Quando reflectimos acerca do que escrevi nos textos anteriores, ou seja, acerca do facto de existirem sacerdotes e teólogos soi-disant "católicos" que defendem uma doutrina muito pessoal, e pouco católica, torna-se inevitável abordar a questão do modernismo.
O modernismo é uma heresia nascida no século XIX, que adquire visibilidade com a obra de Alfred Loisy (1857-1940), espalhando-se depressa no universo católico, e que foi denunciada e combatida desde muito cedo por papas como São Pio X (1835-1914), que inclusive fez promulgar um Juramento Anti-Modernista que deveria ser feito por todo e qualquer sacerdote católico.
Na encíclica Pascendi Domini Grecis, Pio X classifica o modernismo como a "síntese de todas as heresias", por isso se vê que a matéria não é ligeira.
O modernismo é bastante complexo e não é simples sintetizá-lo, mas pode-se fazer uma aproximação segura vendo-o como sendo uma leitura materialista e anti-metafísica da Revelação Cristã. O modernista deixa de ver os textos revelados como verdadeiros em si mesmos, passando a vê-los como uma possível leitura histórica, que teria validade no tempo dos seus autores terrenos, mas cuja validade poderia ser revista hoje pelo homem moderno. S. Tomás de Aquino defendia a veracidade das Escrituras do mesmo modo que defendia a veracidade de qualquer coisa: adequatio rei et intellectus, ou seja, é verdadeiro tudo aquilo que consiste na adequação das coisas (do "real") ao intelecto humano. As Sagradas Escrituras, possuindo certamente diversos níveis interpretativos mais profundos, são seguramente verdadeiras no seu primeiro e mais básico nível, o literal, conquanto o exegeta esteja munido das ferramentas hermenêuticas adequadas, que lhe permitem afastar toda e qualquer aparência de contradição.
Com o modernismo, é feita uma leitura "histórica" (e portanto anti-metafísica, porque destrói a invariância de espaço e de tempo) da Revelação. Segundo os modernistas, a veracidade literal das Sagradas Escrituras deveria ser revista, porventura negada em muitos aspectos, e deveria ser acomodada com as então recentes teorias científicas (das quais uma das mais importantes foi a de Darwin acerca da Evolução das Espécies).
Pio X reage com a necessária firmeza, afirmando que tal leitura anti-metafísica das Sagradas Escrituras estava contra o que de mais fundamental havia na fé católica. Segundo esta, apesar de nenhum enunciado bíblico poder alguma vez ser contrário à Razão (porque esta procede de Deus, a fé nunca pode ser irracional), os enunciados bíblicos, pela sua natureza de textos revelados (com forma humana e essência divina), permitem certamente inúmeros e indefinidos níveis de significado metafísico e doutrinal, sem nunca deixar de parte o significado literal.
Para evitar confusões, há que distinguir esta doutrina católica da inerrância do problema da sola scriptura protestante. O erro de um certo literalismo da hermenêutica protestante está na recusa de boa parte da tradição oral católica e apostólica, que é o garante de uma hermenêutica correcta e ortodoxa. Por outras palavras, o literalismo de que aqui se fala, para ser católico, deve ser contextualizado numa tradição oral que, atrevo-me a dizê-lo, pode ser vista como mais importante do que a escrita. E isto porque a palavra escrita é sempre consequência da palavra pensada ou falada.
Continuando na questão do relativismo histórico imposto pelos modernistas, os postulados verdadeiramente universais que surgem plasmados nos textos revelados, pela sua universalidade (catolicidade), não podem ter o seu critério de veracidade baseado no momento ou no local históricos. Tudo o que é universal, é-o ontem, como hoje e como amanhã. E é-o em qualquer lugar.
O modernismo rejeita tudo isto, sendo na verdade a materialização de um "suicídio de fé", pelo facto de fazer uma materialista e inaudita anti-hermenêutica dos textos revelados. Por esta razão, Pio X a classificou justamente como sendo a heresia que sintetiza todas as heresias.
Não obstante, o modernismo prosperou durante todo o século XX. Manifestou-se durante o Concílio Vaticano II, durante o qual, por exemplo, o cardeal de Viena, Franz König (1905-2004), considerado por muitos (com boas razões) como sendo modernista, fez um famoso discurso tentando contrariar a inerrância da Bíblia.
Não anda longe deste tema central para o catolicismo do século XX a contestação que muitos passaram a fazer, após o Vaticano II, aos dogmas de fé da Igreja Católica. Surgiu a ideia errada de que os dogmas tinham a sua justificação numa dada época histórica, e que agora poderiam ser contestados, e mesmo rejeitados se isso fosse conveniente. Como se a revelação crística e os textos sagrados possuissem prazo de validade!
Para mais, como já o disse noutra ocasião, este erro nasce da ignorância acerca da natureza distinta dos dogmata (os conceitos "interiores" da doutrina, invariantes por natureza) e dos kérigmata (as proclamações formais, e portanto "exteriores" dos mesmos). É aceitável discutir o revestimento formal de uma doutrina, a formulação textual da mesma. Aliás, esta discussão é, e foi, feita de forma corrente em qualquer Concílio. Mas para se alterar os conceitos interiores da doutrina católica, é necessário transformá-la noutra coisa que não católica, ou seja, distorcê-la ou destruí-la na sua essência.
Nos dias que correm, a praga do modernismo tornou-se na heresia católica mais importante de todas. É certo que poderíamos também evocar a heresia do gnosticismo como sendo hoje cultural e intelectualmente relevante (basta pensar no fenómeno "Código da Vinci" e similares). Mas, na minha opinião, o espaço fértil para o surgimento do neo-gnosticismo foi preparado, conscientemente ou não, pelos hereges modernistas dos finais do século XIX e do século XX, muitos deles figuras importantes no Concílio e hoje considerados e venerados por muitos como "teólogos excepcionais".
Agastados pela presença do modernismo no Vaticano II, determinados grupos decidiram demarcar-se deste Concílio, alegando que a heresia modernista se tinha apoderado dos trabalhos ao ponto de invalidar o Concílio como um todo. É uma questão complexa demais para a minha presente ignorância, pelo que me limito a afirmar a minha posição actual, sem conseguir demonstrá-la teoricamente: acredito, até demonstração em contrário, que o Vaticano II foi um concílio válido. Não considero esta posição como absoluta, o que seria insensato, uma vez que a História da Igreja presenciou alguns concílios que foram declarados inválidos. Julgo que as más consequências modernistas que foram retiradas do Concílio Vaticano II foram o resultado da heresia modernista que estava embutida nas crenças de alguns dos protagonistas conciliares (obrigados por Juramento a rejeitar o Modernismo), e nas crenças de muitos sacerdotes espalhados por todo o Mundo. Por isso, a minha posição actual é a de que o modernismo não estará, eventualmente, plasmado nos textos e deliberações do Concílio, mas sim nas interpretações erradas e abusivas, e nas aplicações concretas, que certos modernistas delas fizeram.
Nestes tempos em que vivemos, nos quais uma comunicação social catolicamente analfabeta (ou ideologicamente comprometida) procura sempre deixar falar, dar espaço de antena, e entrevistar os padres e teólogos dissidentes, nunca é demais relembrar que o modernismo é uma heresia, que é um atentado contra o que de mais essencial existe no catolicismo, e que é um fenómeno que está longe de ser explicado apenas de forma empírica, histórica ou sociológica...
É importante, hoje mais do que nunca, recordar as notáveis palavras do Papa Paulo VI, numa célebre homilia de 29 de Junho de 1972,
«Crediamo - osserva il Santo Padre - in qualcosa di preternaturale venuto nel mondo proprio per turbare, per soffocare i frutti del Concilio Ecumenico, e per impedire che la Chiesa prorompesse nell’inno della gioia di aver riavuto in pienezza la coscienza di sé. Appunto per questo vorremmo essere capaci, più che mai in questo momento, di esercitare la funzione assegnata da Dio a Pietro, di confermare nella Fede i fratelli. Noi vorremmo comunicarvi questo carisma della certezza che il Signore dà a colui che lo rappresenta anche indegnamente su questa terra» (negrito meu)
«da qualche fessura sia entrato il fumo di Satana nel tempio di Dio»
Paulo VI afirmava então, perante as nefastas consequências que muitos retiraram ilicitamente do Segundo Concílio Vaticano, que "(...) [através] de qualquer fissura teria entrado o fumo de Satanás no templo de Deus".
