quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Crítica ao Diário Ateísta

(publicado em simultâneo no Afixe)

Criticarei, de novo, um artigo do Diário Ateísta.
Poderão alguns questionar-se acerca do porquê deste meu interesse pelo Diário Ateísta.
O interesse é já antigo. Pessoalmente, atraem-me as questões sociológicas que a leitura deste site suscita.
Deixei de intervir há largos meses com comentários no Diário Ateísta porque o diálogo se tornou, infelizmente, numa conversa de surdos.
Mas continua a parecer-me útil criticar alguns dos textos que surgem neste site ateísta. Infelizmente, é pela mediocridade que me sinto obrigado a tecer críticas a este site ateísta. Por isso, longe de querer que as minhas críticas sejam críticas ao ateísmo, estas críticas são puramente culturais e históricas, e não incidem sobre qualquer questão pística.
Não há proselitismo católico nas minhas críticas.
Tenho apenas uma intenção didáctica. A intenção de dirigir um convite à reflexão, ao estudo, e a um aprofundamento de cultura histórica e religiosa aos membros do Diário Ateísta.
Creio que, para se combater eficazmente um adversário, é pertinente conhecê-lo bem.
Creio também que não é o que sucede com o Diário Ateísta, onde todos os dias vemos demonstrações de lacunas culturais, que a meu ver, dado o número elevado de visitas ao Diário Ateísta, prejudicam a imagem do próprio ateísmo na Internet, pelo menos aos olhos dos visitantes mais cultos.

Vamos ao teor da crítica de hoje.
André Esteves é o autor de um artigo intitulado "Doutorados e Ignorantes".

Segundo André Esteves,
"Nalgumas igrejas evangélicas e fundamentalistas americanas tornou-se um valor comum não tirar cursos universitários, ou ser-se «intelectual» porque são coisas seculares ou da carne."

O passado evangélico de André Esteves poderá, parece-me, explicar o seu interesse pelos movimentos evangélicos norte-americanos. Sou da opinião que muitos desses movimentos cristãos têm posturas fanáticas (prefiro este termo ao termo "fundamentalista", uma vez que me parece bom ter-se fundamentos). Nisto concordo com o André Esteves.
Contudo, parece-me inadequado usar estes casos de fanatismo evangélico norte-americano para extrapolar conclusões gerais relativamente ao universo dos crentes.

Assim, a frase que se segue, de André Esteves, é para mim uma generalização inaceitável:

"O medo de se tornar num «liberal» é palpável entre os jovens crentes das igrejas, para os quais uma universidade reputada ou o prosseguimento de estudos além da licenciatura, se tornaram sinónimos da perdição espiritual."

Antes de mais, faz-me especial confusão que se use o termo "liberal" para classificar a opção pela formação académica complementar à licenciatura. É um "liberal" aquele que prossegue os seus estudos após o grau de licenciatura?

Depois, a generalização. Partindo dos evangélicos norte-americanos, André Esteves partilha da opinião de que certas posturas fanáticas são para generalizar aos "jovens crentes das igrejas".

Por fim, chegamos ao ponto onde me parece se revelar com mais nitidez a lacuna cultural que me fez escrever esta crítica:

"Por cá, Deus demonstra-se complicado: a Conferência Episcopal definiu que para se ser bispo em Portugal tem que se ser doutorado. Antigamente aos desígnios de Deus para serem compreendidos bastavam a tonsura e aljubeta. Agora o capelo também se torna necessário."



É curiosa esta afirmação, que revela que André Esteves desconhece a obra e vida dos doutores da Igreja, sobretudo a de S. Tomás de Aquino. O aquinate é uma figura incontornável no reavivar da vida universitária medieval. Usando como tema central da sua actividade intelectual a conciliação entre o saber clássico grego (nomeadamente, a obra de Aristóteles) e a revelação cristã, S. Tomás de Aquino revolucionou a vida académica, dando um significado rejuvenescido e profundo ao que é o trabalho "universitário".
As "quaestiones disputatae" de S. Tomás primam por um esforço de rigor dialético e argumentativo, no qual uma tese é colocada em análise, sendo fornecidos argumentos a favor, e argumentos em contrário.

