doutrinal e moral há muito definida pelo Magistério (ver, por exemplo [1], [2], [3] e [4]). Então, a mera proposta dessas medidas tem que ferir a unidade eclesial, no sentido em que um cristão que propõe medidas que visam inverter decisões definitivas do Magistério é sempre um cristão que não aceita o Magistério enquanto tal. E aqui reside o cerne da heresia: a rejeição do Magistério, a rejeição do ministério episcopal de ensinar doutrina e costumes, ministério esse que cabe, por mandamento divino, ao Papa e aos Bispos a ele unidos.

Tentarei, de memória, comentar alguns aspectos das várias intervenções do painel de quatro oradores que compuseram a segunda parte do evento (apenas assisti a esta segunda parte). Em primeiro lugar, perturbou-me que o debate fosse unilateral: todos os intervenientes estavam em sintonia, quer entre si, quer com o moderador, o jornalista Manuel Vilas Boas, que para lá de meramente moderar, manifestava frequentemente a sua opinião, constituindo como que um quinto orador, mesmo que ocasional. Frei Bento Domingues, teólogo que já critiquei repetidas vezes neste blogue, estava presente mas não se manifestou oralmente, por não fazer parte do painel. Era, no entanto, notória e sabida a sua concordância com as opiniões emitidas durante todo o debate.

Antes de abrir a segunda parte do debate, por volta das 17 horas, o moderador pediu a Frei Mateus Peres, O.P., que fizesse uma intervenção. Frei Mateus Peres foi sintético: usou a expressão forte de "fracasso da aplicação do Vaticano II" para caracterizar a situação actual da Igreja Católica. Achei extremamente exagerado e injusto, dado que, quer Paulo VI, quer João Paulo II, dedicaram a maior parte dos seus papados à aplicação das decisões do Vaticano II. Seria precipitado dizer que tudo o que saiu do Vaticano II foi aplicado. Por exemplo, e só para dar um exemplo, a recomendação de dar o lugar primordial ao canto gregoriano, nas celebrações litúrgicas, é algo que ainda hoje está apenas a dar os primeiros passos. Mas entendi a mensagem de Frei Peres: a teologia dita "progressista" ou "liberal" quis sempre usar o Vaticano II para criar uma ruptura com a Tradição da Igreja com o objectivo de agradar ao Mundo. E, não satisfeita por não ter conseguido fazer embarcar os Pontífices nessa trajectória, essa teologia persiste em afirmar que o Vaticano II não foi aplicado. No entanto, existe ainda outra injustiça: é que os teólogos progressistas ou liberais tiveram a sua oportunidade para mudar a Igreja no sentido que desejavam, e nesse aspecto não fizeram cerimónias: exerceram várias décadas de influência junto dos seminários, das universidades católicas, das paróquias, dos institutos culturais da Igreja, dos "media" da Igreja, e finalmente das ordens religiosas, tendo mesmo entrado em algumas ordens de forma tão profunda que abalaram os seus alicerces e modificaram substancialmente os seus carismas. É caso para dizer que o grande São Domingos, se estivesse vivo, nunca teria permitido este debate de Sábado na sua casa.

O resultado está à vista há vários anos: o último quarto do século XX ficará retratado, na história da Igreja Católica, como um período triste pela desertificação dos seminários, das paróquias, pela erosão da fé, pela banalização da liturgia, pela perda de cultura católica, pela redução do número de baptismos, de matrimónios, pela secularização generalizada da Igreja. Têm, a meu ver, razão aqueles que ligam causalmente esta secularização interna que marcou o último quarto do século XX ao fenómeno imoral dos abusos sexuais no seio da Igreja Católica, que marcou o mesmo período.

Seria, então, caso para perguntar a Frei Peres: não tiveram já tempo demais, os ditos "progressistas", os ditos "liberais", para fazerem as suas experiências? Não estão os frutos à vista? É preciso prosseguir com a sangria, e deixar a Igreja ainda mais moribunda? Claro que não. E Paulo VI, traído por inúmeros teólogos e sacerdotes, entendeu isso. E João Paulo II também. E por isso, ambos os pontífices seguiram o rumo correcto: aplicaram o Vaticano II como o Concílio que foi: um Concílio de continuidade com a tradição da Igreja. Um Concílio de abertura ao Mundo, mas sem deixar que a Igreja se tornasse no Mundo, uma abertura sem perda de continuidade, sem perda de carisma, sem perda de identidade. O legado de Paulo VI e de João Paulo II é demasiado valioso para ser trivializado. Estes Papas conduziram a barca de Pedro em direcção ao século XXI, e deixaram a Bento XVI uma Igreja que reencontrou a sua identidade, depois dos "abanões" dos anos 60 e 70. Eles salvaram a Igreja de um descarrilamento desastroso, e fizeram-no com toda a coerência: aplicando o Vaticano II. A verdade histórica vai, então, contra a afirmação peremptória de Frei Peres.

O moderador passou, depois, a palavra à pintora Emília Nadal. Confesso que foi a oradora por quem senti menos empatia e simpatia, e explico brevemente as minhas razões. Em primeiro lugar, a oradora usou boa parte do seu tempo para auto-elogiar a sua alegada (que não tenho bases para negar) influência junto do Papa João XXIII, nomeadamente em matéria de recomendação, junto do Papa, de figuras do clero nacional. Não lhe ficou bem. A certa altura, a oradora vincou o legado do Vaticano II em termos do destaque dado à Palavra de Deus. Achei curiosa esta menção, dado que boa parte das propostas do movimento "Nós Somos Igreja", conforme descritas no texto intitulado Petição do Povo de Deus, são manifestamente contraditórias com o Novo Testamento e com os ensinamentos de Jesus:
  • A escolha, por Jesus, de doze apóstolos do sexo masculino, em contradição com o pedido do movimento para o estabelecimento da ordenação sacerdotal de mulheres; esta tradição, que permeia todos os Quatro Evangelhos nas inúmeras vezes em que se dá destaque ao grupo dos Doze, volta a ser reforçada nos Actos dos Apóstolos, quando o grupo, reduzido a onze (devido à traição de Judas Iscariotes), decide escolher um novo apóstolo para ocupar o lugar de Judas; logo no primeiro capítulo dos Actos dos Apóstolos, vemos Pedro a tomar a palavra (exercendo o seu papel de cabeça do colégio apostólico) e a estipular que se escolha um substituto de entre os varões que testemunharam a ressurreição de Cristo (a palavra "viris" surge clara no versículo 21 da Vulgata): de entre as opções de José Barsabas, o "Justo", e Matias é escolhido este último;
  • O ensinamento claro de Jesus, que classifica a situação dos recasados como sendo uma situação de adultério, em contradição com o pedido do movimento de que os recasados possam aceder à Eucaristia; sobre isto, o movimento está totalmente enganado: a Igreja não exclui os recasados, como também não exclui os pecadores: uma coisa é excluir o pecado, outra é excluir os pecadores; não são só os recasados que não podem aceder à comunhão, mas sim todos os fiéis que estejam em situação de pecado mortal (cfr. 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios, 11, vs. 27: "Assim, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor.");
  • O ensinamento claro de Jesus acerca do matrimónio como união de carne entre um homem e uma mulher, em contradição com o pedido do movimento para uma "tolerância" em matéria de sexo extra-marital (seja ele heterossexual ou homossexual).

Depois, no discurso de Emília Nadal, seguiu-se um trecho simplesmente lastimável, no qual a oradora feriu gratuitamente as gerações mais novas, considerando-as "superficiais" e "desinteressadas". Haverá, certamente, alguma verdade nas suas palavras: em todas as gerações, há sempre pessoas superficiais e desinteressadas. Mas é fatal, e a história repete-se, que uma geração ceda à tentação de menosprezar as gerações mais novas e de fazer generalizações, quer banais, quer injustas. O tom subiu e o nível desceu: a oradora troçou da mole de jovens que têm frequentado as Jornadas Mundiais da Juventude, "sempre atrás do Papa". Eu, que participei nas JMJ's de Paris (1997) e de Roma (2000), senti-me esbofeteado verbalmente pela oradora. Esses eventos marcaram a minha vida. Fiz amigos incríveis, e tive experiências marcantes de fé. Que mal fizemos nós? Ir atrás do Papa... A oradora ainda aludiu à incoerência dos jovens que assistem a missas papais e depois usam preservativos. Sim, claro. Tem razão. Mas deveria ser tão farisaica, a oradora? Que outra coisa será o pecado senão a manifestação da contradição entre um ideal de vida e a prática do dia-a-dia? Quem, para além de Jesus Cristo e Nossa Senhora, está livre do Pecado Original? Emília Nadal atirou a primeira pedra: os jovens são contraditórios e pecam: agem contra a fé que dizem professar, mesmo quando correm atrás dos Papas. E não é essa a condição de pecador? Estará já a oradora num estádio espiritual de ausência de pecado?

