Transformámo-nos num país tão intrinsecamente corrupto que sob a capa do seu combate assistimos à mais descarada corrupção!
Que ninguém nos diga que pecamos por falta de originalidade…
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
O KGB e o "Papa de Hitler"
The KGB Campaign Against Pius XII
Vale a pena ler este artigo de George Weigel, que não há muito tempo esteve em Portugal, tendo proferido uma série de interessantes palestras. Weigel, como muitos, manifesta-se desanimado perante a indiferença da opinião pública face às recentes evoluções no "caso Pio XII".
A 25 de Janeiro de 2007, surgiu um artigo no National Review Online, da autoria do ex-agente secreto comunista romeno, o General Ion Mihai Pacepa, que dava conta de uma série de informação nova (mas já suspeitada há muito pela maioria dos eruditos que estudam este tema) acerca da responsabilidade do KGB na criação da "lenda negra" acerca do Papa Pio XII, caluniado como sendo o "Papa de Hitler".
O artigo do General Ion Mihai Pacepa é fundamental, é histórico e deveria ter levantado, no mínimo, a mesma polémica que as falsas e caluniosas polémicas contra Pio XII.
É claro que isso nunca vai suceder. A mentira, aos olhos da ignorante opinião pública, é quase impossível de apagar. Mentir e caluniar é fácil e tem efeitos perpétuos e duradouros na imagem pública das suas vítimas. Apesar de a verdade vir sempre ao de cima, há muitos que estão interessados em que essa verdade agora revelada de forma mais nítida e clara seja rapidamente varrida para debaixo do tapete.
O mito do "Papa de Hitler" tem que continuar vivo. Há muitos académicos ideologicamente comprometidos que investiram as suas carreiras nesta "lenda negra" e prostituiram a ciência histórica ao serviço de uma guerra cultural anti-católica.
Vale a pena ler este artigo de George Weigel, que não há muito tempo esteve em Portugal, tendo proferido uma série de interessantes palestras. Weigel, como muitos, manifesta-se desanimado perante a indiferença da opinião pública face às recentes evoluções no "caso Pio XII".
A 25 de Janeiro de 2007, surgiu um artigo no National Review Online, da autoria do ex-agente secreto comunista romeno, o General Ion Mihai Pacepa, que dava conta de uma série de informação nova (mas já suspeitada há muito pela maioria dos eruditos que estudam este tema) acerca da responsabilidade do KGB na criação da "lenda negra" acerca do Papa Pio XII, caluniado como sendo o "Papa de Hitler".
O artigo do General Ion Mihai Pacepa é fundamental, é histórico e deveria ter levantado, no mínimo, a mesma polémica que as falsas e caluniosas polémicas contra Pio XII.
É claro que isso nunca vai suceder. A mentira, aos olhos da ignorante opinião pública, é quase impossível de apagar. Mentir e caluniar é fácil e tem efeitos perpétuos e duradouros na imagem pública das suas vítimas. Apesar de a verdade vir sempre ao de cima, há muitos que estão interessados em que essa verdade agora revelada de forma mais nítida e clara seja rapidamente varrida para debaixo do tapete.
O mito do "Papa de Hitler" tem que continuar vivo. Há muitos académicos ideologicamente comprometidos que investiram as suas carreiras nesta "lenda negra" e prostituiram a ciência histórica ao serviço de uma guerra cultural anti-católica.
Sobre a fraude titânica
Jesus' Family Tomb Discovery is a Titanic Fraud
"Titanic" director James Cameron and Canadian TV-director Simcha Jacobovici are claiming they have evidence of a Jerusalem tomb that allegedly houses the remains of Jesus and his family. However the foremost archaeologists in Israel have slammed the claims as totally without foundation.(negrito meu)
Israeli archeologist Amos Kloner, who was in charge of the 1980 investigation of the tomb which is the subject of the new claims by Cameron-Jacobovici, said "The claim that the burial site has been found is not based on any proof, and is only an attempt to sell." Kloner added, "I refute all claims and efforts to waken a renewed interest in the findings. With all due respect, they are not archeologists." Kloner said that while "it makes a great story for a TV film," there is "no likelihood" that Jesus and his relatives had a family tomb, and dismissed the claims as "impossible" and "nonsense."
(...)
Archeologist Joe Zias, who spent a quarter-century at the Rockefeller University in Jerusalem, said "Simcha has no credibility whatsoever."
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
Mini-glossário para o site "Jesus Family Tomb"
Está tudo muito agitado com este site, acerca do recente documentário de James Cameron:
Jesus Family Tomb
Deixemos Tim McGirk, do blogue "Middle East" da revista Time, explicar-nos o que é que se passa:
«Brace yourself. James Cameron, the man who brought you 'The Titanic' is back with another blockbuster. This time, the ship he's sinking is Christianity.
In a new documentary, Producer Cameron and his director, Simcha Jacobovici, make the starting claim that Jesus wasn't resurrected --the cornerstone of Christian faith-- and that his burial cave was discovered near Jerusalem. And, get this, Jesus sired a son with Mary Magdelene.
No, it's not a re-make of "The Da Vinci Codes'. It's supposed to be true.», Tales from the Crypt, 23 de Fevereiro de 2007.
Neste momento, e como é costume, o post de Tim McGirk acerca desta matéria já tem 3159 comentários. Como também é costume, quase todos estes comentários são perfeitos exemplos do enorme poder da Internet para dar voz aos ignorantes.
Para quem está curioso acerca deste novo documentário, nada como ir ao site original dos produtores, clicando no endereço dado acima. Segue-se um mini-glossário para orientação, visto que o jargão técnico usado no mesmo necessita de uma tradução mínima para evitar equívocos.
New Discoveries
Expressão usada para designar descobertas novas para James Cameron e para a sua equipa, velhas (feitas há 27 anos) para uma série de arqueólogos israelitas e de outras partes do globo
Alternative Theories
Leia-se: "Pseudo-história"
The Experts
Leia-se: "Os do costume"
Professor... Scholar... Expert...
