Ontem assisti, na RTP-N, a um interessante debate acerca da omnipresente obra polémica da Dan Brown. Foi um debate que me perturbou profundamente, sobretudo pela forma como a Professora Helena Barbas nele participou.
Assim, escrevo esta carta aberta à Professora Helena Barbas, pedindo-lhe que me elucide sobre certas questões que me ficaram no espírito durante e após o visionamento do dito debate. Com esta missiva, não tenho qualquer pretensão de provar o que quer que seja, apenas desejo manifestar publicamente as minhas dúvidas, aguardando ser esclarecido.
Exma. Senhora
Prof. Helena Barbas,
Manifestando desde já todo o respeito pelo seu estatuto de docente universitária, e em consideração pelo seu conhecido e reconhecido trabalho académico, venho por este meio, humildemente, comunicar-lhe algumas dúvidas que tenho acerca daquilo que disse no debate conduzido ontem, dia 24 de Maio, em directo no canal RTP-N acerca do livro de Dan Brown, "O Código da Vinci".
Apenas dependendo da minha memória, irei apontar as suas afirmações que me intrigaram, esperando ser fiel na sua reprodução:
A) Sobre a datação dos Evangelhos
Pareceu-me ter ouvido a senhora Professora afirmar que os Evangelhos Canónicos seriam largamente posteriores ao tempo de Jesus; se bem entendi, a senhora Professoria teria afirmado que o mais antigo dos evangelhos dataria de sessenta anos após a morte de Jesus; no entanto, tenho presente outros dados diferentes acerca da datação dos evangelhos. O Evangelho de São João, esse sim considerado o mais tardio, teria sido composto por volta dos anos 90-100 d.C., ou seja, mais ou menos sessenta anos após a morte de Jesus. Mas esse seria o mais tardio!
Em primeiro lugar, a senhora Professora saberá certamente que os Evangelhos ditos de Lucas, Marcos, Mateus e João não são vistos pela Igreja como tendo sido, necessariamente, escritos por estes autores. Pelo que a minha argumentação de antiguidade e historicidade será baseada no conteúdo destes textos, mais do que sobre a materialidade dos textos na forma escrita.
Este é um ponto importante: independentemente do escriba, da pessoa que os materializou pela primeira vez, o conteúdo destes textos respeitaria a tradição oral atribuída a Mateus, Marcos, Lucas e João. A palavra grega "kata", ou seja, "segundo" é aqui essencial: deve-se dizer "Evangelho Segundo S. Lucas", "Evangelho Segundo S. Marcos", etc., marcando claramente que se procura autenticar não tanto o autor físico e material dos textos (o escriba), mas sobretudo o seu inspirador. A tradição oral pré-existe à escrita e não pode ser desprezada do ponto de vista histórico, visto que há ampla evidência do seu relevo na tradição da Igreja. Bastaria recordar, mas não a desenvolverei aqui porque nos levaria demasiado longe, a essencial questão da "disciplina do arcano" e a influência desta no património doutrinal cristão (1).
Apenas para se obter um termo de comparação, a senhora professora saberá certamente que uma boa parte da tradição judaica se transmite por via oral, pelo que não é improvável que, nos primeiros séculos, os cristãos tivessem usado uma estrita e rigorosa tradição oral, pelo recurso à prática da memorização e repetição de textos de grande dimensão.
Posto isto, eis o que pude aprender acerca destes Evangelhos...
Sobre S. Mateus, é complicada a questão acerca de se saber se o texto original seria em aramaico e a versão grega seria posterior, ou se seria ao contrário. À parte destas questões, que são importantes certamente, a datação deste evangelho é maioritariamente consensual na escolha da década de 60 d.C. como a data mais tardia. Não encontro sustentação académica para as datações posteriores a esta década, conforme consta na obra de certos críticos (Weiss and Harnack datam em 70-75; Renan em 85, Réville, entre 69 e 96, Jülicher, entre 81 e 96, Montefiore, entre 90-100, Volkmar, em 110; Baur entre 130 e 34), de forma puramente conjectural, supondo que quando Jesus fala profeticamente acerca da perseguição aos cristãos isso seria prova de que a perseguição aos cristãos no primeiro século já teria ocorrido. Ou seja, a datação é feita por conjectura e não com base em dados mais concretos de estilística, análise lexical ou pelo cruzamento deste evangelho com os restantes.
Sobre São Marcos, a tradição cristã, pela via de autores bastante antigos e respeitáveis como Eusébio, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano, Santo Ireneu de Lião, e muitos outros, estabelece como altamente provável a tese de que este evangelista teria recebido os ensinamentos directamente de São Pedro, o que daria um cunho fortíssimo de historicidade e antiguidade a este evangelho.
Sobre S. Lucas, sabe-se que seria um grego (atestado pela análise da sua escrita - ele é também visto como o autor dos Actos dos Apóstolos) natural de Antioquia (Eusébio atesta-o nas sua História Eclesiástica - Livro III, iv, 6, e nas suas "Quæstiones Evangelicæ", IV, i, 270). Ao longo dos Actos dos Apóstolos, penso que se encontra ampla base para se supor que Lucas seria companheiro de São Paulo.
Sobre o Evangelho de São João, cuja historicidade é amplamente negada fora da Igreja Católica (chegando também a ser negada, dentro da Igreja, pelo modernista Loisy e por outros da mesma corrente), é difícil ter conclusões seguras na sua datação. A Igreja, baseando-se na tradição oral apostólica e na coerência doutrinal deste evangelho com os restantes três, mantém, por respeito a essa tradição, que o autor deste texto é o mesmo apóstolo S. João, o "discípulo amado".
Seja como for, o único evangelho que pode ser atribuido com segurança aos ditos sessenta anos após a morte de Jesus, como referiu a senhora Professora, parece-me ser o de São João, sendo que os restantes três seriam anteriores.
Para terminar, e esperando que a senhora Professora não partilhe desta tese "browniana", os textos canónicos não resultaram da política nem da escolha do imperador romano Constantino, uma vez que o Codex Muratori (datado de aproximadamente 180 d.C.) já traz uma compilação de textos muito próxima do actual Novo Testamento.
B) Sobre o Concílio de Niceia
Escutei, com grande espanto, a senhora Professora afirmar que a Igreja Católica, ao tempo do Concílio de Niceia (325 d.C.) teria sido constituída como instituição precisamente graças a este concílio, tendo tido a sorte de surgir, no meio das várias "seitas cristãs" (expressão sua, julgo eu), como a corrente considerada ortodoxa. Assim, graças a Constantino, a doutrina cristã oficial teria sido protegida por este imperador, e após ser retirada do universo das seitas e elevada à condição de ortodoxia, teria rotulado todas as restantes seitas de heterodoxas.
Antes de principiarmos, queria recordar a obra de Henri Lassiat, La Jeunesse de l'Église: la foi au IIe siècle (1979), referida por Jean Borella (ver nota no final do texto). Borella, o reputado filósofo francês especialista em cristianismo, afirma que Lassiat demonstra de forma "irrefutável" a existência de amplos testemunhos de que existia uma "regra de Fé" pré-Niceana, o que prova que a doutrina já estava bem definida (não na forma de um texto escrito, mas sim transmitida oralmente) entre os anos 100 e 200 d.C., o que inviabiliza a tese de que Constantino, ou mesmo o Concílio de Niceia, teria pervertido o legado crístico.
Pelo que a alegação da senhora Professora, no que diz respeito ao carácter de "seita" dos defensores da doutrina fixada formalmente em Niceia me parece ser uma alegação com pouco suporte documental. Se eu estiver a interpretar incorrectamente as suas afirmações, por favor, aponte-me as incorrecções, pois estou apenas a comentar com base na memória do que ouvi ontem.
Aproveito para fazer um parêntesis acerca do conceito de "dogma". É uma ideia frequentemente generalizada encarar os dogmas como uma criação exclusiva do Concílio de Niceia, e que estas formas autoritárias e rígidas seriam uma perversão do legado de Cristo. A História prova que esta ideia é falsa. A palavra grega "dogma", que significa "decreto", aplica-se desde as mais remotas origens do cristianismo às chamadas "verdades de Fé". Para vermos que não se tratam de imposições de carácter autocrático nascidas em Niceia, é importante saber qual era, e qual é, o significado genuíno destes "dogmas", ou seja, destes "decretos da fé cristã".
É útil recordar, como menciona Jean Borella, o legado de São Basílio de Cesareia, bispo da dita cidade, irmão de São Gregório de Nissa e amigo de São Gregório de Naziano. É que a obra de São Basílio é uma das mais importantes evidências da antiguidade da dita "disciplina do arcano": ou seja, falamos do preservar, sob a protecção do silêncio, as "verdades da fé", não só dos pagãos não baptizados, mas também dos catecúmenos, ou seja, dos "pré-cristãos" que aguardavam o baptismo e que para ele se preparavam longamente.
Nos primeiros séculos, ainda longe da generalização da prática do pedobaptismo, a administração deste sacramento (a palavra "sacramentum" é a fiel tradução latina do grego "mystérion", não esquecer) culminava um longo percurso de preparação, que hoje em dia ainda subsiste, chamado de "catecumenado". Ora a obra de São Basílio (destacando o "Tratado do Espírito Santo") explicita de forma clara a distinção entre o "dogma" e a "kérigma" ("proclamação"): aos não baptizados, estava vedado o conhecimento dos dogmas, ou seja, das verdades de fé. Assim, os primeiros pastores da Igreja, quando falavam publicamente, guardavam rigorosamente a "disciplina do arcano", vedando às plateias não preparadas (não baptizadas), a revelação da essência da fé, ou seja, dos dogmas. Nestes tempos muito recuados, sempre que falavam publicamente, os sacerdotes e os bispos usavam os "kérigmata", ou seja, "proclamações" públicas que evitavam a revelação generalizada das verdades písticas centrais ao cristianismo.
Assim, vemos que o significado da palavra "dogma" tem sido mal compreendido e mal estudado, visto que na origem revela algo cuja natureza é, surpreendentemente, mais "esotérica" do que se imaginaria, ou seja, de carácter mais interior e reservado do que se suporia.
Distinguindo "dogma" como algo de interior, de "kérigma" como algo de exterior, parece-me que não poderemos fazer leituras simplistas acerca do fenómeno de Niceia como se se tratasse de uma ditatorial e autoritária definição de regras que perverteriam o legado de Jesus Cristo para favorecer o Império e a Igreja.
Fechando este parêntesis, cara Professora Helena Barbas, sintetizo a minha dúvida deste modo: como é possível sustentar que não existia, desde o final do século I, uma regra de fé cristã bem solidificada, transmitida quase exclusivamente por via oral (os "dogmata" protegidos pela "disciplina do arcano"), que se manteria inalterada na sua essência até Niceia, quando em 325 d.C., os bispos cristãos reunidos em concílio decidiram formalizar a dita regra de fé no chamado Símbolo de Niceia?
É, até, curioso notar que a necessidade de formalização da fé neste primeiro concílio não nascera por vontade primordial da Igreja Católica mas sim como reacção ao fenómeno ariano, que naquele tempo alastrava com vigor. Vendo bem, atentando aos relatos que chegaram aos nossos dias, constatamos que fora o espírito filosófico grego imbuído na personalidade de Ário que o fizera procurar uma formulação metafísica nítida e clara para a relação entre o Pai e o Filho. Niceia é a reacção do mundo cristão à difusão generalizada das ideias metafísicas muito pessoais do próprio Ário. Essa reacção explica-se, na minha modesta opinião, pelo simples facto de que quem conhecia profunda e interiormente o legado apostólico, transmitido por via oral, via que as ideias de Ário, por muito "claras" que fossem, não eram compatíveis com o dito legado.
Mas tentemos ir à profundidade, dentro do possível, das motivações de Constantino: o imperador procurava, julga-se que suportado pelo Papa Silvestre I, juntar a Cristandade na definição clara da sua doutrina em Niceia, porque Constantino queria uma fé oficial sólida para o Império. O que o motivava era a união dos seus súbtidos sob uma mesma doutrina, fosse ela qual fosse, procurando o Imperador sempre aquela doutrina que pudesse gerar maior consenso, visto que a verdade acerca da mesma era algo que possuia para ele interesse secundário.
O Imperador não está dentro das subtilezas teológicas da questão: para Constantino, pouco importa o "homoousion" ou outras minúcias do género. A prova disso está no facto, que eu não vi a senhora Professora referir, de que poucos anos após ter promovido Niceia, Constantino estava activamente a promover a doutrina ariana: após 333, Constantino chama de volta os bispos arianos exilados e une os seus esforços a Ário. Esta reacção de Constantino, de verdadeiro retrocesso à sua política de protecção ao Concílio de Niceia, vai gerar consequências durante quase um século: toda a Europa, graças às políticas pró-arianas de Constantino, vai cair sob o fascínio desta heresia. Recordemos que é no ano de 358 que o exilado Papa Libério será obrigado a assinar uma profissão de fé muito duvidosa no dito Concílio de Sírmio. Mesmo depois do Concílio de Constantinopla (381), a europa permanecerá ariana durante muito tempo, em consequência deste verdadeiro volte face do Imperador, que infelizmente tão poucos comentadores modernos referem. Os Visigodos permanecerão arianos até ao baptismo de Clóvis no final do século V. Os Lombardos atrasarão o abandono do arianismo até meados do século VII.
Sinceramente, perante os factos históricos, não sei como é que se mantém, sem ser anacronicamente, a ideia de uma Igreja Católica escolhida de entre as seitas, e fortalecida graças à protecção de Roma.
C) Sobre as origens gnósticas da mortificação corporal
Fiquei surpreendido ao ver que a senhora Professora partilhava da opinião de que a penitência e o sofrimento corporal voluntários seriam algo de estranho ao cristianismo, encontrando as suas raízes no gnosticismo e no maniqueísmo. É inegável que a doutrina gnóstica considerava que a Criação era a obra maligna de um demiurgo, e que a matéria era intrinsecamente má. Contudo, é também inegável que essa era uma das principais razões pelas quais o cristianismo combateu o gnosticismo. Esse repúdio, essa malignidade da Criação, estavam (e estão) em total contradição com a tradição cristã e judaica (basta pensarmos no Génesis, por exemplo).
A tendência para uma valorização negativa da matéria sempre existiu no cristianismo, mas a sua génese nada tem de gnóstico! É pela noção do transcendente, pela elevação da condição espiritual acima da condição humana, que se pode abrir caminho para uma certa relativização da condição material, não enquanto maligna, mas enquanto inferior ao transcendente.
A abundância de exemplos da prática do ascetismo, a generalização dos testemunhos de eremitas e de vidas cristãs de grande penitência corporal, está presente no cristianismo desde as origens. O próprio martírio dos cristãos nas arenas romanas era já um bom exemplo desta entrega da vida às mãos dos carrascos romanos pela glória da defesa de uma verdade que transcendia este Mundo.
A mortificação corporal (nem sempre "auto-flagelação" como me pareceu que o debate de ontem pretendia concluir) não é uma prática do Opus Dei, mas sim do cristianismo desde sempre.
Não será, certamente, uma prática recomendada, mas ao mesmo tempo nunca tal prática se poderia condenar, desde que, dentro de certos limites, fosse mantido um respeito pelo corpo que impedisse a sua morte prematura (o que seria "contra natura").
Espero que concorde comigo quando aponto a diferença, cara Professora, entre o "endura" cátaro, a prática ultra-ascética do suícidio pela privação de alimentação, e o que a tradição cristã conta acerca, por exemplo, de um Santo Antão ou de outros santos que viveram como eremitas, alimentando-se de forma precária, procurando imitar Cristo (recordemos a estadia de Cristo no deserto) mas sem nunca procurar a gnóstica libertação da carne!
Para terminar, interrogo-me porque razão a senhora Professora não teria tido presente, no debate de ontem, uma evidência contrária às suas afirmações. Em S. Francisco, aliás, em toda a tradição franciscana, é difícil negar a presença da penitência corporal por via da privação dos bens e dos luxos da vida terrena. Ora, existirá hino mais anti-gnóstico, mais contrário à heresia gnóstica, do que o Cantico delle Creature, de São Francisco de Assis (2)?