Todo o processo de uma "quaestio" é conduzido de forma a fazer surgir a conclusão de modo natural e justo, considerando todos os dados relevantes no processo.
A universidade moderna não seria igual ao que é hoje sem S. Tomás de Aquino. Parece-me pertinente conhecer apenas as linhas gerais da vida e obra desta figura chave da intelectualidade europeia, para que se possam evitar considerações destas, que revelam da parte do senhor André Esteves uma postura proselitista duvidosa, que só pode funcionar com uma audiência desprovida das mais elementares referências culturais.
Para saber mais sobre S. Tomás, recomendo vivamente o texto introdutório do professor Luiz Jean Lauand.

Bernardo

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Déjà vu?

(publicado em simultâneo no Afixe)

De Philip Jenkins, o CESNUR publica um estudo interessantíssimo intitulado "Le Jésus des sectes - Comment le Christ ésotérique devint le Christ des universitaires". É extenso, mas muito esclarecedor!

"Il y a cent ans, pratiquement toutes les idées présentées aujourd’hui comme le dernier cri chez les universitaires travaillant sur le sujet de Jésus étaient déjà largement connues, bien qu’elles le fussent moins des chercheurs en matière biblique que des membres de nouvelles religions, écoles marginales occultes et ésotériques et des mouvements qui étaient déjà connus en tant que "sectes". Les excentricités sectaire des années 1900 sont devenues les références orthodoxes universitaires des années 2000."

A tese central: os delírios neo-gnósticos dos movimentos esotéricos nascentes no final do século XIX e início do século XX, foram-se transformando, a pouco e pouco, na "ortodoxia" universitária, conforme veiculada por entusiastas académicas do gnosticismo, como a autora Elaine Pagels.
É fascinante e revelador, através deste texto, ver como os ideais da Sociedade Teosófica, fundada por Helena P. Blavatsky no século XIX, foram, a pouco e pouco, passando do domínio da seita esotérica para o domínio académico do estudo das origens do cristianismo.

Bernardo

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

Arturo Reghini e o Progresso

(publicado em simultâneo no Afixe)

Este texto é endereçado aos nossos leitores que se interessam pela Maçonaria, e pelos temas iniciáticos.
Há uns tempos, tive a sorte de tropeçar num livro de Arturo Reghini, editado pela Hugin em 2002 (e que boa ideia), intitulado "Escritos sobre a Maçonaria".

Esta pequena obra reúne artigos que Reghini escreveu para várias revistas italianas da especialidade. A meu ver, Reghini foi uma daquelas raras mentes lúcidas a conseguir conjugar erudição maçónica com uma integridade e coerência de ideias.

O meu interesse por Reghini foi despertado pela leitura deste conjunto de cartas escritas por Guénon ao maçon italiano, que a Symbolos disponibilizou online aqui.

Gostaria de escrever sobre tantos e tantos aspectos interessantes levantados pela leitura da prosa de Reghini, mas tendo que escolher um, eu começaria por extrair, do capítulo III ("As bases espirituais da Maçonaria", pág. 48), o seguinte, a propósito da nefasta infiltração do conceito moderno de "progresso" nos ideais maçónicos:

"Notamos, «en passant», que esta crença no progresso, muito profana e não contemplada nas Constituições de Anderson nem nos antigos Landmarks, se radicou curiosamente em certas Maçonarias, acostumadas a pedir luz ao mundo profano, ao invés de à sabedoria iniciática. Já nas Constituições do Grande Oriente de França, de 1849, a Maçonaria é definida como uma instituição filantrópica, filosófica e progressista que tem como base a existência de Deus e a imortalidade da alma. Como é sabido, justamente pela fé no progresso e nas conquistas do livre pensamento e da ciência profana é que os Franco-Maçons franceses atiraram ao mar, com maioria de votos, o Grande Arquitecto do Universo e a imortalidade da alma, para ficarrem arreigados ao não louvado fetiche do progresso; e na conferência de Genebra de 1921, na qual participaram sete ou oito Potências simbólicas, entre as quais os dois Grandes Orientes irregulares de França e de Itália (Pallazzo Giustiniani), foi proclamada e subscrita uma declaração de princípios que define a Maçonaria como instituição filosófica, humanitária, progressista. A declaração depois especifica que se preocupa com o progresso social, porque a Maçonaria honra igualmente o trabalho intectual e o manual, etc., etc..
Estes Franco-Maçons, como autênticos Livres Pensadores, sentir-se-iam mal dos intestinos se tivessem de renunciar a esta crença no progresso. E a ideia que formaram consolida-se, granítica, imutável, estacionária, incapaz do mínimo... progresso!"