A terrível ironia da situação apresentava-se aos meus olhos: enquanto Emília Nadal insultava as novas gerações, eu constatava as idades dos participantes do evento. Ao que tudo indica, naquela sala, eu seria o mais velho dos contestatários do "Nós Somos Igreja", sem vislumbrar apoiantes do movimento mais novos que eu. O pequeno grupo de cristãos que me acompanhou, também eles em desacordo com o movimento, era composto por pessoas ligeiramente mais novas que eu. Do lado do "Nós Somos Igreja", talvez o Pedro Freitas, coordenador do IMWAC, tenha a minha idade, cerca de 35 anos. Todos os restantes estavam na geração acima, ou duas gerações acima da minha. Achei triste. Ninguém, aparentemente, se deu conta da ironia: o movimento "Nós Somos Igreja", pelo menos pela amostra daquela sala, não parece atrair jovens. E porque será? Bom, eu diria que não é fácil atrair juventude quando se usam palavras tão duras contra essa juventude. Os jovens que seguem entusiasticamente o Papa, seja ele qual for, e que tiram tempo das suas férias para participar em eventos como as Jornadas Mundiais da Juventude, pelos vistos, não parecem ter grande atracção por um movimento constituído por pessoas bastante mais velhas, que não os conseguem convencer da "modernidade" de desobedecer aos Papas. E com razão: onde está a atractividade e a novidade disso? A opinião pública, a cultura contemporânea, e boa parte dos "media", dão-nos amplos exemplos de rejeição do Papado, de desprezo e de sátira perante a mensagem da Igreja Católica. Qual o atractivo que pode ter um movimento como o "Nós Somos Igreja" para um jovem cristão de hoje? Convidam a algo como: "Vem connosco, sê diferente e contesta o Magistério!", como se essa proposta fosse nova. Que futuro propõem aos jovens de hoje? Como podem querer ser credíveis e atraentes para as novas gerações de cristãos quando estruturam a identidade do seu movimento na crítica ao Magistério?

Permitam-me abrir um parêntesis mais pessoal...

Não quero constituir um paradigma a partir da minha experiência pessoal, mas eu próprio já fui, em tempos, um entusiasta defensor do "Nós Somos Igreja". A contestação à autoridade estabelecida parece ser uma característica frequente dos tempos de juventude, e também eu passei por isso. Recordo-me de sair de uma missa dominical na paróquia de Santa Maria de Belém indignado pelo facto de o prior ter criticado, durante a homilia, o movimento "Nós Somos Igreja". Eu teria, no máximo, uns vinte anos. Já estava, na altura, em crise de fé e em rota de colisão com o Magistério. Nesse tempo, eu almoçava todos os Domingos em casa dos meus avós e fazia da leitura da coluna de Frei Bento Domingues no Público o meu ritual pós-almoço. Como eu admirava o Frei Bento! Por variadíssimas razões, com o passar do tempo, persisti na leitura e no estudo, e ganhei um grande fascínio pelo cristianismo, pela sua história, pela sua doutrina, pela sua mensagem, pelas suas figuras de proa. Curiosamente, e ao contrário da tese de Emília Nadal, foi porque eu não me resignei a uma fé superficial de juventude que encetei um caminho de aprofundamento da fé e da cultura cristã. E, também curiosamente, quinze anos depois, motivado pela necessidade de coerência e pelo amor à verdade, acabei como adversário das ideias do "Nós Somos Igreja" e grande crítico das ideias de Frei Bento Domingues. E, ironia das ironias, o prior de Santa Maria de Belém, que ainda é o mesmo, e que eu nos meus tempos ingénuos de juventude critiquei pela sua oposição ao "Nós Somos Igreja", é hoje em dia um dos sacerdotes que eu mais admiro: um servidor incansável de Jesus Cristo e da Igreja Católica, um homem de inegável cultura e intelectualidade, e um protector e defensor da dignidade e da beleza da liturgia romana.

Penso que para alguns cristãos da minha geração, o "Nós Somos Igreja" representou como que uma espécie de "Maio de 68" do nosso percurso cristão. Eu passei por essa fase do percurso e ultrapassei-a. E para mim, a experiência foi positiva no sentido em que, por vezes, é mais expedito cometermos um erro para o reconhecermos como tal. Há sempre riscos envolvidos nesse processo de aprendizagem pelo erro, mas a verdade é que as lições que se aprendem são marcantes.

(fim do parêntesis pessoal)

À pintora Emília Nadal, seguiu-se o orador Joaquim Franco, jornalista, um orador simpático e cativante. Confesso que não me é tão fácil comentar o discurso de Joaquim Franco, pois pareceu-me menos objectivo e menos assertivo. Tentarei, então, cingir-me ao ponto do qual mais discordei no seu discurso. A certa altura, Joaquim Franco alude ao Encontro de Bento XVI com o mundo da Cultura, a 12 de Maio de 2010. O orador mostrou-se perplexo com a (alegada) subserviência dos representantes das várias religiões que estiveram presentes no evento, e que o dito evento transmitia a ideia (errada, segundo Joaquim Franco) de que a Igreja Católica representava a realidade portuguesa. Espanto! Duplo espanto! Por um lado, como é que aceitar um convite poderá representar subserviência? Se os representantes das restantes religiões com presença em Portugal decidem aceitar um convite feito pela Igreja Católica para se encontrarem no CCB com Bento XVI, estão com esse acto a manifestar subserviência? Por outro lado, e aqui reside o maior espanto, que quer o "Nós Somos Igreja" com este protesto? Quer aumentar o volume da voz das restantes religiões, em detrimento de reduzir o volume da voz do catolicismo, em nome de um "religiosamente correcto"? Ao fim e ao cabo, porque razão quer este movimento reduzir a importância da Igreja Católica no nosso país? A meu ver, esta atitude é suicida e incoerente. O católico quer anunciar a Boa Nova, quer persuadir todas as pessoas da verdade da fé católica e da sua necessidade para a salvação das almas, cumprindo assim o mandamento divino:

«E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado.» (São Marcos 16, 15-16).

Vê-se que este movimento promove um diálogo entre religiões completamente distorcido, que parece assentar no relativismo religioso, na ideia de que a conversão dos povos ao catolicismo se tornou irrelevante.

Ao Joaquim Franco, sucedeu a teóloga Teresa Toldy. No seu discurso, impressionou-me fortemente o seguinte raciocínio proposto pela oradora: enquanto que, na Igreja Católica, os homens têm acesso aos sete sacramentos [Baptismo, Confirmação, Eucaristia, Reconciliação, Ordenação, Matrimónio e Unção dos Enfermos], as mulheres só têm acesso a seis deles (não têm acesso ao da Ordenação). Esta observação "matemática" da oradora não faz qualquer sentido, e por várias razões:
  1. Essa "matemática" enganadora do "sacramento a menos" não coloca as mulheres em situação de fragilidade salvífica, pois é o Baptismo que salva, e depois dele, é a Reconciliação que nos limpa da mancha do pecado, e nos permite alcançar a misericórdia de Deus e a salvação da nossa alma; ora, quer o Baptismo quer a Reconciliação estão ao alcance de todos;
  2. Esse "acesso" aos sacramentos foi apresentado pela oradora como sugerindo uma espécie de direito, como se os sacramentos, em vez de dom gratuito da graça de Deus, fossem um direito que nós temos; nós não temos direito aos sacramentos, e por isso mesmo devemos merecê-los; por isso mesmo, há pré-requisitos para o acesso a todos os sacramentos: eles não são algo que é nosso de direito e posse, mas sim graças às quais poderemos aceder, se reunirmos as condições para tal, e apenas porque Deus assim o estipulou;
  3. Esse "acesso" aos sacramentos foi também apresentado pela oradora como uma espécie de poder, como se o sacramento da Ordenação deixasse de ser visto como serviço à Igreja (que é) e passasse a ser visto como um exercício de poder (que não é);
  4. A opção por uma determinada vocação exclui, automaticamente, o acesso a certos sacramentos: por exemplo, a pessoa que segue a vocação matrimonial e recebe o sacramento do Matrimónio deixa, ipso facto, de ter acesso ao sacramento da Ordenação, e vice-versa; logo, uma pessoa casada apenas tem acesso a cinco sacramentos (não pode repetir o Baptismo), pois quando se casa deixa de ter acesso ao sacramento da Ordenação, e vice-versa.

A seguir à Teresa Toldy, falou o Pedro Freitas, coordenador do IMWAC. Parece-me impossível antipatizar com o Pedro Freitas depois de se estar com ele frente a frente e de o ouvir a falar. Falou de uma forma até bastante humilde e cordata, atendendo ao conteúdo explosivo e nada humilde do seu discurso, centrado necessariamente nas reclamações prepotentes da Petição do Povo de Deus.

Concluídos os discursos dos intervenientes do painel, seguiu-se um momento de perguntas e respostas. Incrivelmente, nenhuma das perguntas ou dos comentários que surgiram da plateia continha a mínima crítica às ideias apresentadas pelos oradores. Todas as perguntas eram laudatórias, quer ao movimento "Nós Somos Igreja", quer às ideias transmitidas pelos oradores e pelo moderador. Algumas perguntas constituíam ataques à Igreja ou a órgãos da Igreja. Uma pessoa criticou duramente o programa Ecclesia, que passa na RTP2, em termos que não recordo exactamente, mas que também não é salutar recordar.

Esperei pacientemente pela minha oportunidade de colocar uma questão. Infelizmente, o evento terminava às 19 horas, e após as perguntas e respostas, ainda deveria falar a oradora Alfreda Ferreira da Fonseca, encarregada de encerrar o evento. O tempo estava, então, a terminar... A certa altura, foi-me dada a palavra, e pediram-me para ser breve, dada a hora avançada. Começando por dizer ao painel que eu iria fazer uma pergunta "de contraditório" (para vincar que seria a primeira e talvez a única da sessão), concentrei tudo nesta pergunta:

"Como comentam os oradores do painel a contradição que eu vejo entre tudo o que disseram aqui esta tarde e a passagem da Constituição Dogmática «Lumen Gentium», do Vaticano II, a respeito do ministério episcopal de ensinar?"

Feita a pergunta, li a seguinte passagem do Capítulo III da Lumen Gentium, secção "O ministério episcopal de ensinar":

«Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica. E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.»