Termos usados para designar os colaboradores desta obra de ficção realizada por James Cameron
Essential Facts
Secção criada para introduzir ideias erradas em mentes incultas, sob o disfarce dos métodos tradicionais de "divulgação popular"
Dan Brown
Nome de um dos historiadores de referência neste documentário
Back to Basics
Secção típica de uma triste atitude comum a alguns norte-americanos com espírito prosélito: a hipersimplificação mutiladora de uma realidade complexa
Early Christianity
A cristandade dos primeiros tempos magistralmente sintetizada em três parágrafos
Roman Empire
O Império Romano magistralmente sintetizado em quatro parágrafos
Jewish History
A História Judaica magistralmente sintetizada em três parágrafos
Evidence
Termo usado para designar manipulação de informação
Secret Symbols
Capítulo que não se percebe para que serve
Origins of Freemasonry
Tendo a Maçonaria surgido oficialmente em 1717, não se percebe o que terá a ver com isto, a não ser que o objectivo seja o de promover a antiguidade da Maçonaria
The Holy Bloodline
Sendo uma criação literária de Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, e datando do final dos anos setenta, não se percebe o que terá a ver com isto
The Knights Templar
Sendo uma ordem militar criada no século XII e extinta no século XIV, não se percebe o que terá a ver com isto
Secret Societies
Outro capítulo sobre temas que não têm nada a ver com isto: Illuminati, Skull & Bones, Maçonaria, Rosa-Cruzes - é indesculpável que se tenham esquecido da teoria de que Jesus era um extra-terrestre
Glossary
Tabela de asneiras
Theological Considerations
Considerações humorísticas sobre Teologia feitas pela equipa que produziu o documentário
Sossegue-se o crente mais assustado. Isto não passa de boa ficção!
Esta ficção vem na esteira de um caminho bem preparado e bem urdido.
1982 - Holy Blood, Holy Grail (Lincoln, Baigent e Leigh): teoria da "linhagem sagrada"
1994 - Turin Shroud (Lynn Picknett e Clive Prince): fantasias acerca do Sudário de Turim
1996 - The Tomb of God (Richard Andrews, Paul Schellenberger): Jesus estaria enterrado em Rennes-le-Château (França)
2003 - The Da Vinci Code (Dan Brown): romance lido por muitos como obra histórica, relançou a fantasia da "linhagem sagrada"
2006 - Evangelho de Judas: mais uma peça no puzzle anti-cristão moderno, desta vez patrocinada pela National Geographic Society
2007 - The Lost Tomb of Jesus (James Cameron, Simcha Jacobovici): o filme/documentário anti-cristão do ano
Estes são apenas alguns dos muitos (imensos) marcos nesta caminhada pelo surreal anti-cristianismo pós-moderno, o último dos preconceitos tolerados e promovidos nos nossos dias. O que tem isto a ver com Ciência? Com História?
Rigorosamente nada.
Jesus Family Tomb
Deixemos Tim McGirk, do blogue "Middle East" da revista Time, explicar-nos o que é que se passa:
«Brace yourself. James Cameron, the man who brought you 'The Titanic' is back with another blockbuster. This time, the ship he's sinking is Christianity.
In a new documentary, Producer Cameron and his director, Simcha Jacobovici, make the starting claim that Jesus wasn't resurrected --the cornerstone of Christian faith-- and that his burial cave was discovered near Jerusalem. And, get this, Jesus sired a son with Mary Magdelene.
No, it's not a re-make of "The Da Vinci Codes'. It's supposed to be true.», Tales from the Crypt, 23 de Fevereiro de 2007.
Neste momento, e como é costume, o post de Tim McGirk acerca desta matéria já tem 3159 comentários. Como também é costume, quase todos estes comentários são perfeitos exemplos do enorme poder da Internet para dar voz aos ignorantes.
Para quem está curioso acerca deste novo documentário, nada como ir ao site original dos produtores, clicando no endereço dado acima. Segue-se um mini-glossário para orientação, visto que o jargão técnico usado no mesmo necessita de uma tradução mínima para evitar equívocos.
New Discoveries
Expressão usada para designar descobertas novas para James Cameron e para a sua equipa, velhas (feitas há 27 anos) para uma série de arqueólogos israelitas e de outras partes do globo
Alternative Theories
Leia-se: "Pseudo-história"
The Experts
Leia-se: "Os do costume"
Professor... Scholar... Expert...
Termos usados para designar os colaboradores desta obra de ficção realizada por James Cameron
Essential Facts
Secção criada para introduzir ideias erradas em mentes incultas, sob o disfarce dos métodos tradicionais de "divulgação popular"
Dan Brown
Nome de um dos historiadores de referência neste documentário
Back to Basics
Secção típica de uma triste atitude comum a alguns norte-americanos com espírito prosélito: a hipersimplificação mutiladora de uma realidade complexa
Early Christianity
A cristandade dos primeiros tempos magistralmente sintetizada em três parágrafos
Roman Empire
O Império Romano magistralmente sintetizado em quatro parágrafos
Jewish History
A História Judaica magistralmente sintetizada em três parágrafos
Evidence
Termo usado para designar manipulação de informação
Secret Symbols
Capítulo que não se percebe para que serve
Origins of Freemasonry
Tendo a Maçonaria surgido oficialmente em 1717, não se percebe o que terá a ver com isto, a não ser que o objectivo seja o de promover a antiguidade da Maçonaria
The Holy Bloodline
Sendo uma criação literária de Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, e datando do final dos anos setenta, não se percebe o que terá a ver com isto
The Knights Templar
Sendo uma ordem militar criada no século XII e extinta no século XIV, não se percebe o que terá a ver com isto
Secret Societies
Outro capítulo sobre temas que não têm nada a ver com isto: Illuminati, Skull & Bones, Maçonaria, Rosa-Cruzes - é indesculpável que se tenham esquecido da teoria de que Jesus era um extra-terrestre
Glossary
Tabela de asneiras
Theological Considerations
Considerações humorísticas sobre Teologia feitas pela equipa que produziu o documentário
Sossegue-se o crente mais assustado. Isto não passa de boa ficção!
Esta ficção vem na esteira de um caminho bem preparado e bem urdido.
