quarta-feira, 30 de junho de 2004

Pseudo-intelectualidade serôdia...

... é o que se pode encontrar neste artigo do "Diário de uns Ateus", da autoria do nosso arqui-inimigo André Esteves.

Bem sei que estes senhores não podem representar o pensamento ateu, mas nem tão-pouco o pensamento ateu português! Porquê? Porque estes senhores não sabem (nem sentem) bem o que é isso de nacionalismo.

Para eles, rima com "fascismo" e com "patriotismo".
É este um dos grandes perigos de alienação intelectual do ateísmo. É que, na sua voragem "uniformizadora", cujo objectivo máximo é ateizar todo o Universo (Deus incluído), estes senhores não vêem interesse algum em posturas nacionalistas.

Por isso, vêm para a blogosfera criticar aqueles pobres medíocres coitados que andam pelas ruas a festejar as vitórias futebolísticas do Euro 2004. Que triste exemplo nos dão estes senhores armados em intelectuais e (bem pior) defensores da intelectualidade.

Por isso, nas noites de vitória de Portugal, ficam em casa a ler autores ateus, a escrever para blogues ateus, a trocar mails com OUTROS ateus, enfim, numa doentia e medíocre embriaguez ateia.

Pois sim: eu estive na rua a festejar TODAS as vitórias de Portugal. E berrei, e saltei, e corri, e festejei, e tudo o que convém e é salutar a qualquer português que se preze. Porque, caros senhores do "Diário", esses jogadores de futebol (oh, tão intelectualmente incapazes que eles são) defendem bem melhor o País do que vossas excelências. Mas enfim, para quem não vê o interesse neste tipo de coisas "patrióticas" (palavra que para eles ainda cheira a Salazar), todo este discurso é escusado.

Meus caros ateus "uniformizadores", para já, nem todos os ateus pensam como vocês (graças a Deus!). Há por aí ateus patriotas, que eu sei. Conheço alguns, bons.
Mas já se sabe que o perigo da postura ateia está na ausência total de princípios metafísicos. Esta ausência total cria um vácuo intelectual, e é preciso uma mente mais exercitada para conseguir ocupar eficientemente este vácuo. Estes senhores, que no seu preconceito aglutinam conceitos como Deus e Pátria, julgam que ao negar o primeiro, têm que recusar o segundo. E por isso ficam em casa.

Obviamente que me preocupo com as desgraças políticas que se abateram sobre o nosso país. Obviamente que condeno fortemente os últimos tristes acontecimentos provocados pelo nosso (des)Governo. Sinto uma profunda vergonha pelos políticos que servem o nosso país.

Mas sinto um profundo orgulho na nossa selecção.
O erro seria dizer que Portugal está bem graças ao futebol!
Portugal não está bem, está MAL. Muito MAL.
Mas, no futebol, está muito bem, e de parabéns!
Este país investiu muito esforço pessoal e institucional no Euro 2004. Eu sempre fui contra esta opção de investimento, porque sempre achei e acho que era um erro de prioridades. Mas agora que já se investiu, não querer tirar o máximo do Euro 2004 a todos os níveis é não ter consciência patriótica.

Triste seria ter que dizer:
"Só eu sei porque não fico em casa"

Mas, graças a Deus, não tenho que dizer tal frase, porque 10 milhões de portugueses, quando saem à rua a festejar, sabem bem porque é que não ficam em casa.

Desculpem-me o tom ligeiramente demagógico deste texto, mas achei importante partilhar a minha viva e decidida repulsa por este tipo de posturas tristes, serôdias, e pseudo-intelectuais.
Para terminar, um recado para alguns dos comentadores do artigo que referi: para ser "intelectual" à vossa maneira, não basta recusar Deus! Já agora, para ser intelectual, ajuda ter alguma cultura e (porque não?) escrever bem em português e sem erros ortográficos e gramaticais!

Bernardo

segunda-feira, 28 de junho de 2004

Constituição do novo governo

Apesar do assunto ser sério, não resisto a partilhar o mail que me acabaram de enviar, cujo autor desconheço... Está genial...

Segundo o hebdomadário de S. Bento da Porta Aberta, o governo poderá ter a seguinte composição:
Primeiro-ministro: Santana Lopes
Ministra dos Negócios Estrangeiros: Cinha Jardim
Ministra da Economia e Finanças: Lili Caneças
Ministro da Educação, da Cultura, da Ciência e das Universidades: Alberto João Jardim
Ministro da Administração Interna: Valentim Loureiro
Ministro da Justiça: Ferreira Torres
Ministro das Oposições com direito a uma coluna diária na 3ª série do Diário da República: Pacheco Pereira
Ministro das Pescas e do Ambiente: Vasco Graça Moura
Ministro da Defesa e Propaganda Nacional: Luís Filipe Scolari
Ministro das comunidades urbanas e das aldeias: Luís Filipe Meneses
Ministro das privatizações e das empresas públicas: Zézé Beleza


Com uma equipa destas, de certeza que nunca mais haveria tédio na Assembleia da República...

Bernardo

Mas também foi péssima...

... com o triste episódio da "fuga" de Durão Barroso para a "Europa" (como dizem tristemente alguns jornalistas, como se Portugal não pertencesse à Europa)...