Fiquei com a impressão de que a pergunta caiu como uma bomba. Assim que terminei, o moderador perguntou-me qual era, afinal, a minha pergunta. Ora eu já a tinha feito! Tinha precisamente começado por pedir ao painel para me explicar a contradição entre este trecho da Lumen Gentium, que ensina o "religioso acatamento" e a "religiosa submissão da vontade e do entendimento" ao Magistério, e as propostas feitas por todos os oradores naquela sessão da tarde, consubstanciadas na "Petição do Povo de Deus", que pede a revisão de matérias definidas como finais e irreformáveis pelo Magistério da Igreja Católica. Por razões de concisão, não repeti os pontos defendidos pelo movimento, não só porque já haviam sido ditos, mas porque todos os tínhamos bem presentes. Limitei-me a pedir um esclarecimento acerca da contradição entre este texto do Vaticano II e o que naquela tarde fora dito por todos os oradores de um debate dedicado ao tema do Vaticano II.

O painel mostrou-se perplexo: alguns, incluindo o moderador (que, repito, agia por vezes como um quinto orador), perguntaram-me onde estava a contradição. Eu nem queria acreditar que iriam evitar, desta forma, responder a minha pergunta! Antevendo a minha crítica, o moderador disse (e acredito que com honestidade e sinceridade) que não queria prejudicar-me pelo avançado da hora, mas que realmente havia pouco tempo. O moderador passou a "batata quente" para a teóloga Teresa Toldy, que foi assim incumbida por ele de me dar uma resposta.

Teresa Toldy respondeu-me com uma pergunta (cito-a de memória, não anotei as suas palavras exactas): "Leu a primeira parte da «Lumen Gentium»? É que se o fizer, entenderá o contexto". Eu nem queria acreditar: uma teóloga a lançar-me um argumento de autoridade para evitar responder! Eu insisti: "mas não me esclareceu acerca da contradição, se ela não existe, explique-me porquê!". Aí, Teresa Toldy deu uma resposta ainda mais enigmática: "Se calhar, há uma contradição na própria «Lumen Gentium»". E a questão morreu assim, porque o evento tinha mesmo que terminar, e foi dada a palavra à Alfreda para o encerrar. No final do evento, tive ainda uma conversa em privado com a Teresa Toldy, cujo conteúdo não vou revelar, por ser de carácter privado.

Tenho um palpite acerca da resposta que a Teresa Toldy não me chegou a dar. Penso que a teóloga não se referia ao Capítulo I da «Lumen Gentium», pois aí voltamos a encontrar o reforço do ministério episcopal de ensinar, nomeadamente em trechos como este:

«Esta é a única Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica (12); depois da ressurreição, o nosso Salvador entregou-a a Pedro para que a apascentasse (Jo. 21,17), confiando também a ele e aos demais Apóstolos a sua difusão e governo (cfr. Mt. 28,18 ss.), e erigindo-a para sempre em «coluna e fundamento da verdade» (I Tim. 3,5). Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como sociedade, é na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em união com ele (13), que se encontra, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica.»

Penso ser provável supor que Teresa Toldy pretendia apontar uma suposta contradição entre o conteúdo do Capítulo II ("O Povo de Deus") em matéria de infalibilidade e o conteúdo do Capítulo III ("A Constituição Hierárquica da Igreja e em especial o Episcopado") acerca da mesma matéria. No capítulo II encontramos a crucial distinção entre "sacerdócio comum" (a todos os fiéis) e "sacerdócio ministerial", distinção que o "Nós Somos Igreja" teima em obliterar. Pouco depois desta distinção, encontramos a magnífica descrição da infalibilidade do Povo de Deus, notável desenvolvimento e complemento da teologia da infalibilidade do Vaticano I, na secção "O sentido da fé e dos carismas no povo cristão":

«12. O Povo santo de Deus participa também da função profética de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé e de caridade oferecendo a Deus o sacrifício de louvor, fruto dos lábios que confessam o Seu nome (cfr. Hebr. 13,15). A totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo (cfr. Jo. 2, 20 e 27), não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do povo todo, quando este, «desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis» (22), manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes. Com este sentido da fé, que se desperta e sustenta pela acção do Espírito de verdade, o Povo de Deus, sob a direcção do sagrado magistério que fielmente acata, já não recebe simples palavra de homens mas a verdadeira palavra de Deus (cfr. 1 Tess. 2,13), adere indefectivelmente à fé uma vez confiada aos santos (cfr. Jud. 3), penetra-a mais profundamente com juízo acertado e aplica-a mais totalmente na vida.»

Ora, não só encontramos mais uma vez, como já sucedera nos capítulos I e III, a reafirmação do ministério episcopal de ensinar ("... o Povo de Deus, sob a direcção do sagrado magistério que fielmente acata..."), como constatamos que não há qualquer contradição entre a infalibilidade do Povo de Deus e a infalibilidade do Magistério. É que a infalibilidade do Povo de Deus está definida do seguinte modo: que o Povo de Deus "não pode enganar-se na fé (...) quando este, «desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis», manifesta consenso universal em matéria de fé de costumes". Não está escrito, neste trecho, que não há, no Povo de Deus, pessoas em situação de divergência pontual ou sistemática: haverá sempre pessoas fora de sintonia com este consenso universal, nem que seja por ignorância. O que está dito é que, quando há consenso universal em matéria de fé e de costumes, todos os fiéis envolvidos nesse consenso, do mero leigo ao Sumo Pontífice, são infalíveis. Como bem explica o Padre James O'Connor:

«It is clear from the teaching of Vatican II that the gift of infallibility resides in the sensus fidelium. The body of the faithful cannot err in matters of faith and morals. It must be noted, however, that this infallibility of the People of God is given to the entire body of the faithful. It is not given to the faithful in contradistinction to the infallible charism given to the Magisterium of the Pope and bishops. Indeed, the proper exercise of the infallibility of the entire People of God necessitates a "faithful submission to the sacred Magisterium" if that body of the faithful is to believe, penetrate more deeply, and apply more thoroughly the faith entrusted to the saints. If the teaching of the Pope and bishops is not included in the "universal consent about matters of faith and morals" then one does not truly have a sensus fidelium, a consensus among the faithful. Once that is clear, it should be obvious that determining the sensus fidelium is not a matter of poll taking or of sociological reports.» [5]

E assim se fecha o ciclo entre o Vaticano I e o Vaticano II em matéria de infalibilidade.

Assim se vê que as petições do "Nós Somos Igreja" caem fora deste consenso universal, pois mesmo que sejam petições da autoria de certos fiéis baptizados que fazem parte do Povo de Deus, são petições que não reúnem consenso. Nem sequer reúnem o consenso da maioria dos fiéis, e mesmo que atingissem essa proeza, ainda teriam que reunir o consenso de todos os fiéis, incluindo do Magistério, para que estivessem sob a alçada da infalibilidade do Povo de Deus. Chesterton dizia que a tradição é a democracia dos mortos, no sentido em que a tradição é mais democrática que a democracia convencional, porque deixa os mortos votarem. Assim se vê que as petições do Povo de Deus nunca reuniriam o consenso da Igreja de todos os tempos, pois é incontável o número de fiéis, qualquer que seja a sua posição na hierarquia da Igreja, que defenderam sem ambiguidades o exacto oposto das petições do "Nós Somos Igreja".

De todos os oradores, a pessoa com quem fiquei com mais empatia foi com a Alfreda Ferrreira da Fonseca, que encerrou o evento. Ela falou de forma muito viva acerca da divergência de opiniões, de que todos estavam ali numa atitude de diálogo, e que era cristã a atitude de abertura ao outro. Parece-me que ela quis, depois da minha pergunta incómoda, terminar num tom de coerência. Afinal, falou-se durante toda a tarde em diálogo e abertura a posições diferentes, e seria bizarro se, face à minha discordância verbalizada, a atitude daquelas pessoas fosse a oposta. Por isso, gostei mesmo de ouvir a Alfreda a frisar a importância do diálogo e da abertura ao outro, porque seria uma tremenda injustiça e incoerência que aqueles católicos que, como eu, se opõem às ideias do movimento "Nós Somos Igreja" não fossem ouvidos pelos membros desse movimento. Afinal de contas, nós também somos Igreja...

A Alfreda também fez uma referência ao encontro entre Jesus e Pilatos, conforme narrado em São João, no qual Pilatos teria perguntado a Jesus o que era a verdade, e que Jesus teria ficado silencioso, e com base nisso, pareceu-me que a Alfreda estaria a criticar o conceito de verdade. Vejamos o trecho em questão:

"Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?» Dito isto, foi ter de novo com os judeus e disse-lhes: «Não vejo nele nenhum crime.»" - Evangelho segundo São João, 18, 37-38.

Como se vê claramente, Jesus fala da verdade como algo de real e normativo. Jesus afirma que veio para dar testemunho da verdade. Logo, como seria de esperar, nada de relativismo em Cristo. O próprio texto de São João não nos permite deduzir que Jesus não teria resposta para a pergunta de Pilatos. É claro que Jesus teria resposta, basta considerar a resposta que Jesus deu a Tomé: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim.» (São João, 14, 6). Em última análise, Jesus poderia ter respondido a Pilatos, em total coerência: "A Verdade sou Eu". Do texto de João, omisso face a uma eventual resposta de Cristo, podemos deduzir, ou que Cristo não respondeu porque não quis, ou que Cristo respondeu, mas o evangelista não registou essa resposta.

Este relato só pode terminar de uma forma: com um convite a todos os membros e apoiantes do movimento "Nós Somos Igreja". Trata-se do único convite que, no fim de contas, interessa mesmo fazer: convertam-se, pelo amor a Deus e à Igreja de Cristo! Voltem à unidade eclesial, da qual nunca deveriam ter saído. É uma questão de vida eterna ou de morte eterna.

PS: Muito agradeço ao João Silveira, ao Miguel Belo, à Margarida Paccetti e à Rita Ludovice por me terem enviado as suas recordações deste debate, de forma a colmatar as lacunas da minha memória.

PPS: Se algum dos participantes deste evento considerar que eu estou a retratar injustamente as suas palavras ou posições, muito agradeço que me façam chegar o vosso parecer, com vista à melhoria de eventuais imprecisões ou incorrecções deste relato.

