... seria tão fácil se todos tivessemos a concisão de um Chesterton!
"Progress is a comparative of which we have not settled the superlative." - Chapter 2, Heretics, 1905
"Progress should mean that we are always changing the world to fit the vision, instead we are always changing the vision." - Orthodoxy, 1908
"My attitude toward progress has passed from antagonism to boredom. I have long ceased to argue with people who prefer Thursday to Wednesday because it is Thursday." - New York Times Magazine, 2/11/23
"Men invent new ideals because they dare not attempt old ideals. They look forward with enthusiasm, because they are afraid to look back." - What's Wrong With The World, 1910
"Tradition means giving votes to the most obscure of all classes, our ancestors. It is the democracy of the dead. Tradition refuses to submit to that arrogant oligarchy who merely happen to be walking around." - Orthodoxy, 1908
"The modern world is a crowd of very rapid racing cars all brought to a standstill and stuck in a block of traffic." - ILN, 5/29/26
A ler: um poço de citações valiosas. Algumas são mesmo das melhores definições do verdadeiro tradicionalismo. Definir o tradicionalismo como a "democracia dos mortos", contra a arrogante oligarquia dos que "andam por aí" é fenomenal! Mas a citação que destaquei com negrito é aquela com a qual, verdadeiramente, me identifico. O verdadeiro progresso deve ser conseguido com o esforço de tentar mudar o que está mal no Mundo, tendo sempre em vista uma visão correcta (ortodoxa) não só do real, mas sobretudo do que seria o mundo ideal.
Mudar a visão, só por mudar, só para "parecer moderno", apenas agrava o problema. O mundo moderno, não só é o resultado caótico de milhares de mudanças de visão, com tudo o que isso tem de caos e de desorientação, como todas as visões alternativas que se criaram nos últimos séculos têm demonstrado estar erradas, umas a seguir às outras...
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Ortodoxia
«Nothing more strangely indicates an enormous and silent evil of modern society than the extraordinary use which is made nowadays of the word "orthodox." In former days the heretic was proud of not being a heretic. It was the kingdoms of the world and the police and the judges who were heretics. He was orthodox. He had no pride in having rebelled against them; they had rebelled against him. The armies with their cruel security, the kings with their cold faces, the decorous processes of State, the reasonable processes of law--all these like sheep had gone astray. The man was proud of being orthodox, was proud of being right. If he stood alone in a howling wilderness he was more than a man; he was a church. He was the centre of the universe; it was round him that the stars swung. All the tortures torn out of forgotten hells could not make him admit that he was heretical. But a few modern phrases have made him boast of it. He says, with a conscious laugh, "I suppose I am very heretical," and looks round for applause. The word "heresy" not only means no longer being wrong; it practically means being clear-headed and courageous. The word "orthodoxy" not only no longer means being right; it practically means being wrong. All this can mean one thing, and one thing only. It means that people care less for whether they are philosophically right. For obviously a man ought to confess himself crazy before he confesses himself heretical. The Bohemian, with a red tie, ought to pique himself on his orthodoxy. The dynamiter, laying a bomb, ought to feel that, whatever else he is, at least he is orthodox.» - Gilbert K. Chesterton (1908), Heretics, cap. I.
O mundo seria melhor se todos tivessemos uma obra de Chesterton à cabeceira.
É, de facto, muito estranho que termos como "ortodoxia" e "heresia", nos dias que correm, tenham passado para o outro lado do juízo moral.
Continuamos hoje, e continuaremos sempre, a fazer juízos morais acerca destes termos, como acerca de outros, é certo.
No passado, ser "ortodoxo" era bom, era estar certo. Ser "herético" era mau: era estar errado. Nem o herético se via ao espelho como herético! Ele via-se como ortodoxo, considerando que todos os outros eram hereges!
Hoje em dia, sucede precisamente o oposto.
Como diz Chesterton, o herege afirma alto e em bom som a sua heresia, com orgulho, e olha à volta à espera de aplausos da audiência.
O que explica esta inversão total no significado das palavras?
O que explica esta inversão total na aprovação e reprovação popular destes termos?
Só mesmo uma inversão total da intelectualidade.
Fico sempre perplexo quando vejo tantos discordarem do facto de que o mundo moderno está intelectualmente moribundo.
Isso, para mim, é clarividente: estamos a usar as palavras ao contrário, não só estas mas muitas outras, e estamos a dar-lhes juízos morais opostos aos que deveríamos dar.
Sem a vitória do relativismo intelectual, não haveria espaço para este tremendo erro que consiste em negarmos a crise intelectual dos nossos tempos. É, precisamente, porque hoje em dia as opiniões se equivalem (as do ignorante pesam tanto como as do sábio), porque já não há absolutos, porque a verdade morreu aos olhos do Mundo, porque cada um tem "a sua Verdade", que já ninguém se dá conta de que a intelectualidade está às portas da morte.
O mundo seria melhor se todos tivessemos uma obra de Chesterton à cabeceira.
É, de facto, muito estranho que termos como "ortodoxia" e "heresia", nos dias que correm, tenham passado para o outro lado do juízo moral.
Continuamos hoje, e continuaremos sempre, a fazer juízos morais acerca destes termos, como acerca de outros, é certo.
No passado, ser "ortodoxo" era bom, era estar certo. Ser "herético" era mau: era estar errado. Nem o herético se via ao espelho como herético! Ele via-se como ortodoxo, considerando que todos os outros eram hereges!
Hoje em dia, sucede precisamente o oposto.
Como diz Chesterton, o herege afirma alto e em bom som a sua heresia, com orgulho, e olha à volta à espera de aplausos da audiência.
O que explica esta inversão total no significado das palavras?
O que explica esta inversão total na aprovação e reprovação popular destes termos?
Só mesmo uma inversão total da intelectualidade.
Fico sempre perplexo quando vejo tantos discordarem do facto de que o mundo moderno está intelectualmente moribundo.
Isso, para mim, é clarividente: estamos a usar as palavras ao contrário, não só estas mas muitas outras, e estamos a dar-lhes juízos morais opostos aos que deveríamos dar.
Sem a vitória do relativismo intelectual, não haveria espaço para este tremendo erro que consiste em negarmos a crise intelectual dos nossos tempos. É, precisamente, porque hoje em dia as opiniões se equivalem (as do ignorante pesam tanto como as do sábio), porque já não há absolutos, porque a verdade morreu aos olhos do Mundo, porque cada um tem "a sua Verdade", que já ninguém se dá conta de que a intelectualidade está às portas da morte.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
William Coulson tem uma história para contar...
