quinta-feira, 13 de maio de 2004

A paranóia deste espectador

Serei paranóico sobre Dan Brown e o seu livro?

Não me parece...
Também é certo que os paranóicos não se vêem como tal.
Tem-me sido sugerido frequentemente, desde que eu instaurei o sistema de comentários nos "Espectadores", que eu deveria ocupar o meu tempo de melhor forma.

É uma maneira um pouco deselegante de se dizer que se discorda de uma opinião.
Convenhamos...

Perante este crescendo de anti-catolicismo, que para tanta gente passa despercebido, não sou capaz de reagir de outra forma senão esta.

Dan Brown é um pobre coitado. Não é ninguém.
Ele nem é a questão central. Frequentemente os joguetes das forças anti-tradicionais nem sabem que o são. Já falei disso em tempos... Trata-se de anti-tradicionalismo inconsciente.

Mas alguns de nós, apesar das nossas limitações de espectadores que tentam estar atentos, simplesmente reagem com repúdio e revolta à infâmia, à mentira e à difamação.

Hei-de reagir a este tipo de manifestações anti-tradicionais enquanto me sentir com forças para tal. O resto é conversa...

Bernardo

PS: Sinceramente não percebo: se estes temas não interessam a ninguém, porquê os comentários a sugerir-me que "mude de vida"? Será que as pessoas que escrevem estes comentários não têm mais nada para fazer?

A Internet é muito grande!
Vão pregar para outra freguesia.

terça-feira, 11 de maio de 2004

Ateísmo e presunção, Kaballah e Islão

O nosso amigo José do Guia dos Perplexos perdoar-me-á o quase plágio do título do seu último artigo, mas não resisto a fazer coro com ele.

De facto, tenho dedicado parte do meu curto tempo livre a trocar umas impressões com a pandilha do "Diário de uns Ateus". À parte do João Vasco, que é claramente a carta fora do baralho, o panorama é desolador em termos de presunção pseudo-intelectual.

Como diz o José, também eu "tive frequentemente a estimulante sensação de o meu ocasional interlocutor me considerar um idiota chapado".

Eu não diria que a sensação era estimulante. Para mim é mais frustrante. Uma sensação de tempo perdido...
Mas ao mesmo tempo, é também uma sensação de ironia...

Explico porquê.

René Guénon, que como sabem é como se fosse um meu "guru", explica que a intelectualidade das ciências modernas (verdadeira Terra Prometida destes nossos amigos ateus), não passa de uma pseudo-intelectualidade. Assim, é claro que esta gente fica furiosa quando eu digo que, para René Guénon, bem como para todo o homem plenamente tradicional, a espiritualidade e a intelectualidade podem andar de mãos dadas.

Para estes senhores, as enumerações divinas "hokmah" (sabedoria) e "binah" (inteligência) que se encontram na árvore dos zéfiros da Kaballah hebraica deverão ser mera retórica... Ou delírios esotéricos...

Uma curta nota sobre o termo "zéfiro", aplicada à árvore da Kaballah: este termo, como explica Guénon, vem do hebreu "sepher" (que também dá o árabe "çifr"), que é a origem etimológica da palavra "cifra" e do verbo "contar". Assim, "cifra" deve ser aqui interpretada não como "código" mas sim como "número" ou como a operação de contar.

Os "zéfiros" da árvore são as "enumerações divinas", ou por outras palavras, a enumeração dos atributos divinos.

A riqueza e complexidade do Islão, que salvou para a posteridade os clássicos gregos do esquecimento, e que rejuvenesceu a filosofia, as artes e as ciências na Idade Média, torna-se bem patente na complexidade do sufismo, e na surpreendente concordância deste com as linhas do esoterismo judaico. Espelhos de Verdade e de Intelectualidade que voam bem acima dos cinzentos e limitados racionalismos, cartesianismos e positivismos dos nossos amigos ateus.

Eles, em contrapartida, falam-nos do Islão como um exército de Bin Ladens... Lembram-nos vezes sem conta que a biblioteca de Alexandria foi queimada em nome de Allah. Como se se pudesse meter tudo no mesmo saco. Como se esse gesto criminoso, grunho e tresloucado, representasse a totalidade do ser islâmico. No meio de tanta pobreza cultural e intelectual, no meio de tanta estreiteza de vistas, o diálogo é difícil.