Mais triste do que o caos político em que este país já se encontrava antes de tudo isto, é a probabilidade cada vez maior de termos, como futuro primeiro ministro, Pedro Santana Lopes. Bem sei que, depois dos E.U.A., já está a ficar na moda apostar numa liderança baseada na incapacidade e na inaptidão, mas com os males dos outros podemos nós bem!

Pensem lá bem... Pedro Santana Lopes? Alguém tem a noção do que isso é?

Só me resta mesmo é rezar... Pelo futebol, pelos vistos, já não tanto... Mas pelo país...

Bernardo

A semana passada foi óptima...

... com os golos de Postiga, Rui Costa, e sobretudo do grande Ricardo!!

VIVA PORTUGAL!!

quinta-feira, 24 de junho de 2004

Pobre apóstolo João...

Pois é... Nos dias que correm, nem mesmo os apóstolos que morreram há 2.000 anos estão a salvo do disparate...

Tenho estado envolvido nalguns comentários no blogue Afixe em torno da questão da pretensa "Maria Madalena" que agora, vários séculos depois, toda a gente consegue ver com tanta clareza no quadro da última ceia de Leonardo da Vinci.


Fresco pintado na parede do refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão



É um notável caso de milagre ocular! Durante séculos NINGUÉM viu à direita de Cristo outro senão o apóstolo S. João. Pois agora, em pleno século XXI, a deterioração que está a carcomer o mural de Leonardo, pelos vistos, parece estar a ajudar à nitidez! Nunca como agora tantas pessoas conseguem, de facto, ver no lugar de João, a figura feminina de Maria Madalena! É impressionante!

Claro que, nas ondas da paranóia "brownesca" e no rescaldo da pseudo-novidade do romance-lixo de Dan Brown "O Código Da Vinci", tudo agora parece "encaixar" como um puzzle.

Contudo, a estes novos "teóricos da tela" deve parecer "conspiratória" a opinião unânime dos peritos de arte dos últimos séculos, que insistem que S. João sempre foi pintado com traços efeminados, e que isso sempre foi prática comum entre os pintores. A eles, adeptos vorazes das teses "brownescas", pouco interessa saber as razões para esta característica de S. João. Razões essas que, escapando-lhes completamente, permitiriam compreender a verdade dos factos.

Ora sucede que S. João, como apóstolo, é o pólo oposto de S. Pedro.
S. Pedro é a "pedra":

"tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam " - Mateus 16, 18.

S. Pedro é força impetuosa, impulsiva, e extrovertida. É sobretudo uma força firme (veja-se o simbolismo da "pedra"), mas "exterior".
Por outro lado, S. João é o apostolo discreto, que na sua quietude melhor guarda os "segredos" de Cristo. É o fiel depositário da doutrina. É também firme, mas "interior". Recordemos que, conforme os textos evangélicos, era ele o apóstolo que Jesus mais amava. Isto explica a supremacia do lado interior face ao lado exterior.

S. João está "acima" de S. Pedro, porque está mais próximo do Mestre. Na escolha dos seus apóstolos, Jesus começou pela "pedra firme" que é Pedro, sobre a qual começou a construir a sua Igreja. E terminou na escolha do apóstolo João, que era quem Ele mais amava, e quem Lhe era mais próximo.

Tradicionalmente falando, é a dicotomia entre o "exoterismo" de Pedro e o "esoterismo" de João. Entre o carácter impulsivo e expansivo da "força exterior" e a quietude e discrição da "força interior". Por isso, é S. Pedro representado como um homem forte e destemido, e S. João como um homem físicamente mais débil, porque a sua força não está no "exterior" mas sim no "interior".

S. Pedro tem que ser exteriormente "forte" em virtude do seu papel.
S. João tem que ser interiormente "forte" em virtude do seu papel.

O uso, no meio artístico renascentista, de traços menos viris para S. João apenas demonstra claramente um conhecimento por parte dos pintores da dicotomia entre estes dois apóstolos.

Colocar uma Maria Madalena à mesa da Última Ceia nem seria errado, porque é razoável supor que Maria Madalena acompanhava o Mestre para todo o lado. Mas há dois erros graves e crassos:

1. Colocá-la ao lado de Cristo, e no Seu lado direito, quando é certo e sabido que à direita se senta a pessoa mais importante a seguir a quem preside, e essa pessoa só podia ser o apóstolo João, que era aquele que Jesus mais amava;

2. E pior, fazer desaparecer S. João da mesa! Onde foi ele parar, caros adeptos de Dan Brown?

Para os novo-"teóricos" do "sagrado feminino", colocar Maria Madalena ao lado de Jesus seria uma forma evidente de realçar a importância dela como mulher-chave no plano salvífico de Cristo. Mas esquecem-se que é irrazoável, com tal substituição, fazer desaparecer o apóstolo mais amado!

Além de tudo isto, colocar Maria Madalena (que é todavia Santa e de direito), num papel chave na Redenção é menosprezar quem tem, de facto e plenamente, o direito a esse papel: Maria, Mãe de Deus e Co-Redentora.

Bernardo

sábado, 19 de junho de 2004

A angeologia em S. Tomás de Aquino

Há poucos temas mais incompreendidos em teologia do que os temas angeológicos.
Quantas pessoas ainda hoje sabem o que é um anjo?

A pergunta fará rir muita gente, sobretudo os não crentes, mas o que é mesmo grave é que a pergunta faça rir um crente.

