segunda-feira, 12 de abril de 2004

Afinal vai ser a Bertrand...

Em Dezembro, eu perguntava qual seria a editora vampiresca que se iria atirar à publicação do romance-lixo de Dan Brown The Da Vinci Code...

O Independente, na passada quinta-feira, trouxe a resposta, num longo artigo sobre o livro e o seu autor.
Já temos um vencedor! É a Bertrand!
Parabéns à editora por um fantástico favor que faz à mediocridade e à pobreza intelectual. Após milhões de vendas no estrangeiro, finalmente chega a Portugal o best seller de Dan Brown!

O Código Da Vinci

É este o título da obra (?) que vamos encontrar à venda nas livrarias dentro de uma ou duas semanas.
Fica desde já aqui o aviso de que este romance pseudo-histórico, de histórico só tem a inspiração fantasiosa. Remeto os interessados, e aqueles que ficarem empolgados pelas afirmações e hipóteses lançadas por Dan Brown, para o trabalho sobre Rennes-le-Château que tenho publicado no site http://bmotta.planetaclix.pt.

Neste site encontra-se muito material informativo e muitas provas, que permitem detectar a fraude literária de Dan Brown, e deitar por terra as suas (que nem são só suas) fantasias. Aviso desde já de que o romance de Dan Brown é bem mais empolgante do que o meu site. Por isso, só recomendo uma visita a quem se empolgar mais com a verdade.

Bernardo

terça-feira, 6 de abril de 2004

Einstein e S. Tomás de Aquino

Ao contrário do que pretende alguma propaganda ateia, Einstein não era ateu. Era panteísta, à maneira de Espinosa.

Encontrei este trecho muito interessante na obra de Max Jammer, Einstein e a Religião:

«Quando G. S. Viereck disse a Einstein, no decorrer da entrevista anteriormente citada, que uma revista de Dublin havia publicado um artigo de um teólogo católico afirmando que a Teoria da Relatividade "apenas confirma os ensinamentos de Santo Tomás de Aquino", Einstein respondeu: "Não li toda a obra de Tomás de Aquino, mas ficarei encantado se houver chegado às mesmas conclusões que a mente abrangente desse grande erudito católico."»

Como podemos constatar, Einstein teve bom senso, como todos os verdadeiros génios.

Naturalmente, podem surgir dúvidas legítimas em relação ao autor do texto que apresentei. Max Jammer é professor emérito de Física e reitor da Universidade de Bar-Han (Israel). Foi colega de Albert Einstein em Princeton (EUA). É autor de várias obras, entre as quais Conceitos de Espaço, prefaciada pelo próprio Einstein, e The Philosophy of Quantum Mechanics, objecto de elogios por parte de Paul Dirac e Werner Heisenberg. Recebeu vários prémios, de entre os quais o prestigioso Monograph Prize of the American Academy of Arts and Sciences.

Pelo que é escusado tentar denegrir a figura e o nome de Max Jammer.
A obra de Max Jammer que referi, e que me serviu de fonte, é uma obra excelente para explicar, nas palavras de um colega de Einstein, como este via a religião, e para desmistificar as afirmações infundadas acerca do ateísmo de Einstein.

Bernardo

segunda-feira, 5 de abril de 2004

Argumentos contra: "Movimento"

O nosso leitor João Vasco apresentou-nos estes argumentos contra o argumento de S. Tomás de Aquino, que aqui nomeei como "Movimento":

1. Movimento - a passagem de potência a acto, que ocorre no universo, implica a existência de um primeiro Motor imóvel (primum movens immobile), que é Deus; senão, seria preciso admitir uma série infinita de motores, o que é inconcebível;

Argumenta-nos o João Vasco:

R:
a) A série infinita de motores não é menos concebível do que Deus (que também seria infinito á mesma, e mais complicado de conceber, nem que mais não fosse pelo problema lógico da Omnipotência, que a série infinita de motores não tem).
b) A passagem de potência a acto não implica nenhuma série infinita de motores nem causa primeira caso o Universo fosse cíclico ou pseudo-cíclico em termos temporais. Esta hipótese é suficientemente consistente e plausível para os Físicos ainda não a terem descartado.
c)MAIS IMPORTANTE - Mesmo que exista uma causa primeira (por a) e b) não é obrigatório, mas até será muito provável) NADA garante que essa causa é Deus (tudo indica que NÃO é Deus).