1982 - Holy Blood, Holy Grail (Lincoln, Baigent e Leigh): teoria da "linhagem sagrada"
1994 - Turin Shroud (Lynn Picknett e Clive Prince): fantasias acerca do Sudário de Turim
1996 - The Tomb of God (Richard Andrews, Paul Schellenberger): Jesus estaria enterrado em Rennes-le-Château (França)
2003 - The Da Vinci Code (Dan Brown): romance lido por muitos como obra histórica, relançou a fantasia da "linhagem sagrada"
2006 - Evangelho de Judas: mais uma peça no puzzle anti-cristão moderno, desta vez patrocinada pela National Geographic Society
2007 - The Lost Tomb of Jesus (James Cameron, Simcha Jacobovici): o filme/documentário anti-cristão do ano
Estes são apenas alguns dos muitos (imensos) marcos nesta caminhada pelo surreal anti-cristianismo pós-moderno, o último dos preconceitos tolerados e promovidos nos nossos dias. O que tem isto a ver com Ciência? Com História?
Rigorosamente nada.
Mentir é feio (sobre a Taxa Camarae)

Pepe Rodríguez, o famoso mitómano anti-católico espanhol, é um dos ídolos no blogue Diário Ateísta. Possivelmente por falta de melhor tema, Carlos Esperança vai trazendo de novo à baila autores e livros que, de meses a meses, ele repesca para tentar criar uma aura de "actualidade" neste moribundo blogue.
Nada tenho contra a bajulação que ali é feita à pessoa desse mentiroso compulsivo que é Pepe Rodríguez, não fosse pelo facto de que, aparentemente, Carlos Esperança o leva a sério, pensando que a obra de Rodríguez, com o título académico de "Mentiras Fundamentais da Igreja Católica", tem alguma coisa a ver com História.
A obra de Rodríguez nem sequer é uma obra "de polémica".
É, pura e simplesmente, uma obra de mentira.
Carlos Esperança reproduz, para nosso gáudio, uma das páginas (infelizmente pouco absorventes, senão teriam outro uso) dessa magnum opus historiográfica do nosso caro Pepe:

A burla em questão é uma das mais famosas burlas anti-católicas, daquelas burlas que, de tempos a tempos, e ao longo dos séculos, são desenterradas. É que a memória popular é fraca, a cultura escasseia, e pelo sim pelo não, há que desenterrar estas criações fantasiosas para manter o ódio vivo.
A Taxa Camarae é um belo texto falsificado, atribuido ao Papa Leão X, que conteria os preços a pagar pela expiação dos mais variados e perversos (para ter mais piada) pecados. A lista em questão é particularmente exuberante e divertida pelos pormenores lúbricos e "picantes" que o seu autor escolheu para embelezar este suposto "documento papal".
Excepto quando se está contaminado intelectualmente pelo mais primário e redutor preconceito anti-católico, qualquer leitor normal, pelo simples contacto ocular com o texto de Pepe, fica com a impressão de que está a ser burlado. Fará aquilo algum sentido? Parece um texto que um Papa subscreveria?
O que é curioso, nessa magistral obra que é o "Mentiras Fundamentais", é que o pobre Pepe não consegue reproduzir ou identificar a dita Bula Papal, ou qualquer texto com a assinatura de Leão X, que possa, de alguma forma minúscula que seja, apoiar a pretensão de autenticidade desta famosa falsificação.
Então, no fim de contas, Pepe nunca pôs os olhos em tal documento?
Pepe não tem uma cópia? Uma copiazinha que seja? Uma mesmo jeitosa, com a assinatura e o selo papal de Leão X?
Ou pelo menos, uma daquelas cópias gastas, com a assinatura já ilegível? Nem isso?
Então, mas sem isso, esta treta da Taxa Camarae vale de pouco, não é?
Mais ou menos...
Para o público leitor frequente do Diário Ateísta, pouco dado a outras leituras que não Pepe Rodríguez, aquilo vale ouro.
Quem quiser ficar a saber mais sobre a farsa da Taxa Camarae tem muito por onde procurar.
Uma sugestão óbvia seria este site.
Para quem quiser seguir esta saga mais de perto, o nosso Pepe tem um site, no qual, curiosamente, dá mais informações do que as que surgem no livro:
«Advertencia al lector: la autenticidad de este documento ha sido cuestionada y debe ser reputado como dudoso hasta que no se documente fehacientemente su posible veracidad o falsedad. De ser una falsificación, quizá sería contemporánea de León X o algo posterior.»
Pena que esta frase não estivesse no início da "reprodução" da dita Taxa Camarae no seu livrito... Mas nada como ler as explicações (desculpas) dadas por Pepe no seu site. É a conversa do costume: sacerdotes anónimos, que lhe entregam fotocópias anónimas de documentos anónimos... Histórias de espiões, de princesas e dragões, "teólogos" e "historiadores" que dariam o aval ao documento, mas cujos nomes Pepe acha melhor não citar... Enfim, pura História!
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Destruir o mito do Progresso...
... seria tão fácil se todos tivessemos a concisão de um Chesterton!
"Progress is a comparative of which we have not settled the superlative." - Chapter 2, Heretics, 1905
"Progress should mean that we are always changing the world to fit the vision, instead we are always changing the vision." - Orthodoxy, 1908
"My attitude toward progress has passed from antagonism to boredom. I have long ceased to argue with people who prefer Thursday to Wednesday because it is Thursday." - New York Times Magazine, 2/11/23
"Men invent new ideals because they dare not attempt old ideals. They look forward with enthusiasm, because they are afraid to look back." - What's Wrong With The World, 1910
"Tradition means giving votes to the most obscure of all classes, our ancestors. It is the democracy of the dead. Tradition refuses to submit to that arrogant oligarchy who merely happen to be walking around." - Orthodoxy, 1908
"The modern world is a crowd of very rapid racing cars all brought to a standstill and stuck in a block of traffic." - ILN, 5/29/26
A ler: um poço de citações valiosas. Algumas são mesmo das melhores definições do verdadeiro tradicionalismo. Definir o tradicionalismo como a "democracia dos mortos", contra a arrogante oligarquia dos que "andam por aí" é fenomenal! Mas a citação que destaquei com negrito é aquela com a qual, verdadeiramente, me identifico. O verdadeiro progresso deve ser conseguido com o esforço de tentar mudar o que está mal no Mundo, tendo sempre em vista uma visão correcta (ortodoxa) não só do real, mas sobretudo do que seria o mundo ideal.