Vale a pena ler com toda a atenção...
O tema nunca foi tão actual e abrangente.
Meet Dr. Bill Coulson
«Thoughts from the man who, together with Carl Rogers, pioneered the practice of "encounter groups."»
O tema nunca foi tão actual e abrangente.
Meet Dr. Bill Coulson
«Thoughts from the man who, together with Carl Rogers, pioneered the practice of "encounter groups."»
A guerra pró-aborto ainda mal começou...
É sempre interessante despender alguns segundos com o Google à procura na Internet de novidades em relação a acções da International Planned Parenthood Federation, e das suas associadas em cada país.
Na Eslováquia, a sucursal local desta multi-nacional pró-aborto está muito enervada com as objecções de consciência. Estar atento à estratégia internacional da IPPF é, de algum modo, assistir através de uma janela temporal àquilo que será o nosso futuro.
Sucede que a Eslováquia tem uma Concordata com a Santa Sé. Como Portugal também tem.
E que, recentemente, a Santa Sé e a Eslováquia têm caminhado no sentido de assinar conjuntamente um tratado que proteja a liberdade de consciência dos médicos católicos e dos estabelecimentos de saúde católicos. Leia-se aqui o esboço do texto.
O tratado não pode ser mais sensato: visto que, para a Igreja Católica (e para qualquer pessoa que queira pensar) o aborto mata, é normal que os católicos possam usar da objecção de consciência para não serem forçados a fazer algo que consideram eticamente inaceitável.
Pelos vistos, para a eslovaca Associação de Planeamento Familiar, as coisas não são bem assim. Num documento disponível on-line, encontramos este belo discurso destes promotores das liberdades reprodutivas:
«Since Slovakia joined the European Union in 2004, the expectation toward a positive influence on the strengthening of the human rights and gender equality has been very high. Those expectation were not fulfilled, visa versa, the efforts of the conservative political forces to limit reproductive rights in Slovakia continued in 2005 with full strange. The main political and ideological issue was the draft on the Treaty on the Right to Exercise the Objection of Conscience with the Holy See. If approved, the treaty would gain the status of an “international human rights treaty” and will take precedence over current Slovak law. The Treaty on conscience objection, the first in the history of concordats, has the purpose to protect the “free and unlimited” exercise of the conscientious objection based on Catholic teachings of faith in the area of reproductive healthcare, education, employment, legal and military services. Such action would be in breach of Slovakia’s own Constitution, in breach of the Charter of Fundamental Rights of the European Union, and in breach of international human rights treaties, including the Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women (CEDAW). The proposed regulation of the conscientious objection is also in a strong opposition with recommendation on reproductive healthcare policy endorsed by the European Union. A legal panel of human rights experts appointed by the European Commission has analysed the draft treaty and agreed, that it could restrict access to sensitive medical treatment such as abortions and in-vitro fertilization. The lawyers warned that the treaty could place Slovakia in breach of its obligations as a member of the EU and UN.» (negrito meu)
É que muitos ainda não se deram conta de que está em marcha, e há décadas, uma guerra à escala global para impor o aborto como um direito reprodutivo. Aqui em Portugal, na ressaca da recente vitória do aborto legal a 11 de Fevereiro, ainda estamos todos na fase do discurso "soft" do respeito pelas liberdades de consciência dos médicos e da generalidade do pessoal médico. Várias clínicas privadas no nosso país já se manifestaram objectoras de consciência, afirmando que não matarão nas suas instalações. E quando a nossa APF acordar? Aliás, ela não estará, certamente, a dormir nesta matéria.
O caso da Eslováquia mostra bem até onde estas organizações pretendem "esticar a corda" no que toca ao enforcamento das liberdades e direitos do indivíduo. O primeiro passo foi o de promover o fim do direito à vida ao embrião, até certa idade. Vitória ganha. Agora, enfrentam a dificuldade de ter que forçar à prática do aborto os médicos e enfermeiros objectores de consciência, e as clínicas e hospitais que não queiram, legitimamente, ser obrigados a matar.
O direito à objecção de consciência deveria estar acima de tudo, certo? A APF eslovaca discorda: diz que tal direito está a violar tratados internacionais e a comprometer o papel da Eslováquia na União Europeia!
Bela distorção das realidades...
Quem lê o texto acima, fica com a impressão de que há algo de ilegal com o uso "livre e ilimitado" (notem-se as aspas usadas no texto original) da objecção de consciência. Parece que a invasão da consciência alheia, e a compulsão à prática de um acto repulsivo para a consciência de qualquer médico bem formado, constituem a última fronteira a violar, por parte destes defensores dos "direitos reprodutivos" das mulheres.
Isto vai também chegar cá. É só uma questão de tempo até que surjam "quotas máximas" de objecção de consciência, e outros abusos do género. Quando isso acontecer, porque vai acontecer, espero que os profissionais de saúde se mostrem à altura do desafio. Quem achar que isto não vai acontecer em Portugal, ainda desconhece a forma eficaz, organizada e incansável como a IPPF se articula com as várias APFs de cada país para implementar uma estratégia promotora do aborto à escala mundial...
Na Eslováquia, a sucursal local desta multi-nacional pró-aborto está muito enervada com as objecções de consciência. Estar atento à estratégia internacional da IPPF é, de algum modo, assistir através de uma janela temporal àquilo que será o nosso futuro.
Sucede que a Eslováquia tem uma Concordata com a Santa Sé. Como Portugal também tem.
E que, recentemente, a Santa Sé e a Eslováquia têm caminhado no sentido de assinar conjuntamente um tratado que proteja a liberdade de consciência dos médicos católicos e dos estabelecimentos de saúde católicos. Leia-se aqui o esboço do texto.
O tratado não pode ser mais sensato: visto que, para a Igreja Católica (e para qualquer pessoa que queira pensar) o aborto mata, é normal que os católicos possam usar da objecção de consciência para não serem forçados a fazer algo que consideram eticamente inaceitável.