Há, no cristianismo, um convívio generalizado com a penitência corporal, que também encontra raízes judaicas por via do jejum. Este convívio foi praticado e defendido sem qualquer relação causal com a heresia gnóstica. A mortificação corporal encontra a sua razão de existir na vontade, puramente pessoal, de certos crentes se identificarem com a Paixão de Cristo pela via do desconforto ou da penitência do próprio corpo, não porque este seria maligno, mas sim porque Cristo teria passado pelo mesmo tipo de situação,
É inegável que existiram, ao longo dos dois mil anos de história da Igreja Católica, vários exemplos de excesso, vários testemunhos de cristãos que levaram demasiado longe a relativização do corpo face ao espírito, e que, numa tentativa de fugir das "tentações da carne", procuravam na auto-flagelação uma solução para evitar cair em pecado. Este é, certamente, um caso de desvio do cristianismo, visto que de acordo com o legado cristão, o pecado resulta de uma decisão voluntária do Homem e não da malignidade do seu corpo, como defenderiam os gnósticos.
Conclusão: a mortificação corporal, como forma de imitação do sofrimento físico de Cristo, encontra o seu lugar na tradição cristã, sendo uma prática puramente pessoal, decidida e vivida opcionalmente na interioridade espiritual de cada um. A mortificação corporal como forma de expiação dos pecados é algo de excessivo e de seguramente posterior aos primeiros séculos do cristianismo, associando-se sobretudo à Idade Média e a um ambiente psicológico e social que a senhora Professora conhecerá certamente melhor do que eu, ao qual não é estranha a influência dos quiliasmos e dos sentimentos apocalípticos aliadas à vivência difícil de alguns dos séculos mais duros na História da Europa.
Falhando-me a memória para poder criticar outras afirmações proferidas pela senhora Professora Helena Barbas no referido programa televisivo, despeço-me com elevada consideração e respeito, não querendo de forma alguma manchar ou atacar a sua reputação académica, mas procurando sobretudo obter o esclarecimento das afirmações que aqui apontei e critiquei.
Com estima,
Bernardo Sanchez da Motta
(1) Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, Delphica, 1997, Lausanne.
(2) Ver o texto completo desta composição de São Francisco aqui: http://www.crs4.it/Letteratura/CanticoCreature/CanticoCreature.html
Nota: consultei amplamente, na redacção deste texto, a enciclopédia católica on-line "New Advent", em http://www.newadvent.org
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
quinta-feira, 25 de maio de 2006
quarta-feira, 28 de dezembro de 2005
Luz

«Jacob saiu de Bersabé e tomou o caminho de Harran. Chegou a determinado sítio e resolveu ali passar a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se de uma das pedras do lugar como travesseiro e deitou-se. Teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu; e ao longo desta escada subiam e desciam anjos de Deus (...). Despertando do sono, Jacob exclamou: «O Senhor está realmente neste lugar e eu não o sabia!» Atemorizado, acrescentou:
«Que terrível é este lugar! Aqui é a casa de Deus, aqui é a porta do céu.» No dia seguinte, de manhã, Jacob agarrou na pedra que lhe servira de travesseiro, e, depois de a erguer como um padrão, derramou óleo sobre ela. Chamou a este sítio Betel, quando, originariamente, a cidade se chamava Luz.», Livro do Génesis, 28, 10-19.
Luz.
Uma pequena palavra de três letras...
Ao ler o livro do Génesis, o leitor português imagina que o nome do local onde dormiu Jacob foi aportuguesado, ou seja, que no texto original iria encontrar a palavra hebraica para "luz". Ora bem, engana-se se assim pensa. No original, a palavra hebraica é mesmo "luz". Privilégio sublime da língua portuguesa (e "coincidência" para os tolos que se recusam a ver o óbvio carácter messiânico de Portugal)!
Em qualquer texto verdadeiramente revelado, nada existe por acaso. Os rabis ensinam que nem uma só letra da Torah pode ser mudada, sob pena de todo o texto colapsar em pó. O pensamento tradicional defende que os nomes das coisas, dos lugares, das pessoas, dos objectos, estão intimamente associados à sua essência.
No relato genesíaco, Adão, antes da Queda, vivia em comunhão com Deus, e partilhando da luz divina, conhecia as coisas criadas na sua essência. Deste modo, Adão deu os nomes aos animais e às plantas.
Os nomes por ele escolhidos não eram escolhas ocasionais, movidas por impulsos fantasiosos. O poder de Adão para nomear todas as criaturas vinha-lhe do poder que Deus lhe deu para conhecer as essências das coisas criadas. O homem caído, o homem do Pecado Original, já não tem essa faculdade que tinha o homem primordial.
Deste modo, o autor de um texto revelado, homem caído como todos nós, partilha de um conhecimento imediato, que lhe vem de Deus e não de si, não reflexivo mas intuitivo, por vezes inexprimível (a palavra "mistério", de origem grega, é sobretudo o inexprimível, e não o incompreensível como erradamente se costuma julgar), acerca de uma dada coisa ou criatura. O episódio do sonho de Jacob, um dos mais belos e profundos da literatura veterotestamentária, é disso prova viva.
"Betel", chamou Jacob àquele lugar. "Beth-El", a "Casa de Deus".
Como vemos, Jacob escolhe um nome adequado ao local. Porque nessa noite, Jacob esteve num lugar santo.
O termo hebraico que designa a presença real da divindade no meio de nós é "shekinah". A shekinah é a presença de Deus no mundo. A sarça ardente, avistada por Moisés, foi shekinah, assim como o Santo dos Santos do antigo Templo judaico, onde se dizia que, na mais profunda escuridão, Deus Se manifestava sobre a Arca da Aliança, por entre as asas douradas dos querubins.
Durante o seu sonho, Jacob vê uma escada, símbolo do "axis mundi", o Eixo do Mundo, por onde sobem e descem aquelas criaturas sobre-humanas e infra-divinas, os anjos. De acordo com o simbolismo tradicional, sempre que o Eixo do Mundo cruza o plano da Criação, pode-se afirmar que esse ponto desempenha a função de shekinah, sendo neste mundo como que a "porta do Céu". Reconhecendo o carácter único daquele local, Jacob verte o óleo sobre a pedra, entretanto tornada sacra pela presença de Deus ("beth-el").
Com base neste episódio, os antropólogos e os mitólogos banalizaram o termo "bétilo" para designar, em geral, uma "pedra santa". A Kaaba, em Meca, é um outro exemplo bem conhecido de um bétilo.
Mas onde quero eu chegar?
À palavra "luz", que segundo o Génesis era o nome antigo da uma misteriosa cidade perto da qual Jacob teve o sonho.
Ora sucede que "luz" é também, em hebraico, a palavra que designa o fruto da amêndoa, bem como a árvore, a amendoeira. Dizem as lendas hebraicas que, precisamente neste local chamado Luz, existia uma amendoeira cujas raízes ocultavam um subterrâneo. Este subterrâneo ocultava, por sua vez, uma passagem secreta que conduzia à cidade de Luz, que se dizia jazer sob a terra, num local inacessível.
Nada disto é muito surpreendente, uma vez que a amêndoa oculta o seu fruto dentro de uma casca dura, o que reforça a ideia de inviolabilidade já existente na lenda sobre a cidade de Luz.
Dizem também as mesmas lendas que, contra esta cidade de Luz, o Anjo da Morte nada podia. Vejamos de seguida porquê...
O misticismo judaico dá também o nome de "luz" à pequena parcela do indivíduo humano onde a alma, após a morte, se vai refugiar. Note-se que não se trata aqui de um lugar físico, mas sim de um "lugar psíquico" (recordemos que, em grego, "psyché" significa "alma"), se é que se pode usar uma expressão como "lugar" num domínio extra-espacial e subtil como é o da alma.
Vemos então que, para os judeus, o Anjo da Morte nada podia contra a "Cidade de Luz", porque era o refúgio da alma humana após a morte para o homem temente a Deus. A morte separava o corpo perecível da alma, mas esta, imperecível, refugiava-se nesta região chamada "luz", que representava assim, verdadeiramente, a "Porta do Céu".
O simbolismo é poderoso: a alma que vivifica o corpo humano durante a vida corpórea "anima-o" e permite a este desenvolver-se em todas as suas potencialidades. A alma é individual, mas tem a sua origem e destino na "luz" divina, essa centelha que jaz no mais profundo dos nossos seres. Muitos confundem alma com espírito, sem ver que aquela está entre este e a matéria corpórea. É a alma que nos define como indivíduos, porque se reveste de uma forma, ao invés do espírito, que é por natureza informal. A alma é indestrutível, porque após a morte, extintas todas as possibilidades da vida humana neste mundo, se recolhe de volta à luz de onde veio. Ali, cada alma aguarda o final dos tempos, a dissolução dos "séculos" em cinzas ("solvet saeclum in favilla", como ensina a liturgia católica do na missa de requiem), altura em que, revestida do corpo glorioso, se poderá voltar a manifestar em todas as suas potencialidades.
A Natureza fornece-nos poderosas metáforas, como aquela apontada por Guénon, relativamente à passagem da lagarta a crisálida, e desta a borboleta: duas passagens análogas à morte física e à ressurreição da carne.
É frequente constatar alguma polémica sempre que se fala sobre a cremação dos mortos. Perguntaram-me, em tempos, se o catolicismo permitia a cremação dos mortos. É um facto que a permite, e a razão para esta permissão está intimamente ligada a esta crença na imortalidade da alma, que está presente na cultura hebraica, como na grega, na islâmica, na cristã ou mesmo na remota hindu.
O fogo da cremação nada pode contra a "cidade de Luz", contra esse "lugar psíquico" para onde a alma se retira em estado de não-manifestação após a morte. Sendo um "lugar" fora do espaço, não está sujeito à destruição pelo fogo.
A cremação em nada invalida a "ressurreição da carne", quando a semente nascida de luz que é a nossa alma regressar à manifestação por via de um novo corpo, desta vez glorioso porque perene e incorruptível.
É este o mistério da vitória sobre a Morte que está presente neste episódio de Jacob e no seu complexo e enigmático simbolismo.
Jesus nasce em Belém por altura do solstício de Inverno, quando as trevas são vencidas pela luz com o retorno do crescimento dos dias em termos de horas solares. Hoje em dia, está na moda retirar originalidade ao Natal cristão. Ao invés de procurarem, nas vozes da tradição cristã, os ecos de tradições hoje desaparecidas, os ignorantes procuram demonstrar uma suposta artificialidade do cristianismo, apresentando-o como um sucedâneo, uma cópia, um plágio, de várias tradições pagãs, como por exemplo, o mitraísmo.
São ignorantes, porque desconhecem a essência dos paralelismos que encontram (se bem que, muitas vezes, pura e simplesmente inventem paralelismos inexistentes). Esses paralelismos, os reais, não reflectem plágios.
Há concordância em vários aspetos entre o cristianismo e as restantes tradições espirituais da Humanidade que o precederam no ciclo histórico. Isso apenas reforça o facto de que o cristianismo não nega as ideias verdadeiras, nem os reflexos luminosos preservados por outras tradições antigas.
Mas o simbolismo cristão possui uma vida própria, uma autonomia notável inerente à sua Revelação.
Jesus nasce em Belém ("Beth-lehem", a "Casa do Pão"), porque agora é o Pão da Vida que representa Deus no meio de nós. Na Nova Aliança representada na figura de Jesus Cristo, a pedra sagrada de Betel cede o lugar ao pão sagrado.
É a Eucaristia, presença real do divino Cristo, que se torna, para os cristãos, na nova shekinah, a presença de Deus no meio de nós. Depois de nos darmos conta do surpreendente paralelismo entre "Beth-El" e "Beth-lehem", entre a "pedra" e o "pão", como é possível não manifestar surpresa perante uma releitura deste conhecido trecho de São Lucas?
Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-Se do Jordão e foi levado pelo Espírito para o Deserto, onde esteve durante quarenta dias e foi tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e quando eles terminaram, sentiu fome. Disse-Lhe o diabo:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem».
- São Lucas, 4, 1-4.
Jesus faz, de facto, a transformação das pedras em pão, a transformação de Betel em Belém, porque é o Seu Corpo que se torna presença de Deus no meio de nós ("Emmanuel", "Deus connosco"), suplantando de uma vez por todas a sacralidade dos bétilos da Velha Aliança, que era uma sacralidade menor, porque encontrava o seu suporte material nas substâncias inanimadas. Mas esta é uma transformação transcendente, que o Diabo tenta, como é sua marca, perverter num mero gesto de magia. "Nem só de pão vive o homem", diz Jesus, revelando que a verdadeira Vida é invisível, é aquela que é vivificada pelo "pão celestial", a Palavra de Deus, ao invés da vida humana e corpórea, que vive do pão terreno e que é meramente passageira.
Belém é, assim, a nova Betel, a nova Casa de Deus, e a nova Porta do Céu. É também por esta razão que se diz que os anjos acorreram a Belém, do mesmo modo paralelo a quando acorreram a Jacob durante o seu sonho. A shekinah é peregrina: Deus manifesta-Se onde bem entende.
Deus não tem morada fixa nesta Terra. Jesus, o Deus peregrino, nasce numa manjedoura.
E é visitado por pastores, que de todas as profissões humanas, é a que melhor representa o papel do nomadismo peregrino. A estrela de Belém apontou o caminho para o "axis mundi" aos Reis Magos (os representantes da Tradição que vêm honrar o Filho de Deus acabado de nascer), o local neste planeta onde, há dois mil anos, o Salvador se fez Homem, tornando-se presença de Deus na Criação.
Mas sobre os Reis Magos falarei daqui a uns dias, quando for mais apropriado...
Os meus estimados leitores materialistas e positivistas não darão grande valor a esta misturangada de termos, cegos como estão àquilo que é invisível aos olhos. Na minha linguagem deficitária e imperfeita, tentei transmitir um pouco do brilho luminoso e divino que vejo no Natal, uma tradição milenar que jaz na profundidade do ser humano e da sua rica experiência religiosa.
Será que apenas apontei aqui coincidências?
Jogos de palavras que por mero acaso suscitam paralelos ilusórios?
Ou tratar-se-ão dos reflexos de uma luz fugidia - refractada na imperfeição do meu entendimento limitado - uma luz que emana das entranhas da misteriosa cidade à qual os hebraicos chamavam Luz?
O pior cego é o que se recusa a ver, porque prefere as Trevas à Luz, escolhendo, sem o saber, a morte deste mundo à Vida do próximo.
Um óptimo Natal para todos!
Sim, porque a época do Natal só se conclui no Dia de Reis, não convém esquecer.
(simbolismo adaptado da obra de René Guénon, Le Roi du Monde, cap. VII - «Luz», ou le séjour d'immortalité, 1927)
quarta-feira, 31 de agosto de 2005
O Dhikr...
... é uma prática islâmica, mais concretamente sufi, de oração repetitiva e ritmada. O dhikr consiste na repetição sincronizada, feita por várias pessoas em simultâneo, do nome de Allah ou de uma das suas variantes.
Escutar a recitação de um dhikr é uma experiência única. Dos poucos que ouvi, gostei especialmente deste, que se chama Dhikr Kalwati (aqui dirigido pelo shaik Nazim, da tariqah Naqshbandi). Nesta gravação escutamos, durante muito tempo, a repetição da palavra allah em escalas descendentes.
O dhikr, mesmo sendo uma prática sufi (e portanto inserida na tradição islâmica) é perfeitamente análogo aos mantras hindus e a outras orações de tipo ritmado que se encontram em várias tradições espirituais pelo Mundo fora.
No cristianismo oriental, de tradição ortodoxa, encontramos algo de semelhante na prática do hesicasmo, a repetição ritmada do nome de Jesus. De forma mais ou menos ostinata, encontramos em quase todas as religiões conhecidas algum tipo de oração repetitiva. A prática da oração repetitiva é vista por muitos ateus e agnósticos como uma forma de inebriar massas de crentes ignorantes. Uma tal opinião é, ela mesmo, uma grosseira manifestação de ignorância. O que já é mais espantoso e grave é encontrar, nos dias que correm, crentes que minimizam a importância da oração (o que sucede muito no catolicismo moderno), ou que parecem não dar qualquer relevo a orações repetitivas ou ritmadas, sinal de que já lhes escapa o sentido profundo da importância do ritmo e do som na actividade espiritual.
Sigamos Guénon:
«(...) a [repetição da] palavra dhikr, que, no esoterismo islâmico se aplica a fórmulas ritmadas que correspondem exactamente aos mantras hindus, (...) tem por objectivo produzir uma harmonização de diversos elementos do ser, e de determinar as vibrações susceptíveis, pela sua repercussão através da série de estados, em hierarquia indefinida, de abrir uma comunicação com os estados superiores, o que aliás, de forma geral, é a razão essencial e primordial de todos os ritos» - René Guénon, La Langue des Oiseaux, artigo publicado em Le Voile d'Isis, Novembro de 1931.
