A pedido do Pedro Fontela, eis alguns esclarecimentos rápidos e muito sucintos sobre esta questão. Como são vários os termos empregues para representar o Diabo, convém ter alguma precaução, porque cada termo possui um contexto e um significado diferentes.
Comecemos por Satanás, ou Satã.
Vem do hebreu "shatan", que significa simplesmente "adversário".
Era neste sentido que a palavra era usada vulgarmente pelos hebreus, no sentido de um adversário ou de um inimigo (pessoa individual ou colectividade).
Elaine Pagels, na sua obra The Origins of Satan, defende a tese de que o Diabo era, originalmente, apenas o inimigo.
É totalmente verdadeiro o que o Pedro Fontela afirma, a saber, que a demonologia judaica e a demonologia cristã são muito diferentes.
Uma das características mais notórias é que a demonologia do Antigo Testamento fica àquem, no que toca à complexidade e ao detalhe, de outras demonologias do Médio Oriente, como a dos Assírios, a dos Acadianos, ou a do Avestá (Iranianos).
Embora o Antigo Testamento seja rico em detalhes angeológicos (arcanjos, serafins, querubins, anjos), é pobre no que toca à demonologia.
Mas tal não significa que ela não exista. O Mal está presente na história da serpente, no Génesis. Está em Job, em Reis, no livro de Zacarias. O Levítico adverte contra bruxarias. Isaías fala em demónios (cap. 34, vs. 14). O livro de Tobias (se bem que não faça parte da Bíblica hebraica, mas sim da Cristã) fala no demónio Asmodeus. E há muito mais casos...
Por tudo isto, não me parece correcta a leitura excessivamente académica de Elaine Pagels, que simplifica uma questão complexa. É correcto que os Judeus usavam a palavra "satã" para designar os seus adversários. Mas isso não chega para afirmar que eles não possuiam uma genuína demonologia nem professavam a crença numa criatura personificadora do Mal.
Outro esclarecimento impõe-se no que toca ao termo Lúcifer, que quer apenas dizer "Portador da Luz". Lúficer é a palavra latina para o hebreu "helel", ou o grego "heosphoros". Representa quase sempre a "estrela da manhã", ou seja o planeta Vénus, que se vê logo na aurora (Job 11:17, Salmo 109:3). Lucífer é um termo teologicamente inadequado para representar o Diabo enquanto criatura caída, uma vez que a tradição sempre considerou que o termo apenas se aplicaria ao Diabo na sua condição luminosa antes da Queda (o próprio nome o indica).
Como curiosidade, o termo "Lúcifer" é também aplicado a outras personagens, como por exempo ao Rei da Babilónia (Isaías 14:12), ao Sumo Sacerdote Simão, filho de Onias (Eclesiastes 50:6), e mesmo ao próprio Jesus Cristo (Pedro II 1:19; Apocalipse 22:16). E isto porque a palavra quer mesmo dizer "o portador da Luz", e neste sentido serviu para ser usada em vários contextos.
Por esta razão, o termo correcto, na doutrina católica, para a personificação do Mal é Satã, Satanás, ou simplesmente Diabo.
Etimologicamente, a palavra "diabo" vem do latim "diabolus", que por sua vez vem do grego "diabolos", e representa o líder das hostes demoníacas.
No Novo Testamento, são mais evidentes as referências ao Diabo, como o trecho de Mateus que referi no post anterior. O Apocalipse faz também várias referências ao Diabo, e de uma grande riqueza teológica.
A doutrina católica fixou de forma bastante literal a existência do Diabo e dos demónios:
"Diabolus enim et alii dæmones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali." - Concílio Latrão IV
("o Diabo e os outros demónios foram criados por Deus bons na sua natureza mas eles próprios se fizeram maus.")
Tenho a perfeita noção de que aflorei apenas a ponta do icebergue. Se o Pedro quiser, poderemos ir mais ao detalhe nalguma questão.
Referências:
Catholic Encyclopedia - Devil
Catholic Encyclopedia - Lucifer
Catholic Encyclopedia - Demonology
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
terça-feira, 21 de junho de 2005
O Diabo no Novo Testamento
"Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e disse-Lhe:
«Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».
Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O."
- Mateus 4, 1-11.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e disse-Lhe:
«Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».
Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O."
- Mateus 4, 1-11.
Ainda o Diabo...
Eu já sabia que este tema iria gerar alguma incompreensão.
O meu amigo Lutz, conterrâneo de outras andanças, criticou o meu texto anterior sobre o Diabo, perguntando-me se os católicos que recusam o Diabo e a validade dos exorcismos ainda são católicos.
Ora bem, a questão parece-me assaz simples. O catolicismo é o que é porque está doutrinalmente definido. Os textos conciliares, as encíclicas apostólicas, as cartas pontifícias, o Catecismo da Igreja Católica, são tudo fontes fidedignas para saber o que é isto de ser católico.
Se a Igreja Católica fosse o IKEA, qualquer católico poderia entrar na loja, escolher as partes que gostava, e sair de lá de dentro com a "sua" doutrina.
Sucede que a Igreja Católica não é o IKEA.
Podemos ler, no Catecismo da Igreja Católica (por comodidade, não traduzi do inglês):
II. THE FALL OF THE ANGELS
391 Behind the disobedient choice of our first parents lurks a seductive voice, opposed to God, which makes them fall into death out of envy.266 Scripture and the Church's Tradition see in this being a fallen angel, called "Satan" or the "devil".267 The Church teaches that Satan was at first a good angel, made by God: "The devil and the other demons were indeed created naturally good by God, but they became evil by their own doing."268
392 Scripture speaks of a sin of these angels.269 This "fall" consists in the free choice of these created spirits, who radically and irrevocably rejected God and his reign. We find a reflection of that rebellion in the tempter's words to our first parents: "You will be like God."270 The devil "has sinned from the beginning"; he is "a liar and the father of lies".271
393 It is the irrevocable character of their choice, and not a defect in the infinite divine mercy, that makes the angels' sin unforgivable. "There is no repentance for the angels after their fall, just as there is no repentance for men after death."272
394 Scripture witnesses to the disastrous influence of the one Jesus calls "a murderer from the beginning", who would even try to divert Jesus from the mission received from his Father.273 "The reason the Son of God appeared was to destroy the works of the devil."274 In its consequences the gravest of these works was the mendacious seduction that led man to disobey God.
