sábado, 10 de março de 2007

Separação e distinção

A primeira reacção quando se lê uma obra de metafísica a sério, como o Les états multiples de l'être, do René Guénon, é de pura e total confusão mental. E é normal. Apesar da linguagem límpida e objectiva do autor, a verdade é que a mente ocidental moderna está totalmente destreinada no pensar metafísico. As estruturas mentais não estão preparadas: uma natural consequência, não só da uniformização do ensino e da sistematização das ciências, mas também do "nivelamento por baixo" do conhecimento em geral. Desde que nascemos que somos ensinados e formatados para pensarmos de forma sistemática e nada sintética. Nem é por mal: é porque aqueles que deveriam ter sido, ou deveriam ser, os nossos mestres também não têm esse treino mental e portanto não são capazes de nos ensinar a pensar desse modo. O mundo moderno prefere a análise à síntese, as caixinhas pequenas, seguras e controladas dos "sistemas" à arriscada intuição intelectual da Metafísica.

Hoje, já nem me recordo bem porquê, dei comigo a pensar nestes dois termos: separação e distinção. À partida pareciam-me sinónimos, mas comecei a tentar vê-los de um prisma metafísico primário, nada complexo, nada profundo, e a coisa ficou clara.

Porque é que uma coisa distinta de outra deve estar separada dela? Porque é que duas coisas distintas não podem coexistir? De repente, este simples dilema fez-me aplicar esta questão a diversas áreas.

Exoterismo e esoterismo
Muitos católicos não sabem, hoje em dia, que existe um lado esotérico ("esotérikos", grego para "interior") da doutrina cristã. Muitos experimentam-no sem sequer se aperceberem que se trata de algo esotérico. Os sacramentos católicos são exotéricos no ritual e esotéricos na influência sacramental (mistérica) que exercem sobre o seu receptor. Assustados (e com razão) pelo avançar galopante de um pseudo-esoterismo rasteiro, New Age, neopagão e superficial, é normal que a palavra "esoterismo" evoque a muitos católicos um Paulo Coelho ou um Dan Brown. Porventura, não sabem que um Padre da Igreja como Clemente de Alexandria usava o termo "esotérikos" em textos doutrinais perfeitamente ortodoxos.
Afinal, a dualidade esoterismo-exoterismo é uma dualidade normal e corresponde a um espelhar, se bem que assimétrico, do processo de conhecimento de uma doutrina. De um lado, temos a exterioridade da forma, na sua multiplicidade e inconstância. Do outro, temos a interioridade da essência, na sua unidade e constância. Uma doutrina sem esoterismo é uma casca sem miolo.
E o inverso?
Um esoterismo sem exoterismo?
Igual asneira. Num mundo em mudança incessante, é fundamental possuir alicerces sólidos que nem rocha. Por essa razão, o interessado em perseguir conhecimentos esotéricos não deve abdicar de uma prática exotérica rigorosa. É impossível penetrar na gnose cristã sem o exercício regular de uma prática religiosa ortodoxa. Não foi à toa que Jesus Cristo considerou São Pedro como a "pedra" sobre a qual seria edificada a Sua Igreja.
Um esoterismo sem exoterismo divaga facilmente, e cai rapidamente no erro, na heresia. Um exoterismo sem esoterismo é pobre, é superficial.

Teologia sacramental
Como é possível que, durante a Eucaristia, uma hóstia se torne no Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo? Afinal, desde pequenos que somos ensinados na "catequese cartesiana" a separar o espírito da matéria, e de repente, ficamos sem forma de compreender a presença divina na Eucaristia. Deveríamos ter sido, ao invés, ensinados a distinguir o espírito da matéria, sem termos que imaginar que tais ordens da realidade estejam, de facto, separadas ao ponto de existir um vazio entre ambas. Aliás, o vazio é algo que não existe. Toda e qualquer partícula da hóstia consagrada, que pressentimos nas papilas gustativas como hóstia, serve de receptáculo formal para uma essência divina que "desce" (na epiclese) do domínio informal ao domínio formal no momento da consagração. Isto sucede por simples vontade e decreto divinos, visto que Cristo ensinou aos seus discípulos como proceder "em sua memória" (anamnese, ou seja, evitar o esquecimento, "amnésis") para repetir este sacramento. E o efeito é sempre o mesmo e invariável, dependendo apenas do rito e não do celebrante ("ex opere operato", e não "ex opere operantis"). A forma "exterior" da hóstia suscita nas papilas gustativas uma reacção sensorial igual a qualquer outra hóstia, mesmo não consagrada. No entanto, a essência divina contida no "interior" dessa forma é comunicada, durante a comunhão, à alma do crente que comunga. Ou melhor, a alma individual do crente (essa sim contingente) comunga da fonte inesgotável que é a essência divina.
Esta noção de fonte tem uma enorme profundidade analógica e simbólica, pois da mesma fonte podem "beber" múltiplos seres sem que aquela deixe de ser a mesma inalterada fonte. A essência divina que "desce" a, ou que se manifesta em, toda e qualquer hóstia consagrada permanece una e imutável no domínio do Espírito, enquanto que a forma do seu "recipiente" é sempre múltipla e contingente. Há, então, uma distinção entre a matéria da hóstia consagrada e a essência divina que a preenche. Mas não há separação! O ente "hóstia" muda radicalmente de natureza após a consagração, porque ganha uma co-existência com o espírito divino que a transforma (literalmente, que a eleva para lá do formal).
Isto apenas é possível se duas realidades distintas não tiverem que estar verdadeiramente separadas, no sentido de possuirem existências separadas. Não obstante ser certo que há pouco rigor linguístico no uso da palavra "existência" para o Espírito, uma vez que este é o Ser sobre o qual todos os seres têm fixa a sua existência ("ex-stare", "ex-essere"), a conclusão não deixa de fazer sentido: a distinção não elimina a coexistência.

Vejamos mais aplicações...