Mudar a visão, só por mudar, só para "parecer moderno", apenas agrava o problema. O mundo moderno, não só é o resultado caótico de milhares de mudanças de visão, com tudo o que isso tem de caos e de desorientação, como todas as visões alternativas que se criaram nos últimos séculos têm demonstrado estar erradas, umas a seguir às outras...
"Progress is a comparative of which we have not settled the superlative." - Chapter 2, Heretics, 1905
"Progress should mean that we are always changing the world to fit the vision, instead we are always changing the vision." - Orthodoxy, 1908
"My attitude toward progress has passed from antagonism to boredom. I have long ceased to argue with people who prefer Thursday to Wednesday because it is Thursday." - New York Times Magazine, 2/11/23
"Men invent new ideals because they dare not attempt old ideals. They look forward with enthusiasm, because they are afraid to look back." - What's Wrong With The World, 1910
"Tradition means giving votes to the most obscure of all classes, our ancestors. It is the democracy of the dead. Tradition refuses to submit to that arrogant oligarchy who merely happen to be walking around." - Orthodoxy, 1908
"The modern world is a crowd of very rapid racing cars all brought to a standstill and stuck in a block of traffic." - ILN, 5/29/26
A ler: um poço de citações valiosas. Algumas são mesmo das melhores definições do verdadeiro tradicionalismo. Definir o tradicionalismo como a "democracia dos mortos", contra a arrogante oligarquia dos que "andam por aí" é fenomenal! Mas a citação que destaquei com negrito é aquela com a qual, verdadeiramente, me identifico. O verdadeiro progresso deve ser conseguido com o esforço de tentar mudar o que está mal no Mundo, tendo sempre em vista uma visão correcta (ortodoxa) não só do real, mas sobretudo do que seria o mundo ideal.
Mudar a visão, só por mudar, só para "parecer moderno", apenas agrava o problema. O mundo moderno, não só é o resultado caótico de milhares de mudanças de visão, com tudo o que isso tem de caos e de desorientação, como todas as visões alternativas que se criaram nos últimos séculos têm demonstrado estar erradas, umas a seguir às outras...
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Ortodoxia
«Nothing more strangely indicates an enormous and silent evil of modern society than the extraordinary use which is made nowadays of the word "orthodox." In former days the heretic was proud of not being a heretic. It was the kingdoms of the world and the police and the judges who were heretics. He was orthodox. He had no pride in having rebelled against them; they had rebelled against him. The armies with their cruel security, the kings with their cold faces, the decorous processes of State, the reasonable processes of law--all these like sheep had gone astray. The man was proud of being orthodox, was proud of being right. If he stood alone in a howling wilderness he was more than a man; he was a church. He was the centre of the universe; it was round him that the stars swung. All the tortures torn out of forgotten hells could not make him admit that he was heretical. But a few modern phrases have made him boast of it. He says, with a conscious laugh, "I suppose I am very heretical," and looks round for applause. The word "heresy" not only means no longer being wrong; it practically means being clear-headed and courageous. The word "orthodoxy" not only no longer means being right; it practically means being wrong. All this can mean one thing, and one thing only. It means that people care less for whether they are philosophically right. For obviously a man ought to confess himself crazy before he confesses himself heretical. The Bohemian, with a red tie, ought to pique himself on his orthodoxy. The dynamiter, laying a bomb, ought to feel that, whatever else he is, at least he is orthodox.» - Gilbert K. Chesterton (1908), Heretics, cap. I.
O mundo seria melhor se todos tivessemos uma obra de Chesterton à cabeceira.
É, de facto, muito estranho que termos como "ortodoxia" e "heresia", nos dias que correm, tenham passado para o outro lado do juízo moral.
Continuamos hoje, e continuaremos sempre, a fazer juízos morais acerca destes termos, como acerca de outros, é certo.
No passado, ser "ortodoxo" era bom, era estar certo. Ser "herético" era mau: era estar errado. Nem o herético se via ao espelho como herético! Ele via-se como ortodoxo, considerando que todos os outros eram hereges!
Hoje em dia, sucede precisamente o oposto.
Como diz Chesterton, o herege afirma alto e em bom som a sua heresia, com orgulho, e olha à volta à espera de aplausos da audiência.
O que explica esta inversão total no significado das palavras?
O que explica esta inversão total na aprovação e reprovação popular destes termos?
Só mesmo uma inversão total da intelectualidade.
Fico sempre perplexo quando vejo tantos discordarem do facto de que o mundo moderno está intelectualmente moribundo.
Isso, para mim, é clarividente: estamos a usar as palavras ao contrário, não só estas mas muitas outras, e estamos a dar-lhes juízos morais opostos aos que deveríamos dar.
Sem a vitória do relativismo intelectual, não haveria espaço para este tremendo erro que consiste em negarmos a crise intelectual dos nossos tempos. É, precisamente, porque hoje em dia as opiniões se equivalem (as do ignorante pesam tanto como as do sábio), porque já não há absolutos, porque a verdade morreu aos olhos do Mundo, porque cada um tem "a sua Verdade", que já ninguém se dá conta de que a intelectualidade está às portas da morte.
O mundo seria melhor se todos tivessemos uma obra de Chesterton à cabeceira.
É, de facto, muito estranho que termos como "ortodoxia" e "heresia", nos dias que correm, tenham passado para o outro lado do juízo moral.
Continuamos hoje, e continuaremos sempre, a fazer juízos morais acerca destes termos, como acerca de outros, é certo.
No passado, ser "ortodoxo" era bom, era estar certo. Ser "herético" era mau: era estar errado. Nem o herético se via ao espelho como herético! Ele via-se como ortodoxo, considerando que todos os outros eram hereges!
Hoje em dia, sucede precisamente o oposto.
Como diz Chesterton, o herege afirma alto e em bom som a sua heresia, com orgulho, e olha à volta à espera de aplausos da audiência.
O que explica esta inversão total no significado das palavras?
O que explica esta inversão total na aprovação e reprovação popular destes termos?
