quinta-feira, 8 de março de 2007

Os surreais reais no país do aborto livre

Hoje, Dia da Mulher, a coisa propiciava uma série de disparates avulsos a propósito de aborto livre.

A professora Manuela Tavares, conhecida e antiga defensora daquela categoria lata de "direitos" das mulheres, falou hoje na rádio para afirmar que este Dia da Mulher, de 2007, era importante por coincidir com a aprovação parlamentar da nova lei do aborto.

Esta senhora, cujo esforço incansável pelos seus ideais (quase todos errados, por sinal) merece sempre respeito, defende, contudo, ideias erradas que não merecem respeito algum. Elogiando este novo "direito" a matar por parte das mulheres grávidas portuguesas, ela aproveitava para o colocar na linha de uma série de direitos conquistados a pulso. Já não me recordo das palavras exactas, mas no final da peça radiofónica afirmava que, hoje, ainda há pessoas que não aceitam que uma mulher possa ser competente para ocupar um alto cargo de chefia...

Eu ouvia isto, boquiaberto, consciente de que existiriam, infelizmente, poucos portugueses chocados como eu. O que é que tem a ver uma coisa com a outra? O direito a ocupar um cargo de chefia com o direito a matar um feto? Não contesto que uma mulher, demonstrando competência (como um homem), pode ocupar um lugar de chefia. Como contestar? Se um lugar de chefia, normalmente, deve pertencer a quem é competente, que interessa se tal competência vem no feminino ou no masculino?

Porque raio é que o aborto é ainda visto por tanta gente como um direito da mulher? Será apenas analfabetismo em matéria de Ética? Sim, esse analfabetismo existe, e é fácil de detectar. Muitos filósofos pró-escolha de referência aceitam que há, no aborto, um conflito de direitos: o direito da mulher ao seu corpo colide com o direito à vida do feto. Na generalidade, os filósofos pró-escolha, perante esse conflito, optam pela mulher, legitimando eticamente o aborto. Mas há filósofos que, perante esse conflito, não permitem à mulher matar.

Seja qual for a nossa posição no terreno da Ética, a verdade é que não se pode encarar o aborto como um puro direito da mulher, sob pena de reduzir o valor do direito à vida do feto a um redondo zero.

Porque é que a professora Manuela Tavares, com anos de experiência nestas lides, não parece ter pensado nisto nestes termos? Um recente artigo seu, tristemente intitulado Vencer o défice democrático para além dos "valores", pode apontar para uma explicação...

«Os partidos devem pronunciar-se sobre o défice democrático que representa o julgamento de mulheres por interromperem uma gravidez que não desejam. Ao tomarem esta decisão as mulheres estão a exercer um direito de cidadania que não pode ser negado- o da escolha de uma maternidade livre e consciente.»

Está comprovado. Não só a professora Manuela Tavares ignora completamente a existência ética do embrião/feto, como podemos ainda detectar um problema lógico nesta frase.

«escolha de uma maternidade»

Só que a maternidade apenas se escolhe antes de se ser mãe. Uma mulher que já é mãe não pode "escolher" não ser, sob pena de matar, o que é um erro ético. A escolha é feita ao nível da prevenção da gravidez, do tentar evitá-la. Se ela já ocorreu, então a maternidade, nessa mulher, já é um facto, e contra factos não há argumentos.

Depois, poderíamos ainda questionar o próprio título do seu artigo. Será que a democracia deve ir "para além dos valores"? Mas a democracia não pretende estar fundada sobre valores? Que raio de confusão de conceitos é esta?

De onde vem esta corrupção da intelectualidade, que faz com que pessoas adultas aparentemente racionais não sejam capazes de tecer considerações racionais?