(publicado na revista Rassegna Massonica, em 1923)

Agora, alguns esclarecimentos...
A dureza da linguagem de Reghini não deve iludir o leitor sério, que encontrará nesta obra inúmeros e vitais ensinamentos sobre a Maçonaria genuína, essa espécie tão rara que quase se pode declarar em extinção. Reghini não era um mangiapreti, ou seja, um "papa-padres", como tantos outros maçons do seu tempo.

Claro está que, sendo católico, este meu texto pode parecer estranhíssimo e desadequado. Explico porque não é: gosto bastante das temáticas maçónicas, acho o simbolismo maçónico muito rico e profundo, e apesar de não ser maçon, nem pensar vir a ser (sendo católico, está-me vedado), detesto a ligeireza com que se ataca hoje em dia o conceito de Maçonaria, triste sinal de uma tremenda falta de conhecimento sobre o tema (que a obra de Reghini pode ajudar a corrigir, nas pessoas bem intencionadas e verdadeiramente interessadas) bem como detesto a corja de falsos maçons que enchem hoje em dia a esmagadora maioria das lojas, corja essa à qual Reghini (com a competência que eu não tenho) alude, com grande e justa precisão de vocabulário.

Para terminar, escolhi este excerto porque evidencia outro dos meios intelectuais que foram infestados por esta moderna crença no progresso: o meio iniciático da Maçonaria.

A crença no progresso entrou basicamente em todo o lado. Parece ser o resultado, no domínio sociológico, de um casamento estranho das teorias evolucionistas emanadas das ciências naturais com um milenarismo apocalíptico decadente e confuso (este "casamento" parece despropositado, mas o historiador Jean Delumeau fornece pistas mais que suficientes no seu livro "Mil Anos de Felicidade"). Esta crença no progresso é uma virose alojada, e que dificilmente sai, apesar de termos acesso todos os dias a sinais mais que evidentes de que tal progresso não existe. Só para dar um exemplo: no século que se seguiu à invenção das ideias progressistas, o mundo assistiu a duas grandes guerras mundiais...

Parece-me justo afirmar que a Maçonaria tem como fim, nas mentes dos seus membros mais sinceros e honestos, o aperfeiçoamento do maçon como ser humano. Do que li de Reghini não devo estar equivocado na definição, pelo menos na essência. Esse aperfeiçoamento individual (escrevi individual e não solitário, porque o maçon trabalha na Loja com os restantes irmãos), com o passar dos tempos e a infiltração de ideais jacobinos (e tantas vezes anti-católicos), passou a ser confundido com o professar de uma crença no progresso imparável da Humanidade! E Reghini encontra, tão cedo como em 1849, indícios desta infiltração!

Na História da Humanidade encontramos progressos e retrocessos, numas áreas e noutras. Haverá bases suficientes para se poder afirmar, em rigor, que a Humanidade progride sempre, sem parar?
Faz sentido, a crença moderna no progresso?
Não servirá esta ideia gratuita do progresso absoluto uma arma de arremesso do laicismo materialista (agora dominante) contra a intelectualidade do passado (considerada "caduca" ou "primitiva", ou ainda "antiquada")?

E não é curioso notar que os visados por esta infiltração de ideias (dir-se-ia eufemisticamente, por esta "mudança de paradigma") foram, não só as religiões organizadas como também organizações iniciáticas como a Maçonaria, onde podemos notar a presença infestante e destruidora destes ideais jacobinos?

Aqui fica a ideia para que se medite sobre ela...