Nos tempos que correm, as entidades angélicas são vistas como alegorias ou como fantasia e folclore religioso por muitas pessoas que se dizem católicas. Alguns não crentes, sempre que ouvem falar em anjos, apressam-se a emitir umas sonoras gargalhadas, aproveitando para discorrer sobre a eterna questão da "superstição", num esforço desesperado para transmutar a religião num emaranhado de patranhas feitas por e para ignorantes.

Ora bastava, como sempre, recorrer a quem sabe destas coisas. Sim, voltamos de novo a S. Tomás de Aquino, e à sua sempre útil Summa Theologica. A secção da obra que lida com a angeologia é muito extensa, pelo que me restringirei a uma pequena parte desta secção, mais concretamente à quaestio disputata sobre a substância dos anjos.

A questio disputata, já agora, consiste no método dialético usado por S. Tomás para expor as suas teses. Existe primeiro uma questão que é lançada à discussão, neste caso a questão é a "Utrum angelus sit omnino incorporeus", ou seja, "se um anjo é incorpóreo como um todo". Aquino conclui que o é.

Seguindo a clássica estrutura da quaestio disputata, S. Tomás apresenta, após a quaestio, algumas objecções, ou seja, argumentos contra a incorporeidade dos anjos como um todo. Posteriormente, vem a "sed contra", ou seja, um argumento a favor da verdade da quaestio, e por isso contra as objecções levantadas. S. Tomás conclui com a sua posição acerca do assunto, tendo considerado tanto as objecções como os argumentos abonatórios, e finaliza com respostas directas às objecções.

Em latim:
Utrum angelus sit omnino incorporeus

Tradução em inglês:
Whether an angel is altogether incorporeal

Vejamos de perto a conclusão desta quaestio, visto que é uma boa ocasião para ver como a teologia católica concebe a substância dos anjos.

"Respondeo dicendum quod necesse est ponere aliquas creaturas incorporeas. Id enim quod praecipue in rebus creatis Deus intendit, est bonum quod consistit in assimilatione ad Deum. Perfecta autem assimilatio effectus ad causam attenditur, quando effectus imitatur causam secundum illud per quod causa producit effectum; sicut calidum facit calidum. Deus autem creaturam producit per intellectum et voluntatem, ut supra ostensum est. Unde ad perfectionem universi requiritur quod sint aliquae creaturae intellectuales. Intelligere autem non potest esse actus corporis, nec alicuius virtutis corporeae: quia omne corpus determinatur ad hic et nunc. Unde necesse est ponere, ad hoc quod universum sit perfectum, quod sit aliqua incorporea creatura.
Antiqui autem, ignorantes vim intelligendi, et non distinguentes inter sensum et intellectum, nihil esse existimaverunt in mundo, nisi quod sensu et imaginatione apprehendi potest. Et quia sub imaginatione non cadit nisi corpus, existimaverunt quod nullum ens esset nisi corpus, ut Philosophus dicit in IV Physic. Et ex his processit sadducaeorum error, dicentium non esse spiritum. Sed hoc ipsum quod intellectus est altior sensu, rationabiliter ostendit esse aliquas res incorporeas, a solo intellectu comprehensibiles."
- Summae Theologiae, Angelici Doctoris Sancti Thomae Aquinatis, Prima Pars, Quaestio L, Articulus 1, «Utrum angelus sit omnino incorporeus»

Sintetizando, S. Tomás diz que têm que existir algumas criaturas que sejam incorpóreas ("quod necesse est ponere aliquas creaturas incorporeas"), pelo facto de que o desejo principal de Deus para as suas criaturas é o bem, e que esse bem consiste na assimilação das criaturas ao Criador ("est bonum quod consistit in assimilatione ad Deum"). Ora a perfeita assimilação ocorre quando o efeito mimetiza a causa que o produziu, pelo que se Deus criou as criaturas pelo seu Intelecto e Vontade, as criaturas mais perfeitas são aquelas que possuirem de forma mais pura uma essência intelectual. A perfeição do Universo requer a existência de criaturas intelectuais ("Unde ad perfectionem universi requiritur quod sint aliquae creaturae intellectuales"). Usando o argumento de que a inteligência não pode vir da acção de um corpo ou de uma faculdade corpórea, porque cada corpo está limitado ao tempo e ao espaço, a perfeição do Universo também requer a existência de criaturas incorpóreas ("Unde necesse est ponere, ad hoc quod universum sit perfectum, quod sit aliqua incorporea creatura").

S. Tomás termina dizendo que alguns pensadores antigos se enganaram ao afirmar que nada existia senão aquilo que podia ser conhecido pelos sentidos e pela imaginação. Ou seja, S. Tomás diz que os empiristas estavam enganados. Termina o seu raciocínio com esta brilhante conclusão:

"Sed hoc ipsum quod intellectus est altior sensu, rationabiliter ostendit esse aliquas res incorporeas, a solo intellectu comprehensibiles."

Ou seja, pelo facto de que o intelecto está acima dos sentidos, é razoável afirmar que há coisas incorpóreas, portanto não apreensíveis empiricamente, e que apenas são apreensíveis pelo intelecto.

