domingo, 16 de maio de 2004

Camões e Dante

(de uma curiosa edição das "Obras Completas de Luís de Camões" impressa em Hamburgo no ano de 1834)

«
Depois que a corporal necessidade
Se satisfez do mantimento nobre,
E na harmonia e doce suavidade
Virão os altos feitos, que descobre;
Tethys, de graça ornada e gravidade,
Para que com mais alta glória dobre
As festas deste alegre e claro dia,
Para o felice Gama assi dizia:

Faz-te mercê, Barão, a Sapiencia
Suprema de co'os olhos corporais
Veres o que não póde a vãa sciencia
Dos errados e miseros mortais.
Sigue-me firme e forte, com prudencia,
Por este monte espesso, tu co'os mais.
Assi lhe diz: e o guia por hum mato
Arduo, difficil, duro a humano trato.

Não andão muito, que no erguido cume
Se achárão, onde hum campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis taes, que presume
A vista, que divino chão pizava.
Aqui hum globo vem no ar, que o lume
Clarissimo por elle penetrava,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a sua superficie, claramente.

Qual a matéria seja não se enxerga,
Mas enxerga-se bem que está composto
De varios orbes, que a divina verga
Compoz, e hum centro a todos só tem posto.
Volvendo, ora se abaixe, agora se erga,
Nunca s'ergue, ou se abaixa; e hum mesmo rosto
Por toda a parte tem, e em toda a parte
Começa e acaba em fim por divina arte:

Uniforme, perfeito, em si sostido,
Qual em fim o Archetypo, que o creou.
Vendo o Gama este globo, commoviodo
De espanto e de desejo alli ficou.
Diz-lhe a deosa: O transumpto reduzido
Em pequeno volume aqui te dou
Do mundo aos olhos teus, para que vejas
Por onde vás e irás, e o que desejas.

Vês aqui a grande máchina do mundo,
Etherea, e elemental, que fabricada
Assi foi do saber alto e profundo,
Que he sem princípio e meta limitada.
Quem cérca em derredor este rotundo
Globo e sua superficie tão limada,
He Deus: mas o que he Deos ninguem o entende;
Que a tanto o engenho humano não se estende.
»
- Luis Vaz de Camões - "Os Lusíadas", Canto X, LXXV a LXXX.

Como não pensar imediatamente em Dante, nos primeiríssimos versos da primeira estrofe da Divina Comédia?

«Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.»


Em que selva obscura andaram Dante e Camões? O que encontraram quando dela se libertaram?
O discurso de Tétis ao Gama é uma aula de geografia?
Está Vasco da Gama a contemplar a orbe terrena com os olhos do geógrafo, do navegador?

Ou está a contemplar algo mais?
Camões e Dante faziam parte de uma mesma corrente, a dos Fiéis de Amor. Deixaram-nos, a nós miseráveis e ignorantes homens e mulheres do século XXI, um legado valiosíssimo sob a forma de poema, que é a forma mais subtil e mais alta de expressão literária.

Como é ensinado Camões hoje em dia nas escolas? Como será ensinado Dante nas escolas italianas? Infelizmente, são ambos reféns dos interesses da política e da pequena intelectualidade.
Conseguirá alguma criança portuguesa captar ainda, nos bancos das escolas, um pequeno raio, um pequeno vislumbre de luz, do legado imensamente luminoso de Camões?
Dá que pensar...

