Foi adicionada a possibilidade de fazer comentários ao que por cá se escreve.
Convidam-se os leitores a que usem e abusem (dentro dos limites da decência) desta ferramenta!
Bernardo
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
segunda-feira, 8 de março de 2004
sexta-feira, 5 de março de 2004
"A superstição da Ciência"
La Superstition de la Science é um dos capítulos do livro Orient et Occident (1924), de René Guénon.
Seria excelente se todos aqueles que trabalham no âmbito das ciências modernas tivessem conhecimento da obra de Guénon. Deixo aqui alguns excertos:
"Il est assez étrange, dira-t-on, de mettre la raison au-dessus de tout, de professer pour elle un véritable culte, et de proclamer en même temps qu'elle este essentiellement limitée; cela est quelque peu contradictoire, en effet (...) Nous aussi, nous disons que la raison est bornée et relative; mais, bien loin d'en faire le tout de l'intelligence, nous ne la regardons que comme une de ses portions inférieures, et nous voyons dans l'intelligence d'autres possibilités qui dépassent immensément celles de la raison." - pág. 47, op. cit.
Assim, nada mais contraditório que:
1. Admitir que a razão é limitada;
2. Colocá-la nos píncaros das capacidades intelectuais do ser humano.
Concordando com o primeiro ponto, verificamos que os problemas começam com a afirmação do segundo ponto, que se tornou num dos dogmas modernos, o "racionalismo".
A limitação do conhecimento, imposta pela própria característica limitada da razão humana é, sem que muitos cientistas o suspeitem, a razão de ser da postura "sistemática". Toda a construção sistemática traz, em si, uma limitação intrínseca, a de ser um "conceito fechado". Regressemos às palavras de Guénon:
"Cet esprit de négation, ce n'est pas autre chose que l'esprit systématique, car un système est essentiellement une conception fermée; et il en est arrivé à s'identifier à l'esprit philosophique lui-même, surtout depuis Kant, qui, voulant enfermer toute connaissance dans le relatif, a osé déclarer expressément que «la philosophie est, non un instrument pour étendre la connaissance mas une discipline pour la limiter», ce qui revient à dire que la fonction primordiale des philosophes consiste à imposer à tous les bornes étroites de leur propre entendement." - pág. 48, op. cit., Guénon cita Kant da obra Kritik der reinen Vernunft ("Crítica da Razão Pura").
Assim, o próprio Kant já está a explicar o trabalho filosófico como uma forma de limitar o conhecimento, mais do que o aumentar. Que postura tão diametralmente oposta da filosofia clássica!
Bernardo
Seria excelente se todos aqueles que trabalham no âmbito das ciências modernas tivessem conhecimento da obra de Guénon. Deixo aqui alguns excertos:
"Il est assez étrange, dira-t-on, de mettre la raison au-dessus de tout, de professer pour elle un véritable culte, et de proclamer en même temps qu'elle este essentiellement limitée; cela est quelque peu contradictoire, en effet (...) Nous aussi, nous disons que la raison est bornée et relative; mais, bien loin d'en faire le tout de l'intelligence, nous ne la regardons que comme une de ses portions inférieures, et nous voyons dans l'intelligence d'autres possibilités qui dépassent immensément celles de la raison." - pág. 47, op. cit.
Assim, nada mais contraditório que:
1. Admitir que a razão é limitada;
2. Colocá-la nos píncaros das capacidades intelectuais do ser humano.
Concordando com o primeiro ponto, verificamos que os problemas começam com a afirmação do segundo ponto, que se tornou num dos dogmas modernos, o "racionalismo".
A limitação do conhecimento, imposta pela própria característica limitada da razão humana é, sem que muitos cientistas o suspeitem, a razão de ser da postura "sistemática". Toda a construção sistemática traz, em si, uma limitação intrínseca, a de ser um "conceito fechado". Regressemos às palavras de Guénon:
"Cet esprit de négation, ce n'est pas autre chose que l'esprit systématique, car un système est essentiellement une conception fermée; et il en est arrivé à s'identifier à l'esprit philosophique lui-même, surtout depuis Kant, qui, voulant enfermer toute connaissance dans le relatif, a osé déclarer expressément que «la philosophie est, non un instrument pour étendre la connaissance mas une discipline pour la limiter», ce qui revient à dire que la fonction primordiale des philosophes consiste à imposer à tous les bornes étroites de leur propre entendement." - pág. 48, op. cit., Guénon cita Kant da obra Kritik der reinen Vernunft ("Crítica da Razão Pura").