Por isso, o domínio angélico é o domínio das "coisas" do intelecto, que são, no fundo, criaturas também, mas incorpóreas. Por outras palavras, o domínio angélico é o domínio "subtil" que separa as criaturas corpóreas do Criador. Acima do estado de corporeidade terá que existir necessariamente um ou mais estados intermédios, onde existam criaturas hierarquica e progressivamente mais "intelectuais" e incorpóreas, que, de certa forma, façam a ponte entre o Homem, que reina sobre as criaturas corpóreas, e o Deus Criador transcendente.

O Homem faz, então, a fronteira entre o corpóreo e o intelectual. O Homem é a única criatura que, sendo ainda corpórea, já possui um intelecto.

Aposto que se muitos soubessem que o domínio angélico era, de certa forma, equiparável ao "mundo das ideias", não seriam tão precipitados nas críticas e na chacota fácil ao fascinante domínio da angeologia.

Bernardo

sexta-feira, 18 de junho de 2004

Karl Popper e a problemática da irrefutabilidade

Antes de mais, as minhas desculpas por tão longo silêncio, mas não tem sido fácil arranjar algum tempo para escrever, o que me faz pena, porque vejo que muitos visitantes passam por cá, para sairem logo imediatamente ao verificarem que o artigo é o mesmo das últimas duas semanas.

Prometo fazer um esforço para não abandonar o posto!

Em virtude de uma polémica cativante em torno de S. Tomás de Aquino e Aristóteles, que tem tomado forma no site "Diário de uns Ateus", trago hoje de novo um tema filosófico. É de grande importância e utilidade este tema, porque contém conceitos-chave essenciais para que o diálogo entre crentes e não crentes não seja um diálogo de surdos.

O Ricardo Pinho e o João Vasco têm frequentemente insistido no facto de que S. Tomás, com a sua Summa Theologica, não conseguiu provar a existência de Deus. A questão é, a meu ver, demasiado complexa para que se salte para conclusões tão precipitadas antes de uma correcta análise do problema. Para mais, temo que seja um problema de uma complexidade teórica bem para lá das nossas (minhas, do Ricardo e do João Vasco) capacidades intelectuais. Mas vamos tentar...

Antes de mergulhar no texto da Summa para melhor entendermos os argumentos de S. Tomás e a essência dos mesmos, o que terá que suceder noutro artigo, vamos fazer uma breve mas fundamental passagem por Karl Raimund Popper (1902-1994), e pela sua obra-prima "Conjecturas e Refutações", que teve recentemente honras de nova e cuidada edição por parte da Almedina.

A dada altura, no capítulo "Acerca do Estatuto da Ciência e da Metafísica", diz Popper:

"Para evitar, desde o início, o perigo de nos perdernmos em generalidades, talvez seja bom explicar desde já, com o auxílio de cinco exemplos, o que significa para mim teoria filosófica."

Interrompo um pouco para sintetizar, dizendo que Popper refere estes cinco exemplos:

1. O determinismo de Kant: "O futuro do mundo empírico (ou do mundo fenoménico) é inteiramente pré-determinado pelo seu estado actual, até ao mais ínfimo detalhe";

2. O idealismo de Berkeley ou Schopenhauer: "O mundo empírico é a minha ideia";

3. O irracionalismo: "nós temos experiências irracionais ou supra-racionais em que nos experienciamos a nós mesmos como coisas-em-si; e obtemos, dessa forma, algum tipo de conhecimento das coisas-em-si";

4. O voluntarismo: "nas nossas próprias volições, conhecemo-nos a nós mesmos como vontades. A coisa-em-si é a vontade";

5. O niilismo: "no nosso tédio, conhecemo-nos a nós mesmos como nadas. A coisa-em-si é Não-Ser".

Regressemos então ao texto de Popper:

"Escolhi os meus exemplos de um modo que me permite dizer relativamente a cada uma destas cinco teorias, e após cuidadosa ponderação, que estou convencido da sua falsidade. Ou, para pôr a questão em termos mais precisos: eu sou, primeiro que tudo, um indeterminista, em segundo lugar um realista, em terceiro um racionalista. No que toca aos meus quarto e quinto exemplos, admito de bom grado - tal como Kant e outros críticos racionalistas - que nós não podemos possuir nada que se pareça com um conhecimento pleno do mundo real, na sua infinita diversidade e beleza. Nem a Física nem nenhuma outra ciência nos pode auxiliar nesse objectivo. Estou, contudo, seguro de que a fórmula voluntarista "O mundo é vontade" tão-pouco nos pode ajudar. E quando aos nossos niilistas e existencialistas que se entediam (e entediam talvez os outros), só posso ter pena deles. (...)

Ainda que eu considere que cada uma destas cinco teorias é falsa, estou, não obstante, convencido de que são, todas elas, irrefutáveis.
Escutando esta afirmação, podeis bem interrogar-vos como é que é possível que eu considere uma teoria simultaneamente falsa e irrefutável - eu, que afirmo ser um racionalista. Pois, como pode um racionalista dizer que uma teoria é falsa e irrefutável? Não é ele obrigado, como racionalista, a refutar uma teoria antes de a classificar como falsa? E inversamente, não é ele obrigado a admitir que, se uma teoria é irrefutável, é porque é verdadeira? Com estas perguntas, cheguei finalmente ao nosso problema.
A última pergunta pode ser respondida de uma forma bastante simples. Houve pensadores que acreditaram que a verdade de uma teoria podia ser inferida da sua irrefutabilidade. Este é, no entanto, um erro óbvio, atendendo a que pode haver duas teorias incompatíveis igualmente irrefutáveis - por exemplo, o determinismo e o seu oposto, o indeterminismo. (...)
Inferir a verdade de uma teoria da sua irrefutabilidade será, por conseguinte, inadmissível."


