segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

No Rescaldo

À distância de uma semana do referendo sobre a liberalização do aborto, persiste a amálgama de sentimentos e convicções que dividiu a sociedade portuguesa. Apesar da expressiva vitória do “Sim”, mesmo tendo em conta a elevadíssima abstenção, ninguém pode ficar indiferente à extraordinária mobilização da sociedade civil em torno dos movimentos cívicos que lideraram a campanha do “Não”.

A forte convicção que a defesa da vida e da dignidade das mulheres são centrais numa sociedade equilibrada e fraterna, mobilizou a sociedade civil de uma forma tão intensa que só encontro precedentes na revolução de Abril. É um sinal claro que a democracia Portuguesa caminha para uma nova fase, em que a sociedade civil pretende ter um papel activo, sobretudo nas questões fundamentais para o futuro do nosso país.

Também foi evidente que a mobilização em torno do “Sim” foi, na sua essência, muito diferente. Teve como base as máquinas partidárias, nomeadamente do PCP e do PS, e centrou-se sobretudo na vertente mais mediática do aborto. O argumento central foi a necessidade de erradicar o flagelo do aborto clandestino, ignorando de forma grosseira as causas que levam as mulheres a recorrer ao aborto.

Apesar de para a esmagadora maioria dos Portugueses o aborto ser sempre uma tragédia, os defensores do “Sim”, nomeadamente a vertente politica encabeçada pelo nosso Primeiro-Ministro, consideram que a sua legalização o torna num mal menor e definitivamente necessário para combater a sua clandestinidade. Uma posição cobarde e medíocre, espelho da nossa classe politica actual, que não oferece mais nada às mulheres, para além do sofrimento e desumanidade.

Apesar de não contestar a vitória do Sim, não posso deixar de salientar que foi alcançada por apenas 25% dos Portugueses, o que equivalerá, em grosso modo, à percentagem de cidadãos que pratica um voto militante nos seus partidos, nomeadamente no PCP e no PS. Tal como seria uma presunção inaceitável assumir que os Portugueses que se abstiveram votariam Não, também o é assumindo que esses mesmos Portugueses pretendem passar da lei actual para uma liberalização total do aborto.

Espero sinceramente que a Assembleia da República procure desenvolver uma lei equilibrada e consensual na sociedade Portuguesa e isso não passa certamente pela liberalização total do aborto.

Um abraço,

Duarte Fragoso.

Jovens políticos - «De pequenino se torce o pepino...»

Do Diário Digital:

"O líder da Juventude Popular, João Almeida, defendeu hoje que o CDS-PP faça «uma reflexão profunda» em Conselho Nacional, considerando que os resultados do referendo ao aborto demonstram que parte do eleitorado democrata-cristão não se revê na posição do partido.

«Se analisarmos os resultados do referendo a nível local e cruzarmos com os das últimas legislativas, há interpretações que têm de ser feitas, numa reflexão muito profunda que vai para além da questão da liderança», afirmou João Almeida, em declarações à Lusa.

Para o líder da Juventude Popular (JP), a vitória do «sim» em zonas de forte implantação do CDS-PP demonstra que «há pelo menos uma causa que o partido defende com a qual o eleitorado não está sincronizado»."


Desde pequeninos, os "jotas" são educados na máquina partidária.
Acostumam-se aos truques, aos esquemas, ao discurso, à propaganda.
Seja qual for o partido, seja à esquerda, seja à direita, o "jota" é sempre um benjamim político, guarda as bandeiras do "Partido" debaixo da cama, prepara e ensaia futuros discursos do "Partido" ao espelho, e desde tenra idade. Aprende que a política é a arte da comunicação enganosa.
Aprende que a intelectualidade serve a política e não o inverso.
João Almeida é um belo exemplar disto mesmo: é um espécime genuíno do puro "jota". Cá está: para ele, a derrota da posição anti-aborto do CDS-PP é um claro sinal de que, se há coisas a mudar, é nas posições "pouco populares" do "Partido", porque acima de tudo, está a obtenção de votos para o "Partido".
Afinal, a mudança para o nome "Partido Popular" já dava, anos atrás, provas da infiltração no CDS deste tipo de intelectualidade subserviente da política, onde o que conta, num "Partido", é ser votado. O resto é conversa.
Ideais?
Intelectualidade?
Projectos e propostas?
Nada disso! Para João Almeida, o problema fundamental, essencial, é que «parte do eleitorado democrata-cristão não se revê na posição do partido».