Pelos vistos, para a eslovaca Associação de Planeamento Familiar, as coisas não são bem assim. Num documento disponível on-line, encontramos este belo discurso destes promotores das liberdades reprodutivas:
«Since Slovakia joined the European Union in 2004, the expectation toward a positive influence on the strengthening of the human rights and gender equality has been very high. Those expectation were not fulfilled, visa versa, the efforts of the conservative political forces to limit reproductive rights in Slovakia continued in 2005 with full strange. The main political and ideological issue was the draft on the Treaty on the Right to Exercise the Objection of Conscience with the Holy See. If approved, the treaty would gain the status of an “international human rights treaty” and will take precedence over current Slovak law. The Treaty on conscience objection, the first in the history of concordats, has the purpose to protect the “free and unlimited” exercise of the conscientious objection based on Catholic teachings of faith in the area of reproductive healthcare, education, employment, legal and military services. Such action would be in breach of Slovakia’s own Constitution, in breach of the Charter of Fundamental Rights of the European Union, and in breach of international human rights treaties, including the Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women (CEDAW). The proposed regulation of the conscientious objection is also in a strong opposition with recommendation on reproductive healthcare policy endorsed by the European Union. A legal panel of human rights experts appointed by the European Commission has analysed the draft treaty and agreed, that it could restrict access to sensitive medical treatment such as abortions and in-vitro fertilization. The lawyers warned that the treaty could place Slovakia in breach of its obligations as a member of the EU and UN.» (negrito meu)
É que muitos ainda não se deram conta de que está em marcha, e há décadas, uma guerra à escala global para impor o aborto como um direito reprodutivo. Aqui em Portugal, na ressaca da recente vitória do aborto legal a 11 de Fevereiro, ainda estamos todos na fase do discurso "soft" do respeito pelas liberdades de consciência dos médicos e da generalidade do pessoal médico. Várias clínicas privadas no nosso país já se manifestaram objectoras de consciência, afirmando que não matarão nas suas instalações. E quando a nossa APF acordar? Aliás, ela não estará, certamente, a dormir nesta matéria.
O caso da Eslováquia mostra bem até onde estas organizações pretendem "esticar a corda" no que toca ao enforcamento das liberdades e direitos do indivíduo. O primeiro passo foi o de promover o fim do direito à vida ao embrião, até certa idade. Vitória ganha. Agora, enfrentam a dificuldade de ter que forçar à prática do aborto os médicos e enfermeiros objectores de consciência, e as clínicas e hospitais que não queiram, legitimamente, ser obrigados a matar.
O direito à objecção de consciência deveria estar acima de tudo, certo? A APF eslovaca discorda: diz que tal direito está a violar tratados internacionais e a comprometer o papel da Eslováquia na União Europeia!
Bela distorção das realidades...
Quem lê o texto acima, fica com a impressão de que há algo de ilegal com o uso "livre e ilimitado" (notem-se as aspas usadas no texto original) da objecção de consciência. Parece que a invasão da consciência alheia, e a compulsão à prática de um acto repulsivo para a consciência de qualquer médico bem formado, constituem a última fronteira a violar, por parte destes defensores dos "direitos reprodutivos" das mulheres.
Isto vai também chegar cá. É só uma questão de tempo até que surjam "quotas máximas" de objecção de consciência, e outros abusos do género. Quando isso acontecer, porque vai acontecer, espero que os profissionais de saúde se mostrem à altura do desafio. Quem achar que isto não vai acontecer em Portugal, ainda desconhece a forma eficaz, organizada e incansável como a IPPF se articula com as várias APFs de cada país para implementar uma estratégia promotora do aborto à escala mundial...
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Um mundo sem alicerces
O artigo de João César das Neves, A enorme derrota da Igreja, publicado no Diário de Notícias no passado dia 19 de Fevereiro, vai de encontro àquela que julgo ser a posição essencial na defesa de questões fundamentais como a do aborto.
Quando se está certo, e a Igreja Católica, juntamente com todos os crentes e não crentes que votaram "não", estavam e estão certos, não se pode abdicar dessa posição de vantagem intelectual, em nome de uma falsa "conciliação" com quem errou (e ganhou), ou em nome de um falso populismo político.
Errar e ganhar são coisas perfeitamente compatíveis.
O "Sim" ganhou no dia 11, mas errou.
Por outro lado, e por simples lógica, o "não" perdeu mas acertou (já estava certo à partida).
Regressamos sempre ao relativismo: quem não sabe em que é que acredita, e que ideias defende, voga sempre ao sabor das marés, das modas, das estratégias políticas, das pequenas e medíocres guerrinhas ideológicas, e perde a sua identidade.
Há que recordar a razão de ser deste referendo: sucedeu que sete magistrados do Tribunal Constitucional votaram a favor da pergunta, contra seis, do dia 15 de Novembro de 2006, dia de triste memória. A vantagem de apenas um voto deveria ter sido claro sinal de que algo estava mal com este referendo. É, no mínimo, legítimo perguntar se a pergunta era ou não constitucional, uma vez que a resposta dada pelo Tribunal Constitucional saiu com apenas um voto de vantagem. Faz-nos supor que outra composição do colectivo poderia ter produzido uma resposta de sinal oposto, e zás! Não havia referendo para ninguém, por violação do Artigo 24º da Constituição (o tal da "inviolabilidade da vida humana")!
Os senhores magistrados que, eticamente confusos, aprovaram esta pergunta são um perfeito exemplo da realidade de uma anomalia intelectual na nossa "moderna" civilização.
Quem leu bem o texto do Acórdão n.º 617/2006, notou que se fala em John Rawls (1921-2002) como quem apela para um nome sonante para defender uma posição indefensável. Esse campeão norte-americano do relativismo ético moderno, John Rawls, defendia que, numa sociedade na qual convivem duas éticas diferentes (a deontológica clássica e a "moderna" utilitarista, por exemplo), a política deveria estar baseada numa estrutura liberal que permitisse a sua coexistência, numa óptica ao estilo de "máximo divisor comum".
Os senhores magistrados não podiam estar mais de acordo com o senhor Rawls:
«8. A reflexão sobre valores numa sociedade democrática, pluralista e de matriz liberal quanto aos direitos fundamentais tem sido objecto privilegiado do pensamento filosófico contemporâneo. Tal reflexão exprime-se na ideia de um “consenso de sobreposição” (overlapping consensus) desenvolvida por JOHN RAWLS, em Political Liberalism, 1993, p. 133 e ss.. O autor concebe a possibilidade de um consenso sobre valores políticos, como o respeito mútuo ou a liberdade, sem o sacrifício de valores mais abrangentes e de visões particulares, mas a partir da diversidade dos valores. Por exemplo, diferentes concepções religiosas podem confluir, sem abandonar a respectiva matriz, num núcleo de valores estritamente políticos.» (negrito meu)
É curioso que a defesa do direito à vida era algo de inegociável há poucos séculos atrás, em pleno Iluminismo. Na altura, tanto ateus como crentes teriam este ponto em comum. Um ateu clássico, não niilista nem anarquista, em pleno século XIX, não abdicaria de defender o direito à vida, e ficaria chocado se esse direito surgisse associado em regime de exclusividade à Religião. Alguns poucos ateus, ainda esclarecidos em plenas trevas modernas, sairam nesta campanha em defesa corajosa do "não" ateu ao aborto livre.