Assim, o próprio Kant já está a explicar o trabalho filosófico como uma forma de limitar o conhecimento, mais do que o aumentar. Que postura tão diametralmente oposta da filosofia clássica!
Bernardo
quarta-feira, 3 de março de 2004
A filosofia moderna e o conceito de "alma"
Em tempos que já lá vão, filósofos como Platão e Aristóteles, apesar das suas divergências, tinham uma noção correcta acerca da "alma", que era um dos temas importantes da filosofia.
Hoje em dia, este conceito passou a ser visto como pertencendo ao domínio da religião.
Por esta razão, a partir dos primórdios do racionalismo, poucos foram os filósofos que mostraram a posse de uma noção adequada de "alma".
No entanto, a mais breve leitura ao texto "De Anima" de Aristóteles, que até nem é extenso, bastaria para compreender que a "alma" é aquilo que "anima" os seres vivos, como a própria etimologia latina da palavra o indica. O facto dos seres vivos estarem "animados" de forma diferente (por exemplo o homem é dotado de intelecto mas o eucalipto não) deriva da existência de diversas faculdades na alma, que nem sempre estão presentes em todos os seres, ou quando o estão, nem sempre estão do mesmo modo.
Porque "alma" é o que anima os seres vivos, é trivial concluir que qualquer ser vivo possui alma.
Assim se vê que não se trata de um termo exclusivamente religioso, podendo (e devendo) ser usado no âmbito da filosofia. Pouparia sem dúvida muitas confusões modernas.
A mentalidade moderna confunde sobretudo "alma" com "espírito", que é outra coisa completamente diferente.
Termino com um excerto de António Telmo, da sua "História Secreta de Portugal", onde se lê na pág. 134:
«O ódio à natureza ou, num grau menor, a indiferença pela natureza têm como contraponto a criação de condições que permitam anular os sentimentos que resultam da ideia de Deus presente na Natureza (Shekinah). Seja o medo e o espanto. O espanto que Platão e Aristóteles punham como origem da filosofia e o temor dos Deuses que o segundo considerava o princípio da tragédia, foram expurgados da alma do homem, exconjurados pela filosofia moderna, a qual, ao interpretá-los como produções da subjectividade enganada, cortou o contacto com os "mistérios" do destino e da ideia. A filosofia moderna da história, assente sobre o elogio do homem civilizado (como se os contemporâneos de Aristóteles fossem selvagens!), atribui aqueles sentimentos a um estado de alma rudimentar e primitivo. Órgãos do nosso conhecimento subtil, foram amputados. Equivale isto a defender a cegueira física e o ensurdecimento do homem numa filosofia que considerasse os dados da vista e do ouvido perturbadores de um conhecimento real do mundo. Como só a razão constrói um sistema de certezas, tudo quanto apreendemos e aprendemos pelos sentidos ou pelos sentimentos, por mais evidente que se afigure, deve ser banido do domínio da ciência e só admitido como dado suspeito que deve passar pela "crítica da razão pura".
Pensava, pelo contrário, Aristóteles que a razão não deve proceder sem a experiência da alma.» (negrito meu)
Bernardo
Hoje em dia, este conceito passou a ser visto como pertencendo ao domínio da religião.
Por esta razão, a partir dos primórdios do racionalismo, poucos foram os filósofos que mostraram a posse de uma noção adequada de "alma".
No entanto, a mais breve leitura ao texto "De Anima" de Aristóteles, que até nem é extenso, bastaria para compreender que a "alma" é aquilo que "anima" os seres vivos, como a própria etimologia latina da palavra o indica. O facto dos seres vivos estarem "animados" de forma diferente (por exemplo o homem é dotado de intelecto mas o eucalipto não) deriva da existência de diversas faculdades na alma, que nem sempre estão presentes em todos os seres, ou quando o estão, nem sempre estão do mesmo modo.
Porque "alma" é o que anima os seres vivos, é trivial concluir que qualquer ser vivo possui alma.
Assim se vê que não se trata de um termo exclusivamente religioso, podendo (e devendo) ser usado no âmbito da filosofia. Pouparia sem dúvida muitas confusões modernas.