Espero que com este texto se entenda melhor porque razão decidi "provocar" os católicos portugueses ao abordar a questão da existência do Diabo, que no fundo, é a mesma questão da existência de criaturas (como tal, infra-divinas) num estado ôntico acima do humano (criaturas feitas "de puro intelecto", se quisermos). Negar o anjo caído é negar a demonologia. É negar que o Mal é uma "criatura intelectual", que é uma "ideia criada", que era boa antes da Queda, e que se degenerou devido à sua própria vontade de criatura livre em desobedecer ao seu Criador. Negar a demonologia é negar a angeologia, porque no fundo, os demónios são as hostes de Satanás, os anjos caídos que, por sua vontade, negaram obedecer a Deus, seguindo o Diabo na sua Queda.
(O conceito de "vontade" e o conceito de "liberdade" têm um imenso alcance metafísico e são centrais para se compreender a angeologia, mas isso terá que ficar para outra altura. Para já, gostaria apenas de deixar aqui a ideia de que Satanás, criação divina, com a sua existência, torna manifesta a ideia de "liberdade total para errar, para rejeitar Deus". É, por isso, a "causa" ôntica de todo o Mal. Isto não remove a responsabilidade ao católico, visto que este tem a sua consciência, e a sua contra-parte, a vontade, para optar, livremente, entre seguir o "pai da Mentira" ou seguir o Pai celestial.)
Negando a angeologia, temos o caminho aberto para negar o sobrenatural, e consequentemente, o significado e a suprema realidade da divindade. É da negação do sobrenatural, e mais ainda, da negação do Infinito divino como fonte e sustento ôntico do real, que nascem as confusões modernistas.
A recusa de muitos católicos modernos em reconhecer a realidade ôntica do Demónio como "ideia criada", como "criatura", tem origem na mesma confusão que os faz negar a inerrância da Bíblia, a virgindade real (física, biológica) da Virgem Maria, a realidade histórica literal da Ressurreição de Cristo, a realidade física da presença divina na Eucaristia, e enfim, tudo o que o catolicismo tem de supra-empírico. Por outras palavras, o modernista nega tudo o que o catolicismo tem de católico. Isso faz com que surja o inacreditável e o impossível, como vermos sacerdotes e teólogos "católicos" defenderem a posição do "sim" no recente referendo acerca da liberalização do aborto, ou manifestarem ideias confusas acerca da origem do ser humano.
O modernismo é um naufrágio pístico e doutrinal, que resulta de erros intelectuais facilmente solúveis, assim houvesse vontade dos seus protagonistas em proceder à sua correcção por via do estudo da Metafísica.
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Outro "católico" pelo SIM
«A corrente laicista, que deseja a Igreja fechada na sacristia, não creio que seja maioritária na sociedade portuguesa, apesar do nosso passado anticlerical. Mas a grande alergia à presença activa da Igreja talvez resulte da ideia de que ela quer fazer da sociedade e do espaço público uma sacristia. As declarações e posições pouco católicas (sic) de certos movimentos, personalidades e de alguns padres dão a impressão de quererem entregar à repressão do Estado, do Código Penal, dos tribunais, da polícia, da cadeia, as suas convicções morais (sic) (...)», Frei Bento Domingues, Por Opção da Mulher (negrito meu).
E quem terá ordenado este senhor?
E quem terá ordenado este senhor?
Os diários "católicos" de Che Guevara
Com a inquestionável vitória do SIM no referendo de ontem, a vida com dignidade e, mais especificamente, a vida e a dignidade das mulheres portuguesas acabam de conhecer um irreversível passo em frente no nosso país e, por arrastamento, na Europa e no resto do mundo. O mesmo se diga da autonomia da sociedade civil portuguesa frente à Igreja católica romana, cuja hierarquia (bispos residenciais e párocos, assessorados por Movimentos de leigas/leigos feitos à imagem e semelhança deles!), infelizmente, nesta matéria, não soube manter-se no seu lugar e continuou a comportar-se como se ainda vivêssemos sob o famigerado (sic) regime de Cristandade que o próprio Concílio Vaticano II, de feliz memória, oficialmente enterrou para sempre, mas que ela não se tem cansado de tentar restaurar. No que tem sido vergonhosamente apoiada pela conservadora e moralista (sic) Cúria Romana e seus sucessivos papas, os quais têm estado muito longe do espírito de abertura e de macroecumenismo do seu antecessor João XXIII, o mesmo que convocou aquele Concílio, para que ele fosse uma saudável e fecunda Revolução (sic) no interior da Igreja católica em todo o mundo. - breve trecho da entrada de 12 de Fevereiro do diário do "padre" Mário de Oliveira (negrito meu).
Afonso Costa, se fosse vivo, não diria melhor, senhor "padre"!
(quem será que ordenou este senhor?)
Afonso Costa, se fosse vivo, não diria melhor, senhor "padre"!
(quem será que ordenou este senhor?)
Duarte Vilar dixit
“There has always been a double standard in Portugal toward abortion, and that’s what we want to eliminate,” said Duarte Vilar, executive director of Portugal’s Family Planning Association. “Even if we are Catholic, we are a soft Catholic country.” - Portugal’s Vote on Abortion Ban Stirs Emotions, New York Times, 11 de Fevereiro de 2007.
Duarte Vilar, esse estratega ímpar da APF, desta vez tem toda a razão.
Mesmo tendo muitos católicos soi-disant, Portugal é de facto um país de "católicos suaves"...
A estratégia pró-escolha funcionou na perfeição (aliás, foi usada a mesma estratégia que funcionou noutros países com forte presença cristã), mais uma vez com a colaboração prestável dos "católicos suaves", que, como dóceis cordeiros, se prestaram à manipulação. Dividir para conquistar.
Duarte Vilar, esse estratega ímpar da APF, desta vez tem toda a razão.
Mesmo tendo muitos católicos soi-disant, Portugal é de facto um país de "católicos suaves"...
A estratégia pró-escolha funcionou na perfeição (aliás, foi usada a mesma estratégia que funcionou noutros países com forte presença cristã), mais uma vez com a colaboração prestável dos "católicos suaves", que, como dóceis cordeiros, se prestaram à manipulação. Dividir para conquistar.
Alvorada no país do aborto legal
Admito, sem quaisquer receios, que tenho mau perder.
Porque sempre defendi que o "sim" era mau para a mulher. Que o "sim" era mau para o feto.
Tenho pena que os do "sim" não tenham mau ganhar. Deveriam ter mau ganhar, porque de facto ninguém ganhou nada com esta triste "vitória".
Fico entristecido com a alegria dos que votaram mal, votando "sim".
Fico entristecido com a indiferença de mais de metade dos portugueses, que se estão nas tintas para as mulheres, nas tintas para os fetos, e (o mais compreensível) nas tintas para os políticos e para as leis.
Estamos na primeira manhã do aborto legal em Portugal. Ainda não está em vigor, nem sequer aprovada, a desejada "lei libertadora", mas os arautos da mudança pela mudança, da mudança porque "sim", da mudança milagrosa, já ecoam gritos de vitória, amarras cortadas, correntes quebradas. "Soltem as mulheres!"... "É um novo dia!"... "Portugal entra na modernidade!"
Nunca me explicaram, tenho pena, o que é que abortar tem de moderno em pleno século XXI, uma prática que já era "moderna" nos tempos do estalinismo...