Infelizmente, o dia de hoje está cheio de disparates para comentar. Nessa mesma emissão radiofónica, tive o desprazer de escutar também a voz do Dr. Albino Aroso, que questionado acerca do problema logístico das unidades hospitalares serem capazes de fazer face aos pedidos de aborto legal, ele afirmava categoricamente, menosprezando esse real problema, que o aborto era "um fenómeno raro" nos dias de hoje. Esta frase inexplicável, dita sem pensar aos microfones da rádio, faz sentido no seu contexto de tentar capitalizar uma vida inteira dedicada à contracepção artificial, ao ponto de ser considerado por muitos (e pela jornalista) como o "pai" português do planeamento familiar (será isto um elogio? deve ser!). Curiosa frase sua, quando em plena campanha, as forças políticas pelo "sim" afirmavam, em plenos pulmões, querer acabar com o "flagelo", o "drama", a "calamidade" do aborto clandestino. Será que um "fenómeno raro" pode ser apelidado de "flagelo", "drama" ou "calamidade"? Mas do Dr. Aroso, tratarei mais tarde...

terça-feira, 6 de março de 2007

Aborto obrigatório para os médicos?

A cada dia que passa, as forças "pró-escolha" concentram-se na nova frente da guerra pelo aborto. Agora que o aborto está practicamente legalizado em todo o mundo ocidental, o esforço centra-se na eliminação da objecção de consciência por parte do pessoal médico.

Um recente editorial do New York Times, de 13 de Fevereiro, tragicamente intitulado Doctors Who Fail Their Patients, é um bom exemplo de como grande parte dos media estão milimetricamente sincronizados com os movimentos pró-aborto e com as grandes organizações de saúde como a OMS ou a WMA.

«It was bad enough when pharmacists who call themselves pro-life refused to fill prescriptions for morning-after pills and an emergency medical technician refused to help drive a woman to an abortion clinic.»

Não se percebe a frase. Um farmacêutico que se recusa a vender medicamentos com potencial efeito abortivo está, coerentemente, a defender a vida humana. Os técnicos de saúde que se recusam a colaborar num aborto, mesmo que seja sob a forma de transporte de uma mulher para o local onde ela vai abortar, estão a ser coerentes.

«Now a new survey has revealed that a disturbing number of doctors, at the presumed pinnacle of the health professions, feel no responsibility to inform patients of treatments that the doctors deem immoral or to refer them to other physicians for care.» (negrito meu)

Note-se como os editores usam a palavra "treatment" ("tratamento") para se referirem a medidas como o aborto. Mas veja-se que esta mesma má argumentação também poderia (e muitos o fazem) ser usada em abono da eutanásia. É evidente que nenhum médico tem o direito de se recusar a tratar um doente: faz parte do seu código de conduta e da sua obrigação profissional. Outra coisa completamente diferente diz respeito a estes novos "tratamentos" feitos para pessoas que não estão doentes, como o aborto, ou para pessoas cujo suposto "tratamento" vai, na prática, matá-los. É certo e claro que um médico pode ser objector de consciência em relação aos dois "tratamentos", visto que nenhum deles faz parte da sua obrigação deontológica profissional.

«Although the close-mouthed doctors claim a right to follow their consciences, they are grievously failing their patients and seem to have forgotten the age-old admonition to “do no harm.”»

"Do no harm"...
Custa a perceber, à primeira vista, se o editorial é satírico ou se eles estão mesmo a falar a sério. Será que um médico está mesmo a "falhar gravemente" aos seus doentes, ao se recusar a aplicar pseudo-"tratamentos" que não visam nenhuma doença em concreto, que visam apenas uma solução facilista que vai contra a ética do médico profissional?
Se a expressão "do no harm" parecia estranha perante um aborto, visto que o médico que aborta faz objectivamente mal à mãe e ao filho, então no caso da eutanásia, a expressão torna-se definitivamente patética.

É melhor esmiuçar um pouco esta questão da ética médica. É evidente que nenhum médico pode defender dois sistemas éticos contraditórios, ou defender uma ética viciada com contradições internas. Se um médico fez o Juramento, está comprometido com a obrigação de defender a vida e de dar assistência ao tratamento de doentes, pelo que não poderá invocar a objecção de consciência para, por exemplo, negar o tratamento a um criminoso.
Por outro lado, visto que nem o aborto nem a eutanásia fazem parte das obrigações dos médicos, não há mal algum em que tais médicos possam ser objectores de consciência. No caso do aborto, não há nenhum doente em questão, há apenas um utente do sistema de saúde que não está doente e que se quer ver livre de uma criança. No caso da eutanásia, a sua prática corresponde precisamente ao oposto da função do médico: matar em vez de salvar ou tratar um doente.