O direito ao aborto legal é um mal ético?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
O aborto legal causa sequelas na mulher? Mata uma vida humana?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
Não haveria soluções de apoio à maternidade que poderiam resolver o drama do aborto de vez, erradicando-o de vez?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
O problema é que o "Partido" perdeu parte do apoio do eleitorado e há que mudar alguma coisa! Há que mudar! Há que ganhar votos! E depressa, a tempo das próximas eleições! Rápido!

Quando vejo situações destas, firmo-me cada vez mais numa coisa boa que aprendi desde pequenino: nesta vida, pode-se abdicar do dinheiro, pode-se abdicar do poder, mas não se pode, de forma alguma, abdicar da integridade, da inteligência, da coerência intelectual, da seriedade. Senão, deixamos de ser homens. Passamos a ser vermes.
E é por estas e por outras que, desde que me lembro, nunca estive filiado em Partido algum, e nunca defendi nenhum Partido político.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Contestação a Darwin: a lista de cientistas já conta com 700

Vale a pena ler:
Dissent from Darwin

A afirmação que mais de 700 cientistas em todo o Mundo já subscreveram é a seguinte:

“We are skeptical of claims for the ability of random mutation and natural selection to account for the complexity of life. Careful examination of the evidence for Darwinian theory should be encouraged.”

“Somos cépticos face à afirmação de que a mutação aleatória e a selecção natural são capazes de explicar a complexidade da vida. Deve ser encorajado um exame cuidadoso às evidências a favor da teoria Darwiniana.” (tradução minha)

Apesar de a batalha contra o fanatismo darwinista, e em nome da Ciência, estar bem longe de estar ganha, isto é um sinal encorajador para todos aqueles que nunca se quiseram acomodar ao status quo, duvidando da suficiência do darwinismo e do neo-darwinismo para explicar a sofisticação e a complexidade da vida.

Esta situação já estaria resolvida há muito, e a Ciência já poderia saber hoje muito mais acerca da vida, se não tivesse sido o esforço insensato de alguns cientistas em promover a suposta definitude do darwinismo e do neo-darwinismo como armas de combate ideológico contra as religiões abraâmicas ou contra a religião em geral.

É certo que nem todos os cientistas que seguem cegamente o darwinismo estão ideologicamente comprometidos nesta guerra anti-religião. Muitos, certamente, evitam contestar o darwinismo por outras razões: muitos homens e mulheres de ciência preferem o "academicamente correcto" ao "cientificamente correcto". Hoje em dia, começa a ser seguro publicar artigos de contestação ao darwinismo. Mas não há muitos anos, esse "atrevimento" significava para muitos um grande escolho na sua carreira científica.

Ao menos, com iniciativas destas, e com o engrossar desta lista, começa a ser complicado chamar patetas ou tontos àqueles que não aderem totalmente às teorias propostas por Darwin e pelos seus mais fervorosos seguidores.

A «palhaçada» do aborto livre e legal

O título deste texto não tenciona fazer qualquer ataque à nobre arte circense, mas sim usar uma expressão corriqueira para manifestar o meu profundo nojo (intelectual e sensorial) perante o evoluir bem previsível, e em tão pouco tempo, desta triste situação.

«Ontem, o líder parlamentar socialista, Alberto Martins, que chamou a si a questão, garantiu que o diploma não deverá aconselhamento obrigatório da mulher que pretende abortar – uma afirmação que foi contestada pelos movimentos que se bateram pelo “não” no referendo. Por outro lado, a lei deverá contemplar um período de reflexão de alguns dias, após a consulta médica inicial, de contornos também ainda não definidos.» - in Público, 14 de Fevereiro de 2007.

Continua a manipulação das palavras.... "Aconselhamento obrigatório" transmite, emocionalmente, a mesma sensação da expressão "prisão das mulheres", mesmo sem mulheres presas...
O PS, naturalmente, não está nada disponível para leis sensatas, nunca esteve, e se o Eng. José Sócrates o tentou sugerir com belas palavras na noite da vitória de triste memória, fê-lo claramente no melhor espírito de teatro político, do qual ele é mestre exímio.