[1] Ordinatio Sacerdotalis, do Papa João Paulo II, 22 de Maio de 1994, que define de forma definitiva e irreformável que «a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja».

[2] Sacerdotalis Caelibatus, do Papa Paulo VI, 24 de Junho de 1967, que defende e reforça a disciplina do celibato sacerdotal, respondendo às críticas feitas a essa disciplina.

[3] Quer a Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé a 1 de Outubro de 1986, quer as Considerações sobre os projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, também da Congregação para a Doutrina da Fé, emitida a 3 de Junho de 2003, reafirmam a perene doutrina cristã sobre o matrimónio e sobre a imoralidade dos actos homossexuais. Duas coisas ressaltam à vista, nestes documentos, com toda a clareza: por um lado, a distinção entre as pessoas com tendências homossexuais, que não pecam se viverem em castidade, e os actos homossexuais, esses sim imorais; e por outro lado, a refutação dos que falam em "exclusão" das pessoas homossexuais por parte da Igreja Católica, como é o caso do "Nós Somos Igreja", uma vez que basta notar que o primeiro documento referido tem no seu título a expressão "atendimento pastoral das pessoas homossexuais", o que elimina de vez a falsidade dessa linguagem de "exclusão".

[4Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, 25 de Julho de 1968, que define, em continuidade com a tradição da Igreja, a ilicitude moral dos meios artificiais de regulação dos nascimentos: "(...) Mas, chamando a atenção dos homens para a observância das normas da lei natural, interpretada pela sua doutrina constante, a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida". A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Vaticano II, aborda o tema de forma genérica no seu ponto 51, concluindo: "Segundo estes princípios, não é lícito aos filhos da Igreja adoptar, na regulação dos nascimentos, caminhos que o magistério, explicitando a lei divina, reprova", com referência em nota de rodapé aos ensinamentos de Pio XI (Encíclica Casti Connubii) e Pio II (Alocução ao Congresso da União Italiana de parteiras, 29 de outubro 1951). O Vaticano II não tratou directamente da questão da contracepção, pois Paulo VI retirou esse tema da agenda do Concílio, entregando-o a uma Comissão extra-conciliar. Esta Comissão, contrariando a tradição da Igreja, concluiu da licitude da contracepção artificial quando usada pontualmente no contexto de um matrimónio globalmente aberto à vida. Com a encíclica "Humanae Vitae", Paulo VI declarou a ilicitude da contracepção artificial, reafirmando a tradição da Igreja.

[5] James T. O'Connor, Vincent Ferrer Gasser, The Gift of Infallibility, Ignatius Press, São Francisco (E.U.A.), 2008, p. 106.

terça-feira, 29 de março de 2011

Coisas inexplicáveis

A Agência Ecclesia, órgão noticioso da Igreja Católica em Portugal, publicita este evento:

Lisboa: Vaticano II em debate
Lisboa, 24 Mar (Ecclesia) – O II Concílio do Vaticano será o tema de um debate, a realizar a 2 de Abril, no Convento de São Domingos, em Lisboa, e promovido pelo Movimento Internacional «Nós Somos Igreja-Portugal».

Programa
14.15 Acolhimento
14.30 Introdução - Frei Bento Domingues, O.P., teólogo
15.00-16.30 - 1º painel - «O Concílio Vaticano II - 1962-1965: Memórias e Vivências»
Intervenções de: Joana Lopes, activista, Frei Mateus Peres, O.P., Maria da Conceição Moita, educadora de infância e Cesário Borga, jornalista.
Debate
Moderadora: Ana Vicente, investigadora
16.30-17.00 - Pausa café
17.00-18.30 - 2º Painel - «O Concílio Vaticano II - 1962-1965: A Igreja e o Futuro»
Intervenções de: Emília Nadal, pintora, Joaquim Franco, jornalista, Teresa Toldy, teóloga, Pedro J. Freitas, professor universitário e actual coordenador do IMWAC (International Movement We Are Church)
Debate
Moderador: Manuel Vilas Boas, jornalista
18.30 Encerramento
Alfreda Ferreira da Fonseca, professora do ensino secundário
19.00 Eucaristia presidida por Frei Bento Domigues, O.P.

Por mais voltas que eu dê, não consigo compreender o porquê de uma organização noticiosa da Igreja Católica dar cobertura a um evento claramente antipapal como este. É que a contradição não podia ser mais gritante. O Vaticano II, na sua Constituição Dogmática "Lumen Gentium" (talvez o trecho do Vaticano II mais citado aqui no blogue), diz isto:

«Este sagrado Concílio propõe de novo, para ser firmemente acreditada por todos os fiéis, esta doutrina sobre a instituição perpétua, alcance e natureza do sagrado primado do Pontífice romano e do seu magistério infalível, e, prosseguindo a matéria começada, pretende declarar e manifestar a todos a doutrina sobre os Bispos, sucessores dos Apóstolos, que, com o sucessor de Pedro, vigário de Cristo (38) e cabeça visível de toda a Igreja, governam a casa de Deus vivo.» - Constituição Dogmática "Lumen Gentium".

Ora, se o acatamento dos ensinamentos doutrinais e morais do Magistério, quer por via do Santo Padre, quer por via dos Bispos a ele unidos, é obrigação de todo o católico, não se compreende como é possível que, ao abrigo de instituições católicas, se continue a dar guarida e tempo de antena a pessoas manifestamente dissidentes e heréticas, que teimam em não aceitar o Vaticano II, apesar de se dizerem, contraditoriamente, defensoras desse Concílio.

A Igreja Católica não é uma instituição democrática, ao contrário do que pretende o grupo dissidente "Nós Somos Igreja", e que está por detrás de mais esta manifestação antipapal. Conforme se vê, através dos próprios documentos do Vaticano II, o católico recebe a doutrina e a moral do Papa e dos Bispos a ele unidos. O católico não decide, não vota, não alvitra, não opta por doutrinas diferentes. A génese da palavra "heresia" leva-nos ao conceito de "escolha". O herege, realmente, escolhe a sua própria doutrina. Logo, o católico não escolhe este ou aquele ponto da doutrina católica, rejeitando os pontos que não lhe convêm. O católico, se é digno desse nome, acata a santa doutrina da Madre Igreja. O resto é conversa de herege.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Frei Bento - O incansável verdugo da Humanae Vitae

Frei Bento diz frequentemente coisas em contradição com o Magistério, e hoje em dia ninguém acha isso estranho. E, sobretudo, os "media" não se coíbem de lhe dar espaço, mesmo sendo evidente que se trata de um teólogo cuja doutrina não é ortodoxa. Não digo que os "media" devam evitar dar espaço de antena a católicos com ideias heterodoxas, mas que deveriam, em nome da neutralidade, dar espaço de antena, já agora, aos chatos dos católicos que gostam da coerência.

Diz a Lumen Gentium (Constituição Dogmática do Vaticano II):

«E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.»

Religiosa submissão da vontade e do entendimento!
Espantoso! Haverá dúvidas sobre este trecho?

Vejamos agora o que Frei Bento escreveu recentemente, no contexto da sua eterna guerra contra a Humanae Vitae de Paulo VI:

«3. Mesmo nos temas que não eram considerados dogmas de fé nem palavra infalível dos Papas – creio que desde João XXIII nunca mais se ouviu falar de nenhuma – caiu-se na armadilha de considerar muitas declarações importantes, para a orientação pastoral da Igreja, como definitivas e irreformáveis.», in Não há teologias definitivas.

Comparemos com a Lumen Gentium:


«Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes (78). As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo.»

É evidente que a Humanae Vitae de Paulo VI (repudiada e não aceite por Frei Bento) está dentro desta categoria, e o próprio Paulo VI deixa isso claro no texto da encíclica:

«Nenhum fiel quererá negar que compete ao Magistério da Igreja interpretar também a lei moral natural. É incontestável, na verdade, como declararam muitas vezes os nossos predecessores,(1) que Jesus Cristo, ao comunicar a Pedro e aos Apóstolos a sua autoridade divina e ao enviá-los a ensinar a todos os povos os seus mandamentos, (2) os constituía guardas e intérpretes autênticos de toda a lei moral, ou seja, não só da lei evangélica, como também da natural, dado que ela é igualmente expressão da vontade divina e que a sua observância é do mesmo modo necessária para a salvação.(3)»

Eu fico estupefacto com o atrevimento de Frei Bento, mas mais ainda fico com as pessoas que não vêem as gritantes contradições entre várias das ideias do Frei Bento e a doutrina católica ortodoxa. Este artigo foi publicado no jornal Público a 28 de Novembro de 2010. Um católico lê isto e interroga-se, com razão: "este senhor, teólogo e académico, continua a combater uma encíclica de um Papa, e ... não se passa nada!". Estamos perante um problema, como dizia o teólogo norte-americano Ralph McInerny, de um conflito entre dois magistérios: o Magistério autêntico da Igreja Católica, personificado no Papa e nos Bispos a ele unidos, e um magistério espúrio, falso e impostor, personificado em sacerdotes e teólogos que teimam em desobedecer ao Magistério, pretendendo constituir, para os fiéis leigos e para todo o Povo de Deus, como que um novo magistério, o magistério dos teólogos progressistas.



Senhor, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Frei Bento Domingues "versus" Concílio Vaticano II

Frei Bento Domingues, em defesa das suas ideias, invoca frequentemente o Concílio Vaticano II. Desse modo, ele procura alicerçar a sua teologia na teologia da Igreja, mormente na do Concílio.

Ora nem sempre a sua posição pessoal coincide com as decisões do próprio Concílio.