Só mesmo uma inversão total da intelectualidade.
Fico sempre perplexo quando vejo tantos discordarem do facto de que o mundo moderno está intelectualmente moribundo.
Isso, para mim, é clarividente: estamos a usar as palavras ao contrário, não só estas mas muitas outras, e estamos a dar-lhes juízos morais opostos aos que deveríamos dar.
Sem a vitória do relativismo intelectual, não haveria espaço para este tremendo erro que consiste em negarmos a crise intelectual dos nossos tempos. É, precisamente, porque hoje em dia as opiniões se equivalem (as do ignorante pesam tanto como as do sábio), porque já não há absolutos, porque a verdade morreu aos olhos do Mundo, porque cada um tem "a sua Verdade", que já ninguém se dá conta de que a intelectualidade está às portas da morte.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
William Coulson tem uma história para contar...
Vale a pena ler com toda a atenção...
O tema nunca foi tão actual e abrangente.
Meet Dr. Bill Coulson
«Thoughts from the man who, together with Carl Rogers, pioneered the practice of "encounter groups."»
O tema nunca foi tão actual e abrangente.
Meet Dr. Bill Coulson
«Thoughts from the man who, together with Carl Rogers, pioneered the practice of "encounter groups."»
A guerra pró-aborto ainda mal começou...
É sempre interessante despender alguns segundos com o Google à procura na Internet de novidades em relação a acções da International Planned Parenthood Federation, e das suas associadas em cada país.
Na Eslováquia, a sucursal local desta multi-nacional pró-aborto está muito enervada com as objecções de consciência. Estar atento à estratégia internacional da IPPF é, de algum modo, assistir através de uma janela temporal àquilo que será o nosso futuro.
Sucede que a Eslováquia tem uma Concordata com a Santa Sé. Como Portugal também tem.
E que, recentemente, a Santa Sé e a Eslováquia têm caminhado no sentido de assinar conjuntamente um tratado que proteja a liberdade de consciência dos médicos católicos e dos estabelecimentos de saúde católicos. Leia-se aqui o esboço do texto.
O tratado não pode ser mais sensato: visto que, para a Igreja Católica (e para qualquer pessoa que queira pensar) o aborto mata, é normal que os católicos possam usar da objecção de consciência para não serem forçados a fazer algo que consideram eticamente inaceitável.
Pelos vistos, para a eslovaca Associação de Planeamento Familiar, as coisas não são bem assim. Num documento disponível on-line, encontramos este belo discurso destes promotores das liberdades reprodutivas:
«Since Slovakia joined the European Union in 2004, the expectation toward a positive influence on the strengthening of the human rights and gender equality has been very high. Those expectation were not fulfilled, visa versa, the efforts of the conservative political forces to limit reproductive rights in Slovakia continued in 2005 with full strange. The main political and ideological issue was the draft on the Treaty on the Right to Exercise the Objection of Conscience with the Holy See. If approved, the treaty would gain the status of an “international human rights treaty” and will take precedence over current Slovak law. The Treaty on conscience objection, the first in the history of concordats, has the purpose to protect the “free and unlimited” exercise of the conscientious objection based on Catholic teachings of faith in the area of reproductive healthcare, education, employment, legal and military services. Such action would be in breach of Slovakia’s own Constitution, in breach of the Charter of Fundamental Rights of the European Union, and in breach of international human rights treaties, including the Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women (CEDAW). The proposed regulation of the conscientious objection is also in a strong opposition with recommendation on reproductive healthcare policy endorsed by the European Union. A legal panel of human rights experts appointed by the European Commission has analysed the draft treaty and agreed, that it could restrict access to sensitive medical treatment such as abortions and in-vitro fertilization. The lawyers warned that the treaty could place Slovakia in breach of its obligations as a member of the EU and UN.» (negrito meu)
É que muitos ainda não se deram conta de que está em marcha, e há décadas, uma guerra à escala global para impor o aborto como um direito reprodutivo. Aqui em Portugal, na ressaca da recente vitória do aborto legal a 11 de Fevereiro, ainda estamos todos na fase do discurso "soft" do respeito pelas liberdades de consciência dos médicos e da generalidade do pessoal médico. Várias clínicas privadas no nosso país já se manifestaram objectoras de consciência, afirmando que não matarão nas suas instalações. E quando a nossa APF acordar? Aliás, ela não estará, certamente, a dormir nesta matéria.
O caso da Eslováquia mostra bem até onde estas organizações pretendem "esticar a corda" no que toca ao enforcamento das liberdades e direitos do indivíduo. O primeiro passo foi o de promover o fim do direito à vida ao embrião, até certa idade. Vitória ganha. Agora, enfrentam a dificuldade de ter que forçar à prática do aborto os médicos e enfermeiros objectores de consciência, e as clínicas e hospitais que não queiram, legitimamente, ser obrigados a matar.
O direito à objecção de consciência deveria estar acima de tudo, certo? A APF eslovaca discorda: diz que tal direito está a violar tratados internacionais e a comprometer o papel da Eslováquia na União Europeia!
Bela distorção das realidades...
Quem lê o texto acima, fica com a impressão de que há algo de ilegal com o uso "livre e ilimitado" (notem-se as aspas usadas no texto original) da objecção de consciência. Parece que a invasão da consciência alheia, e a compulsão à prática de um acto repulsivo para a consciência de qualquer médico bem formado, constituem a última fronteira a violar, por parte destes defensores dos "direitos reprodutivos" das mulheres.
Isto vai também chegar cá. É só uma questão de tempo até que surjam "quotas máximas" de objecção de consciência, e outros abusos do género. Quando isso acontecer, porque vai acontecer, espero que os profissionais de saúde se mostrem à altura do desafio. Quem achar que isto não vai acontecer em Portugal, ainda desconhece a forma eficaz, organizada e incansável como a IPPF se articula com as várias APFs de cada país para implementar uma estratégia promotora do aborto à escala mundial...
Na Eslováquia, a sucursal local desta multi-nacional pró-aborto está muito enervada com as objecções de consciência. Estar atento à estratégia internacional da IPPF é, de algum modo, assistir através de uma janela temporal àquilo que será o nosso futuro.
