segunda-feira, 6 de setembro de 2004

É com um artigo verdadeiro que...

... se inicia mais uma brilhante temporada no Guia dos Perplexos.

O nosso amigo José traz-nos um texto tão lúcido e pertinente, que tem que incomodar muita gente. Hoje em dia, infelizmente, a verdade incomoda sempre.

O José trouxe-nos a descrição de um debate televisivo interessante (o que por si só seria uma esplêndida e fresca novidade), na RTP, no qual participaram várias pessoas, mas das quais o José quis, e bem, realçar o Dr. Carlos Santos Gomes, pela sua participação modesta mas decisiva (pelo que diz o José, não o deixavam falar, o que faz todo o sentido, porque ele pareceu ser o mais competente e o que tinha, de facto, alguma coisa para dizer).

O escândalo máximo do debate terá ocorrido, segundo o José, quando o dito médico estimou que, neste momento, morressem em Portugal devido ao aborto clandestino, entre uma e duas mulheres por ano!

Escândalo nas hostes abortadeiras!

Por favor, leiam o artigo do José. A lucidez, na blogosfera, é um bem escasso. Saibamos aproveitá-la...

Termino com as "20 boas e verdadeiras razões para se votar sim no referendo do aborto", conforme apresentadas pelo José:

"Porque é de esquerda
Porque é um direito a mais que conquistamos
Porque é um dever a menos que suportamos
Porque os países civilizados tem
Porque é sinal de modernidade
Porque a Igreja é contra
Porque é mais uma causa
Porque é o principal problema deste país
Porque assim está-se mais à vontade
Porque assim controlo melhor o meu destino
Porque a barriga é minha e só lá está quem eu deixo
Porque já andamos nisto há uma data de tempo
Porque eu choro e os fetos não choram
Porque até fica bem no currículo
Porque me convém
Porque é mainstream
Porque é mais um passo
Porque eu quero
Porque eles não querem
Porque sim"


Bernardo

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

O suposto "papa de Hitler"

(publicado em simultâneo no Afixe)



Pio XII - Eugenio Pacelli - 1876-1958

Já lá vão dois anos que li o "Hitler's Pope", de John Cornwell. Foi um livro que vendeu bem, e teve até honras de tradução portuguesa - "O Papa de Hitler" (precisamente porque venderia bem, traduziu-se). Por cá, sei que muitas pessoas o leram, e quem o leu entenderá o que eu vou dizer de seguida.

Lido a uma velocidade estonteante, o livro de John Cornwell foi escrito para não deixar margem para dúvidas ao novato. Eu era um novato. Ao final do livro não tinha dúvidas. Eu tinha-me transformado num anti-Pio XII. Mas um novato nunca dá por nada. Não sabe ler nas entrelinhas. Lê tudo. Papa tudo. E eu dizia a toda a gente que Pio XII era um dos piores papas do século XX, e toca a andar...

Naturalmente, e graças a Deus, as pessoas amadurecem e eu não fui excepção. Navegando na Internet, já se tornava cada vez mais frequente encontrar páginas refutatórias destes ataques a Pio XII, pelo que, a pouco e pouco, comecei a suspeitar de que o nosso amigo John Cornwell tinha deturpado um bocadito as coisas.

Pode-se datar o início da campanha anti-Pacelli à peça de teatro "O Vigário" do escritor alemão Rolf Hochhuth (1963). Sim, porque fique-se a saber que, desde o final da guerra em 1945 até 1963, os ataques a Pacelli eram praticamente inexistentes. Antes pelo contrário, os louvores sucederam-se a uma velocidade estonteante, e começaram mesmo a meio da Guerra, como se poderá ver mais abaixo.

De 1963 até aos dias de hoje, a avalanche anti-Pio XII tem crescido. Os media, como sempre, gostam de dar uns retoques surrealistas para apimentar a discussão. O filme "Amen" de Constantin Costa-Gravas, é um belo exemplo desses processos mediáticos de profunda deturpação histórica, quando o que conta é o que vende, e o que vende é o "papa de Hitler".