A mentalidade moderna confunde sobretudo "alma" com "espírito", que é outra coisa completamente diferente.
Termino com um excerto de António Telmo, da sua "História Secreta de Portugal", onde se lê na pág. 134:
«O ódio à natureza ou, num grau menor, a indiferença pela natureza têm como contraponto a criação de condições que permitam anular os sentimentos que resultam da ideia de Deus presente na Natureza (Shekinah). Seja o medo e o espanto. O espanto que Platão e Aristóteles punham como origem da filosofia e o temor dos Deuses que o segundo considerava o princípio da tragédia, foram expurgados da alma do homem, exconjurados pela filosofia moderna, a qual, ao interpretá-los como produções da subjectividade enganada, cortou o contacto com os "mistérios" do destino e da ideia. A filosofia moderna da história, assente sobre o elogio do homem civilizado (como se os contemporâneos de Aristóteles fossem selvagens!), atribui aqueles sentimentos a um estado de alma rudimentar e primitivo. Órgãos do nosso conhecimento subtil, foram amputados. Equivale isto a defender a cegueira física e o ensurdecimento do homem numa filosofia que considerasse os dados da vista e do ouvido perturbadores de um conhecimento real do mundo. Como só a razão constrói um sistema de certezas, tudo quanto apreendemos e aprendemos pelos sentidos ou pelos sentimentos, por mais evidente que se afigure, deve ser banido do domínio da ciência e só admitido como dado suspeito que deve passar pela "crítica da razão pura".
Pensava, pelo contrário, Aristóteles que a razão não deve proceder sem a experiência da alma.» (negrito meu)
Bernardo
terça-feira, 2 de março de 2004
Descartes e a evidência
Descartes marca um ponto de viragem na filosofia. Sem querer colocar em Descartes toda a culpa na deriva intelectual da filosofia moderna, consideramos que este filósofo teve um papel decisivo neste processo.
Uma questão fulcral é a da evidência.
Socorro-me agora do estudo introdutório feito pelos professores da Universidade de São Paulo, Luiz Jean Lauland e Mario Bruno Sproviero, à obra "Verdade e Conhecimento" de S. Tomás de Aquino.
Neste estudo introdutório, lê-se na página 121:
«Descartes, verdadeiro fundador da filosofia moderna, estabeleceu como critério da verdade a percepção clara e distinta da coisa, considerando o único princípio em que deve fundamentar-se a verdade»
Ora isto é já, para Descartes, um ponto de partida muito frágil. Para ele, o critério repousa numa percepção que é de ordem individual. Ou seja, calha ao indivíduo a tarefa de se aperceber clara e distintamente das coisas.
É claro que Descartes se deu conta deste problema, e são suas estas palavras:
«Duvidaremos mesmo das demonstrações matemáticas e seus princípios, ainda que estes sejam muito evidentes, pois existem homens que se enganaram meditando a respeito dessas matérias e sobretudo porque ouvimos dizer que Deus, que nos criou, pode fazer quanto lhe agrade.»
No fundo, Descartes dá-se conta da fragilidade do seu critério de verdade. Ele reconhece que a percepção do indivíduo humano é falível. E tenta resolver esta questão, apelando ao critério do consenso universal.
Assim, para Descartes, se "muitos" indivíduos concordam numa dada percepção de uma coisa, tal facto reforça a clareza e a distinção da ideia da coisa.
Trata-se de uma afirmação que muitos diriam ser "de bom senso".
Só que o senso comum, por muita qualidade que apresente neste ou naquele indivíduo, não deixa nunca de ser de cariz individual, e não universal.
É o que reconhecem os autores referidos, mais adiante no texto:
«Deve-se insistir que o consenso universal não é a causa, mas o efeito da verdadeira evidência: uma proposição não é evidentemente verdadeira porque todos a admitem, mas todos a admitem, ou deveriam admiti-la, se é evidentemente verdadeira.»
A partir de Descartes nascerá a corrente racionalista, que como vimos, apresenta este ponto de partida "coxo". A postura de Descartes nasce destes dois pressupostos falsos:
a) todas as coisas verdadeiras têm que ser claras e distintas
b) o consenso dos indivíduos relativo à percepção de uma coisa é critério de validade
O próprio Descartes explicita o segundo pressuposto de forma muito clara:
«A outra razão que prova a clareza dos princípios é que foram conhecidos em todas as épocas e até aceites como exactos e isentos de dúvidas pelos homens (...)»