395 The power of Satan is, nonetheless, not infinite. He is only a creature, powerful from the fact that he is pure spirit, but still a creature. He cannot prevent the building up of God's reign. Although Satan may act in the world out of hatred for God and his kingdom in Christ Jesus, and although his action may cause grave injuries - of a spiritual nature and, indirectly, even of a physical nature - to each man and to society, the action is permitted by divine providence which with strength and gentleness guides human and cosmic history. It is a great mystery that providence should permit diabolical activity, but "we know that in everything God works for good with those who love him."275
Dirijo uma pergunta ao meu amigo Lutz, que eu lhe peço que responda com base no seu bom senso: faz sentido um católico não seguir o Catecismo?
Se o Catecismo compila a estrutura e o conteúdo doutrinários da Igreja Católica, e se os crentes escolhem como lhes apetece o que lhes convém (ou melhor, o que convém às mentes distorcidas pelos preconceitos da sociedade moderna, que é materialista até ao âmago), para que serve o Catecismo?
Eu espantar-me-ia se, numa sondagem à boca das Igrejas, mais de metade dos inquiridos tivesse a coragem para assumir que acredita no miraculoso! Muitos crentes fugiriam do assunto, ficariam corados! E se a pergunta fosse "Acredita na existência do Diabo?", as respostas seriam ainda mais escandalosas e ainda mais contraditórias face ao que ensina o Catecismo.
Qual é a minha ideia?
Propor obediência cega ao Catecismo?
Nada disso! Proponho, humildemente, aos meus irmãos católicos:
a) uma leitura atenta do Catecismo, e uma profunda revisão de consciência e do que implica ser católico e professar o catolicismo;
b) um estudo aprofundado sobre estes temas; porque aquilo que é compreeendido é mais facilmente professado.
Não defendo a existência do Diabo para obedecer à Igreja!
Defendo-a porque a doutrina, para mim, só faz sentido assim. Defendo-a, porque acho que corresponde ao real.
Para terminar, Lutz, acho que este teu trecho pode ser muito falacioso:
"Tenho muitos amigos católicos que discordam consigo. Pelo que percebi, nega-lhes o direito de se considerar católicos."
O que tu me dizes é que eu, por respeito para com os teus amigos (também tenho amigos que pensam o mesmo), deveria tentar acomodar (sabe-se lá como) estas opiniões divergentes e contraditórias com o magistério da Igreja?
O que deve fazer a doutrina católica perante os católicos que afirmam que o Diabo não existe? Deve a doutrina riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam que Jesus Cristo está presente na Eucaristia? Se calhar, por respeito, a Igreja também deveria riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam em milagres? Deverá a Igreja também riscar os milagres do mapa?
O que é que restaria do catolicismo? O que é que o diferenciaria, por exemplo, do protestantismo?
Parece-me que o teu argumento, caro Lutz, é emocional e não racional. Em nome de uma uma suposta (e falsa) "tolerância", ou por respeito para com as opiniões dos crentes, a Igreja Católica deve começar a cortar partes do Catecismo?
E quem terá mais credibilidade?
A) A Igreja com o seu magistério duas vezes milenar
B) O crente que não lê o Catecismo, não lê a Bíblia, não lê os textos oficiais, não sabe nada da História da Igreja
No fundo, e com todo o respeito, Lutz, o crente católico que me descreves, e que nega a existência do Diabo e a validade dos exorcismos, tem apenas "uma opinião" sobre a matéria, e nada mais. E uma opinião não fundamentada, se me permites.
O meu amigo Lutz, conterrâneo de outras andanças, criticou o meu texto anterior sobre o Diabo, perguntando-me se os católicos que recusam o Diabo e a validade dos exorcismos ainda são católicos.
Ora bem, a questão parece-me assaz simples. O catolicismo é o que é porque está doutrinalmente definido. Os textos conciliares, as encíclicas apostólicas, as cartas pontifícias, o Catecismo da Igreja Católica, são tudo fontes fidedignas para saber o que é isto de ser católico.
Se a Igreja Católica fosse o IKEA, qualquer católico poderia entrar na loja, escolher as partes que gostava, e sair de lá de dentro com a "sua" doutrina.
Sucede que a Igreja Católica não é o IKEA.
Podemos ler, no Catecismo da Igreja Católica (por comodidade, não traduzi do inglês):
II. THE FALL OF THE ANGELS
391 Behind the disobedient choice of our first parents lurks a seductive voice, opposed to God, which makes them fall into death out of envy.266 Scripture and the Church's Tradition see in this being a fallen angel, called "Satan" or the "devil".267 The Church teaches that Satan was at first a good angel, made by God: "The devil and the other demons were indeed created naturally good by God, but they became evil by their own doing."268
392 Scripture speaks of a sin of these angels.269 This "fall" consists in the free choice of these created spirits, who radically and irrevocably rejected God and his reign. We find a reflection of that rebellion in the tempter's words to our first parents: "You will be like God."270 The devil "has sinned from the beginning"; he is "a liar and the father of lies".271
393 It is the irrevocable character of their choice, and not a defect in the infinite divine mercy, that makes the angels' sin unforgivable. "There is no repentance for the angels after their fall, just as there is no repentance for men after death."272
394 Scripture witnesses to the disastrous influence of the one Jesus calls "a murderer from the beginning", who would even try to divert Jesus from the mission received from his Father.273 "The reason the Son of God appeared was to destroy the works of the devil."274 In its consequences the gravest of these works was the mendacious seduction that led man to disobey God.
395 The power of Satan is, nonetheless, not infinite. He is only a creature, powerful from the fact that he is pure spirit, but still a creature. He cannot prevent the building up of God's reign. Although Satan may act in the world out of hatred for God and his kingdom in Christ Jesus, and although his action may cause grave injuries - of a spiritual nature and, indirectly, even of a physical nature - to each man and to society, the action is permitted by divine providence which with strength and gentleness guides human and cosmic history. It is a great mystery that providence should permit diabolical activity, but "we know that in everything God works for good with those who love him."275
Dirijo uma pergunta ao meu amigo Lutz, que eu lhe peço que responda com base no seu bom senso: faz sentido um católico não seguir o Catecismo?
Se o Catecismo compila a estrutura e o conteúdo doutrinários da Igreja Católica, e se os crentes escolhem como lhes apetece o que lhes convém (ou melhor, o que convém às mentes distorcidas pelos preconceitos da sociedade moderna, que é materialista até ao âmago), para que serve o Catecismo?