Da esplêndida obra de Matteo L. Napolitano e Andrea Tornielli, "Il Papa che salvò gli ebrei" (2004), podem-se agora tirar ilacções totalmente diferentes daquelas que os media têm tentado impor à mente do "consumidor". Estes dois autores, aproveitando-se da abertura recente do Arquivo Secreto do Vaticano relativo aos anos "quentes" do pré e do pós Segunda Guerra Mundial, por autorização e ordem expressa do Papa João Paulo II, puderam elaborar várias obras em torno do tema, das quais destaco aquela atrás citada.

Assim, o livro que cito, bem mais pequeno que o de Cornwell, está, contudo, repleto de excertos fulcrais de cartas e documentos originais do Vaticano. Está repleto de trechos vitais de correspondência entre embaixadores, núncios apostólicos, papas (o período abrange os papados de Pio XI - Achille Ratti - e Pio XII - Eugenio Pacelli), dirigentes políticos, representantes de associações judaicas, entre outros.

Napolitano e Tornielli não se perdem em grandes especulações. Limitam-se a intercalar uma citação de um documento com um ou outro comentário. O que interessou, para eles, foi colocar num volume de fácil leitura, o máximo possível de factos concretos provenientes da documentação oficial, agora que ela foi tornada pública.

Que podemos ler nesses documentos?
O filonazista Pacelli?
O germanófilo Pacelli?
O antisemita Pacelli?

Não me parece...

Ao folhear as páginas deste livro, que estão tão repletas de refutações às teses do "papa de Hitler" que dá vontade de bater nos difamadores, dei-me conta de uma curiosidade: na sua obra supracitada também John Cornwell tinha cedido à tentação de dizer algo como: "no início eu queria verificar que a tese do papa de Hitler estava errada, mas no desenrolar da minha investigação, eu tive que mudar de opinião", etc, etc... (não foram estas as palavras, não tenho o livro agora aqui à mão, mas foi algo de parecido o que ele disse). Onde é que eu já tinha visto isto? Esta conversa fiada?

Aqueles que leram o livro do trio britânico Henry Lincoln, Michael Baigent, e Richard Leigh, sobre o mistério de Rennes e o Priorado de Sião, sabem a que conversa fiada me refiro: também este maravilhoso trio de investigadores tinha decidido "partir à procura da refutação", mas inevitavelmente teriam sempre que concluir que, afinal, "era tudo verdade".

Ou seja, uma táctica bem conhecida de bluff intelectual. Mas que funciona. É eficaz.

Isto já vai longo. Queria deixar-vos com algumas citações deste livro. Em primeiro lugar, esta, do prefácio de Sérgio Romano:

"Ma in bocca a certi studiosi come quelli citati da Napolitano e Tornielli nel loro libro, certi giudizi su Pacelli mi sembrano configurare il più grave dei peccati che gli storici commettono talvolta nel loro lavoro. Si chiama anacronismo."

Algumas citações de posições a favor de Pio XII e da Igreja Católica durante este periodo conturbado (tentei traduzi-las a olho, quem não gostar da tradução pode pedir-me os excertos originais em italiano):

"Tenho na minha mesa [de trabalho], em Israel, uma pasta intitulada «Calúnias contra Pio XII». Sem ele, muitos dos nossos não estariam vivos" - Rabi-chefe de Roma, Israel Zolli.

"Se o papa tivesse falado [abertamente contra o regime de Hitler], Hitler teria provavelmente massacrado mais de seis milhões de hebreus e talvez dez vezes dez milhões de Católicos, se tivesse tido o poder para o fazer" - Rabi-chefe da Dinamarca, Marcus Melchior.

"Qualquer ofensa propagandística da Igreja Católica contra o Reich hitleriano teria sido não só um provocatório suicídio, mas também teria acelerado a execução de muitos outros hebreus e padres" - Robert M. W. Kempner, juíz de instrução do processo de Nuremberga.

"Só a Igreja contrariou de forma decisiva a campanha de Hitler para suprimir a verdade. Eu nunca nutri interesse especial de qualquer tipo em relação à Igreja anteriormente, mas agora tenho um afecto e uma admiração profunda porque só a Igreja teve a coragem e a persistência de se erguer em favor da verdade intelectual e da liberdade moral. Sou levado a confessar que aquilo que eu via há já tempo com desprezo, agora louvo-o sem reservas." - Albert Einstein, em entrevista à Time (1940).