O melhor que me conseguiram dizer foi que o aborto era um direito reprodutivo da mulher. Ontem, venceu a APF, venceram todos os que louvaram e condecoraram os esforços desta organização. Venceram os médicos de ética duvidosa, e respectivo pessoal que auxiliava na condução de abortos clandestinos, efectuados por vezes fora de horas, muitos deles em clínicas e hospitais bem conhecidos. Agora, podem abortar às claras e deduzir os custos das operações na contabilidade. Venceram os pais que não querem assumir a paternidade. Venceram os maridos que não querem ter chatices. Venceram os empresários que não querem colaboradoras grávidas. Venceram os namorados que não querem ainda ser pais, que querem "curtir" a vida.
Fez-se Justiça.
Eles, afinal, nunca acharam que o aborto era um crime.
Eles, afinal, nunca acharam que matar um feto era mau.
Alguns deles, afinal, tinham mulheres na família que abortaram, e queriam afastar o fantasma da culpa. Alguns deles, afinal, tinham filhas que aconselharam a abortar, mulheres que aconselharam a abortar, noras que aconselharam a abortar, primas que aconselharam a abortar, amigas que aconselharam a abortar.
Havia a necessidade de lavar a culpa com um "sim" que, ainda por cima, traz a musicalidade e a frescura de um novo amanhã!
No século XIX, abolimos a pena de morte. No século XXI, reintroduzimos a sua possibilidade, por opção da mulher. Ah, mas será em "estabelecimento de saúde autorizado". Óptimo! Nos EUA, já se mata por injecção letal, o que é muito higiénico e evita o problema de saúde pública do cheiro a queimado das cadeiras eléctricas.
"Acabar com o flagelo do aborto clandestino"!
Gritavam...
E quem quererá acabar com o novo flagelo? O flagelo do aborto legal?
Este flagelo parece que veio para ficar, porque é aplaudido como um direito.
Mas vai ser complicado arranjar médicos (a sério) que queiram matar. Afinal, eles até juram não o fazer, assim que acabam um longo curso, e só alguns é que vão ter a ginástica mental necessária para se auto-justificarem a matar com mãos que foram ensinadas para salvar. Pensarão: "estou a salvar a mulher!". Pois sim...
O Sistema Nacional de Saúde não poderá fazer abortos, sem meios financeiros e logísticos e com médicos objectores de consciência. Não há problema! A Clínica dos Arcos, em Lisboa, já tem as obras quase concluídas! Anteciparam-se! Tinham um alvará aprovado, e sondagens fantásticas e arriscaram começar as obras há meses atrás!
O aconselhamento médico e psicológico vai ser óptimo: feito pelas mesmas pessoas que vão, com a ajuda da mulher, escolher a forma de aborto mais adequada para ela e emitir a factura que depois será paga pelos contribuintes.
Hoje é a aurora da Nova Era!
As portuguesas deixam de ir a Espanha, vêm as espanholas para cá!
Há que arregaçar as mangas! Há duas centenas de clínicas privadas de aborto em Espanha, e em Portugal, há que despachar obra! Ainda só há obras em curso para a primeira!
Não faltarão pedreiros-livres, arautos da liberdade fraterna que não julga nem condena quem mata por necessidade, operários da igualdade que vão ajudar a edificar esses espaços modernos de saúde, equipados com moderna tecnologia para ajudar mulheres modernas a fazer abortos modernos. Haverá modernos painéis luminosos, com gestão moderna de filas de espera. "Abortar não dói!", dirão a essas mulheres assustadas. "Vai ser um instante!", dirão a essas mulheres com dúvidas. E se uma mulher se arrepender antes do aborto legal (ou depois do aborto legal) e desatar a chorar na sala de espera? "Chiu, cala-te filha, vai chorar para aquela sala vazia, vá, que estás a assustar as nossas clientes!"
Eis alguns retratos do dia-a-dia da mulher moderna, da mulher com igualdade e dignidade:
«Ficaste grávida?! O melhor é resolveres essa questão já na semana que vem, porque já marquei as férias. Agora não dá jeito!»
«A senhora engenheira está grávida? Mas só tem uns quantos meses de casa. Vai ter que resolver isso, porque este projecto tem prazos para cumprir!»
«Engravidaste? Mas eu não quero ser pai agora! Não, tenho que acabar o curso, e depois há muito desemprego! Vais ter que resolver isso.»
«Minha querida filha: eu estou a pagar-te o curso na privada, que me está a sair muito caro. Se não abortares, como é que vais acabar o curso? Sabes como a vida está difícil? Faz o que o teu pai de diz, vá...»
Fez-se Justiça. O aborto legal é bom para a mulher, já vimos.
E será bom para o feto?
Bom, como em todas as questões da vida, isso "depende".
Feto que nasce desejado pela família, tem futuro garantido. Aquelas primeiras dez semanas passam num ápice: fazem-se com a perna às costas!
Para o feto indesejado, a coisa fica feia. Cara ou coroa?
A senhora psicóloga da Clínica dos Arcos, imparcial como sempre, vai ajudar a mamã!
Para o feto também se faz Justiça, pois feto indesejado mais vale ser abortado, certo?
"Certo!"
Alguém me disse que nos EUA se preparam debates para voltar a limitar o aborto, trinta anos depois de ter sido legalizado. "Chiu! Cala-te, porque Portugal agora é moderno!" Portugal vive hoje o americano sonho de 1973! Também temos direito ao nosso Roe vs. Wade! Também queremos apanhar o comboio europeu da modernidade sem natalidade!
Queremos ser como a Holanda, como a Alemanha, como a Dinamarca, e a melhor forma de sermos como os modernos é podermos abortar legalmente, em clínicas novas, acabadas de estrear!
Os americanos estão a querer reverter décadas de aborto livre? Estão preocupados com o crescimento exponencial do aborto nos últimos 30 anos? Estão assustados com as suas estatísticas de milhões de fetos abortados? Estão surpreendidos por ver que mais de 90% das razões para abortar nos EUA são fúteis? Há médicos americanos que são hoje ex-abortistas e que contam publicamente o drama das suas vidas dedicadas a matar? Norma McCorvey, protagonista da vitória do aborto legal de 1973, rejeita hoje o aborto legal e percorre o Mundo a tentar combatê-lo? "Chiu, cala-te. Que Portugal também tem direito às suas três décadas de aborto legal!" Senão, como é que obtemos dados estatísticos que mostrem o aumento exponencial do número de abortos?
Era preciso legalizar!
Ah, e já agora, se calhar os americanos querem acabar com o aborto por causa do Bush, que é fanático religioso e tal... Mas é que são os Democratas que querem restringir o aborto! "Chiu, cala-te..."
"Ontem votámos «sim», não percebes?"
É a aurora de um novo dia!
P.S.: Ah, e já agora, ouçam a "Bárbie Assembleia": a Igreja só tem é que continuar a ajudar as grávidas. Nós, os modernos, os que ajudamos a abortar, agradecemos à Igreja. A Igreja, a velha e antiquada, que fique com as suas grávidas, que nós vamos ajudar as espanholas a abrir clínicas...
P.S.2: Daqui a uns anos, quando tivermos estatísticas de morte por aborto legal (que poderemos comparar com as de morte por aborto clandestino), depressões por aborto legal, tentativas de suicídio por aborto legal, vidas arruinadas por aborto legal, relações desfeitas por aborto legal, famílias arruinadas por aborto legal, as estatísticas claras e límpidas recolhidas matematicamente em suporte informático, eu não quero ver votantes do "sim" a dizerem mal do Governo, a porem as culpas no Governo, a dizerem mal das clínicas, a porem a culpa nas Yolandas Hernandez Dominguez desta vida. Os que votaram "sim" limparam ontem as suas consciências. Eu cá estarei para os recordar da sua quota parte de responsabilidade...
Porque sempre defendi que o "sim" era mau para a mulher. Que o "sim" era mau para o feto.
Tenho pena que os do "sim" não tenham mau ganhar. Deveriam ter mau ganhar, porque de facto ninguém ganhou nada com esta triste "vitória".
Fico entristecido com a alegria dos que votaram mal, votando "sim".