Bernardo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Reflexão guénoniana


Não escondo a minha grande admiração pela obra de René Guénon (1886-1951). Obra essa que, como alguns saberão, é infelizmente usada de forma totalmente inadequada por alguns carequinhas germanófilos acéfalos das nossas (e de outras) bandas.

Precisamente porque se trata de uma obra incompreendida e muito mal empregue, convém desmistificá-la e trazê-la à luz. Na minha opinião, são poucos os autores ocidentais tão lúcidos quanto Guénon no século XX.

Irei começar, de tempos a tempos, a publicar pequenos excertos das suas obras. Trata-se de um autor pouco traduzido. Em português, dispomos apenas de três obras, hoje raras e difíceis de encontrar: "A Crise do Mundo Moderno", "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos", "O Rei do Mundo". Vou, por isso, retirar os trechos de uma série de traduções para espanhol, acessíveis em formato electrónico (não preciso de teclar!) no site "Textos Tradicionales".

A reflexão guénoniana de hoje é sobre a vulgarização:

"Nos es menester todavía insistir sobre un punto que no hemos abordado más que incidentalmente en lo que precede: es lo que podría llamarse la tendencia a la «vulgarización» (y esta palabra es también una de aquellas que son particularmente significativas para describir la mentalidad moderna), es decir, esa pretensión de ponerlo todo «al alcance de todo el mundo» que ya hemos señalado como una consecuencia de las concepciones «democráticas», y que equivale en suma a querer rebajar el conocimiento hasta el nivel de las inteligencias más inferiores. Sería muy fácil mostrar los inconvenientes múltiples que presenta, de una manera general, la difusión desconsiderada de una instrucción que se pretende distribuir igualmente a todos, bajo formas y por métodos idénticos, lo que, como ya lo hemos dicho, no puede desembocar más que en una suerte de nivelación por abajo: ahí, como por todas partes, la cualidad es sacrificada a la cantidad. Por lo demás, es verdad que la instrucción profana de que se trata no representa en suma ningún conocimiento en el verdadero sentido de esta palabra, y que no contiene absolutamente nada de un orden que sea un poco profundo; pero, aparte de su insignificancia y de su ineficacia, lo que la hace realmente nefasta, es sobre todo que se hace tomar por lo que no es, que tiende a negar todo lo que la rebasa, y que así asfixia todas las posibilidades que se refieren a un dominio más elevado; puede parecer incluso que esté hecha expresamente para eso, ya que la «uniformización» moderna implica necesariamente el odio de toda superioridad." - René Guénon, "El reino de la cantidad y los signos de los tiempos" (1945).

sábado, 20 de novembro de 2004

Os falsos mistérios da Última Ceia

Andava à procura de um site, há muito tempo, que explicasse mais alguma coisa sobre a questão dos detalhes da Última Ceia.

Encontrei um site interessante:
http://www.lamelagrana.net/%C2%A5_letture/letture05/A001/A00011.html



Neste site italiano, encontramos a explicação para a tal "mão cortada", que toda a gente agora diz que é de ninguém, e que supostamente "flutua no ar". O site italiano mostra claramente que existe um estudo preliminar de Leonardo, onde se vê bastante bem que a mão não é flutuante, e que pertence ao apóstolo S. Pedro.

A questão da faca é uma falsa questão:

a) ela tem dono (S. Pedro): o sketch de Leonardo prova-o;
b) ela tem uma razão de ser simples: S. Pedro estava a comer, e a faca dá jeito para comer;
c) ela tem uma razão mais complexa: a faca nas mãos de S. Pedro é uma prefiguração da espada que S. Pedro vai usar para cortar a orelha ao servo do Sumo Sacerdote, nos jardins de Getsemani, aquando da prisão de Jesus.

Q. E. D.
(será que é desta??)

P.S. (este PS é post scriptum, e não prioratus sionis!): Para os mais teimosos, dêem uma leitura rápida ao texto do arquitecto italiano Diego Cuoghi, disponível neste site:
http://www.renneslechateau.it/index.php?id=2&url=studi_cuoghi.php

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Andam a gozar connosco...