Há que explicar, e ninguém parece interessado em fazê-lo do ponto de vista ético, porque razão é que matar (no caso do aborto ou da eutanásia) deveria fazer parte da carteira de serviços obrigatórios para um médico.

«The survey, by researchers at the University of Chicago, was published last week in The New England Journal of Medicine. The researchers mailed questionnaires to some 2,000 doctors asking whether they had religious or moral objections to three controversial practices. Of the 1,144 who responded, only 17 percent objected to “terminal sedation” to render dying patients unconscious, but 42 percent objected to prescribing birth control for adolescents without parental approval, and 52 percent opposed abortion for failed contraception.
The encouraging news is that substantial majorities thought that doctors who objected to a practice nevertheless had an obligation to present all options and refer patients to someone who did not object. But that left 8 percent who felt no obligation to present all options and an alarming 18 percent who felt no obligation to refer patients to other doctors. Tens of millions of Americans probably have such doctors and are unaware of their attitudes.»
(negrito meu)

Este imbecil e autista editorial insiste em escrever frases absurdas como se fossem verdades incontestáveis. Porque razão seria um médico obrigado a apresentar "opções" de pseudo-tratamentos a pessoas que não estão doentes (no caso do aborto)? Porque razão deveria sugerir a morte a um doente (no caso da eutanásia)? Porque razão deveria, nestes casos, estar obrigado a encaminhar esta pessoa para um médico de "ética flexível"?
Sinceramente, considero que os médicos objectores que, recusando-se a cometer os actos que reprovam, insistem em apresentar opções deste tipo, estão a ser incoerentes. Se consideram que tais opções são más, é porque as vêem como más em absoluto, ou seja, não só não resolvem mal algum como também não trazem benefícios (e podem mesmo trazer malefícios, como no caso do aborto e da eutanásia).
Ou seja, o médico objector que se recusa a dar informação desse tipo é um médico profissional e intelectualmente coerente.

«The researchers put the burden on patients to question their doctors upfront to learn where they stand before a crisis develops. But that lets doctors off the hook.»

"Off the hook"?
Esta expressão dá a ideia de que o médico se quer "safar" das suas responsabilidades, quando estas são inexistentes e não fazem parte do seu código deontológico nem das suas obrigações profissionais.

«Physicians have a right to shun practices they judge immoral (...)»

Pelo resto do texto do editorial, é quase anedótico que tenham escrito esta frase...

«(...) but they have no right to withhold important information from their patients. Any doctors who cannot talk to patients about legally permitted care because it conflicts with their values should give up the practice of medicine (negrito meu)

Veja-se bem como este editorial termina. "Legally permitted care", é o termo usado para o aborto, mas também poderia ser usada, do mesmo modo, para a eutanásia. Acho que a palavra "care" está terrivelmente mal empregue, e sobretudo no contexto do aborto ou da eutanásia (morte provocada de um ser humano) a palavra ganha contornos sinistros e macabros. "Care"?

Mas veja-se a admoestação: "should give up the practice of medicine"!
É para isto que caminhamos, dia após dia.
É mesmo só uma questão de tempo. A classe médica está, neste momento, a ser posta à prova no teste ético mais importante da História da Medicina.
Esperemos que os nossos médicos não se comportem como muitos "médicos" dos negros tempos do Terceiro Reich... Mais vale perder o emprego que a dignidade e a honra profissional e humana.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Complexos da esquerda radical

É certo que já ninguém lhes liga nenhuma. Que os "amanhãs cantantes" do Avante estão a desaparecer, finalmente, da nossa sociedade, ainda marcada por um forte complexo de esquerda.
Mas, de tempos a tempos, e porque eles ainda não morreram todos, lá temos que aturar com a chinfrineira dos "anti-fascistas".
O que se viu neste fim-de-semana em Santa Comba Dão foi de uma tristeza e de uma miséria profundas, daquelas que há vários anos não se viam em Portugal. Só faltou uma bombazita no cemitério, na campa do Salazar, para nos recordar os belos anos do terrorismo "anti-fascista" das FP-25.