Fico entristecido com a indiferença de mais de metade dos portugueses, que se estão nas tintas para as mulheres, nas tintas para os fetos, e (o mais compreensível) nas tintas para os políticos e para as leis.
Estamos na primeira manhã do aborto legal em Portugal. Ainda não está em vigor, nem sequer aprovada, a desejada "lei libertadora", mas os arautos da mudança pela mudança, da mudança porque "sim", da mudança milagrosa, já ecoam gritos de vitória, amarras cortadas, correntes quebradas. "Soltem as mulheres!"... "É um novo dia!"... "Portugal entra na modernidade!"
Nunca me explicaram, tenho pena, o que é que abortar tem de moderno em pleno século XXI, uma prática que já era "moderna" nos tempos do estalinismo...
O melhor que me conseguiram dizer foi que o aborto era um direito reprodutivo da mulher. Ontem, venceu a APF, venceram todos os que louvaram e condecoraram os esforços desta organização. Venceram os médicos de ética duvidosa, e respectivo pessoal que auxiliava na condução de abortos clandestinos, efectuados por vezes fora de horas, muitos deles em clínicas e hospitais bem conhecidos. Agora, podem abortar às claras e deduzir os custos das operações na contabilidade. Venceram os pais que não querem assumir a paternidade. Venceram os maridos que não querem ter chatices. Venceram os empresários que não querem colaboradoras grávidas. Venceram os namorados que não querem ainda ser pais, que querem "curtir" a vida.
Fez-se Justiça.
Eles, afinal, nunca acharam que o aborto era um crime.
Eles, afinal, nunca acharam que matar um feto era mau.
Alguns deles, afinal, tinham mulheres na família que abortaram, e queriam afastar o fantasma da culpa. Alguns deles, afinal, tinham filhas que aconselharam a abortar, mulheres que aconselharam a abortar, noras que aconselharam a abortar, primas que aconselharam a abortar, amigas que aconselharam a abortar.
Havia a necessidade de lavar a culpa com um "sim" que, ainda por cima, traz a musicalidade e a frescura de um novo amanhã!
No século XIX, abolimos a pena de morte. No século XXI, reintroduzimos a sua possibilidade, por opção da mulher. Ah, mas será em "estabelecimento de saúde autorizado". Óptimo! Nos EUA, já se mata por injecção letal, o que é muito higiénico e evita o problema de saúde pública do cheiro a queimado das cadeiras eléctricas.
"Acabar com o flagelo do aborto clandestino"!
Gritavam...
E quem quererá acabar com o novo flagelo? O flagelo do aborto legal?
Este flagelo parece que veio para ficar, porque é aplaudido como um direito.
Mas vai ser complicado arranjar médicos (a sério) que queiram matar. Afinal, eles até juram não o fazer, assim que acabam um longo curso, e só alguns é que vão ter a ginástica mental necessária para se auto-justificarem a matar com mãos que foram ensinadas para salvar. Pensarão: "estou a salvar a mulher!". Pois sim...
O Sistema Nacional de Saúde não poderá fazer abortos, sem meios financeiros e logísticos e com médicos objectores de consciência. Não há problema! A Clínica dos Arcos, em Lisboa, já tem as obras quase concluídas! Anteciparam-se! Tinham um alvará aprovado, e sondagens fantásticas e arriscaram começar as obras há meses atrás!
O aconselhamento médico e psicológico vai ser óptimo: feito pelas mesmas pessoas que vão, com a ajuda da mulher, escolher a forma de aborto mais adequada para ela e emitir a factura que depois será paga pelos contribuintes.
Hoje é a aurora da Nova Era!
As portuguesas deixam de ir a Espanha, vêm as espanholas para cá!
Há que arregaçar as mangas! Há duas centenas de clínicas privadas de aborto em Espanha, e em Portugal, há que despachar obra! Ainda só há obras em curso para a primeira!
Não faltarão pedreiros-livres, arautos da liberdade fraterna que não julga nem condena quem mata por necessidade, operários da igualdade que vão ajudar a edificar esses espaços modernos de saúde, equipados com moderna tecnologia para ajudar mulheres modernas a fazer abortos modernos. Haverá modernos painéis luminosos, com gestão moderna de filas de espera. "Abortar não dói!", dirão a essas mulheres assustadas. "Vai ser um instante!", dirão a essas mulheres com dúvidas. E se uma mulher se arrepender antes do aborto legal (ou depois do aborto legal) e desatar a chorar na sala de espera? "Chiu, cala-te filha, vai chorar para aquela sala vazia, vá, que estás a assustar as nossas clientes!"
Eis alguns retratos do dia-a-dia da mulher moderna, da mulher com igualdade e dignidade:
«Ficaste grávida?! O melhor é resolveres essa questão já na semana que vem, porque já marquei as férias. Agora não dá jeito!»
«A senhora engenheira está grávida? Mas só tem uns quantos meses de casa. Vai ter que resolver isso, porque este projecto tem prazos para cumprir!»
«Engravidaste? Mas eu não quero ser pai agora! Não, tenho que acabar o curso, e depois há muito desemprego! Vais ter que resolver isso.»
«Minha querida filha: eu estou a pagar-te o curso na privada, que me está a sair muito caro. Se não abortares, como é que vais acabar o curso? Sabes como a vida está difícil? Faz o que o teu pai de diz, vá...»
Fez-se Justiça. O aborto legal é bom para a mulher, já vimos.
E será bom para o feto?
Bom, como em todas as questões da vida, isso "depende".
Feto que nasce desejado pela família, tem futuro garantido. Aquelas primeiras dez semanas passam num ápice: fazem-se com a perna às costas!
Para o feto indesejado, a coisa fica feia. Cara ou coroa?
A senhora psicóloga da Clínica dos Arcos, imparcial como sempre, vai ajudar a mamã!
Para o feto também se faz Justiça, pois feto indesejado mais vale ser abortado, certo?
"Certo!"
Alguém me disse que nos EUA se preparam debates para voltar a limitar o aborto, trinta anos depois de ter sido legalizado. "Chiu! Cala-te, porque Portugal agora é moderno!" Portugal vive hoje o americano sonho de 1973! Também temos direito ao nosso Roe vs. Wade! Também queremos apanhar o comboio europeu da modernidade sem natalidade!
Queremos ser como a Holanda, como a Alemanha, como a Dinamarca, e a melhor forma de sermos como os modernos é podermos abortar legalmente, em clínicas novas, acabadas de estrear!
Os americanos estão a querer reverter décadas de aborto livre? Estão preocupados com o crescimento exponencial do aborto nos últimos 30 anos? Estão assustados com as suas estatísticas de milhões de fetos abortados? Estão surpreendidos por ver que mais de 90% das razões para abortar nos EUA são fúteis? Há médicos americanos que são hoje ex-abortistas e que contam publicamente o drama das suas vidas dedicadas a matar? Norma McCorvey, protagonista da vitória do aborto legal de 1973, rejeita hoje o aborto legal e percorre o Mundo a tentar combatê-lo? "Chiu, cala-te. Que Portugal também tem direito às suas três décadas de aborto legal!" Senão, como é que obtemos dados estatísticos que mostrem o aumento exponencial do número de abortos?
Era preciso legalizar!
Ah, e já agora, se calhar os americanos querem acabar com o aborto por causa do Bush, que é fanático religioso e tal... Mas é que são os Democratas que querem restringir o aborto! "Chiu, cala-te..."
"Ontem votámos «sim», não percebes?"
É a aurora de um novo dia!
P.S.: Ah, e já agora, ouçam a "Bárbie Assembleia": a Igreja só tem é que continuar a ajudar as grávidas. Nós, os modernos, os que ajudamos a abortar, agradecemos à Igreja. A Igreja, a velha e antiquada, que fique com as suas grávidas, que nós vamos ajudar as espanholas a abrir clínicas...