Eu espantar-me-ia se, numa sondagem à boca das Igrejas, mais de metade dos inquiridos tivesse a coragem para assumir que acredita no miraculoso! Muitos crentes fugiriam do assunto, ficariam corados! E se a pergunta fosse "Acredita na existência do Diabo?", as respostas seriam ainda mais escandalosas e ainda mais contraditórias face ao que ensina o Catecismo.
Qual é a minha ideia?
Propor obediência cega ao Catecismo?
Nada disso! Proponho, humildemente, aos meus irmãos católicos:
a) uma leitura atenta do Catecismo, e uma profunda revisão de consciência e do que implica ser católico e professar o catolicismo;
b) um estudo aprofundado sobre estes temas; porque aquilo que é compreeendido é mais facilmente professado.
Não defendo a existência do Diabo para obedecer à Igreja!
Defendo-a porque a doutrina, para mim, só faz sentido assim. Defendo-a, porque acho que corresponde ao real.
Para terminar, Lutz, acho que este teu trecho pode ser muito falacioso:
"Tenho muitos amigos católicos que discordam consigo. Pelo que percebi, nega-lhes o direito de se considerar católicos."
O que tu me dizes é que eu, por respeito para com os teus amigos (também tenho amigos que pensam o mesmo), deveria tentar acomodar (sabe-se lá como) estas opiniões divergentes e contraditórias com o magistério da Igreja?
O que deve fazer a doutrina católica perante os católicos que afirmam que o Diabo não existe? Deve a doutrina riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam que Jesus Cristo está presente na Eucaristia? Se calhar, por respeito, a Igreja também deveria riscar essa parte?
E os crentes que não acreditam em milagres? Deverá a Igreja também riscar os milagres do mapa?
O que é que restaria do catolicismo? O que é que o diferenciaria, por exemplo, do protestantismo?
Parece-me que o teu argumento, caro Lutz, é emocional e não racional. Em nome de uma uma suposta (e falsa) "tolerância", ou por respeito para com as opiniões dos crentes, a Igreja Católica deve começar a cortar partes do Catecismo?
E quem terá mais credibilidade?
A) A Igreja com o seu magistério duas vezes milenar
B) O crente que não lê o Catecismo, não lê a Bíblia, não lê os textos oficiais, não sabe nada da História da Igreja
No fundo, e com todo o respeito, Lutz, o crente católico que me descreves, e que nega a existência do Diabo e a validade dos exorcismos, tem apenas "uma opinião" sobre a matéria, e nada mais. E uma opinião não fundamentada, se me permites.
terça-feira, 7 de junho de 2005
O Diabo
(publicado em simultâneo no Afixe)

Nos dias que correm, não poucas dificuldades se apresentam ao crente que vive já num mundo laicizado, racionalista e materialista.
Uma dessas grandes dificuldades apresenta-se com a existência (ou influência) do Mal como entidade distinta. Por outras palavras, a existência do que se chama vulgarmente de "Diabo". Ou se quisermos ser mais generalistas, a existência de entidades malignas ou demoníacas.
Uma das tácticas (porventura usadas inconscientemente) dos adversários militantes de qualquer religião consiste na infantilização e no desprezo de quem crê na existência do Diabo.
Dizem muitos que a crença no Diabo não se coaduna com a mente do "homem moderno", nem é compatível com a Ciência moderna. De forma totalmente desonesta, muitos tentam extravasar a Ciência moderna para fora dos seus limites, que são estritamente empíricos, querendo aplicá-la a tudo.
E, curiosamente, criou-se esta estranha ideia, que se entranha dia após dia: o Diabo era uma superstição dos nossos avós, uma coisa de gente atrasada, inculta, cientificamente analfabeta. Algo que "as Luzes" já teriam, supostamente, refutado.
No caso específico da Igreja Católica (contexto que me é particularmente caro), é curioso notar a campanha que se faz, nos dias que correm, contra o exorcismo e contra a crença nas entidades demoníacas.
Hoje em dia, não poucos católicos teriam coragem para, abertamente, professar a crença no Diabo. No entanto, deveriam saber que a sua liturgia, a liturgia católica, possui ainda rituais de exorcismo, que, ao invés de serem meros caprichos antiquados de gente perversa, fazem parte do corpo da doutrina da própria Igreja Católica.
Bastaria lermos, por exemplo, a Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, na Primeira Parte, onde se discutem os seres demoníacos.
Será que os católicos dos dias de hoje estão tão iluminados pelo positivismo científico que se envergonham das palavras do aquinate, um dos maiores doutores da Igreja, cuja obra teológica é hoje ainda um dos pilares do seu magistério?
Espero que não me interpretem mal!
(grande lata, é evidente que me vão interpretar mal!)
Não estou a fazer qualquer tipo de propaganda doutrinária. Penso que esta matéria interessa a crentes e a descrentes.
Os primeiros deveriam saber que não faz sentido ser católico e recusar a crença no Diabo, porque isso só advém de uma incompreensão grave da doutrina que professam.
Os segundos deveriam sabê-lo, quanto mais não fosse para conhecerem melhor o que é isto de ser católico e com que linhas se cose a doutrina de um católico.
Ah, já estou a ver este post a dar estalada e gritos, de certeza!
Basta ter bom senso: no dia em que o ritual do exorcismo desaparecer da prática da Igreja Católica, ter-se-á dado uma enorme machadada na estrutura basilar da concepção católica do mundo criado por Deus. Ter-se-á distorcido, para além dos limites do razoável, o próprio conceito do Mal.
Não julgo que as entidades demoníacas tenham abandonado o nosso Mundo! Acho que nunca estiveram tão presentes. O problema é que, nos dias que correm, poucos são aqueles que sequer as concebem como reais!
Termino com uma máxima famosa:
«La plus grande ruse du Diable est de faire croire qu'il n'existe pas» - Charles Baudelaire (1821-1867)

Nos dias que correm, não poucas dificuldades se apresentam ao crente que vive já num mundo laicizado, racionalista e materialista.
Uma dessas grandes dificuldades apresenta-se com a existência (ou influência) do Mal como entidade distinta. Por outras palavras, a existência do que se chama vulgarmente de "Diabo". Ou se quisermos ser mais generalistas, a existência de entidades malignas ou demoníacas.
Uma das tácticas (porventura usadas inconscientemente) dos adversários militantes de qualquer religião consiste na infantilização e no desprezo de quem crê na existência do Diabo.