Agnosticismo e Panteísmo
Para compreender o conceito de Criação é também importante ter bem claro o que se disse atrás acerca de distinção e de separação. Deus é seguramente distinto da criatura finita (o panteísta erra ao discordar disto). No entanto, a criatura finita tem a sua existência em Deus. Mais um exemplo de co-existência de todos os seres no Ser, sem que isso nos faça perder de vista a radical diferenciação entre o Uno Infinito (Deus) e os indefinidamente múltiplos finitos (criaturas). Temos de novo uma distinção sem separação. Não há "vazios" existenciais, uma vez que todos os seres estão contidos no Ser, sem no entanto serem confundidos com Ele.
Se o agnóstico erra ao conceber um abismo existencial entre a criatura e Deus, negando à primeira o acesso ao último, o panteísta erra ao conceber que a finita criatura consegue "acomodar" a infinitude divina. Impossibilidade metafísica!

Receio que poderia estar horas a encontrar mais exemplos que se apoiam nesta ideia: distinção sem separação. Co-existência de realidades ou entes distintos, mas não separados. Poderia pegar na angeologia e falar no Anjo da Guarda ("anjo", criatura imaterial de puro intelecto) que cada um tem atribuído a si por Deus, e a quem podemos rezar para obter intercessão divina. Mas por hoje, chega!

sexta-feira, 9 de março de 2007

Albino Aroso

Antes de principiar, convém ter bem presente alguns pontos essenciais. As críticas que se seguem são ao quadro intelectual defendido pelo Dr. Aroso, e não à sua pessoa. Infelizmente, poucos conseguem fazer a distinção entre a ideia errada e a pessoa que a defende. Pouco me interessam as críticas pessoais ou a depreciação de uma pessoa em concreto. O que tem interesse é o apontar dos erros intelectuais que certas pessoas defendem, sobretudo quando tais pessoas alcançaram um elevado estatuto de reconhecimento social. O perigo de situações destas é nítido: quanto mais elevado o estatuto e o reconhecimento social, maior a responsabilidade de tais pessoas, e mais gravosos e danosos se tornam os seus erros intelectuais.

O Dr. Albino Aroso ganhou o Prémio Nacional de Saúde. Só a sua idade e carreira em prol da saúde obrigam a um respeito à sua pessoa. Não obstante, ele defende uma série de ideias erradas acerca da vida intra-uterina e do aborto que merecem destaque. Evidentemente, este texto é uma minúscula crítica a uma entrevista em concreto, e não tem a pretensão de abarcar toda a acção intelectual do Dr. Aroso nesta matéria.

Trata-se de um artigo do Jornal de Notícias, datado de 13 de Janeiro último. Irei comentá-lo por trechos...

«Dr. Albino Aroso: Aborto é uma coisa morta, é aquilo uma mulher elimina espontaneamente, ou que é provocado, e que sai do útero, morrendo cá fora. Nós não estamos a discutir isso - estamos a discutir uma coisa extremamente simples, que é saber se a sociedade portuguesa deve continuar, ou não, a considerar a interrupção voluntária da gravidez em início (aquela em que a maior parte dos cientistas considera não haver ainda um ser humano) um crime.»

Duas falsidades:

a) A "maior parte" dos cientistas (belo rigor estatístico) não tem problemas em ver aquele ser como humano; o probema não é o de saber que se trata, biologicamente, de um ser humano: esse problema não existe, porque tal ser só pode ser humano; o problema está no estatuto ético desse ser, saber se tal ser humano tem o mesmo estatuto ético que tem um ser humano nascido ou numa fase mais avançada da gravidez; um pouco de rigor ajuda sempre;

b) O referendo não era, seguramente, para apenas despenalizar; esta era uma das várias consequências, sendo as restantes: legalizar o aborto (o aborto poderia ter sido reduzido de crime a contra-ordenação, mas foi passado a acto legal), e liberalizar o acesso ao aborto (mediante a prestação subsidiada de serviços abortivos aos utentes do SNS); mentir é feio.

«Entrevistador: O que está em causa no dia 11 de Fevereiro (data do referendo) não é também saber quando começa a vida humana?

Dr. Albino Aroso: No mundo civilizado, há dois tipos de mentalidades. Nos EUA encontramos os criacionistas, que acreditam que Deus criou tudo como está. Ou seja a vida humana começa na fecundação.»


Este é um perfeito e paradigmático exemplo da falácia ignoratio elenchi, ou seja, em português corrente, "fugir do assunto". A resposta nada tem a ver com o início da vida humana nem com a sua definição científica ou ética. A resposta dada reflecte uma série de coisas:

a) Visão simplista das teorias criacionistas como sendo uma só coisa: ignorância acerca destas várias teorias e das enormes diferenças entre elas;

b) Transformação do aborto numa questão de base religiosa: clara falácia, porque há argumentos contra o direito ao aborto que não invocam razões religiosas;

c) Preconceito anti-americano: há criacionistas em várias partes do globo;

d) Falta de coerência lógica: mesmo que os criacionistas fossem todos como descrito pelo Dr. Aroso, não se percebe esta conclusão partindo dessa premissa: "Ou seja a vida humana começa na fecundação"; a conclusão está certa, mas não tem nada a ver com a premissa.

«Entrevistador: Mesmo sem acreditar em Deus não é possível acreditar nisso?

Dr. Albino Aroso: Entre a fecundação e a chegada ao útero, 30 a 40% dos embriões iniciais desaparecem. São vidas humanas que se perdem, alguém comunica à sociedade que se perderam essas vidas humanas?»


Outro belo exemplo do uso da ignoratio elenchi. Por favor, alguém pode fornecer ao Dr. Aroso um manual rudimentar de Lógica?
A pergunta era bem clara: será que não se pode defender que a vida humana principia na fecundação sem invocar argumentos religiosos? A resposta deveria ser "sim" ou "não". Que responde o Dr. Aroso? Desvia o tema, não responde, e termina devolvendo uma pergunta de retórica. Deveria ser evidente que quem defende que a vida humana principia na fecundação também defende que os abortos espontâneos (naturais) são vidas humanas que se perdem.
Também seria útil dar ao Dr. Aroso um manual de Ética, bastaria um rudimentar. Pelos vistos não sabe, ou não quer, distinguir entre estas duas situações:

a) aborto espontâneo ou natural: problema exclusivamente médico ou biológico; não tem consequências éticas, nem tem qualquer peso ético porque é o resultado de um processo natural que não foi provocado por nenhum agente humano; está fora do alcance da Ética;

b) aborto provocado: resultado decorrente de uma acção humana propositada; tudo o que tem a ver com a conduta humana, com o ethos, pertence à esfera da Ética e deve ser avaliado e classificado nessa esfera.