Escutar a recitação de um dhikr é uma experiência única. Dos poucos que ouvi, gostei especialmente deste, que se chama Dhikr Kalwati (aqui dirigido pelo shaik Nazim, da tariqah Naqshbandi). Nesta gravação escutamos, durante muito tempo, a repetição da palavra allah em escalas descendentes.
O dhikr, mesmo sendo uma prática sufi (e portanto inserida na tradição islâmica) é perfeitamente análogo aos mantras hindus e a outras orações de tipo ritmado que se encontram em várias tradições espirituais pelo Mundo fora.
No cristianismo oriental, de tradição ortodoxa, encontramos algo de semelhante na prática do hesicasmo, a repetição ritmada do nome de Jesus. De forma mais ou menos ostinata, encontramos em quase todas as religiões conhecidas algum tipo de oração repetitiva. A prática da oração repetitiva é vista por muitos ateus e agnósticos como uma forma de inebriar massas de crentes ignorantes. Uma tal opinião é, ela mesmo, uma grosseira manifestação de ignorância. O que já é mais espantoso e grave é encontrar, nos dias que correm, crentes que minimizam a importância da oração (o que sucede muito no catolicismo moderno), ou que parecem não dar qualquer relevo a orações repetitivas ou ritmadas, sinal de que já lhes escapa o sentido profundo da importância do ritmo e do som na actividade espiritual.
Sigamos Guénon:
«(...) a [repetição da] palavra dhikr, que, no esoterismo islâmico se aplica a fórmulas ritmadas que correspondem exactamente aos mantras hindus, (...) tem por objectivo produzir uma harmonização de diversos elementos do ser, e de determinar as vibrações susceptíveis, pela sua repercussão através da série de estados, em hierarquia indefinida, de abrir uma comunicação com os estados superiores, o que aliás, de forma geral, é a razão essencial e primordial de todos os ritos» - René Guénon, La Langue des Oiseaux, artigo publicado em Le Voile d'Isis, Novembro de 1931.
sábado, 27 de agosto de 2005
Resposta às objecções do CA
O leitor CA, num comentário ao texto anterior, deixou uma série de objecções que sujeitarei agora a uma análise detalhada. Desde já, os meus agradecimentos pelo seu contributo construtivo para este complexo debate.
«Ponto I:
"o discípulo é o "aluno", que escuta a Palavra. O apóstolo é o "enviado", encarregado de espalhar a Palavra."
Seguindo o seu raciocínio deveria concluir que as mulheres hoje não são chamadas a espalhar a Palavra. Constato na prática que muitas mulheres espalham a Palavra (catequistas, missionárias, etc.). Assim parece-me que o raciocínio falha quando assume que, porque Jesus não escolheu apóstolas, a Igreja nunca o poderá fazer.»
Bela objecção, à qual deverei dar a mão à palmatória.
De facto, o meu raciocínio apresentava, neste aspecto, claras falhas. Não serve usar uma argumentação etimológica, uma vez que nem sequer é constante o uso, na própria Sagrada Escritura, do termo "apóstolo" para os doze. Por vezes, são chamados de "discípulos". E lembrei-me, entretanto, de outra objecção ao meu raciocínio: Maria de Magdala, a quem Jesus expulsara demónios, é a primeira testemunha da ressurreição, e como tal é ela a "enviada" junto dos restantes onze, quem lhes vai comunicar que o Mestre ressuscitou (cf. S. Lucas, 16, 9). Posto isto, a minha argumentação neste ponto cai por terra.
Contudo, e porque julgo estar certo na tese geral que estou a defender, tentarei contornar as dificuldades por mim criadas usando uma linguagem mais cuidadosa e argumentos bem mais fortes...
Há muita razão da parte do CA quando afirma que todos os cristãos são, de certo modo, "enviados", co-responsáveis pelo espalhar da Palavra.
No entanto, a meu ver, há uma nítida diferença: os onze (retirando Judas, que se enforca antes da morte de Cristo) sobrevivem à Paixão como o núcleo dos próximos do Messias e vêem-se desse modo revestidos de uma graça bem particular e especial. São "enviados" como serão todos os cristãos, mas a um nível qualitativamente diferente. Uma passagem profundamente significativa encontra-se no final de S. Lucas:
Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando estava convosco: Que era necessário que se cumprisse tudo quanto a Meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos».
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos ao terceiro dia, que havia de ser pregado, em Seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E eu vou mandar sobre vós O que Meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força lá do Alto. - S. Lucas 24, 44-49.
Há, claramente explícita, uma atribuição de dons interpretativos (diria mesmo, as chaves da hermenêutica sacra, que desde então estão na posse da Igreja) aos onze reunidos com o Jesus ressuscitado. Vejamos outro exemplo das Sagradas Escrituras, desta vez de S. João, exemplo este ainda mais claro de que há, nitidamente, uma diferença de estatura entre a profundidade espiritual da missão dos onze apóstolos e a dos restantes cristãos:
Na tarde desse dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se achavam juntos, com medo dos judeus, veio Jesus pôr-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz seja convosco». Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor. E Ele disse-lhes de novo: «A paz seja convosco» Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos». - S. João 20, 19-23.
São Marcos faz também coro neste ponto fulcral:
Apareceu, finalmente, aos próprios onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e obstinação em não acreditarem naqueles que O tinham visto ressuscitado. Depois, disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão aqueles que acreditarem: Em Meu nome expulsarão os demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se ingerirem alguma bebida mortífera, não sofrerão nenhum mal; imporão as mãos sobre os enfermos e eles recuperarão a saúde». - S. Marcos 16, 14-18.
Num ponto que se afigura tão importante, S. Mateus não poderia falhar na concordância com os restantes evangelistas:
Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-n'O; alguns, no entanto, duvidavam ainda. Aproximando-Se deles, Jesus disse-lhes: «Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra: Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo». - S. Mateus 28, 16-20.
Torna-se claríssimo, pela concordância dos quatro evangelistas, que é ponto doutrinal assente que os onze receberam do Jesus ressuscitado uma graça especial. S. João é explícito: os onze receberam o Espírito Santo, com a missão de, iluminados por Ele, espalharem a Boa Nova e realizar milagres em nome de Jesus.
A Boa Nova iria espalhar-se de boca em boca, sendo que todos os cristãos seriam convidados a fazê-lo. Contudo, aquele núcleo de onze homens, escolhidos por Jesus, seria o centro espiritual de onde emanariam todas as graças de Cristo e do Pai. Esse legado, essa herança deixada por Cristo aos Homens, está viva através dos onze primeiros da Sua Igreja. É um verdadeiro dom espiritual e é a fonte que vivifica espiritualmente a Igreja Católica, que honra desde então a sucessão apostólica a partir de Pedro.
Resumindo: não estavam mulheres presentes no Pentecostes. Não havia uma só mulher de entre os onze que foram investidos desta graça e desta missão especial.
Será que Jesus não valorizava as mulheres?
Supô-lo seria uma tolice: é uma mulher, Maria Madalena, a primeira testemunha humana da Ressurreição, que é o epicentro do cristianismo.
As Sagradas Escrituras não permitem outra interpretação: é nítido verificar que o vértice, a nascente espiritual da Igreja era constituida por onze homens investidos pessoalmente por Deus.
Negá-lo seria atentar contra a própria validade das Sagradas Escrituras.
Algo bastante normal para um não-cristão, mas algo de monstruoso para um cristão.
Aliás, por essa linha de raciocínio, não poderia haver apóstolos de raça negra, por exemplo. Porquê distinguir pelo sexo e não pela raça?
Esta objecção, sinceramente, CA, não percebi.
Apóstolos de raça negra? Mas Jesus e os doze apóstolos eram judeus. E na Palestina, naquele tempo, os judeus eram brancos. Existia (e ainda existe) na Etiópia uma pequena comunidade de judeus negros, mas isso nada tem a ver com a presente discussão. Os judeus da Palestina eram de raça semita, de pele branca.
Mas uma claríssima prova de que a Igreja não discrimina pela raça é o facto de a ordenação sacerdotal ser conferida a homens de qualquer raça.
Ponto II:
"Deus escolheu o sexo masculino para incarnar, logo qualquer função representativa, onde o símbolo de Cristo seja fundamental (como o é nos sacramentos), deve ser desempenhada por um homem."
Mais uma vez dá imensa relevância ao sexo. Ora não vejo em Jesus essa relevância explícita.
Apresentei-lhe referências extremamente explícitas para este facto simplicíssimo: Jesus escolheu onze homens para constituir a Sua Igreja. Sendo o homem diferente da mulher, Jesus fez desta distinção fundamental uma distinção de papéis no plano salvífico. Quando falei, no meu texto, da Eucaristia e do seu símbolo, fui bem claro na importância da "substância" ser compatível. Penso que consegui tornar claro a importância de ser um homem a presidir à Eucaristia, momento central da vida cristã.
Vemos que os evangelhos dizem que Jesus escolheu apenas homens mas não vejo Jesus a fazer referência ao sexo como algo de importante. Assim, a distinção do sexo como algo essencial parece-me mais uma insistência humana.
Não sei como insiste em não o ver, CA.
Pois que é bem claro que Jesus usou o género como um dos Seus critérios de escolha do grupo dos doze. Ou supõe que o facto de termos doze apóstolos todos homens seja um puro acaso probabilístico?
Ponto III:
"Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial é cumprida por homens."
Mais uma vez o sexo como distinção, indo agora buscar o Antigo Testamento, o que não acrescenta nada de novo.
Antes pelo contrário, CA, é um reforço muito forte. Significa que encontramos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial a ser desempenhada por homens.
Parece-me que os símbolos são feitos pelo homem, são essencialmente culturais. Se a sua objecção é apenas ao nível do símbolo, então pode certamente ser alterada.
A sua ideia de símbolo é totalmente materialista e antropológica.
Para mim, o símbolo é uma ponte de conhecimento divino, uma porta aberta para o transcendente. O símbolo é uma forma de podermos, por via dos nossos sentidos, aceder ao que nos ultrapassa. Se Jesus é Deus e Jesus instituiu o Símbolo eucarístico, logo, para o cristão, a Eucaristia não é um "símbolo cultural", gerado por "homens", mas sim um Símbolo espiritual, instituido por Deus.
Estes três pontos parecem resumir-se a um apenas: se se constatou que houve discriminação pelo sexo feita por Jesus
CA, Jesus discriminou! Mas nunca num sentido pejorativo. Jesus, claramente, atribui papéis diferentes, no Seu plano, para homens e mulheres.
E uma razão bem forte, como já o disse, prende-se com uma necessidade simbólica incontornável.
Como Jesus fez outras discriminações práticas (a mais importante das quais foi dirigir-se ao povo de Israel apenas), deveríamos mantê-las sempre? A resposta tem que ser não, pois a Igreja abriu-se logo aos gentios. Então porquê a relevância especial atribuída ao sexo?
Objecção inválida. O seu pressuposto está errado. Jesus não trouxe a Boa Nova apenas para Israel. Releia, por favor, o final do Evangelho de S. Mateus: "ensinai todas as nações".
É o próprio Cristo que o desmente, Bernardo, pois diz que o Espírito há-de ensinar aos discípulos muitas coisas que eles ainda não podiam suportar.
Não compreendi esta objecção, e terá que a explicar melhor, por favor.
Obrigado pelos comentários.
«Ponto I:
"o discípulo é o "aluno", que escuta a Palavra. O apóstolo é o "enviado", encarregado de espalhar a Palavra."
Seguindo o seu raciocínio deveria concluir que as mulheres hoje não são chamadas a espalhar a Palavra. Constato na prática que muitas mulheres espalham a Palavra (catequistas, missionárias, etc.). Assim parece-me que o raciocínio falha quando assume que, porque Jesus não escolheu apóstolas, a Igreja nunca o poderá fazer.»
Bela objecção, à qual deverei dar a mão à palmatória.
De facto, o meu raciocínio apresentava, neste aspecto, claras falhas. Não serve usar uma argumentação etimológica, uma vez que nem sequer é constante o uso, na própria Sagrada Escritura, do termo "apóstolo" para os doze. Por vezes, são chamados de "discípulos". E lembrei-me, entretanto, de outra objecção ao meu raciocínio: Maria de Magdala, a quem Jesus expulsara demónios, é a primeira testemunha da ressurreição, e como tal é ela a "enviada" junto dos restantes onze, quem lhes vai comunicar que o Mestre ressuscitou (cf. S. Lucas, 16, 9). Posto isto, a minha argumentação neste ponto cai por terra.
Contudo, e porque julgo estar certo na tese geral que estou a defender, tentarei contornar as dificuldades por mim criadas usando uma linguagem mais cuidadosa e argumentos bem mais fortes...
Há muita razão da parte do CA quando afirma que todos os cristãos são, de certo modo, "enviados", co-responsáveis pelo espalhar da Palavra.
No entanto, a meu ver, há uma nítida diferença: os onze (retirando Judas, que se enforca antes da morte de Cristo) sobrevivem à Paixão como o núcleo dos próximos do Messias e vêem-se desse modo revestidos de uma graça bem particular e especial. São "enviados" como serão todos os cristãos, mas a um nível qualitativamente diferente. Uma passagem profundamente significativa encontra-se no final de S. Lucas:
Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando estava convosco: Que era necessário que se cumprisse tudo quanto a Meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos».
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos ao terceiro dia, que havia de ser pregado, em Seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E eu vou mandar sobre vós O que Meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força lá do Alto. - S. Lucas 24, 44-49.
Há, claramente explícita, uma atribuição de dons interpretativos (diria mesmo, as chaves da hermenêutica sacra, que desde então estão na posse da Igreja) aos onze reunidos com o Jesus ressuscitado. Vejamos outro exemplo das Sagradas Escrituras, desta vez de S. João, exemplo este ainda mais claro de que há, nitidamente, uma diferença de estatura entre a profundidade espiritual da missão dos onze apóstolos e a dos restantes cristãos:
Na tarde desse dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se achavam juntos, com medo dos judeus, veio Jesus pôr-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz seja convosco». Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor. E Ele disse-lhes de novo: «A paz seja convosco» Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos». - S. João 20, 19-23.
São Marcos faz também coro neste ponto fulcral:
Apareceu, finalmente, aos próprios onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e obstinação em não acreditarem naqueles que O tinham visto ressuscitado. Depois, disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão aqueles que acreditarem: Em Meu nome expulsarão os demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se ingerirem alguma bebida mortífera, não sofrerão nenhum mal; imporão as mãos sobre os enfermos e eles recuperarão a saúde». - S. Marcos 16, 14-18.
Num ponto que se afigura tão importante, S. Mateus não poderia falhar na concordância com os restantes evangelistas:
Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-n'O; alguns, no entanto, duvidavam ainda. Aproximando-Se deles, Jesus disse-lhes: «Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra: Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo». - S. Mateus 28, 16-20.
Torna-se claríssimo, pela concordância dos quatro evangelistas, que é ponto doutrinal assente que os onze receberam do Jesus ressuscitado uma graça especial. S. João é explícito: os onze receberam o Espírito Santo, com a missão de, iluminados por Ele, espalharem a Boa Nova e realizar milagres em nome de Jesus.
A Boa Nova iria espalhar-se de boca em boca, sendo que todos os cristãos seriam convidados a fazê-lo. Contudo, aquele núcleo de onze homens, escolhidos por Jesus, seria o centro espiritual de onde emanariam todas as graças de Cristo e do Pai. Esse legado, essa herança deixada por Cristo aos Homens, está viva através dos onze primeiros da Sua Igreja. É um verdadeiro dom espiritual e é a fonte que vivifica espiritualmente a Igreja Católica, que honra desde então a sucessão apostólica a partir de Pedro.
Resumindo: não estavam mulheres presentes no Pentecostes. Não havia uma só mulher de entre os onze que foram investidos desta graça e desta missão especial.
Será que Jesus não valorizava as mulheres?
Supô-lo seria uma tolice: é uma mulher, Maria Madalena, a primeira testemunha humana da Ressurreição, que é o epicentro do cristianismo.
As Sagradas Escrituras não permitem outra interpretação: é nítido verificar que o vértice, a nascente espiritual da Igreja era constituida por onze homens investidos pessoalmente por Deus.
Negá-lo seria atentar contra a própria validade das Sagradas Escrituras.
Algo bastante normal para um não-cristão, mas algo de monstruoso para um cristão.