Antes de mais, queria agradecer ao João Vasco por enriquecer este assunto com os seus comentários, que são pertinentes.

Em relação à alínea a):
Diz o João Vasco que a série infinita de motores não é menos concebível do que Deus. Quer o João Vasco dizer que passámos a discutir o infinito? Acho pertinente diferenciar o tema do "movimento", que foi o tema apresentado, da discussão sobre o predicado de "infinito" que se estava a discutir relativamente ao movimento.
Não é sensato supor uma série infinita de motores, não tanto pelo uso do adjectivo "infinita", mas sobretudo porque seria ilógico supor que a cadeia de movimento (análoga à cadeia de causalidade), não teve origem num motor inicial, imóvel, que deu origem à cadeia. Eu não estava a referir-me à infinitude de Deus, ou à concepção que podemos dar desta ideia, estava a falar da infinitude de motores, que essa sim é ilógica.

Em relação à alínea b):
Também considero o Universo pseudo-cíclico em termos temporais!
Não sei bem o que o João Vasco quis dizer com isso, mas eu concordo com esta ideia.
Contudo, o ciclo tem um caráter perpétuo, e não infinito.
Tem um carácter de duração indefinida, e não infinita!
Eu tenho presente a dicotomia indefinido vs. infinito.
E a dicotomia perpétuo vs. eterno.
Por isso, o Universo cíclico como refere, e muito bem, o João Vasco, é perfeitamente conciliável com a visão de S. Tomás, desde que se tenha em consideração que o ciclo de movimentos, ou ciclo de "motores", usando a expressão aristotélica, fosse um ciclo perpétuo, e não um ciclo infinito. São conceitos MUITO diferentes!
Porque o Criador surge como a entidade supra-processual, que fora da cadeia de perpetuidade de movimento, a gerou e a pôs em movimento. Por isso, Deus é o motor imóvel, que gera movimento perpétuo (a cadeia de causalidade e movimento no Universo é do tipo perpétuo), e não movimento infinito. A passagem de potência a acto é uma característica dos processos de movimento no nosso Universo, e essa passagem dá-se perpetuamente. Contudo, teve uma origem causal, que se encontra necessariamente num nível superior. E é isso que se chama a Causa Primeira, o Motor Imóvel.
Convém adicionar, para esclarecer, que o tempo no nosso Universo não é uma grandeza que cresce em direcção ao infinito, mas sim em direcção a um limite que não está definido. É a distinção entre perpetuidade e eternidade. A eternidade é um predicado divino e não cosmológico.

Em relação à alínea c):
Sinceramente, não a percebi, João Vasco.
Porque é que "tudo indica" que não seja Deus?
Deus é o nome que eu atribuo a esse conceito (filosófico, no âmbito da presente exposição), que para mim é muito real!
Não estou a pensar num velhinho de barbas!
Será que estamos a cair na confusão do que se entende por "Deus pessoal"?
Isto tudo pede imenso tempo, que infelizmente não tenho. Mas não vou deixar de comentar as restantes contribuições do João Vasco, nem o resto do texto de Sebastien Faure, que desde já agradeço sinceramente.

Bernardo

domingo, 4 de abril de 2004

Argumentos ateus

Como seria de esperar, a minha última mensagem no blogue gerou logo polémica.
É o que sucede quando se traz à luz o trabalho de S. Tomás de Aquino, que é incómodo porque é um trabalho solidíssimo, fortíssimo, e tão difícil de refutar. E mais, porque é um trabalho redigido em termos filosóficos.

Neste site encontram-se argumentos de ateus, que infelizmente demonstram pouco trabalho de pesquisa.
Comecemos por refutar alguns deles. Se esta mensagem se tornar extensa, continuarei numa próxima.

http://www.ateus.net/artigos/critica/doze_provas_da_inexistencia_de_deus.html

Estes argumentos foram escritos pelo ateu Sebastien Faure (1858-1942).

1º Argumento: "O gesto criador é inadmissível"

Diz o autor que nada pode surgir do nada. Trata-se de uma incompreensão do conceito de Criação.
Deus não criou o Mundo a partir de algo que lhe fosse exterior. E não criou o Mundo a partir de alguma matéria pré-existente.
A substância do Mundo, que não resulta de nenhuma transferência de substância, foi criada por Deus num acto imediato. O tempo e o espaço, dimensões intrínsecas do nosso Mundo, foram criadas de forma coexistente com o Mundo. Por isso, nenhuma parte do nosso Mundo, nenhum elemento existia "antes" deste acto criador. "Antes" compreendido de forma causal, e não temporal, visto que o próprio tempo foi criado conjuntamente com o Mundo.
A criação a partir do nada, "ex nihilo", é a constatação de que nada deste Mundo existia antes da Criação.