Dizem muitos que a crença no Diabo não se coaduna com a mente do "homem moderno", nem é compatível com a Ciência moderna. De forma totalmente desonesta, muitos tentam extravasar a Ciência moderna para fora dos seus limites, que são estritamente empíricos, querendo aplicá-la a tudo.
E, curiosamente, criou-se esta estranha ideia, que se entranha dia após dia: o Diabo era uma superstição dos nossos avós, uma coisa de gente atrasada, inculta, cientificamente analfabeta. Algo que "as Luzes" já teriam, supostamente, refutado.
No caso específico da Igreja Católica (contexto que me é particularmente caro), é curioso notar a campanha que se faz, nos dias que correm, contra o exorcismo e contra a crença nas entidades demoníacas.
Hoje em dia, não poucos católicos teriam coragem para, abertamente, professar a crença no Diabo. No entanto, deveriam saber que a sua liturgia, a liturgia católica, possui ainda rituais de exorcismo, que, ao invés de serem meros caprichos antiquados de gente perversa, fazem parte do corpo da doutrina da própria Igreja Católica.
Bastaria lermos, por exemplo, a Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, na Primeira Parte, onde se discutem os seres demoníacos.
Será que os católicos dos dias de hoje estão tão iluminados pelo positivismo científico que se envergonham das palavras do aquinate, um dos maiores doutores da Igreja, cuja obra teológica é hoje ainda um dos pilares do seu magistério?
Espero que não me interpretem mal!
(grande lata, é evidente que me vão interpretar mal!)
Não estou a fazer qualquer tipo de propaganda doutrinária. Penso que esta matéria interessa a crentes e a descrentes.
Os primeiros deveriam saber que não faz sentido ser católico e recusar a crença no Diabo, porque isso só advém de uma incompreensão grave da doutrina que professam.
Os segundos deveriam sabê-lo, quanto mais não fosse para conhecerem melhor o que é isto de ser católico e com que linhas se cose a doutrina de um católico.
Ah, já estou a ver este post a dar estalada e gritos, de certeza!
Basta ter bom senso: no dia em que o ritual do exorcismo desaparecer da prática da Igreja Católica, ter-se-á dado uma enorme machadada na estrutura basilar da concepção católica do mundo criado por Deus. Ter-se-á distorcido, para além dos limites do razoável, o próprio conceito do Mal.
Não julgo que as entidades demoníacas tenham abandonado o nosso Mundo! Acho que nunca estiveram tão presentes. O problema é que, nos dias que correm, poucos são aqueles que sequer as concebem como reais!
Termino com uma máxima famosa:
«La plus grande ruse du Diable est de faire croire qu'il n'existe pas» - Charles Baudelaire (1821-1867)
quarta-feira, 4 de maio de 2005
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005
Crítica ao Diário Ateísta
(publicado em simultâneo no Afixe)
Criticarei, de novo, um artigo do Diário Ateísta.
Poderão alguns questionar-se acerca do porquê deste meu interesse pelo Diário Ateísta.
O interesse é já antigo. Pessoalmente, atraem-me as questões sociológicas que a leitura deste site suscita.
Deixei de intervir há largos meses com comentários no Diário Ateísta porque o diálogo se tornou, infelizmente, numa conversa de surdos.
Mas continua a parecer-me útil criticar alguns dos textos que surgem neste site ateísta. Infelizmente, é pela mediocridade que me sinto obrigado a tecer críticas a este site ateísta. Por isso, longe de querer que as minhas críticas sejam críticas ao ateísmo, estas críticas são puramente culturais e históricas, e não incidem sobre qualquer questão pística.
Não há proselitismo católico nas minhas críticas.
Tenho apenas uma intenção didáctica. A intenção de dirigir um convite à reflexão, ao estudo, e a um aprofundamento de cultura histórica e religiosa aos membros do Diário Ateísta.
Creio que, para se combater eficazmente um adversário, é pertinente conhecê-lo bem.
Creio também que não é o que sucede com o Diário Ateísta, onde todos os dias vemos demonstrações de lacunas culturais, que a meu ver, dado o número elevado de visitas ao Diário Ateísta, prejudicam a imagem do próprio ateísmo na Internet, pelo menos aos olhos dos visitantes mais cultos.
Vamos ao teor da crítica de hoje.
André Esteves é o autor de um artigo intitulado "Doutorados e Ignorantes".
Segundo André Esteves,
"Nalgumas igrejas evangélicas e fundamentalistas americanas tornou-se um valor comum não tirar cursos universitários, ou ser-se «intelectual» porque são coisas seculares ou da carne."
O passado evangélico de André Esteves poderá, parece-me, explicar o seu interesse pelos movimentos evangélicos norte-americanos. Sou da opinião que muitos desses movimentos cristãos têm posturas fanáticas (prefiro este termo ao termo "fundamentalista", uma vez que me parece bom ter-se fundamentos). Nisto concordo com o André Esteves.
Contudo, parece-me inadequado usar estes casos de fanatismo evangélico norte-americano para extrapolar conclusões gerais relativamente ao universo dos crentes.
Assim, a frase que se segue, de André Esteves, é para mim uma generalização inaceitável:
"O medo de se tornar num «liberal» é palpável entre os jovens crentes das igrejas, para os quais uma universidade reputada ou o prosseguimento de estudos além da licenciatura, se tornaram sinónimos da perdição espiritual."
Antes de mais, faz-me especial confusão que se use o termo "liberal" para classificar a opção pela formação académica complementar à licenciatura. É um "liberal" aquele que prossegue os seus estudos após o grau de licenciatura?
Depois, a generalização. Partindo dos evangélicos norte-americanos, André Esteves partilha da opinião de que certas posturas fanáticas são para generalizar aos "jovens crentes das igrejas".
Por fim, chegamos ao ponto onde me parece se revelar com mais nitidez a lacuna cultural que me fez escrever esta crítica:
"Por cá, Deus demonstra-se complicado: a Conferência Episcopal definiu que para se ser bispo em Portugal tem que se ser doutorado. Antigamente aos desígnios de Deus para serem compreendidos bastavam a tonsura e aljubeta. Agora o capelo também se torna necessário."

É curiosa esta afirmação, que revela que André Esteves desconhece a obra e vida dos doutores da Igreja, sobretudo a de S. Tomás de Aquino. O aquinate é uma figura incontornável no reavivar da vida universitária medieval. Usando como tema central da sua actividade intelectual a conciliação entre o saber clássico grego (nomeadamente, a obra de Aristóteles) e a revelação cristã, S. Tomás de Aquino revolucionou a vida académica, dando um significado rejuvenescido e profundo ao que é o trabalho "universitário".