Bernardo

sexta-feira, 7 de maio de 2004

"O Cómico Da Vinci"

Se não fosse a postura convicta do autor, Dan Brown, o livro The Da Vinci Code até poderia parecer uma sátira literária. Mas não é! É um romance, para o qual o próprio autor admite ter-se baseado em factos reais.

Em Portugal, a polémica em torno desta novela ainda vai no início.
Contudo, e bem, a Agência Ecclesia antecipa-se com algumas explicações que vale a pena seguir:

"O Código Da Vinci" - Quando o objectivo é vender

Apenas discordo do título do artigo.
A Bertrand, acredito-o sinceramente, tem como objectivo único vender e fazer dinheiro.
Não acredito que haja o descaramento por parte da Bertrand de afirmar que o livro traz algo de culturalmente relevante.
Agora, da parte de Dan Brown, já não me parece que haja só vontade de fazer dinheiro, apesar desta poder ser a principal motivação.

Há, em todas as palavras de Dan Brown, um sentimento fortemente anti-católico.
Uma pulsão de niilismo que visa arremeter com todas as forças contra a Igreja Católica, que ele chama infantilmente de "The Vatican". Como se a Igreja se pudesse confundir com a residência do Santo Padre.

Mas o que não falta são confusões na cabeça de Dan Brown. Vários comentadores afirmaram que o próprio título é risível: dizer "O Código Da Vinci", é tão estúpido como dizer "O Evangelho De Nazaré", referindo-se aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Enfim, para quem não vê nada de novo na temática escolhida por Dan Brown, tudo isto encontra a sua base nas lendas criadas pelo mitómano Pierre Plantard e o seu amigo Phillipe de Chérisey. Uma "clique" de seguidores alargou o caudal de uma das mais extraordinárias farsas contemporâneas, que é a do Prieuré de Sion, essa pretensa "irmandade" com 900 anos de idade, feita para preservar a "verdadeira fé" no Divino Feminino (ou seja, Maria Madalena - Deus no feminino) e a "linhagem sagrada" dos descendentes (sic) de Jesus e Maria Madalena.

Que quer Dan Brown?
O mesmo que Pierre Plantard... Vingar-se da Igreja Católica vertendo o seu ódio anti-católico na escrita e propagação de mentiras de venda fácil. Aproveitar-se da ignorância generalizada das massas.

O que pode fazer o português que se veja com o romance de Dan Brown nas mãos? Tem três hipóteses:

1. Devolvê-lo à livraria onde o adquiriu ou processar a Bertrand (preferível, mas trabalhoso);
2. Usá-lo para papel higiénico (se a primeira falhar).
3. Lê-lo (boa sorte), e tentar informar-se das "fontes" de Dan Brown. Com algum esforço, tudo o que Dan Brown nos "revela" cai por terra com facilidade ao final de alguns dias de pesquisa.

Bernardo

P.S. Lista resumida dos autores que Brown pilhou:
Henry Lincoln, Michael Baigent, Richard Leigh, Lynn Pickett, Clive Prince, Margaret Starbird, entre tantos, tantos outros...
Contudo, a "propriedade intelectual" da farsa do Prieuré de Sion pertence ao já morto e enterrado Pierre Plantard.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Afinal vai ser a Bertrand...

Em Dezembro, eu perguntava qual seria a editora vampiresca que se iria atirar à publicação do romance-lixo de Dan Brown The Da Vinci Code...

O Independente, na passada quinta-feira, trouxe a resposta, num longo artigo sobre o livro e o seu autor.
Já temos um vencedor! É a Bertrand!
Parabéns à editora por um fantástico favor que faz à mediocridade e à pobreza intelectual. Após milhões de vendas no estrangeiro, finalmente chega a Portugal o best seller de Dan Brown!

O Código Da Vinci

É este o título da obra (?) que vamos encontrar à venda nas livrarias dentro de uma ou duas semanas.
Fica desde já aqui o aviso de que este romance pseudo-histórico, de histórico só tem a inspiração fantasiosa. Remeto os interessados, e aqueles que ficarem empolgados pelas afirmações e hipóteses lançadas por Dan Brown, para o trabalho sobre Rennes-le-Château que tenho publicado no site http://bmotta.planetaclix.pt.

Neste site encontra-se muito material informativo e muitas provas, que permitem detectar a fraude literária de Dan Brown, e deitar por terra as suas (que nem são só suas) fantasias. Aviso desde já de que o romance de Dan Brown é bem mais empolgante do que o meu site. Por isso, só recomendo uma visita a quem se empolgar mais com a verdade.