Com Descartes, o caminho para a derrocada da filosofia estava aberto.
Pensadores como Hugues F. R. de Lamennais (1782-1854) iriam popularizar o critério do consenso universal, mas de forma mais radical e definitiva: se há consenso então há verdade.
Quando sucede (ou deveria suceder) precisamente o contrário!
O consenso é efeito, e não causa da verdade!
Esta confusão entre causa e efeito marca, como dissemos, um ponto de viragem na filosofia, e abre o caminho para a maior parte da filosofia moderna e contemporânea. E pela filosofia se mede o estado intelectual das ciências...
Bernardo
Nota: as citações de Descartes provêm da obra "Princípios da Filosofia".
Uma questão fulcral é a da evidência.
Socorro-me agora do estudo introdutório feito pelos professores da Universidade de São Paulo, Luiz Jean Lauland e Mario Bruno Sproviero, à obra "Verdade e Conhecimento" de S. Tomás de Aquino.
Neste estudo introdutório, lê-se na página 121:
«Descartes, verdadeiro fundador da filosofia moderna, estabeleceu como critério da verdade a percepção clara e distinta da coisa, considerando o único princípio em que deve fundamentar-se a verdade»
Ora isto é já, para Descartes, um ponto de partida muito frágil. Para ele, o critério repousa numa percepção que é de ordem individual. Ou seja, calha ao indivíduo a tarefa de se aperceber clara e distintamente das coisas.
É claro que Descartes se deu conta deste problema, e são suas estas palavras:
«Duvidaremos mesmo das demonstrações matemáticas e seus princípios, ainda que estes sejam muito evidentes, pois existem homens que se enganaram meditando a respeito dessas matérias e sobretudo porque ouvimos dizer que Deus, que nos criou, pode fazer quanto lhe agrade.»
No fundo, Descartes dá-se conta da fragilidade do seu critério de verdade. Ele reconhece que a percepção do indivíduo humano é falível. E tenta resolver esta questão, apelando ao critério do consenso universal.
Assim, para Descartes, se "muitos" indivíduos concordam numa dada percepção de uma coisa, tal facto reforça a clareza e a distinção da ideia da coisa.
Trata-se de uma afirmação que muitos diriam ser "de bom senso".
Só que o senso comum, por muita qualidade que apresente neste ou naquele indivíduo, não deixa nunca de ser de cariz individual, e não universal.
É o que reconhecem os autores referidos, mais adiante no texto:
«Deve-se insistir que o consenso universal não é a causa, mas o efeito da verdadeira evidência: uma proposição não é evidentemente verdadeira porque todos a admitem, mas todos a admitem, ou deveriam admiti-la, se é evidentemente verdadeira.»
A partir de Descartes nascerá a corrente racionalista, que como vimos, apresenta este ponto de partida "coxo". A postura de Descartes nasce destes dois pressupostos falsos:
a) todas as coisas verdadeiras têm que ser claras e distintas
b) o consenso dos indivíduos relativo à percepção de uma coisa é critério de validade
O próprio Descartes explicita o segundo pressuposto de forma muito clara:
«A outra razão que prova a clareza dos princípios é que foram conhecidos em todas as épocas e até aceites como exactos e isentos de dúvidas pelos homens (...)»
Com Descartes, o caminho para a derrocada da filosofia estava aberto.
Pensadores como Hugues F. R. de Lamennais (1782-1854) iriam popularizar o critério do consenso universal, mas de forma mais radical e definitiva: se há consenso então há verdade.
Quando sucede (ou deveria suceder) precisamente o contrário!
O consenso é efeito, e não causa da verdade!
Esta confusão entre causa e efeito marca, como dissemos, um ponto de viragem na filosofia, e abre o caminho para a maior parte da filosofia moderna e contemporânea. E pela filosofia se mede o estado intelectual das ciências...
Bernardo
Nota: as citações de Descartes provêm da obra "Princípios da Filosofia".
segunda-feira, 1 de março de 2004
Skeptic's Annotated Bible (and Quran)
Os nossos críticos ateus do www.ateismo.net enviaram-nos uma sugestão de leitura:
Skeptic's Annotated Bible (and Quran)
Devo dizer que foram muito divertidos os 3 minutos que perdi naquele site. Claro que o site não me foi recomendado como sendo algum tipo de argumentação ateia, ou refutação do teísmo, mas sim como um tipo de graçola.