(publicado em simultâneo no Afixe)

Pois andam... E nós nem damos por isso.
Há dias, todos nos revoltámos por duas notícias que vieram a lume em vários órgãos de comunicação social, a saber:

1. O desacordo da Santa Sé pela recepção, no Santuário de Fátima, de representantes de outras religiões, de entre os quais o próprio Dalai Lama; as "fontes seguras" dos órgãos informativos garantiriam que o Vaticano estaria a tentar controlar o Santuário, e que desejaria ver remodeladas algumas figuras de proa da Direcção do mesmo;

2. A proibição da execução de concertos, e de música não liturgica, em Igrejas e outros edifícios religiosos.

Estas duas notícias tinham funções claras:

A) Provocar a revolta de todos os sectores da sociedade, dos crentes aos não crentes

B) Espalhar a ideia de que uma tendência conservadora dentro do Vaticano estaria a assumir contornos de fanatismo e de exagero autoritário

As funções foram alcançadas. Eu próprio acreditei nas notícias. Só que sucede que eram ambas falsas. É verdade.

Não vou, para já, divagar à procura de explicações para o surgimento simultâneo de uma mesma notícia falsa em vários órgãos informativos. De teorias da conspiração já andamos todos fartos. Isto é apenas uma chamada de atenção. Eu caí na esparrela. Não me enganam tão facilmente da próxima vez...

Aqui ficam algumas pistas:

Esclarecimento do Santuário de Fátima
D. José Policarpo desmente desentendimentos entre o Vaticano e a Conferência Episcopal por causa do Santuário de Fátima
Bispo de Leiria-Fátima quer acabar com mal-entendidos
Vaticano aprova iniciativas inter-religiosas em Fátima

Termino com um excerto das palavras lúcidas e sérias do Cardeal Patriarca, relativa à falsa questão da proibição dos concertos nas Igrejas:

O Cardeal considerou ainda descabida a informação vinda a público de que a CEP iria proibir os concertos nas Igrejas
“Não há nenhum novo regulamento em vista, essa é mais uma ‘falsa questão’ inventada não sei por quem”, atirou.
Para D. José Policarpo, “a linha que temos seguido é correcta, baseada nas normas feitas pela própria Santa Sé, e que procura conciliar desejos legítimos: o da Igreja de salvaguardar o carácter sagrado dos templos, não deixando deslizar a opinião pública para uma consideração apenas cultural do seu sentido e da sua utilização; mas também reconhecer o valor espiritual e pastoral da expressão artística, também ela linguagem do sagrado; o respeito pela comunidade que celebra a fé naquele templo”.

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

Voluntários para África e Timor

Do site do Fórum Desenvolvimento e Cooperação:



Os Leigos para o Desenvolvimento vão dar início a mais um ano de formação de voluntários que desejem partir em Missão para S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola e Timor-Leste.

Os interessados poderão obter mais informações nas sessões de apresentação que vão ter lugar nos seguintes dias e locais:

3 de Novembro, Porto, CREU-IL (R. Oliveira Monteiro, 562)
4 de Novembro, Braga, CAB (Praça da Faculdade, 16)
11 de Novembro, Lisboa, CUPAV (Estrada da Torre, 26, Lumiar, junto ao Colégio S. João de Brito)

Todos aqueles que não poderem estar presentes nas referidas sessões mas desejem conhecer o projecto dos Leigos para o Desenvolvimento podem fazê-lo através dos seguintes contactos telefónicos: 217574278, 217574357.


Por favor, passem a palavra e ajudem a divulgar!

Bernardo

terça-feira, 2 de novembro de 2004

Homenagem a Agustín Barrios

(publicado, como vem sendo hábito, em simultâneo no Afixe)



Interrompo a euforia pré-resultados eleitorais nos EUA para um interlúdio musical. Cá fica uma homenagem ao meu compositor preferido na música instrumental para guitarra solo.