«Entrevistador: É católico?

Dr. Albino Aroso: Sou. Porquê?»


Parte humorística da entrevista.
Para o Dr. Albino Aroso, a incoerência intelectual, pelos vistos, não é um problema para si. Pelos vistos, tolera bem a coexistência no seu intelecto de conceitos, convicções e noções totalmente incompatíveis entre si. Será que tal incoerência pode alguma vez dar bom resultado, em termos de afirmações intelectualmente válidas nestas matérias? É certo que só pode dar mau resultado...
É impossível a coexistência coerente, num mesmo intelecto, de uma doutrina católica completa e genuína, juntamente com a defesa do aborto provocado. Isto é matéria de facto, e não de opinião.

«Dr. Albino Aroso: A Sociedade Americana de Obstetrícia e Ginecologia distribui por todos os membros, há uns anos, uma frase que dizia assim "A vida é um processo contínuo". Isto ninguém pode discutir. Do ponto de vista científico, não é possível dizer quando se inicia a vida humana, somente do ponto de vista religioso, moral ou teológico. Aqui está um problema fundamental de que as pessoas têm que ter consciência. Quando se discutiu na Europa, sobretudo em França, este problema, os cientistas concluíram que não era vida humana o embrião. Ou seja: não seria crime interromper essa vida enquanto não estava formado o sistema nervoso central. Que valor tem a eliminação espontânea?»

O Dr. Albino Aroso insiste em confundir Biologia com Ética. Biologicamente, o zigoto já é um ser humano totipotente, dotado de todo o genoma que faz dele um espécime Homo Sapiens. Darwin, nada suspeito em matéria de religião, não teria dúvidas a este respeito... Outra questão mais melindrosa diz respeito ao estatuto ético do zigoto, do embrião, do feto. Mas, enfim, nem vale a pena prosseguir, porque a confusão do Dr. Aroso está num nível anterior, está em não ser capaz de distinguir o carácter biológico humano do embrião do carácter ético humano do mesmo.

«Entrevistador: No seu entender, tem o mesmo que a eliminação voluntária?

Dr. Albino Aroso: Nós seremos um país moralmente mais avançado que os países nórdicos, que já tiraram da sua legislação a incriminação das mulheres? Estamos numa fase em que ainda aceitamos que Deus é o responsável pelas gravidezes, ou isso é totalmente da responsabilidade das mulheres?»


De novo, ignoratio elenchi. Parece que o Dr. Aroso procura bater um recorde no uso deste tipo de falácia em poucas frases. O Dr. Aroso insiste em não responder à pergunta ética que lhe é feita, e que é bastante simples e objectiva. Eticamente, é ou não o mesmo um aborto provocado ou um não provocado? A resposta deveria ser clara: são coisas distintas. Onde não há acção humana (aborto espontâneo) não há problema ético.
O Dr. Aroso invoca a sempre presente protecção dos irmãozinhos mais velhos nórdicos, esses que estão sempre à frente em tudo, a julgar pela fé popular e pela opinião pública do "diz que disse". A frase final sobre a responsabilidade é uma perfeita asneira: nenhum crente inteligente diz que a gravidez é responsabilidade de Deus. Deus não obriga ninguém ao acto sexual, pelo que toda e qualquer gravidez é sempre responsabilidade dos progenitores. Por isso mesmo, a mulher que mata ou pede que lhe façam um aborto deve ser responsabilizada pelo erro ético desse acto, que termina com a vida de um ser humano com direito a ela.

«Entrevistador: Em que fase estamos?

Dr. Albino Aroso: Depende. Nós dizemos uma coisa, mas fazemos outra. As sociedades fazem hoje, rigorosamente, tudo aquilo que é da sua responsabilidade, não fazem caso nenhum da intervenção de Deus. Somos totalmente responsáveis por aquilo que fazemos.»


Esta resposta é incompreensível. O conceito de responsabilidade também está presente quando a Justiça tem que lidar com um assaltante ou com um homicida. Ambos têm responsabilidades sociais e humanas. Ninguém as nega. Não se entende como é que este discurso em prol da responsabilização (que é louvável enquanto tal) pode alguma vez legitimar dar a morte a um feto, um embrião ou um zigoto humano. Pelo contrário, a interdição da destruição de uma gravidez deveria ser uma clara marca de que o acto sexual deve ser responsabilizado. Se os meios para evitar tal gravidez falham, como se costuma dizer, "azar"! Há que ser responsável e aceitar a gravidez como um facto. O aborto nunca será um método contraceptivo ou de regulação da gravidez, porque a gravidez já é um facto. E "interrompê-la" é só uma forma maciazinha de dizer "exterminá-la".

«Entrevistador: Somos o quarto país do Mundo com a mais baixa taxa de mortalidade infantil.

Dr. Albino Aroso: Tudo isso tem os seus antecedentes. Estamos a falar no planeamento familiar

Entrevistador: Planeamento familiar que a associação que o senhor criou lançou em 1969…

Dr. Albino Aroso: A primeira consulta pública e gratuita foi dada no Hospital e S. António, no Porto, em 1969. Nessa altura não era ainda possível anunciar contraceptivos, nem receitar com essa finalidade»


O Dr. Aroso parece insinuar que a censura moral aos contraceptivos tem a mesma razão de ser da censura moral ao aborto provocado.
Isto é um estratagema clássico: considerar a moralidade da contracepção como sendo equivalente à moralidade do aborto. É certo que a moral religiosa considera imoral o recurso à contracepção artificial, e não vale a pena negá-lo porque as coisas são assim e devem ser assim. Mas também é certo que o erro moral de abortar é dramaticamente mais grave que o erro moral de usar um método contraceptivo:

a) Quando uma pessoa usa um método contraceptivo, aos olhos da moral católica (por exemplo), está a cometer um acto imoral porque distorce a finalidade última da relação sexual; mas seguramente, não mata ninguém nem acomete contra a vida de ninguém: quando muito, enfraquece a sua fortaleza moral;

b) Quando uma pessoa aborta ou ajuda a abortar, aos olhos de uma moral universal (portanto, neutra em termos religiosos), está a cometer um acto imoral porque mata um ser humano com direito a viver.