O site é, sem dúvida, impressionante pela enorme quantidade de trabalho que lá se encontra.
Falamos de imenso trabalho. Horas e horas. Comentar toda a Bíblia e todo o Corão é um trabalho que mete respeito. Mas respeito pela sua dimensão, não pela sua qualidade.
A utilidade do trabalho é quase nula.
Os preconceitos dos comentários são gritantes.
A ignorância dos significados e do simbolismo é quase total.
É como se alguém se decidisse a anotar a lista telefónica de Lisboa, escrevendo em todas as entradas uma laracha sobre a pessoa em questão.
Fez-me lembrar uma tirada genial do filme "Um Peixe Chamado Wanda".
Wanda está a insultar Otto, dizendo-lhe que ele é como um macaco. Já não me recordo da forma concreta do insulto...
E Otto responde-lhe, com um ar pomposo:
"Apes don't read philosophy!"
Ao que Wanda retorque:
"Yes they do, Otto! Yes, they do... They just don't understand it..."
Bernardo
Skeptic's Annotated Bible (and Quran)
Devo dizer que foram muito divertidos os 3 minutos que perdi naquele site. Claro que o site não me foi recomendado como sendo algum tipo de argumentação ateia, ou refutação do teísmo, mas sim como um tipo de graçola.
O site é, sem dúvida, impressionante pela enorme quantidade de trabalho que lá se encontra.
Falamos de imenso trabalho. Horas e horas. Comentar toda a Bíblia e todo o Corão é um trabalho que mete respeito. Mas respeito pela sua dimensão, não pela sua qualidade.
A utilidade do trabalho é quase nula.
Os preconceitos dos comentários são gritantes.
A ignorância dos significados e do simbolismo é quase total.
É como se alguém se decidisse a anotar a lista telefónica de Lisboa, escrevendo em todas as entradas uma laracha sobre a pessoa em questão.
Fez-me lembrar uma tirada genial do filme "Um Peixe Chamado Wanda".
Wanda está a insultar Otto, dizendo-lhe que ele é como um macaco. Já não me recordo da forma concreta do insulto...
E Otto responde-lhe, com um ar pomposo:
"Apes don't read philosophy!"
Ao que Wanda retorque:
"Yes they do, Otto! Yes, they do... They just don't understand it..."
Bernardo
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004
René Guénon - o mais importante codificador contemporâneo da Tradição
No meio das tormentas que nos afligem nestes tempos conturbados, nunca é demais lembrar e relembrar René Guénon (1886-1951) e a sua obra monumental.
É bastante elucidativo o silêncio a que as "elites" pensantes modernas votaram René Guénon.
Ele é tão pouco lido e comentado, que os detractores nem se dão ao trabalho de investir contra a sua obra. O esforço exigido para refutar a obra de Guénon é esmagador face ao escassíssimo público que a conhece.
Contudo, nada como a obra de Guénon para servir de panaceia à falência intelectual moderna.
Ultimamente, tenho recebido fortes críticas provenientes de alguns ateístas portugueses.
De facto, é preciso muita determinação (e atrevimento!) para, conhecendo bem a realidade tradicionalista, navegar contra ela e combatê-la. Com isto quero dizer que as posturas anti-tradicionais conscientes são um fenómeno raro.
Por isso, não censuro e não condeno as opiniões dos ateístas que me contactaram recentemente.
Acredito que na maior parte dos casos, trata-se de pura e simples ignorância relativamente a questões tradicionais. E contra mim falo, porque apenas travei conhecimento com estas questões há poucos anos.
Assim, considero as suas posturas como "anti-tradicionalismo inconsciente".
E queria convidá-los, e a todos os leitores, a conhecer alguns artigos de René Guénon, que se encontram traduzidos no site Symbolos.
Ao longo dos próximos dias, irei focar alguns destes artigos.
Para já, sugeria este "Observaciones Acerca de la Notacion Matemática", que provém da segunda parte do capítulo II da resenha póstuma "Mélanges", Ed. Gallimard, 1976.
Este artigo demonstra bem como até na Matemática, último bastião do rigor, se perderam e deturparam muitos e importantes conceitos fundamentais.
Bernardo
É bastante elucidativo o silêncio a que as "elites" pensantes modernas votaram René Guénon.