Primeiro, fala Frei Bento:
« Quem viveu de forma consciente a época anterior ao Concílio e a comparar com os gestos e os documentos do Vaticano II não pode deixar de se espantar com a revolução cultural que eles significam. (…) Depressa surgiu, neste clima, um documento fatal – a Humanae Vitae (1968) – acerca da concepção ética da vida sexual de solteiros e casados. (…) Volto, porém, ao primeiro ponto deste texto, à maior redescoberta da eclesiologia do Vaticano II: a hierarquia não é a Igreja. A hierarquia é um serviço indispensável à Igreja, na Igreja de todos.»

Agora, deixemos falar o Concílio:
« O ministério episcopal de ensinar
25. Entre os principais encargos dos Bispos ocupa lugar preeminente a pregação do Evangelho (75). Os Bispos são os arautos da fé que para Deus conduzem novos discípulos. Dotados da autoridade de Cristo, são doutores autênticos, que pregam ao povo a eles confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida prática; ilustrando-a sob a luz do Espírito Santo e tirando do tesoiro da revelação coisas novas e antigas (cfr. Mt. 13,52), fazem-no frutificar e solicitamente afastam os erros que ameaçam o seu rebanho (cfr. 2 Tim. 4, 1-4). Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica. E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar. » - Constituição Dogmática Lumen Gentium

A contradição é evidente: quando Frei Bento chama “documento fatal” à encíclica Humanae Vitae do Papa Paulo VI, ele está em contradição com o que a Constituição Dogmática “Lumen Gentium” afirma sobre o ministério episcopal de ensinar, em particular sobre a necessidade de prestar “sincera adesão aos ensinamentos” do ministério petrino.

De nada vale, como se constata lendo a “Lumen Gentium”, discutir se a “Humanae Vitae” é ou não doutrina infalível. Todo o católico digno desse nome deve aceitar todos os ensinamentos doutrinais e morais do magistério petrino, sejam eles formalmente declarados infalíveis ou não, e só poderá dissentir do Santo Padre em questões que não tenham a ver com a doutrina ou com a moral. Ora, claramente, a sexualidade humana cai na esfera da moral, e portanto na esfera do ensinamento petrino. A “Humanae Vitae” deve ser aceite por todos os católicos.

Frei Bento deve aceitar a “Humanae Vitae”. Logo, não pode apelidá-la de “documento fatal”. E não se argumente que os ensinamentos vertidos na “Humanae Vitae” ainda estão em aberto para discussão teológica: não estão. O Santo Padre, Papa Pio XII, foi bastante claro nessa matéria, no ponto 20 da sua encíclica Humani Generis:

«20. Nem se deve crer que os ensinamentos das encíclicas não exijam, por si, assentimento, sob alegação de que os sumos pontífices não exercem nelas o supremo poder de seu magistério. Entretanto, tais ensinamentos provêm do magistério ordinário, para o qual valem também aquelas palavras: "Quem vos ouve a mim ouve" (Lc 10,16); e, na maioria das vezes, o que é proposto e inculcado nas encíclicas, já por outras razões pertence ao patrimônio da doutrina católica. E, se os romanos pontífices em suas constituições pronunciam de caso pensado uma sentença em matéria controvertida, é evidente que, segundo a intenção e vontade dos mesmos pontífices, essa questão já não pode ser tida como objeto de livre discussão entre os teólogos.»

Frei Bento, no mesmo artigo, tece esta crítica:

«Os grandes obstáculos vieram daqueles que se diziam a favor do Concílio e das suas reformas, mas para as contrariar.»

Parece-me que, na sua recusa de certos ensinamentos centrais do Vaticano II, e enquanto se diz a favor desse Concílio, Frei Bento está ele mesmo a constituir um obstáculo à prossecução dos objectivos do Vaticano II.

Ps: Uma extraordinária exposição do valor doutrinal da “Humanae Vitae”, do dominicano francês Gagnebet, publicada no Osservatore Romano a 12, 19 e 26 de Setembro de 1968: The Authority of the Encyclical Humanae Vitae

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Um artigo fatal?

Escreve Frei Bento Domingues,

«Depressa surgiu, neste clima, um documento fatal – a Humanae Vitae (1968) – acerca da concepção ética da vida sexual de solteiros e casados. Teve grande influência no aumento dos chamados “católicos não praticantes”.»

Ele já o escreveu várias vezes, e sempre que pode, Frei Bento Domgingues repete-o: a encíclica Humanae Vitae do Papa Paulo VI, é "um documento fatal".

Frei Bento Domingues intitula a "Humanae Vitae" de "documento fatal". Mas mais uma vez, não diz porquê. Ora o texto pode ser lido no "site" da Santa Sé, e teria sido fácil a Frei Bento dizer exactamente o que é que é "fatal" nessa essencial encíclica de Paulo VI.

Dizer várias vezes, como Frei Bento tem feito, que o documento em questão é "fatal", mas sem explicar porquê, é bem mais grave do que uma desobediência ao Magistério. É acusar sem explicar. E, já agora, porque é que Frei Bento não escreveu "encíclica fatal", e preferiu a expressão "documento fatal"?

Frei Bento escreve ainda:

«A “papolatria” é uma doença que faz mal ao Papa, aos Bispos, aos Padres e, sobretudo, ao povo cristão.»

Onde está a falácia? Parece-me claro: Frei Bento critica a "papolatria" sugerindo a desobediência ao Papa. Frei Bento pede que abandonemos um excesso para nos lançarmos noutro. Frei Bento, falaciosamente, não concebe um católico que respeite o Papa como autoridade magisterial, sem no entanto defender que se preste culto ("latria") ao Santo Padre.

Não poderá Frei Bento elucidar-nos, a nós que seguimos fielmente o Magistério, com um resumo objectivo dos pontos que considera "fatais" nessa encíclica de Paulo VI?

Se ele não fizer isso, a sua crítica é superficial e injusta. A função de um teólogo católico é a explicação racional da verdade da doutrina católica, entendida como um serviço a Deus e à Verdade que é Deus. Se já é grave um teólogo defender a rejeição de um ensinamento de um papa, neste caso Paulo VI, é ainda mais grave fazê-lo sem apresentar uma explicação racional.

Bem dizia o Santo Padre da homilia no Terreiro do Paço:

«Sabemos que não lhe faltam filhos insubmissos e até rebeldes, mas é nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda.»

Ouçamos o Santo Padre e os Santos, e sigamos o seu exemplo.

domingo, 25 de abril de 2010

O teólogo mentiroso falou de novo...

O mentiroso, tão sensível aos microfones, às câmaras e aos holofotes, falou de novo:

Carta aberta de Hans Kung aos Bispos católicos

Porcarias deste calibre foram, mais uma vez, privilegiadas pelos "media": por cá, o Público transcreveu a cartinha toda. E muitos dos que lêem o Público acreditarão, desgraçados, nas mentiras do Küng.

Trata-se talvez do maior chorrilho de mentiras e difamações contra Bento XVI, desta feita pelo seu velho "amigo" alemão, Hans Küng. Com amigos destes, Bento XVI não precisa de inimigos. Também é verdade que o insulto não é novidade em Küng: basta recordar que nas suas memórias, o teólogo alemão insultou as capacidades intelectuais de João Paulo II. Mas esta carta aberta está demais...

Talvez a frase mais horrorosa e mais mentirosa seja a que está logo no topo:

«There is no denying the fact that the worldwide system of covering up cases of sexual crimes committed by clerics was engineered by the Roman Congregation for the Doctrine of the Faith under Cardinal Ratzinger (1981-2005)» (negrito meu)

Que Küng faça uma destas ao seu velho colega, a alguém que mais do que uma vez lhe deu a mão, a alguém que tem tido para com ele uma paciência inesgotável, é algo que me parece incompreensível. Que ultrapassa até a fronteira da boa educação e da cortesia, entrando no insulto rasca e rasteiro. Dawkins não conseguiria ser mais desagradável com Bento XVI.

Penso que a única explicação estará no desespero do próprio Küng: está só. Nunca teve razão. Está cada vez mais próximo do fim, e vê a sua causa a ruir. A Igreja Católica recuperou da crise dissidente dos anos 60, 70 e 80. Hoje em dia, novas gerações de católicos fiéis ao Magistério já nem sabem quem é Küng. Esta carta é uma medida de desespero. Esta carta aberta já não tem o vigor das antigas operações mediáticas que ele montava, criando um estilo próprio, o do dissidente mediático. Quando Küng entra no golpe baixo, na mentira reles, e no ataque pessoal descarado, é porque está perto do fim.

Bem dizia o Cardeal Ratzinger, quando estava à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, que a sua função era a de proteger a fé cristã simples do poder dos intelectuais. Küng é o protótipo do intelectual poderoso e perigoso: todo ele é uma mentira: um teólogo que mente é uma contradição nos termos, e se for popular (ou popularizado) arrasta inevitavelmente muitos crentes com ele para o caminho da mentira. Em vez de ser teólogo no serviço à verdade, na explicação do Deus-Verdade aos homens e mulheres do seu tempo, Küng é um dissidente "superstar", amado pelos "media", mas progressivamente alheado da tradição cristã. Enquanto a teologia dissidente encabeçada por ele, e pelos Currans e Boffs desta vida, tinha força e vigor, ele brilhou. Mas a mentira tem sempre um prazo de validade curto.

Os seminários, nos anos 70 e 80, começaram a ficar vazios. As vocações não surgiam. Os escândalos (que vêm hoje ao de cima) começaram a tornar-se frequentes. As imoralidades e a heresia contaminaram o espaço católico. Católicos a favor do aborto e da homossexualidade. Famílias destruídas pela infidelidade e pelo divórcio. Tudo isto é, evidentemente, efeito da teologia dissidente dos adeptos da "hermenêutica da ruptura" que afirma que o Vaticano II decidiu romper com o passado (uma mentira, é claro).