Aliás, por essa linha de raciocínio, não poderia haver apóstolos de raça negra, por exemplo. Porquê distinguir pelo sexo e não pela raça?
Esta objecção, sinceramente, CA, não percebi.
Apóstolos de raça negra? Mas Jesus e os doze apóstolos eram judeus. E na Palestina, naquele tempo, os judeus eram brancos. Existia (e ainda existe) na Etiópia uma pequena comunidade de judeus negros, mas isso nada tem a ver com a presente discussão. Os judeus da Palestina eram de raça semita, de pele branca.
Mas uma claríssima prova de que a Igreja não discrimina pela raça é o facto de a ordenação sacerdotal ser conferida a homens de qualquer raça.
Ponto II:
"Deus escolheu o sexo masculino para incarnar, logo qualquer função representativa, onde o símbolo de Cristo seja fundamental (como o é nos sacramentos), deve ser desempenhada por um homem."
Mais uma vez dá imensa relevância ao sexo. Ora não vejo em Jesus essa relevância explícita.
Apresentei-lhe referências extremamente explícitas para este facto simplicíssimo: Jesus escolheu onze homens para constituir a Sua Igreja. Sendo o homem diferente da mulher, Jesus fez desta distinção fundamental uma distinção de papéis no plano salvífico. Quando falei, no meu texto, da Eucaristia e do seu símbolo, fui bem claro na importância da "substância" ser compatível. Penso que consegui tornar claro a importância de ser um homem a presidir à Eucaristia, momento central da vida cristã.
Vemos que os evangelhos dizem que Jesus escolheu apenas homens mas não vejo Jesus a fazer referência ao sexo como algo de importante. Assim, a distinção do sexo como algo essencial parece-me mais uma insistência humana.
Não sei como insiste em não o ver, CA.
Pois que é bem claro que Jesus usou o género como um dos Seus critérios de escolha do grupo dos doze. Ou supõe que o facto de termos doze apóstolos todos homens seja um puro acaso probabilístico?
Ponto III:
"Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial é cumprida por homens."
Mais uma vez o sexo como distinção, indo agora buscar o Antigo Testamento, o que não acrescenta nada de novo.
Antes pelo contrário, CA, é um reforço muito forte. Significa que encontramos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial a ser desempenhada por homens.
Parece-me que os símbolos são feitos pelo homem, são essencialmente culturais. Se a sua objecção é apenas ao nível do símbolo, então pode certamente ser alterada.
A sua ideia de símbolo é totalmente materialista e antropológica.
Para mim, o símbolo é uma ponte de conhecimento divino, uma porta aberta para o transcendente. O símbolo é uma forma de podermos, por via dos nossos sentidos, aceder ao que nos ultrapassa. Se Jesus é Deus e Jesus instituiu o Símbolo eucarístico, logo, para o cristão, a Eucaristia não é um "símbolo cultural", gerado por "homens", mas sim um Símbolo espiritual, instituido por Deus.
Estes três pontos parecem resumir-se a um apenas: se se constatou que houve discriminação pelo sexo feita por Jesus
CA, Jesus discriminou! Mas nunca num sentido pejorativo. Jesus, claramente, atribui papéis diferentes, no Seu plano, para homens e mulheres.
E uma razão bem forte, como já o disse, prende-se com uma necessidade simbólica incontornável.
Como Jesus fez outras discriminações práticas (a mais importante das quais foi dirigir-se ao povo de Israel apenas), deveríamos mantê-las sempre? A resposta tem que ser não, pois a Igreja abriu-se logo aos gentios. Então porquê a relevância especial atribuída ao sexo?
Objecção inválida. O seu pressuposto está errado. Jesus não trouxe a Boa Nova apenas para Israel. Releia, por favor, o final do Evangelho de S. Mateus: "ensinai todas as nações".
É o próprio Cristo que o desmente, Bernardo, pois diz que o Espírito há-de ensinar aos discípulos muitas coisas que eles ainda não podiam suportar.
Não compreendi esta objecção, e terá que a explicar melhor, por favor.
Obrigado pelos comentários.
sexta-feira, 19 de agosto de 2005
Sobre o sacerdócio feminino
Esta questão regressa sempre, mais cedo ou mais tarde...
É uma questão importante e de fundo, porque assistimos cada vez mais nos dias que correm a uma enorme multidão de crentes católicos a manifestarem-se a favor do sacerdócio feminino, o que é um grave sinal de incompreensão da doutrina que professam.
Muitos católicos modernos estão, hoje, cada vez mais empenhados em levantar uma série de objecções a aspectos específicos do culto católico e da organização da Igreja. A sociedade tornou-se menos exigente para com a cultura e o estudo, os crentes também se tornaram menos exigentes com eles próprios, e facilmente surgem inúmeras incompreensões doutrinais como esta.
Antes de principiar, um aviso importante: neste breve texto tratarei apenas desta objecção relativamente ao sacerdócio feminino. Cada objecção merece ser tratada à parte, porque existem diversos níveis de importância doutrinal nas várias objecções levantadas pelos católicos modernos. Se se quiser discutir, por exemplo, o celibato dos sacerdotes, estaremos perante outra questão, diga-se, com muito menor peso doutrinal. Pelo que se deve, doutrinalmente, manter inaceitável o sacerdócio feminino (explicarei adiante), mas se pode manter em aberto a discussão de outras questões não tão importantes, doutrinalmente, como a do celibato dos sacerdotes.
Esta explicação não é exaustiva e representa apenas um modesto esforço, uma recolha dos pontos essenciais e mais importantes que justificam esta interdição das mulheres ao sacramento da ordenação sacerdotal.
Ponto I: Jesus Cristo apenas escolheu homens para seus apóstolos. Nenhum dos doze apóstolos era mulher. Contudo, inúmeras mulheres seguiam Jesus como discípulas. No entanto, a distinção entre discípulo e apóstolo é importante: o discípulo é o "aluno", que escuta a Palavra. O apóstolo é o "enviado", encarregado de espalhar a Palavra. À mesa da Última Ceia estavam doze apóstolos. Na recepção do Espírito Santo, pelo Pentecostes, estavam reunidos os doze apóstolos.
Nesta escolha, não há a influência de qualquer preconceito social, uma vez que Jesus Cristo não moldou a sua doutrina ao sabor das condicionantes sociais.
Ponto II: O símbolo sacramental. O sacerdote exerce uma função primordial no sacramento eucarístico, pelo qual o pão e o vinho são transformados em Corpo e Sangue de Jesus Cristo. A doutrina católica ensina que, com cada sacramento, há a possibilidade de se receber uma graça divina concreta, pelo que o símbolo é a via pela qual se pode aceder a essa graça. No caso da Eucaristia, o símbolo é feito de pão e de vinho que, com as palavras adequadas, se transforma no Corpo e Sangue de Cristo. Tanto a matéria (pão e vinho) como a forma (as palavras pronunciadas) são fundamentais para a eficácia do sacramento eucarístico. Se bem que a forma seja a parte mais importante, a matéria também não deve ser desprezada: uma eucaristia feita, por exemplo, com arroz (mesmo pronunciando as palavras ritualísticas correctas), não seria eficaz porque a matéria não corresponderia simbolicamente à usada por Jesus Cristo na Última Ceia. No entanto, qualquer tipo de pão e vinho serve, visto que a parte material do símbolo está representada.
Posto isto, o sacerdote é a representação viva do próprio Jesus Cristo. Diz o sacerdote durante o ritual: "Por Cristo, com Cristo e em Cristo". Do mesmo modo que, para manter a matéria do símbolo, se deve usar pão e vinho, também para manter a imagem viva do próprio Jesus Cristo, o oficiante deve ser um homem. Deus escolheu o sexo masculino para incarnar, logo qualquer função representativa, onde o símbolo de Cristo seja fundamental (como o é nos sacramentos), deve ser desempenhada por um homem.
Poder-se-ia levantar esta objecção: mas Deus não tem sexo, logo, se o sacerdote está ali para representar Deus, então não tem que ter um sexo específico para O representar bem.
Resposta: Foi Deus Filho quem instituiu a Eucaristia, logo é para Jesus Cristo que estamos a olhar quando olhamos para um sacerdote em pleno rito eucarístico. E, se foi como homem, visível e audível pelos doze apóstolos, que Jesus instituiu a Eucaristia, pois terá que ser um homem a reproduzir, para a posteridade, a diginidade sacra desse momento.
Ponto III: O Cordeiro é um dos muitos animais atribuidos simbolicamente à figura de Jesus Cristo. Mais concretamente, este animal ganha especial significado graças ao simbolismo da Crucificação: Cristo é visto como o "Cordeiro de Deus", que pela sua morte "tirou o Pecado do Mundo". Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial é cumprida por homens. Recordemos o episódio de Abraão, que apresenta a Deus o seu próprio filho Isaac para ser sacrificado. O sacrifício (no entanto não consumado) de Isaac por seu pai é visto, na exegese sacra, como um prenúncio do sacrifício de Jesus Cristo, o Filho, às mãos do Homem por vontade do Pai. O acto sacrificial está reproduzido da forma mais perfeita no mistério eucarístico. Pelo que, de novo, sendo um acto sacrificial, é desempenhado por um homem.
Para terminar, há que ter em consideração que as objecções que muitos católicos modernos levantam em relação a este ponto delicado da ordenação das mulheres são objecções muito influenciadas por uma tendência feminista (ou, no mínimo, por uma tendência ultra-igualitarista, onde uma artificial "igualdade" deveria ser estabelecida a qualquer custo), à qual se tem dado uma prioridade maior do que à exegese sacra e ao simbolismo sacramental. O que é, no mínimo insólito: existirem cada vez mais cristãos que, porventura sem se darem conta, estabelecem raciocínios nos quais dão primazia a tendências e modas sociais em detrimento do que é importante na sua fé, que deveria ser a compreensão real da doutrina que professam.
A mulher não tem menos capacidades em si mesma do que o homem para o exercício do sacerdócio. Contudo, tanto por respeito para com a intenção do Salvador, como por necessidade material do simbolismo sacramental, na qual o sacerdote deve apresentar-se como imagem viva do Deus Incarnado, foi dado apenas aos homens o acesso a este sacramento.
Assim, é enquanto símbolo, e não enquanto mulher, que a mulher é inapta para o sacerdócio cristão. É evidente, pela natureza idiossincrética do símbolo eucarístico, que isto não se pode generalizar: noutras doutrinas, onde os ritos se baseiem noutros simbolismos, poderemos encontrar legitimamente uma mulher a desempenhar funções sacerdotais. Vemos assim que não há, neste aspecto, qualquer "sexismo", mas sim apenas o respeito pelos símbolos cristãos e pelos sacramentos por eles representados. O sacerdócio feminino pode ser legítimo nos ritos de outras doutrinas que não a cristã.
O sacerdócio feminino não é um direito das mulheres, uma vez que se assim fosse, isso quereria dizer que uma universalização extrema de um suposto "direito feminino" obrigaria a atropelar o simbolismo, e consequentemente, a eficácia de um sacramento tão importante como o da Eucaristia. E far-nos-ia possivelmente pensar que, naquele que é o momento mais alto da revelação crística, Jesus se teria deixado influenciar por um suposto machismo na cultura judaica, ou seja, por uma volúvel condicionante social. Se assim fosse, a doutrina deixada por Cristo à Sua Igreja seria algo de passageiro e de validade limitada, algo subjugado e condicionado por características sociais.
Outras questões ficam por tratar, como a interessante questão do diaconato feminino. Em certas Igreja cristãs primitivas, era permitido às mulheres o acesso a um dos graus menores da ordenação, a do diaconato. Note-se que há uma distinção fundamental aqui presente: um diácono não é um sacerdote. Não recebe a ordenação sacerdotal. Deste modo, um diácono não está qualificado para presidir à Eucaristia.
Deste modo, existe algum campo aberto ao debate relativamente ao acesso das mulheres ao diaconato, uma vez que não seriam violadas questões essenciais de doutrina.
Bernardo
É uma questão importante e de fundo, porque assistimos cada vez mais nos dias que correm a uma enorme multidão de crentes católicos a manifestarem-se a favor do sacerdócio feminino, o que é um grave sinal de incompreensão da doutrina que professam.
Muitos católicos modernos estão, hoje, cada vez mais empenhados em levantar uma série de objecções a aspectos específicos do culto católico e da organização da Igreja. A sociedade tornou-se menos exigente para com a cultura e o estudo, os crentes também se tornaram menos exigentes com eles próprios, e facilmente surgem inúmeras incompreensões doutrinais como esta.
Antes de principiar, um aviso importante: neste breve texto tratarei apenas desta objecção relativamente ao sacerdócio feminino. Cada objecção merece ser tratada à parte, porque existem diversos níveis de importância doutrinal nas várias objecções levantadas pelos católicos modernos. Se se quiser discutir, por exemplo, o celibato dos sacerdotes, estaremos perante outra questão, diga-se, com muito menor peso doutrinal. Pelo que se deve, doutrinalmente, manter inaceitável o sacerdócio feminino (explicarei adiante), mas se pode manter em aberto a discussão de outras questões não tão importantes, doutrinalmente, como a do celibato dos sacerdotes.
Esta explicação não é exaustiva e representa apenas um modesto esforço, uma recolha dos pontos essenciais e mais importantes que justificam esta interdição das mulheres ao sacramento da ordenação sacerdotal.
Ponto I: Jesus Cristo apenas escolheu homens para seus apóstolos. Nenhum dos doze apóstolos era mulher. Contudo, inúmeras mulheres seguiam Jesus como discípulas. No entanto, a distinção entre discípulo e apóstolo é importante: o discípulo é o "aluno", que escuta a Palavra. O apóstolo é o "enviado", encarregado de espalhar a Palavra. À mesa da Última Ceia estavam doze apóstolos. Na recepção do Espírito Santo, pelo Pentecostes, estavam reunidos os doze apóstolos.
Nesta escolha, não há a influência de qualquer preconceito social, uma vez que Jesus Cristo não moldou a sua doutrina ao sabor das condicionantes sociais.
Ponto II: O símbolo sacramental. O sacerdote exerce uma função primordial no sacramento eucarístico, pelo qual o pão e o vinho são transformados em Corpo e Sangue de Jesus Cristo. A doutrina católica ensina que, com cada sacramento, há a possibilidade de se receber uma graça divina concreta, pelo que o símbolo é a via pela qual se pode aceder a essa graça. No caso da Eucaristia, o símbolo é feito de pão e de vinho que, com as palavras adequadas, se transforma no Corpo e Sangue de Cristo. Tanto a matéria (pão e vinho) como a forma (as palavras pronunciadas) são fundamentais para a eficácia do sacramento eucarístico. Se bem que a forma seja a parte mais importante, a matéria também não deve ser desprezada: uma eucaristia feita, por exemplo, com arroz (mesmo pronunciando as palavras ritualísticas correctas), não seria eficaz porque a matéria não corresponderia simbolicamente à usada por Jesus Cristo na Última Ceia. No entanto, qualquer tipo de pão e vinho serve, visto que a parte material do símbolo está representada.
Posto isto, o sacerdote é a representação viva do próprio Jesus Cristo. Diz o sacerdote durante o ritual: "Por Cristo, com Cristo e em Cristo". Do mesmo modo que, para manter a matéria do símbolo, se deve usar pão e vinho, também para manter a imagem viva do próprio Jesus Cristo, o oficiante deve ser um homem. Deus escolheu o sexo masculino para incarnar, logo qualquer função representativa, onde o símbolo de Cristo seja fundamental (como o é nos sacramentos), deve ser desempenhada por um homem.
Poder-se-ia levantar esta objecção: mas Deus não tem sexo, logo, se o sacerdote está ali para representar Deus, então não tem que ter um sexo específico para O representar bem.
Resposta: Foi Deus Filho quem instituiu a Eucaristia, logo é para Jesus Cristo que estamos a olhar quando olhamos para um sacerdote em pleno rito eucarístico. E, se foi como homem, visível e audível pelos doze apóstolos, que Jesus instituiu a Eucaristia, pois terá que ser um homem a reproduzir, para a posteridade, a diginidade sacra desse momento.
Ponto III: O Cordeiro é um dos muitos animais atribuidos simbolicamente à figura de Jesus Cristo. Mais concretamente, este animal ganha especial significado graças ao simbolismo da Crucificação: Cristo é visto como o "Cordeiro de Deus", que pela sua morte "tirou o Pecado do Mundo". Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a função sacrificial é cumprida por homens. Recordemos o episódio de Abraão, que apresenta a Deus o seu próprio filho Isaac para ser sacrificado. O sacrifício (no entanto não consumado) de Isaac por seu pai é visto, na exegese sacra, como um prenúncio do sacrifício de Jesus Cristo, o Filho, às mãos do Homem por vontade do Pai. O acto sacrificial está reproduzido da forma mais perfeita no mistério eucarístico. Pelo que, de novo, sendo um acto sacrificial, é desempenhado por um homem.