Eles nunca perceberam a diferença entre nazismo e fascismo. Por isso é que alguns confundem nazismo ou neonazismo com apoio a Salazar. Nem nunca perceberam as enormes diferenças entre o regime fascista de Mussolini (o único ao qual se pode aplicar correctamente o termo "fascista") e o regime ditatorial de Salazar.
É que a palavra "facho" evoca um simbolismo que se apresentava como saudosista do Império Romano, recuperando alguma iconografia dos tempos imperiais, o que só seria útil para um governo centrado em Roma.

Só que a palavra "fascista" é sonora: arranha na garganta.
Ouve-se aquela gente a gritar "FAXISTA", assim mesmo com um "X" bem vincado na garganta, e até se sentem os perdigotos na cara. É uma palavra áspera, fica bem. É bruta. Só que, historicamente, não tem nada a ver com Salazar nem com o Estado Novo.

O mais triste disto tudo é constatarmos que os extremos se atraem sempre. Enquanto os fanáticos gritavam impropérios contra Salazar, a normalmente boa e pacífica população de Santa Comba Dão entusiasmava-se demais, e o sentimento dava origem a gritos disparatados de sentido oposto, exageradamente laudatórios à figura do ditador.

O fanatismo gera sempre fanatismo, e atrai novo fanatismo.
E o ódio cego e irracional "anti-fascista" atrai sempre o seu congénere de sinal oposto. Até me espantei por não ver em Santa Comba Dão os desmiolados "nacionalistas" rapados do costume...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Sobre a consciência

(este texto foi actualizado e aumentado)

Enquanto me debruçava sobre a problemática ética do aborto, uma das coisas que mais me chocou foi a de descobrir as acções dos vários movimentos pró-aborto, dos quais se destacam as várias Associações para o Planeamento Familiar em vários países, a favor da limitação da liberdade de ser objector de consciência.

Recordo-me de pensar que aquilo era (e é) algo de incrível. Propor limitar o número de objectores de consciência, criando um esquema de quotas mínimas de objectores. Parecia algo como uma requisição pública obrigatória em caso de greve. Ou seja, por outras palavras, parecia que queriam transformar os médicos objectores de consciência numa espécie de "médicos grevistas" que, em caso de greve geral, deveriam ser chamados, à força, às suas funções. Este chamamento à força para a prática do aborto torna-se ainda mais sinistro pelo facto de que matar não é uma função médica, não se encaixa na ética de um médico profissional. O médico é treinado e formado para fazer precisamente o oposto: salvar vidas.

Isto parecia demasiado mau para ser verdade, mas basta dar uma vista de olhos pelas ideias defendidas pelos nossos mais esforçados abortófilos. Muitos deles acham perfeitamente normal impor restrições à classe médica neste sentido. De facto, se os médicos portugueses fizessem greve a matar, isso colocaria um grave problema à promessa política de entregar aborto livre a quem o pedir.

Ou seja, do que estamos aqui a falar é disto: se um médico tem a consciência de que abortar é matar um ser humano, e este médico reconhece o mal ético dessa acção (ou seja, sabe pensar e discernir em termos éticos e morais), ele pode vir a ser coagido a fazê-lo contra a sua vontade e em violação da sua liberdade e dos seus direitos fundamentais. Ainda não é o que sucede, mas os vários movimentos pró-aborto têm-se esforçado, em vários países, para tentar colocar um travão à objecção de consciência. Isso está a ser feito para o aborto, mas será certamente também tentado com a eutanásia, e com toda a restante claque de aberrações éticas, como a manipulação de embriões, o infanticídio (Peter Singer e Michael Tooley, um dia, vencerão), entre outras. Só a manipulação genética do ser humano abre já hoje caminhos fascinantes, numa óptica ao estilo dos romances de Mary Shelley, para as futuras e modernas violações à Ética e à deontologia médica.