Do mesmo modo que o Eng. Sócrates não via nem vê uma mulher que comete o crime de aborto como "criminosa", também não achará correcto "impor" a essa mulher o aconselhamento prévio, uma quase vil forma de "prisão psicológica", pensará ele e os seus correlegionários.

O regime anárquico de abolição do crime de aborto só pode ser seguido (em lógica e coerência) pelo regime libertário: deixem as mulheres abortar em paz!
Certo? Certo...

Na origem de tudo isto, não me tenho cansado de insistir, está uma dramática anomalia intelectual tripartida:

a) não ver a vida intra-uterina como plenamente humana, com direito a viver
b) não reconhecer a obrigatoriedade do estado em garantir a Justiça, por meio da protecção de direitos fundamentais
c) não criminalizar as condutas que atentam contra direitos fundamentais

Faltando estes três pontos, tudo cai por terra. O aborto torna-se num "direito reprodutivo". E, claro está, do mesmo modo que ninguém se lembra de impor consultas de métodos contraceptivos a ninguém, e porque o PS vê o aborto exactamente como contracepção, é natural que não queira impor às mulheres a consulta obrigatória, que seria a derradeira oportunidade para se fazer ver à mulher que planeia abortar os terríveis males físicos e psíquicos do aborto.
Ficamos, então, com a sugestão vaga feita às mulheres de que façam, onde quiserem, a sua experiência pessoal e individual de "gabinete de reflexão"...
Terá uma eficácia potente, como aquela do imperioso dia de reflexão pré-votação.
Seguramente que esta "reflexão" não será feita no conforto das salas arejadas das modernas clínicas das Yolandas Hernandez Dominguez desta vida. Era só o que mais faltava! Para quem faz da morte um negócio, faz algum sentido criar um serviço de aconselhamento prévio? Seria como um centro comercial ter à porta um gabinete a recomendar às pessoas que não comprem nada naquele espaço...

Quando a questão é, realmente, de vida ou de morte (vida da mãe, vida do feto), dá uma enorme tristeza ter que dizer "eu tinha razão", ou ter que relembrar o que eu disse, afirmando que votar SIM era uma grave asneira de graves consequências... Que era um cheque em branco para políticos incompetentes, ignorantes, desprovidos de um intelecto funcional, e ainda por cima ideologicamente comprometidos numa guerra cultural.
Estamos ainda nas primícias da degradação ética e moral à qual ainda vamos todos assistir no nosso tempo de vida.
A partir daqui é sempre a descer...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Modernismo: «o fumo de Satanás»

Quando reflectimos acerca do que escrevi nos textos anteriores, ou seja, acerca do facto de existirem sacerdotes e teólogos soi-disant "católicos" que defendem uma doutrina muito pessoal, e pouco católica, torna-se inevitável abordar a questão do modernismo.
O modernismo é uma heresia nascida no século XIX, que adquire visibilidade com a obra de Alfred Loisy (1857-1940), espalhando-se depressa no universo católico, e que foi denunciada e combatida desde muito cedo por papas como São Pio X (1835-1914), que inclusive fez promulgar um Juramento Anti-Modernista que deveria ser feito por todo e qualquer sacerdote católico.
Na encíclica Pascendi Domini Grecis, Pio X classifica o modernismo como a "síntese de todas as heresias", por isso se vê que a matéria não é ligeira.

O modernismo é bastante complexo e não é simples sintetizá-lo, mas pode-se fazer uma aproximação segura vendo-o como sendo uma leitura materialista e anti-metafísica da Revelação Cristã. O modernista deixa de ver os textos revelados como verdadeiros em si mesmos, passando a vê-los como uma possível leitura histórica, que teria validade no tempo dos seus autores terrenos, mas cuja validade poderia ser revista hoje pelo homem moderno. S. Tomás de Aquino defendia a veracidade das Escrituras do mesmo modo que defendia a veracidade de qualquer coisa: adequatio rei et intellectus, ou seja, é verdadeiro tudo aquilo que consiste na adequação das coisas (do "real") ao intelecto humano. As Sagradas Escrituras, possuindo certamente diversos níveis interpretativos mais profundos, são seguramente verdadeiras no seu primeiro e mais básico nível, o literal, conquanto o exegeta esteja munido das ferramentas hermenêuticas adequadas, que lhe permitem afastar toda e qualquer aparência de contradição.