De seu verdadeiro nome Agustín Pio Barrios, este genial compositor e guitarrista paraguaio foi conhecido pelo nome de Agustín Barrios Mangoré. Este apelido, de inspiração índia, estava intimamente ligado à profundidade do sentir indígena na pessoa de Barrios. Um verdadeiro furacão musical, Barrios é, na minha opinião, o mais perfeito compositor do infelizmente pouco conhecido repertório de guitarra clássica, e é ainda hoje um ícone na cultura musical sul-americana.

Eis uma curta biografia:

Guitarrista y compositor paraguayo. Recibió su primera educación musical en un colegio jesuita donde se utilizaba la guitarra para el estudio de la armonía. Este influenza religiosa se siente en algunas de sus obras(la Catedral, Una Limosna por el Amor de Dios). En 1898, a la edad de 13 años, el guitarista Gustavo Sosa (un alumno de Juan Alais) inicia al pequeño Agustin en los métodos de Sor y Aguado, en las piezas de Tárrega, Vinas, Arcas y Pargá.

Además de la música, recibe formación en historia, matemáticas y literatura en el Colegio Nacional de Asunción. Agustin habla español y guarani, lee y comprende el francés, el inglés y el alemán, se interesa por la filosofía, la poesía y la teología.

Musicalmente Agustin Barrios es un gran improvisador, hay testimonios que nos hablan de que improvisaba de manera espontánea en concierto. Compuso alrededor de 300 piezas, aunque desgraciadamente una parte de ellas se ha perdido. Barrios dio conciertos desde 1906 hasta su muerte. Muchas de sus obras sacan sus ritmos y sus colores en el rico folklore SudAméricano que Barrios conoce muy bien.

Desde 1919 Barrios trata de enriquesar su languaje musical estudio obras de compositires classicos y transcribe para la guitarra obras de Bach, Beethoven, Chopin, y Schumann. Este descubrimiento del répertorio europeo influenza fuertamente sus compositiones como : Romanza en Imitació al Violoncello, Estudio de Concierto, Mazurka Apasionata et Allegro Sinfónico.

En los años 1934-1936 vino a Europa, tocando en Bélgica, Alemania, España e Inglaterra. Barrios fue el primer guitarrista que grabó discos comerciales de 78 revoluciones. Muchas de sus obras sobrevivieron gracias al disco. Barrios murió muy pobre el 7 de agosto de 1944 en El Salvador.

Podemos datar algunas sus obras como: Un Sueño en la Floresta (1918), Romanza en imitación al violoncello (1919), Mazurca Apassionata (1919), La Catedral (1921), Preludio en Sol (1921), Valses Op. 8 (1923), Danza Paraguaya (1924), Choro de Saudade (1929), Julia Florida (1938), Una Limosna por el Amor de Dios (1944). Para ese ultima pieza que utilisa un do agudo sobre la primera cuerda, Barrios a añadido à sus guitarras un vigésimo traste.
, de http://www.delcamp.net/auteurs/es/5_moderne/barrios_es.html.

Richard Stover, um importante estudioso da vida e obra de Barrios, recolheu este texto do guitarrista (tradução do espanhol feita por Stover), que ilustra bem a profunda espiritualidade e originalidade deste grande homem, que durante a maioria da sua vida artística subiu aos palcos vestido de índio, e gostava de ser chamado Nitsuga Mangoré (Nitsuga é a inversão de Agustín):

«Tupa, the supreme spirit and protector of my people,
Found me one day in the middle of a greening forest,
Enraptured in the contemplation of Nature,
And he told me: "Take this mysterious box and reveal its secrets."
And enclosing within it all the songs of the birds of the jungle
And the mournful signs of the plants,
He abandoned it in my hands.
I took it and obeying Tupa's command I held it close to my heart.
Embracing it I passed many moons on the edge of a spring fountain
And one night, Yacy (the moon, our mother),
Reflected in the crystal liquid,
Feeling the sadness of my Indian soul,
Gave me six silver moonbeams
With which to discover its secrets.
And the miracle took Place:
From the bottom of the mysterious box,
There come forth a marvelous symphony
Of all the virgin voices of America.»


Para quem ainda não conhece Barrios, só há uma coisa a fazer: correr à loja de CDs mais próxima e comprar, na secção de guitarra clássica, todas as gravações de obras de Barrios que lá encontrar. Vale a pena!