P.S.2: Daqui a uns anos, quando tivermos estatísticas de morte por aborto legal (que poderemos comparar com as de morte por aborto clandestino), depressões por aborto legal, tentativas de suicídio por aborto legal, vidas arruinadas por aborto legal, relações desfeitas por aborto legal, famílias arruinadas por aborto legal, as estatísticas claras e límpidas recolhidas matematicamente em suporte informático, eu não quero ver votantes do "sim" a dizerem mal do Governo, a porem as culpas no Governo, a dizerem mal das clínicas, a porem a culpa nas Yolandas Hernandez Dominguez desta vida. Os que votaram "sim" limparam ontem as suas consciências. Eu cá estarei para os recordar da sua quota parte de responsabilidade...
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
Pena de morte, NÃO! Aborto... SIM?
Já na recta final para o dia da votação desta polémica questão, resta pouco por dizer. Já tudo foi dito. No entanto, estando atento à comunicação social, fico com a impressão de que o ruído prevaleceu, de que a overdose de informação e desinformação sufocou a opinião pública.
Ontem, enquanto lia a coluna semanal de Pacheco Pereira na revista Sábado, fiquei com a certeza de que a confusão estava instalada. Sem questionar as boas intenções do autor, o texto de Pacheco Pereira permitia o aprofundar de erros graves e frequentes, que tentarei aqui dissipar.
O seu texto estava escrito numa forma simétrica, procurando encontrar o que de bom e de mau haveria em cada campanha. Como é evidente, há pessoas boas e más de ambos os lados, há bons e maus argumentos esgrimidos por ambos os lados. Mas isso é muito diferente de afirmar que existe simetria na justeza das duas posições.
Não há simetria nenhuma neste aspecto!
Repito o que sempre disse: não há subjectividade na resposta ao referendo. A resposta "não" será sempre certa e a resposta "sim" será sempre errada, por muito que procuremos simetrias entre as duas campanhas. Quem vai votar "não" vai votar bem. Quem vai votar "sim" vai votar mal. Eu sempre o defendi. Não é correcto dizer-se que a minha posição é "fanática" ou é "preto & branco", porque a questão do aborto, sendo certamente complexa na sua argumentação e estrutura, PODE SER RESOLVIDA.
É possível chegar a uma decisão final, certa, irrefutável, face a este referendo. E eu sempre defendi que essa decisão final, certa e irrefutável era a decisão "não". Foi este o processo mental, que eu percorri e coloquei por escrito, que sempre usei como base para afirmar categoricamente que não havia razão válida alguma para votar "sim".
Pacheco Pereira deixa também no ar de que há uma separação entre católicos ("pelo não") e não católicos ("pelo sim"). Mas há duas nuances que importa distinguir, a primeira das quais é totalmente de rejeitar, e a segunda é aceitável:
1. O voto "não" tem que ser religioso?
Não. As razões fundamentais para votar "não" são razões universais, nada têm de religioso na sua essência; em última instância, voto "não" porque matar um inocente é um mal absoluto e injustificável.
2. Os católicos, em Portugal, influenciam o sentido de voto?
Sim. Portugal é um país de costumes e tradições católicas, apesar de estas estarem em progressiva redução de dimensão e influência. Visto que é incoerente ser-se católico e votar "sim", é natural que esta característica do nosso país (como sucede na Polónia, em Malta e na Irlanda) seja influente na opinião pública.
São coisas diferentes. É evidente que todo e qualquer católico que tenha despendido alguns raciocínios a dar-se conta do que é o catolicismo só pode votar "não". Os católicos que votam "sim", se não puderem ser escusados por razões de ignorância pura e simples, terão que ser responsabilizados por falta de coerência e por debilidade de compromisso para com a doutrina que deveriam professar e defender.
Mas, por outro lado, o essencial do erro de abortar é algo de não religioso, que qualquer ser humano pode e deve entender.
E eu continuo perplexo perante a força destes argumentos, ignorados por tanta gente que vai votar "sim". Se o "sim" vencer, uma mulher poderá optar, legalmente, por dar a morte ao seu filho. A palavra "legalmente" é essencial: compromete o Estado e a Sociedade nesta decisão mortal da mãe. No entanto, imagino que uma grande fatia dos votantes no "sim" estaria igualmente empenhado em combater a pena de morte, caso ela vigorasse no nosso país.
Não temos grandes dúvidas, hoje em dia (Portugal foi pioneiro nesta matéria), de que a pena de morte é um castigo horrível por ter um efeito irreversível e destrutivo em absoluto. Recusamos a pena de morte mesmo para o facínora mais cruel, sanguinário e insensível. No entanto, achamos bem que uma mãe opte por matar o seu filho, e use material hospitalar, e recursos públicos, para o fazer!
O que está errado?
Eu não vejo outra explicação para esta chocante e grotesca contradição dos votantes no "sim": a explicação tem que ser o não reconhecimento do direito a viver às dez semanas. Os que vão votar "sim" têm que ter a certeza absoluta de que aquele ser humano ("Homo Sapiens") não é uma "pessoa" no sentido ético, não é algo que se possa comparar ao criminoso que não condenamos à morte. O criminoso que decidimos não condenar à morte tem maior valor ético, aos olhos desta errada moral do "sim", do que o ser humano com dez semanas!
Termino deixando aqui as razões que explicam que abortar às dez semanas é um erro ético equivalente ao de matar qualquer ser humano nascido, com a agravante de que a vida humana intra-uterina, ao invés de um qualquer homicida que não condenamos à morte, é completamente inocente e não atenta contra a vida de ninguém:
1. "A vida humana é inviolável": a inequívoca protecção que a nossa sociedade atribui à espécie humana (Homo Sapiens); o zigoto, célula totipotente com a totalidade do genoma humano, é um ser vivo da nossa espécie;
2. O direito à vida é um direito absoluto: este direito está na base de todos os outros, porque só faz sentido discutir outros direitos em sociedade para seres humanos que estão vivos e que são deixados viver pela sociedade;
3. O zigoto já possui o direito a ter um "futuro como o nosso" (o argumento não religioso de Donald Marquis contra o direito ao aborto): é errado matar um zigoto como é errado matar um ser humano nascido, e pela mesma razão: roubamos a essa pessoa a possibilidade de ter um "futuro como o nosso"; matar é irreversível e injusto.
A legítima defesa é uma situação especial, que nunca pode ser usada no caso de uma gravidez. Na legítima defesa, o agressor intencionalmente homicida também tem direito a viver. Quando se mata em legítima defesa, não se mata pelas más razões:
a) porque se quereria, originalmente, matar o agressor;
b) porque, existindo outra forma de nos salvarmos, matássemos o agressor injustamente.
A morte de outrém só constitui legítima defesa quando é uma consequência inevitável e indesejada da nossa tentativa de salvar a nossa vida ou a vida daqueles que temos o dever de proteger.
Nesta campanha, não vi ninguém tentar refutar as razões éticas que fazem do aborto (mesmo legal) um grave erro, bem pior do que a aprovação da pena de morte.
Alguns votantes do "sim" poderão dizer: "o aborto é um erro, mas a legalização vai baixar o número de abortos".
Estou careca de insistir no mesmo: os bons fins (reduzir o número de abortos) não justificam nunca os maus meios (matar). E, ainda por cima, há dados concretos sobre esta matéria. Todos os países ocidentais (e não apenas alguns, como diz erradamente a edição da revista Sábado desta semana), ou de cultura ocidental (EUA, Canadá, Nova Zelândia), que legalizaram o aborto, verificaram sempre subidas importantes nos números de abortos legais, contando a partir do primeiro ano após legalização.
Os números provêm de fontes públicas e posso facultá-los a quem quiser.
Perante tudo isto, só há um voto certo: o voto NÃO.
Ontem, enquanto lia a coluna semanal de Pacheco Pereira na revista Sábado, fiquei com a certeza de que a confusão estava instalada. Sem questionar as boas intenções do autor, o texto de Pacheco Pereira permitia o aprofundar de erros graves e frequentes, que tentarei aqui dissipar.
