Parte I - Prelúdio
O Ludwig escreveu hoje uma sátira no seu blogue, sob a pena do alter-ego "Dom Mário Neto", que representa a ideia que o Ludwig faz de uma realidade que ele ainda não conhece nem compreende: a da Teologia (e do teólogo). "Dom Mário Neto" é aquilo que o Ludwig imagina ser um teólogo, e usa esse alter-ego para satirizar as crenças religiosas em geral, com especial incidência, por razões óbvias (culturais) no cristianismo.
A discussão começara ontem, quando o Ludwig satirizou um trecho do Primeiro Livro de Samuel. Os detalhes podem ser lidos aqui.
O início da discussão não é interessante por si mesmo (uma disputa acerca da tradução de um termo hebraico), mas sim pelas realidades que faz ressaltar. Devo confessar que até há um quarto de hora atrás, eu não tinha ainda compreendido a objecção do Ludwig: achava que ele queria simplesmente teimar num determinado suposto absurdo conceptual que ele teria encontrado num dos livros do Antigo Testamento. Compreensão lenta a minha, porque na realidade, o problema do Luwdig estava na eterna questão da relação entre os bens materiais e a religião. Juro que só agora é que entendi que este sempre foi o cerne da questão levantada pelo Ludwig no seu texto de Sábado.
Com este comentário do Ludwig, apresentado de seguida, fica-se com a ideia de que o capítulo em questão constitui, para ele, uma prova de algo de muito grave em termos da atitude religiosa de um crente:
«Este relato continua a revelar algo de profundamente ridículo e perturbante com estas crenças religiosas.»
Não pode ser coisa pouca!
Na mesma caixa de comentários, Ludwig escreveu:
«Mesmo com a sua explicação, cuja ideia já conhecia, a minha opinião mantém-se. Ninguém oferece os pecados. Hoje em dia oferece-se dinheiro e jóias, e antigamente era comida, dinheiro e jóias. Ou seja, coisas de valor e não as coisas más de que nos queremos livrar.
E isso é quase universal na religião humana porque todos temos uma grande costela de comerciante.»
Vemos então que, afinal, a questão sempre foi a do ouro, e não tinha propriamente a ver com problemas de tradução. Para Ludwig, o "desastre" revelado no capítulo 6 do Primeiro Livro de Samuel era o facto de que seres humanos (racionais), neste caso os Filisteus, ofereceram ouro a um deus para expiação de pecados.
Este pode bem ser definido como um dos grandes "pecados mortais" do ateísmo esclarecido. Aos olhos destes iluminados, estamos perante algo não menor do que suicídio racionalista. A morte do bom senso. O enterro da Razão.
Parte II - Uma aparente condenação do materialismo
Numa primeira abordagem, Ludwig escolhe um caminho já bem trilhado e pisado por muitos antes dele, nos últimos séculos. A crítica à relação da Igreja com os bens materiais (vou cingir-me ao cristianismo, mas sei que o Ludwig aponta para algo em sentido lato, algo que vise todas as principais religiões). Para o Ludwig, e penso não estar a fazer um juízo errado, toda a Igreja, tendo que existir (idealmente, não existiria no mundo perfeito imaginado por Ludwig, composto por pessoas inteligentes e racionais), deveria ser composta por "Sãos Franciscos", por pessoas totalmente mendicantes, que nunca tocassem em bens materiais. Só dessa forma, na cosmovisão ludwiguiana, a Igreja seria coerente com aquilo que professa.
Trocado por miúdos, esta é a catequese iluminista, defendida por Ludwig, e que hoje em dia se tornou num facto consumado para uma crescente parte dos nossos concidadãos, num verdadeiro mito moderno:
A. Deus não existe (axioma).
1. Os crentes são pessoas pouco cultivadas: uma pessoa com conhecimentos não precisa de Deus para nada.
2. Os crentes de antigamente procuravam consolo na religião porque tinham medo da morte, mas também porque não conseguiam explicar certos fenómenos, hoje explicados pela Ciência; a Ciência deveria ter tornado a Religião num fenómeno caduco e condenado a desaparecer.
3. Os crentes de hoje ainda procuram consolo na religião porque têm medo da morte, mas também porque precisam ainda de uma explicação fácil para as injustiças: a religião é, e sempre foi, uma atitude subjectiva porque totalmente sentimental.