As "quaestiones disputatae" de S. Tomás primam por um esforço de rigor dialético e argumentativo, no qual uma tese é colocada em análise, sendo fornecidos argumentos a favor, e argumentos em contrário.
Todo o processo de uma "quaestio" é conduzido de forma a fazer surgir a conclusão de modo natural e justo, considerando todos os dados relevantes no processo.
A universidade moderna não seria igual ao que é hoje sem S. Tomás de Aquino. Parece-me pertinente conhecer apenas as linhas gerais da vida e obra desta figura chave da intelectualidade europeia, para que se possam evitar considerações destas, que revelam da parte do senhor André Esteves uma postura proselitista duvidosa, que só pode funcionar com uma audiência desprovida das mais elementares referências culturais.
Para saber mais sobre S. Tomás, recomendo vivamente o texto introdutório do professor Luiz Jean Lauand.
Bernardo
Criticarei, de novo, um artigo do Diário Ateísta.
Poderão alguns questionar-se acerca do porquê deste meu interesse pelo Diário Ateísta.
O interesse é já antigo. Pessoalmente, atraem-me as questões sociológicas que a leitura deste site suscita.
Deixei de intervir há largos meses com comentários no Diário Ateísta porque o diálogo se tornou, infelizmente, numa conversa de surdos.
Mas continua a parecer-me útil criticar alguns dos textos que surgem neste site ateísta. Infelizmente, é pela mediocridade que me sinto obrigado a tecer críticas a este site ateísta. Por isso, longe de querer que as minhas críticas sejam críticas ao ateísmo, estas críticas são puramente culturais e históricas, e não incidem sobre qualquer questão pística.
Não há proselitismo católico nas minhas críticas.
Tenho apenas uma intenção didáctica. A intenção de dirigir um convite à reflexão, ao estudo, e a um aprofundamento de cultura histórica e religiosa aos membros do Diário Ateísta.
Creio que, para se combater eficazmente um adversário, é pertinente conhecê-lo bem.
Creio também que não é o que sucede com o Diário Ateísta, onde todos os dias vemos demonstrações de lacunas culturais, que a meu ver, dado o número elevado de visitas ao Diário Ateísta, prejudicam a imagem do próprio ateísmo na Internet, pelo menos aos olhos dos visitantes mais cultos.
Vamos ao teor da crítica de hoje.
André Esteves é o autor de um artigo intitulado "Doutorados e Ignorantes".
Segundo André Esteves,
"Nalgumas igrejas evangélicas e fundamentalistas americanas tornou-se um valor comum não tirar cursos universitários, ou ser-se «intelectual» porque são coisas seculares ou da carne."
O passado evangélico de André Esteves poderá, parece-me, explicar o seu interesse pelos movimentos evangélicos norte-americanos. Sou da opinião que muitos desses movimentos cristãos têm posturas fanáticas (prefiro este termo ao termo "fundamentalista", uma vez que me parece bom ter-se fundamentos). Nisto concordo com o André Esteves.
Contudo, parece-me inadequado usar estes casos de fanatismo evangélico norte-americano para extrapolar conclusões gerais relativamente ao universo dos crentes.
Assim, a frase que se segue, de André Esteves, é para mim uma generalização inaceitável:
"O medo de se tornar num «liberal» é palpável entre os jovens crentes das igrejas, para os quais uma universidade reputada ou o prosseguimento de estudos além da licenciatura, se tornaram sinónimos da perdição espiritual."
Antes de mais, faz-me especial confusão que se use o termo "liberal" para classificar a opção pela formação académica complementar à licenciatura. É um "liberal" aquele que prossegue os seus estudos após o grau de licenciatura?
Depois, a generalização. Partindo dos evangélicos norte-americanos, André Esteves partilha da opinião de que certas posturas fanáticas são para generalizar aos "jovens crentes das igrejas".
Por fim, chegamos ao ponto onde me parece se revelar com mais nitidez a lacuna cultural que me fez escrever esta crítica:
"Por cá, Deus demonstra-se complicado: a Conferência Episcopal definiu que para se ser bispo em Portugal tem que se ser doutorado. Antigamente aos desígnios de Deus para serem compreendidos bastavam a tonsura e aljubeta. Agora o capelo também se torna necessário."

É curiosa esta afirmação, que revela que André Esteves desconhece a obra e vida dos doutores da Igreja, sobretudo a de S. Tomás de Aquino. O aquinate é uma figura incontornável no reavivar da vida universitária medieval. Usando como tema central da sua actividade intelectual a conciliação entre o saber clássico grego (nomeadamente, a obra de Aristóteles) e a revelação cristã, S. Tomás de Aquino revolucionou a vida académica, dando um significado rejuvenescido e profundo ao que é o trabalho "universitário".
As "quaestiones disputatae" de S. Tomás primam por um esforço de rigor dialético e argumentativo, no qual uma tese é colocada em análise, sendo fornecidos argumentos a favor, e argumentos em contrário.
Todo o processo de uma "quaestio" é conduzido de forma a fazer surgir a conclusão de modo natural e justo, considerando todos os dados relevantes no processo.
A universidade moderna não seria igual ao que é hoje sem S. Tomás de Aquino. Parece-me pertinente conhecer apenas as linhas gerais da vida e obra desta figura chave da intelectualidade europeia, para que se possam evitar considerações destas, que revelam da parte do senhor André Esteves uma postura proselitista duvidosa, que só pode funcionar com uma audiência desprovida das mais elementares referências culturais.
Para saber mais sobre S. Tomás, recomendo vivamente o texto introdutório do professor Luiz Jean Lauand.
Bernardo
quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
Déjà vu?
(publicado em simultâneo no Afixe)
De Philip Jenkins, o CESNUR publica um estudo interessantíssimo intitulado "Le Jésus des sectes - Comment le Christ ésotérique devint le Christ des universitaires". É extenso, mas muito esclarecedor!
"Il y a cent ans, pratiquement toutes les idées présentées aujourd’hui comme le dernier cri chez les universitaires travaillant sur le sujet de Jésus étaient déjà largement connues, bien qu’elles le fussent moins des chercheurs en matière biblique que des membres de nouvelles religions, écoles marginales occultes et ésotériques et des mouvements qui étaient déjà connus en tant que "sectes". Les excentricités sectaire des années 1900 sont devenues les références orthodoxes universitaires des années 2000."