«Entrevistador: Como é que se fazia?

Dr. Albino Aroso: Era possível receitar os mesmos produtos para regularizar os ciclos. Todas as mulheres tinham ciclos irregulares. O que nós queríamos é que as mulheres tivessem os filhos que elas quisessem ter, e quando pudessem. Nós dizíamos que a mulher tinha o direito - e não o dever - de ter os filhos. A sociedade evoluiu rapidamente e a mulher ascendeu rapidamente, por via dessa política social, a todos os lugares públicos. A gravidez torna-se um problema extremamente complicado para a mulher que trabalha, que estuda e que sai de casa às oito da manhã.»


Bom, esta é a clássica retórica feminista, e não vale a pena repisar mais sobre ela. A mulher realiza-se, certamente, de muitas formas para lá da maternidade. Mas se lhe dão o falso direito a matar, isso é o mesmo que uma mulher tentar negar (porque não consegue fugir dela) a sua maternidade enquanto mulher grávida. Isso é contrasenso. A mulher grávida já é mãe. O aborto é um atentado contra a essência da mulher enquanto mãe. Se a mulher, hoje em dia, tem menor disponibilidade para a maternidade, isso não pode ser visto como uma coisa boa: é uma coisa má, que traz consequências nefastas para todos. Está na altura de atirar para o lixo a retórica feminista extremista, e procurar regressar ao simples bom senso. Sem mães, não há crianças, e sem crianças, não há Humanidade. Por isso é que dá algum jeitinho, enfim, é cómodo, que o conceito de mulher não esteja assim tão radicalmente separado do conceito de mãe.

«Entrevistador: Concorda com o referendo?

Dr. Albino Aroso: É-me indiferente. A questão é se isto é problema essencialmente feminino, porque não ouvir só as mulheres? Só que a maior parte das mulheres é contra as mulheres. E os homens que são normalmente responsáveis, colocam-se de fora e ainda são capazes de culpar as mulheres. Convém não esquecer que somos o país educacionalmente mais atrasado da Europa civilizada. Não admira que só agora estejamos a repetir o referendo que se fez em 1998 em que o "Sim" perdeu. Em relação a esta despenalização, defendo a existência, à semelhança do que faz a Alemanha, de um interrogatório à pessoa que quer interromper a gravidez, no sentido de saber por que é que ela engravidou: é culpa do Estado, é culpa da sociedade, não há o fornecimento atempado de contraceptivos, a culpa é do médico, o que é que falhou?»


Tudo isto é uma embrulhada de asneiras:

a) O problema do aborto não é "essencialmente feminino", enquanto não se provar que o estatuto ético da vida humana intra-uterina é rigorosamente zero; onde está a prova, a demonstração científica e filosófica, Dr. Aroso?

b) «A maior parte das mulheres é contra as mulheres»: nem vale a pena comentar este disparate, puro flatus voci, uma frase de guerrilha, precipitada, sem conteúdo intelectual, puramente gratuita, absurda e indemonstrável;

c) "Os homens colocam-se de fora": veremos agora, com o aborto legal, se os homens não o irão usar para impor violência pró-aborto às suas mulheres, filhas, namoradas, etc.;

d) "Somos o país educacionalmente mais atrasado": a mesma óptica miserabilista, que considera que tudo, rigorosamente tudo, o que é estrangeiro é bom; seja a técnica, sejam os serviços sociais, seja a ética, tudo o que é estrangeiro é bom e tudo o que é nacional é mau; nova frase gratuita, e que nada traz ao debate ético do aborto;

e) "Não admira que só agora estejamos a repetir o referendo...": de novo, o mito não demonstrado, e omnipresente, do Progresso, ou seja, a ideia insensata de que as mudanças (boas ou más, é indiferente) devem ser feitas quanto antes, para que permitam acelerar essa grande coisa que é o Progresso; curiosamente, alguns países pioneiros em matéria de aborto livre (o caso mais flagrante é o dos EUA) estão a rever as suas decisões de há trinta anos nesta matéria; mas o progresso dos EUA nesta matéria, ou seja, o recente repensar de restrições ao aborto legal (que está a ser proposto mesmo pelos Democratas norte-americanos) agora, já não interessa, certo, Dr. Aroso?

A sua defesa final do "interrogatório" à mulher é verdadeiramente notável, e é o corolário de uma entrevista intelectualmente deprimente. É esta uma das versões do "aconselhamento prévio" de que tantos defensores do "sim" falaram? Repare-se a ironia da coisa: o real erro ético (abortar, matar) não é problemático para estes senhores, porque no final do "interrogatório", o senhor doutor lá vem com os forceps ou com as pastilhas de RU-485. O aborto não está em causa, repare-se! É como interrogar uma criança para lhe perguntar quem fez a asneira, prometendo um rebuçado no fim.
Curiosamente, a "asneira" parece ser "engravidar", que é uma função biológica natural e normal.
E mais curiosamente ainda, o "rebuçado" parece ser "abortar", que é uma aberração ética, que viola a mais básica e rudimentar deontologia médica, que priva um ser humano da sua vida futura, e que mata psicologicamente a mulher que se submete a tal intervenção grotesca e bárbara.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Os surreais reais no país do aborto livre

Hoje, Dia da Mulher, a coisa propiciava uma série de disparates avulsos a propósito de aborto livre.

A professora Manuela Tavares, conhecida e antiga defensora daquela categoria lata de "direitos" das mulheres, falou hoje na rádio para afirmar que este Dia da Mulher, de 2007, era importante por coincidir com a aprovação parlamentar da nova lei do aborto.

Esta senhora, cujo esforço incansável pelos seus ideais (quase todos errados, por sinal) merece sempre respeito, defende, contudo, ideias erradas que não merecem respeito algum. Elogiando este novo "direito" a matar por parte das mulheres grávidas portuguesas, ela aproveitava para o colocar na linha de uma série de direitos conquistados a pulso. Já não me recordo das palavras exactas, mas no final da peça radiofónica afirmava que, hoje, ainda há pessoas que não aceitam que uma mulher possa ser competente para ocupar um alto cargo de chefia...