Com o modernismo, é feita uma leitura "histórica" (e portanto anti-metafísica, porque destrói a invariância de espaço e de tempo) da Revelação. Segundo os modernistas, a veracidade literal das Sagradas Escrituras deveria ser revista, porventura negada em muitos aspectos, e deveria ser acomodada com as então recentes teorias científicas (das quais uma das mais importantes foi a de Darwin acerca da Evolução das Espécies).

Pio X reage com a necessária firmeza, afirmando que tal leitura anti-metafísica das Sagradas Escrituras estava contra o que de mais fundamental havia na fé católica. Segundo esta, apesar de nenhum enunciado bíblico poder alguma vez ser contrário à Razão (porque esta procede de Deus, a fé nunca pode ser irracional), os enunciados bíblicos, pela sua natureza de textos revelados (com forma humana e essência divina), permitem certamente inúmeros e indefinidos níveis de significado metafísico e doutrinal, sem nunca deixar de parte o significado literal.

Para evitar confusões, há que distinguir esta doutrina católica da inerrância do problema da sola scriptura protestante. O erro de um certo literalismo da hermenêutica protestante está na recusa de boa parte da tradição oral católica e apostólica, que é o garante de uma hermenêutica correcta e ortodoxa. Por outras palavras, o literalismo de que aqui se fala, para ser católico, deve ser contextualizado numa tradição oral que, atrevo-me a dizê-lo, pode ser vista como mais importante do que a escrita. E isto porque a palavra escrita é sempre consequência da palavra pensada ou falada.

Continuando na questão do relativismo histórico imposto pelos modernistas, os postulados verdadeiramente universais que surgem plasmados nos textos revelados, pela sua universalidade (catolicidade), não podem ter o seu critério de veracidade baseado no momento ou no local históricos. Tudo o que é universal, é-o ontem, como hoje e como amanhã. E é-o em qualquer lugar.

O modernismo rejeita tudo isto, sendo na verdade a materialização de um "suicídio de fé", pelo facto de fazer uma materialista e inaudita anti-hermenêutica dos textos revelados. Por esta razão, Pio X a classificou justamente como sendo a heresia que sintetiza todas as heresias.

Não obstante, o modernismo prosperou durante todo o século XX. Manifestou-se durante o Concílio Vaticano II, durante o qual, por exemplo, o cardeal de Viena, Franz König (1905-2004), considerado por muitos (com boas razões) como sendo modernista, fez um famoso discurso tentando contrariar a inerrância da Bíblia.

Não anda longe deste tema central para o catolicismo do século XX a contestação que muitos passaram a fazer, após o Vaticano II, aos dogmas de fé da Igreja Católica. Surgiu a ideia errada de que os dogmas tinham a sua justificação numa dada época histórica, e que agora poderiam ser contestados, e mesmo rejeitados se isso fosse conveniente. Como se a revelação crística e os textos sagrados possuissem prazo de validade!
Para mais, como já o disse noutra ocasião, este erro nasce da ignorância acerca da natureza distinta dos dogmata (os conceitos "interiores" da doutrina, invariantes por natureza) e dos kérigmata (as proclamações formais, e portanto "exteriores" dos mesmos). É aceitável discutir o revestimento formal de uma doutrina, a formulação textual da mesma. Aliás, esta discussão é, e foi, feita de forma corrente em qualquer Concílio. Mas para se alterar os conceitos interiores da doutrina católica, é necessário transformá-la noutra coisa que não católica, ou seja, distorcê-la ou destruí-la na sua essência.

Nos dias que correm, a praga do modernismo tornou-se na heresia católica mais importante de todas. É certo que poderíamos também evocar a heresia do gnosticismo como sendo hoje cultural e intelectualmente relevante (basta pensar no fenómeno "Código da Vinci" e similares). Mas, na minha opinião, o espaço fértil para o surgimento do neo-gnosticismo foi preparado, conscientemente ou não, pelos hereges modernistas dos finais do século XIX e do século XX, muitos deles figuras importantes no Concílio e hoje considerados e venerados por muitos como "teólogos excepcionais".