Para terminar, há que ter em consideração que as objecções que muitos católicos modernos levantam em relação a este ponto delicado da ordenação das mulheres são objecções muito influenciadas por uma tendência feminista (ou, no mínimo, por uma tendência ultra-igualitarista, onde uma artificial "igualdade" deveria ser estabelecida a qualquer custo), à qual se tem dado uma prioridade maior do que à exegese sacra e ao simbolismo sacramental. O que é, no mínimo insólito: existirem cada vez mais cristãos que, porventura sem se darem conta, estabelecem raciocínios nos quais dão primazia a tendências e modas sociais em detrimento do que é importante na sua fé, que deveria ser a compreensão real da doutrina que professam.
A mulher não tem menos capacidades em si mesma do que o homem para o exercício do sacerdócio. Contudo, tanto por respeito para com a intenção do Salvador, como por necessidade material do simbolismo sacramental, na qual o sacerdote deve apresentar-se como imagem viva do Deus Incarnado, foi dado apenas aos homens o acesso a este sacramento.
Assim, é enquanto símbolo, e não enquanto mulher, que a mulher é inapta para o sacerdócio cristão. É evidente, pela natureza idiossincrética do símbolo eucarístico, que isto não se pode generalizar: noutras doutrinas, onde os ritos se baseiem noutros simbolismos, poderemos encontrar legitimamente uma mulher a desempenhar funções sacerdotais. Vemos assim que não há, neste aspecto, qualquer "sexismo", mas sim apenas o respeito pelos símbolos cristãos e pelos sacramentos por eles representados. O sacerdócio feminino pode ser legítimo nos ritos de outras doutrinas que não a cristã.
O sacerdócio feminino não é um direito das mulheres, uma vez que se assim fosse, isso quereria dizer que uma universalização extrema de um suposto "direito feminino" obrigaria a atropelar o simbolismo, e consequentemente, a eficácia de um sacramento tão importante como o da Eucaristia. E far-nos-ia possivelmente pensar que, naquele que é o momento mais alto da revelação crística, Jesus se teria deixado influenciar por um suposto machismo na cultura judaica, ou seja, por uma volúvel condicionante social. Se assim fosse, a doutrina deixada por Cristo à Sua Igreja seria algo de passageiro e de validade limitada, algo subjugado e condicionado por características sociais.
Outras questões ficam por tratar, como a interessante questão do diaconato feminino. Em certas Igreja cristãs primitivas, era permitido às mulheres o acesso a um dos graus menores da ordenação, a do diaconato. Note-se que há uma distinção fundamental aqui presente: um diácono não é um sacerdote. Não recebe a ordenação sacerdotal. Deste modo, um diácono não está qualificado para presidir à Eucaristia.
Deste modo, existe algum campo aberto ao debate relativamente ao acesso das mulheres ao diaconato, uma vez que não seriam violadas questões essenciais de doutrina.
Bernardo
quinta-feira, 18 de agosto de 2005
A noção de Hermenêutica
Adquiri, recentemente, a espantosa obra de Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien (Delphica - L'Age d'Homme, Lausanne, Suíça, 1997), de onde retiro este pedagógico apêndice, intitulado "A noção de Hermenêutica".
A NOÇÃO DE HERMENÊUTICA
A hermenêutica constitui hoje um "lugar filosófico" maior; [mas] nem sempre foi assim. Tradicionalmente, os teólogos católicos chamam «hermenêutica» à «arte que traça as regras da interpretação das Sagradas Escrituras», e «exegese» à «aplicação destas regras» (2). A palavra hermenêutica é um adjectivo substantivado que transcreve o grego herméneutiké (s.e. tekhné): (arte) da interpretação (3). Deriva do verbo herméneuein que significa «interpretar», «explicar», e que faz referência a Hermes, o intérprete e o mensageiro dos Deuses, o mestre dos segredos da palavra e do poder dos signos, cujo nome se aproxima de herma que designa todo o objecto que serve de ponto de apoio ou de marca de referencial, em particular nas pedras levantadas, eventualmente itifálicas, o que não deixa de ter relação com o lingam de Shiva, palavra que, em sânscrito, significa «signo». Hermes é filho de Zeus e da ninfa Maia (4), do mesmo modo que Ganesha («Senhor» = îsha das «categorias» = gan) é filho de Shiva e de Pârvatî; ambos são «logotetas», reveladores celestes dos signos da palavra e da escrita, das ciências e das artes. Na revelação cristã a função de Hermes é atribuida a São Paulo que é assim designado pelos habitantes de Listra «porque ele trazia a palavra» (5). Únicos de entre os Padres [da Igreja], Orígenes e Santo Agostinho elaboraram precisamente uma "teoria geral" da hermenêutica (6), sem todavia "nomear" esta mesma ciência. Nos latinos, fala-se correntemente de interpretatio, de intelligentia, expositio, explicatio, explanatio, enarratio, commentarium, lectio, etc., mas jamais de hermeneutica. Mesmo quando os escritores católicos tiveram necessidade, na época da Reforma, de redigir tratados específicos de hermenêutica bíblica, eles não empregaram o termo, nem em latim (o termo preferido é o de interpretatio), nem em francês (onde se emprega sobretudo «explication» ou «intelligence» da Escritura). De centro e trinta e sete tratados católicos de exegese recenseados entre 1528 e 1900, apenas contámos quarenta e quatro (ou seja, menos da terça parte) que trazem no seu título a palavra hermeneutica, que apenas aparece pela primeira vez em 1751: De verbo Dei scripto et tradito seu Introductio in hermeneuticam sacram utriusque Testamenti, de Corbinien Thomas (Salzburgo). Por outro lado, de oitenta e dois tratados protestantes, entre 1567 e 1900, encontramos quarenta (ou seja, perto da metade) cujo título contém «hermenêutica», o primeiro surgido em 1654: Hermeneutica sacra, de J. C. Dannhauer (Estrasburgo). O uso do termo vem então incontestavelmente dos protestantes desejosos de se demarcar da terminologia latina demasiado católica usando uma palavra grega. Contudo, ele impôs-se nos próprios católicos que acabaram por a integrar no vocabulário técnico da teologia e que lhe deram um lugar ao lado do termo consagrado de «exegese», o qual designa em suma a hermenêutica em acto: deste modo Leão XIII, na sua encíclica sobre a Escritura santa, Providentissimus Deus [7], fala das «regras da hermenêutica». Em francês, o adjectivo «hermenêutico» foi registado num dicionário pela primeira vez em 1777 no Supplément da Encyclopédie de Diderot e de D'Alembert. Quando ao substantivo, aparece em 1852 no Manuel d'herméneutique biblique de Cellérier, publicado em Genebra.
Estes dados históricos (8) mostram que o emprego da palavra «hermenêutica» é correlativo da elaboração do conceito de uma ciência especial de interpretação bíblica. Um tal conceito deveria atrair a atenção dos filósofos sobre o acto de interpretar enquanto tal: que fazemos nós quando lemos um texto, bíblico ou não? É o filósofo e o teólogo protestante, Schleiermacher que, em primeiro lugar, formula a exigência de uma hermenêutica geral (1819): «Não existe uma hermenêutica geral que seja uma arte de compreender, existem [apenas] diversas hermenêuticas especiais» (9). Este tema será retomado pelo seu longínquo discípulo Dilthey que o desenvolverá num método geral das ciências da cultura (em alemão as «ciências do espírito», Geisteswissenschaften): Origem e desenvolvimento da hermenêutica (1900) [10]. A partir de Dilthey, com Husserl e sobretudo Heidegger, a reflexão filosófica sobre o acto de interpretar, ou seja, o acto pelo quando nós conferimos tal significado, não só a tal elemento cultural, mas ainda a todos os dados da nossa existência, adquire a sua maior generalidade: o homem não regista apenas os factos, ele compreende-os e interpreta-os como os signos de um certo sentido da existência; aqui, a hermenêutica identifica-se à própria filosofia. Cremos todavia, com Gadamer e Ricœur, que não há «hermenêutica do dasein [11]», de interpretação fundamental da experiência de existir, que não seja informada por uma certa tradição cultural, a qual, para nós, apela necessariamente a uma revelação. A compreensão de si mesmo e do mundo, a «leitura» que fazemos da vida e das coisas efectua-se sempre sobre a base e com a ajuda das chaves da tradição simbólica universal.
(1) Jean Borella, op. cit., pp. 34-35.
(2) Pe. Berthier, Abrégé de théologie dogmatique et morale, E. Vitte, 1927, n.º 214.
(3) Platão, Política, 260d.
(4) Hinos homéricos, Mercúrio, I, 1.
(5) Actos dos Apóstolos, XIV, 12.
(6) Tratado dos Princípios, IV, 8-27; Da doutrina cristã, II e III.
[7] de 18 de Novembro de 1893 (N. T.).
(8) Cf. o artigo «Herméneutique» de E. Mangenot, no Dictionnaire de la Bible de Vigouroux, tomo III, 1903, col. 612-633.
(9) Hermeneutik, editado por Kimmerle, Academia das Ciências e da Cultura de Heidelberg, 1959, p. 79).
[10] Em alemão, Die Entstehung der Hermeneutik (N. T.).
[11] Palavra alemã cujo significado é o de "existência". Contudo, com o filósofo Heidegger, a palavra adquiriu um significado filosófico próprio (N. T.).
A NOÇÃO DE HERMENÊUTICA
A hermenêutica constitui hoje um "lugar filosófico" maior; [mas] nem sempre foi assim. Tradicionalmente, os teólogos católicos chamam «hermenêutica» à «arte que traça as regras da interpretação das Sagradas Escrituras», e «exegese» à «aplicação destas regras» (2). A palavra hermenêutica é um adjectivo substantivado que transcreve o grego herméneutiké (s.e. tekhné): (arte) da interpretação (3). Deriva do verbo herméneuein que significa «interpretar», «explicar», e que faz referência a Hermes, o intérprete e o mensageiro dos Deuses, o mestre dos segredos da palavra e do poder dos signos, cujo nome se aproxima de herma que designa todo o objecto que serve de ponto de apoio ou de marca de referencial, em particular nas pedras levantadas, eventualmente itifálicas, o que não deixa de ter relação com o lingam de Shiva, palavra que, em sânscrito, significa «signo». Hermes é filho de Zeus e da ninfa Maia (4), do mesmo modo que Ganesha («Senhor» = îsha das «categorias» = gan) é filho de Shiva e de Pârvatî; ambos são «logotetas», reveladores celestes dos signos da palavra e da escrita, das ciências e das artes. Na revelação cristã a função de Hermes é atribuida a São Paulo que é assim designado pelos habitantes de Listra «porque ele trazia a palavra» (5). Únicos de entre os Padres [da Igreja], Orígenes e Santo Agostinho elaboraram precisamente uma "teoria geral" da hermenêutica (6), sem todavia "nomear" esta mesma ciência. Nos latinos, fala-se correntemente de interpretatio, de intelligentia, expositio, explicatio, explanatio, enarratio, commentarium, lectio, etc., mas jamais de hermeneutica. Mesmo quando os escritores católicos tiveram necessidade, na época da Reforma, de redigir tratados específicos de hermenêutica bíblica, eles não empregaram o termo, nem em latim (o termo preferido é o de interpretatio), nem em francês (onde se emprega sobretudo «explication» ou «intelligence» da Escritura). De centro e trinta e sete tratados católicos de exegese recenseados entre 1528 e 1900, apenas contámos quarenta e quatro (ou seja, menos da terça parte) que trazem no seu título a palavra hermeneutica, que apenas aparece pela primeira vez em 1751: De verbo Dei scripto et tradito seu Introductio in hermeneuticam sacram utriusque Testamenti, de Corbinien Thomas (Salzburgo). Por outro lado, de oitenta e dois tratados protestantes, entre 1567 e 1900, encontramos quarenta (ou seja, perto da metade) cujo título contém «hermenêutica», o primeiro surgido em 1654: Hermeneutica sacra, de J. C. Dannhauer (Estrasburgo). O uso do termo vem então incontestavelmente dos protestantes desejosos de se demarcar da terminologia latina demasiado católica usando uma palavra grega. Contudo, ele impôs-se nos próprios católicos que acabaram por a integrar no vocabulário técnico da teologia e que lhe deram um lugar ao lado do termo consagrado de «exegese», o qual designa em suma a hermenêutica em acto: deste modo Leão XIII, na sua encíclica sobre a Escritura santa, Providentissimus Deus [7], fala das «regras da hermenêutica». Em francês, o adjectivo «hermenêutico» foi registado num dicionário pela primeira vez em 1777 no Supplément da Encyclopédie de Diderot e de D'Alembert. Quando ao substantivo, aparece em 1852 no Manuel d'herméneutique biblique de Cellérier, publicado em Genebra.
Estes dados históricos (8) mostram que o emprego da palavra «hermenêutica» é correlativo da elaboração do conceito de uma ciência especial de interpretação bíblica. Um tal conceito deveria atrair a atenção dos filósofos sobre o acto de interpretar enquanto tal: que fazemos nós quando lemos um texto, bíblico ou não? É o filósofo e o teólogo protestante, Schleiermacher que, em primeiro lugar, formula a exigência de uma hermenêutica geral (1819): «Não existe uma hermenêutica geral que seja uma arte de compreender, existem [apenas] diversas hermenêuticas especiais» (9). Este tema será retomado pelo seu longínquo discípulo Dilthey que o desenvolverá num método geral das ciências da cultura (em alemão as «ciências do espírito», Geisteswissenschaften): Origem e desenvolvimento da hermenêutica (1900) [10]. A partir de Dilthey, com Husserl e sobretudo Heidegger, a reflexão filosófica sobre o acto de interpretar, ou seja, o acto pelo quando nós conferimos tal significado, não só a tal elemento cultural, mas ainda a todos os dados da nossa existência, adquire a sua maior generalidade: o homem não regista apenas os factos, ele compreende-os e interpreta-os como os signos de um certo sentido da existência; aqui, a hermenêutica identifica-se à própria filosofia. Cremos todavia, com Gadamer e Ricœur, que não há «hermenêutica do dasein [11]», de interpretação fundamental da experiência de existir, que não seja informada por uma certa tradição cultural, a qual, para nós, apela necessariamente a uma revelação. A compreensão de si mesmo e do mundo, a «leitura» que fazemos da vida e das coisas efectua-se sempre sobre a base e com a ajuda das chaves da tradição simbólica universal.
(1) Jean Borella, op. cit., pp. 34-35.
(2) Pe. Berthier, Abrégé de théologie dogmatique et morale, E. Vitte, 1927, n.º 214.
(3) Platão, Política, 260d.
(4) Hinos homéricos, Mercúrio, I, 1.
(5) Actos dos Apóstolos, XIV, 12.
(6) Tratado dos Princípios, IV, 8-27; Da doutrina cristã, II e III.
[7] de 18 de Novembro de 1893 (N. T.).
(8) Cf. o artigo «Herméneutique» de E. Mangenot, no Dictionnaire de la Bible de Vigouroux, tomo III, 1903, col. 612-633.
(9) Hermeneutik, editado por Kimmerle, Academia das Ciências e da Cultura de Heidelberg, 1959, p. 79).
[10] Em alemão, Die Entstehung der Hermeneutik (N. T.).
[11] Palavra alemã cujo significado é o de "existência". Contudo, com o filósofo Heidegger, a palavra adquiriu um significado filosófico próprio (N. T.).
terça-feira, 16 de agosto de 2005
Qual é o problema do Criacionismo?
(reprodução do texto publicado no Afixe)
O que se segue, como não podia deixar de ser, é um texto de opinião, visto que não me considero entendido nas matérias em questão.
As posições tomadas por George W. Bush, nos E.U.A., relativamente ao ensino do intelligent design nas escolas a par com as doutrinas evolucionistas têm gerado imensa polémica.
Muitos evolucionistas surgem ao ataque, agitando as suas espadas em nome da Ciência, contra o que chamam de "obscurantismo medieval", ou seja, o criacionismo.