Eu ouvia isto, boquiaberto, consciente de que existiriam, infelizmente, poucos portugueses chocados como eu. O que é que tem a ver uma coisa com a outra? O direito a ocupar um cargo de chefia com o direito a matar um feto? Não contesto que uma mulher, demonstrando competência (como um homem), pode ocupar um lugar de chefia. Como contestar? Se um lugar de chefia, normalmente, deve pertencer a quem é competente, que interessa se tal competência vem no feminino ou no masculino?

Porque raio é que o aborto é ainda visto por tanta gente como um direito da mulher? Será apenas analfabetismo em matéria de Ética? Sim, esse analfabetismo existe, e é fácil de detectar. Muitos filósofos pró-escolha de referência aceitam que há, no aborto, um conflito de direitos: o direito da mulher ao seu corpo colide com o direito à vida do feto. Na generalidade, os filósofos pró-escolha, perante esse conflito, optam pela mulher, legitimando eticamente o aborto. Mas há filósofos que, perante esse conflito, não permitem à mulher matar.

Seja qual for a nossa posição no terreno da Ética, a verdade é que não se pode encarar o aborto como um puro direito da mulher, sob pena de reduzir o valor do direito à vida do feto a um redondo zero.

Porque é que a professora Manuela Tavares, com anos de experiência nestas lides, não parece ter pensado nisto nestes termos? Um recente artigo seu, tristemente intitulado Vencer o défice democrático para além dos "valores", pode apontar para uma explicação...

«Os partidos devem pronunciar-se sobre o défice democrático que representa o julgamento de mulheres por interromperem uma gravidez que não desejam. Ao tomarem esta decisão as mulheres estão a exercer um direito de cidadania que não pode ser negado- o da escolha de uma maternidade livre e consciente.»

Está comprovado. Não só a professora Manuela Tavares ignora completamente a existência ética do embrião/feto, como podemos ainda detectar um problema lógico nesta frase.

«escolha de uma maternidade»

Só que a maternidade apenas se escolhe antes de se ser mãe. Uma mulher que já é mãe não pode "escolher" não ser, sob pena de matar, o que é um erro ético. A escolha é feita ao nível da prevenção da gravidez, do tentar evitá-la. Se ela já ocorreu, então a maternidade, nessa mulher, já é um facto, e contra factos não há argumentos.

Depois, poderíamos ainda questionar o próprio título do seu artigo. Será que a democracia deve ir "para além dos valores"? Mas a democracia não pretende estar fundada sobre valores? Que raio de confusão de conceitos é esta?

De onde vem esta corrupção da intelectualidade, que faz com que pessoas adultas aparentemente racionais não sejam capazes de tecer considerações racionais?

Infelizmente, o dia de hoje está cheio de disparates para comentar. Nessa mesma emissão radiofónica, tive o desprazer de escutar também a voz do Dr. Albino Aroso, que questionado acerca do problema logístico das unidades hospitalares serem capazes de fazer face aos pedidos de aborto legal, ele afirmava categoricamente, menosprezando esse real problema, que o aborto era "um fenómeno raro" nos dias de hoje. Esta frase inexplicável, dita sem pensar aos microfones da rádio, faz sentido no seu contexto de tentar capitalizar uma vida inteira dedicada à contracepção artificial, ao ponto de ser considerado por muitos (e pela jornalista) como o "pai" português do planeamento familiar (será isto um elogio? deve ser!). Curiosa frase sua, quando em plena campanha, as forças políticas pelo "sim" afirmavam, em plenos pulmões, querer acabar com o "flagelo", o "drama", a "calamidade" do aborto clandestino. Será que um "fenómeno raro" pode ser apelidado de "flagelo", "drama" ou "calamidade"? Mas do Dr. Aroso, tratarei mais tarde...

terça-feira, 6 de março de 2007

Aborto obrigatório para os médicos?

A cada dia que passa, as forças "pró-escolha" concentram-se na nova frente da guerra pelo aborto. Agora que o aborto está practicamente legalizado em todo o mundo ocidental, o esforço centra-se na eliminação da objecção de consciência por parte do pessoal médico.

Um recente editorial do New York Times, de 13 de Fevereiro, tragicamente intitulado Doctors Who Fail Their Patients, é um bom exemplo de como grande parte dos media estão milimetricamente sincronizados com os movimentos pró-aborto e com as grandes organizações de saúde como a OMS ou a WMA.

«It was bad enough when pharmacists who call themselves pro-life refused to fill prescriptions for morning-after pills and an emergency medical technician refused to help drive a woman to an abortion clinic.»

Não se percebe a frase. Um farmacêutico que se recusa a vender medicamentos com potencial efeito abortivo está, coerentemente, a defender a vida humana. Os técnicos de saúde que se recusam a colaborar num aborto, mesmo que seja sob a forma de transporte de uma mulher para o local onde ela vai abortar, estão a ser coerentes.

«Now a new survey has revealed that a disturbing number of doctors, at the presumed pinnacle of the health professions, feel no responsibility to inform patients of treatments that the doctors deem immoral or to refer them to other physicians for care.» (negrito meu)

Note-se como os editores usam a palavra "treatment" ("tratamento") para se referirem a medidas como o aborto. Mas veja-se que esta mesma má argumentação também poderia (e muitos o fazem) ser usada em abono da eutanásia. É evidente que nenhum médico tem o direito de se recusar a tratar um doente: faz parte do seu código de conduta e da sua obrigação profissional. Outra coisa completamente diferente diz respeito a estes novos "tratamentos" feitos para pessoas que não estão doentes, como o aborto, ou para pessoas cujo suposto "tratamento" vai, na prática, matá-los. É certo e claro que um médico pode ser objector de consciência em relação aos dois "tratamentos", visto que nenhum deles faz parte da sua obrigação deontológica profissional.

«Although the close-mouthed doctors claim a right to follow their consciences, they are grievously failing their patients and seem to have forgotten the age-old admonition to “do no harm.”»

"Do no harm"...
Custa a perceber, à primeira vista, se o editorial é satírico ou se eles estão mesmo a falar a sério. Será que um médico está mesmo a "falhar gravemente" aos seus doentes, ao se recusar a aplicar pseudo-"tratamentos" que não visam nenhuma doença em concreto, que visam apenas uma solução facilista que vai contra a ética do médico profissional?
Se a expressão "do no harm" parecia estranha perante um aborto, visto que o médico que aborta faz objectivamente mal à mãe e ao filho, então no caso da eutanásia, a expressão torna-se definitivamente patética.