Apesar de isto me parecer uma aberração, porque concebo que a consciência de cada um é terreno intocável, tenho notado que para muitas pessoas, a requisição obrigatória de médicos para a prática do aborto é algo que vêem com naturalidade, como sendo fundamental para garantir um "bom serviço abortivo". Do "direito a matar", vitória de 11 de Fevereiro último, passamos agora para a "coação a matar".

Porventura, o problema reside numa ideia intelectualmente distorcida do que é a consciência individual. Deveria ser evidente que a consciência está ligada à razão, e não apenas a uma subjectividade emotiva, a uma sensação, a uma predisposição sentimental. Um médico que recusa praticar um aborto por objecção de consciência tem, normalmente, a noção racional do mal ético que é matar um ser humano na sua fase inicial de desenvolvimento. A ponderação da racionalidade versus emotividade poderá variar de médico para médico, mas é certo que há uma base racional para ver o aborto como um mal ético, pelo que isso é possível e torna racional a objecção de consciência.

Vemos então que, no contexto da actual crise intelectual, na qual já não há verdades absolutas nem bens éticos absolutos (isso acabou tudo), a consciência deixa de ser algo de racional, deixa de ser visto como uma tentativa de aderir intelectualmente a uma verdade universal. Passa a ser algo de meramente opinativo. Paradoxalmente, a elevação da subjectividade individual ao estatuto de "verdade individual" permite-o. Visto que cada um pode ter "a sua verdade", isso transforma a consciência pessoal numa ferramenta questionável e contestável. É que se a consciência recta fosse a daquela pessoa que aderiu com a sua razão a uma verdade absoluta ou à protecção de um bem ético absoluto, então violá-la seria um absurdo, uma agressão, um erro ético e lógico imediatamente perceptível.

Como, para muitos, já nada há de absoluto ou de intocável, porque todas as opiniões se "democratizaram", porque a opinião do sábio vale tanto como a do burro, então as consciências dos médicos objectores podem ser vistas como "caprichos" que são toleráveis enquanto existirem médicos de "ética flexível" para matar. Se o número de médicos de ética impecável começar a se manifestar contra o aborto, então esses "caprichos" terão que ser restringidos, e as organizações abortófilas entrarão em marcha.

É a própria subjectividade relativista, campeã da pseudo-intelectualidade moderna, que mina o fundamento racional da consciência individual, e a torna presa fácil das violências quotidianas, promissoras de falsos progressos.

Um dia, os médicos vão ser obrigados a matar, sob pena de perderem a sua carteira profissional. Isso é evidente, porque é o caminho natural da derrapagem...

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Na Vanguarda

Transformámo-nos num país tão intrinsecamente corrupto que sob a capa do seu combate assistimos à mais descarada corrupção!

Que ninguém nos diga que pecamos por falta de originalidade…

O KGB e o "Papa de Hitler"

The KGB Campaign Against Pius XII

Vale a pena ler este artigo de George Weigel, que não há muito tempo esteve em Portugal, tendo proferido uma série de interessantes palestras. Weigel, como muitos, manifesta-se desanimado perante a indiferença da opinião pública face às recentes evoluções no "caso Pio XII".

A 25 de Janeiro de 2007, surgiu um artigo no National Review Online, da autoria do ex-agente secreto comunista romeno, o General Ion Mihai Pacepa, que dava conta de uma série de informação nova (mas já suspeitada há muito pela maioria dos eruditos que estudam este tema) acerca da responsabilidade do KGB na criação da "lenda negra" acerca do Papa Pio XII, caluniado como sendo o "Papa de Hitler".