"A Santa Sé está a prestar a sua potente ajuda onde pode para mitigar o facto dos meus correlegionários perseguidos" - Chaim Weizmann, durante a Guerra, antes de se vir a tornar no futuro primeiro presidente do Estado de Israel.

"Disse-lhe que o meu primeiro dever era agradecer-lhe, e através dele agradecer da parte do povo hebreu à Igreja Católica, por tudo o que tinha feito nos vários países para salvar os hebreus" - Moshe Sharrett, o segundo presidente do Conselho israelita, em visita a Pio XII, em Abril de 1945.

"O povo de Israel nunca mais esquecerá o quanto Sua Santidade e os seus ilustres delegados, inspirados no eterno princípio da religião, que forma o verdadeiro fundamento da verdadeira civilização, estão a fazer pelos nossos desafortunados irmãos e irmãs na hora mais trágica da nossa história, e que é a prova viva da Divina Providência neste mundo" - Isaak Herzog, Rabi-chefe da Terra Santa, em carta dirigida ao Delegado apostólico de Istambul, Angelo Roncalli, em Fevereiro de 1944.

Mas Napolitano e Tornielli não se ficam por aqui. Por simples citações. Numa análise surpreendentemente tão lúcida quanto sucinta, eles passam revista a todas as teses anti-Pacelli, apoiando-se em argumentos e documentos refutatórios credíveis e verificáveis, porque, ao contrário do livro de Cornwell escrito numa altura em que a verificação no Arquivo Secreto era ainda privilégio de poucos, agora os arquivos estão abertos. Sobretudo o dossier "Germania", que contém um acervo impressionante de correspondência fulcral.

Espero regressar a este tema polémico em breve. A minha intenção foi apenas a de partilhar convosco alguns fortes pontos de vista de quem contesta em voz alta e com indignação esta onda infame do "papa de Hitler".

Na minha opinião estritamente pessoal, não consigo isolar esta onda anti-Pacelli da onda das pseudo-teses de Dan Brown. Para mim, fazem parte de uma longa e profunda ofensiva anti-católica, que está activa há muitos anos, e a crescer em força e em alcance mediático.

Bernardo

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Cá vem a tradução...

... do excerto de Jean Borella que apresentei no último artigo.

Caro Francisco, sempre às ordens! Desculpa só a fraca qualidade da tradução, mas não tenho um dicionário à mão e isto vai ser feito a olho!

"Não há, então, inconveniência radical entre a essência feminina e o sacerdócio. Não podem senão existir inconveniências relativas à natureza particular, e mesmo única, do sacerdócio cristão. E, antes de mais, dever-se-ia afirmar que estas inconveniências relativas não são senão a contrapartida de uma conveniência maior para uma outra função [da mulher] na economia geral do cristianismo. É então a natureza do sacerdócio cristão, desejada por Cristo, que determina conveniência e inconveniência, sendo entendido, mais uma vez, que estas nada têm de arbitrário, e contribuem pelo contrário a fazer do homem e da mulher o que eles devem ser para Deus. Assim, a abolição desta distinção quanto à aptidão dos dois sexos ao sacerdócio teria por efeito, não somente alterar (ou mesmo enfraquecer) a essência verdadeira do sacerdócio cristão, mas ainda perverter a relação que a mulher cirstã possui com a economia da salvação, e por via das consequências, arruinar definitivamente a ordem da sociedade cristã. Porque não é indiferente, para esta sociedade, que a distinção dos sexos, que está na base de toda a organização social, esteja sancionada e conservada por uma instituição divina, que, sózinha, lhe dá o seu sentido verdadeiro. Repousando apenas em critérios biológicos, ou seja, em última análise, animais, é toda a organização social que passa a estar "animalizada". E cada qual sabe que um homem reduzido à sua animalidade não é mais que uma besta. Querendo apagar todos os sinais distintivos dos dois sexos, os feministas não se dão conta que se condenam necessariamente a sofrer a ditadura da inapagável distinção psicológica, a qual, reinando, não conhece outros limites que os da sua própria satisfação e não pode senão ir ao ponto de transformar as mulheres em puras fêmeas para machos reduzidos à função genesíaca. Esta é a verdade rigorosamente inscrita na revolução do «segundo sexo»." - Jean Borella, "De la Femme et du Sacerdoce".