Sucede que a Eslováquia tem uma Concordata com a Santa Sé. Como Portugal também tem.
E que, recentemente, a Santa Sé e a Eslováquia têm caminhado no sentido de assinar conjuntamente um tratado que proteja a liberdade de consciência dos médicos católicos e dos estabelecimentos de saúde católicos. Leia-se aqui o esboço do texto.
O tratado não pode ser mais sensato: visto que, para a Igreja Católica (e para qualquer pessoa que queira pensar) o aborto mata, é normal que os católicos possam usar da objecção de consciência para não serem forçados a fazer algo que consideram eticamente inaceitável.
Pelos vistos, para a eslovaca Associação de Planeamento Familiar, as coisas não são bem assim. Num documento disponível on-line, encontramos este belo discurso destes promotores das liberdades reprodutivas:
«Since Slovakia joined the European Union in 2004, the expectation toward a positive influence on the strengthening of the human rights and gender equality has been very high. Those expectation were not fulfilled, visa versa, the efforts of the conservative political forces to limit reproductive rights in Slovakia continued in 2005 with full strange. The main political and ideological issue was the draft on the Treaty on the Right to Exercise the Objection of Conscience with the Holy See. If approved, the treaty would gain the status of an “international human rights treaty” and will take precedence over current Slovak law. The Treaty on conscience objection, the first in the history of concordats, has the purpose to protect the “free and unlimited” exercise of the conscientious objection based on Catholic teachings of faith in the area of reproductive healthcare, education, employment, legal and military services. Such action would be in breach of Slovakia’s own Constitution, in breach of the Charter of Fundamental Rights of the European Union, and in breach of international human rights treaties, including the Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women (CEDAW). The proposed regulation of the conscientious objection is also in a strong opposition with recommendation on reproductive healthcare policy endorsed by the European Union. A legal panel of human rights experts appointed by the European Commission has analysed the draft treaty and agreed, that it could restrict access to sensitive medical treatment such as abortions and in-vitro fertilization. The lawyers warned that the treaty could place Slovakia in breach of its obligations as a member of the EU and UN.» (negrito meu)
É que muitos ainda não se deram conta de que está em marcha, e há décadas, uma guerra à escala global para impor o aborto como um direito reprodutivo. Aqui em Portugal, na ressaca da recente vitória do aborto legal a 11 de Fevereiro, ainda estamos todos na fase do discurso "soft" do respeito pelas liberdades de consciência dos médicos e da generalidade do pessoal médico. Várias clínicas privadas no nosso país já se manifestaram objectoras de consciência, afirmando que não matarão nas suas instalações. E quando a nossa APF acordar? Aliás, ela não estará, certamente, a dormir nesta matéria.
O caso da Eslováquia mostra bem até onde estas organizações pretendem "esticar a corda" no que toca ao enforcamento das liberdades e direitos do indivíduo. O primeiro passo foi o de promover o fim do direito à vida ao embrião, até certa idade. Vitória ganha. Agora, enfrentam a dificuldade de ter que forçar à prática do aborto os médicos e enfermeiros objectores de consciência, e as clínicas e hospitais que não queiram, legitimamente, ser obrigados a matar.
O direito à objecção de consciência deveria estar acima de tudo, certo? A APF eslovaca discorda: diz que tal direito está a violar tratados internacionais e a comprometer o papel da Eslováquia na União Europeia!
Bela distorção das realidades...
Quem lê o texto acima, fica com a impressão de que há algo de ilegal com o uso "livre e ilimitado" (notem-se as aspas usadas no texto original) da objecção de consciência. Parece que a invasão da consciência alheia, e a compulsão à prática de um acto repulsivo para a consciência de qualquer médico bem formado, constituem a última fronteira a violar, por parte destes defensores dos "direitos reprodutivos" das mulheres.
Isto vai também chegar cá. É só uma questão de tempo até que surjam "quotas máximas" de objecção de consciência, e outros abusos do género. Quando isso acontecer, porque vai acontecer, espero que os profissionais de saúde se mostrem à altura do desafio. Quem achar que isto não vai acontecer em Portugal, ainda desconhece a forma eficaz, organizada e incansável como a IPPF se articula com as várias APFs de cada país para implementar uma estratégia promotora do aborto à escala mundial...
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Um mundo sem alicerces
O artigo de João César das Neves, A enorme derrota da Igreja, publicado no Diário de Notícias no passado dia 19 de Fevereiro, vai de encontro àquela que julgo ser a posição essencial na defesa de questões fundamentais como a do aborto.
Quando se está certo, e a Igreja Católica, juntamente com todos os crentes e não crentes que votaram "não", estavam e estão certos, não se pode abdicar dessa posição de vantagem intelectual, em nome de uma falsa "conciliação" com quem errou (e ganhou), ou em nome de um falso populismo político.
Errar e ganhar são coisas perfeitamente compatíveis.
O "Sim" ganhou no dia 11, mas errou.
Por outro lado, e por simples lógica, o "não" perdeu mas acertou (já estava certo à partida).
Regressamos sempre ao relativismo: quem não sabe em que é que acredita, e que ideias defende, voga sempre ao sabor das marés, das modas, das estratégias políticas, das pequenas e medíocres guerrinhas ideológicas, e perde a sua identidade.
Há que recordar a razão de ser deste referendo: sucedeu que sete magistrados do Tribunal Constitucional votaram a favor da pergunta, contra seis, do dia 15 de Novembro de 2006, dia de triste memória. A vantagem de apenas um voto deveria ter sido claro sinal de que algo estava mal com este referendo. É, no mínimo, legítimo perguntar se a pergunta era ou não constitucional, uma vez que a resposta dada pelo Tribunal Constitucional saiu com apenas um voto de vantagem. Faz-nos supor que outra composição do colectivo poderia ter produzido uma resposta de sinal oposto, e zás! Não havia referendo para ninguém, por violação do Artigo 24º da Constituição (o tal da "inviolabilidade da vida humana")!
Os senhores magistrados que, eticamente confusos, aprovaram esta pergunta são um perfeito exemplo da realidade de uma anomalia intelectual na nossa "moderna" civilização.