O artigo do General Ion Mihai Pacepa é fundamental, é histórico e deveria ter levantado, no mínimo, a mesma polémica que as falsas e caluniosas polémicas contra Pio XII.
É claro que isso nunca vai suceder. A mentira, aos olhos da ignorante opinião pública, é quase impossível de apagar. Mentir e caluniar é fácil e tem efeitos perpétuos e duradouros na imagem pública das suas vítimas. Apesar de a verdade vir sempre ao de cima, há muitos que estão interessados em que essa verdade agora revelada de forma mais nítida e clara seja rapidamente varrida para debaixo do tapete.

O mito do "Papa de Hitler" tem que continuar vivo. Há muitos académicos ideologicamente comprometidos que investiram as suas carreiras nesta "lenda negra" e prostituiram a ciência histórica ao serviço de uma guerra cultural anti-católica.

Sobre a fraude titânica

Jesus' Family Tomb Discovery is a Titanic Fraud

"Titanic" director James Cameron and Canadian TV-director Simcha Jacobovici are claiming they have evidence of a Jerusalem tomb that allegedly houses the remains of Jesus and his family. However the foremost archaeologists in Israel have slammed the claims as totally without foundation.

Israeli archeologist Amos Kloner, who was in charge of the 1980 investigation of the tomb which is the subject of the new claims by Cameron-Jacobovici, said "The claim that the burial site has been found is not based on any proof, and is only an attempt to sell." Kloner added, "I refute all claims and efforts to waken a renewed interest in the findings. With all due respect, they are not archeologists." Kloner said that while "it makes a great story for a TV film," there is "no likelihood" that Jesus and his relatives had a family tomb, and dismissed the claims as "impossible" and "nonsense."

(...)

Archeologist Joe Zias, who spent a quarter-century at the Rockefeller University in Jerusalem, said "Simcha has no credibility whatsoever."
(negrito meu)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Mini-glossário para o site "Jesus Family Tomb"

Está tudo muito agitado com este site, acerca do recente documentário de James Cameron:

Jesus Family Tomb

Deixemos Tim McGirk, do blogue "Middle East" da revista Time, explicar-nos o que é que se passa:

«Brace yourself. James Cameron, the man who brought you 'The Titanic' is back with another blockbuster. This time, the ship he's sinking is Christianity.

In a new documentary, Producer Cameron and his director, Simcha Jacobovici, make the starting claim that Jesus wasn't resurrected --the cornerstone of Christian faith-- and that his burial cave was discovered near Jerusalem. And, get this, Jesus sired a son with Mary Magdelene.

No, it's not a re-make of "The Da Vinci Codes'. It's supposed to be true.»
, Tales from the Crypt, 23 de Fevereiro de 2007.

Neste momento, e como é costume, o post de Tim McGirk acerca desta matéria já tem 3159 comentários. Como também é costume, quase todos estes comentários são perfeitos exemplos do enorme poder da Internet para dar voz aos ignorantes.

Para quem está curioso acerca deste novo documentário, nada como ir ao site original dos produtores, clicando no endereço dado acima. Segue-se um mini-glossário para orientação, visto que o jargão técnico usado no mesmo necessita de uma tradução mínima para evitar equívocos.

New Discoveries
Expressão usada para designar descobertas novas para James Cameron e para a sua equipa, velhas (feitas há 27 anos) para uma série de arqueólogos israelitas e de outras partes do globo

Alternative Theories
Leia-se: "Pseudo-história"

The Experts
Leia-se: "Os do costume"

Professor... Scholar... Expert...
Termos usados para designar os colaboradores desta obra de ficção realizada por James Cameron

Essential Facts
Secção criada para introduzir ideias erradas em mentes incultas, sob o disfarce dos métodos tradicionais de "divulgação popular"

Dan Brown
Nome de um dos historiadores de referência neste documentário

Back to Basics
Secção típica de uma triste atitude comum a alguns norte-americanos com espírito prosélito: a hipersimplificação mutiladora de uma realidade complexa

Early Christianity
A cristandade dos primeiros tempos magistralmente sintetizada em três parágrafos