2º Argumento: "O “puro espírito” não podia determinar o Universo"

Para demonstrar que Deus não pode determinar o Universo, lê-se a páginas tantas:

"De duas, uma: ou a matéria estava fora de Deus, ou era o próprio Deus (a não ser que lhe queiram dar um terceiro lugar). No primeiro caso, se a matéria estava fora de Deus, Deus não teve necessidade de criá-la, visto que ela já existia; e, se ela coexistia com Deus, estava concomitantemente com ele, do que se depreende que Deus não é o criador. No segundo caso, se a matéria não estava fora de Deus, encontrava-se no próprio Deus."

Bom, para já, estas linhas demonstram um materialismo excessivamente primário. O Universo não é só matéria. Mas enfim, interpretemos "matéria" como "substância" em termos aristotélicos e até se poderia aceitar o termo.

A substância do Universo não estava fora de Deus. Nada está fora de Deus. Deus é o limite ontológico.
A substância do Universo não estava no próprio Deus.
Por isso, nenhuma das duas hipóteses apresentadas é correcta.
Automaticamente, caem por terra as duas conclusões tiradas a partir destas duas hipóteses.

A Criação fez-se através do Verbo proferido por Deus Pai. Sem compreender a Trindade, dentro de um contexto católico, dificilmente se compreende a Criação. Deus Filho é o Verbo, que se torna Palavra "proferida" pelo Pai no gesto criador.
Assim, a Criação dá-se quando o Verbo ainda não proferido, mas já "pensado" pelo Pai, se concretiza ontologicamente, ou seja, "é proferido", dando-se a manifestação de "todas as coisas visíveis e invisíveis".

A metáfora da linguagem é aqui utilíssima. Uma palavra já existe no nosso intelecto antes de a proferirmos. Ao ser proferida, a palavra reveste-se de um carácter externo que é a dimensão sonora.

Assim também se deve entender a Criação. O proferir do Verbo, que habitava inicialmente no intelecto divino, concretiza o momento criador, em que o Verbo é "vocalizado". Daqui se compreende o significado da expressão do Credo: "nascido do Pai antes de todos os séculos", ou seja, o Verbo já habitava no intelecto de Deus Pai (causalmente) antes da Criação.

Este texto já vai longo.
Continuarei noutra mensagem a refutação destes argumentos ateus.

Bernardo

sexta-feira, 2 de abril de 2004

Argumentos filosóficos para a existência de Deus

Têm-me dirigido várias vezes o desafio para que prove a existência de Deus.
Isso deixa-me perplexo. Porque espero que ninguém pense que se possa fotografar Deus, medi-Lo, pesá-Lo, ou pô-Lo na máquina de raios X.

Posto isto, ou seja, ultrapassando o materialismo mais primário, acho pertinente escrever algumas linhas sobre a existência de Deus, e sobre alguns dos argumentos que a Humanidade apresentou para demonstrar essa existência.
É porque a questão não é nova, e já muita gente pensou e escreveu, alguns bem outros mal, sobre este assunto fulcral.

Há pelo menos dois tipos de argumentos:

A) os que provêm da razão humana
B) os que provêm da fé humana

Vou ficar-me pelos argumentos do tipo A, porque sendo filosóficos na sua natureza, são mais "imparciais" face ao confronto que opõe os teístas aos ateístas.
Podemos ir buscá-los à nossa conhecida Summa Theologica, de S. Tomás de Aquino.
É um texto que, apesar de ninguém o ler, nunca caduca.