Interrompamos um pouco... Depreendemos, e concordo plenamente com Popper, que S. Tomás de Aquino, trabalhando no domínio da teologia e da metafísica (esta última ao estilo de Aristóteles, bem entendido), trabalha sobre teorias que, aos olhos da ciência moderna, são irrefutáveis. Por isso, falando de um modo estritamente científico, não podemos, e Popper está correctíssimo, inferir a veracidade científica das teses do Aquinate do carácter irrefutável das mesmas.

Mas em que sentido, ou sentidos, entende Popper que uma teoria seja irrefutável? Em dois:

1. Irrefutável em sentido lógico: ou seja, "irrefutável por meios puramente lógicos", que no fundo é o mesmo que dizer que a teoria é coerente e que sobrevive ao teste da integridade lógica. Mas como diz Popper, "é bastante óbvio que a verdade de uma teoria não pode ser, de modo algum, inferida da sua coerência".

2. Irrefutável em sentido empírico: ou seja, "não refutável empiricamente" ou "compatível com qualquer possível enunciado empírico" ou "compatível com toda a experiência possível".

A Summa Theologica é irrefutável em sentido lógico, a meu ver. Se os meus amigos ateus não concordarem, poderemos ir por esse caminho. Mas, considerando eu a Summa irrefutável em sentido lógico, continuo com pouca coisa, uma vez que a coerência das teses do Aquinate não permite concluir que estas são verdadeiras.

E em relação à irrefutabilidade empírica? Aqui o caso muda de figura. Popper diz que a grande dificuldade com a irrefutabilidade empírica é que não é humanamente possível proceder à refutação, em virtude da vastidão do Espaço e do Tempo. Na óptica de Popper, refutar empirica e científicamente a existência de Deus implicaria esquadrinhar todos os pontos do espaço e do tempo e, não O encontrando, inferir a Sua inexistência.

Por isso, as conclusões teológicas e metafísicas do Aquinate, expostas na Summa, são empiricamente irrefutáveis. Para mim, esta era a mais óbvia de todas, porque Deus não é um ente empírico, e como tal, não vale a pena procurar por Ele no tempo e no espaço, porque não há tempo nem espaço que O pudessem conter.

Continuamos num impasse! As doutrinas ensinadas por S. Tomás, a par com todas as restantes doutrinas filosóficas e metafísicas, permanecem cientificamente irrefutáveis, sem forma de as podermos testar para ajuizarmos se são falsas ou verdadeiras!
Que fazer então com elas?
Popper dá uma pista valiosa:

"Há cerca de vinte e cinco anos, propus-me distinguir teorias empíricas ou científicas de teorias não-empíricas ou não-científicas, definindo precisamente as empíricas como refutáveis e as não-empíricas como irrefutáveis. (...) Se aceitarmos este «critério de refutabilidade», veremos de imediato que as teorias filosóficas, ou as teorias metafísicas, serão irrefutáveis por definição. (...)

Se as teorias filosóficas são todas irrefutáveis, como poderemos nós distinguir entre as verdadeiras e as falsas? (...)

Ora, se nós encararmos uma teoria como uma proposta de solução para um conjunto de problemas, ela prestar-se-á de imediato a uma discussão crítica - mesmo que seja não-empírica e irrefutável. E isso na medida em que podemos fazer perguntas como «Será que resolve o problema? Resolve-o melhor do que outras teorias? Não se limitará, talvez, a alterar o problema? A solução é simples? É fecunda? Será que contradiz outras teorias filosóficas, necessárias para resolver outros problemas?

Questões deste género demonstram que é bem possível discutir criticamente até mesmo teorias irrefutáveis."
- Karl Popper, "Conjecturas e Refutações", Livraria Almedina, Abril de 2003, pp. 264-274.

Como estou de acordo com Popper!
Este breve trecho da obra "Conjecturas e Refutações" é verdadeiramente surpreendente. Mostra-nos que, face à análise crítica de obras teológicas e metafísicas como a Summa Theologica, a abordagem correcta, mesmo do ponto de vista de um cientista que quer manter íntegras e coerentes as suas convicções como um todo, não é nunca a de inferir a falsidade da teoria metafísica, nem tão pouco a de se precipitar numa insensata inferência da veracidade científica da teoria metafísica. Popper demonstrou particularmente bem que tal é impossível.

Conclusão:
1. É impossível provar cientificamente que, por exemplo, Deus existe;
2. Correlativamente, é impossível provar cientificamente que Deus não existe.

Fica o caminho aberto para muito e profundo trabalho crítico. Como disse Popper, apenas porque uma teoria é irrefutável não quer dizer que se desista de a analisar, criticar, considerar, corrigir, e assim por diante. Este trabalho, contudo, terá que ser feito a um nível meta-científico, porque já não podemos dispor das ferramentas científicas de teste. Terá que ser feito recorrendo, por exemplo, às doutrinas tradicionais conforme expostas por René Guénon, que se regem por ferramentas totalmente diferentes como a que este designou por "intuição intelectual" (que opera a um nível supra-racional), e recorrendo aos abundantes exemplos e lições que se podem retirar do simbolismo tradicional.