A histeria, como se sabe, nunca é boa a ajuizar em matérias tão difíceis. Antes de mais, tenho que dizer que, sendo católico, e tendo pensado muito no assunto, opto por uma forma específica de criacionismo. A mais elementar obediência à doutrina católica deveria ter-me levado a assumir, imediatamente, a defesa dessa tese cosmológica. Contudo, parece-me sempre proveitoso que se medite sobre estas questões, de modo a que o crente tome uma decisão, que não obstante ser de fé, seja maturada e ponderada.
Ponhamos as duas teorias (e sublinho a palavra teorias) lado a lado, de forma muito sucinta:
- o Evolucionismo: não obstante os inúmeros ramos evolucionistas, e a grande disparidade de correntes que existem, parece-me razoável definir o evolucionismo como uma tese que se sustenta em dois pontos essenciais, que devem jogar em conjunto para o sucesso da teoria:
a) a Selecção Natural, devida a Darwin, como forma de filtrar a aptidão para a sobrevivência de uma dada espécie; as espécies menos preparadas desaparecem, as mais bem preparadas sobrevivem e multiplicam-se
b) as mutações genéticas como justificação para a variedade de espécies; ao longo de muitos milhões de anos, a alteração por mutação do património genético de uma espécie (ADN) faria dela uma outra espécie
- O Criacionismo: também uma posição matizada, feita de inúmeras correntes, que advoga, para justificar a variedade das espécies de seres vivos, a acção inteligente de uma entidade superior, que se poderia definir como divina e criadora.
Nos E.U.A., temos assistido recentemente ao surgir de inúmeros movimentos criacionistas, que atacam ferozmente o evolucionismo. Vejamos o que é defendido nas mais importantes modalidades do criacionismo:
a) há os que advogam que o Génesis e as Sagradas Escrituras devem ser lidas à letra, defendendo deste modo que a Terra não teria mais do que alguns milhares de anos; seguem a cronologia do Arcebispo de Armagh (Irlanda), James Ussher, que no século XVIII elaborou uma estrutura de datação para a Terra, afirmando que a Criação se dera no ano de 4004 a.C.
b) há os que, afirmando-se cristãos, concordam com a generalidade, senão mesmo a totalidade, da teoria evolucionista; defendem que a evolução, a par com a selecção natural darwiniana, são processos intencionais criados por Deus para guiar o devir do mundo natural
Há ainda inúmeras outras formas de ver o criacionismo que não professam necessariamente a ideia de que a Terra é recente, ou a ideia de que o Génesis deve ser lido com os olhos do Homem do século XXI, e não obstante manifestam-se altamente críticas, não tanto da Selecção Natural mas sobretudo da evolução das espécies por mutações.
Encontro-me nesta última categoria, e foi precisamente o facto de eu achar que este tema anda a ser discutido de forma altamente falaciosa, imperfeita e política que me atirei para a frente com a ideia de lançar este tema aqui no Afixe.
Certos evolucionistas rejubilaram quando, há uns anos a esta parte, o Papa João Paulo II afirmou que a evolução era mais do que uma hipótese. Para eles, era o sinal de que a Igreja Católica dava luz verde ao evolucionismo. Com a subida do Cardeal Ratzinger ao trono papal, muitos demonstraram a sua revolta por aquilo que julgavam ser um retrocesso num suposto "amén" católico ao evolucionismo.
Nada disso.
O actual Papa Bento XVI está em total sintonia com João Paulo II neste aspecto. O evolucionismo é mais do que uma hipótese: é uma teoria científica. A selecção das espécies não contradiz a razão natural nem o mais elementar bom senso. As espécies mais bem adaptadas sobrevivem, e outras menos adaptadas morrem.
As recentes declarações do Arcebispo de Viena, Cristoph Schönborn, geraram mais uma onda de contestação mediática. Vemos que as palavras deste Arcebispo evidenciam claramente a necessidade dos esclarecimentos que o seu texto traz.
Schönborn diz, com muita razão, que muitos evolucionistas deram uma interpretação equivocada às palavras do Papa João Paulo II. O Papa João Paulo II, numa audiência datada de 10 de Julho de 1985, pronunciou sólidas palavras sobre esta matéria. Em suma, o Santo Padre afirmava:
«A evolução dos seres vivos, de que a ciência procura determinar as etapas e discernir o mecanismo, apresenta um finalismo interno que suscita a admiração. Esta finalidade que orienta os seres numa direcção, da qual não existem padrões nem responsáveis, obriga a supor um Espírito que seja o seu inventor, o criador.»
Estas palavras prudentes demonstram que o Santo Padre não se pronunciou fora do campo da sua competência, deixando à Ciência o trabalho árduo de discernir o mecanismo do devir dos seres vivos. O que não está aqui, e que nunca foi defendido pela Igreja Católica, é um aval ao neo-darwinismo, a defesa da ideia peregrina de que a inteligência surge nos seres vivos por milhões de anos de mutações ocasionais e aleatórias. No limite, mesmo sendo possível demonstrar que as mutações genéticas permitem a multitude de espécies conhecidas (extintas ou não), a doutrina católica mostra-se clara num ponto fundamental: a matéria não engendra o intelecto.
Importa salientar que, no debate de ideias, há sempre espaço para uma certa dose de fé. Senão vejamos: ninguém discute a presença desta dose de fé no lado criacionista. Contudo, poucos a reconhecem no lado evolucionista.
Nos meus tempos de Universidade, trabalhei com ferramentas matemáticas que dão pelo nome de Algoritmos Genéticos. O bonito nome pode gerar equívocos, pelo que importa explicar sucintamente o que são e para que servem.
Os algoritmos genéticos são uma das muitas metodologias de resolução de problemas matemáticos. Antes de principiar um algoritmo genético, há que ter duas coisas (que me desculpem os especialistas por esta apresentação mutilada e simplista):
1. Uma heurística que codifique numericamente uma solução para o problema; sem esta codificação (dita "genética"), a solução não pode ser trabalhada algoritmicamente
2. Uma função de custo, que avalie o valor de uma dada solução. Esta função de custo será o juíz, que dará uma pontuação (numa escala pré-definida) a cada solução do problema
Como evolui o algoritmo?
Evolui sensivelmente da mesma forma que, segundo os evolucionistas, o mundo vivo teria evoluido desde os primórdios:
a) parte-se de um conjunto aleatório de possíveis soluções para o problema, todas colocadas em pé de igualdade, e todas codificadas da mesma forma; o ingrediente elementar de cada solução é chamado de "gene", e é um valor numérico que pode ser modificado
b) mutações ocasionais (alterações na codificação das soluções em jogo) permitem o surgimento de novas possíveis soluções; a função de custo avalia as novas soluções: as menos pontuadas vão para o fim da lista (e podem mesmo ser eliminadas); as mais bem pontuadas ascendem na tabela de pontuação.
Ao fim de muitos passos, com maior ou menor dosagem de mutações, o algoritmo produz a "melhor" solução, extraída por pontuação do conjunto inicial aleatório de soluções.
Isto funciona!
Contudo, não se pode aplicar este raciocínio ao ADN dos seres vivos. Porquê? Há várias razões, mas sublinho estas:
1. O património genético de um ser vivo é composto por milhares de genes e é tipicamente muito estável; o ADN reage, muitas vezes, a mutações que num algoritmo numérico poderiam ser desastrosas, mas que no mundo real podem não ter consequências graves para o ser vivo: a Natureza defende-se das mutações
2. As mutações na Natureza são um fenómeno raro, de carácter aleatório, e que apenas pode ser trabalhado probabilisticamente. Num algoritmo, podemos dosear a quantidade de mutação, e é só uma questão de tempo e de processador para que o algoritmo produza uma solução boa. Mas a Natureza não funciona assim, e confesso que vejo a necessidade não de um, mas de vários milhões de milagres para que, ao longo de tanto tempo, e parodiando, uma amiba dê origem ao Homem, tudo apenas com mutações genéticas.
Por tudo isto, penso que o evolucionismo tem um lado aceitável (a Selecção Natural, que pode encerrar em si mesma uma parcela da verdade sobre o devir das espécies), e um lado questionável (a evolução por mutações).
Questionar o evolucionismo é tarefa de qualquer pessoa séria que se debruce sobre este problema. Aliás, em Ciência, questionar é A TAREFA. Como eu gostaria de ver nestes tempos as mentes mais brilhantes debaterem estes temas sem entrarem na infantilização do adversário e sem entrarem em jogadas políticas de ataque à religião.
O criacionismo existe há milhares de anos no mundo Ocidental. Estruturas teóricas cosmológicas semelhantes encontram-se no pensamento oriental. A metafísica e as formas de ontologia de origem divina acompanharam o pensar humano desde sempre. Não faz sentido menosprezar o imenso peso intelectual dos defensores do Criacionismo. E muito menos tentar transformar os delírios intelectuais com que os E.U.A. nos costumam brindar, nestas e noutras matérias, na regra geral aplicável a todos. A forma como concebo o criacionismo é muito diferente da da maioria dos criacionistas norte-americanos.
Fica para uma próxima oportunidade alongar-me mais sobre isto.
Para terminar, uma ideia fundamental: o criacionismo é uma tese que não pode ser tratada pelas ferramentas da ciência moderna. É esta uma das razões principais para o aprofundar de toda esta incompreensão. Pelo facto de recorrer a causas metafísicas, e portanto supra-empíricas, o criacionismo é sobretudo uma corrente filosófica. O criacionismo estabelece uma causa sobrenatural para efeitos naturais. O evolucionismo, pelo contrário, e também legitimamente, procura essa mesma causa na própria natureza.
Duas metodologias diferentes que teriam que, naturalmente, conduzir a duas teorias diferentes.
Qualquer "dogmatismo científico" nesta área só pode ser estéril. Se eu fosse um cientista adepto do evolucionismo não me preocupava com os criacionistas: não há base científica para demonstrar o criacionismo. Contudo, as coisas também não estão fáceis para o evolucionismo, uma vez que a base científica de demonstração é eminentemente frágil, controversa e questionável. Para mais, o cientista moderno, em absoluto, terá que ter sempre presente que abdicou, por opção própria, do metafísico no primeiro dia em que se decidiu a trabalhar com ferramentas científicas modernas.
Deixemos a linguagem dogmática para a religião, que é a única que, por definição, a pode exercer com autoridade. Esperemos que os neo-darwinistas possam encontrar a calma e a lucidez para poderem efectuar verdadeiro trabalho científico, ao invés de promoverem agendas anti-religiosas.
Por outro lado, esperemos que os criacionistas do séquito de George W. Bush, com as suas agendas fanáticas bem preenchidas, não façam mais estragos a esta já delicada situação.
Bernardo
O que se segue, como não podia deixar de ser, é um texto de opinião, visto que não me considero entendido nas matérias em questão.
As posições tomadas por George W. Bush, nos E.U.A., relativamente ao ensino do intelligent design nas escolas a par com as doutrinas evolucionistas têm gerado imensa polémica.
Muitos evolucionistas surgem ao ataque, agitando as suas espadas em nome da Ciência, contra o que chamam de "obscurantismo medieval", ou seja, o criacionismo.
A histeria, como se sabe, nunca é boa a ajuizar em matérias tão difíceis. Antes de mais, tenho que dizer que, sendo católico, e tendo pensado muito no assunto, opto por uma forma específica de criacionismo. A mais elementar obediência à doutrina católica deveria ter-me levado a assumir, imediatamente, a defesa dessa tese cosmológica. Contudo, parece-me sempre proveitoso que se medite sobre estas questões, de modo a que o crente tome uma decisão, que não obstante ser de fé, seja maturada e ponderada.
Ponhamos as duas teorias (e sublinho a palavra teorias) lado a lado, de forma muito sucinta:
- o Evolucionismo: não obstante os inúmeros ramos evolucionistas, e a grande disparidade de correntes que existem, parece-me razoável definir o evolucionismo como uma tese que se sustenta em dois pontos essenciais, que devem jogar em conjunto para o sucesso da teoria:
a) a Selecção Natural, devida a Darwin, como forma de filtrar a aptidão para a sobrevivência de uma dada espécie; as espécies menos preparadas desaparecem, as mais bem preparadas sobrevivem e multiplicam-se
b) as mutações genéticas como justificação para a variedade de espécies; ao longo de muitos milhões de anos, a alteração por mutação do património genético de uma espécie (ADN) faria dela uma outra espécie
- O Criacionismo: também uma posição matizada, feita de inúmeras correntes, que advoga, para justificar a variedade das espécies de seres vivos, a acção inteligente de uma entidade superior, que se poderia definir como divina e criadora.
Nos E.U.A., temos assistido recentemente ao surgir de inúmeros movimentos criacionistas, que atacam ferozmente o evolucionismo. Vejamos o que é defendido nas mais importantes modalidades do criacionismo:
a) há os que advogam que o Génesis e as Sagradas Escrituras devem ser lidas à letra, defendendo deste modo que a Terra não teria mais do que alguns milhares de anos; seguem a cronologia do Arcebispo de Armagh (Irlanda), James Ussher, que no século XVIII elaborou uma estrutura de datação para a Terra, afirmando que a Criação se dera no ano de 4004 a.C.
b) há os que, afirmando-se cristãos, concordam com a generalidade, senão mesmo a totalidade, da teoria evolucionista; defendem que a evolução, a par com a selecção natural darwiniana, são processos intencionais criados por Deus para guiar o devir do mundo natural
Há ainda inúmeras outras formas de ver o criacionismo que não professam necessariamente a ideia de que a Terra é recente, ou a ideia de que o Génesis deve ser lido com os olhos do Homem do século XXI, e não obstante manifestam-se altamente críticas, não tanto da Selecção Natural mas sobretudo da evolução das espécies por mutações.
Encontro-me nesta última categoria, e foi precisamente o facto de eu achar que este tema anda a ser discutido de forma altamente falaciosa, imperfeita e política que me atirei para a frente com a ideia de lançar este tema aqui no Afixe.
Certos evolucionistas rejubilaram quando, há uns anos a esta parte, o Papa João Paulo II afirmou que a evolução era mais do que uma hipótese. Para eles, era o sinal de que a Igreja Católica dava luz verde ao evolucionismo. Com a subida do Cardeal Ratzinger ao trono papal, muitos demonstraram a sua revolta por aquilo que julgavam ser um retrocesso num suposto "amén" católico ao evolucionismo.
Nada disso.
O actual Papa Bento XVI está em total sintonia com João Paulo II neste aspecto. O evolucionismo é mais do que uma hipótese: é uma teoria científica. A selecção das espécies não contradiz a razão natural nem o mais elementar bom senso. As espécies mais bem adaptadas sobrevivem, e outras menos adaptadas morrem.
As recentes declarações do Arcebispo de Viena, Cristoph Schönborn, geraram mais uma onda de contestação mediática. Vemos que as palavras deste Arcebispo evidenciam claramente a necessidade dos esclarecimentos que o seu texto traz.
Schönborn diz, com muita razão, que muitos evolucionistas deram uma interpretação equivocada às palavras do Papa João Paulo II. O Papa João Paulo II, numa audiência datada de 10 de Julho de 1985, pronunciou sólidas palavras sobre esta matéria. Em suma, o Santo Padre afirmava:
«A evolução dos seres vivos, de que a ciência procura determinar as etapas e discernir o mecanismo, apresenta um finalismo interno que suscita a admiração. Esta finalidade que orienta os seres numa direcção, da qual não existem padrões nem responsáveis, obriga a supor um Espírito que seja o seu inventor, o criador.»
Estas palavras prudentes demonstram que o Santo Padre não se pronunciou fora do campo da sua competência, deixando à Ciência o trabalho árduo de discernir o mecanismo do devir dos seres vivos. O que não está aqui, e que nunca foi defendido pela Igreja Católica, é um aval ao neo-darwinismo, a defesa da ideia peregrina de que a inteligência surge nos seres vivos por milhões de anos de mutações ocasionais e aleatórias. No limite, mesmo sendo possível demonstrar que as mutações genéticas permitem a multitude de espécies conhecidas (extintas ou não), a doutrina católica mostra-se clara num ponto fundamental: a matéria não engendra o intelecto.
Importa salientar que, no debate de ideias, há sempre espaço para uma certa dose de fé. Senão vejamos: ninguém discute a presença desta dose de fé no lado criacionista. Contudo, poucos a reconhecem no lado evolucionista.
Nos meus tempos de Universidade, trabalhei com ferramentas matemáticas que dão pelo nome de Algoritmos Genéticos. O bonito nome pode gerar equívocos, pelo que importa explicar sucintamente o que são e para que servem.