Segundo S. Tomás, há cinco argumentos que provam a existência de Deus:

1. Movimento - a passagem de potência a acto, que ocorre no universo, implica a existência de um primeiro Motor imóvel (primum movens immobile), que é Deus; senão, seria preciso admitir uma série infinita de motores, o que é inconcebível;

2. Causa Eficiente - a ocorrência de causas eficientes no universo implica que exista uma Causa Primeira, não causada, que possua em si mesma a razão suficiente para a sua existência, e esta Causa Primeira é Deus;

3. Seres Contingentes - a existência de seres contingentes, ou seja, seres cuja não-existência é reconhecidamente possível, implica a existência de um ser cuja existência seja necessária, e que é Deus;

4. Perfeições Graduais - a constatação de uma gradação na perfeição dos seres apenas pode ser entendida em comparação com um padrão absoluto de perfeição, que é Deus;

5. Inteligência - a evidência de que há um desenho inteligente do universo implica a existência de um Desenhador supra-universal; que é Deus.

Há ainda outros argumentos complementares, mas estes cinco argumentos são mais que suficientes.
É pena que se fale pouco sobre eles, porque são argumentos fortes, claros, sólidos, e provêm da filosofia, pelo que são independentes da convicção religiosa de cada um.

Bernardo

sexta-feira, 19 de março de 2004

O diálogo soarista

Mário Soares sugere que se dialogue com a Al-Qaeda.

Mas que boa ideia!
O Governo deveria garantir, desde já, um Falcon para levar o nosso Soares ao encontro dos dirigentes da Al-Qaeda. Eles andam sempre escondidos, mas certamente que arranjariam uns minutos para falar com o Mário Soares. Afinal, o Mário Soares é o Mário Soares, caramba! O senhor Bin Laden que arranje uns minutos da sua agenda.

Receio, contudo, que a conversa viesse a ser curta, fosse por problemas linguísticos, fosse pelo facto de Osama bin Laden ter uma kalashnikov e Mário Soares não...

Bernardo

P.S.: Agora mais a sério, vale a pena ler o artigo do Público... Diz Soares:

"Como conseguimos a paz nas ex-colónias? Tivemos que falar com os que faziam a guerra, na altura também considerados terroristas"

Francamente... Que lata!
Há quanto tempo não vai Mário Soares às ex-colónias que ele "libertou"?
Gostaria de ver os seus dotes dialogantes, aplicados a balas perdidas numa qualquer esquina do Huambo, em Angola...

domingo, 14 de março de 2004

Simbolismo tradicional I - «La réforme de la mentalité moderne»

Este artigo de René Guénon foi publicado inicialmente na revista Regnabit em Junho de 1926. Foi incorporado mais tarde na resenha póstuma "Symboles de la Science Sacrée".

Visto que a obra de Guénon está protegida por copyright até ao ano 2021 pelo menos (facto que Guénon certamente detestaria!), vimo-nos obrigados a apresentar apenas traduções de pequenos excertos do artigo. Convidamos o leitor interessado a adquirir a obra referida, que consideramos ser de grande utilidade.

A tradução do francês para português é feita por mim, e é, por essa razão, de carácter amador. As minhas desculpas prévias pelas eventuais incorrecções.

«A civilização moderna aparece na história como uma verdadeira anomalia: de todas as que conhecemos, ela é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, a única também que não se apoia em nenhum princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material que se desenrola há vários séculos, e que se acelera cada vez mais, foi acompanhado de uma regressão intelectual que ele é incapaz de compensar. Trata-se, bem entendido, da verdadeira e pura intelectualidade, que também poderiamos chamar de espiritualidade, sendo que nos recusamos a dar este nome àquilo que os modernos se têm sobretudo aplicado: a cultura das ciências experimentais, com vista a aplicações práticas às quais elas são susceptíveis de dar lugar. Um só exemplo poderia permitir medir a extensão desta regressão: a Summa Theologica de S. Tomás de Aquino era, no seu tempo, um manual para o uso de estudantes; onde estão hoje os estudantes que seriam capazes de a aprofundar e de a assimilar?».

«Um Oriental não pode admitir uma organização social que não repouse em princípios tradicionais; para um muçulmano, por exemplo, a legislação inteira não é senão uma dependência da religião. Em tempos, também assim foi no Ocidente: basta lembramo-nos do que foi a Cristandade na Idade Média; mas, hoje, as relações estão invertidas. Com efeito, vemos agora a religião como um simples facto social; em vez da ordem social inteira ser associada à religião, esta contrariamente, quando ainda consentimos dar-lhe um lugar, não é mais vista senão como um qualquer dos elementos que constituem a ordem social; e quantos católicos aceitam esta forma de ver sem a menor dificuldade!»