É melhor esmiuçar um pouco esta questão da ética médica. É evidente que nenhum médico pode defender dois sistemas éticos contraditórios, ou defender uma ética viciada com contradições internas. Se um médico fez o Juramento, está comprometido com a obrigação de defender a vida e de dar assistência ao tratamento de doentes, pelo que não poderá invocar a objecção de consciência para, por exemplo, negar o tratamento a um criminoso.
Por outro lado, visto que nem o aborto nem a eutanásia fazem parte das obrigações dos médicos, não há mal algum em que tais médicos possam ser objectores de consciência. No caso do aborto, não há nenhum doente em questão, há apenas um utente do sistema de saúde que não está doente e que se quer ver livre de uma criança. No caso da eutanásia, a sua prática corresponde precisamente ao oposto da função do médico: matar em vez de salvar ou tratar um doente.

Há que explicar, e ninguém parece interessado em fazê-lo do ponto de vista ético, porque razão é que matar (no caso do aborto ou da eutanásia) deveria fazer parte da carteira de serviços obrigatórios para um médico.

«The survey, by researchers at the University of Chicago, was published last week in The New England Journal of Medicine. The researchers mailed questionnaires to some 2,000 doctors asking whether they had religious or moral objections to three controversial practices. Of the 1,144 who responded, only 17 percent objected to “terminal sedation” to render dying patients unconscious, but 42 percent objected to prescribing birth control for adolescents without parental approval, and 52 percent opposed abortion for failed contraception.
The encouraging news is that substantial majorities thought that doctors who objected to a practice nevertheless had an obligation to present all options and refer patients to someone who did not object. But that left 8 percent who felt no obligation to present all options and an alarming 18 percent who felt no obligation to refer patients to other doctors. Tens of millions of Americans probably have such doctors and are unaware of their attitudes.»
(negrito meu)

Este imbecil e autista editorial insiste em escrever frases absurdas como se fossem verdades incontestáveis. Porque razão seria um médico obrigado a apresentar "opções" de pseudo-tratamentos a pessoas que não estão doentes (no caso do aborto)? Porque razão deveria sugerir a morte a um doente (no caso da eutanásia)? Porque razão deveria, nestes casos, estar obrigado a encaminhar esta pessoa para um médico de "ética flexível"?
Sinceramente, considero que os médicos objectores que, recusando-se a cometer os actos que reprovam, insistem em apresentar opções deste tipo, estão a ser incoerentes. Se consideram que tais opções são más, é porque as vêem como más em absoluto, ou seja, não só não resolvem mal algum como também não trazem benefícios (e podem mesmo trazer malefícios, como no caso do aborto e da eutanásia).
Ou seja, o médico objector que se recusa a dar informação desse tipo é um médico profissional e intelectualmente coerente.

«The researchers put the burden on patients to question their doctors upfront to learn where they stand before a crisis develops. But that lets doctors off the hook.»

"Off the hook"?
Esta expressão dá a ideia de que o médico se quer "safar" das suas responsabilidades, quando estas são inexistentes e não fazem parte do seu código deontológico nem das suas obrigações profissionais.

«Physicians have a right to shun practices they judge immoral (...)»

Pelo resto do texto do editorial, é quase anedótico que tenham escrito esta frase...

«(...) but they have no right to withhold important information from their patients. Any doctors who cannot talk to patients about legally permitted care because it conflicts with their values should give up the practice of medicine (negrito meu)

Veja-se bem como este editorial termina. "Legally permitted care", é o termo usado para o aborto, mas também poderia ser usada, do mesmo modo, para a eutanásia. Acho que a palavra "care" está terrivelmente mal empregue, e sobretudo no contexto do aborto ou da eutanásia (morte provocada de um ser humano) a palavra ganha contornos sinistros e macabros. "Care"?

Mas veja-se a admoestação: "should give up the practice of medicine"!
É para isto que caminhamos, dia após dia.
É mesmo só uma questão de tempo. A classe médica está, neste momento, a ser posta à prova no teste ético mais importante da História da Medicina.
Esperemos que os nossos médicos não se comportem como muitos "médicos" dos negros tempos do Terceiro Reich... Mais vale perder o emprego que a dignidade e a honra profissional e humana.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Complexos da esquerda radical

É certo que já ninguém lhes liga nenhuma. Que os "amanhãs cantantes" do Avante estão a desaparecer, finalmente, da nossa sociedade, ainda marcada por um forte complexo de esquerda.
Mas, de tempos a tempos, e porque eles ainda não morreram todos, lá temos que aturar com a chinfrineira dos "anti-fascistas".
O que se viu neste fim-de-semana em Santa Comba Dão foi de uma tristeza e de uma miséria profundas, daquelas que há vários anos não se viam em Portugal. Só faltou uma bombazita no cemitério, na campa do Salazar, para nos recordar os belos anos do terrorismo "anti-fascista" das FP-25.

Eles nunca perceberam a diferença entre nazismo e fascismo. Por isso é que alguns confundem nazismo ou neonazismo com apoio a Salazar. Nem nunca perceberam as enormes diferenças entre o regime fascista de Mussolini (o único ao qual se pode aplicar correctamente o termo "fascista") e o regime ditatorial de Salazar.
É que a palavra "facho" evoca um simbolismo que se apresentava como saudosista do Império Romano, recuperando alguma iconografia dos tempos imperiais, o que só seria útil para um governo centrado em Roma.

Só que a palavra "fascista" é sonora: arranha na garganta.
Ouve-se aquela gente a gritar "FAXISTA", assim mesmo com um "X" bem vincado na garganta, e até se sentem os perdigotos na cara. É uma palavra áspera, fica bem. É bruta. Só que, historicamente, não tem nada a ver com Salazar nem com o Estado Novo.

O mais triste disto tudo é constatarmos que os extremos se atraem sempre. Enquanto os fanáticos gritavam impropérios contra Salazar, a normalmente boa e pacífica população de Santa Comba Dão entusiasmava-se demais, e o sentimento dava origem a gritos disparatados de sentido oposto, exageradamente laudatórios à figura do ditador.