Bernardo

sexta-feira, 14 de maio de 2004

Catolicismo e Materialismo II

De novo, António Telmo:

«No mundo árabe e no mundo hebraico, as relações entre heterodoxos e ortodoxos nunca atingiram o ponto de cisão que a história regista no mundo ocidental cristão, nem da parte dos primeiros nem da parte dos segundos e, se é possível, por exemplo, lembrar a excomunhão, de Holanda, de Espinosa, e de Uriel da Costa, a verdade é que os kubbalim judeus ou muçulmanos nunca deixaram de respeitar integralmente a revelação dos profetas e de praticar os ritos da religião. A cisão entre heterodoxia e ortodoxia é a principal causa, no Ocidente, das grandes concepções científicas, elaboradas longe da Igreja e, por fim, contra a Igreja, que se mostra desde o início hostil ao livre pensamento, sem o qual não há filosofia, e à livre imaginação, sem a qual não há poesia. Tais concepções, nascidas da contemplação religiosa dos mistérios do universo, degeneraram, nos seus divulgadores, no materialismo mais estúpido, mas é nesta forma que abrem curso, se tornam prestigiadas pelas suas consequências no domínio da técnica e acabam por se impor ao próprio magistério eclesiástico, nos tempos modernos. Tenta-se então conciliar fé e razão, religião e ciência, mas tardiamente e esquecido ou ignorado já o processo mental esotérico que poderia servir de mediador. Em consequência, têm-se produzido verdadeiras monstruosidades, no domínio da apologética, como essa, por exemplo, de, perante o darwinismo vencedor, se ter chegado ao ponto de defender que Deus insuflou o espírito, o Espírito Santo, no "antropopiteco", como aquela de se vir a garantir o dogma da virgindade de Maria pela fisiologia, para não falar já das várias teses do pensamento de Teillard de Chardin, em que Deus é gerado pela própria matéria.», Filosofia e Kabbalah, páginas 83 e 84.

António Telmo toca na ferida. Toca no ponto exacto. Nas razões reais para a situação da Igreja e da Ciência no mundo moderno. A discussão heterodoxia versus ortodoxia, e a discussão exoterismo versus esoterismo deveria dominar as discussões filosófias e teológicas das mentes pensantes hodiernas. Em vez disso, vemos o mundo científico a entrincheirar-se nas muralhas do materialismo mais primário, a filosofia a perder-se em positivismos e niilismos, e a teologia a tornar-se cada vez mais materialista, aderindo aos erros da ciência moderna, procurando seguir um caminho pseudo-apologético que só pode terminar em desastre: numa contraditória "teologia ateia".

O Portugal de Luís de Camões, de Teixeira de Pascoaes, de Fernando Pessoa, que sempre viveu um catolicismo de pendor heterodoxo, e que nele encontra a sua vida e a sua identidade, poderia servir de archote do pensar contemporâneo, iluminando a senda da Verdade, por onde podemos ser levados ainda hoje pela pena de autores como Álvaro Ribeiro, Sampaio Bruno, José Régio, José Marinho, Leonardo Coimbra, entre outros...

Muitos dos autores desta brilhante corrente intelectual já nos deixaram (recordo agora mais recentemente Orlando Vitorino). Porém, ainda temos António Telmo, ainda temos Pinharanda Gomes, mas infelizmente a pretensa intelligentsia portuguesa actual insiste em condená-los ao pior dos castigos: a indiferença...

Bernardo

Catolicismo e Materialismo I

Convém meditar sobre estas palavras de António Telmo, um dos poucos autores sobreviventes do (intencionalmente) desprezado movimento da Filosofia Portuguesa:

«O ódio que muita gente alimenta em relação aos sacerdotes não resulta tanto de observar a hipocrisia com que alguns ofendem a nossa seriedade moral e religiosa. Eles funcionam como o nosso superego e, nessa qualidade pelo menos, têm nas mãos as chaves dos Céus e dos Infernos. Tornam-nos conscientes do nosso medo. E, se acaso alguém, em vez de ódio, sente respeito e até veneração, o motivo não andará longe de ser o mesmo.
Portadores efémeros da vida, há em nós uma exigência de que as coisas não sejam assim. É-nos difícil compreender e aceitar que a porta dos Infernos tenha sido obra do eterno amor e que seja eterna.
Desta perspectiva, é possível tornar clara a razão por que os nossos poetas e filósofos, sem excepção - falamos evidentemente dos maiores -, tenham abandonado o catolicismo à procura do caminho da liberdade. Não da liberdade política ou mesmo simplesmente religiosa, mas da liberdade que nos liberte de Deus, matendo e aumentando a ideia de Deus. Os espíritos vulgares preferem seguir o caminho do materialismo: depois desta vida é o nada; a consciência é um epifenómeno da matéria que dura enquanto perdura um determinado arranjo de moléculas. É o materialismo uma doutrina de cobardes e de gente de pouca imaginação e nenhuma inteligência. O que é desconcertante é que pessoas de alta espiritualidade e de alguma coragem se comportem perante a morte e durante a vida numa atitude em tudo equivalente à dos materialistas, perturbados apenas por vagos sentimentos de natureza moral. "Pensaremos nisso depois"; "depois logo se vê como é". Na verdade vivemos como se fôssemos imortais. Como se fôssemos eternos.»
- Filosofia e Kabbalah, páginas 137 e 138.