«Praticamente, crentes e não crentes comportam-se quase da mesma maneira; para muitos católicos, a afirmação do sobrenatural não tem senão um valor teórico, e ficariam embaraçados se tivessem que constatar um facto miraculoso. É o que podemos chamar de um materialismo prático, um materialismo de facto; não é este mais perigoso do que o materialismo admitido, precisamente porque aqueles que por ele são atingidos não têm sequer consciência?»

«Seria contudo bem fácil demonstrar que a religião e a ciência não podem entrar realmente em conflito, pela simples razão de que elas não pertencem ao mesmo domínio. Como não ver o perigo que há em parecer procurar, para a doutrina que diz respeito às verdades imutáveis e eternas, um ponto de apoio no que há de mais variante e incerto?
E que pensar de certos teólogos cristãos que estão afectados do espírito "cientista" ao ponto de se crerem obrigados a ter em conta, em maior ou menor medida, os resultados da exegese moderna e da "crítica dos textos", quando seria fácil, na condição de ter uma base doutrinal um pouco segura, fazer aparecer a sua inanidade? Como não nos apercebermos que a pretensa "ciência das religiões", tal qual ela é ensinada nos meios universitários, jamais foi na realidade outra coisa do que uma máquina de guerra dirigida contra a religião, ou de forma mais geral, contra tudo o que ainda possa subsistir do espírito tradicional, que querem naturalmente destruir aqueles que dirigem o mundo moderno num sentido que só pode terminar numa catástrofe?»


Não posso senão recomendar a leitura do artigo na íntegra e na língua original, visto que apenas apresentei alguns excertos do mesmo.

Bernardo

O conflito "Ciência" vs. "Religião"

Há muito que este tema se tornou num dos "clássicos" temas de discussão.
E a discussão parece sempre eterna.
Mas tal sucede porque o problema está mal colocado.

Como diz o nosso amigo Rama Coomaraswamy, no seu excelente artigo "The Fundamental Nature of the Conflict Between Modern and Traditional Man - Often Called the Conflict Between Science and Faith":

«Is often said that there is an irreconcilable conflict between Religion and Science. Unfortunately, such a characterization falsifies the issues. The conflict is not between Religion and Science, but between the attitudes and beliefs of "traditional" man and his "modern" counterpart. The confusion arises because the latter, with little if any justification, likes to consider himself "scientific".»

Poderíamos ser tentados a ver nas palavras de Rama Coomaraswamy uma postura demasiado áspera.
Mas damo-nos conta da pertinência destas palavras quando convivemos mais de perto com os argumentos daqueles que, fanaticamente agarrados à inevitabilidade da omnipotência da Ciência Moderna, atacam a Tradição e as suas doutrinas, classificando-as de serem posturas primitivas.

Na compilação póstuma "Symboles de la Science Sacrée" (Éditions Gallimard, 1962) estão reunidos num grande conjunto uma série de artigos de René Guénon, que se encontravam "dispersos" em vários periódicos, nomeadamente Regnabit (1925-1927), Le Voile d'Isis (1929, 1931, 1934), Études Traditionelles (1936-1950) e Cahiers du Sud (1947).

Por isso, vou iniciar a partir de hoje uma sequência de pequenos artigos com excertos desta compilação.

A ênfase será dada àqueles artigos de Guénon que versam sobre o simbolismo tradicional e algumas das suas aplicações gerais. Acreditamos que esta compilação póstuma, bem como toda a obra de René Guénon, é de um valor inestimável e de grande utilidade para a situação de desordem intelectual em que nos encontramos nos dias de hoje.

Bernardo

terça-feira, 9 de março de 2004

Conferência Episcopal Portuguesa: "Meditação sobre a vida"

A Conferência Episcopal Portuguesa publicou um texto a 5 de Março último relativo à eternamente polémica questão do aborto e da sua penalização.

É um documento claro, conciso, e pleno de lucidez.
Antes de escrever um pouco sobre o documento, queria deixar bem claro que há questões relativamente ao aborto que ainda me deixam indeciso, e sem saber que posição tomar. Por isso, que não me ataquem de fanatismo, visto que se trata de uma questão complexa e que merece amplo debate.

Deixo agora alguns excertos do texto, cuja pertinência é altíssima:

«Tal como outras manifestações de violência e de desrespeito pela vida do próximo, o drama do aborto coexiste com a dignidade da vida, sobretudo com a grandeza do dom de a poder comunicar. O que é relativamente novo, mas realmente um retrocesso, é a tentativa de o “normalizar”, tirando-lhe a gravidade ética de que se reveste, porventura considerá-lo um direito da mulher-mãe.»