A tese central: os delírios neo-gnósticos dos movimentos esotéricos nascentes no final do século XIX e início do século XX, foram-se transformando, a pouco e pouco, na "ortodoxia" universitária, conforme veiculada por entusiastas académicas do gnosticismo, como a autora Elaine Pagels.
É fascinante e revelador, através deste texto, ver como os ideais da Sociedade Teosófica, fundada por Helena P. Blavatsky no século XIX, foram, a pouco e pouco, passando do domínio da seita esotérica para o domínio académico do estudo das origens do cristianismo.
Bernardo
De Philip Jenkins, o CESNUR publica um estudo interessantíssimo intitulado "Le Jésus des sectes - Comment le Christ ésotérique devint le Christ des universitaires". É extenso, mas muito esclarecedor!
"Il y a cent ans, pratiquement toutes les idées présentées aujourd’hui comme le dernier cri chez les universitaires travaillant sur le sujet de Jésus étaient déjà largement connues, bien qu’elles le fussent moins des chercheurs en matière biblique que des membres de nouvelles religions, écoles marginales occultes et ésotériques et des mouvements qui étaient déjà connus en tant que "sectes". Les excentricités sectaire des années 1900 sont devenues les références orthodoxes universitaires des années 2000."
A tese central: os delírios neo-gnósticos dos movimentos esotéricos nascentes no final do século XIX e início do século XX, foram-se transformando, a pouco e pouco, na "ortodoxia" universitária, conforme veiculada por entusiastas académicas do gnosticismo, como a autora Elaine Pagels.
É fascinante e revelador, através deste texto, ver como os ideais da Sociedade Teosófica, fundada por Helena P. Blavatsky no século XIX, foram, a pouco e pouco, passando do domínio da seita esotérica para o domínio académico do estudo das origens do cristianismo.
Bernardo
terça-feira, 4 de janeiro de 2005
Arturo Reghini e o Progresso
(publicado em simultâneo no Afixe)
Este texto é endereçado aos nossos leitores que se interessam pela Maçonaria, e pelos temas iniciáticos.
Há uns tempos, tive a sorte de tropeçar num livro de Arturo Reghini, editado pela Hugin em 2002 (e que boa ideia), intitulado "Escritos sobre a Maçonaria".
Esta pequena obra reúne artigos que Reghini escreveu para várias revistas italianas da especialidade. A meu ver, Reghini foi uma daquelas raras mentes lúcidas a conseguir conjugar erudição maçónica com uma integridade e coerência de ideias.
O meu interesse por Reghini foi despertado pela leitura deste conjunto de cartas escritas por Guénon ao maçon italiano, que a Symbolos disponibilizou online aqui.
Gostaria de escrever sobre tantos e tantos aspectos interessantes levantados pela leitura da prosa de Reghini, mas tendo que escolher um, eu começaria por extrair, do capítulo III ("As bases espirituais da Maçonaria", pág. 48), o seguinte, a propósito da nefasta infiltração do conceito moderno de "progresso" nos ideais maçónicos:
"Notamos, «en passant», que esta crença no progresso, muito profana e não contemplada nas Constituições de Anderson nem nos antigos Landmarks, se radicou curiosamente em certas Maçonarias, acostumadas a pedir luz ao mundo profano, ao invés de à sabedoria iniciática. Já nas Constituições do Grande Oriente de França, de 1849, a Maçonaria é definida como uma instituição filantrópica, filosófica e progressista que tem como base a existência de Deus e a imortalidade da alma. Como é sabido, justamente pela fé no progresso e nas conquistas do livre pensamento e da ciência profana é que os Franco-Maçons franceses atiraram ao mar, com maioria de votos, o Grande Arquitecto do Universo e a imortalidade da alma, para ficarrem arreigados ao não louvado fetiche do progresso; e na conferência de Genebra de 1921, na qual participaram sete ou oito Potências simbólicas, entre as quais os dois Grandes Orientes irregulares de França e de Itália (Pallazzo Giustiniani), foi proclamada e subscrita uma declaração de princípios que define a Maçonaria como instituição filosófica, humanitária, progressista. A declaração depois especifica que se preocupa com o progresso social, porque a Maçonaria honra igualmente o trabalho intectual e o manual, etc., etc..
Estes Franco-Maçons, como autênticos Livres Pensadores, sentir-se-iam mal dos intestinos se tivessem de renunciar a esta crença no progresso. E a ideia que formaram consolida-se, granítica, imutável, estacionária, incapaz do mínimo... progresso!"
(publicado na revista Rassegna Massonica, em 1923)
Agora, alguns esclarecimentos...
A dureza da linguagem de Reghini não deve iludir o leitor sério, que encontrará nesta obra inúmeros e vitais ensinamentos sobre a Maçonaria genuína, essa espécie tão rara que quase se pode declarar em extinção. Reghini não era um mangiapreti, ou seja, um "papa-padres", como tantos outros maçons do seu tempo.
Claro está que, sendo católico, este meu texto pode parecer estranhíssimo e desadequado. Explico porque não é: gosto bastante das temáticas maçónicas, acho o simbolismo maçónico muito rico e profundo, e apesar de não ser maçon, nem pensar vir a ser (sendo católico, está-me vedado), detesto a ligeireza com que se ataca hoje em dia o conceito de Maçonaria, triste sinal de uma tremenda falta de conhecimento sobre o tema (que a obra de Reghini pode ajudar a corrigir, nas pessoas bem intencionadas e verdadeiramente interessadas) bem como detesto a corja de falsos maçons que enchem hoje em dia a esmagadora maioria das lojas, corja essa à qual Reghini (com a competência que eu não tenho) alude, com grande e justa precisão de vocabulário.
Para terminar, escolhi este excerto porque evidencia outro dos meios intelectuais que foram infestados por esta moderna crença no progresso: o meio iniciático da Maçonaria.
A crença no progresso entrou basicamente em todo o lado. Parece ser o resultado, no domínio sociológico, de um casamento estranho das teorias evolucionistas emanadas das ciências naturais com um milenarismo apocalíptico decadente e confuso (este "casamento" parece despropositado, mas o historiador Jean Delumeau fornece pistas mais que suficientes no seu livro "Mil Anos de Felicidade"). Esta crença no progresso é uma virose alojada, e que dificilmente sai, apesar de termos acesso todos os dias a sinais mais que evidentes de que tal progresso não existe. Só para dar um exemplo: no século que se seguiu à invenção das ideias progressistas, o mundo assistiu a duas grandes guerras mundiais...