Bernardo

quinta-feira, 13 de maio de 2004

A paranóia deste espectador

Serei paranóico sobre Dan Brown e o seu livro?

Não me parece...
Também é certo que os paranóicos não se vêem como tal.
Tem-me sido sugerido frequentemente, desde que eu instaurei o sistema de comentários nos "Espectadores", que eu deveria ocupar o meu tempo de melhor forma.

É uma maneira um pouco deselegante de se dizer que se discorda de uma opinião.
Convenhamos...

Perante este crescendo de anti-catolicismo, que para tanta gente passa despercebido, não sou capaz de reagir de outra forma senão esta.

Dan Brown é um pobre coitado. Não é ninguém.
Ele nem é a questão central. Frequentemente os joguetes das forças anti-tradicionais nem sabem que o são. Já falei disso em tempos... Trata-se de anti-tradicionalismo inconsciente.

Mas alguns de nós, apesar das nossas limitações de espectadores que tentam estar atentos, simplesmente reagem com repúdio e revolta à infâmia, à mentira e à difamação.

Hei-de reagir a este tipo de manifestações anti-tradicionais enquanto me sentir com forças para tal. O resto é conversa...

Bernardo

PS: Sinceramente não percebo: se estes temas não interessam a ninguém, porquê os comentários a sugerir-me que "mude de vida"? Será que as pessoas que escrevem estes comentários não têm mais nada para fazer?

A Internet é muito grande!
Vão pregar para outra freguesia.

terça-feira, 11 de maio de 2004

Ateísmo e presunção, Kaballah e Islão

O nosso amigo José do Guia dos Perplexos perdoar-me-á o quase plágio do título do seu último artigo, mas não resisto a fazer coro com ele.

De facto, tenho dedicado parte do meu curto tempo livre a trocar umas impressões com a pandilha do "Diário de uns Ateus". À parte do João Vasco, que é claramente a carta fora do baralho, o panorama é desolador em termos de presunção pseudo-intelectual.

Como diz o José, também eu "tive frequentemente a estimulante sensação de o meu ocasional interlocutor me considerar um idiota chapado".

Eu não diria que a sensação era estimulante. Para mim é mais frustrante. Uma sensação de tempo perdido...
Mas ao mesmo tempo, é também uma sensação de ironia...

Explico porquê.

René Guénon, que como sabem é como se fosse um meu "guru", explica que a intelectualidade das ciências modernas (verdadeira Terra Prometida destes nossos amigos ateus), não passa de uma pseudo-intelectualidade. Assim, é claro que esta gente fica furiosa quando eu digo que, para René Guénon, bem como para todo o homem plenamente tradicional, a espiritualidade e a intelectualidade podem andar de mãos dadas.

Para estes senhores, as enumerações divinas "hokmah" (sabedoria) e "binah" (inteligência) que se encontram na árvore dos zéfiros da Kaballah hebraica deverão ser mera retórica... Ou delírios esotéricos...

Uma curta nota sobre o termo "zéfiro", aplicada à árvore da Kaballah: este termo, como explica Guénon, vem do hebreu "sepher" (que também dá o árabe "çifr"), que é a origem etimológica da palavra "cifra" e do verbo "contar". Assim, "cifra" deve ser aqui interpretada não como "código" mas sim como "número" ou como a operação de contar.