Estes poucos, mas lúcidos, ateus demonstraram uma maior cultura iluminista e racionalista que os distintos senhores magistrados que votaram a favor da pergunta do referendo, mostrando-se como fiéis "discípulos" de Rawls.
É em tempos destes que as palavras sábias de René Guénon (1886-1951) ganham sempre nova luz:
«A civilização moderna aparece na História como uma verdadeira anomalia: de todas as que conhecemos, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, a única também que não se apoia em nenhum princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material, que continua há vários séculos e que se acelera cada vez mais, foi acompanhado por uma regressão intelectual, que esse desenvolvimento foi incapaz de compensar. Trata-se, entenda-se bem, da verdadeira e pura intelectualidade, que poderíamos igualmente chamar de espiritualidade, e recusamo-nos a dar tal nome àquilo a que os modernos se têm sobretudo aplicado: o cultivo das ciências experimentais com vista às aplicações práticas a que elas podem dar lugar.» - Regnabit, Junho de 1926, título original do artigo, La Réforme de la mentalité moderne, incorporado na obra Symboles de la Science Sacrée, cap. I.
Este desenvolvimento "puramente material" de que fala Guénon constata-se facilmente na popularidade que alcançaram obras filosóficas como as de John Rawls, e na forma como são usadas, um pouco por todo o confuso mundo ocidental, para "desconstruir" a Ética clássica, para dar umas belas machadadas aos alicerces civilizacionais reconhecidos pelo mundo saído do Iluminismo, que ao seu tempo, ainda concebia uma Ética universal como base indispensável de uma sociedade justa.
É certo que, filosoficamente, o materialismo moderno nasce com Descartes (1596-1650). Mas, nos séculos que se sucederam à transformação cartesiana da Filosofia, a maioria dos adeptos destas ideias novas não abdicava de clamar por uma Ética universal, fraterna e igualitária. Ainda não eram puros materialistas!
Nos nossos tristes tempos, entusiasmados como estamos pela concepção animalesca que fazemos de nós mesmos (meros "homens-máquinas", "homens-animais"), bela herança de Darwin e de Freud, de que servirá ainda a Ética iluminista? De que servirá apelar a "princípios éticos universais" como o do direito a viver?
Hoje em dia, quantos filósofos ateus ainda acreditam na existência destes princípios?
E, em bom rigor, o que é mais chocante, quantos filósofos cristãos contemporâneos ainda acreditam neles?
A afirmação final do materialismo está, finalmente, a chegar. O caminho foi preparado pelos filósofos utilitaristas de matriz cultural anglo-saxónica (pouco dada à Metafísica), que defendem uma pseudo-Ética, melhor dizendo, uma anti-Ética, baseada nos "desejos" e na "maximização da felicidade" como regras de construção de uma "ética moderna". Peter Singer, defensor do infanticídio, é um desses filósofos que alcançaram, ainda em vida, enorme popularidade nos meios académicos do ensino da Filosofia.
Hoje em dia, em pleno Portugal do século XXI, magistrados ideologicamente motivados gostam de recorrer a esta "moderna" anti-Ética para fazer prevalecer, a pouco e pouco, os seus desejos sociais mais profundos, para muitos ainda radicados numa visão marxista da História, para eles "sempre em Progresso". Eles não têm, porventura, a noção de que fazem colapsar a Ética ao aprovar perguntas destas para referendo. Se eles não a têm, como há de a ter o povo ignorante que, sucumbido à argumentação demagógica e populista do PS, do BE e do PCP, votou mal no dia 11 de Fevereiro?
Quando se está certo, e a Igreja Católica, juntamente com todos os crentes e não crentes que votaram "não", estavam e estão certos, não se pode abdicar dessa posição de vantagem intelectual, em nome de uma falsa "conciliação" com quem errou (e ganhou), ou em nome de um falso populismo político.
Errar e ganhar são coisas perfeitamente compatíveis.
O "Sim" ganhou no dia 11, mas errou.
Por outro lado, e por simples lógica, o "não" perdeu mas acertou (já estava certo à partida).
Regressamos sempre ao relativismo: quem não sabe em que é que acredita, e que ideias defende, voga sempre ao sabor das marés, das modas, das estratégias políticas, das pequenas e medíocres guerrinhas ideológicas, e perde a sua identidade.
Há que recordar a razão de ser deste referendo: sucedeu que sete magistrados do Tribunal Constitucional votaram a favor da pergunta, contra seis, do dia 15 de Novembro de 2006, dia de triste memória. A vantagem de apenas um voto deveria ter sido claro sinal de que algo estava mal com este referendo. É, no mínimo, legítimo perguntar se a pergunta era ou não constitucional, uma vez que a resposta dada pelo Tribunal Constitucional saiu com apenas um voto de vantagem. Faz-nos supor que outra composição do colectivo poderia ter produzido uma resposta de sinal oposto, e zás! Não havia referendo para ninguém, por violação do Artigo 24º da Constituição (o tal da "inviolabilidade da vida humana")!
Os senhores magistrados que, eticamente confusos, aprovaram esta pergunta são um perfeito exemplo da realidade de uma anomalia intelectual na nossa "moderna" civilização.
Quem leu bem o texto do Acórdão n.º 617/2006, notou que se fala em John Rawls (1921-2002) como quem apela para um nome sonante para defender uma posição indefensável. Esse campeão norte-americano do relativismo ético moderno, John Rawls, defendia que, numa sociedade na qual convivem duas éticas diferentes (a deontológica clássica e a "moderna" utilitarista, por exemplo), a política deveria estar baseada numa estrutura liberal que permitisse a sua coexistência, numa óptica ao estilo de "máximo divisor comum".