O fanatismo gera sempre fanatismo, e atrai novo fanatismo.
E o ódio cego e irracional "anti-fascista" atrai sempre o seu congénere de sinal oposto. Até me espantei por não ver em Santa Comba Dão os desmiolados "nacionalistas" rapados do costume...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Sobre a consciência

(este texto foi actualizado e aumentado)

Enquanto me debruçava sobre a problemática ética do aborto, uma das coisas que mais me chocou foi a de descobrir as acções dos vários movimentos pró-aborto, dos quais se destacam as várias Associações para o Planeamento Familiar em vários países, a favor da limitação da liberdade de ser objector de consciência.

Recordo-me de pensar que aquilo era (e é) algo de incrível. Propor limitar o número de objectores de consciência, criando um esquema de quotas mínimas de objectores. Parecia algo como uma requisição pública obrigatória em caso de greve. Ou seja, por outras palavras, parecia que queriam transformar os médicos objectores de consciência numa espécie de "médicos grevistas" que, em caso de greve geral, deveriam ser chamados, à força, às suas funções. Este chamamento à força para a prática do aborto torna-se ainda mais sinistro pelo facto de que matar não é uma função médica, não se encaixa na ética de um médico profissional. O médico é treinado e formado para fazer precisamente o oposto: salvar vidas.

Isto parecia demasiado mau para ser verdade, mas basta dar uma vista de olhos pelas ideias defendidas pelos nossos mais esforçados abortófilos. Muitos deles acham perfeitamente normal impor restrições à classe médica neste sentido. De facto, se os médicos portugueses fizessem greve a matar, isso colocaria um grave problema à promessa política de entregar aborto livre a quem o pedir.

Ou seja, do que estamos aqui a falar é disto: se um médico tem a consciência de que abortar é matar um ser humano, e este médico reconhece o mal ético dessa acção (ou seja, sabe pensar e discernir em termos éticos e morais), ele pode vir a ser coagido a fazê-lo contra a sua vontade e em violação da sua liberdade e dos seus direitos fundamentais. Ainda não é o que sucede, mas os vários movimentos pró-aborto têm-se esforçado, em vários países, para tentar colocar um travão à objecção de consciência. Isso está a ser feito para o aborto, mas será certamente também tentado com a eutanásia, e com toda a restante claque de aberrações éticas, como a manipulação de embriões, o infanticídio (Peter Singer e Michael Tooley, um dia, vencerão), entre outras. Só a manipulação genética do ser humano abre já hoje caminhos fascinantes, numa óptica ao estilo dos romances de Mary Shelley, para as futuras e modernas violações à Ética e à deontologia médica.

Apesar de isto me parecer uma aberração, porque concebo que a consciência de cada um é terreno intocável, tenho notado que para muitas pessoas, a requisição obrigatória de médicos para a prática do aborto é algo que vêem com naturalidade, como sendo fundamental para garantir um "bom serviço abortivo". Do "direito a matar", vitória de 11 de Fevereiro último, passamos agora para a "coação a matar".

Porventura, o problema reside numa ideia intelectualmente distorcida do que é a consciência individual. Deveria ser evidente que a consciência está ligada à razão, e não apenas a uma subjectividade emotiva, a uma sensação, a uma predisposição sentimental. Um médico que recusa praticar um aborto por objecção de consciência tem, normalmente, a noção racional do mal ético que é matar um ser humano na sua fase inicial de desenvolvimento. A ponderação da racionalidade versus emotividade poderá variar de médico para médico, mas é certo que há uma base racional para ver o aborto como um mal ético, pelo que isso é possível e torna racional a objecção de consciência.

Vemos então que, no contexto da actual crise intelectual, na qual já não há verdades absolutas nem bens éticos absolutos (isso acabou tudo), a consciência deixa de ser algo de racional, deixa de ser visto como uma tentativa de aderir intelectualmente a uma verdade universal. Passa a ser algo de meramente opinativo. Paradoxalmente, a elevação da subjectividade individual ao estatuto de "verdade individual" permite-o. Visto que cada um pode ter "a sua verdade", isso transforma a consciência pessoal numa ferramenta questionável e contestável. É que se a consciência recta fosse a daquela pessoa que aderiu com a sua razão a uma verdade absoluta ou à protecção de um bem ético absoluto, então violá-la seria um absurdo, uma agressão, um erro ético e lógico imediatamente perceptível.

Como, para muitos, já nada há de absoluto ou de intocável, porque todas as opiniões se "democratizaram", porque a opinião do sábio vale tanto como a do burro, então as consciências dos médicos objectores podem ser vistas como "caprichos" que são toleráveis enquanto existirem médicos de "ética flexível" para matar. Se o número de médicos de ética impecável começar a se manifestar contra o aborto, então esses "caprichos" terão que ser restringidos, e as organizações abortófilas entrarão em marcha.

É a própria subjectividade relativista, campeã da pseudo-intelectualidade moderna, que mina o fundamento racional da consciência individual, e a torna presa fácil das violências quotidianas, promissoras de falsos progressos.

Um dia, os médicos vão ser obrigados a matar, sob pena de perderem a sua carteira profissional. Isso é evidente, porque é o caminho natural da derrapagem...

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Na Vanguarda

Transformámo-nos num país tão intrinsecamente corrupto que sob a capa do seu combate assistimos à mais descarada corrupção!

Que ninguém nos diga que pecamos por falta de originalidade…

O KGB e o "Papa de Hitler"

The KGB Campaign Against Pius XII

Vale a pena ler este artigo de George Weigel, que não há muito tempo esteve em Portugal, tendo proferido uma série de interessantes palestras. Weigel, como muitos, manifesta-se desanimado perante a indiferença da opinião pública face às recentes evoluções no "caso Pio XII".

A 25 de Janeiro de 2007, surgiu um artigo no National Review Online, da autoria do ex-agente secreto comunista romeno, o General Ion Mihai Pacepa, que dava conta de uma série de informação nova (mas já suspeitada há muito pela maioria dos eruditos que estudam este tema) acerca da responsabilidade do KGB na criação da "lenda negra" acerca do Papa Pio XII, caluniado como sendo o "Papa de Hitler".