É esta "normalização" que me parece particularmente aberrante. Na minha opinião, esta tendência nociva de "normalização", que vemos manifestar-se constantemente nos vários quadrantes da sociedade, resulta de uma compreensão errada do cerne da questão: a da definição de ser humano e de início da vida.

Todos fogem a esta questão. Veja-se este triste exemplo de cobardia e inacção política do Governo, patente nas declarações recentes de Guilherme Silva:

«A definição rigorosa do conceito vida não é fácil, ultrapassa a biologia e envolve a ética e até a filosofia. Há questões em aberto que estão a ser discutidas e não me parece que devamos dar um passo nesse sentido», disse ao DN o líder parlamentar do PSD, Guilherme Silva. - Diário de Notícias, Terça-feira, 9 de Março de 2004

Todos fogem à questão, menos a Conferência Episcopal Portuguesa, que marca aqui uma diferença capital:

«O ponto crucial de toda a polémica acerca da legalização do aborto consiste nisto: o embrião humano e o feto são ou não um ser humano desde o primeiro momento?»

O cerne do desafio da CEP está aqui:

«No estádio actual da ciência, começa a ser incompreensível que um “Estado de Direito”, cuja essência é a defesa e a promoção da vida, não tenha uma posição oficial em relação a esta questão. Para nós ela é clara: sempre que uma pessoa tem de tomar uma decisão, seja ela qual for, acerca do aborto, toma uma decisão, na responsabilidade da sua liberdade, acerca da vida ou da morte de um ser humano, que por estar no início da caminhada da vida, tem direito a que o deixem e ajudem a percorrer esse caminho.»

A reacção patética do Executivo e da Oposição vem descrita no referido artigo do DN:

Os sociais-democratas entendem que a actual legislação, que define «já um conceito de vida em termos jurídicos», é suficiente e os socialistas defendem que discutir agora esta questão seria «regressar a um período que está ultrapassado»

O que me faz confusão é que aquele hemiciclo tem como tarefa legislar e governar a nossa nação, e aliena-se das questões mais importantes. Ou seja, vai ficar tudo na mesma. A questão nunca vai ser analisada com rigor nem profundidade.

O que deveria ser feito?

Deveria primeiro definir-se onde começa a vida humana - pessoalmente, parece-me óbvio que principia na concepção, mas outras definições poderiam ser estudadas e debatidas. O Estado português deveria ter uma definição clara nesta matéria, de tal forma ela é basilar.

Sendo o aborto um atentado contra a vida humana, desde o momento em que ela é concebida como tal, seria simples classificar o aborto como "crime".

Como todos os crimes, deveria haver lugar a uma penalização que tomasse em consideração eventuais atenuantes, relevantes de condicionantes psíquicas e sociais da pessoa que o tivesse praticado.

A CEP é clara neste aspecto. À questão "Será possível despenalizar o aborto?", responde:

«Isso corresponde a perguntar se é possível, do ponto de vista legal, definir um crime sem lhe atribuir uma pena. Não nos compete pronunciar-nos sobre essa questão de natureza jurídica. Parece-nos, no entanto, que o caminho não é "despenalizar", mas considerar, em sede de julgamento, eventuais circunstâncias atenuantes, até porque o grau de responsabilidade não é o mesmo, quer entre as mulheres que abortam, quer entre aqueles que as condicionam e contribuem para o aborto.
Seja qual for a resposta dada a esta questão, ela não poderá fundamentar qualquer forma de legalização do aborto que constitua um direito da mulher.»


Há muito tempo que Portugal não vê uma tomada de posição tão clara, vital, útil e pertinente como esta tomada pela Conferência Episcopal Portuguesa.
Minimizá-la ou desprezá-la é bem mais do que burrice ou ignorância. É de uma extrema incoerência por parte de quem governa e dita as leis neste país, e reflecte uma moral ambígua e uma ética frouxa e manipulável.

Sobretudo, paremos de usar o ridículo pseudo-argumento de que os outros "países civilizados" já o fazem!

Bernardo

segunda-feira, 8 de março de 2004

Comentários

Foi adicionada a possibilidade de fazer comentários ao que por cá se escreve.
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Bernardo