A tradução é má, mas que fique bem claro que Jean Borella repudia a expressão "segundo sexo"! Para ele, e eu partilho desta opinião, o feminismo é um dos maiores atentados à verdadeira essência da mulher que a História humana alguma vez assistiu. Obviamente que o machismo, nem é preciso dizer, é uma postura de, e para, imbecis. A "luta dos sexos" só tem lugar no mundo complexo, variável e inconstante da psique e da emotividade humanas. No plano de Deus, apesar de terem "papéis" diferentes, homem e mulher são seres em "igualdade hierárquica".

Se algo ficou pouco claro deste pequeno excerto, porque eu tive que escolher uma parte pequena (o resto pode ser lido no site que indiquei), foi como expõe Jean Borella o papel da mulher no plano salvífico de Deus, de acordo com a doutrina católica. Remeto os leitores para o artigo de Jean Borella, porque isso exigiria um artigo grande só por si. Se eu puder, regressarei a este tema, traduzindo mais alguns excertos do referido artigo, sobretudo nesta última parte do papel da mulher, que é deveras interessante.

Um abraço,

Bernardo

ADENDA: Quando usei a palavra "feminismo", fi-lo, aliás como Jean Borella, no sentido de "extremismo feminista". Evidentemente que não podemos estar contra a protecção da mulher e dos seus genuínos direitos, bem como a protecção dos genuínos direitos de quem quer que seja. Contudo, e fica bem claro pela posição aqui apresentada, não considero o sacerdócio na sua forma especificamente cristã um direito genuíno da mulher.

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

Acerca da aptidão da mulher para o sacerdócio cristão

Este tema polémico faz sempre estalar muito verniz. Para responder a algumas contestações que me dirigiram, relativas a existir um suposto "machismo" na minha discordância com o sacerdócio feminino na sua forma cristã, queria deixar-vos com as palavras lúcidas do comentador católico Jean Borella (uma série de artigos dele pode ser encontrada em http://membres.lycos.fr/borellajean/):

"Il n’y a donc pas de disconvenance radicale entre l’essence féminine et le sacerdoce. Il ne peut y a avoir que des disconvenances relatives à la nature particulière, et même unique, du sacerdoce chrétien. Et, bientôt plutôt, faudrait-il affirmer que ces disconvenances relatives ne sont que la contre-partie d’une convenance majeure pour une autre fonction dans l’économie générale du christianisme. C’est donc la nature du sacerdoce chrétien, voulue par le Christ, qui détermine convenance et disconvenance, étant entendu, encore une fois, qu’elles n’ont rien d’arbitraire, et contribuent au contraire à faire de l’homme et de la femme ce qu’ils doivent être pour Dieu. Ainsi, l’abolition de cette distinction quant à l’aptitude des deux sexes au sacerdoce aurait pour effet, non seulement d’altérer (et peut-être même d’anéantir) l’essence véritable du sacerdoce chrétien, mais encore de bouleverser la relation que la femme chrétienne entretient avec l’économie du salut, et par voie de conséquences, à ruiner définitivement l’ordre de la société chrétienne. Car il n’est pas indifférent, pour cette société même, que la distinction des sexes, qui est à la base de toute organisation sociale, se trouve sanctionnée et consacrée par une institution divine, qui, seule, lui donne son véritable sens. A ne reposer que sur des critères biologiques, c’est-à-dire, en dernière analyse, animaux, c’est l’organisation sociale tout entière qui s’en trouve animalisée. Et chacun sait qu’un homme réduit à son animalité est moins qu’une bête. En voulant effacer tous les signes distinctifs entre les deux sexes, les féministes ne se rendent pas compte qu’ils se condamnent nécessairement à subir la dictature de l’ineffaçable distinction physiologique, laquelle, régnant, ne connaît d’autres limites que celles de sa propre satisfaction et ne peut aller qu’à transformer les femmes en pures femelles pour des mâles réduits à la fonction génésique. Telle est la vérité rigoureusement inscrite dans la révolution du « deuxième sexe »." - Jean Borella, "De la Femme et du Sacerdoce".