Bernardo

terça-feira, 6 de abril de 2004

Einstein e S. Tomás de Aquino

Ao contrário do que pretende alguma propaganda ateia, Einstein não era ateu. Era panteísta, à maneira de Espinosa.

Encontrei este trecho muito interessante na obra de Max Jammer, Einstein e a Religião:

«Quando G. S. Viereck disse a Einstein, no decorrer da entrevista anteriormente citada, que uma revista de Dublin havia publicado um artigo de um teólogo católico afirmando que a Teoria da Relatividade "apenas confirma os ensinamentos de Santo Tomás de Aquino", Einstein respondeu: "Não li toda a obra de Tomás de Aquino, mas ficarei encantado se houver chegado às mesmas conclusões que a mente abrangente desse grande erudito católico."»

Como podemos constatar, Einstein teve bom senso, como todos os verdadeiros génios.

Naturalmente, podem surgir dúvidas legítimas em relação ao autor do texto que apresentei. Max Jammer é professor emérito de Física e reitor da Universidade de Bar-Han (Israel). Foi colega de Albert Einstein em Princeton (EUA). É autor de várias obras, entre as quais Conceitos de Espaço, prefaciada pelo próprio Einstein, e The Philosophy of Quantum Mechanics, objecto de elogios por parte de Paul Dirac e Werner Heisenberg. Recebeu vários prémios, de entre os quais o prestigioso Monograph Prize of the American Academy of Arts and Sciences.

Pelo que é escusado tentar denegrir a figura e o nome de Max Jammer.
A obra de Max Jammer que referi, e que me serviu de fonte, é uma obra excelente para explicar, nas palavras de um colega de Einstein, como este via a religião, e para desmistificar as afirmações infundadas acerca do ateísmo de Einstein.

Bernardo

segunda-feira, 5 de abril de 2004

Argumentos contra: "Movimento"

O nosso leitor João Vasco apresentou-nos estes argumentos contra o argumento de S. Tomás de Aquino, que aqui nomeei como "Movimento":

1. Movimento - a passagem de potência a acto, que ocorre no universo, implica a existência de um primeiro Motor imóvel (primum movens immobile), que é Deus; senão, seria preciso admitir uma série infinita de motores, o que é inconcebível;

Argumenta-nos o João Vasco:

R:
a) A série infinita de motores não é menos concebível do que Deus (que também seria infinito á mesma, e mais complicado de conceber, nem que mais não fosse pelo problema lógico da Omnipotência, que a série infinita de motores não tem).
b) A passagem de potência a acto não implica nenhuma série infinita de motores nem causa primeira caso o Universo fosse cíclico ou pseudo-cíclico em termos temporais. Esta hipótese é suficientemente consistente e plausível para os Físicos ainda não a terem descartado.
c)MAIS IMPORTANTE - Mesmo que exista uma causa primeira (por a) e b) não é obrigatório, mas até será muito provável) NADA garante que essa causa é Deus (tudo indica que NÃO é Deus).


Antes de mais, queria agradecer ao João Vasco por enriquecer este assunto com os seus comentários, que são pertinentes.

Em relação à alínea a):
Diz o João Vasco que a série infinita de motores não é menos concebível do que Deus. Quer o João Vasco dizer que passámos a discutir o infinito? Acho pertinente diferenciar o tema do "movimento", que foi o tema apresentado, da discussão sobre o predicado de "infinito" que se estava a discutir relativamente ao movimento.
Não é sensato supor uma série infinita de motores, não tanto pelo uso do adjectivo "infinita", mas sobretudo porque seria ilógico supor que a cadeia de movimento (análoga à cadeia de causalidade), não teve origem num motor inicial, imóvel, que deu origem à cadeia. Eu não estava a referir-me à infinitude de Deus, ou à concepção que podemos dar desta ideia, estava a falar da infinitude de motores, que essa sim é ilógica.