Os senhores magistrados não podiam estar mais de acordo com o senhor Rawls:
«8. A reflexão sobre valores numa sociedade democrática, pluralista e de matriz liberal quanto aos direitos fundamentais tem sido objecto privilegiado do pensamento filosófico contemporâneo. Tal reflexão exprime-se na ideia de um “consenso de sobreposição” (overlapping consensus) desenvolvida por JOHN RAWLS, em Political Liberalism, 1993, p. 133 e ss.. O autor concebe a possibilidade de um consenso sobre valores políticos, como o respeito mútuo ou a liberdade, sem o sacrifício de valores mais abrangentes e de visões particulares, mas a partir da diversidade dos valores. Por exemplo, diferentes concepções religiosas podem confluir, sem abandonar a respectiva matriz, num núcleo de valores estritamente políticos.» (negrito meu)
É curioso que a defesa do direito à vida era algo de inegociável há poucos séculos atrás, em pleno Iluminismo. Na altura, tanto ateus como crentes teriam este ponto em comum. Um ateu clássico, não niilista nem anarquista, em pleno século XIX, não abdicaria de defender o direito à vida, e ficaria chocado se esse direito surgisse associado em regime de exclusividade à Religião. Alguns poucos ateus, ainda esclarecidos em plenas trevas modernas, sairam nesta campanha em defesa corajosa do "não" ateu ao aborto livre.
Estes poucos, mas lúcidos, ateus demonstraram uma maior cultura iluminista e racionalista que os distintos senhores magistrados que votaram a favor da pergunta do referendo, mostrando-se como fiéis "discípulos" de Rawls.
É em tempos destes que as palavras sábias de René Guénon (1886-1951) ganham sempre nova luz:
«A civilização moderna aparece na História como uma verdadeira anomalia: de todas as que conhecemos, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, a única também que não se apoia em nenhum princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material, que continua há vários séculos e que se acelera cada vez mais, foi acompanhado por uma regressão intelectual, que esse desenvolvimento foi incapaz de compensar. Trata-se, entenda-se bem, da verdadeira e pura intelectualidade, que poderíamos igualmente chamar de espiritualidade, e recusamo-nos a dar tal nome àquilo a que os modernos se têm sobretudo aplicado: o cultivo das ciências experimentais com vista às aplicações práticas a que elas podem dar lugar.» - Regnabit, Junho de 1926, título original do artigo, La Réforme de la mentalité moderne, incorporado na obra Symboles de la Science Sacrée, cap. I.
Este desenvolvimento "puramente material" de que fala Guénon constata-se facilmente na popularidade que alcançaram obras filosóficas como as de John Rawls, e na forma como são usadas, um pouco por todo o confuso mundo ocidental, para "desconstruir" a Ética clássica, para dar umas belas machadadas aos alicerces civilizacionais reconhecidos pelo mundo saído do Iluminismo, que ao seu tempo, ainda concebia uma Ética universal como base indispensável de uma sociedade justa.
É certo que, filosoficamente, o materialismo moderno nasce com Descartes (1596-1650). Mas, nos séculos que se sucederam à transformação cartesiana da Filosofia, a maioria dos adeptos destas ideias novas não abdicava de clamar por uma Ética universal, fraterna e igualitária. Ainda não eram puros materialistas!
Nos nossos tristes tempos, entusiasmados como estamos pela concepção animalesca que fazemos de nós mesmos (meros "homens-máquinas", "homens-animais"), bela herança de Darwin e de Freud, de que servirá ainda a Ética iluminista? De que servirá apelar a "princípios éticos universais" como o do direito a viver?
Hoje em dia, quantos filósofos ateus ainda acreditam na existência destes princípios?
E, em bom rigor, o que é mais chocante, quantos filósofos cristãos contemporâneos ainda acreditam neles?
A afirmação final do materialismo está, finalmente, a chegar. O caminho foi preparado pelos filósofos utilitaristas de matriz cultural anglo-saxónica (pouco dada à Metafísica), que defendem uma pseudo-Ética, melhor dizendo, uma anti-Ética, baseada nos "desejos" e na "maximização da felicidade" como regras de construção de uma "ética moderna". Peter Singer, defensor do infanticídio, é um desses filósofos que alcançaram, ainda em vida, enorme popularidade nos meios académicos do ensino da Filosofia.
Hoje em dia, em pleno Portugal do século XXI, magistrados ideologicamente motivados gostam de recorrer a esta "moderna" anti-Ética para fazer prevalecer, a pouco e pouco, os seus desejos sociais mais profundos, para muitos ainda radicados numa visão marxista da História, para eles "sempre em Progresso". Eles não têm, porventura, a noção de que fazem colapsar a Ética ao aprovar perguntas destas para referendo. Se eles não a têm, como há de a ter o povo ignorante que, sucumbido à argumentação demagógica e populista do PS, do BE e do PCP, votou mal no dia 11 de Fevereiro?
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
A rampa inclinada do colapso ético
Em 1948, foi definido o Juramento do Médico (World Medical Association), e rezava assim, tendo vigorado até 1968:
«Physician's Oath
At the time of being admitted as a member of the medical profession:
I solemnly pledge myself to consecrate my life to the service of humanity;
I will give to my teachers the respect and gratitude which is their due;
I will practice my profession with conscience and dignity; the health of my patient will be my first consideration;
I will respect the secrets which are confided in me; even after the patient has died ;
I will maintain by all the means in my power, the honor and the noble traditions of the medical profession; my colleagues will be my brothers;
I will not permit considerations of religion, nationality, race, party politics or social standing to intervene between my duty and my patient;
I will maintain the utmost respect for human life from the time of conception, even under threat, I will not use my medical knowledge contrary to the laws of humanity;
I make these promises solemnly, freely and upon my honor.» (negrito meu)
Este juramento colocava forte ênfase na protecção da vida humana intra-uterina desde a concepção. A razão era simples: os horrores do nazismo e do estalinismo, que incluiam a prática livre do aborto em grande escala, tinham chocado a Humanidade de então, fragilizada pelas misérias da Segunda Guerra Mundial. Hoje, a prática do aborto livre já não choca. O que choca é criticá-lo. Mas, em 1948, considerou-se essa frase do juramento relativa à vida humana intra-uterina como sendo essencial matéria de direitos humanos. Note-se que o texto do Juramento do Médico foi estabelecido pela World Medical Association, e não pela Santa Sé!
Alteração de 1983, onde se lia:
"…respect for human life from the time of conception"
passou a ler-se:
"…respect for human life from its beginning"
Já era forte, nestes tempos, a pressão do mediático caso norte-americano Roe vs. Wade (1973), que inaugurou a era do aborto livre e legal no "moderno" mundo ocidental ...
Neste ano de 1983, com esta discreta alteração, começava a derrapagem ética da WMA em matéria de direito à vida intra-uterina...