Quem leu bem o texto do Acórdão n.º 617/2006, notou que se fala em John Rawls (1921-2002) como quem apela para um nome sonante para defender uma posição indefensável. Esse campeão norte-americano do relativismo ético moderno, John Rawls, defendia que, numa sociedade na qual convivem duas éticas diferentes (a deontológica clássica e a "moderna" utilitarista, por exemplo), a política deveria estar baseada numa estrutura liberal que permitisse a sua coexistência, numa óptica ao estilo de "máximo divisor comum".
Os senhores magistrados não podiam estar mais de acordo com o senhor Rawls:
«8. A reflexão sobre valores numa sociedade democrática, pluralista e de matriz liberal quanto aos direitos fundamentais tem sido objecto privilegiado do pensamento filosófico contemporâneo. Tal reflexão exprime-se na ideia de um “consenso de sobreposição” (overlapping consensus) desenvolvida por JOHN RAWLS, em Political Liberalism, 1993, p. 133 e ss.. O autor concebe a possibilidade de um consenso sobre valores políticos, como o respeito mútuo ou a liberdade, sem o sacrifício de valores mais abrangentes e de visões particulares, mas a partir da diversidade dos valores. Por exemplo, diferentes concepções religiosas podem confluir, sem abandonar a respectiva matriz, num núcleo de valores estritamente políticos.» (negrito meu)
É curioso que a defesa do direito à vida era algo de inegociável há poucos séculos atrás, em pleno Iluminismo. Na altura, tanto ateus como crentes teriam este ponto em comum. Um ateu clássico, não niilista nem anarquista, em pleno século XIX, não abdicaria de defender o direito à vida, e ficaria chocado se esse direito surgisse associado em regime de exclusividade à Religião. Alguns poucos ateus, ainda esclarecidos em plenas trevas modernas, sairam nesta campanha em defesa corajosa do "não" ateu ao aborto livre.
Estes poucos, mas lúcidos, ateus demonstraram uma maior cultura iluminista e racionalista que os distintos senhores magistrados que votaram a favor da pergunta do referendo, mostrando-se como fiéis "discípulos" de Rawls.
É em tempos destes que as palavras sábias de René Guénon (1886-1951) ganham sempre nova luz:
«A civilização moderna aparece na História como uma verdadeira anomalia: de todas as que conhecemos, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, a única também que não se apoia em nenhum princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material, que continua há vários séculos e que se acelera cada vez mais, foi acompanhado por uma regressão intelectual, que esse desenvolvimento foi incapaz de compensar. Trata-se, entenda-se bem, da verdadeira e pura intelectualidade, que poderíamos igualmente chamar de espiritualidade, e recusamo-nos a dar tal nome àquilo a que os modernos se têm sobretudo aplicado: o cultivo das ciências experimentais com vista às aplicações práticas a que elas podem dar lugar.» - Regnabit, Junho de 1926, título original do artigo, La Réforme de la mentalité moderne, incorporado na obra Symboles de la Science Sacrée, cap. I.
Este desenvolvimento "puramente material" de que fala Guénon constata-se facilmente na popularidade que alcançaram obras filosóficas como as de John Rawls, e na forma como são usadas, um pouco por todo o confuso mundo ocidental, para "desconstruir" a Ética clássica, para dar umas belas machadadas aos alicerces civilizacionais reconhecidos pelo mundo saído do Iluminismo, que ao seu tempo, ainda concebia uma Ética universal como base indispensável de uma sociedade justa.
É certo que, filosoficamente, o materialismo moderno nasce com Descartes (1596-1650). Mas, nos séculos que se sucederam à transformação cartesiana da Filosofia, a maioria dos adeptos destas ideias novas não abdicava de clamar por uma Ética universal, fraterna e igualitária. Ainda não eram puros materialistas!
Nos nossos tristes tempos, entusiasmados como estamos pela concepção animalesca que fazemos de nós mesmos (meros "homens-máquinas", "homens-animais"), bela herança de Darwin e de Freud, de que servirá ainda a Ética iluminista? De que servirá apelar a "princípios éticos universais" como o do direito a viver?
Hoje em dia, quantos filósofos ateus ainda acreditam na existência destes princípios?
E, em bom rigor, o que é mais chocante, quantos filósofos cristãos contemporâneos ainda acreditam neles?
A afirmação final do materialismo está, finalmente, a chegar. O caminho foi preparado pelos filósofos utilitaristas de matriz cultural anglo-saxónica (pouco dada à Metafísica), que defendem uma pseudo-Ética, melhor dizendo, uma anti-Ética, baseada nos "desejos" e na "maximização da felicidade" como regras de construção de uma "ética moderna". Peter Singer, defensor do infanticídio, é um desses filósofos que alcançaram, ainda em vida, enorme popularidade nos meios académicos do ensino da Filosofia.
Hoje em dia, em pleno Portugal do século XXI, magistrados ideologicamente motivados gostam de recorrer a esta "moderna" anti-Ética para fazer prevalecer, a pouco e pouco, os seus desejos sociais mais profundos, para muitos ainda radicados numa visão marxista da História, para eles "sempre em Progresso". Eles não têm, porventura, a noção de que fazem colapsar a Ética ao aprovar perguntas destas para referendo. Se eles não a têm, como há de a ter o povo ignorante que, sucumbido à argumentação demagógica e populista do PS, do BE e do PCP, votou mal no dia 11 de Fevereiro?
Quando se está certo, e a Igreja Católica, juntamente com todos os crentes e não crentes que votaram "não", estavam e estão certos, não se pode abdicar dessa posição de vantagem intelectual, em nome de uma falsa "conciliação" com quem errou (e ganhou), ou em nome de um falso populismo político.
Errar e ganhar são coisas perfeitamente compatíveis.
O "Sim" ganhou no dia 11, mas errou.
Por outro lado, e por simples lógica, o "não" perdeu mas acertou (já estava certo à partida).
Regressamos sempre ao relativismo: quem não sabe em que é que acredita, e que ideias defende, voga sempre ao sabor das marés, das modas, das estratégias políticas, das pequenas e medíocres guerrinhas ideológicas, e perde a sua identidade.