Roman Empire
O Império Romano magistralmente sintetizado em quatro parágrafos

Jewish History
A História Judaica magistralmente sintetizada em três parágrafos

Evidence
Termo usado para designar manipulação de informação

Secret Symbols
Capítulo que não se percebe para que serve

Origins of Freemasonry
Tendo a Maçonaria surgido oficialmente em 1717, não se percebe o que terá a ver com isto, a não ser que o objectivo seja o de promover a antiguidade da Maçonaria

The Holy Bloodline
Sendo uma criação literária de Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, e datando do final dos anos setenta, não se percebe o que terá a ver com isto

The Knights Templar
Sendo uma ordem militar criada no século XII e extinta no século XIV, não se percebe o que terá a ver com isto

Secret Societies
Outro capítulo sobre temas que não têm nada a ver com isto: Illuminati, Skull & Bones, Maçonaria, Rosa-Cruzes - é indesculpável que se tenham esquecido da teoria de que Jesus era um extra-terrestre

Glossary
Tabela de asneiras

Theological Considerations
Considerações humorísticas sobre Teologia feitas pela equipa que produziu o documentário

Sossegue-se o crente mais assustado. Isto não passa de boa ficção!
Esta ficção vem na esteira de um caminho bem preparado e bem urdido.

1982 - Holy Blood, Holy Grail (Lincoln, Baigent e Leigh): teoria da "linhagem sagrada"
1994 - Turin Shroud (Lynn Picknett e Clive Prince): fantasias acerca do Sudário de Turim
1996 - The Tomb of God (Richard Andrews, Paul Schellenberger): Jesus estaria enterrado em Rennes-le-Château (França)
2003 - The Da Vinci Code (Dan Brown): romance lido por muitos como obra histórica, relançou a fantasia da "linhagem sagrada"
2006 - Evangelho de Judas: mais uma peça no puzzle anti-cristão moderno, desta vez patrocinada pela National Geographic Society
2007 - The Lost Tomb of Jesus (James Cameron, Simcha Jacobovici): o filme/documentário anti-cristão do ano

Estes são apenas alguns dos muitos (imensos) marcos nesta caminhada pelo surreal anti-cristianismo pós-moderno, o último dos preconceitos tolerados e promovidos nos nossos dias. O que tem isto a ver com Ciência? Com História?
Rigorosamente nada.

Mentir é feio (sobre a Taxa Camarae)



Pepe Rodríguez, o famoso mitómano anti-católico espanhol, é um dos ídolos no blogue Diário Ateísta. Possivelmente por falta de melhor tema, Carlos Esperança vai trazendo de novo à baila autores e livros que, de meses a meses, ele repesca para tentar criar uma aura de "actualidade" neste moribundo blogue.

Nada tenho contra a bajulação que ali é feita à pessoa desse mentiroso compulsivo que é Pepe Rodríguez, não fosse pelo facto de que, aparentemente, Carlos Esperança o leva a sério, pensando que a obra de Rodríguez, com o título académico de "Mentiras Fundamentais da Igreja Católica", tem alguma coisa a ver com História.

A obra de Rodríguez nem sequer é uma obra "de polémica".
É, pura e simplesmente, uma obra de mentira.
Carlos Esperança reproduz, para nosso gáudio, uma das páginas (infelizmente pouco absorventes, senão teriam outro uso) dessa magnum opus historiográfica do nosso caro Pepe:



A burla em questão é uma das mais famosas burlas anti-católicas, daquelas burlas que, de tempos a tempos, e ao longo dos séculos, são desenterradas. É que a memória popular é fraca, a cultura escasseia, e pelo sim pelo não, há que desenterrar estas criações fantasiosas para manter o ódio vivo.

A Taxa Camarae é um belo texto falsificado, atribuido ao Papa Leão X, que conteria os preços a pagar pela expiação dos mais variados e perversos (para ter mais piada) pecados. A lista em questão é particularmente exuberante e divertida pelos pormenores lúbricos e "picantes" que o seu autor escolheu para embelezar este suposto "documento papal".