Alteração de Maio de 2005, onde se lia:
"…respect for human life from its beginning"
passou a ler-se:
"…respect for human life"
E pronto!
A alteração de 1983 apenas significava uma cobardia terminológica (usar o termo mais vago, "beginning", era mais seguro e gerava menos "ondas" do que falar em "conception"). Mas a alteração de Maio de 2005 é bastante mais reveladora. Porque razão se suprimiu a expressão "from its beginning"? É que, cientificamente falando, qualquer manual de Medicina estabelece, hoje em dia, que o início da vida humana está na fertilização, no rápido processo biológico que culmina no zigoto. Ora, mantendo a palavra "beginning", mesmo sendo algo mais vago que o termo original, continuava a obrigar os médicos, deontologicamente, a não praticar abortos a pedido. E isso era mal visto pelos crescentes e poderosos movimentos pró-escolha.
Daí que a expressão "from its beginning" tivesse um tempo de vida limitado, acabando por cair de vez. Há que manter as consciências dos médicos abortófilos bem limpinhas! Quando a "chatice" fosse removida do Juramento, como foi finalmente em Maio de 2005, os médicos que matam já poderiam ficar mais descansados, evitando ser vistos como perjuros pelos seus pares.
Em breve, é previsível que a Ordem dos Médicos em Portugal venha a decidir a alteração ao código deontológico. É que, dizem alguns, "não faz sentido" manter proibições deontológicas como as do aborto a pedido, quando tal comportamento está em vias de se tornar legal. Pois sim...
O Código Deontológico dos médicos é um documento ético e disciplinar, não é?
Por isso, fará todo o sentido, nas curtas cabecitas desta gente, que a Ética "evolua" ao sabor das ideologias políticas e das guerras culturais do Governo actualmente em maioria... O que era errado antes de 11 de Fevereiro, ou seja, matar fetos, passa agora a ser certo. Bela ética!
Afinal, se os "estrangeiros" da WMA já o fizeram, se a OMS gosta do aborto livre, se o Parlamento Europeu já o promove (1), do que é que a Ordem dos Médicos está à espera?
(1) Jornal Oficial nº C 271 E de 12/11/2003 p. 0369 – 0374, em http://eur-lex.europa.eu
«Physician's Oath
At the time of being admitted as a member of the medical profession:
I solemnly pledge myself to consecrate my life to the service of humanity;
I will give to my teachers the respect and gratitude which is their due;
I will practice my profession with conscience and dignity; the health of my patient will be my first consideration;
I will respect the secrets which are confided in me; even after the patient has died ;
I will maintain by all the means in my power, the honor and the noble traditions of the medical profession; my colleagues will be my brothers;
I will not permit considerations of religion, nationality, race, party politics or social standing to intervene between my duty and my patient;
I will maintain the utmost respect for human life from the time of conception, even under threat, I will not use my medical knowledge contrary to the laws of humanity;
I make these promises solemnly, freely and upon my honor.» (negrito meu)
Este juramento colocava forte ênfase na protecção da vida humana intra-uterina desde a concepção. A razão era simples: os horrores do nazismo e do estalinismo, que incluiam a prática livre do aborto em grande escala, tinham chocado a Humanidade de então, fragilizada pelas misérias da Segunda Guerra Mundial. Hoje, a prática do aborto livre já não choca. O que choca é criticá-lo. Mas, em 1948, considerou-se essa frase do juramento relativa à vida humana intra-uterina como sendo essencial matéria de direitos humanos. Note-se que o texto do Juramento do Médico foi estabelecido pela World Medical Association, e não pela Santa Sé!
Alteração de 1983, onde se lia:
"…respect for human life from the time of conception"
passou a ler-se:
"…respect for human life from its beginning"
Já era forte, nestes tempos, a pressão do mediático caso norte-americano Roe vs. Wade (1973), que inaugurou a era do aborto livre e legal no "moderno" mundo ocidental ...
Neste ano de 1983, com esta discreta alteração, começava a derrapagem ética da WMA em matéria de direito à vida intra-uterina...
Alteração de Maio de 2005, onde se lia:
"…respect for human life from its beginning"
passou a ler-se:
"…respect for human life"
E pronto!
A alteração de 1983 apenas significava uma cobardia terminológica (usar o termo mais vago, "beginning", era mais seguro e gerava menos "ondas" do que falar em "conception"). Mas a alteração de Maio de 2005 é bastante mais reveladora. Porque razão se suprimiu a expressão "from its beginning"? É que, cientificamente falando, qualquer manual de Medicina estabelece, hoje em dia, que o início da vida humana está na fertilização, no rápido processo biológico que culmina no zigoto. Ora, mantendo a palavra "beginning", mesmo sendo algo mais vago que o termo original, continuava a obrigar os médicos, deontologicamente, a não praticar abortos a pedido. E isso era mal visto pelos crescentes e poderosos movimentos pró-escolha.
Daí que a expressão "from its beginning" tivesse um tempo de vida limitado, acabando por cair de vez. Há que manter as consciências dos médicos abortófilos bem limpinhas! Quando a "chatice" fosse removida do Juramento, como foi finalmente em Maio de 2005, os médicos que matam já poderiam ficar mais descansados, evitando ser vistos como perjuros pelos seus pares.
Em breve, é previsível que a Ordem dos Médicos em Portugal venha a decidir a alteração ao código deontológico. É que, dizem alguns, "não faz sentido" manter proibições deontológicas como as do aborto a pedido, quando tal comportamento está em vias de se tornar legal. Pois sim...
O Código Deontológico dos médicos é um documento ético e disciplinar, não é?
Por isso, fará todo o sentido, nas curtas cabecitas desta gente, que a Ética "evolua" ao sabor das ideologias políticas e das guerras culturais do Governo actualmente em maioria... O que era errado antes de 11 de Fevereiro, ou seja, matar fetos, passa agora a ser certo. Bela ética!
Afinal, se os "estrangeiros" da WMA já o fizeram, se a OMS gosta do aborto livre, se o Parlamento Europeu já o promove (1), do que é que a Ordem dos Médicos está à espera?
(1) Jornal Oficial nº C 271 E de 12/11/2003 p. 0369 – 0374, em http://eur-lex.europa.eu
No Rescaldo
À distância de uma semana do referendo sobre a liberalização do aborto, persiste a amálgama de sentimentos e convicções que dividiu a sociedade portuguesa. Apesar da expressiva vitória do “Sim”, mesmo tendo em conta a elevadíssima abstenção, ninguém pode ficar indiferente à extraordinária mobilização da sociedade civil em torno dos movimentos cívicos que lideraram a campanha do “Não”.