Bernardo

sábado, 30 de outubro de 2004

Alquimia

(publicado em simultâneo no Afixe)



Tenho andado nos últimos tempos a redescobrir o site de Adam McLean, "The Alchemy Website". Mas que coisa espectacular! Recomendo vivamente. A Alquimia é um tema muito complexo, com uma iconografia profundíssima e muito rica, e que vale a pena conhecer melhor.

Para isso, nada como este impressionante trabalho de Adam McLean. O site está repleto de gravuras, documentação original, e estudos. O próprio autor do site é um dotado encadernador, e edita reproduções fac-simile de obras alquímicas há muito fora de circulação, ou apenas disponíveis em leilões da especialidade a preços proibitivos.

Se calhar, todos nós levámos, nos nossos tempos do (des-)ensino secundário, com aquela explicação redutora, ou melhor dizendo, profundamente errada, de que a Alquimia era uma "Química primitiva". Infelizmente, assistimos outra vez a mais um efeito do estereótipo "progressista", com o qual nos lambuzam desde a Primeira Classe até que saímos da Universidade, e que neste caso insiste em transformar os antigos alquimistas em energúmenos, bruxos, charlatães, ou na melhor das hipóteses, em "analfabetos científicos".

Para os leitores mais interessados por estes temas, há que dedicar umas boas horas a descobrir este surpreendente trabalho, e a conhecer, a pouco e pouco, o complexo mas fascinante mundo da Alquimia!

Bernardo

sábado, 23 de outubro de 2004

"a última pessoa interessada em prejudicar o PS"

(publicado em simultâneo no Afixe)



«Quanto ao alegado envolvimento de figuras do Partido Socialista no processo, entre as quais o ex-líder Ferro Rodrigues, Souto de Moura salienta ter sido escolhido para PGR por este partido, pelo que seria "a última pessoa interessada em prejudicar o PS", embora "acima de simpatias pessoais estejam as obrigações inerentes ao cargo".» - in Público.

Não. Não gostei nada desta frase do Procurador-Geral. Entende-se a intenção, perfeitamente inocente, mas é uma frase esquisita. Infelizmente, apesar de ser uma pessoa extremamente honesta e determinada, o actual Procurador, na minha opinião, nem sempre se sai bem com a imprensa. E a imprensa aproveita.

Mas a questão na base deste artigo que retirei do Público era outra. E era estúpida: deveria o Procurador-Geral abandonar o cargo se o Ministério Público fosse derrotado no processo "Casa Pia"? Faz algum sentido colocar esta questão? Para os media, neste caso o Expresso, fez.

Claro que os media querem polémica, e procuram grandes tiragens e elevadas vendas. Mas o que está por detrás desta pergunta? No fundo, qual é a ideia? Porque haveria Souto de Moura de sair do cargo? Afinal, o processo "Casa Pia" é um de muitos processos nos quais o Ministério Público está a trabalhar. Tudo isto faz parte do trabalho do dia-a-dia de um Procurador-Geral. Perder casos e ganhar casos.

Haverá uma intenção mais grave por detrás das interrogações dos media? Nestes tempos em que informar já não é a intenção do "circo" mediático (sem desprestígio para a nobre profissão circense), poderíamos apenas pensar que estamos perante mais uma polémica que os media querem lançar. Afinal, já se tornou banal, entre os media (e consequentemente na maleável opinião pública) a ideia imbecil de que as pessoas envolvidas em cargos políticos devem ser sempre despedidas quando surgem revezes nas suas actividades diárias.

Mas será só isto? A intenção do Expresso com aquela pergunta provocatória seria apenas a polémica?

Isto faz-me pensar que deve haver gente com saudades dos tempos de Cunha Rodrigues. Fala-se muito na fraqueza do Procurador-Geral Souto de Moura. Nas suas declarações, que por vezes são pouco cautelosas. Mas, decididamente vivem-se melhores dias na Procuradoria, no que toca a despachar processos! Quem quer regressar aos tempos de Cunha Rodrigues? Infelizmente, muita gente que gosta de gavetas com chaves...

Bernardo