Bernardo

domingo, 30 de maio de 2004

A luz visível e as "sete cores" do arco-íris

É hoje em dia comum dizer-se que o arco-íris tem sete cores: encarnado, laranja, amarelo, verde, azul, lilás e violeta. Esta é uma das situações mais típicas, como diz Guénon, da deformação de uma ideia perfeitamente tradicional devido à perda da compreensão do significado profundo dessa mesma ideia.

Iremos percorrer algumas das explicações dadas por René Guénon no seu artigo Les sept rayons et l'arc-en-ciel (publicado pela primeira vez na revista Études Traditionelles, em Junho de 1940), aproveitando para confrontá-las com alguns conceitos de óptica e de teoria da cor. Este confronto das ideias tradicionais, que Guénon magistralmente nos expõe, com os conceitos da ciência moderna é fundamental para evitar que nos dirijam acusações de "obscurantismo científico". Mostraremos assim que não queremos invalidar os factos científicos, apenas queremos que o significado destes seja plenamente alcançável através de coordenadas tradicionais, e não apenas através do limitado e profano "método científico".

"Já falámos em diversas ocasiões do simbolismo dos «sete raios» do sol; poderíamos perguntar-nos se estes «sete raios» não têm alguma relação como o que se designa ordinariamente como as «sete cores do arco-íris», porque estas representam literalmente as diferentes radiações que compõem a luz solar. Há de facto uma relação, mas, ao mesmo tempo, estas ditas «sete cores» são um exemplo típico da forma como um conceito tradicional autêntico pode ser por vezes deformado pela incompreensão comum."

Comecemos por analisar um pouco as cores do arco-íris. Se pensarmos um pouco, vemos que não há razão para que se fale em "sete cores" mas sim em seis. Vejamos... São três as cores primárias: encarnado, amarelo e azul. São também três as cores secundárias: laranja, verde e violeta. Como se sabe, "laranja" resulta da adição da cor primária "encarnado" com a cor primária "amarelo". Do mesmo modo, "verde" resulta da soma de "amarelo" com "azul", e violeta da soma de "azul" com "encarnado". Este facto concreto, de que as cores secundárias se extraem das primárias por adição, é que dá o epíteto de "primárias" ao encarnado, ao amarelo e ao azul.


Esquema triangular de cores



Assim, o esquema triangular de cores dá-nos uma razão de ser para a identificação de seis cores no arco-íris. Obviamente que o espectro visível é uma gama contínua de cores, mas é inegável que o olho humano consegue distinguir claramente no arco-íris (ou na reflexão da luz através de um prisma) as três cores primárias intercaladas por curtas bandas de cores secundárias. Temos assim, na faixa do visível:

Encarnado (primária, faixa longa)
Laranja (secundária, faixa curta)
Amarelo (primária, faixa longa)
Verde (secundária, faixa curta)
Azul (primária, faixa longa)
Violeta (secundária, faixa curta)

Não é, por isso, necessário acrescentar uma sétima cor. Então, porque é que se tornou costume fazê-lo? Porquê a necessidade de ter um septenário?

Essa necessidade de um septenário é real e correcta. Contudo, a solução que se encontrou ao adicionar uma sétima cor revela uma profunda incompreensão desta necessidade de sete termos. O sétimo termo não é uma cor, não é um termo como os outros. É um "sétimo raio", e não uma sétima cor... É sim, como diz Guénon, o "raio central" ou "raio axial", e corresponde à luz branca.

É evidente que não necessitamos de mais uma sétima cor no esquema triangular que apresentámos atrás!

"Com efeito, podemos colocar as três cores fundamentais nos três vértices de um triângulo, e as três cores complementares nos de um triângulo inverso do primeiro, de tal forma que cada cor fundamental e a sua complementar se encontram colocadas em pontos diametralmente opostos; e vemos que a figura assim formada não é outra senão a do «selo de Salomão». Se traçarmos o círculo no qual está inscrito o duplo triângulo, cada uma das cores complementares ocupa o ponto situado a meio do arco compreendido entre os pontos das duas cores fundamentais de cuja combinação ela resulta (...); as nuances intermediárias correspondem naturalmente a todos os pontos da circunferência, mas no duplo triângulo que é aqui o essencial, não há evidentemente lugar para mais de seis cores.»

As cores do arco-íris são assim percorridas desde o encarnado até ao violeta, através de um percurso sobre a circunferência descrita por Guénon, que no diagrama que apresentamos, é um percurso no sentido dos ponteiros do relógio. Todo o espectro da luz visível é obtido por percursos sobre esta circunferência. Primeira objecção: olhando para as cores como radiações monocromáticas, e não como somas de cores, temos que a cada cor (a cada ponto da circunferência) corresponde uma onda de frequência fixa. Então e não há um salto de frequência, ou seja uma descontinuidade, ao passar do violeta para o encarnado?