Agastados pela presença do modernismo no Vaticano II, determinados grupos decidiram demarcar-se deste Concílio, alegando que a heresia modernista se tinha apoderado dos trabalhos ao ponto de invalidar o Concílio como um todo. É uma questão complexa demais para a minha presente ignorância, pelo que me limito a afirmar a minha posição actual, sem conseguir demonstrá-la teoricamente: acredito, até demonstração em contrário, que o Vaticano II foi um concílio válido. Não considero esta posição como absoluta, o que seria insensato, uma vez que a História da Igreja presenciou alguns concílios que foram declarados inválidos. Julgo que as más consequências modernistas que foram retiradas do Concílio Vaticano II foram o resultado da heresia modernista que estava embutida nas crenças de alguns dos protagonistas conciliares (obrigados por Juramento a rejeitar o Modernismo), e nas crenças de muitos sacerdotes espalhados por todo o Mundo. Por isso, a minha posição actual é a de que o modernismo não estará, eventualmente, plasmado nos textos e deliberações do Concílio, mas sim nas interpretações erradas e abusivas, e nas aplicações concretas, que certos modernistas delas fizeram.

Nestes tempos em que vivemos, nos quais uma comunicação social catolicamente analfabeta (ou ideologicamente comprometida) procura sempre deixar falar, dar espaço de antena, e entrevistar os padres e teólogos dissidentes, nunca é demais relembrar que o modernismo é uma heresia, que é um atentado contra o que de mais essencial existe no catolicismo, e que é um fenómeno que está longe de ser explicado apenas de forma empírica, histórica ou sociológica...

É importante, hoje mais do que nunca, recordar as notáveis palavras do Papa Paulo VI, numa célebre homilia de 29 de Junho de 1972,

«Crediamo - osserva il Santo Padre - in qualcosa di preternaturale venuto nel mondo proprio per turbare, per soffocare i frutti del Concilio Ecumenico, e per impedire che la Chiesa prorompesse nell’inno della gioia di aver riavuto in pienezza la coscienza di sé. Appunto per questo vorremmo essere capaci, più che mai in questo momento, di esercitare la funzione assegnata da Dio a Pietro, di confermare nella Fede i fratelli. Noi vorremmo comunicarvi questo carisma della certezza che il Signore dà a colui che lo rappresenta anche indegnamente su questa terra» (negrito meu)

«da qualche fessura sia entrato il fumo di Satana nel tempio di Dio»

Paulo VI afirmava então, perante as nefastas consequências que muitos retiraram ilicitamente do Segundo Concílio Vaticano, que "(...) [através] de qualquer fissura teria entrado o fumo de Satanás no templo de Deus".

Espero que com este texto se entenda melhor porque razão decidi "provocar" os católicos portugueses ao abordar a questão da existência do Diabo, que no fundo, é a mesma questão da existência de criaturas (como tal, infra-divinas) num estado ôntico acima do humano (criaturas feitas "de puro intelecto", se quisermos). Negar o anjo caído é negar a demonologia. É negar que o Mal é uma "criatura intelectual", que é uma "ideia criada", que era boa antes da Queda, e que se degenerou devido à sua própria vontade de criatura livre em desobedecer ao seu Criador. Negar a demonologia é negar a angeologia, porque no fundo, os demónios são as hostes de Satanás, os anjos caídos que, por sua vontade, negaram obedecer a Deus, seguindo o Diabo na sua Queda.

(O conceito de "vontade" e o conceito de "liberdade" têm um imenso alcance metafísico e são centrais para se compreender a angeologia, mas isso terá que ficar para outra altura. Para já, gostaria apenas de deixar aqui a ideia de que Satanás, criação divina, com a sua existência, torna manifesta a ideia de "liberdade total para errar, para rejeitar Deus". É, por isso, a "causa" ôntica de todo o Mal. Isto não remove a responsabilidade ao católico, visto que este tem a sua consciência, e a sua contra-parte, a vontade, para optar, livremente, entre seguir o "pai da Mentira" ou seguir o Pai celestial.)

Negando a angeologia, temos o caminho aberto para negar o sobrenatural, e consequentemente, o significado e a suprema realidade da divindade. É da negação do sobrenatural, e mais ainda, da negação do Infinito divino como fonte e sustento ôntico do real, que nascem as confusões modernistas.