Em relação à alínea b):
Também considero o Universo pseudo-cíclico em termos temporais!
Não sei bem o que o João Vasco quis dizer com isso, mas eu concordo com esta ideia.
Contudo, o ciclo tem um caráter perpétuo, e não infinito.
Tem um carácter de duração indefinida, e não infinita!
Eu tenho presente a dicotomia indefinido vs. infinito.
E a dicotomia perpétuo vs. eterno.
Por isso, o Universo cíclico como refere, e muito bem, o João Vasco, é perfeitamente conciliável com a visão de S. Tomás, desde que se tenha em consideração que o ciclo de movimentos, ou ciclo de "motores", usando a expressão aristotélica, fosse um ciclo perpétuo, e não um ciclo infinito. São conceitos MUITO diferentes!
Porque o Criador surge como a entidade supra-processual, que fora da cadeia de perpetuidade de movimento, a gerou e a pôs em movimento. Por isso, Deus é o motor imóvel, que gera movimento perpétuo (a cadeia de causalidade e movimento no Universo é do tipo perpétuo), e não movimento infinito. A passagem de potência a acto é uma característica dos processos de movimento no nosso Universo, e essa passagem dá-se perpetuamente. Contudo, teve uma origem causal, que se encontra necessariamente num nível superior. E é isso que se chama a Causa Primeira, o Motor Imóvel.
Convém adicionar, para esclarecer, que o tempo no nosso Universo não é uma grandeza que cresce em direcção ao infinito, mas sim em direcção a um limite que não está definido. É a distinção entre perpetuidade e eternidade. A eternidade é um predicado divino e não cosmológico.

Em relação à alínea c):
Sinceramente, não a percebi, João Vasco.
Porque é que "tudo indica" que não seja Deus?
Deus é o nome que eu atribuo a esse conceito (filosófico, no âmbito da presente exposição), que para mim é muito real!
Não estou a pensar num velhinho de barbas!
Será que estamos a cair na confusão do que se entende por "Deus pessoal"?
Isto tudo pede imenso tempo, que infelizmente não tenho. Mas não vou deixar de comentar as restantes contribuições do João Vasco, nem o resto do texto de Sebastien Faure, que desde já agradeço sinceramente.

Bernardo

domingo, 4 de abril de 2004

Argumentos ateus

Como seria de esperar, a minha última mensagem no blogue gerou logo polémica.
É o que sucede quando se traz à luz o trabalho de S. Tomás de Aquino, que é incómodo porque é um trabalho solidíssimo, fortíssimo, e tão difícil de refutar. E mais, porque é um trabalho redigido em termos filosóficos.

Neste site encontram-se argumentos de ateus, que infelizmente demonstram pouco trabalho de pesquisa.
Comecemos por refutar alguns deles. Se esta mensagem se tornar extensa, continuarei numa próxima.

http://www.ateus.net/artigos/critica/doze_provas_da_inexistencia_de_deus.html

Estes argumentos foram escritos pelo ateu Sebastien Faure (1858-1942).

1º Argumento: "O gesto criador é inadmissível"

Diz o autor que nada pode surgir do nada. Trata-se de uma incompreensão do conceito de Criação.
Deus não criou o Mundo a partir de algo que lhe fosse exterior. E não criou o Mundo a partir de alguma matéria pré-existente.
A substância do Mundo, que não resulta de nenhuma transferência de substância, foi criada por Deus num acto imediato. O tempo e o espaço, dimensões intrínsecas do nosso Mundo, foram criadas de forma coexistente com o Mundo. Por isso, nenhuma parte do nosso Mundo, nenhum elemento existia "antes" deste acto criador. "Antes" compreendido de forma causal, e não temporal, visto que o próprio tempo foi criado conjuntamente com o Mundo.
A criação a partir do nada, "ex nihilo", é a constatação de que nada deste Mundo existia antes da Criação.

2º Argumento: "O “puro espírito” não podia determinar o Universo"

Para demonstrar que Deus não pode determinar o Universo, lê-se a páginas tantas:

"De duas, uma: ou a matéria estava fora de Deus, ou era o próprio Deus (a não ser que lhe queiram dar um terceiro lugar). No primeiro caso, se a matéria estava fora de Deus, Deus não teve necessidade de criá-la, visto que ela já existia; e, se ela coexistia com Deus, estava concomitantemente com ele, do que se depreende que Deus não é o criador. No segundo caso, se a matéria não estava fora de Deus, encontrava-se no próprio Deus."

Bom, para já, estas linhas demonstram um materialismo excessivamente primário. O Universo não é só matéria. Mas enfim, interpretemos "matéria" como "substância" em termos aristotélicos e até se poderia aceitar o termo.

A substância do Universo não estava fora de Deus. Nada está fora de Deus. Deus é o limite ontológico.
A substância do Universo não estava no próprio Deus.
Por isso, nenhuma das duas hipóteses apresentadas é correcta.
Automaticamente, caem por terra as duas conclusões tiradas a partir destas duas hipóteses.