Há, se nos limitarmos a considerar a luz visível como algo de quantitativo, como uma "janela" no espectro electromagnético. Como uma gama contínua de frequências. Mas a luz visível é muito mais do que isso. Sigamos de novo Guénon:

"Podemos notar de passagem que o facto das cores visíveis ocuparem assim a totalidade da circunferência e se juntarem sem nenhuma descontinuidade mostra que elas formam realmente um ciclo completo (o violeta participando ao mesmo tempo do azul do qual é vizinho e do encarnado que se encontra na outra extremidade do arco-íris), e que, consequentemente, as outras radiações solares não visíveis, as que a física moderna designa como raios «infravermelhos» e «ultravioletas», não pertencem de forma alguma à luz e são de uma natureza totalmente diferente desta; não se trata então, como alguns parecem crer, de «cores» que uma imperfeição dos nossos órgãos nos impediria de ver, porque estas pretensas cores não poderiam tomar parte alguma desta circunferência, e não seríamos capazes de admitir que esta fosse uma figura imperfeita ou que ela apresentasse uma qualquer descontinuidade."

Ao não dar à luz visível uma natureza diferente, ao considerá-la como uma mera gama contínua de frequências no espectro electromagnético, estamos a ser limitados pela estreiteza de vistas da ciência moderna, que apresenta um carácter predominantemente profano. Há, contudo, resultados da ciência moderna que se aproximam surpreendentemente da perspectiva tradicional, como não podia deixar de ser, desde que continuem a existir cientistas ao mesmo tempo clarividentes e isentos. É o caso dos resultados produzidos por Herman Günther Grassman...

Em 1853, o matemático elaborou três leis fundamentais:

1. Toda a sensação de cor pode ser produzida de forma unívoca pela soma de três cores fundamentais.

2. Numa soma de cores, cada uma das cores pode corresponder a uma onda monocromática ou a uma soma de cores; assim, ao somar uma cor com verde, seria, por exemplo, igual usar um feixe monocromático verde ou a soma de um feixe amarelo com um azul.

3. Uma cor permanece inalterada se não se mudarem as proporções das cores que a compõem. Podemos assim, numa combinação de cores, aumentar ou diminuir igualmente a intensidade de cada cor, que a cor resultante permanece a mesma, mudando apenas a claridade.

Com estas leis, tira-se uma conclusão fundamental: para representar uma cor, não necessitamos de três termos, mas apenas de dois, se em vez das intensidades das cores fundamentais usarmos os rácios das mesmas. O branco resultará sempre se usarmos a mesma quantidade das três cores fundamentais. Veja-se como exemplo de mapa de cores o gráfico bidimensional (em cada eixo temos os rácios das cores fundamentais) fixado pela Comission Internationale d'Éclairage (1931):



O gráfico é surpreendentemente semelhante ao nosso duplo triângulo! A ênfase dada pelo gráfico da natureza "fechada" da luz visível aproxima-nos do verdadeiro significado da cor, que nos escapava com a simples contemplação do espectro electromagnético. Obviamente que a natureza parabólica das fronteiras do gráfico deve-se ao artifício matemático de usar rácios das cores fundamentais. De outra forma, teríamos um gráfico tridimensional para a cor.

E a questão do sétimo termo? Como explicar o septenário?
Regressemos a Guénon...

"Para resolver a questão do sétimo termo que deve realmente se somar às seis cores para completar o septenário, é preciso reportarmo-nos à representação geométrica dos «sete raios», tal como explicámos noutra ocasião, pelas seis direcções do espaço, formando uma cruz tridimensional, e o próprio centro de onde saem estas direcções. Importa notar desde já as estreitas semelhanças desta representação com aquela de que temos vindo a falar e que diz respeito às cores: como estas, as seis direcções estão opostas duas a duas, seguindo três linhas rectas que, se estendendo de uma parte e de outra do centro, correspondem às três dimensões do espaço; e se quisermos dar-lhes uma representação plana, não podemos evidentemente senão representá-las por três diâmetros formando uma roda de seis raios (esquema geral do «crisma» e de diversos outros símbolos equivalentes); ora estes diâmetros são os que unem os vértices opostos dos dois triângulos do «selo de Salomão», de modo que as duas representações não são senão uma na realidade. Disto resulta que o sétimo termo deverá, em relação às seis cores, desempenhar o mesmo papel que o centro em relação às seis direcções; e, de facto, ele seria colocado no centro do esquema, ou seja, no ponto onde todas as oposições aparentes se resolvem na unidade.»

Vemos assim que as seis cores são análogas às seis direcções do espaço. O "sétimo raio" torna-se no raio principal. É deste "raio" que se decompõem todos os outros seis. Vemos então que ele não pode senão ser a cor branca, ou seja, a soma de todas as cores. É na unidade do branco que se encontram virtualmente todas as cores. Vemos assim, como diz Guénon, que a "cor" branca é tão incolor como o centro geométrico das direcções do espaço é "adimensional".

Sobre o "branco", diz Guénon que:
"ele não aparece no arco-íris, tanto quanto o «sétimo raio» não aparece numa representação geométrica; mas todas as cores não são senão o produto de uma diferenciação da luz branca, do mesmo modo que as direcções do espaço não são senão o desenvolvimento das possibilidades contidas no ponto primordial."

Estas constatações dão à luz visível um significado profundamente ligado à essência do mundo manifestado. Dão também, ao Homem, um lugar único no cenário da Criação. Não somos apenas um animal cujos órgãos vêem uma determinada faixa da radiação electromagnética, cujo início e fim foram fixados arbitrariamente ou por qualquer pretensa "lei evolutiva". O facto da luz visível ocupar um lugar único no mundo manifestado, e do Homem ser a criatura melhor adaptada a ela, faz de nós personagens-chave na economia Divina. Somos, de facto, feitos à imagem e semelhança de algo que nos transcende largamente.