O artigo do General Ion Mihai Pacepa é fundamental, é histórico e deveria ter levantado, no mínimo, a mesma polémica que as falsas e caluniosas polémicas contra Pio XII.
É claro que isso nunca vai suceder. A mentira, aos olhos da ignorante opinião pública, é quase impossível de apagar. Mentir e caluniar é fácil e tem efeitos perpétuos e duradouros na imagem pública das suas vítimas. Apesar de a verdade vir sempre ao de cima, há muitos que estão interessados em que essa verdade agora revelada de forma mais nítida e clara seja rapidamente varrida para debaixo do tapete.

O mito do "Papa de Hitler" tem que continuar vivo. Há muitos académicos ideologicamente comprometidos que investiram as suas carreiras nesta "lenda negra" e prostituiram a ciência histórica ao serviço de uma guerra cultural anti-católica.

Sobre a fraude titânica

Jesus' Family Tomb Discovery is a Titanic Fraud

"Titanic" director James Cameron and Canadian TV-director Simcha Jacobovici are claiming they have evidence of a Jerusalem tomb that allegedly houses the remains of Jesus and his family. However the foremost archaeologists in Israel have slammed the claims as totally without foundation.

Israeli archeologist Amos Kloner, who was in charge of the 1980 investigation of the tomb which is the subject of the new claims by Cameron-Jacobovici, said "The claim that the burial site has been found is not based on any proof, and is only an attempt to sell." Kloner added, "I refute all claims and efforts to waken a renewed interest in the findings. With all due respect, they are not archeologists." Kloner said that while "it makes a great story for a TV film," there is "no likelihood" that Jesus and his relatives had a family tomb, and dismissed the claims as "impossible" and "nonsense."

(...)

Archeologist Joe Zias, who spent a quarter-century at the Rockefeller University in Jerusalem, said "Simcha has no credibility whatsoever."
(negrito meu)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Mini-glossário para o site "Jesus Family Tomb"

Está tudo muito agitado com este site, acerca do recente documentário de James Cameron:

Jesus Family Tomb

Deixemos Tim McGirk, do blogue "Middle East" da revista Time, explicar-nos o que é que se passa:

«Brace yourself. James Cameron, the man who brought you 'The Titanic' is back with another blockbuster. This time, the ship he's sinking is Christianity.

In a new documentary, Producer Cameron and his director, Simcha Jacobovici, make the starting claim that Jesus wasn't resurrected --the cornerstone of Christian faith-- and that his burial cave was discovered near Jerusalem. And, get this, Jesus sired a son with Mary Magdelene.

No, it's not a re-make of "The Da Vinci Codes'. It's supposed to be true.»
, Tales from the Crypt, 23 de Fevereiro de 2007.

Neste momento, e como é costume, o post de Tim McGirk acerca desta matéria já tem 3159 comentários. Como também é costume, quase todos estes comentários são perfeitos exemplos do enorme poder da Internet para dar voz aos ignorantes.

Para quem está curioso acerca deste novo documentário, nada como ir ao site original dos produtores, clicando no endereço dado acima. Segue-se um mini-glossário para orientação, visto que o jargão técnico usado no mesmo necessita de uma tradução mínima para evitar equívocos.

New Discoveries
Expressão usada para designar descobertas novas para James Cameron e para a sua equipa, velhas (feitas há 27 anos) para uma série de arqueólogos israelitas e de outras partes do globo

Alternative Theories
Leia-se: "Pseudo-história"

The Experts
Leia-se: "Os do costume"

Professor... Scholar... Expert...
Termos usados para designar os colaboradores desta obra de ficção realizada por James Cameron

Essential Facts
Secção criada para introduzir ideias erradas em mentes incultas, sob o disfarce dos métodos tradicionais de "divulgação popular"

Dan Brown
Nome de um dos historiadores de referência neste documentário

Back to Basics
Secção típica de uma triste atitude comum a alguns norte-americanos com espírito prosélito: a hipersimplificação mutiladora de uma realidade complexa

Early Christianity
A cristandade dos primeiros tempos magistralmente sintetizada em três parágrafos

Roman Empire
O Império Romano magistralmente sintetizado em quatro parágrafos

Jewish History
A História Judaica magistralmente sintetizada em três parágrafos

Evidence
Termo usado para designar manipulação de informação

Secret Symbols
Capítulo que não se percebe para que serve

Origins of Freemasonry
Tendo a Maçonaria surgido oficialmente em 1717, não se percebe o que terá a ver com isto, a não ser que o objectivo seja o de promover a antiguidade da Maçonaria

The Holy Bloodline
Sendo uma criação literária de Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, e datando do final dos anos setenta, não se percebe o que terá a ver com isto

The Knights Templar
Sendo uma ordem militar criada no século XII e extinta no século XIV, não se percebe o que terá a ver com isto

Secret Societies
Outro capítulo sobre temas que não têm nada a ver com isto: Illuminati, Skull & Bones, Maçonaria, Rosa-Cruzes - é indesculpável que se tenham esquecido da teoria de que Jesus era um extra-terrestre

Glossary
Tabela de asneiras

Theological Considerations
Considerações humorísticas sobre Teologia feitas pela equipa que produziu o documentário

Sossegue-se o crente mais assustado. Isto não passa de boa ficção!
Esta ficção vem na esteira de um caminho bem preparado e bem urdido.

1982 - Holy Blood, Holy Grail (Lincoln, Baigent e Leigh): teoria da "linhagem sagrada"
1994 - Turin Shroud (Lynn Picknett e Clive Prince): fantasias acerca do Sudário de Turim
1996 - The Tomb of God (Richard Andrews, Paul Schellenberger): Jesus estaria enterrado em Rennes-le-Château (França)
2003 - The Da Vinci Code (Dan Brown): romance lido por muitos como obra histórica, relançou a fantasia da "linhagem sagrada"
2006 - Evangelho de Judas: mais uma peça no puzzle anti-cristão moderno, desta vez patrocinada pela National Geographic Society
2007 - The Lost Tomb of Jesus (James Cameron, Simcha Jacobovici): o filme/documentário anti-cristão do ano

Estes são apenas alguns dos muitos (imensos) marcos nesta caminhada pelo surreal anti-cristianismo pós-moderno, o último dos preconceitos tolerados e promovidos nos nossos dias. O que tem isto a ver com Ciência? Com História?
Rigorosamente nada.