Os "zéfiros" da árvore são as "enumerações divinas", ou por outras palavras, a enumeração dos atributos divinos.

A riqueza e complexidade do Islão, que salvou para a posteridade os clássicos gregos do esquecimento, e que rejuvenesceu a filosofia, as artes e as ciências na Idade Média, torna-se bem patente na complexidade do sufismo, e na surpreendente concordância deste com as linhas do esoterismo judaico. Espelhos de Verdade e de Intelectualidade que voam bem acima dos cinzentos e limitados racionalismos, cartesianismos e positivismos dos nossos amigos ateus.

Eles, em contrapartida, falam-nos do Islão como um exército de Bin Ladens... Lembram-nos vezes sem conta que a biblioteca de Alexandria foi queimada em nome de Allah. Como se se pudesse meter tudo no mesmo saco. Como se esse gesto criminoso, grunho e tresloucado, representasse a totalidade do ser islâmico. No meio de tanta pobreza cultural e intelectual, no meio de tanta estreiteza de vistas, o diálogo é difícil.

Bernardo

sexta-feira, 7 de maio de 2004

"O Cómico Da Vinci"

Se não fosse a postura convicta do autor, Dan Brown, o livro The Da Vinci Code até poderia parecer uma sátira literária. Mas não é! É um romance, para o qual o próprio autor admite ter-se baseado em factos reais.

Em Portugal, a polémica em torno desta novela ainda vai no início.
Contudo, e bem, a Agência Ecclesia antecipa-se com algumas explicações que vale a pena seguir:

"O Código Da Vinci" - Quando o objectivo é vender

Apenas discordo do título do artigo.
A Bertrand, acredito-o sinceramente, tem como objectivo único vender e fazer dinheiro.
Não acredito que haja o descaramento por parte da Bertrand de afirmar que o livro traz algo de culturalmente relevante.
Agora, da parte de Dan Brown, já não me parece que haja só vontade de fazer dinheiro, apesar desta poder ser a principal motivação.

Há, em todas as palavras de Dan Brown, um sentimento fortemente anti-católico.
Uma pulsão de niilismo que visa arremeter com todas as forças contra a Igreja Católica, que ele chama infantilmente de "The Vatican". Como se a Igreja se pudesse confundir com a residência do Santo Padre.

Mas o que não falta são confusões na cabeça de Dan Brown. Vários comentadores afirmaram que o próprio título é risível: dizer "O Código Da Vinci", é tão estúpido como dizer "O Evangelho De Nazaré", referindo-se aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Enfim, para quem não vê nada de novo na temática escolhida por Dan Brown, tudo isto encontra a sua base nas lendas criadas pelo mitómano Pierre Plantard e o seu amigo Phillipe de Chérisey. Uma "clique" de seguidores alargou o caudal de uma das mais extraordinárias farsas contemporâneas, que é a do Prieuré de Sion, essa pretensa "irmandade" com 900 anos de idade, feita para preservar a "verdadeira fé" no Divino Feminino (ou seja, Maria Madalena - Deus no feminino) e a "linhagem sagrada" dos descendentes (sic) de Jesus e Maria Madalena.

Que quer Dan Brown?
O mesmo que Pierre Plantard... Vingar-se da Igreja Católica vertendo o seu ódio anti-católico na escrita e propagação de mentiras de venda fácil. Aproveitar-se da ignorância generalizada das massas.

O que pode fazer o português que se veja com o romance de Dan Brown nas mãos? Tem três hipóteses:

1. Devolvê-lo à livraria onde o adquiriu ou processar a Bertrand (preferível, mas trabalhoso);
2. Usá-lo para papel higiénico (se a primeira falhar).
3. Lê-lo (boa sorte), e tentar informar-se das "fontes" de Dan Brown. Com algum esforço, tudo o que Dan Brown nos "revela" cai por terra com facilidade ao final de alguns dias de pesquisa.