Ressalvo um pormenor da extrema importância: a minha discordância face ao sacerdócio feminino aplica-se especificamente à sua forma cristã. A leitura cuidada do artigo de Jean Borella permitirá uma compreensão mais profunda deste ponto de vista, que partilho na íntegra com o autor citado (o que não implica, obviamente, a minha concordância com outras suas posições).

Bernardo

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

O Evangelho de Tomé e o "sagrado feminino"

Todos temos tido contacto recente com leitores do best-seller "O Código Da Vinci", de Dan Brown. Uma das "teorias" avançadas neste romance pouco inocente é o de que os evangelhos apócrifos são mais genuínos que os evangelhos canónicos de Mateus, Marcos, Lucas e João que foram incorporados no cânone do Novo Testamento. Além disto, os adeptos destas "teorias" (que frequentemente não as vêem como "teorias" mas sim como factos) costumam dizer que um importante conjunto destes evangelhos apócrifos, conhecido como "textos de Nag Hammadi" (local no Egipto onde foram descobertos em 1945), ou "evangelhos gnósticos", traz importante informação em relação ao que eles chamam de "sagrado feminino", ou "culto da Deusa", ou seja, que Jesus teria casado com Maria Madalena, e que esta teria sido escolhida para liderar a Igreja após a morte de Jesus. No seguimento desta "teoria", a Igreja Católica (evidentemente "malévola" ao ponto de querer "esconder a verdade") teria feito tudo para a substituir por Pedro, que se asseguraria de que o "culto da Deusa" ficaria sepultado para a posterioridade.

Mas um dos trechos dos evangelhos gnósticos que é menos citado pelos nossos entusiastas do "sagrado feminino" é este trecho do Evangelho de Tomé, que contradiz imediatamente a "teoria" de que o "culto da Deusa" está presente nestes evangelhos:

"Disse-lhes Simão Pedro: que Maria se aparte de nós porque as mulheres não são dignas da Vida. Disse-lhes Jesus: Vede, eu mesmo a guiarei, para fazer dela macho, para que também ela seja um espírito vivo, semelhante a vós machos, pois cada mulher que se tornar macho irá para o reino dos céus." - Evangelho de Tomé, 51:18 (660) a 51:26 (668).

Fonte:
http://www.geocities.com/Athens/9068/log114.htm

(obter primeiro o ficheiro de fonte copta "coptic2.ttf", e colocar este ficheiro em c:\windows\fonts)

Antes de se pronunciarem sobre os evangelhos apócrifos em geral, e sobre os evangelhos gnósticos em particular, e antes de começarem a disparatar sobre os "segredos que a Igreja escondeu", algumas pessoas deveriam começar por se interrogar porque é que a Igreja recusou considerar estes textos como parte integrante do cânone bíblico.

As razões para esta recusa são:

a) razões teológicas, e
b) razões históricas.

Por um lado, o lado teológico, estes textos estão prenhes de heresia gnóstica (não me é possível desenvolver aqui e agora o que é esta heresia e porque é que é uma heresia), por outro lado, pelo lado histórico, estes textos estão temporalmente distantes da vida de Jesus (foram todos compostos a partir do século II d.C, ao contrário dos evangelhos canónicos que pertencem ao século I d.C., sendo S. João o mais tardio e que por vezes é datado até no máximo aos primeiros anos do século II d.C.), e por isso, os factos da vida de Jesus que lá vêm relatados são duvidosos e menos credíveis que os que foram (por essa razão e por outras) incluídos no cânone do Novo Testamento.

O Evangelho de Tomé pertence ao grupo de textos achados no Egipto, em Nag Hammadi, em 1945. Apesar de escritos em cóptico, não se faça confusão! Estes textos não pertencem à Igreja Copta, uma Igreja desde há séculos em cisma com a Igreja Católica, mas que nada tem a ver com a heresia do gnosticismo. Mais ainda, importantes membros e dirigentes da Igreja Copta tiveram um papel fundamental na luta contra as heresias gnósticas. Os evangelhos gnósticos foram muito provavelmente elaborados por seguidores de líderes gnósticos como Valentiniano, nascido em Alexandria por volta do ano 100 d.C. Deverão ter sido escritos em Alexandria ou em comunidades vizinhas. Alexandria foi um importante centro na difusão do gnosticismo.