Hoje, Küng já não beneficia da influência que teve em tempos sobre muitos católicos. O seu movimento "progressista" morreu. Küng é um teólogo falhado, um teólogo que se perdeu, um teólogo que poderia ter sido. É um triste. Será recordado como um herege. As coisas boas e ortodoxas que deu à teologia cristã vão-se perder, arrastadas pela lama das coisas más e heréticas que ele gerou.

Deus tenha pena da sua alma.

PS: George Weigel, com uma educação e cortesia que Küng não tem nem merece, massacra-o neste artigo: An open letter to Hans Kung.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A incoerência de Frei Bento Domingues

Sem tempo nem estômago para mais, queria tão somente destacar dois pontos de vista acerca da crónica de Frei Bento Dominges, A Ressurreição da Igreja, editada no Jornal Público a 4 de Abril passado.

O primeiro ponto de vista é um desabafo como católico.

Foram muitas as frases da dita crónica de Frei Bento que me incomodaram. Talvez a que mais me tenha chocado tenha sido esta:

«Depressa surgiu, neste clima, um documento fatal – a Humanae Vitae (1968) – acerca da concepção ética da vida sexual de solteiros e casados.»

É duro, muito duro, ver um "filho" de São Domingos (Frei Bento é Dominicano, ou seja, pertence à Ordem dos Pregadores) usar a expressão "documento fatal" acerca de um texto do Magistério petrino, acerca de um texto doutrinal emanado de um Santo Padre. Porém, na crítica de Frei Bento, é igualmente triste constatar que a crítica não se consubstancia em qualquer refutação, ou tentativa de refutação, do conteúdo da Humanae Vitae. Se até nas críticas aos nossos inimigos temos a obrigação de usar do rigor, e de criticar as ideias adversárias usando argumentação objectiva, e partindo das palavras dos nossos adversários, quanto mais um dominicano que critica o conteúdo de uma encíclica papal se deve referir ao seu conteúdo! Pois de Frei Bento, sobre o conteúdo concreto da Humanae Vitae, nem uma palavra. Erros apontados ao texto de Paulo VI? Nem um. Erros de raciocínio, falácias? Nem uma apontada.

Fica apenas a expressão, fatal: "documento fatal".
São Domingos deve estar a dar voltas na sepultura.

O segundo ponto de vista que queria destacar acerca desta crónica tem a ver com coerência. A certa altura diz Frei Bento:

«Volto, porém, ao primeiro ponto deste texto, à maior redescoberta da eclesiologia do Vaticano II: a hierarquia não é a Igreja. A hierarquia é um serviço indispensável à Igreja, na Igreja de todos.»

Realmente, a frase está escrita com cuidado. Mas está incompleta. Que serviço é esse, prestado à Igreja pela hierarquia? Ora é fácil saber: esse serviço está explicado na Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, documento certamente admirado e respeitado por Frei Bento. Citamos um trecho que tem a ver com uma parte importante desse serviço, o ministério episcopal de ensinar:

«25. Entre os principais encargos dos Bispos ocupa lugar preeminente a pregação do Evangelho (75). Os Bispos são os arautos da fé que para Deus conduzem novos discípulos. Dotados da autoridade de Cristo, são doutores autênticos, que pregam ao povo a eles confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida prática; ilustrando-a sob a luz do Espírito Santo e tirando do tesoiro da revelação coisas novas e antigas (cfr. Mt. 13,52), fazem-no frutificar e solicitamente afastam os erros que ameaçam o seu rebanho (cfr. 2 Tim. 4, 1-4). Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica. E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.

Embora os Bispos, individualmente, não gozem da prerrogativa da infalibilidade, anunciam, porém, infalivelmente a doutrina de Cristo sempre que, embora dispersos pelo mundo mas unidos entre si e com o sucessor de Pedro, ensinam autenticamente matéria de fé ou costumes concordando em que uma doutrina deve ser tida por definida (76).»

(negrito meu)

Diga-se, relativamente a este último parágrafo que citei, que Bispo algum se recusou a aceitar e a ensinar a Humanae Vitae de Paulo VI. Os Bispos tinham a lição do Vaticano II bem sabida. Os protestos e a contestação à Humanae Vitae nasceram de uma facção de teólogos dissidentes norte-americanos, entre eles o inevitável Charles Curran.

Ora, a incoerência de Frei Bento fica agora à vista. De que forma é que, apelidando a encíclica Humanae Vitae de "documento fatal" é que Frei Bento está em coerência com as palavras da Lumen Gentium? Onde é que está a "sincera adesão" de Frei Bento aos ensinamentos do magistério de Paulo VI, nomeadamente da Humanae Vitae?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dissidentes...

Nos comentários ao texto do Bispo Tobin que publiquei há umas semanas, o Sérgio defendeu o valor positivo de uma Igreja Católica que acolhe, como católicos, pessoas de ideias muito diferentes. À partida, a ideia parece boa. Mas claramente, qualquer pessoa entende que isso depende muito de que ideias e diferenças se está a falar! Por exemplo, tenho a certeza quase absoluta de que o Sérgio rejeitaria imediatamente como católico alguém que se afirmasse católico e firmemente defendesse a escravatura!

O Sérgio deu o exemplo de Frei Bento Dominges e do Padre Anselmo Borges para vincar, segundo ele, o valor positivo de uma Igreja que os acolhe como católicos em pé de igualdade com os outros. Aqui, o Sérgio dá um passo arriscado: o de supor que a ausência de punição ou admoestação a estes teólogos, por parte da hierarquia da Igreja, implica uma aceitação das suas posições. Eu não vejo como é que o Sérgio dá este passo. Será numa de "quem cala, consente"?

Evidentemente, estes exemplos dados pelo Sérgio têm significado: ele não escolheu estes nomes à toa. É que são os nomes de dois dos mais conhecidos teólogos dissidentes aqui em Portugal. Tenho a noção do peso enorme do que digo. Eu, o leigo ignorante, a acusar estes dois professores e teólogos de dissidência! No entanto, mais não faço que constatar um facto. E posso dar um exemplo concreto, sendo certo que conseguiria encontrar inúmeros outros exemplos… Aquando do último referendo acerca do aborto, estes dois teólogos vieram a público defender o voto “sim”: Frei Bento chegou ao ponto de invocar São Tomás para defender esse sentido de voto [1]. Sendo claríssimo que a Igreja sempre condenou o aborto como crime moral, pela razão evidente de que se trata da morte de uma vida humana inocente, não há quaisquer dúvidas de que qualquer católico (mesmo que protegido pela chancela de teólogo profissional) que não aceite este ponto, está em dissidência [2]. No caso especialmente grave do aborto, a dissidência assume contornos sinistros, fazendo dos defensores do “sim” e do pretenso “direito” ao aborto, colaboradores coniventes no crime do aborto. Nem mais, nem menos…

Quem me lê, discordando daquilo que escrevo, vai quase de certeza associar as minhas ideias ao meu “conservadorismo”, esse termo de significado vazio e ilegalmente importado da política, que se tira, qual “ás” do baralho, para acabar logo com a discussão. O Bernardo é um “conservador”, assunto arrumado. Os menos simpáticos chamar-me-ão “fanático” ou “fundamentalista”. Mas, para se ver porque razão essa apreciação é injusta, gostaria de contar algo sobre o meu percurso no catolicismo.

Nem sempre me dei conta do que era isso de ser católico, e do que implicava, sobretudo em termos morais, ser católico. Por volta dos vinte e poucos anos, recordo-me do entusiasmo que sentia quando lia os textos de Frei Bento Domingues no Público.

(Um parêntesis curioso: tanto Frei Bento Domingues como Anselmo Borges têm crónicas regulares em dois dos maiores jornais portugueses – porque será que os “media” dão tanto espaço à dissidência católica? Isso daria outro debate complexo, mas é evidente que a enorme exposição mediática destes dois teólogos coloca-os numa fortíssima posição de influência, e isso deveria acarretar uma responsabilidade, pois eles são vistos, por quem lê as suas crónicas, como representantes da Igreja Católica…)

Lia os textos de Frei Bento sempre ao Domingo, quando pegava no jornal comprado pelo meu avô. Recordo-me que, assim que pegava no jornal, eu começava sempre pelas palavras de Frei Bento. Lia-as com muita satisfação. O que eu sentia, então, era que aquele homem tinha um discurso arejado e positivo, moderno e entusiasmante. De vez em quando, Frei Bento criticava a hierarquia, mas também é verdade que nem sempre o tom era esse, e seria injusto dizê-lo. Por vezes, Frei Bento questionava o Magistério, sugeria mudanças profundas. Duas coisas ficaram-me para sempre na cabeça quando eu lia essas suas crónicas mais dissidentes: uma delas, já referi, era o enorme entusiasmo que tais crónicas me provocavam. A outra era o agrado com o qual eu constatava que Frei Bento referia constantemente, para suportar as suas posições, o Concílio Vaticano II. Era a chancela de que eu precisava para aceitar Frei Bento, incondicionalmente, como fonte de autoridade.

Aos olhos de um miúdo de vinte e poucos anos, quase totalmente ignorante em matéria de eclesiologia e doutrina católica, a coisa parecia feia no que tocava ao Magistério: ficava-se com a impressão de que a hierarquia estava a tentar sufocar ou pelo menos a tentar fazer esquecer pontos centrais do último grande concílio, e que teólogos como Frei Bento estavam, não só na vanguarda do pensamento, mas também na posição de defensores da verdade do ensinamento do próprio concílio. Curiosamente, foi neste período da minha vida que menos fui à missa: não me confessava há anos, não fazia qualquer juízo moral aos meus actos e pensamentos. Procurava justificar tudo o que fazia, e encaixar isso no catolicismo que criava à minha medida.