A recusa de muitos católicos modernos em reconhecer a realidade ôntica do Demónio como "ideia criada", como "criatura", tem origem na mesma confusão que os faz negar a inerrância da Bíblia, a virgindade real (física, biológica) da Virgem Maria, a realidade histórica literal da Ressurreição de Cristo, a realidade física da presença divina na Eucaristia, e enfim, tudo o que o catolicismo tem de supra-empírico. Por outras palavras, o modernista nega tudo o que o catolicismo tem de católico. Isso faz com que surja o inacreditável e o impossível, como vermos sacerdotes e teólogos "católicos" defenderem a posição do "sim" no recente referendo acerca da liberalização do aborto, ou manifestarem ideias confusas acerca da origem do ser humano.
O modernismo é um naufrágio pístico e doutrinal, que resulta de erros intelectuais facilmente solúveis, assim houvesse vontade dos seus protagonistas em proceder à sua correcção por via do estudo da Metafísica.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Outro "católico" pelo SIM

«A corrente laicista, que deseja a Igreja fechada na sacristia, não creio que seja maioritária na sociedade portuguesa, apesar do nosso passado anticlerical. Mas a grande alergia à presença activa da Igreja talvez resulte da ideia de que ela quer fazer da sociedade e do espaço público uma sacristia. As declarações e posições pouco católicas (sic) de certos movimentos, personalidades e de alguns padres dão a impressão de quererem entregar à repressão do Estado, do Código Penal, dos tribunais, da polícia, da cadeia, as suas convicções morais (sic) (...)», Frei Bento Domingues, Por Opção da Mulher (negrito meu).

E quem terá ordenado este senhor?

Os diários "católicos" de Che Guevara

Com a inquestionável vitória do SIM no referendo de ontem, a vida com dignidade e, mais especificamente, a vida e a dignidade das mulheres portuguesas acabam de conhecer um irreversível passo em frente no nosso país e, por arrastamento, na Europa e no resto do mundo. O mesmo se diga da autonomia da sociedade civil portuguesa frente à Igreja católica romana, cuja hierarquia (bispos residenciais e párocos, assessorados por Movimentos de leigas/leigos feitos à imagem e semelhança deles!), infelizmente, nesta matéria, não soube manter-se no seu lugar e continuou a comportar-se como se ainda vivêssemos sob o famigerado (sic) regime de Cristandade que o próprio Concílio Vaticano II, de feliz memória, oficialmente enterrou para sempre, mas que ela não se tem cansado de tentar restaurar. No que tem sido vergonhosamente apoiada pela conservadora e moralista (sic) Cúria Romana e seus sucessivos papas, os quais têm estado muito longe do espírito de abertura e de macroecumenismo do seu antecessor João XXIII, o mesmo que convocou aquele Concílio, para que ele fosse uma saudável e fecunda Revolução (sic) no interior da Igreja católica em todo o mundo. - breve trecho da entrada de 12 de Fevereiro do diário do "padre" Mário de Oliveira (negrito meu).

Afonso Costa, se fosse vivo, não diria melhor, senhor "padre"!
(quem será que ordenou este senhor?)

Duarte Vilar dixit

“There has always been a double standard in Portugal toward abortion, and that’s what we want to eliminate,” said Duarte Vilar, executive director of Portugal’s Family Planning Association. “Even if we are Catholic, we are a soft Catholic country.” - Portugal’s Vote on Abortion Ban Stirs Emotions, New York Times, 11 de Fevereiro de 2007.

Duarte Vilar, esse estratega ímpar da APF, desta vez tem toda a razão.
Mesmo tendo muitos católicos soi-disant, Portugal é de facto um país de "católicos suaves"...
A estratégia pró-escolha funcionou na perfeição (aliás, foi usada a mesma estratégia que funcionou noutros países com forte presença cristã), mais uma vez com a colaboração prestável dos "católicos suaves", que, como dóceis cordeiros, se prestaram à manipulação. Dividir para conquistar.