A Criação fez-se através do Verbo proferido por Deus Pai. Sem compreender a Trindade, dentro de um contexto católico, dificilmente se compreende a Criação. Deus Filho é o Verbo, que se torna Palavra "proferida" pelo Pai no gesto criador.
Assim, a Criação dá-se quando o Verbo ainda não proferido, mas já "pensado" pelo Pai, se concretiza ontologicamente, ou seja, "é proferido", dando-se a manifestação de "todas as coisas visíveis e invisíveis".

A metáfora da linguagem é aqui utilíssima. Uma palavra já existe no nosso intelecto antes de a proferirmos. Ao ser proferida, a palavra reveste-se de um carácter externo que é a dimensão sonora.

Assim também se deve entender a Criação. O proferir do Verbo, que habitava inicialmente no intelecto divino, concretiza o momento criador, em que o Verbo é "vocalizado". Daqui se compreende o significado da expressão do Credo: "nascido do Pai antes de todos os séculos", ou seja, o Verbo já habitava no intelecto de Deus Pai (causalmente) antes da Criação.

Este texto já vai longo.
Continuarei noutra mensagem a refutação destes argumentos ateus.

Bernardo

sexta-feira, 2 de abril de 2004

Argumentos filosóficos para a existência de Deus

Têm-me dirigido várias vezes o desafio para que prove a existência de Deus.
Isso deixa-me perplexo. Porque espero que ninguém pense que se possa fotografar Deus, medi-Lo, pesá-Lo, ou pô-Lo na máquina de raios X.

Posto isto, ou seja, ultrapassando o materialismo mais primário, acho pertinente escrever algumas linhas sobre a existência de Deus, e sobre alguns dos argumentos que a Humanidade apresentou para demonstrar essa existência.
É porque a questão não é nova, e já muita gente pensou e escreveu, alguns bem outros mal, sobre este assunto fulcral.

Há pelo menos dois tipos de argumentos:

A) os que provêm da razão humana
B) os que provêm da fé humana

Vou ficar-me pelos argumentos do tipo A, porque sendo filosóficos na sua natureza, são mais "imparciais" face ao confronto que opõe os teístas aos ateístas.
Podemos ir buscá-los à nossa conhecida Summa Theologica, de S. Tomás de Aquino.
É um texto que, apesar de ninguém o ler, nunca caduca.

Segundo S. Tomás, há cinco argumentos que provam a existência de Deus:

1. Movimento - a passagem de potência a acto, que ocorre no universo, implica a existência de um primeiro Motor imóvel (primum movens immobile), que é Deus; senão, seria preciso admitir uma série infinita de motores, o que é inconcebível;

2. Causa Eficiente - a ocorrência de causas eficientes no universo implica que exista uma Causa Primeira, não causada, que possua em si mesma a razão suficiente para a sua existência, e esta Causa Primeira é Deus;

3. Seres Contingentes - a existência de seres contingentes, ou seja, seres cuja não-existência é reconhecidamente possível, implica a existência de um ser cuja existência seja necessária, e que é Deus;

4. Perfeições Graduais - a constatação de uma gradação na perfeição dos seres apenas pode ser entendida em comparação com um padrão absoluto de perfeição, que é Deus;

5. Inteligência - a evidência de que há um desenho inteligente do universo implica a existência de um Desenhador supra-universal; que é Deus.

Há ainda outros argumentos complementares, mas estes cinco argumentos são mais que suficientes.
É pena que se fale pouco sobre eles, porque são argumentos fortes, claros, sólidos, e provêm da filosofia, pelo que são independentes da convicção religiosa de cada um.

Bernardo

sexta-feira, 19 de março de 2004

O diálogo soarista

Mário Soares sugere que se dialogue com a Al-Qaeda.

Mas que boa ideia!
O Governo deveria garantir, desde já, um Falcon para levar o nosso Soares ao encontro dos dirigentes da Al-Qaeda. Eles andam sempre escondidos, mas certamente que arranjariam uns minutos para falar com o Mário Soares. Afinal, o Mário Soares é o Mário Soares, caramba! O senhor Bin Laden que arranje uns minutos da sua agenda.

Receio, contudo, que a conversa viesse a ser curta, fosse por problemas linguísticos, fosse pelo facto de Osama bin Laden ter uma kalashnikov e Mário Soares não...