A minha sugestão para todos os interessados seria:

1. Tentar aceder às fontes directas dos evangelhos apócrifos: há imensos sites na internet com o texto original em cóptico (caso dos textos de Nag Hammadi) e aramaico (caso dos textos de Qumran), e com as devidas transliterações e traduções para inglês;

2. Tentar aceder à documentação da Igreja Católica (textos conciliares, obras patrísticas, compêndios anti-heresia, etc.) para compreender quais foram as razões desta condenação da Igreja aos textos gnósticos, e a homens como Valentiniano.

Bernardo

sexta-feira, 23 de julho de 2004

In memoriam



Inesquecível. Enquanto Portugal existir, que nunca nenhum português se esqueça da enorme dívida de gratidão para com este grande homem.

Bernardo

terça-feira, 20 de julho de 2004

Foi por culpa do Timóteo Shel que eu...

... cedi à nostalgia (ver "Us and Them" em http://timoteoshel.blogspot.com/).
 
"The sweet smell of a great sorrow lies over the land
Plumes of smoke rise and merge into the leaden sky:
A man lies and dreams of green fields and rivers,
But awakes to a morning with no reason for waking
He's haunted by the memory of a lost paradise
In his youth or a dream, he can't be precise
He's chained forever to a world that's departed
It's not enough, it's not enough
His blood has frozen and curdled with fright
His knees have trembled and given way in the night
His hand has weakened at the moment of truth
His step has faltered
One world, one soul
Time pass, the river roll
And he talks to the river of lost love and dedication
And silent replies that swirl invitation
Flow dark and troubled to an oily sea
A grim intimation of what is to be
There's an unceasing wind that blows through this night
And there's dust in my eyes, that blinds my sight
And silence that speaks so much louder than words,
Of promises broken" - D. J. Gilmour (Pink Floyd) - A Momentary Lapse of Reason (1987)
 
Bernardo

P.S. Sempre que ouço esta música, faz-me lembrar o Kali Yuga em que se encontra o mundo em que vivemos...

segunda-feira, 19 de julho de 2004

"A Língua dos Pássaros", na Terra da Alegria

Hoje é dia de Terra da Alegria, e no número de hoje abundam bons textos, sendo que a temática dos artigos incide sobretudo no diálogo inter-religioso.
 
O meu artigo fala sobre a "Língua dos Pássaros", ou como também é por vezes referida, a "Língua dos Anjos". Este artigo faz parte de uma intenção minha de escrever sobre a temática da angeologia, que é um tema fortemente incompreendido, mesmo pelos crentes.
 
Há muito boa gente, crente, que se envergonharia se tivesse que admitir publicamente que acredita em anjos ou em demónios. Dessa postura tão frequente quanto inaceitável, que só pode derivar de uma crença pouco informada ou insegura, é fácil cair-se na tentação de ver os textos sagrados das diversas tradições espirituais como simples "textos poéticos". A "metamorfose" da exegese do texto revelado numa profana "análise poética" é algo de profundamente deplorável. Aqueles que vêem os textos sagrados como simples "poemas" estão gravemente equivocados, e estão mais influenciados pela atitude materialista moderna do que supõem.
 
O texto de Guénon que traduzi para o artigo de hoje na Terra da Alegria é um texto muito útil, porque demonstra de forma clara e abrangente que as tradições espirituais verdadeiras só podem concordar entre si, e que sob as aparentes diferenças de forma, encontra-se uma unidade doutrinal que inviabiliza a tese da sua origem ser puramente humana.
 
O texto serve também de lição para alguns ateus que vêem o fenómeno da espiritualidade e da crença como um amontoado de superstições tolas e vazias de realidade. Que este texto sirva para dar força aos crentes que vacilem perante alguns aspectos da sua fé, para que estes não duvidem da necessidade da intelectualidade na atitude do crente, e para que estes não se deixem intimidar por certos discursos anti-religiosos ofensivos, que para a pessoa informada não passam de patéticas demonstrações de ignorância.
 