Bernardo

P.S. Lista resumida dos autores que Brown pilhou:
Henry Lincoln, Michael Baigent, Richard Leigh, Lynn Pickett, Clive Prince, Margaret Starbird, entre tantos, tantos outros...
Contudo, a "propriedade intelectual" da farsa do Prieuré de Sion pertence ao já morto e enterrado Pierre Plantard.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Afinal vai ser a Bertrand...

Em Dezembro, eu perguntava qual seria a editora vampiresca que se iria atirar à publicação do romance-lixo de Dan Brown The Da Vinci Code...

O Independente, na passada quinta-feira, trouxe a resposta, num longo artigo sobre o livro e o seu autor.
Já temos um vencedor! É a Bertrand!
Parabéns à editora por um fantástico favor que faz à mediocridade e à pobreza intelectual. Após milhões de vendas no estrangeiro, finalmente chega a Portugal o best seller de Dan Brown!

O Código Da Vinci

É este o título da obra (?) que vamos encontrar à venda nas livrarias dentro de uma ou duas semanas.
Fica desde já aqui o aviso de que este romance pseudo-histórico, de histórico só tem a inspiração fantasiosa. Remeto os interessados, e aqueles que ficarem empolgados pelas afirmações e hipóteses lançadas por Dan Brown, para o trabalho sobre Rennes-le-Château que tenho publicado no site http://bmotta.planetaclix.pt.

Neste site encontra-se muito material informativo e muitas provas, que permitem detectar a fraude literária de Dan Brown, e deitar por terra as suas (que nem são só suas) fantasias. Aviso desde já de que o romance de Dan Brown é bem mais empolgante do que o meu site. Por isso, só recomendo uma visita a quem se empolgar mais com a verdade.

Bernardo

terça-feira, 6 de abril de 2004

Einstein e S. Tomás de Aquino

Ao contrário do que pretende alguma propaganda ateia, Einstein não era ateu. Era panteísta, à maneira de Espinosa.

Encontrei este trecho muito interessante na obra de Max Jammer, Einstein e a Religião:

«Quando G. S. Viereck disse a Einstein, no decorrer da entrevista anteriormente citada, que uma revista de Dublin havia publicado um artigo de um teólogo católico afirmando que a Teoria da Relatividade "apenas confirma os ensinamentos de Santo Tomás de Aquino", Einstein respondeu: "Não li toda a obra de Tomás de Aquino, mas ficarei encantado se houver chegado às mesmas conclusões que a mente abrangente desse grande erudito católico."»

Como podemos constatar, Einstein teve bom senso, como todos os verdadeiros génios.

Naturalmente, podem surgir dúvidas legítimas em relação ao autor do texto que apresentei. Max Jammer é professor emérito de Física e reitor da Universidade de Bar-Han (Israel). Foi colega de Albert Einstein em Princeton (EUA). É autor de várias obras, entre as quais Conceitos de Espaço, prefaciada pelo próprio Einstein, e The Philosophy of Quantum Mechanics, objecto de elogios por parte de Paul Dirac e Werner Heisenberg. Recebeu vários prémios, de entre os quais o prestigioso Monograph Prize of the American Academy of Arts and Sciences.

Pelo que é escusado tentar denegrir a figura e o nome de Max Jammer.
A obra de Max Jammer que referi, e que me serviu de fonte, é uma obra excelente para explicar, nas palavras de um colega de Einstein, como este via a religião, e para desmistificar as afirmações infundadas acerca do ateísmo de Einstein.