Os algoritmos genéticos são uma das muitas metodologias de resolução de problemas matemáticos. Antes de principiar um algoritmo genético, há que ter duas coisas (que me desculpem os especialistas por esta apresentação mutilada e simplista):
1. Uma heurística que codifique numericamente uma solução para o problema; sem esta codificação (dita "genética"), a solução não pode ser trabalhada algoritmicamente
2. Uma função de custo, que avalie o valor de uma dada solução. Esta função de custo será o juíz, que dará uma pontuação (numa escala pré-definida) a cada solução do problema
Como evolui o algoritmo?
Evolui sensivelmente da mesma forma que, segundo os evolucionistas, o mundo vivo teria evoluido desde os primórdios:
a) parte-se de um conjunto aleatório de possíveis soluções para o problema, todas colocadas em pé de igualdade, e todas codificadas da mesma forma; o ingrediente elementar de cada solução é chamado de "gene", e é um valor numérico que pode ser modificado
b) mutações ocasionais (alterações na codificação das soluções em jogo) permitem o surgimento de novas possíveis soluções; a função de custo avalia as novas soluções: as menos pontuadas vão para o fim da lista (e podem mesmo ser eliminadas); as mais bem pontuadas ascendem na tabela de pontuação.
Ao fim de muitos passos, com maior ou menor dosagem de mutações, o algoritmo produz a "melhor" solução, extraída por pontuação do conjunto inicial aleatório de soluções.
Isto funciona!
Contudo, não se pode aplicar este raciocínio ao ADN dos seres vivos. Porquê? Há várias razões, mas sublinho estas:
1. O património genético de um ser vivo é composto por milhares de genes e é tipicamente muito estável; o ADN reage, muitas vezes, a mutações que num algoritmo numérico poderiam ser desastrosas, mas que no mundo real podem não ter consequências graves para o ser vivo: a Natureza defende-se das mutações
2. As mutações na Natureza são um fenómeno raro, de carácter aleatório, e que apenas pode ser trabalhado probabilisticamente. Num algoritmo, podemos dosear a quantidade de mutação, e é só uma questão de tempo e de processador para que o algoritmo produza uma solução boa. Mas a Natureza não funciona assim, e confesso que vejo a necessidade não de um, mas de vários milhões de milagres para que, ao longo de tanto tempo, e parodiando, uma amiba dê origem ao Homem, tudo apenas com mutações genéticas.
Por tudo isto, penso que o evolucionismo tem um lado aceitável (a Selecção Natural, que pode encerrar em si mesma uma parcela da verdade sobre o devir das espécies), e um lado questionável (a evolução por mutações).
Questionar o evolucionismo é tarefa de qualquer pessoa séria que se debruce sobre este problema. Aliás, em Ciência, questionar é A TAREFA. Como eu gostaria de ver nestes tempos as mentes mais brilhantes debaterem estes temas sem entrarem na infantilização do adversário e sem entrarem em jogadas políticas de ataque à religião.
O criacionismo existe há milhares de anos no mundo Ocidental. Estruturas teóricas cosmológicas semelhantes encontram-se no pensamento oriental. A metafísica e as formas de ontologia de origem divina acompanharam o pensar humano desde sempre. Não faz sentido menosprezar o imenso peso intelectual dos defensores do Criacionismo. E muito menos tentar transformar os delírios intelectuais com que os E.U.A. nos costumam brindar, nestas e noutras matérias, na regra geral aplicável a todos. A forma como concebo o criacionismo é muito diferente da da maioria dos criacionistas norte-americanos.
Fica para uma próxima oportunidade alongar-me mais sobre isto.
Para terminar, uma ideia fundamental: o criacionismo é uma tese que não pode ser tratada pelas ferramentas da ciência moderna. É esta uma das razões principais para o aprofundar de toda esta incompreensão. Pelo facto de recorrer a causas metafísicas, e portanto supra-empíricas, o criacionismo é sobretudo uma corrente filosófica. O criacionismo estabelece uma causa sobrenatural para efeitos naturais. O evolucionismo, pelo contrário, e também legitimamente, procura essa mesma causa na própria natureza.
Duas metodologias diferentes que teriam que, naturalmente, conduzir a duas teorias diferentes.
Qualquer "dogmatismo científico" nesta área só pode ser estéril. Se eu fosse um cientista adepto do evolucionismo não me preocupava com os criacionistas: não há base científica para demonstrar o criacionismo. Contudo, as coisas também não estão fáceis para o evolucionismo, uma vez que a base científica de demonstração é eminentemente frágil, controversa e questionável. Para mais, o cientista moderno, em absoluto, terá que ter sempre presente que abdicou, por opção própria, do metafísico no primeiro dia em que se decidiu a trabalhar com ferramentas científicas modernas.
Deixemos a linguagem dogmática para a religião, que é a única que, por definição, a pode exercer com autoridade. Esperemos que os neo-darwinistas possam encontrar a calma e a lucidez para poderem efectuar verdadeiro trabalho científico, ao invés de promoverem agendas anti-religiosas.
Por outro lado, esperemos que os criacionistas do séquito de George W. Bush, com as suas agendas fanáticas bem preenchidas, não façam mais estragos a esta já delicada situação.
Bernardo
Sou criacionista...
... e com muito orgulho, porque é uma posição tomada com ponderação com sensatez e com muita hora dedicada a pensar no assunto.
Outros há que, dotados de uma inteligência acima da média, porque não sujeita à obscurantista religião, pensam melhor que uma criatura como eu, que só pode ser criacionista por ignorância ou casmurrice.
Diz a Palmira que costuma tratar em vários posts os "mitos cristãos sobre a origem do Universo", ou seja, traduzido para linguagem não distorcida, ela pretende falar sobre cosmogonia cristã. Um tema que ela ignora profundamente, ou se não ignora, apresenta-a de uma forma totalmente distorcida.
Oxalá que seja por ignorância que escreve o que escreve, Palmira, porque senão será por razões mais graves, que se prendem com a típica desonestidade intelectual que encontramos um pouco por toda a parte no local onde costuma escrever.
Que quer ela dizer? Que a cosmogonia cristã é "mitológica", ou seja, que nada tem a ver com a realidade.
Sim, e a teoria que esta senhora defende, ou seja, a teoria de que tudo o que existe e vive neste Universo surgiu devido a milhões de acasos, cada um deles de probabilidade quase zero, que ficaram a marinar durante biliões de anos?
Quando se pergunta a um evolucionista como é que ele explica os "missing links", a resposta é quase sempre esta: "passou muito tempo".
Ou seja, é como jogar na lotaria.
A evolução, como teoria, é semelhante a jogar no Euromilhões. Ganhar é fácil! Bastaria jogar 1.000.000.000.000.000.000 de vezes e tudo correria bem, quase de certeza!
Que dizer desta teoria, senão que se nos afigura como eminentemente mitológica? Como acreditar nisto? Como não ver nisto a marca da pseudo-ciência?
Darwin: que dizem em teu nome estes novos pseudo-cientistas?
Selecção natural? Tudo bem, porque darwinismo não é igual a neo-darwinismo. Nada tenho a opor à rarefacção de espécies menos preparadas para os meios em que viveram, desde que não me façam crer que as espécies dão saltos por acaso, que estranhas mutações fazem uma espécie mudar para outra totalmente diferente, e que, passados milhões de anos, uma ameba se torna num homem.
Mas passemos adiante, e deixemos os novos cientistas destruirem a Ciência, porque o que me traz aqui é a questão religiosa, que como sempre, é usada como papel higiénico na prosa desta senhora.
Como é desonesta, Palmira gosta de misturar a posição da Igreja Católica, que é a minha, e que é a da criação do Mundo por Deus exemplificada pela constatação de que há um desenho inteligente no Universo, com outras posições ridículas que ela vai buscar, como não podia deixar de ser, ao pardieiro intelectual dos nossos tempos: os E.U.A., onde pululam grupelhos de estranhos criacionistas que defendem as mais bizarras teses, e que a Palmira, muito convenientemente, mistura ao barulho como se fossem de índole intectual idêntica à da Igreja Católica.
"Mas nos Estados Unidos, onde o fundamentalismo e a IDiotia cristãs prosperam, os mitos cristãos da Criação são aceites como verdade por uma percentagem assustadora da população."
Assustadora porquê?
Sendo criacionista, devo supor que meto medo à Palmira?
Buuuu!!
"Nomeadamente acreditam que a Terra e o Universo foram criados em seis dias há menos de 10 000 anos, que todos os animais existentes (incluindo os extintos) foram criados simultaneamente e passaram por uma temporada na arca de Noé, enfim aceitam como verdade absoluta os absurdos mitos bíblicos."
Isto é, evidentemente, uma infantilização total do relato do Génesis. É perfeitamente possível professar a verdade do Génesis, e simultaneamente admitir os factos incontestáveis que os métodos científicos nos exibem. E tudo isto sem se ser evolucionista!
Há toda uma incompreensão profunda da tessitura do Génesis, e mesmo da linguagem própria do texto revelado.
E tudo isto em nome de quê?
De uma enorme arrogância pseudo-intelectual, de uma chacota da religião, e tudo feito, como não podia deixar de ser, infantilizando os crentes.
Há crentes que pensam, por muito que isso incomode gente como esta.
"Por exemplo, pretendem que os métodos de datação que indicam muitos milhões de anos para a idade da Terra são todos falíveis e assentes em pressupostos errados"
É possível ser criacionista e defender que a Terra tem milhões de anos de idade. E tudo isto sem ser evolucionista. É o meu caso e o de muitos outros criacionistas que pensaram antes de tomar uma posição.
E esta, hem?
Uma faláciazinha, Palmira? Mais uma?
Onde é que eu me encaixo, agora que você separou tudo em mais um dualismo falacioso, bem ao seu gosto e de acordo com as suas capacidades?
"Considerando que os primeiros ataques do Vaticano ao «criacionismo» ateu já começaram e que certamente se seguirão mais investidas para instalar o «santo» obscurantismo medieval, tão louvado pelo anterior Papa, no próximo post continuo com a análise do mito cristão da Criação!"
Análise?
Onde estava ela?
Bernardo
P.S. Peço desculpas aos leitores que não são alvo deste texto. O estilo ácido usado tem um propósito didáctico: fazer ver que estas questões não podem ser transformadas em guerrilha ideológica. E fazer ver que, como crente, me sinto ofendido pelo estilo parodiante usado por alguns escritores ateizantes (ateizantes porque, ao invés de serem apenas ateus, querem ateizar o Mundo) como a Prof. Palmira. O crente criacionista não pode ser rotulado de estúpido ou de acéfalo. Essa forma de ataque ad hominem demonstra que os adversários do criacionismo preferem esse estilo de pseudo-debate a uma troca de ideias com mútuo respeito e seriedade. O estilo mais sério do texto que se segue é prova de que prefiro tratar estes temas com calma e serenidade, e que sempre foi esse o meu objectivo.
Outros há que, dotados de uma inteligência acima da média, porque não sujeita à obscurantista religião, pensam melhor que uma criatura como eu, que só pode ser criacionista por ignorância ou casmurrice.
Diz a Palmira que costuma tratar em vários posts os "mitos cristãos sobre a origem do Universo", ou seja, traduzido para linguagem não distorcida, ela pretende falar sobre cosmogonia cristã. Um tema que ela ignora profundamente, ou se não ignora, apresenta-a de uma forma totalmente distorcida.
Oxalá que seja por ignorância que escreve o que escreve, Palmira, porque senão será por razões mais graves, que se prendem com a típica desonestidade intelectual que encontramos um pouco por toda a parte no local onde costuma escrever.
Que quer ela dizer? Que a cosmogonia cristã é "mitológica", ou seja, que nada tem a ver com a realidade.
Sim, e a teoria que esta senhora defende, ou seja, a teoria de que tudo o que existe e vive neste Universo surgiu devido a milhões de acasos, cada um deles de probabilidade quase zero, que ficaram a marinar durante biliões de anos?
Quando se pergunta a um evolucionista como é que ele explica os "missing links", a resposta é quase sempre esta: "passou muito tempo".
Ou seja, é como jogar na lotaria.
A evolução, como teoria, é semelhante a jogar no Euromilhões. Ganhar é fácil! Bastaria jogar 1.000.000.000.000.000.000 de vezes e tudo correria bem, quase de certeza!
Que dizer desta teoria, senão que se nos afigura como eminentemente mitológica? Como acreditar nisto? Como não ver nisto a marca da pseudo-ciência?
Darwin: que dizem em teu nome estes novos pseudo-cientistas?
Selecção natural? Tudo bem, porque darwinismo não é igual a neo-darwinismo. Nada tenho a opor à rarefacção de espécies menos preparadas para os meios em que viveram, desde que não me façam crer que as espécies dão saltos por acaso, que estranhas mutações fazem uma espécie mudar para outra totalmente diferente, e que, passados milhões de anos, uma ameba se torna num homem.
Mas passemos adiante, e deixemos os novos cientistas destruirem a Ciência, porque o que me traz aqui é a questão religiosa, que como sempre, é usada como papel higiénico na prosa desta senhora.
Como é desonesta, Palmira gosta de misturar a posição da Igreja Católica, que é a minha, e que é a da criação do Mundo por Deus exemplificada pela constatação de que há um desenho inteligente no Universo, com outras posições ridículas que ela vai buscar, como não podia deixar de ser, ao pardieiro intelectual dos nossos tempos: os E.U.A., onde pululam grupelhos de estranhos criacionistas que defendem as mais bizarras teses, e que a Palmira, muito convenientemente, mistura ao barulho como se fossem de índole intectual idêntica à da Igreja Católica.
"Mas nos Estados Unidos, onde o fundamentalismo e a IDiotia cristãs prosperam, os mitos cristãos da Criação são aceites como verdade por uma percentagem assustadora da população."
Assustadora porquê?
Sendo criacionista, devo supor que meto medo à Palmira?
Buuuu!!
"Nomeadamente acreditam que a Terra e o Universo foram criados em seis dias há menos de 10 000 anos, que todos os animais existentes (incluindo os extintos) foram criados simultaneamente e passaram por uma temporada na arca de Noé, enfim aceitam como verdade absoluta os absurdos mitos bíblicos."
Isto é, evidentemente, uma infantilização total do relato do Génesis. É perfeitamente possível professar a verdade do Génesis, e simultaneamente admitir os factos incontestáveis que os métodos científicos nos exibem. E tudo isto sem se ser evolucionista!
Há toda uma incompreensão profunda da tessitura do Génesis, e mesmo da linguagem própria do texto revelado.
E tudo isto em nome de quê?
De uma enorme arrogância pseudo-intelectual, de uma chacota da religião, e tudo feito, como não podia deixar de ser, infantilizando os crentes.
Há crentes que pensam, por muito que isso incomode gente como esta.
"Por exemplo, pretendem que os métodos de datação que indicam muitos milhões de anos para a idade da Terra são todos falíveis e assentes em pressupostos errados"
É possível ser criacionista e defender que a Terra tem milhões de anos de idade. E tudo isto sem ser evolucionista. É o meu caso e o de muitos outros criacionistas que pensaram antes de tomar uma posição.
E esta, hem?
Uma faláciazinha, Palmira? Mais uma?
Onde é que eu me encaixo, agora que você separou tudo em mais um dualismo falacioso, bem ao seu gosto e de acordo com as suas capacidades?
"Considerando que os primeiros ataques do Vaticano ao «criacionismo» ateu já começaram e que certamente se seguirão mais investidas para instalar o «santo» obscurantismo medieval, tão louvado pelo anterior Papa, no próximo post continuo com a análise do mito cristão da Criação!"
Análise?
Onde estava ela?
Bernardo
P.S. Peço desculpas aos leitores que não são alvo deste texto. O estilo ácido usado tem um propósito didáctico: fazer ver que estas questões não podem ser transformadas em guerrilha ideológica. E fazer ver que, como crente, me sinto ofendido pelo estilo parodiante usado por alguns escritores ateizantes (ateizantes porque, ao invés de serem apenas ateus, querem ateizar o Mundo) como a Prof. Palmira. O crente criacionista não pode ser rotulado de estúpido ou de acéfalo. Essa forma de ataque ad hominem demonstra que os adversários do criacionismo preferem esse estilo de pseudo-debate a uma troca de ideias com mútuo respeito e seriedade. O estilo mais sério do texto que se segue é prova de que prefiro tratar estes temas com calma e serenidade, e que sempre foi esse o meu objectivo.
segunda-feira, 11 de julho de 2005
Sincrético, José? Eu?