Bernardo

P.S.: Agora mais a sério, vale a pena ler o artigo do Público... Diz Soares:

"Como conseguimos a paz nas ex-colónias? Tivemos que falar com os que faziam a guerra, na altura também considerados terroristas"

Francamente... Que lata!
Há quanto tempo não vai Mário Soares às ex-colónias que ele "libertou"?
Gostaria de ver os seus dotes dialogantes, aplicados a balas perdidas numa qualquer esquina do Huambo, em Angola...

domingo, 14 de março de 2004

Simbolismo tradicional I - «La réforme de la mentalité moderne»

Este artigo de René Guénon foi publicado inicialmente na revista Regnabit em Junho de 1926. Foi incorporado mais tarde na resenha póstuma "Symboles de la Science Sacrée".

Visto que a obra de Guénon está protegida por copyright até ao ano 2021 pelo menos (facto que Guénon certamente detestaria!), vimo-nos obrigados a apresentar apenas traduções de pequenos excertos do artigo. Convidamos o leitor interessado a adquirir a obra referida, que consideramos ser de grande utilidade.

A tradução do francês para português é feita por mim, e é, por essa razão, de carácter amador. As minhas desculpas prévias pelas eventuais incorrecções.

«A civilização moderna aparece na história como uma verdadeira anomalia: de todas as que conhecemos, ela é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, a única também que não se apoia em nenhum princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material que se desenrola há vários séculos, e que se acelera cada vez mais, foi acompanhado de uma regressão intelectual que ele é incapaz de compensar. Trata-se, bem entendido, da verdadeira e pura intelectualidade, que também poderiamos chamar de espiritualidade, sendo que nos recusamos a dar este nome àquilo que os modernos se têm sobretudo aplicado: a cultura das ciências experimentais, com vista a aplicações práticas às quais elas são susceptíveis de dar lugar. Um só exemplo poderia permitir medir a extensão desta regressão: a Summa Theologica de S. Tomás de Aquino era, no seu tempo, um manual para o uso de estudantes; onde estão hoje os estudantes que seriam capazes de a aprofundar e de a assimilar?».

«Um Oriental não pode admitir uma organização social que não repouse em princípios tradicionais; para um muçulmano, por exemplo, a legislação inteira não é senão uma dependência da religião. Em tempos, também assim foi no Ocidente: basta lembramo-nos do que foi a Cristandade na Idade Média; mas, hoje, as relações estão invertidas. Com efeito, vemos agora a religião como um simples facto social; em vez da ordem social inteira ser associada à religião, esta contrariamente, quando ainda consentimos dar-lhe um lugar, não é mais vista senão como um qualquer dos elementos que constituem a ordem social; e quantos católicos aceitam esta forma de ver sem a menor dificuldade!»

«Praticamente, crentes e não crentes comportam-se quase da mesma maneira; para muitos católicos, a afirmação do sobrenatural não tem senão um valor teórico, e ficariam embaraçados se tivessem que constatar um facto miraculoso. É o que podemos chamar de um materialismo prático, um materialismo de facto; não é este mais perigoso do que o materialismo admitido, precisamente porque aqueles que por ele são atingidos não têm sequer consciência?»

«Seria contudo bem fácil demonstrar que a religião e a ciência não podem entrar realmente em conflito, pela simples razão de que elas não pertencem ao mesmo domínio. Como não ver o perigo que há em parecer procurar, para a doutrina que diz respeito às verdades imutáveis e eternas, um ponto de apoio no que há de mais variante e incerto?
E que pensar de certos teólogos cristãos que estão afectados do espírito "cientista" ao ponto de se crerem obrigados a ter em conta, em maior ou menor medida, os resultados da exegese moderna e da "crítica dos textos", quando seria fácil, na condição de ter uma base doutrinal um pouco segura, fazer aparecer a sua inanidade? Como não nos apercebermos que a pretensa "ciência das religiões", tal qual ela é ensinada nos meios universitários, jamais foi na realidade outra coisa do que uma máquina de guerra dirigida contra a religião, ou de forma mais geral, contra tudo o que ainda possa subsistir do espírito tradicional, que querem naturalmente destruir aqueles que dirigem o mundo moderno num sentido que só pode terminar numa catástrofe?»


Não posso senão recomendar a leitura do artigo na íntegra e na língua original, visto que apenas apresentei alguns excertos do mesmo.

Bernardo