Terminemos com as conclusões de Guénon:
"Poderíamos dizer que, num septenário assim constituído, um está no centro e seis na circunferência; noutros termos, um tal septenário é formado da unidade e do senário, a unidade correspondendo ao princípio não manifestado e o senário ao conjunto da manifestação. Poderíamos fazer uma aproximação entre este e o simbolismo da «semana» no Génesis hebraico, porque, também neste, o sétimo termo é essencialmente diferente dos outros seis: a criação, com efeito, é a «obra dos seis dias» e não dos sete; e o sétimo dia é o do «repouso». Este sétimo termo, que poderíamos designar como o termo «sabático», é também verdadeiramente o primeiro, porque este «repouso» não é outra coisa senão a reentrada do Princípio criador no estado inicial de não manifestação (...)."

Bernardo

domingo, 23 de maio de 2004

Roberto Calvi

São negros os contornos do assassinato de Roberto Calvi, mas bem ao estilo da Máfia. Em Junho de 1982, Roberto Calvi, administrador do Banco Ambrosiano, viajava para Londres após o colapso da instituição bancária à qual predisia.

Foi encontrado morto, a 18 de Junho de 1982, sob a Blackfriars Bridge, com tijolos nos bolsos e 15 mil libras em dinheiro. Provas de peritagem forense concluiram que o banqueiro nunca tocou nos tijolos que tinha nos bolsos.

O site "Misteri d'Italia" está carregado de informação sobre este e outros casos correlacionados.

A família, a viúva Calvi e o filho Roberto, sempre defenderam a tese do homicídio. Esperam há 22 anos que se encontrem e julguem, não só os perpetradores materiais do crime, mas também o seus instigadores, os autores morais.

A BBC News mencionou esta semana que quatro pessoas irão ser julgadas numa primeira fase pelo assassinato do banqueiro do Ambrosiano.

Algumas já são caras conhecidas: o mafioso Pippo Calo (que será julgado por videoconferência, uma vez que está a cumprir duas penas de prisão perpétua), e Flavio Carboni. Faz-se referência a uma mulher austríaca, capturada em Dezembro de 2003. As autoridades da Cidade de Londres estão a trabalhar activamente com a justiça italiana, e na sequência desta detenção no ano passado, o processo foi reaberto.

Roberto Calvi pertencia à loja maçónica Propaganda Due (P2), de Licio Gelli.
As suas ligações perigosas à Máfia são também sobejamente conhecidas. Contudo, a Máfia não mata sem uma razão forte. A Máfia também mata por encomenda.

O banco privado católico Ambrosiano, liderado por Roberto Calvi, teve um historial de contactos financeiros muito próximos com o IOR (Istituto Opere di Religione), o Banco do Vaticano.

Não quero com este artigo criticar, como é tradicional de certos movimentos anti-católicos, se o Vaticano deve ou não ter um Banco. É evidente que deve. Gostava, isso sim, de manifestar a minha vontade de ver este processo ir até ao fim, com a condenação dos autores materiais, mas também dos autores morais, que poderão ocupar importantes lugares em instituições supostas acima de suspeitas. Que se vá até ao fim! A dignidade e respeitabilidade da Igreja Católica, que está infelizmente muito próxima deste fumoso episódio Calvi, merecem que se descubram os culpados, que se aplique a Justiça, e que se evitem semelhantes situações no futuro.

Um certo pragmatismo de algumas elites liderantes, que crêem que os fins justificam os meios, mancham por vezes a folha de cadastro das instituições que lideram. Que caia por terra todo o tipo de pragmatismo! Os fins não justificam os meios. Que se reconheçam as faltas, e que se peça humildemente perdão aos Homens e a Deus...

Bernardo

quarta-feira, 19 de maio de 2004

O caos social e a questão da competência

Retirado do La Crise du Monde Moderne, de René Guénon:

«(...) regressemos às consequências que acarreta a negação de toda a verdadeira hierarquia, e notemos que, no presente estado das coisas, não somente um homem apenas cumpre a sua função própria excepcionalmente e por acidente, enquanto que deveria suceder precisamente o contrário, como chega a acontecer que o mesmo homem seja chamado a exercer sucessivamente funções totalmente diferentes, como se ele pudesse mudar de aptidões à vontade. Isto pode parecer paradoxal numa época de "especialização" extrema, e contudo é o que sucede, sobretudo na ordem política; se a competência dos "especialistas" é frequentemente bastante ilusória, e em todo o caso limitada a um domínio muito estreito, a crença nesta competência é não obstante um facto, e podemos perguntar-nos como é possível que esta crença não desempenhe algum papel quando se trata da carreira dos homens políticos, onde a incompetência mais completa é raramente um obstáculo. Contudo, se reflectirmos, apercebemo-nos facilmente que não há que ficar espantado, e que se trata em soma de um resultado muito natural da concepção "democrática", em virtude da qual o poder vem de baixo e apoia-se essencialmente na maioria, o que tem necessariamente por corolário a exclusão de toda a verdadeira competência, porque a competência é sempre uma superioridade pelo menos relativa e não pode ser senão o apanágio de uma minoria» - René Guénon, La Crise du Monde Moderne, capítulo VI (Le Chaos Social), pág. 86-87.

Bernardo