A forte convicção que a defesa da vida e da dignidade das mulheres são centrais numa sociedade equilibrada e fraterna, mobilizou a sociedade civil de uma forma tão intensa que só encontro precedentes na revolução de Abril. É um sinal claro que a democracia Portuguesa caminha para uma nova fase, em que a sociedade civil pretende ter um papel activo, sobretudo nas questões fundamentais para o futuro do nosso país.
Também foi evidente que a mobilização em torno do “Sim” foi, na sua essência, muito diferente. Teve como base as máquinas partidárias, nomeadamente do PCP e do PS, e centrou-se sobretudo na vertente mais mediática do aborto. O argumento central foi a necessidade de erradicar o flagelo do aborto clandestino, ignorando de forma grosseira as causas que levam as mulheres a recorrer ao aborto.
Apesar de para a esmagadora maioria dos Portugueses o aborto ser sempre uma tragédia, os defensores do “Sim”, nomeadamente a vertente politica encabeçada pelo nosso Primeiro-Ministro, consideram que a sua legalização o torna num mal menor e definitivamente necessário para combater a sua clandestinidade. Uma posição cobarde e medíocre, espelho da nossa classe politica actual, que não oferece mais nada às mulheres, para além do sofrimento e desumanidade.
Apesar de não contestar a vitória do Sim, não posso deixar de salientar que foi alcançada por apenas 25% dos Portugueses, o que equivalerá, em grosso modo, à percentagem de cidadãos que pratica um voto militante nos seus partidos, nomeadamente no PCP e no PS. Tal como seria uma presunção inaceitável assumir que os Portugueses que se abstiveram votariam Não, também o é assumindo que esses mesmos Portugueses pretendem passar da lei actual para uma liberalização total do aborto.
Espero sinceramente que a Assembleia da República procure desenvolver uma lei equilibrada e consensual na sociedade Portuguesa e isso não passa certamente pela liberalização total do aborto.
Um abraço,
Duarte Fragoso.
A forte convicção que a defesa da vida e da dignidade das mulheres são centrais numa sociedade equilibrada e fraterna, mobilizou a sociedade civil de uma forma tão intensa que só encontro precedentes na revolução de Abril. É um sinal claro que a democracia Portuguesa caminha para uma nova fase, em que a sociedade civil pretende ter um papel activo, sobretudo nas questões fundamentais para o futuro do nosso país.
Também foi evidente que a mobilização em torno do “Sim” foi, na sua essência, muito diferente. Teve como base as máquinas partidárias, nomeadamente do PCP e do PS, e centrou-se sobretudo na vertente mais mediática do aborto. O argumento central foi a necessidade de erradicar o flagelo do aborto clandestino, ignorando de forma grosseira as causas que levam as mulheres a recorrer ao aborto.
Apesar de para a esmagadora maioria dos Portugueses o aborto ser sempre uma tragédia, os defensores do “Sim”, nomeadamente a vertente politica encabeçada pelo nosso Primeiro-Ministro, consideram que a sua legalização o torna num mal menor e definitivamente necessário para combater a sua clandestinidade. Uma posição cobarde e medíocre, espelho da nossa classe politica actual, que não oferece mais nada às mulheres, para além do sofrimento e desumanidade.
Apesar de não contestar a vitória do Sim, não posso deixar de salientar que foi alcançada por apenas 25% dos Portugueses, o que equivalerá, em grosso modo, à percentagem de cidadãos que pratica um voto militante nos seus partidos, nomeadamente no PCP e no PS. Tal como seria uma presunção inaceitável assumir que os Portugueses que se abstiveram votariam Não, também o é assumindo que esses mesmos Portugueses pretendem passar da lei actual para uma liberalização total do aborto.
Espero sinceramente que a Assembleia da República procure desenvolver uma lei equilibrada e consensual na sociedade Portuguesa e isso não passa certamente pela liberalização total do aborto.
Um abraço,
Duarte Fragoso.
Jovens políticos - «De pequenino se torce o pepino...»
Do Diário Digital:
Desde pequeninos, os "jotas" são educados na máquina partidária.
Acostumam-se aos truques, aos esquemas, ao discurso, à propaganda.
Seja qual for o partido, seja à esquerda, seja à direita, o "jota" é sempre um benjamim político, guarda as bandeiras do "Partido" debaixo da cama, prepara e ensaia futuros discursos do "Partido" ao espelho, e desde tenra idade. Aprende que a política é a arte da comunicação enganosa.
Aprende que a intelectualidade serve a política e não o inverso.
João Almeida é um belo exemplar disto mesmo: é um espécime genuíno do puro "jota". Cá está: para ele, a derrota da posição anti-aborto do CDS-PP é um claro sinal de que, se há coisas a mudar, é nas posições "pouco populares" do "Partido", porque acima de tudo, está a obtenção de votos para o "Partido".
Afinal, a mudança para o nome "Partido Popular" já dava, anos atrás, provas da infiltração no CDS deste tipo de intelectualidade subserviente da política, onde o que conta, num "Partido", é ser votado. O resto é conversa.
Ideais?
Intelectualidade?
Projectos e propostas?
Nada disso! Para João Almeida, o problema fundamental, essencial, é que «parte do eleitorado democrata-cristão não se revê na posição do partido».
O direito ao aborto legal é um mal ético?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
O aborto legal causa sequelas na mulher? Mata uma vida humana?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
Não haveria soluções de apoio à maternidade que poderiam resolver o drama do aborto de vez, erradicando-o de vez?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
O problema é que o "Partido" perdeu parte do apoio do eleitorado e há que mudar alguma coisa! Há que mudar! Há que ganhar votos! E depressa, a tempo das próximas eleições! Rápido!
Quando vejo situações destas, firmo-me cada vez mais numa coisa boa que aprendi desde pequenino: nesta vida, pode-se abdicar do dinheiro, pode-se abdicar do poder, mas não se pode, de forma alguma, abdicar da integridade, da inteligência, da coerência intelectual, da seriedade. Senão, deixamos de ser homens. Passamos a ser vermes.
E é por estas e por outras que, desde que me lembro, nunca estive filiado em Partido algum, e nunca defendi nenhum Partido político.
"O líder da Juventude Popular, João Almeida, defendeu hoje que o CDS-PP faça «uma reflexão profunda» em Conselho Nacional, considerando que os resultados do referendo ao aborto demonstram que parte do eleitorado democrata-cristão não se revê na posição do partido.