Bernardo

segunda-feira, 5 de abril de 2004

Argumentos contra: "Movimento"

O nosso leitor João Vasco apresentou-nos estes argumentos contra o argumento de S. Tomás de Aquino, que aqui nomeei como "Movimento":

1. Movimento - a passagem de potência a acto, que ocorre no universo, implica a existência de um primeiro Motor imóvel (primum movens immobile), que é Deus; senão, seria preciso admitir uma série infinita de motores, o que é inconcebível;

Argumenta-nos o João Vasco:

R:
a) A série infinita de motores não é menos concebível do que Deus (que também seria infinito á mesma, e mais complicado de conceber, nem que mais não fosse pelo problema lógico da Omnipotência, que a série infinita de motores não tem).
b) A passagem de potência a acto não implica nenhuma série infinita de motores nem causa primeira caso o Universo fosse cíclico ou pseudo-cíclico em termos temporais. Esta hipótese é suficientemente consistente e plausível para os Físicos ainda não a terem descartado.
c)MAIS IMPORTANTE - Mesmo que exista uma causa primeira (por a) e b) não é obrigatório, mas até será muito provável) NADA garante que essa causa é Deus (tudo indica que NÃO é Deus).


Antes de mais, queria agradecer ao João Vasco por enriquecer este assunto com os seus comentários, que são pertinentes.

Em relação à alínea a):
Diz o João Vasco que a série infinita de motores não é menos concebível do que Deus. Quer o João Vasco dizer que passámos a discutir o infinito? Acho pertinente diferenciar o tema do "movimento", que foi o tema apresentado, da discussão sobre o predicado de "infinito" que se estava a discutir relativamente ao movimento.
Não é sensato supor uma série infinita de motores, não tanto pelo uso do adjectivo "infinita", mas sobretudo porque seria ilógico supor que a cadeia de movimento (análoga à cadeia de causalidade), não teve origem num motor inicial, imóvel, que deu origem à cadeia. Eu não estava a referir-me à infinitude de Deus, ou à concepção que podemos dar desta ideia, estava a falar da infinitude de motores, que essa sim é ilógica.

Em relação à alínea b):
Também considero o Universo pseudo-cíclico em termos temporais!
Não sei bem o que o João Vasco quis dizer com isso, mas eu concordo com esta ideia.
Contudo, o ciclo tem um caráter perpétuo, e não infinito.
Tem um carácter de duração indefinida, e não infinita!
Eu tenho presente a dicotomia indefinido vs. infinito.
E a dicotomia perpétuo vs. eterno.
Por isso, o Universo cíclico como refere, e muito bem, o João Vasco, é perfeitamente conciliável com a visão de S. Tomás, desde que se tenha em consideração que o ciclo de movimentos, ou ciclo de "motores", usando a expressão aristotélica, fosse um ciclo perpétuo, e não um ciclo infinito. São conceitos MUITO diferentes!
Porque o Criador surge como a entidade supra-processual, que fora da cadeia de perpetuidade de movimento, a gerou e a pôs em movimento. Por isso, Deus é o motor imóvel, que gera movimento perpétuo (a cadeia de causalidade e movimento no Universo é do tipo perpétuo), e não movimento infinito. A passagem de potência a acto é uma característica dos processos de movimento no nosso Universo, e essa passagem dá-se perpetuamente. Contudo, teve uma origem causal, que se encontra necessariamente num nível superior. E é isso que se chama a Causa Primeira, o Motor Imóvel.
Convém adicionar, para esclarecer, que o tempo no nosso Universo não é uma grandeza que cresce em direcção ao infinito, mas sim em direcção a um limite que não está definido. É a distinção entre perpetuidade e eternidade. A eternidade é um predicado divino e não cosmológico.

Em relação à alínea c):
Sinceramente, não a percebi, João Vasco.
Porque é que "tudo indica" que não seja Deus?
Deus é o nome que eu atribuo a esse conceito (filosófico, no âmbito da presente exposição), que para mim é muito real!
Não estou a pensar num velhinho de barbas!
Será que estamos a cair na confusão do que se entende por "Deus pessoal"?
Isto tudo pede imenso tempo, que infelizmente não tenho. Mas não vou deixar de comentar as restantes contribuições do João Vasco, nem o resto do texto de Sebastien Faure, que desde já agradeço sinceramente.