O seu texto estava escrito numa forma simétrica, procurando encontrar o que de bom e de mau haveria em cada campanha. Como é evidente, há pessoas boas e más de ambos os lados, há bons e maus argumentos esgrimidos por ambos os lados. Mas isso é muito diferente de afirmar que existe simetria na justeza das duas posições.
Não há simetria nenhuma neste aspecto!
Repito o que sempre disse: não há subjectividade na resposta ao referendo. A resposta "não" será sempre certa e a resposta "sim" será sempre errada, por muito que procuremos simetrias entre as duas campanhas. Quem vai votar "não" vai votar bem. Quem vai votar "sim" vai votar mal. Eu sempre o defendi. Não é correcto dizer-se que a minha posição é "fanática" ou é "preto & branco", porque a questão do aborto, sendo certamente complexa na sua argumentação e estrutura, PODE SER RESOLVIDA.
É possível chegar a uma decisão final, certa, irrefutável, face a este referendo. E eu sempre defendi que essa decisão final, certa e irrefutável era a decisão "não". Foi este o processo mental, que eu percorri e coloquei por escrito, que sempre usei como base para afirmar categoricamente que não havia razão válida alguma para votar "sim".
Pacheco Pereira deixa também no ar de que há uma separação entre católicos ("pelo não") e não católicos ("pelo sim"). Mas há duas nuances que importa distinguir, a primeira das quais é totalmente de rejeitar, e a segunda é aceitável:
1. O voto "não" tem que ser religioso?
Não. As razões fundamentais para votar "não" são razões universais, nada têm de religioso na sua essência; em última instância, voto "não" porque matar um inocente é um mal absoluto e injustificável.
2. Os católicos, em Portugal, influenciam o sentido de voto?
Sim. Portugal é um país de costumes e tradições católicas, apesar de estas estarem em progressiva redução de dimensão e influência. Visto que é incoerente ser-se católico e votar "sim", é natural que esta característica do nosso país (como sucede na Polónia, em Malta e na Irlanda) seja influente na opinião pública.
São coisas diferentes. É evidente que todo e qualquer católico que tenha despendido alguns raciocínios a dar-se conta do que é o catolicismo só pode votar "não". Os católicos que votam "sim", se não puderem ser escusados por razões de ignorância pura e simples, terão que ser responsabilizados por falta de coerência e por debilidade de compromisso para com a doutrina que deveriam professar e defender.
Mas, por outro lado, o essencial do erro de abortar é algo de não religioso, que qualquer ser humano pode e deve entender.
E eu continuo perplexo perante a força destes argumentos, ignorados por tanta gente que vai votar "sim". Se o "sim" vencer, uma mulher poderá optar, legalmente, por dar a morte ao seu filho. A palavra "legalmente" é essencial: compromete o Estado e a Sociedade nesta decisão mortal da mãe. No entanto, imagino que uma grande fatia dos votantes no "sim" estaria igualmente empenhado em combater a pena de morte, caso ela vigorasse no nosso país.
Não temos grandes dúvidas, hoje em dia (Portugal foi pioneiro nesta matéria), de que a pena de morte é um castigo horrível por ter um efeito irreversível e destrutivo em absoluto. Recusamos a pena de morte mesmo para o facínora mais cruel, sanguinário e insensível. No entanto, achamos bem que uma mãe opte por matar o seu filho, e use material hospitalar, e recursos públicos, para o fazer!
O que está errado?
Eu não vejo outra explicação para esta chocante e grotesca contradição dos votantes no "sim": a explicação tem que ser o não reconhecimento do direito a viver às dez semanas. Os que vão votar "sim" têm que ter a certeza absoluta de que aquele ser humano ("Homo Sapiens") não é uma "pessoa" no sentido ético, não é algo que se possa comparar ao criminoso que não condenamos à morte. O criminoso que decidimos não condenar à morte tem maior valor ético, aos olhos desta errada moral do "sim", do que o ser humano com dez semanas!
Termino deixando aqui as razões que explicam que abortar às dez semanas é um erro ético equivalente ao de matar qualquer ser humano nascido, com a agravante de que a vida humana intra-uterina, ao invés de um qualquer homicida que não condenamos à morte, é completamente inocente e não atenta contra a vida de ninguém:
1. "A vida humana é inviolável": a inequívoca protecção que a nossa sociedade atribui à espécie humana (Homo Sapiens); o zigoto, célula totipotente com a totalidade do genoma humano, é um ser vivo da nossa espécie;
2. O direito à vida é um direito absoluto: este direito está na base de todos os outros, porque só faz sentido discutir outros direitos em sociedade para seres humanos que estão vivos e que são deixados viver pela sociedade;
3. O zigoto já possui o direito a ter um "futuro como o nosso" (o argumento não religioso de Donald Marquis contra o direito ao aborto): é errado matar um zigoto como é errado matar um ser humano nascido, e pela mesma razão: roubamos a essa pessoa a possibilidade de ter um "futuro como o nosso"; matar é irreversível e injusto.
A legítima defesa é uma situação especial, que nunca pode ser usada no caso de uma gravidez. Na legítima defesa, o agressor intencionalmente homicida também tem direito a viver. Quando se mata em legítima defesa, não se mata pelas más razões:
a) porque se quereria, originalmente, matar o agressor;
b) porque, existindo outra forma de nos salvarmos, matássemos o agressor injustamente.
A morte de outrém só constitui legítima defesa quando é uma consequência inevitável e indesejada da nossa tentativa de salvar a nossa vida ou a vida daqueles que temos o dever de proteger.
Nesta campanha, não vi ninguém tentar refutar as razões éticas que fazem do aborto (mesmo legal) um grave erro, bem pior do que a aprovação da pena de morte.
Alguns votantes do "sim" poderão dizer: "o aborto é um erro, mas a legalização vai baixar o número de abortos".
Estou careca de insistir no mesmo: os bons fins (reduzir o número de abortos) não justificam nunca os maus meios (matar). E, ainda por cima, há dados concretos sobre esta matéria. Todos os países ocidentais (e não apenas alguns, como diz erradamente a edição da revista Sábado desta semana), ou de cultura ocidental (EUA, Canadá, Nova Zelândia), que legalizaram o aborto, verificaram sempre subidas importantes nos números de abortos legais, contando a partir do primeiro ano após legalização.
Os números provêm de fontes públicas e posso facultá-los a quem quiser.
Perante tudo isto, só há um voto certo: o voto NÃO.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
Uma posição ateísta pelo Não
«Criticamos o Vaticano por afirmar que o preservativo não previne a 100% uma gravidez, e agora vimos sustentar a desresponsabilização do acto sexual pelo facto dos métodos contraceptivos não serem 100% eficazes?» - Ricardo Pinho, Diário Ateísta, Uma posição ateísta pelo Não.
Vale a pena ler na íntegra este excelente texto de Ricardo Pinho. Dadas as nossas profundas divergências, eu não me via facilmente a usar a expressão "excelente texto de Ricardo Pinho". Pois faço-o neste caso, mesmo que não faça noutros. Espero não ser acusado de oportunismo, visto que eu sempre defendi que a reprovação do aborto livre é uma questão de ética universal, que pode (e deve) ser defendida por qualquer pessoa, seja ela crente ou ateia.
O Ricardo Pinho demonstra, com esta posição em concreto, coerência de atitude, coragem e clareza de raciocínio. Seguramente que eu defendo o "não" de modo diferente do dele, mas são diferenças menores. Estamos de acordo no fundamental. Força, Ricardo.
Vale a pena ler na íntegra este excelente texto de Ricardo Pinho. Dadas as nossas profundas divergências, eu não me via facilmente a usar a expressão "excelente texto de Ricardo Pinho". Pois faço-o neste caso, mesmo que não faça noutros. Espero não ser acusado de oportunismo, visto que eu sempre defendi que a reprovação do aborto livre é uma questão de ética universal, que pode (e deve) ser defendida por qualquer pessoa, seja ela crente ou ateia.