O meu percurso de mudança de admirador inicial incondicional de Frei Bento para o extremo diametralmente oposto, pois hoje em dia tenho uma péssima opinião sobre as suas posições doutrinais, não foi percorrido de uma só vez. Precisei de anos para me dar conta de que o catolicismo era uma coisa diferente da que era retratada pelos teólogos dissidentes. E o mais curioso é que eu poderia ter-me dado conta disso numa só assentada: isso só não aconteceu porque o ser humano é muito teimoso, e a minha teimosia e casmurrice é lendária. Tão arrogante era eu acerca da minha “autonomia intelectual” de católico progressista, que achava que podia ser católico e discordar de quase tudo, desde a homossexualidade, passando pelo aborto, pelo divórcio, pela ordenação das mulheres, pela contracepção artificial, pelo celibato sacerdotal, e pelas demais causas “liberais” da dissidência, que eu demorei anos a arrumar a casa. Não foi fácil dar-me conta da minha estupidez proverbial. Os factos eram evidentes, mas a falta de cultura católica era explosiva, quando estava misturada com um feitio orgulhoso como o meu.
Mas que factos eram esses? Que factos é que se me depararam, e fizeram com que, a pouco e pouco, eu rejeitasse a dissidência e reencontrasse a minha identidade católica?
Em primeiro lugar, que o Concílio Vaticano II tinha um conteúdo muito diferente do que os teólogos “progressistas” afirmavam. Aprendi a distinguir a “letra” do Concílio do dito “espírito” do Concílio, esse cheiro pestilento que normalmente se costuma colar aos textos conciliares, fazendo-os dizer à força coisas que não dizem.
Por exemplo, nunca, em texto algum do Frei Bento que eu tenha lido, eu pude aprender o facto claro e inegável de que o Vaticano II confirmava o papel central do Magistério como agente de preservação e ensinamento da doutrina, papel esse que recebera uma formulação forte de infalibilidade no Vaticano I. Sem nunca ter lido os textos do Concílio, e pela leitura assídua dos dissidentes, fiquei com a ideia de que o Vaticano II era um momento incontornável e decisivo de ruptura. Ora nada é mais contrário à verdade dos factos. O Vaticano II deixou claro quem ensina na Igreja. Nessa e noutras matérias, o Vaticano II, longe de ser ruptura, é um concílio de continuidade, que aprofunda questões que foram trabalhadas no Vaticano I. Por exemplo, um trecho como o seguinte, retirado da Constituição Dogmática Lumen Gentium, não deixa margens para dúvidas ou outras interpretações:

“22. Assim como, por instituição do Senhor, S. Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim de igual modo estão unidos entre si o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os Bispos, sucessores dos Apóstolos. A natureza colegial da ordem episcopal, claramente comprovada pelos Concílios ecuménicos celebrados no decurso dos séculos, manifesta-se já na disciplina. primitiva, segundo a qual os Bispos de todo o orbe comunicavam entre si e com o Bispo de Roma no vínculo da unidade, da caridade e da paz (59); e também na reunião de Concílios (60), nos quais se decidiram em comum coisas importantes (61), depois de ponderada a decisão pelo parecer de muitos (62); o mesmo é claramente demonstrado pelos Concílios Ecuménicos, celebrados no decurso dos séculos. E o uso já muito antigo de chamar vários Bispos a participarem na elevação do novo eleito ao ministério do sumo sacerdócio insinua-a já também. É, pois, em virtude da sagração episcopal e pela comunhão hierárquica com a cabeça e os membros do colégio que alguém é constituído membro do corpo episcopal.

Porém, o colégio ou corpo episcopal não tem autoridade a não ser em união com o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, entendido com sua cabeça, permanecendo inteiro o poder do seu primado sobre todos, quer pastores quer fiéis. Pois o Romano Pontífice, em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, tem nela pleno, supremo e universal poder que pode sempre exercer livremente. A Ordem dos Bispos, que sucede ao colégio dos Apóstolos no magistério e no governo pastoral, e, mais ainda, na qual o corpo apostólico se continua perpetuamente, é também juntamente com o Romano Pontífice, sua cabeça, e nunca sem a cabeça, sujeito do supremo e pleno poder sobre toda a Igreja (63), poder este que não se pode exercer senão com o consentimento do Romano Pontífice. Só a Simão colocou o Senhor como pedra e clavário da Igreja (cfr. Mt. 16, 18-19), e o constituiu pastor de todo o Seu rebanho (cfr. Jo. 21, 15 ss.); mas é sabido que o encargo de ligar e desligar conferido a Pedro (Mt. 16,19), foi também atribuído ao colégio dos Apóstolos unido à sua cabeça (Mt. 18,18; 28, 16-20) (64). Este colégio, enquanto composto por muitos, exprime a variedade e universalidade do Povo de Deus e, enquanto reunido sob uma só cabeça, revela a unidade do redil de Cristo. Neste colégio, os Bispos, respeitando fielmente o primado e chefia da sua cabeça, gozam de poder próprio para bem dos seus fiéis e de toda a Igreja, corroborando sem cessar o Espírito Santo a estrutura orgânica e a harmonia desta.

O supremo poder sobre a Igreja universal, que este colégio tem, exerce-se solenemente no Concílio Ecuménico. Nunca se dá um Concílio Ecuménico sem que seja como tal confirmado ou pelo menos aceite pelo sucessor de Pedro; e é prerrogativa do Romano Pontífice convocar estes Concílios, presidi-los e confirmá-los (65). O mesmo poder colegial pode ser exercido, juntamente com o Papa, pelos Bispos espalhados pelo mundo, contanto que a cabeça do colégio os chame a uma acção colegial ou, pelo menos, aprove ou aceite livremente a acção conjunta dos Bispos dispersos, de forma que haja verdadeiro acto colegial.”
[3] (negrito meu)


Se o ponto 22 da Constituição Dogmática deixa claro o papel do Papa e dos Bispos, vejamos agora o ponto 25, acerca do ministério episcopal de ensinar:

“25. Entre os principais encargos dos Bispos ocupa lugar preeminente a pregação do Evangelho (75). Os Bispos são os arautos da fé que para Deus conduzem novos discípulos. Dotados da autoridade de Cristo, são doutores autênticos, que pregam ao povo a eles confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida prática; ilustrando-a sob a luz do Espírito Santo e tirando do tesoiro da revelação coisas novas e antigas (cfr. Mt. 13,52), fazem-no frutificar e solicitamente afastam os erros que ameaçam o seu rebanho (cfr. 2 Tim. 4, 1-4). Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica. E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.

Embora os Bispos, individualmente, não gozem da prerrogativa da infalibilidade, anunciam, porém, infalivelmente a doutrina de Cristo sempre que, embora dispersos pelo mundo mas unidos entre si e com o sucessor de Pedro, ensinam autenticamente matéria de fé ou costumes concordando em que uma doutrina deve ser tida por definida (76). O que se verifica ainda mais manifestamente quando, reunidos em Concílio Ecuménico, são doutores e juízes da fé e dos costumes para toda a Igreja, devendo-se aderir com fé às suas definições (77).

Mas esta infalibilidade com que o divino Redentor quis dotar a Sua igreja, na definição de doutrinas de fé ou costumes, estende-se tanto quanto se estende o depósito da divina Revelação, o qual se deve religiosamente guardar e fielmente expor. Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes (78). As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo. Pois, nesse caso, o Romano Pontífice não fala como pessoa privada, mas expõe ou defende a doutrina da fé católica como mestre supremo da Igreja universal, no qual reside de modo singular o carisma da infalibilidade da mesma Igreja (79). A infalibilidade prometida à Igreja reside também no colégio episcopal, quando este exerce o supremo magistério em união com o sucessor de Pedro. A estas definições nunca pode faltar o assentimento da Igreja, graças à acção do Espírito Santo, que conserva e faz progredir na unidade da fé todo o rebanho de Cristo (80).

Porém, quando o Romano Pontífice, ou o corpo episcopal com ele, define alguma verdade, propõe-na segundo a Revelação, à qual todos se devem conformar. Esta transmite-se integralmente, por escrito ou por tradição, através da legítima sucessão dos Bispos e, antes de mais, graças à solicitude do mesmo Romano Pontífice; e, sob a iluminação do Espírito de verdade, é santamente conservada e fielmente exposta na Igreja (81). Para a investigar como convém e enunciar aptamente, o Romano Pontífice e os Bispos, segundo o próprio ofício e a gravidade do assunto, trabalham diligentemente, recorrendo aos meios adequados (82); não recebem, porém, nenhuma nova revelação pública que pertença ao depósito divino da fé (83).”
[4] (negrito meu)



Como se pode constatar, a Lumen Gentium é límpida e clara, como o próprio título deixa transparecer. Como tão bem sintetizou Ralph McInerny:

“(…) while anyone is, of course, free to be Catholic or not, he is not free as a Catholic to reject what the Church teaches. To do so is to cease to be a Catholic” [5]


Ou ainda, como explica o professor de filosofia Germain Grisez:

“The thing peculiar to Catholics is that we are papists. I think that the decision is undoubtedly a very hard one, and many people will have to decide whether they want to be papists, that is, Catholic or not. If one is a Catholic, one is a papist. And if one is a papist, then one cannot say, “Rome has spoken, but the cause goes on.” One has to say, “Rome has spoken; the cause is finished.” [6]


Se eu tivesse tido acesso a esta informação valiosa, e também abertura para a receber, poderia ter “regressado a casa” mais cedo, ou seja, poderia ter reencontrado a minha identidade católica mais cedo… Citações como estas, de Ralph McInerny ou de Germain Grisez podem chocar muita gente, mesmo católicos, sobretudo os que ainda vivem sob a alçada da teologia liberal. Mas é inegável que reflectem o verdadeiro espírito do Concílio.