Parece-me justo afirmar que a Maçonaria tem como fim, nas mentes dos seus membros mais sinceros e honestos, o aperfeiçoamento do maçon como ser humano. Do que li de Reghini não devo estar equivocado na definição, pelo menos na essência. Esse aperfeiçoamento individual (escrevi individual e não solitário, porque o maçon trabalha na Loja com os restantes irmãos), com o passar dos tempos e a infiltração de ideais jacobinos (e tantas vezes anti-católicos), passou a ser confundido com o professar de uma crença no progresso imparável da Humanidade! E Reghini encontra, tão cedo como em 1849, indícios desta infiltração!
Na História da Humanidade encontramos progressos e retrocessos, numas áreas e noutras. Haverá bases suficientes para se poder afirmar, em rigor, que a Humanidade progride sempre, sem parar?
Faz sentido, a crença moderna no progresso?
Não servirá esta ideia gratuita do progresso absoluto uma arma de arremesso do laicismo materialista (agora dominante) contra a intelectualidade do passado (considerada "caduca" ou "primitiva", ou ainda "antiquada")?
E não é curioso notar que os visados por esta infiltração de ideias (dir-se-ia eufemisticamente, por esta "mudança de paradigma") foram, não só as religiões organizadas como também organizações iniciáticas como a Maçonaria, onde podemos notar a presença infestante e destruidora destes ideais jacobinos?
Aqui fica a ideia para que se medite sobre ela...
Bernardo
Este texto é endereçado aos nossos leitores que se interessam pela Maçonaria, e pelos temas iniciáticos.
Há uns tempos, tive a sorte de tropeçar num livro de Arturo Reghini, editado pela Hugin em 2002 (e que boa ideia), intitulado "Escritos sobre a Maçonaria".
Esta pequena obra reúne artigos que Reghini escreveu para várias revistas italianas da especialidade. A meu ver, Reghini foi uma daquelas raras mentes lúcidas a conseguir conjugar erudição maçónica com uma integridade e coerência de ideias.
O meu interesse por Reghini foi despertado pela leitura deste conjunto de cartas escritas por Guénon ao maçon italiano, que a Symbolos disponibilizou online aqui.
Gostaria de escrever sobre tantos e tantos aspectos interessantes levantados pela leitura da prosa de Reghini, mas tendo que escolher um, eu começaria por extrair, do capítulo III ("As bases espirituais da Maçonaria", pág. 48), o seguinte, a propósito da nefasta infiltração do conceito moderno de "progresso" nos ideais maçónicos:
"Notamos, «en passant», que esta crença no progresso, muito profana e não contemplada nas Constituições de Anderson nem nos antigos Landmarks, se radicou curiosamente em certas Maçonarias, acostumadas a pedir luz ao mundo profano, ao invés de à sabedoria iniciática. Já nas Constituições do Grande Oriente de França, de 1849, a Maçonaria é definida como uma instituição filantrópica, filosófica e progressista que tem como base a existência de Deus e a imortalidade da alma. Como é sabido, justamente pela fé no progresso e nas conquistas do livre pensamento e da ciência profana é que os Franco-Maçons franceses atiraram ao mar, com maioria de votos, o Grande Arquitecto do Universo e a imortalidade da alma, para ficarrem arreigados ao não louvado fetiche do progresso; e na conferência de Genebra de 1921, na qual participaram sete ou oito Potências simbólicas, entre as quais os dois Grandes Orientes irregulares de França e de Itália (Pallazzo Giustiniani), foi proclamada e subscrita uma declaração de princípios que define a Maçonaria como instituição filosófica, humanitária, progressista. A declaração depois especifica que se preocupa com o progresso social, porque a Maçonaria honra igualmente o trabalho intectual e o manual, etc., etc..
Estes Franco-Maçons, como autênticos Livres Pensadores, sentir-se-iam mal dos intestinos se tivessem de renunciar a esta crença no progresso. E a ideia que formaram consolida-se, granítica, imutável, estacionária, incapaz do mínimo... progresso!"
(publicado na revista Rassegna Massonica, em 1923)
Agora, alguns esclarecimentos...
A dureza da linguagem de Reghini não deve iludir o leitor sério, que encontrará nesta obra inúmeros e vitais ensinamentos sobre a Maçonaria genuína, essa espécie tão rara que quase se pode declarar em extinção. Reghini não era um mangiapreti, ou seja, um "papa-padres", como tantos outros maçons do seu tempo.
Claro está que, sendo católico, este meu texto pode parecer estranhíssimo e desadequado. Explico porque não é: gosto bastante das temáticas maçónicas, acho o simbolismo maçónico muito rico e profundo, e apesar de não ser maçon, nem pensar vir a ser (sendo católico, está-me vedado), detesto a ligeireza com que se ataca hoje em dia o conceito de Maçonaria, triste sinal de uma tremenda falta de conhecimento sobre o tema (que a obra de Reghini pode ajudar a corrigir, nas pessoas bem intencionadas e verdadeiramente interessadas) bem como detesto a corja de falsos maçons que enchem hoje em dia a esmagadora maioria das lojas, corja essa à qual Reghini (com a competência que eu não tenho) alude, com grande e justa precisão de vocabulário.
Para terminar, escolhi este excerto porque evidencia outro dos meios intelectuais que foram infestados por esta moderna crença no progresso: o meio iniciático da Maçonaria.
A crença no progresso entrou basicamente em todo o lado. Parece ser o resultado, no domínio sociológico, de um casamento estranho das teorias evolucionistas emanadas das ciências naturais com um milenarismo apocalíptico decadente e confuso (este "casamento" parece despropositado, mas o historiador Jean Delumeau fornece pistas mais que suficientes no seu livro "Mil Anos de Felicidade"). Esta crença no progresso é uma virose alojada, e que dificilmente sai, apesar de termos acesso todos os dias a sinais mais que evidentes de que tal progresso não existe. Só para dar um exemplo: no século que se seguiu à invenção das ideias progressistas, o mundo assistiu a duas grandes guerras mundiais...