O Ricardo Pinho demonstra, com esta posição em concreto, coerência de atitude, coragem e clareza de raciocínio. Seguramente que eu defendo o "não" de modo diferente do dele, mas são diferenças menores. Estamos de acordo no fundamental. Força, Ricardo.
Ideias claras e distintas
«Antes da décima semana, não havendo ainda actividade neuronal, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído.» - Prof. (e Padre) Anselmo Borges, in Referendo sobre o aborto, DN, 21 de Janeiro de 2007.
Sinto-me perplexo quando vejo um docente de Filosofia, para mais padre, recusar o uso de conceitos essenciais de Metafísica para, no fundo, falar com falaria um pensador materialista.
Não deixa, contudo, de ser irónico o uso da expressão "não é claro", apelando àquelas cartesianas ideias claras e distintas que estão na base da Filosofia moderna (e, na minha opinião, da derrocada moderna da Filosofia).
Afinal, o Prof. Anselmo Borges não parece ter ideias claras e distintas acerca do assunto que está a comentar, o que seria uma óptima razão para apelar ao voto "não". Ora, se nem um professor de Filosofia, com anos de carreira, tem ideias claras acerca da questão, como poderia o comum dos mortais votar "sim", quando é necessária a absoluta certeza, para lá de qualquer dúvida, para votar "sim", afirmando com esse voto que o feto de dez semanas não tem direito de viver?
Na minha modesta mente de cristão leigo não docente nem filósofo encartado, da leitura do artigo de opinião do Prof. Anselmo Borges, surgem-me algumas questões, que passo a enunciar:
1. "Não é claro" para quem? Para o Prof. Anselmo Borges? Não é claro em absoluto?
2. Apesar de o senhor Prof. Anselmo Borges não detectar actividade cerebral no feto, o programa genético do novo ser humano não está já capacitado para gerar essa mesma actividade? E o que entende por "actividade cerebral"? A organogénese está terminada à oitava semana: o tálamo está lá, há actividade sináptica; é certo que o córtex ainda está em formação, mas dizer que não há actividade cerebral é forte!
3. Mais vale parecê-lo do que sê-lo? Para o Prof. Anselmo Borges é mais importante a forma que a essência?
4. Quando é que entra algo de novo no feto para o tornar plenamente humano? Se ainda "não é claro" que às dez semanas, "o processo de constituição de um novo ser humano está concluído", quando é que isso se torna "claro"? Com a actividade cerebral? E ela surge por magia? Ou em virtude de um programa genético pré-existente, desde a formação (constituição) do zigoto?
Eu não sou professor de Filosofia, mas parece-me que há uma confusão de conceitos, quando o Prof. usa o termo "constituição" para algo que já está constituido: o zigoto, produto da fertilização do óvulo pelo espermatozóide, já está constituído muito antes! Se calhar, a expressão que o Prof. Anselmo Borges poderia ter usado era a de "processo de formação", querendo com isso dizer que a forma desse ser ainda estava em aperfeiçoamento. Mas esse processo de modificação formal não continua, mesmo depois do nascimento, ao longo da vida?
Afinal, senhor Professor, o que é que interessa para o direito à vida?
a) o que se é; a essência do ser humano (que está no zigoto)?
b) ou a nossa forma exterior, o nosso estágio de maturação?
Se o Prof. Anselmo Borges fosse apenas Professor de Filosofia, eu não me espantaria, dada a deriva intelectual da Filosofia moderna, que defendesse uma visão tão materialista, tão pouco ontológica, tão pouco metafísica, do ser humano. Afinal, senhor Professor, onde está a quididade do ser humano? Qual é ela para si?
O que torna esta situação mais complicada é que o Prof. Anselmo Borges é sacerdote, pelo que terá tido certamente formação em filosofia cristã. Ora, essa filosofia não deixa espaços ambíguos que justifiquem este tipo de confusões. Um São Tomás de Aquino seria capaz de as resolver num ápice.
Termino com Tertuliano, para não estar sempre a recorrer ao aquinate, esperando que isso possa ajudá-lo no processo de clarificação das suas ideias:
«Homicidii festinatio est prohibere nasci, nec refert natam quis eripiat animam an nascentem disturbet. Homo est et qui est futurus; etiam fructus omnis iam in semine est.» – Tertuliano, Apologeticum, IX, 8.
«Impedir um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar um homem, não importando se se mata a vida de quem já nasceu, ou se põe fim à de quem está para nascer. Esse é um homem que se está a formar, pois tendes o fruto já em sua semente.» (adaptado da tradução de José Fernandes Vidal)
Sinto-me perplexo quando vejo um docente de Filosofia, para mais padre, recusar o uso de conceitos essenciais de Metafísica para, no fundo, falar com falaria um pensador materialista.
Não deixa, contudo, de ser irónico o uso da expressão "não é claro", apelando àquelas cartesianas ideias claras e distintas que estão na base da Filosofia moderna (e, na minha opinião, da derrocada moderna da Filosofia).
Afinal, o Prof. Anselmo Borges não parece ter ideias claras e distintas acerca do assunto que está a comentar, o que seria uma óptima razão para apelar ao voto "não". Ora, se nem um professor de Filosofia, com anos de carreira, tem ideias claras acerca da questão, como poderia o comum dos mortais votar "sim", quando é necessária a absoluta certeza, para lá de qualquer dúvida, para votar "sim", afirmando com esse voto que o feto de dez semanas não tem direito de viver?
Na minha modesta mente de cristão leigo não docente nem filósofo encartado, da leitura do artigo de opinião do Prof. Anselmo Borges, surgem-me algumas questões, que passo a enunciar:
1. "Não é claro" para quem? Para o Prof. Anselmo Borges? Não é claro em absoluto?
2. Apesar de o senhor Prof. Anselmo Borges não detectar actividade cerebral no feto, o programa genético do novo ser humano não está já capacitado para gerar essa mesma actividade? E o que entende por "actividade cerebral"? A organogénese está terminada à oitava semana: o tálamo está lá, há actividade sináptica; é certo que o córtex ainda está em formação, mas dizer que não há actividade cerebral é forte!
3. Mais vale parecê-lo do que sê-lo? Para o Prof. Anselmo Borges é mais importante a forma que a essência?
4. Quando é que entra algo de novo no feto para o tornar plenamente humano? Se ainda "não é claro" que às dez semanas, "o processo de constituição de um novo ser humano está concluído", quando é que isso se torna "claro"? Com a actividade cerebral? E ela surge por magia? Ou em virtude de um programa genético pré-existente, desde a formação (constituição) do zigoto?
Eu não sou professor de Filosofia, mas parece-me que há uma confusão de conceitos, quando o Prof. usa o termo "constituição" para algo que já está constituido: o zigoto, produto da fertilização do óvulo pelo espermatozóide, já está constituído muito antes! Se calhar, a expressão que o Prof. Anselmo Borges poderia ter usado era a de "processo de formação", querendo com isso dizer que a forma desse ser ainda estava em aperfeiçoamento. Mas esse processo de modificação formal não continua, mesmo depois do nascimento, ao longo da vida?
Afinal, senhor Professor, o que é que interessa para o direito à vida?
a) o que se é; a essência do ser humano (que está no zigoto)?
b) ou a nossa forma exterior, o nosso estágio de maturação?
Se o Prof. Anselmo Borges fosse apenas Professor de Filosofia, eu não me espantaria, dada a deriva intelectual da Filosofia moderna, que defendesse uma visão tão materialista, tão pouco ontológica, tão pouco metafísica, do ser humano. Afinal, senhor Professor, onde está a quididade do ser humano? Qual é ela para si?
O que torna esta situação mais complicada é que o Prof. Anselmo Borges é sacerdote, pelo que terá tido certamente formação em filosofia cristã. Ora, essa filosofia não deixa espaços ambíguos que justifiquem este tipo de confusões. Um São Tomás de Aquino seria capaz de as resolver num ápice.