Mas será, realmente, chocante a ideia de que um católico é, por definição, um papista? Só chocará se alguém defender que o Papa não é uma fonte fiável em matéria de doutrina. É esse pressuposto não demonstrado e irrazoável que assumem os não papistas: eles assumem que o Papa não é fiável em matéria de moral e doutrina. E então, seria evidentemente um abuso para a boa formação da consciência ter que aquiescer a uma fonte de moral errada, ou no melhor caso, falível. No entanto, é claro que se o Papa não se engana em matéria de doutrina e de moral, então a aquiescência da nossa consciência, o nosso sim filial e incondicional, é para nós garantia segura de inerrância. Ao estarmos com Pedro, e sob Pedro, estamos na melhor situação possível. E isso é algo claro e transparente para qualquer católico que entendeu o que é ser católico. E é por isso que qualquer católico não pode deixar de olhar para o Papa como quem olha para um real e presente “alter Christus”, como um ícone e reflexo da mesma verdade de sempre que nos foi legada por Jesus Cristo Senhor Nosso, não para nossa ilustração intelectual, não para os nossos debates filosóficos, mas para a nossa salvação. Isto não resulta, é óbvio, de um “endeusamento” da figura do Papa: é apenas conclusão lógica e racional da promessa de Cristo descrita em Mateus 16, 18: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do abismo nada poderão contra ela”.

Mas então, de onde vem esta esquizofrenia pretensamente católica que consiste em querer defender a posição indefensável de que se pode ser católico e ao mesmo tempo, divergir dos ensinamentos do Magistério?

O ponto histórico central que marca esta ruptura dos teólogos liberais com o ensinamento de sempre da Igreja pode definir-se de forma clara na reacção destes à encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI. Os teólogos liberais ficaram duplamente “ofendidos” com esta encíclica: por um lado, durante as décadas que precederam a encíclica, eles ensinavam aos casais que a contracepção artificial era tolerável, ou mesmo louvável, no casamento católico. Por outro lado, uma comissão teológica instituída pelo Papa João XXIII, e cujos trabalhos se prolongaram até ao papado de Paulo VI, concluiu que não havia objecções à contracepção artificial, desde que usada dentro do casamento. Quando o Papa Paulo VI publica a Humanae Vitae a 25 de Julho de 1968, indo no sentido contrário da conclusão da comissão teológica, compreende-se a situação delicada na qual o Papa deixara estes teólogos, ou melhor, a situação delicada na qual os teólogos, eles mesmos, se haviam colocado. O que já não se compreende é a reacção intempestiva destes últimos. Frei Charles Curran, professor de teologia na Catholic University of America e vice-presidente da American Theological Association, lançou um abaixo-assinado que chegou às páginas do New York Times a 30 de Julho, apenas 5 dias após a publicação da encíclica. O abaixo-assinado trazia as assinaturas de mais de duzentos teólogos (note-se a ausência de bispos). Surgia então, em 1968, este “novo magistério” alternativo e não oficial! Nos anos que se seguiram, este “novo magistério” iria ganhar aderentes e espalhar-se por todo o mundo católico, entrando em seminários, em universidades, nas catequeses, nas paróquias, em casas de retiro, e nos jornais e publicações católicas. Aos fiéis, cabia-lhes escolher de que lado ficariam. Os teólogos dissidentes deixavam os fiéis numa situação horrível…

O que isto deixa claro, nesse ano já remoto de 1968, era que se estava perante um problema novo, criado pelos teólogos liberais: estes procuravam promover uma nova visão do que era a Igreja Católica, e mais do que isso, queriam ser vistos como dotados de uma real vocação para o ensino de doutrina e moral em pé de igualdade com o Magistério. Claramente, estavam contra os ensinamentos de sempre, incluindo evidentemente o Concílio Vaticano II, que não mudou, nem podia mudar, a natureza da Igreja Católica. Veja-se, a título de exemplo da inicial “solidão” destes teólogos dissidentes, a posição clara tomada pelos bispos norte-americanos, que no dia 31 de Julho de 1968, pela voz do presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o Arcebispo John Dearden de Detroit, tornou pública a posição oficial dos bispos norte-americanos, totalmente alinhada com Paulo VI.

Surge a questão central: então, como é que a posição isolada dos teólogos dissidentes se massificou nas décadas seguintes? A resposta não é fácil de dar. Certamente, inúmeras razões podem e devem ser apontadas para esta disseminação generalizada, que fez de uma posição extremista de teólogos a posição assumida por um enorme número de fiéis nos anos seguintes. É inegável que uma das razões está na maior facilidade em aceitar esta nova “moralidade” dos teólogos dissidentes. É agradável para o ouvido humano a defesa da “maturidade” dos fiéis católicos modernos, a defesa da irrelevância do sacramento da confissão, a promoção da prática de um “juízo interior” no qual o crente “maduro” avalia sozinho a sua consciência. Para mais, a “nova moral” proposta pelos teólogos dissidentes rivalizava com a moral católica de sempre com uma força desequilibrada. Não só esta “nova moral”, muito menos exigente, era mais apelativa e fácil de ser aceite, como evidentemente, caiu em cheio na mentalidade moderna da altura.

Em 1968, o mundo recebeu de braços abertos a nova teologia dissidente. Os inimigos da Igreja regozijaram-se com esta nova fissura na muralha. Os que, não sendo inimigos da Igreja, não a conheciam nem a compreendiam, ficaram satisfeitos com esta nova “adaptação” da doutrina da Igreja à cultura moderna. Na sociedade moderna, a fronteira entre católico e não católico diluiu-se: afinal, podia-se ser católico e ter uma moral muito mais relaxada e ao gosto da época. Esta atitude fracturante abriu caminho para o surgimento de pequenas facções dissidentes, como o movimento We Are Church (em Portugal, Nós somos Igreja), cuja visão da Igreja Católica está totalmente em contra-ciclo com o Vaticano II (apesar de os seus líderes dizerem precisamente o contrário). Estas facções, que passados vários da sua fundação continuam marginais e sem bases de apoio, culpam a hierarquia pelo insucesso das suas iniciativas revolucionárias, em vez de verem as coisas como elas são: o tal "povo de Deus", dos quais estes movimentos se julgaram porta-vozes, não ligou nenhuma a este convite à dissidência.

Os teólogos dissidentes tornaram-se, hoje em dia, figuras do passado. A teologia dissidente está a definhar. É que, quatro décadas de teologia dissidente deixaram claras quais são as consequências de seguir esse caminho da asneira: seminários vazios, igrejas a esvaziar de forma sistemática, desenraizamento das novas gerações da cultura e da doutrina católicas, desorientação e desânimo dos fiéis, e sensação permanente de desunião.

Olhando para o papado de João Paulo II e de Bento XVI, fica evidente, para qualquer observador atento, que o tempo da dissidência já lá vai. A Igreja recupera, de novo, a sua identidade, enquanto tenta sarar as feridas da dissidência. Muitos teólogos dissidentes ainda estão vivos e falantes. Ainda dão palestras, ainda dirigem cursos de teologia, ainda influenciam as novas gerações. Mas é uma questão de tempo: eles defendem uma ideologia “datada” dessa década de sessenta, uma ideologia que quis promover um catolicismo de ruptura. A Igreja existe há 2.000 anos. Irá, certamente, sobreviver aos teólogos dissidentes que montaram o “Maio de 68” (para usar uma expressão de Massimo Introvigne) da Igreja Católica…

Ainda há poucos anos, enquanto me dava conta dos meus erros de juventude, e da imoralidade que lhes estava associada, cheguei a sentir genuína antipatia por estes teólogos dissidentes, que foram os meus ídolos do catolicismo da minha juventude. Via-os como os únicos culpados: responsabilizava os seus escritos por me terem enganado, a mim e a muitos, acerca do real significado da Igreja, e por me terem mantido longe do verdadeiro catolicismo durante muito tempo. Mas a verdade é que eu próprio fui conivente, preferindo lê-los e ouvi-los como “progressistas” e ignorando os muitos que, realmente dentro do espírito católico, diziam o contrário. É que abandonar o “catolicismo liberal” em favor do catolicismo de sempre não é uma decisão fácil: obriga a mudar toda a nossa vida, a começar pelos nossos actos, pela nossa moral.

O tempo passou, e se ainda sinto repulsa intelectual pelas posições dos teólogos dissidentes, hoje olho para eles com outros olhos. De certa forma, é complicado para a maioria das pessoas escapar ao “espírito dos tempos”, sobretudo àquele final da década de sessenta, que foi tudo menos tranquilo. Não movo nenhuma guerra pessoal contra Frei Bento ou contra outros teólogos liberais. Tal atitude não seria cristã, e hoje tenho a certeza de que não se deve mover tal guerra no plano pessoal. No entanto, algumas das suas ideias erradas continuam vivas e espalhadas por aí. E essas ideias devem ser combatidas. Penso que, como em tudo, o tempo será um valioso ajudante, à medida que progredimos e ultrapassamos a atitude adolescente de dissidência (e o espírito de “Maio de 68” que tanto marcou as últimas décadas do catolicismo) e entramos na maturidade da fé católica.

[1] "Por opção da mulher", jornal Público, Fevereiro de 2007. Ver artigo aqui.
[2] Para que não restem dúvidas de que votar "sim" no referendo ao aborto implicava dissidência, bastaria ter-se consultado o documento da Congregação para a Doutrina da Fé, de 24 de Novembro de 2002, que deixava a questão bem esclarecida: «Neste contexto, há que acrescentar que a consciência cristã bem formada não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a actuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos.», Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política.
[3] Constituição Dogmática Lumen Gentium, ponto 22.
[4] Constituição Dogmática Lumen Gentium, ponto 25.
[5] McInerny, Ralph, What went wrong with Vatican II - The Catholic Crisis explained, Sophia Institute Press, 1998, p. 81.
[6] Ibidem, pp. 81-82.