Alvorada no país do aborto legal

Admito, sem quaisquer receios, que tenho mau perder.
Porque sempre defendi que o "sim" era mau para a mulher. Que o "sim" era mau para o feto.
Tenho pena que os do "sim" não tenham mau ganhar. Deveriam ter mau ganhar, porque de facto ninguém ganhou nada com esta triste "vitória".
Fico entristecido com a alegria dos que votaram mal, votando "sim".
Fico entristecido com a indiferença de mais de metade dos portugueses, que se estão nas tintas para as mulheres, nas tintas para os fetos, e (o mais compreensível) nas tintas para os políticos e para as leis.
Estamos na primeira manhã do aborto legal em Portugal. Ainda não está em vigor, nem sequer aprovada, a desejada "lei libertadora", mas os arautos da mudança pela mudança, da mudança porque "sim", da mudança milagrosa, já ecoam gritos de vitória, amarras cortadas, correntes quebradas. "Soltem as mulheres!"... "É um novo dia!"... "Portugal entra na modernidade!"

Nunca me explicaram, tenho pena, o que é que abortar tem de moderno em pleno século XXI, uma prática que já era "moderna" nos tempos do estalinismo...
O melhor que me conseguiram dizer foi que o aborto era um direito reprodutivo da mulher. Ontem, venceu a APF, venceram todos os que louvaram e condecoraram os esforços desta organização. Venceram os médicos de ética duvidosa, e respectivo pessoal que auxiliava na condução de abortos clandestinos, efectuados por vezes fora de horas, muitos deles em clínicas e hospitais bem conhecidos. Agora, podem abortar às claras e deduzir os custos das operações na contabilidade. Venceram os pais que não querem assumir a paternidade. Venceram os maridos que não querem ter chatices. Venceram os empresários que não querem colaboradoras grávidas. Venceram os namorados que não querem ainda ser pais, que querem "curtir" a vida.

Fez-se Justiça.
Eles, afinal, nunca acharam que o aborto era um crime.
Eles, afinal, nunca acharam que matar um feto era mau.
Alguns deles, afinal, tinham mulheres na família que abortaram, e queriam afastar o fantasma da culpa. Alguns deles, afinal, tinham filhas que aconselharam a abortar, mulheres que aconselharam a abortar, noras que aconselharam a abortar, primas que aconselharam a abortar, amigas que aconselharam a abortar.
Havia a necessidade de lavar a culpa com um "sim" que, ainda por cima, traz a musicalidade e a frescura de um novo amanhã!
No século XIX, abolimos a pena de morte. No século XXI, reintroduzimos a sua possibilidade, por opção da mulher. Ah, mas será em "estabelecimento de saúde autorizado". Óptimo! Nos EUA, já se mata por injecção letal, o que é muito higiénico e evita o problema de saúde pública do cheiro a queimado das cadeiras eléctricas.

"Acabar com o flagelo do aborto clandestino"!
Gritavam...
E quem quererá acabar com o novo flagelo? O flagelo do aborto legal?
Este flagelo parece que veio para ficar, porque é aplaudido como um direito.
Mas vai ser complicado arranjar médicos (a sério) que queiram matar. Afinal, eles até juram não o fazer, assim que acabam um longo curso, e só alguns é que vão ter a ginástica mental necessária para se auto-justificarem a matar com mãos que foram ensinadas para salvar. Pensarão: "estou a salvar a mulher!". Pois sim...
O Sistema Nacional de Saúde não poderá fazer abortos, sem meios financeiros e logísticos e com médicos objectores de consciência. Não há problema! A Clínica dos Arcos, em Lisboa, já tem as obras quase concluídas! Anteciparam-se! Tinham um alvará aprovado, e sondagens fantásticas e arriscaram começar as obras há meses atrás!
O aconselhamento médico e psicológico vai ser óptimo: feito pelas mesmas pessoas que vão, com a ajuda da mulher, escolher a forma de aborto mais adequada para ela e emitir a factura que depois será paga pelos contribuintes.
Hoje é a aurora da Nova Era!
As portuguesas deixam de ir a Espanha, vêm as espanholas para cá!
Há que arregaçar as mangas! Há duas centenas de clínicas privadas de aborto em Espanha, e em Portugal, há que despachar obra! Ainda só há obras em curso para a primeira!
Não faltarão pedreiros-livres, arautos da liberdade fraterna que não julga nem condena quem mata por necessidade, operários da igualdade que vão ajudar a edificar esses espaços modernos de saúde, equipados com moderna tecnologia para ajudar mulheres modernas a fazer abortos modernos. Haverá modernos painéis luminosos, com gestão moderna de filas de espera. "Abortar não dói!", dirão a essas mulheres assustadas. "Vai ser um instante!", dirão a essas mulheres com dúvidas. E se uma mulher se arrepender antes do aborto legal (ou depois do aborto legal) e desatar a chorar na sala de espera? "Chiu, cala-te filha, vai chorar para aquela sala vazia, vá, que estás a assustar as nossas clientes!"
Eis alguns retratos do dia-a-dia da mulher moderna, da mulher com igualdade e dignidade:

«Ficaste grávida?! O melhor é resolveres essa questão já na semana que vem, porque já marquei as férias. Agora não dá jeito!»