Meister José, um velho amigo destas andanças blogosféricas, honrou-me na semana passada com esta menção, num artigo intitulado Música celestial:
O Bernardo Motta, outro indivíduo de mistério, autor publicado, vindo das trevas do esoterismo e chegado à claridade do Catecismo, católico tradicionalista mas sincrético, atento leitor de René Guénon mas também de Ananda Coomaraswamy.
Como diria o outro, olha que não, José, olha que não!
É, de facto, bem feito para mim que o José me chame de sincrético. E, não fosse eu estar agora aqui prontinho para tentar fugir com o rabo à seringa, estaria tudo dito! Mas vou tentar safar a minha pele...
Meu caro José, na parte do católico tradicionalista acertas em cheio, se bem que a expressão é perigosa, uma vez que permitiria supor que eu tenho alguma coisa a ver com os católicos também ditos "tradicionalistas" que não reconhecem nenhum papa como válido desde o Concílio Vaticano II. Não é o meu caso. Por isso, deixando bem claro que me sinto plenamente integrado na Igreja Católica, não deixo de ser profundamente tradicionalista.
Agora vamos à questão do esoterismo e do sincretismo, que é bem mais espinhosa.
Tal como o dia é luminoso e a noite é escura, eu tenho a minha fé católica como a parte segura, luminosa, "diurna" da minha personalidade.
Por outro lado, a parte "noctura" de mim procura incessantemente tudo o que se mexe espiritualmente. Sou um curioso nato, e é algo que tenho em comum contigo, José. Mas a minha curiosidade leva-me a sair, à noite, da segurança da Cidade de Deus para os terrenos inexplorados onde há tanta coisa para descobrir.
Fora da cidade, também haverá profetas?
Penso que sim, e é isso que me faz sair, por vezes, da segurança das fronteiras bem definidas. Serei esoterista? Acho que não, sou apenas um curioso destas temáticas. Serei sincrético? Julgo que não, porque dos esoterismos retiro, sobretudo, interesse intelectual, e não opção religiosa ou pística. Seria sincrético se, paralelamente à fé católica, eu mantivesse crenças e convicções de fé externas a ela. Não é o caso.
Contudo, pela maneira como escrevo, ou quando defendo a qualidade que existe, inegavelmente, em certos esoterismos, é natural que eu pareça sincrético. René Guénon, e Ananda Coomaraswamy são os exemplos que levantas, José, e são bons exemplos. São exemplos do esoterismo sério e culto. Não os ler é, a meu ver, perder um manancial de intelectualidade. Isso não quer dizer que eu adira à totalidade (ou a grande parte) das suas ideias. René Guénon é um autor com imenso para ensinar a católicos, mas a sua obra contém também uma série de ideias incompatíveis com a fé católica.
Discernir é difícil, mas sabes bem que isso me diverte imenso.
Somos muito parecidos em termos de fé, José, e ambos tivemos uma conversão tardia (eu sempre fui "formalmente" católico, mas só me converti de facto já em idade adulta, quando finalmente pude pensar de forma madura sobre estes assuntos). Dizem que os que se convertem tardiamente se tornam fanáticos. Espero que isso não esteja a acontecer comigo. Para combater isso é que eu sou, como tu, intelectualmente irrequieto e inquieto. Isso é bom. Desde que seja temperado com bom senso!
Um abraço,
Bernardo
O Bernardo Motta, outro indivíduo de mistério, autor publicado, vindo das trevas do esoterismo e chegado à claridade do Catecismo, católico tradicionalista mas sincrético, atento leitor de René Guénon mas também de Ananda Coomaraswamy.
Como diria o outro, olha que não, José, olha que não!
É, de facto, bem feito para mim que o José me chame de sincrético. E, não fosse eu estar agora aqui prontinho para tentar fugir com o rabo à seringa, estaria tudo dito! Mas vou tentar safar a minha pele...
Meu caro José, na parte do católico tradicionalista acertas em cheio, se bem que a expressão é perigosa, uma vez que permitiria supor que eu tenho alguma coisa a ver com os católicos também ditos "tradicionalistas" que não reconhecem nenhum papa como válido desde o Concílio Vaticano II. Não é o meu caso. Por isso, deixando bem claro que me sinto plenamente integrado na Igreja Católica, não deixo de ser profundamente tradicionalista.
Agora vamos à questão do esoterismo e do sincretismo, que é bem mais espinhosa.
Tal como o dia é luminoso e a noite é escura, eu tenho a minha fé católica como a parte segura, luminosa, "diurna" da minha personalidade.
Por outro lado, a parte "noctura" de mim procura incessantemente tudo o que se mexe espiritualmente. Sou um curioso nato, e é algo que tenho em comum contigo, José. Mas a minha curiosidade leva-me a sair, à noite, da segurança da Cidade de Deus para os terrenos inexplorados onde há tanta coisa para descobrir.
Fora da cidade, também haverá profetas?
Penso que sim, e é isso que me faz sair, por vezes, da segurança das fronteiras bem definidas. Serei esoterista? Acho que não, sou apenas um curioso destas temáticas. Serei sincrético? Julgo que não, porque dos esoterismos retiro, sobretudo, interesse intelectual, e não opção religiosa ou pística. Seria sincrético se, paralelamente à fé católica, eu mantivesse crenças e convicções de fé externas a ela. Não é o caso.
Contudo, pela maneira como escrevo, ou quando defendo a qualidade que existe, inegavelmente, em certos esoterismos, é natural que eu pareça sincrético. René Guénon, e Ananda Coomaraswamy são os exemplos que levantas, José, e são bons exemplos. São exemplos do esoterismo sério e culto. Não os ler é, a meu ver, perder um manancial de intelectualidade. Isso não quer dizer que eu adira à totalidade (ou a grande parte) das suas ideias. René Guénon é um autor com imenso para ensinar a católicos, mas a sua obra contém também uma série de ideias incompatíveis com a fé católica.
Discernir é difícil, mas sabes bem que isso me diverte imenso.
Somos muito parecidos em termos de fé, José, e ambos tivemos uma conversão tardia (eu sempre fui "formalmente" católico, mas só me converti de facto já em idade adulta, quando finalmente pude pensar de forma madura sobre estes assuntos). Dizem que os que se convertem tardiamente se tornam fanáticos. Espero que isso não esteja a acontecer comigo. Para combater isso é que eu sou, como tu, intelectualmente irrequieto e inquieto. Isso é bom. Desde que seja temperado com bom senso!
Um abraço,
Bernardo
domingo, 10 de julho de 2005
Desabafos
Depois de ler a animada troca de comentários entre o Machogrosso e o CA relativamente ao meu último post, apeteceu-me escrever estes desabafos. Peço a quem me lê que veja isto como meros desabafos, cujo reduzido valor serve como boa desculpa para a linguagem ligeira por mim utilizada.
Agradecendo a ajuda do Machogrosso, meu amigo transatlântico, que muitas vezes por cá passa para me demonstrar que eu não estou louco, e que, graças a Deus, ainda há pessoas a tentar pensar e a colocar questões com clareza, queria tecer alguns comentários, à laia de desabafo, depois de ter lido o que escreveu o CA.
O CA recorda-me uma fase da minha vida, na qual eu também diabolizava as "estruturas" do Vaticano, e procurava colocar todas as minhas ignorâncias dentro dessa grande caixa negra de "futilidades vaticanas". Assim, nessa óptica, eu era um protestante sem o saber. Era um protestante que ia à missa, convicto de que não precisava de toda aquela "tralha" inventada por um Vaticano "burocrático" e "déspota".
Mas caramba, eu tinha então vinte anos e era muito ingénuo!
Estava profundamente formatado pela opinionite inculcada pelos mass media.
Desde essa altura, tenho feito um esforço considerável para me instruir em doutrina católica, para aprender o máximo que posso sobre a História da Igreja Católica, para esclarecer as minhas inúmeras dúvidas junto de fontes sérias e credíveis.
Faz-me uma imensa confusão que se considerem as ilacções doutrinárias da Congregação para a Doutrina da Fé como coisas acessórias para a fé do católico.
E porquê?
Porque, do meu estudo das heresias e da história agitada dos primeiros séculos de cristianismo, recordo-me dos excessos de certas seitas que, detestando todo o tipo de estrutura hierárquica, procuravam, numa quase anarquia, o que eles achavam que era "cristianismo original".
A hierarquia foi estabelecida, à luz da doutrina, pelo próprio Jesus Cristo, que escolheu a figura de Pedro como cabeça do seu movimento:
Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam
Não poucas vezes, vejo crentes católicos repudiarem dogmas como o da Infalibilidade Papal, ou o da Imaculada Conceição de Maria, só porque são, para eles, "invenções modernas". Estes dogmas, mesmo surgindo na era moderna, são os frutos da tradição apostólica, do desabrochar das potencialidades da fé crística. Será a maçã, recentemente formada, de natureza diferente da árvore que a gerou?
A tradição apostólica faz da Igreja Católica um dos mais complexos, mas também dos mais coerentes, movimentos que a Humanidade já conheceu.
É da mais simples e discreta humildade que o crente, perante uma naturalíssima dúvida, dê o benefício a uma doutrina com dois mil anos de tradição.
Por outro lado, é da mais abjecta arrogância recorrer à diabolização do Vaticano (transformado em máquina infernal de fúteis invenções doutrinárias) para tentar ocultar atrás de uma opinionite aguda graves deficiências de cultura católica.
Como é possível que um crente, profundamente desconhecedor das questões fundamentais do cristianismo, seja tão egocêntrico ao ponto de achar que a sua opinião ignorante, puro flatus voci, vale alguma coisa contra a solidez de temas tratados durante milénios pelas mais brilhantes cabeças que o Ocidente conheceu?
Usa-se, hoje em dia, e abusa-se, de termos como "tolerância", ou "liberdade de expressão", ou ainda "liberdade de opinião".
Nada tenho a opor-me a estes termos, nem às liberdades por eles defendidas. Contudo, ninguém me poderá negar o direito a expor este vício moderno, a opinionite, pela qual a ignorância pretende subir ao palanque para arrancar à força os louros que antes cabiam à sabedoria.
Opiniões, todos as podemos ter.
Contudo, evitemos confundir opiniões com factos.
É um facto que a doutrina católica professa a existência do Diabo, dos seres intermédios (vulgo "anjos" e "demónios"), bem como usa rituais adequados para lidar com certas situações de real possessão demoníaca.
A opinionite dos católicos "modernistas", cuja intelectualidade está já irremediavelmente materialista, positivista e empirista, nada poderá fazer contra este facto, mesmo que hoje em dia poucos sejam aqueles que o reconhecem como facto.
Ajudados como estão por, também eles "modernos" e "progressistas", teólogos que hoje em dia já são sobretudo "kantianos", "hegelianos", "schopenauerianos", "cartesianos", "jamesianos", teólogos que já não se interessam pela santa doutrina que herdaram dos nossos antepassados na fé, os modernos crentes católicos tentam transformar o catolicismo numa grande tenda, onde cabem todos, bem ao estilo dos tempos modernos.
No que me toca, da minha miserável condição de ser humano que nunca poderá evitar a "marcha do mundo", não me calarei e não prescindirei da denúncia dos vícios modernistas, que se infiltram ininterruptamente e subrepticiamente na doutrina católica.
Os católicos "modernistas", não se dão conta que, de facto, são meros instrumentos nesta marcha inexorável em direcção à dissolução do temporal. Lêem, entusiasmados, um Teilhard de Chardin (criador da excentricidade do "deus evolutor"), com o fascínio com que deveriam ler um São Tomás de Aquino!
O que quererá isto dizer sobre o catolicismo moderno, e sobre o destino que muitos lhe querem imprimir?
Agradecendo a ajuda do Machogrosso, meu amigo transatlântico, que muitas vezes por cá passa para me demonstrar que eu não estou louco, e que, graças a Deus, ainda há pessoas a tentar pensar e a colocar questões com clareza, queria tecer alguns comentários, à laia de desabafo, depois de ter lido o que escreveu o CA.
O CA recorda-me uma fase da minha vida, na qual eu também diabolizava as "estruturas" do Vaticano, e procurava colocar todas as minhas ignorâncias dentro dessa grande caixa negra de "futilidades vaticanas". Assim, nessa óptica, eu era um protestante sem o saber. Era um protestante que ia à missa, convicto de que não precisava de toda aquela "tralha" inventada por um Vaticano "burocrático" e "déspota".
Mas caramba, eu tinha então vinte anos e era muito ingénuo!
Estava profundamente formatado pela opinionite inculcada pelos mass media.
Desde essa altura, tenho feito um esforço considerável para me instruir em doutrina católica, para aprender o máximo que posso sobre a História da Igreja Católica, para esclarecer as minhas inúmeras dúvidas junto de fontes sérias e credíveis.
Faz-me uma imensa confusão que se considerem as ilacções doutrinárias da Congregação para a Doutrina da Fé como coisas acessórias para a fé do católico.
E porquê?
Porque, do meu estudo das heresias e da história agitada dos primeiros séculos de cristianismo, recordo-me dos excessos de certas seitas que, detestando todo o tipo de estrutura hierárquica, procuravam, numa quase anarquia, o que eles achavam que era "cristianismo original".
A hierarquia foi estabelecida, à luz da doutrina, pelo próprio Jesus Cristo, que escolheu a figura de Pedro como cabeça do seu movimento:
Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam
Não poucas vezes, vejo crentes católicos repudiarem dogmas como o da Infalibilidade Papal, ou o da Imaculada Conceição de Maria, só porque são, para eles, "invenções modernas". Estes dogmas, mesmo surgindo na era moderna, são os frutos da tradição apostólica, do desabrochar das potencialidades da fé crística. Será a maçã, recentemente formada, de natureza diferente da árvore que a gerou?
A tradição apostólica faz da Igreja Católica um dos mais complexos, mas também dos mais coerentes, movimentos que a Humanidade já conheceu.
É da mais simples e discreta humildade que o crente, perante uma naturalíssima dúvida, dê o benefício a uma doutrina com dois mil anos de tradição.
Por outro lado, é da mais abjecta arrogância recorrer à diabolização do Vaticano (transformado em máquina infernal de fúteis invenções doutrinárias) para tentar ocultar atrás de uma opinionite aguda graves deficiências de cultura católica.
Como é possível que um crente, profundamente desconhecedor das questões fundamentais do cristianismo, seja tão egocêntrico ao ponto de achar que a sua opinião ignorante, puro flatus voci, vale alguma coisa contra a solidez de temas tratados durante milénios pelas mais brilhantes cabeças que o Ocidente conheceu?
Usa-se, hoje em dia, e abusa-se, de termos como "tolerância", ou "liberdade de expressão", ou ainda "liberdade de opinião".
Nada tenho a opor-me a estes termos, nem às liberdades por eles defendidas. Contudo, ninguém me poderá negar o direito a expor este vício moderno, a opinionite, pela qual a ignorância pretende subir ao palanque para arrancar à força os louros que antes cabiam à sabedoria.
Opiniões, todos as podemos ter.
Contudo, evitemos confundir opiniões com factos.
É um facto que a doutrina católica professa a existência do Diabo, dos seres intermédios (vulgo "anjos" e "demónios"), bem como usa rituais adequados para lidar com certas situações de real possessão demoníaca.
A opinionite dos católicos "modernistas", cuja intelectualidade está já irremediavelmente materialista, positivista e empirista, nada poderá fazer contra este facto, mesmo que hoje em dia poucos sejam aqueles que o reconhecem como facto.
Ajudados como estão por, também eles "modernos" e "progressistas", teólogos que hoje em dia já são sobretudo "kantianos", "hegelianos", "schopenauerianos", "cartesianos", "jamesianos", teólogos que já não se interessam pela santa doutrina que herdaram dos nossos antepassados na fé, os modernos crentes católicos tentam transformar o catolicismo numa grande tenda, onde cabem todos, bem ao estilo dos tempos modernos.
No que me toca, da minha miserável condição de ser humano que nunca poderá evitar a "marcha do mundo", não me calarei e não prescindirei da denúncia dos vícios modernistas, que se infiltram ininterruptamente e subrepticiamente na doutrina católica.
Os católicos "modernistas", não se dão conta que, de facto, são meros instrumentos nesta marcha inexorável em direcção à dissolução do temporal. Lêem, entusiasmados, um Teilhard de Chardin (criador da excentricidade do "deus evolutor"), com o fascínio com que deveriam ler um São Tomás de Aquino!
O que quererá isto dizer sobre o catolicismo moderno, e sobre o destino que muitos lhe querem imprimir?
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