Há que recordar a razão de ser deste referendo: sucedeu que sete magistrados do Tribunal Constitucional votaram a favor da pergunta, contra seis, do dia 15 de Novembro de 2006, dia de triste memória. A vantagem de apenas um voto deveria ter sido claro sinal de que algo estava mal com este referendo. É, no mínimo, legítimo perguntar se a pergunta era ou não constitucional, uma vez que a resposta dada pelo Tribunal Constitucional saiu com apenas um voto de vantagem. Faz-nos supor que outra composição do colectivo poderia ter produzido uma resposta de sinal oposto, e zás! Não havia referendo para ninguém, por violação do Artigo 24º da Constituição (o tal da "inviolabilidade da vida humana")!
Os senhores magistrados que, eticamente confusos, aprovaram esta pergunta são um perfeito exemplo da realidade de uma anomalia intelectual na nossa "moderna" civilização.
Quem leu bem o texto do Acórdão n.º 617/2006, notou que se fala em John Rawls (1921-2002) como quem apela para um nome sonante para defender uma posição indefensável. Esse campeão norte-americano do relativismo ético moderno, John Rawls, defendia que, numa sociedade na qual convivem duas éticas diferentes (a deontológica clássica e a "moderna" utilitarista, por exemplo), a política deveria estar baseada numa estrutura liberal que permitisse a sua coexistência, numa óptica ao estilo de "máximo divisor comum".
Os senhores magistrados não podiam estar mais de acordo com o senhor Rawls:
«8. A reflexão sobre valores numa sociedade democrática, pluralista e de matriz liberal quanto aos direitos fundamentais tem sido objecto privilegiado do pensamento filosófico contemporâneo. Tal reflexão exprime-se na ideia de um “consenso de sobreposição” (overlapping consensus) desenvolvida por JOHN RAWLS, em Political Liberalism, 1993, p. 133 e ss.. O autor concebe a possibilidade de um consenso sobre valores políticos, como o respeito mútuo ou a liberdade, sem o sacrifício de valores mais abrangentes e de visões particulares, mas a partir da diversidade dos valores. Por exemplo, diferentes concepções religiosas podem confluir, sem abandonar a respectiva matriz, num núcleo de valores estritamente políticos.» (negrito meu)
É curioso que a defesa do direito à vida era algo de inegociável há poucos séculos atrás, em pleno Iluminismo. Na altura, tanto ateus como crentes teriam este ponto em comum. Um ateu clássico, não niilista nem anarquista, em pleno século XIX, não abdicaria de defender o direito à vida, e ficaria chocado se esse direito surgisse associado em regime de exclusividade à Religião. Alguns poucos ateus, ainda esclarecidos em plenas trevas modernas, sairam nesta campanha em defesa corajosa do "não" ateu ao aborto livre.
Estes poucos, mas lúcidos, ateus demonstraram uma maior cultura iluminista e racionalista que os distintos senhores magistrados que votaram a favor da pergunta do referendo, mostrando-se como fiéis "discípulos" de Rawls.
É em tempos destes que as palavras sábias de René Guénon (1886-1951) ganham sempre nova luz:
«A civilização moderna aparece na História como uma verdadeira anomalia: de todas as que conhecemos, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, a única também que não se apoia em nenhum princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material, que continua há vários séculos e que se acelera cada vez mais, foi acompanhado por uma regressão intelectual, que esse desenvolvimento foi incapaz de compensar. Trata-se, entenda-se bem, da verdadeira e pura intelectualidade, que poderíamos igualmente chamar de espiritualidade, e recusamo-nos a dar tal nome àquilo a que os modernos se têm sobretudo aplicado: o cultivo das ciências experimentais com vista às aplicações práticas a que elas podem dar lugar.» - Regnabit, Junho de 1926, título original do artigo, La Réforme de la mentalité moderne, incorporado na obra Symboles de la Science Sacrée, cap. I.
Este desenvolvimento "puramente material" de que fala Guénon constata-se facilmente na popularidade que alcançaram obras filosóficas como as de John Rawls, e na forma como são usadas, um pouco por todo o confuso mundo ocidental, para "desconstruir" a Ética clássica, para dar umas belas machadadas aos alicerces civilizacionais reconhecidos pelo mundo saído do Iluminismo, que ao seu tempo, ainda concebia uma Ética universal como base indispensável de uma sociedade justa.
É certo que, filosoficamente, o materialismo moderno nasce com Descartes (1596-1650). Mas, nos séculos que se sucederam à transformação cartesiana da Filosofia, a maioria dos adeptos destas ideias novas não abdicava de clamar por uma Ética universal, fraterna e igualitária. Ainda não eram puros materialistas!
Nos nossos tristes tempos, entusiasmados como estamos pela concepção animalesca que fazemos de nós mesmos (meros "homens-máquinas", "homens-animais"), bela herança de Darwin e de Freud, de que servirá ainda a Ética iluminista? De que servirá apelar a "princípios éticos universais" como o do direito a viver?
Hoje em dia, quantos filósofos ateus ainda acreditam na existência destes princípios?
E, em bom rigor, o que é mais chocante, quantos filósofos cristãos contemporâneos ainda acreditam neles?
A afirmação final do materialismo está, finalmente, a chegar. O caminho foi preparado pelos filósofos utilitaristas de matriz cultural anglo-saxónica (pouco dada à Metafísica), que defendem uma pseudo-Ética, melhor dizendo, uma anti-Ética, baseada nos "desejos" e na "maximização da felicidade" como regras de construção de uma "ética moderna". Peter Singer, defensor do infanticídio, é um desses filósofos que alcançaram, ainda em vida, enorme popularidade nos meios académicos do ensino da Filosofia.
Hoje em dia, em pleno Portugal do século XXI, magistrados ideologicamente motivados gostam de recorrer a esta "moderna" anti-Ética para fazer prevalecer, a pouco e pouco, os seus desejos sociais mais profundos, para muitos ainda radicados numa visão marxista da História, para eles "sempre em Progresso". Eles não têm, porventura, a noção de que fazem colapsar a Ética ao aprovar perguntas destas para referendo. Se eles não a têm, como há de a ter o povo ignorante que, sucumbido à argumentação demagógica e populista do PS, do BE e do PCP, votou mal no dia 11 de Fevereiro?
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