Ele é tão pouco lido e comentado, que os detractores nem se dão ao trabalho de investir contra a sua obra. O esforço exigido para refutar a obra de Guénon é esmagador face ao escassíssimo público que a conhece.
Contudo, nada como a obra de Guénon para servir de panaceia à falência intelectual moderna.
Ultimamente, tenho recebido fortes críticas provenientes de alguns ateístas portugueses.
De facto, é preciso muita determinação (e atrevimento!) para, conhecendo bem a realidade tradicionalista, navegar contra ela e combatê-la. Com isto quero dizer que as posturas anti-tradicionais conscientes são um fenómeno raro.
Por isso, não censuro e não condeno as opiniões dos ateístas que me contactaram recentemente.
Acredito que na maior parte dos casos, trata-se de pura e simples ignorância relativamente a questões tradicionais. E contra mim falo, porque apenas travei conhecimento com estas questões há poucos anos.
Assim, considero as suas posturas como "anti-tradicionalismo inconsciente".
E queria convidá-los, e a todos os leitores, a conhecer alguns artigos de René Guénon, que se encontram traduzidos no site Symbolos.
Ao longo dos próximos dias, irei focar alguns destes artigos.
Para já, sugeria este "Observaciones Acerca de la Notacion Matemática", que provém da segunda parte do capítulo II da resenha póstuma "Mélanges", Ed. Gallimard, 1976.
Este artigo demonstra bem como até na Matemática, último bastião do rigor, se perderam e deturparam muitos e importantes conceitos fundamentais.
Bernardo
Symbolos
Este é um site muito interessante, sobretudo pela abundância de textos de autores tradicionais como René Guénon e Ananda Coomaraswamy:
Symbolos
Nada posso dizer sobre as opiniões e comentários dos organizadores do site, visto que ainda não os conheço com detalhe, mas o site recomenda-se sobretudo pela abundância de material que costuma ser difícil de encontrar.
Bernardo
Symbolos
Nada posso dizer sobre as opiniões e comentários dos organizadores do site, visto que ainda não os conheço com detalhe, mas o site recomenda-se sobretudo pela abundância de material que costuma ser difícil de encontrar.
Bernardo
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004
Ai o ateísmo...
Encontrei há pouco na internet este site, cuja visita recomendo, porque é didáctica:
http://www.ateismo.net
Esta questão do ateísmo está um pouco fora de moda, e este site é uma viva prova disso. Lembra os velhos chavões do positivismo, racionalismo, evolucionismo, darwinismo, cartesianismo, mecanicismo, materialismo, enfim, todos os típicos "-ismos" destes "livres pensadores". O que é curioso é que tanta liberdade de pensar culmina, no limite, com não pensar de todo.
Enfim, o site é intelectualmente medíocre, o que é entristecedor para a causa ateísta.
No meio do caos intelectual em que mergulhou o mundo moderno, não deixo contudo de apontar que acho estes senhores muito menos perigosos do que aqueles que defendem pseudo-espiritualidades. Perfiro a mente céptica de um bom e feroz ateísta aos perigosos delírios das novas tendências "new age".
Talvez o diálogo seja difícil com um ateísta. Mas o diálogo com adeptos do espiritismo, da cientologia, da teosofia, do ocultismo, é simplesmente impossível.
Bernardo
http://www.ateismo.net
Esta questão do ateísmo está um pouco fora de moda, e este site é uma viva prova disso. Lembra os velhos chavões do positivismo, racionalismo, evolucionismo, darwinismo, cartesianismo, mecanicismo, materialismo, enfim, todos os típicos "-ismos" destes "livres pensadores". O que é curioso é que tanta liberdade de pensar culmina, no limite, com não pensar de todo.
Enfim, o site é intelectualmente medíocre, o que é entristecedor para a causa ateísta.
No meio do caos intelectual em que mergulhou o mundo moderno, não deixo contudo de apontar que acho estes senhores muito menos perigosos do que aqueles que defendem pseudo-espiritualidades. Perfiro a mente céptica de um bom e feroz ateísta aos perigosos delírios das novas tendências "new age".
Talvez o diálogo seja difícil com um ateísta. Mas o diálogo com adeptos do espiritismo, da cientologia, da teosofia, do ocultismo, é simplesmente impossível.