Termino com Tertuliano, para não estar sempre a recorrer ao aquinate, esperando que isso possa ajudá-lo no processo de clarificação das suas ideias:
«Homicidii festinatio est prohibere nasci, nec refert natam quis eripiat animam an nascentem disturbet. Homo est et qui est futurus; etiam fructus omnis iam in semine est.» – Tertuliano, Apologeticum, IX, 8.
«Impedir um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar um homem, não importando se se mata a vida de quem já nasceu, ou se põe fim à de quem está para nascer. Esse é um homem que se está a formar, pois tendes o fruto já em sua semente.» (adaptado da tradução de José Fernandes Vidal)
As certezas do "sim"
«Palha a palha tentam desmontar um espantalho, vendo os argumento pelo «Não» como se o debate fosse simétrico. Como se à partida não se assumisse nada acerca da vida humana ou da legitimidade de a terminar por opção. É falso. Todos consideramos a vida humana um valor entre os mais altos, e só aceitamos e a liberdade de matar em casos extremos e nunca «por opção». Neste referendo não se pode votar para onde pende o argumento mais atraente. A assimetria da questão exige que só vote «Sim» quem tiver mesmo certeza, para além de qualquer dúvida razoável, que o feto de 10 semanas não conta e que é legítimo mata-lo só porque a mãe quer. Só com completa certeza é que se pode aprovar a morte de tantos seres humanos por opção das mães.» - Ludwig Krippahl, Palha a Palha.
Eu não diria melhor.
Este ponto, pelo menos, é límpido como a água: só pode votar "sim" quem tiver a certeza absoluta de que o feto com dez semanas de idade não tem direito a viver, e a sua mãe pode dispor livremente ("por opção") da sua vida. Só assim também se explicaria a criação de serviços abortivos legais, sem que o Estado corresse o risco de estar envolvido num crime.
Caros amigos votantes no "sim": têm certezas absolutas?
Se calhar, não se dão conta do drama da sua decisão: o apoiante do "sim" tem que ter a certeza absoluta de que não há direito à vida às dez semanas. Essa certeza tem que ser realmente absoluta, porque esta é uma matéria grave, de vida ou de morte.
Eu não diria melhor.
Este ponto, pelo menos, é límpido como a água: só pode votar "sim" quem tiver a certeza absoluta de que o feto com dez semanas de idade não tem direito a viver, e a sua mãe pode dispor livremente ("por opção") da sua vida. Só assim também se explicaria a criação de serviços abortivos legais, sem que o Estado corresse o risco de estar envolvido num crime.
Caros amigos votantes no "sim": têm certezas absolutas?
Se calhar, não se dão conta do drama da sua decisão: o apoiante do "sim" tem que ter a certeza absoluta de que não há direito à vida às dez semanas. Essa certeza tem que ser realmente absoluta, porque esta é uma matéria grave, de vida ou de morte.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
ABORTO CARIMBADO
Cada dia que passa a sociedade portuguesa está mais mobilizada em torno da discussão sobre o aborto, sobre quais as consequências da sua penalização ou liberalização. Apesar desta questão ser manifestamente fracturante na sociedade, existe um ponto que parece gerar consenso alargado. O aborto é mau em tudo aquilo que encerra. A fractura surge a jusante, quando se fala na solução que o Estado deve oferecer às mulheres que se vejam confrontadas com esta realidade.
Tenho ouvido com alguma atenção as ideias que o nosso Primeiro-ministro José Sócrates tem defendido sobre este tema. Diz ele que o voto no Sim é a única forma de combater o aborto clandestino e que esta lei, como está, não o permite. Também é este o raciocínio que está na base dos outdoors produzidos pelo Partido Socialista, que veiculam o seguinte chavão, “Aborto clandestino é vergonha nacional”.
No fundo toda a campanha a favor do sim à liberalização do aborto, tem evitado centrar o debate no embrião e no que ele representa, procurando antes colocá-lo sobre os direitos da mulher, até por vezes, de uma forma demagógica. Inclusive, tive a oportunidade de ouvir um jovem da Juventude Socialista, no seu discurso de abertura de campanha, dizer que não estamos a discutir se existe ou não vida, mas sim o fim à humilhação das mulheres.
Resumindo, a proposta do sim passa apenas por uma cosmética do aborto, retirando-lhe o carimbo da clandestinidade e colocando-lhe o carimbo da legalidade. Não pretende combater as causas do aborto, não pretende apoiar as mulheres que estejam em situação de risco, não pretende dignificar as mulheres. Pretende apenas mudar a lei criando a ausência de lei, ignorando que, agora, o que está errado é a posição do Estado, inoperante, ineficaz, amorfo e não a lei que vigora, que tem por objectivo proteger a mulher da tragédia que é o aborto.
Portanto este Sim pretende acabar com o aborto clandestino, partindo do princípio que a vida da Mãe se sobrepõe sempre e em qualquer circunstância à vida do seu filho. É a radicalidade do critério da valorização da proximidade em contraponto com a banalização do que não nos está próximo. Porque se o embrião contem em si vida, a única explicação possível para a desvalorização profunda dos seus direitos face aos da sua mãe é o distanciamento a que está dos nossos olhos, pelo facto de ainda não ter socializado, pelo facto de não ter problemas, objectivos que sejam inteligíveis aos nossos olhos.
Estamos a classificar a importância da vida numa escala de valores estranha e abstracta. É um caminho perigoso cujo único destino é a solidão, o sofrimento e a ausência total.
Por tudo isto parece-me pertinente questionar: O Aborto não continua a ser uma vergonha nacional, mesmo que legalizado? E não é esse o projecto que este Sim nos propõe?
Um abraço,
Duarte Fragoso.
Tenho ouvido com alguma atenção as ideias que o nosso Primeiro-ministro José Sócrates tem defendido sobre este tema. Diz ele que o voto no Sim é a única forma de combater o aborto clandestino e que esta lei, como está, não o permite. Também é este o raciocínio que está na base dos outdoors produzidos pelo Partido Socialista, que veiculam o seguinte chavão, “Aborto clandestino é vergonha nacional”.
No fundo toda a campanha a favor do sim à liberalização do aborto, tem evitado centrar o debate no embrião e no que ele representa, procurando antes colocá-lo sobre os direitos da mulher, até por vezes, de uma forma demagógica. Inclusive, tive a oportunidade de ouvir um jovem da Juventude Socialista, no seu discurso de abertura de campanha, dizer que não estamos a discutir se existe ou não vida, mas sim o fim à humilhação das mulheres.
Resumindo, a proposta do sim passa apenas por uma cosmética do aborto, retirando-lhe o carimbo da clandestinidade e colocando-lhe o carimbo da legalidade. Não pretende combater as causas do aborto, não pretende apoiar as mulheres que estejam em situação de risco, não pretende dignificar as mulheres. Pretende apenas mudar a lei criando a ausência de lei, ignorando que, agora, o que está errado é a posição do Estado, inoperante, ineficaz, amorfo e não a lei que vigora, que tem por objectivo proteger a mulher da tragédia que é o aborto.
Portanto este Sim pretende acabar com o aborto clandestino, partindo do princípio que a vida da Mãe se sobrepõe sempre e em qualquer circunstância à vida do seu filho. É a radicalidade do critério da valorização da proximidade em contraponto com a banalização do que não nos está próximo. Porque se o embrião contem em si vida, a única explicação possível para a desvalorização profunda dos seus direitos face aos da sua mãe é o distanciamento a que está dos nossos olhos, pelo facto de ainda não ter socializado, pelo facto de não ter problemas, objectivos que sejam inteligíveis aos nossos olhos.
Estamos a classificar a importância da vida numa escala de valores estranha e abstracta. É um caminho perigoso cujo único destino é a solidão, o sofrimento e a ausência total.
Por tudo isto parece-me pertinente questionar: O Aborto não continua a ser uma vergonha nacional, mesmo que legalizado? E não é esse o projecto que este Sim nos propõe?
Um abraço,
Duarte Fragoso.
Subscrever:
Mensagens (Atom)