«A senhora engenheira está grávida? Mas só tem uns quantos meses de casa. Vai ter que resolver isso, porque este projecto tem prazos para cumprir!»

«Engravidaste? Mas eu não quero ser pai agora! Não, tenho que acabar o curso, e depois há muito desemprego! Vais ter que resolver isso.»

«Minha querida filha: eu estou a pagar-te o curso na privada, que me está a sair muito caro. Se não abortares, como é que vais acabar o curso? Sabes como a vida está difícil? Faz o que o teu pai de diz, vá...»

Fez-se Justiça. O aborto legal é bom para a mulher, já vimos.
E será bom para o feto?
Bom, como em todas as questões da vida, isso "depende".
Feto que nasce desejado pela família, tem futuro garantido. Aquelas primeiras dez semanas passam num ápice: fazem-se com a perna às costas!
Para o feto indesejado, a coisa fica feia. Cara ou coroa?
A senhora psicóloga da Clínica dos Arcos, imparcial como sempre, vai ajudar a mamã!

Para o feto também se faz Justiça, pois feto indesejado mais vale ser abortado, certo?
"Certo!"

Alguém me disse que nos EUA se preparam debates para voltar a limitar o aborto, trinta anos depois de ter sido legalizado. "Chiu! Cala-te, porque Portugal agora é moderno!" Portugal vive hoje o americano sonho de 1973! Também temos direito ao nosso Roe vs. Wade! Também queremos apanhar o comboio europeu da modernidade sem natalidade!
Queremos ser como a Holanda, como a Alemanha, como a Dinamarca, e a melhor forma de sermos como os modernos é podermos abortar legalmente, em clínicas novas, acabadas de estrear!
Os americanos estão a querer reverter décadas de aborto livre? Estão preocupados com o crescimento exponencial do aborto nos últimos 30 anos? Estão assustados com as suas estatísticas de milhões de fetos abortados? Estão surpreendidos por ver que mais de 90% das razões para abortar nos EUA são fúteis? Há médicos americanos que são hoje ex-abortistas e que contam publicamente o drama das suas vidas dedicadas a matar? Norma McCorvey, protagonista da vitória do aborto legal de 1973, rejeita hoje o aborto legal e percorre o Mundo a tentar combatê-lo? "Chiu, cala-te. Que Portugal também tem direito às suas três décadas de aborto legal!" Senão, como é que obtemos dados estatísticos que mostrem o aumento exponencial do número de abortos?
Era preciso legalizar!

Ah, e já agora, se calhar os americanos querem acabar com o aborto por causa do Bush, que é fanático religioso e tal... Mas é que são os Democratas que querem restringir o aborto! "Chiu, cala-te..."
"Ontem votámos «sim», não percebes?"
É a aurora de um novo dia!

P.S.: Ah, e já agora, ouçam a "Bárbie Assembleia": a Igreja só tem é que continuar a ajudar as grávidas. Nós, os modernos, os que ajudamos a abortar, agradecemos à Igreja. A Igreja, a velha e antiquada, que fique com as suas grávidas, que nós vamos ajudar as espanholas a abrir clínicas...

P.S.2: Daqui a uns anos, quando tivermos estatísticas de morte por aborto legal (que poderemos comparar com as de morte por aborto clandestino), depressões por aborto legal, tentativas de suicídio por aborto legal, vidas arruinadas por aborto legal, relações desfeitas por aborto legal, famílias arruinadas por aborto legal, as estatísticas claras e límpidas recolhidas matematicamente em suporte informático, eu não quero ver votantes do "sim" a dizerem mal do Governo, a porem as culpas no Governo, a dizerem mal das clínicas, a porem a culpa nas Yolandas Hernandez Dominguez desta vida. Os que votaram "sim" limparam ontem as suas consciências. Eu cá estarei para os recordar da sua quota parte de responsabilidade...