Bernardo
sexta-feira, 30 de janeiro de 2004
Do Público de hoje, a respeito de declarações de Condoleezza Rice:
«Em defesa da CIA, Rice afirmou que não é surpreendente que a Casa Branca se tenha enganado em relação ao Iraque, porque "era um país fechado, com muito secretismo, que estava a fazer tudo o que era possível para enganar as Nações Unidas e o mundo".»
Se não fosse um assunto muito grave, e se a intervenção armada dos E.U.A. no Iraque não fosse um grave crime de guerra, até que daria vontade de rir ao ler estas palavras da Sr.ª Rice...
Bernardo
«Em defesa da CIA, Rice afirmou que não é surpreendente que a Casa Branca se tenha enganado em relação ao Iraque, porque "era um país fechado, com muito secretismo, que estava a fazer tudo o que era possível para enganar as Nações Unidas e o mundo".»
Se não fosse um assunto muito grave, e se a intervenção armada dos E.U.A. no Iraque não fosse um grave crime de guerra, até que daria vontade de rir ao ler estas palavras da Sr.ª Rice...
Bernardo
segunda-feira, 19 de janeiro de 2004
Terrorismo e niilismo
Eis uma entrevista ao filósofo francês André Glucksmann, feita pelo Le Figaro, e extraída de "O Mundo Depois da Guerra no Iraque", da Relógio d'Água:
«AG: O terrorismo niilista não é uma especificidade muçulmana, é por isso que sou completamente contra a tese do conflito das civilizações entendido como uma guerra de religião. O niilismo é o denominador comum das grandes ideologias extreminadoras que temos conhecido e conhecemos. Nazismo, comunismo e islamismo vestem diferentemente a mesma pulsão de aniquilamento que permite também essas iniciativas mais individuais e locais.
LF: Em que consiste essa pulsão destruidora?
AG: O niilismo religioso reclama-se de um deus mais aniquilador do que criador; os niilistas sem Deus alinham com os outros pretextos como a raça, a história, para se dedicarem do mesmo modo a fazer "tabula rasa". As crenças variam, mas não o furor que as instrumentaliza. Quer seja muçulmano, judeu ou cristão, o religioso tradicional fica desorientado. Ultrapassado.
LF: No fundo, essa pulsão destruidora tem pouco a ver com a religião?
AG: Estamos perante uma dissolução da religião, muito mais do que perante a sua afirmação fanática. A essência do niilismo não é religiosa.
(...)»
As palavras de Glucksmann estão plenas de lucidez.
O que ele chama de "niilismo" é o que eu referi aqui há meses como "anti-tradição" no contexto da "Idade Escura" dos hindus.
A crise do mundo moderno, em todas as suas vertentes, tem a sua razão profundamente enraizada em motivações anti-tradicionais, ou como diz Glucksmann, motivações "niilistas", que de facto nada têm de religiosas.
Bernardo
«AG: O terrorismo niilista não é uma especificidade muçulmana, é por isso que sou completamente contra a tese do conflito das civilizações entendido como uma guerra de religião. O niilismo é o denominador comum das grandes ideologias extreminadoras que temos conhecido e conhecemos. Nazismo, comunismo e islamismo vestem diferentemente a mesma pulsão de aniquilamento que permite também essas iniciativas mais individuais e locais.
LF: Em que consiste essa pulsão destruidora?
AG: O niilismo religioso reclama-se de um deus mais aniquilador do que criador; os niilistas sem Deus alinham com os outros pretextos como a raça, a história, para se dedicarem do mesmo modo a fazer "tabula rasa". As crenças variam, mas não o furor que as instrumentaliza. Quer seja muçulmano, judeu ou cristão, o religioso tradicional fica desorientado. Ultrapassado.
LF: No fundo, essa pulsão destruidora tem pouco a ver com a religião?
AG: Estamos perante uma dissolução da religião, muito mais do que perante a sua afirmação fanática. A essência do niilismo não é religiosa.
(...)»
As palavras de Glucksmann estão plenas de lucidez.
O que ele chama de "niilismo" é o que eu referi aqui há meses como "anti-tradição" no contexto da "Idade Escura" dos hindus.
A crise do mundo moderno, em todas as suas vertentes, tem a sua razão profundamente enraizada em motivações anti-tradicionais, ou como diz Glucksmann, motivações "niilistas", que de facto nada têm de religiosas.
Bernardo
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