«Se analisarmos os resultados do referendo a nível local e cruzarmos com os das últimas legislativas, há interpretações que têm de ser feitas, numa reflexão muito profunda que vai para além da questão da liderança», afirmou João Almeida, em declarações à Lusa.
Para o líder da Juventude Popular (JP), a vitória do «sim» em zonas de forte implantação do CDS-PP demonstra que «há pelo menos uma causa que o partido defende com a qual o eleitorado não está sincronizado»."
Desde pequeninos, os "jotas" são educados na máquina partidária.
Acostumam-se aos truques, aos esquemas, ao discurso, à propaganda.
Seja qual for o partido, seja à esquerda, seja à direita, o "jota" é sempre um benjamim político, guarda as bandeiras do "Partido" debaixo da cama, prepara e ensaia futuros discursos do "Partido" ao espelho, e desde tenra idade. Aprende que a política é a arte da comunicação enganosa.
Aprende que a intelectualidade serve a política e não o inverso.
João Almeida é um belo exemplar disto mesmo: é um espécime genuíno do puro "jota". Cá está: para ele, a derrota da posição anti-aborto do CDS-PP é um claro sinal de que, se há coisas a mudar, é nas posições "pouco populares" do "Partido", porque acima de tudo, está a obtenção de votos para o "Partido".
Afinal, a mudança para o nome "Partido Popular" já dava, anos atrás, provas da infiltração no CDS deste tipo de intelectualidade subserviente da política, onde o que conta, num "Partido", é ser votado. O resto é conversa.
Ideais?
Intelectualidade?
Projectos e propostas?
Nada disso! Para João Almeida, o problema fundamental, essencial, é que «parte do eleitorado democrata-cristão não se revê na posição do partido».
O direito ao aborto legal é um mal ético?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
O aborto legal causa sequelas na mulher? Mata uma vida humana?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
Não haveria soluções de apoio à maternidade que poderiam resolver o drama do aborto de vez, erradicando-o de vez?
O João Almeida não faz ideia, nem quer saber.
O problema é que o "Partido" perdeu parte do apoio do eleitorado e há que mudar alguma coisa! Há que mudar! Há que ganhar votos! E depressa, a tempo das próximas eleições! Rápido!
Quando vejo situações destas, firmo-me cada vez mais numa coisa boa que aprendi desde pequenino: nesta vida, pode-se abdicar do dinheiro, pode-se abdicar do poder, mas não se pode, de forma alguma, abdicar da integridade, da inteligência, da coerência intelectual, da seriedade. Senão, deixamos de ser homens. Passamos a ser vermes.
E é por estas e por outras que, desde que me lembro, nunca estive filiado em Partido algum, e nunca defendi nenhum Partido político.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Contestação a Darwin: a lista de cientistas já conta com 700
Vale a pena ler:
Dissent from Darwin
A afirmação que mais de 700 cientistas em todo o Mundo já subscreveram é a seguinte:
“We are skeptical of claims for the ability of random mutation and natural selection to account for the complexity of life. Careful examination of the evidence for Darwinian theory should be encouraged.”
“Somos cépticos face à afirmação de que a mutação aleatória e a selecção natural são capazes de explicar a complexidade da vida. Deve ser encorajado um exame cuidadoso às evidências a favor da teoria Darwiniana.” (tradução minha)
Apesar de a batalha contra o fanatismo darwinista, e em nome da Ciência, estar bem longe de estar ganha, isto é um sinal encorajador para todos aqueles que nunca se quiseram acomodar ao status quo, duvidando da suficiência do darwinismo e do neo-darwinismo para explicar a sofisticação e a complexidade da vida.
Esta situação já estaria resolvida há muito, e a Ciência já poderia saber hoje muito mais acerca da vida, se não tivesse sido o esforço insensato de alguns cientistas em promover a suposta definitude do darwinismo e do neo-darwinismo como armas de combate ideológico contra as religiões abraâmicas ou contra a religião em geral.
É certo que nem todos os cientistas que seguem cegamente o darwinismo estão ideologicamente comprometidos nesta guerra anti-religião. Muitos, certamente, evitam contestar o darwinismo por outras razões: muitos homens e mulheres de ciência preferem o "academicamente correcto" ao "cientificamente correcto". Hoje em dia, começa a ser seguro publicar artigos de contestação ao darwinismo. Mas não há muitos anos, esse "atrevimento" significava para muitos um grande escolho na sua carreira científica.
Ao menos, com iniciativas destas, e com o engrossar desta lista, começa a ser complicado chamar patetas ou tontos àqueles que não aderem totalmente às teorias propostas por Darwin e pelos seus mais fervorosos seguidores.
Dissent from Darwin
A afirmação que mais de 700 cientistas em todo o Mundo já subscreveram é a seguinte:
“We are skeptical of claims for the ability of random mutation and natural selection to account for the complexity of life. Careful examination of the evidence for Darwinian theory should be encouraged.”
“Somos cépticos face à afirmação de que a mutação aleatória e a selecção natural são capazes de explicar a complexidade da vida. Deve ser encorajado um exame cuidadoso às evidências a favor da teoria Darwiniana.” (tradução minha)
Apesar de a batalha contra o fanatismo darwinista, e em nome da Ciência, estar bem longe de estar ganha, isto é um sinal encorajador para todos aqueles que nunca se quiseram acomodar ao status quo, duvidando da suficiência do darwinismo e do neo-darwinismo para explicar a sofisticação e a complexidade da vida.
Esta situação já estaria resolvida há muito, e a Ciência já poderia saber hoje muito mais acerca da vida, se não tivesse sido o esforço insensato de alguns cientistas em promover a suposta definitude do darwinismo e do neo-darwinismo como armas de combate ideológico contra as religiões abraâmicas ou contra a religião em geral.
É certo que nem todos os cientistas que seguem cegamente o darwinismo estão ideologicamente comprometidos nesta guerra anti-religião. Muitos, certamente, evitam contestar o darwinismo por outras razões: muitos homens e mulheres de ciência preferem o "academicamente correcto" ao "cientificamente correcto". Hoje em dia, começa a ser seguro publicar artigos de contestação ao darwinismo. Mas não há muitos anos, esse "atrevimento" significava para muitos um grande escolho na sua carreira científica.
Ao menos, com iniciativas destas, e com o engrossar desta lista, começa a ser complicado chamar patetas ou tontos àqueles que não aderem totalmente às teorias propostas por Darwin e pelos seus mais fervorosos seguidores.
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