O diálogo inter-religioso só pode ser favorecido pelo conhecimento do trabalho de intérpretes competentes como Guénon, que conhecendo a fundo as várias doutrinas ao serviço do Homem, souberam lançar luz e mostrar paralelos onde por vezes eles pareciam não existir. "Entente et non fusion", dizia Guénon. O verdadeiro Ecumenismo deverá ser um entendimento ao nível dos princípios metafísicos, e nunca a fusão das várias formas tradicionais numa suspeita "nova religião".
 
Os perigosos discursos "neo-religiosos", que falam de uma nova forma de encarar a espiritualidade, que advogam o laxismo doutrinal para permitir uma melhor "fusão" das diversas tradições, são discursos fortemente anti-tradicionais. De forma insuspeita, romances como o "Código Da Vinci" de Dan Brown vão permitindo preparar a massa ingénua da opinião pública no sentido desta aceitar mais facilmente este tipo de ideias "neo-religiosas". Estas ideias são traições às diversas formas da Verdade revelada. A diversidade das formas do revelatum é consequência da diversidade das culturas humanas por esse Mundo fora. Pessoas diferentes necessitam de mensagens com forma diferente, que melhor se adapte à sua maneira de ser.
 
Por isso, apelo aos católicos para que, ajudados por uma profunda compreensão da doutrina católica, saibam também estudar, compreender e aceitar a profundidade das restantes doutrinas válidas, que servem o útil propósito de lançar, por vezes, nova luz sobre aspectos mais obscuros da nossa própria doutrina.
 
Evitemos, sobretudo, estes dois grandes perigos:
 
1. A tentação de nos mudarmos para outra tradição na expectativa de encontrar aquilo que julgamos faltar à nossa tradição;
 
2. A tentação de aceitar como algo de bom e desejável a instituição de uma nova religião, feita da fusão das religiões ainda existentes: esta fusão seria o golpe final na verdadeira espiritualidade, seria uma dissolução da verdadeira espiritualidade numa mescla caótica, indistinta e sincrética.
 
Bernardo

quarta-feira, 14 de julho de 2004

Sobre o politeísmo...

Tenho-me confrontado com alguns ateus que, na sua "imparcialidade" anti-religiosa, não compreendem porque é que Deus havia de ser Uno. Eles recusam Deus liminarmente, sem apelo nem agravo. E como não aceitam qualquer tipo de argumento abonatório da existência de Deus, optam por negar em pé de igualdade tanto o monoteísmo como o politeísmo.

Há dias, tentei explicar a um deles que o politeísmo era um erro. Ao que o dito ateu me retorquiu que, na impossibilidade de provar que Deus existia, era impossível saber se existia apenas um Deus, ou vários deuses!
É surpreendente! Não é possível ser-se mais "imparcial" na recusa de Deus!

Assim, nada como deixar aqui estas palavras de René Guénon, retiradas de um texto sobre o Demiurgo, que foram escritas em 1909, quando Guénon tinha apenas 22 anos:

"Alguns julgaram que deveriam admitir dois princípios distintos, opostos um ao outro, mas esta hipótese está descartada pelo que referi anteriormente. Com efeito, estes dois princípios não podem ser ambos infinitos, porque então se excluiriam ou se confundiriam; se só um fosse infinito, este seria o princípio do outro; e, se ambos fossem finitos, não seriam verdadeiros princípios, já que dizer que aquilo que é finito pode existir por si mesmo, é admitir que algo pode sair do nada, posto que todo o finito tem um princípio lógico senão cronológico. Neste último caso, em consequência, um e outro, sendo finitos, devem proceder de um princípio comum, que é infinito, o que nos leva à consideração de um Princípio único. Adicionalmente, muitas doctrinas que observamos como dualistas, não o são senão em aparência; no Maniqueísmo, como na religião de Zoroastro, o dualismo não é mais do que uma doutrina puramente exotérica, encobrindo uma verdadeira doutrina esotérica da Unidade: Ormuz e Ahrimán são os dois engendrados por Zervané-Akérêné, e devem fundir-se com ele no final dos tempos. A Dualidade é então necessariamente produzida pela Unidade, pois não pode existir por si mesma" - René Guénon, "O Demiurgo", publicado na resenha póstuma "Mélanges", Capítulo I, Parte I - Edições Gallimard, Paris, 1976.

Bernardo