Parece-me justo afirmar que a Maçonaria tem como fim, nas mentes dos seus membros mais sinceros e honestos, o aperfeiçoamento do maçon como ser humano. Do que li de Reghini não devo estar equivocado na definição, pelo menos na essência. Esse aperfeiçoamento individual (escrevi individual e não solitário, porque o maçon trabalha na Loja com os restantes irmãos), com o passar dos tempos e a infiltração de ideais jacobinos (e tantas vezes anti-católicos), passou a ser confundido com o professar de uma crença no progresso imparável da Humanidade! E Reghini encontra, tão cedo como em 1849, indícios desta infiltração!
Na História da Humanidade encontramos progressos e retrocessos, numas áreas e noutras. Haverá bases suficientes para se poder afirmar, em rigor, que a Humanidade progride sempre, sem parar?
Faz sentido, a crença moderna no progresso?
Não servirá esta ideia gratuita do progresso absoluto uma arma de arremesso do laicismo materialista (agora dominante) contra a intelectualidade do passado (considerada "caduca" ou "primitiva", ou ainda "antiquada")?
E não é curioso notar que os visados por esta infiltração de ideias (dir-se-ia eufemisticamente, por esta "mudança de paradigma") foram, não só as religiões organizadas como também organizações iniciáticas como a Maçonaria, onde podemos notar a presença infestante e destruidora destes ideais jacobinos?
Aqui fica a ideia para que se medite sobre ela...
Bernardo
segunda-feira, 6 de dezembro de 2004
Reflexão guénoniana
Não escondo a minha grande admiração pela obra de René Guénon (1886-1951). Obra essa que, como alguns saberão, é infelizmente usada de forma totalmente inadequada por alguns carequinhas germanófilos acéfalos das nossas (e de outras) bandas.
Precisamente porque se trata de uma obra incompreendida e muito mal empregue, convém desmistificá-la e trazê-la à luz. Na minha opinião, são poucos os autores ocidentais tão lúcidos quanto Guénon no século XX.
Irei começar, de tempos a tempos, a publicar pequenos excertos das suas obras. Trata-se de um autor pouco traduzido. Em português, dispomos apenas de três obras, hoje raras e difíceis de encontrar: "A Crise do Mundo Moderno", "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos", "O Rei do Mundo". Vou, por isso, retirar os trechos de uma série de traduções para espanhol, acessíveis em formato electrónico (não preciso de teclar!) no site "Textos Tradicionales".
A reflexão guénoniana de hoje é sobre a vulgarização:
"Nos es menester todavía insistir sobre un punto que no hemos abordado más que incidentalmente en lo que precede: es lo que podría llamarse la tendencia a la «vulgarización» (y esta palabra es también una de aquellas que son particularmente significativas para describir la mentalidad moderna), es decir, esa pretensión de ponerlo todo «al alcance de todo el mundo» que ya hemos señalado como una consecuencia de las concepciones «democráticas», y que equivale en suma a querer rebajar el conocimiento hasta el nivel de las inteligencias más inferiores. Sería muy fácil mostrar los inconvenientes múltiples que presenta, de una manera general, la difusión desconsiderada de una instrucción que se pretende distribuir igualmente a todos, bajo formas y por métodos idénticos, lo que, como ya lo hemos dicho, no puede desembocar más que en una suerte de nivelación por abajo: ahí, como por todas partes, la cualidad es sacrificada a la cantidad. Por lo demás, es verdad que la instrucción profana de que se trata no representa en suma ningún conocimiento en el verdadero sentido de esta palabra, y que no contiene absolutamente nada de un orden que sea un poco profundo; pero, aparte de su insignificancia y de su ineficacia, lo que la hace realmente nefasta, es sobre todo que se hace tomar por lo que no es, que tiende a negar todo lo que la rebasa, y que así asfixia todas las posibilidades que se refieren a un dominio más elevado; puede parecer incluso que esté hecha expresamente para eso, ya que la «uniformización» moderna implica necesariamente el odio de toda superioridad." - René Guénon, "El reino de la cantidad y los signos de los tiempos" (1945).
sábado, 20 de novembro de 2004
Os falsos mistérios da Última Ceia
Andava à procura de um site, há muito tempo, que explicasse mais alguma coisa sobre a questão dos detalhes da Última Ceia.
Encontrei um site interessante:
http://www.lamelagrana.net/%C2%A5_letture/letture05/A001/A00011.html

Neste site italiano, encontramos a explicação para a tal "mão cortada", que toda a gente agora diz que é de ninguém, e que supostamente "flutua no ar". O site italiano mostra claramente que existe um estudo preliminar de Leonardo, onde se vê bastante bem que a mão não é flutuante, e que pertence ao apóstolo S. Pedro.
A questão da faca é uma falsa questão:
a) ela tem dono (S. Pedro): o sketch de Leonardo prova-o;
b) ela tem uma razão de ser simples: S. Pedro estava a comer, e a faca dá jeito para comer;
c) ela tem uma razão mais complexa: a faca nas mãos de S. Pedro é uma prefiguração da espada que S. Pedro vai usar para cortar a orelha ao servo do Sumo Sacerdote, nos jardins de Getsemani, aquando da prisão de Jesus.
Q. E. D.
(será que é desta??)
P.S. (este PS é post scriptum, e não prioratus sionis!): Para os mais teimosos, dêem uma leitura rápida ao texto do arquitecto italiano Diego Cuoghi, disponível neste site:
http://www.renneslechateau.it/index.php?id=2&url=studi_cuoghi.php
Encontrei um site interessante:
http://www.lamelagrana.net/%C2%A5_letture/letture05/A001/A00011.html

Neste site italiano, encontramos a explicação para a tal "mão cortada", que toda a gente agora diz que é de ninguém, e que supostamente "flutua no ar". O site italiano mostra claramente que existe um estudo preliminar de Leonardo, onde se vê bastante bem que a mão não é flutuante, e que pertence ao apóstolo S. Pedro.
A questão da faca é uma falsa questão:
a) ela tem dono (S. Pedro): o sketch de Leonardo prova-o;
b) ela tem uma razão de ser simples: S. Pedro estava a comer, e a faca dá jeito para comer;
c) ela tem uma razão mais complexa: a faca nas mãos de S. Pedro é uma prefiguração da espada que S. Pedro vai usar para cortar a orelha ao servo do Sumo Sacerdote, nos jardins de Getsemani, aquando da prisão de Jesus.
Q. E. D.
(será que é desta??)
P.S. (este PS é post scriptum, e não prioratus sionis!): Para os mais teimosos, dêem uma leitura rápida ao texto do arquitecto italiano Diego Cuoghi, disponível neste site:
http://www.renneslechateau.it/index.php?id=2&url=studi_cuoghi.php
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