Bernardo

domingo, 4 de abril de 2004

Argumentos ateus

Como seria de esperar, a minha última mensagem no blogue gerou logo polémica.
É o que sucede quando se traz à luz o trabalho de S. Tomás de Aquino, que é incómodo porque é um trabalho solidíssimo, fortíssimo, e tão difícil de refutar. E mais, porque é um trabalho redigido em termos filosóficos.

Neste site encontram-se argumentos de ateus, que infelizmente demonstram pouco trabalho de pesquisa.
Comecemos por refutar alguns deles. Se esta mensagem se tornar extensa, continuarei numa próxima.

http://www.ateus.net/artigos/critica/doze_provas_da_inexistencia_de_deus.html

Estes argumentos foram escritos pelo ateu Sebastien Faure (1858-1942).

1º Argumento: "O gesto criador é inadmissível"

Diz o autor que nada pode surgir do nada. Trata-se de uma incompreensão do conceito de Criação.
Deus não criou o Mundo a partir de algo que lhe fosse exterior. E não criou o Mundo a partir de alguma matéria pré-existente.
A substância do Mundo, que não resulta de nenhuma transferência de substância, foi criada por Deus num acto imediato. O tempo e o espaço, dimensões intrínsecas do nosso Mundo, foram criadas de forma coexistente com o Mundo. Por isso, nenhuma parte do nosso Mundo, nenhum elemento existia "antes" deste acto criador. "Antes" compreendido de forma causal, e não temporal, visto que o próprio tempo foi criado conjuntamente com o Mundo.
A criação a partir do nada, "ex nihilo", é a constatação de que nada deste Mundo existia antes da Criação.

2º Argumento: "O “puro espírito” não podia determinar o Universo"

Para demonstrar que Deus não pode determinar o Universo, lê-se a páginas tantas:

"De duas, uma: ou a matéria estava fora de Deus, ou era o próprio Deus (a não ser que lhe queiram dar um terceiro lugar). No primeiro caso, se a matéria estava fora de Deus, Deus não teve necessidade de criá-la, visto que ela já existia; e, se ela coexistia com Deus, estava concomitantemente com ele, do que se depreende que Deus não é o criador. No segundo caso, se a matéria não estava fora de Deus, encontrava-se no próprio Deus."

Bom, para já, estas linhas demonstram um materialismo excessivamente primário. O Universo não é só matéria. Mas enfim, interpretemos "matéria" como "substância" em termos aristotélicos e até se poderia aceitar o termo.

A substância do Universo não estava fora de Deus. Nada está fora de Deus. Deus é o limite ontológico.
A substância do Universo não estava no próprio Deus.
Por isso, nenhuma das duas hipóteses apresentadas é correcta.
Automaticamente, caem por terra as duas conclusões tiradas a partir destas duas hipóteses.

A Criação fez-se através do Verbo proferido por Deus Pai. Sem compreender a Trindade, dentro de um contexto católico, dificilmente se compreende a Criação. Deus Filho é o Verbo, que se torna Palavra "proferida" pelo Pai no gesto criador.
Assim, a Criação dá-se quando o Verbo ainda não proferido, mas já "pensado" pelo Pai, se concretiza ontologicamente, ou seja, "é proferido", dando-se a manifestação de "todas as coisas visíveis e invisíveis".

A metáfora da linguagem é aqui utilíssima. Uma palavra já existe no nosso intelecto antes de a proferirmos. Ao ser proferida, a palavra reveste-se de um carácter externo que é a dimensão sonora.

Assim também se deve entender a Criação. O proferir do Verbo, que habitava inicialmente no intelecto divino, concretiza o momento criador, em que o Verbo é "vocalizado". Daqui se compreende o significado da expressão do Credo: "nascido do Pai antes de todos os séculos", ou seja, o Verbo já habitava no intelecto de Deus Pai (causalmente) antes da Criação.

Este texto já vai longo.
Continuarei noutra mensagem a refutação destes argumentos ateus.

Bernardo