Excepto quando se está contaminado intelectualmente pelo mais primário e redutor preconceito anti-católico, qualquer leitor normal, pelo simples contacto ocular com o texto de Pepe, fica com a impressão de que está a ser burlado. Fará aquilo algum sentido? Parece um texto que um Papa subscreveria?

O que é curioso, nessa magistral obra que é o "Mentiras Fundamentais", é que o pobre Pepe não consegue reproduzir ou identificar a dita Bula Papal, ou qualquer texto com a assinatura de Leão X, que possa, de alguma forma minúscula que seja, apoiar a pretensão de autenticidade desta famosa falsificação.

Então, no fim de contas, Pepe nunca pôs os olhos em tal documento?
Pepe não tem uma cópia? Uma copiazinha que seja? Uma mesmo jeitosa, com a assinatura e o selo papal de Leão X?
Ou pelo menos, uma daquelas cópias gastas, com a assinatura já ilegível? Nem isso?
Então, mas sem isso, esta treta da Taxa Camarae vale de pouco, não é?

Mais ou menos...
Para o público leitor frequente do Diário Ateísta, pouco dado a outras leituras que não Pepe Rodríguez, aquilo vale ouro.
Quem quiser ficar a saber mais sobre a farsa da Taxa Camarae tem muito por onde procurar.
Uma sugestão óbvia seria este site.

Para quem quiser seguir esta saga mais de perto, o nosso Pepe tem um site, no qual, curiosamente, dá mais informações do que as que surgem no livro:

«Advertencia al lector: la autenticidad de este documento ha sido cuestionada y debe ser reputado como dudoso hasta que no se documente fehacientemente su posible veracidad o falsedad. De ser una falsificación, quizá sería contemporánea de León X o algo posterior.»

Pena que esta frase não estivesse no início da "reprodução" da dita Taxa Camarae no seu livrito... Mas nada como ler as explicações (desculpas) dadas por Pepe no seu site. É a conversa do costume: sacerdotes anónimos, que lhe entregam fotocópias anónimas de documentos anónimos... Histórias de espiões, de princesas e dragões, "teólogos" e "historiadores" que dariam o aval ao documento, mas cujos nomes Pepe acha melhor não citar... Enfim, pura História!

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Destruir o mito do Progresso...

... seria tão fácil se todos tivessemos a concisão de um Chesterton!

"Progress is a comparative of which we have not settled the superlative." - Chapter 2, Heretics, 1905

"Progress should mean that we are always changing the world to fit the vision, instead we are always changing the vision." - Orthodoxy, 1908

"My attitude toward progress has passed from antagonism to boredom. I have long ceased to argue with people who prefer Thursday to Wednesday because it is Thursday." - New York Times Magazine, 2/11/23

"Men invent new ideals because they dare not attempt old ideals. They look forward with enthusiasm, because they are afraid to look back." - What's Wrong With The World, 1910

"Tradition means giving votes to the most obscure of all classes, our ancestors. It is the democracy of the dead. Tradition refuses to submit to that arrogant oligarchy who merely happen to be walking around." - Orthodoxy, 1908

"The modern world is a crowd of very rapid racing cars all brought to a standstill and stuck in a block of traffic." - ILN, 5/29/26


A ler: um poço de citações valiosas. Algumas são mesmo das melhores definições do verdadeiro tradicionalismo. Definir o tradicionalismo como a "democracia dos mortos", contra a arrogante oligarquia dos que "andam por aí" é fenomenal! Mas a citação que destaquei com negrito é aquela com a qual, verdadeiramente, me identifico. O verdadeiro progresso deve ser conseguido com o esforço de tentar mudar o que está mal no Mundo, tendo sempre em vista uma visão correcta (ortodoxa) não só do real, mas sobretudo do que seria o mundo ideal.
Mudar a visão, só por mudar, só para "parecer moderno", apenas agrava o problema. O mundo moderno, não só é o resultado caótico de milhares de mudanças de visão, com tudo o que isso tem de caos e de desorientação, como todas as visões alternativas que se criaram nos últimos séculos têm demonstrado estar erradas, umas a seguir às outras...