4. As Igrejas são dirigidas por comerciantes, que trocam bens materiais por consolo psicológico.
Sem o axioma, tudo isto cai, certamente, por terra. É na firme certeza filosófica (pela sua natureza, não pode ser uma certeza científica) de que Deus não existe que eles radicam a sua visão de que a religião é um gigantesco engano (para alguns, o maior engano de todos). Há então os que enganam (o clero) e os que são enganados (o povo). A religião, vista como algo que Marx apelidou de "ópio do povo".
A luta da Ciência contra a Religião, levada a cabo por estes bravos lutadores pós-Iluminismo, é então a eterna luta da Luz racionalista contra as Trevas da religião.
Em suma, o ateu esclarecido tem a resposta na ponta da língua:
a) O que quer um papa ou um bispo?
OURO e PODER
b) O que quer o crente?
CONSOLO
Supor que existam altos dirigentes da Igreja que vivem uma vida de fé sincera e devota é algo de aberrante: um alto dirigente da Igreja só lá está pelo poder e pelo ouro.
Supor que existam padres com pouco poder e crentes pobres já é algo de compreensível: são pessoas ignorantes exploradas pelo "sistema" religioso.
Para uma pessoa como o Ludwig, um mártir (que dá a sua vida por Cristo) representa uma tragédia humana enorme, não pelo sacrifício pessoal mas pelo absurdo da causa. O mártir deverá ser, para Ludwig, o supremo da loucura: uma pessoa dar a sua vida (para eles, a única) para encher a barriga e os cofres da padralhada.
Esta visão, está claro, é preconceituosa e baseia-se na ignorância. E é errada. O que é terrível, sobretudo quando tal visão é defendida por espíritos inteligentes, que deveriam ter alguma capacidade para escapar às condicionantes sociais que nos impõem esses preconceitos diariamente...
Parte III - A profissão (inconsciente) do mais arreigado materialismo
A atitude do Ludwig, disse atrás, parece à primeira vista (e parecer-lhe-á a ele mesmo) uma crítica do materialismo da Igreja. Ou seja, uma posição que teria tudo para ser anti-materialista. O Ludwig não aceita que as oferendas a Deus (por intermédio da Igreja) possam ter um significado sofisticado ou metafísico, ou possam ser gestos razoáveis ou aceitáveis. Para o Ludwig, tais significados metafísicos são normalmente "cozinhados" pelo blinólogo Dom Mário Neto de serviço. Porque não há, para o Ludwig, nenhum mistério numa oferenda destas: é apenas um crente a ir na argolada da Igreja.
Para o Ludwig, quando uma pessoa crente como eu coloca uma moeda no cestinho do ofertório, durante a Missa, está a ser burlado: a trocar consolo por dinheiro. Do lado de lá do altar, está o supremo comerciante: o padreco, esse gatuno do trabalho dos outros.
Esta visão, tão típica (será das mais típicas) do Iluminismo, do Modernismo, e ainda viva nesta época pós-modernista, longe de ser anti-materialista, é, na realidade, uma visão no extremo máximo do materialismo.
Sem modelos nem referências transcendentais, o ateu radica a sua existência no hic et nunc, no "aqui e agora" utilitarista, na fruição da experiência existencial tal qual ela é, sem grandes interrogações ou suposições metafísicas.
Por isso, a vida do ateu é explicada de forma simples: "Trabalho para obter dinheiro; uso o dinheiro para obter comida; como para me manter vivo; morro. Ponto final.".
Neste sentido, os bens materiais são preciosos para o ateu: são o combustível que mantém em movimento toda a máquina existencial ateísta: o corpo humano, esse robô sofisticado que um dia, segundo eles, a Ciência não só emulará, mas melhorará infinitamente. O ateu luta arduamente para evitar a morte. Ficar vivo só porque sim, só para aproveitar a vida, os bens materiais desta vida, é isso que o ateu quer.
Haverá então maior pecado ateísta, maior violação ética ao código comportamental do ateu, do que desperdiçar bens materiais? Do que perder a vida? Do que não procurar a satisfação sensorial? Do que perder a oportunidade de fruir destes bens numa sofreguidão individualista e epicurista?
Violar o carpe diem, este é o maior pecado do Homem aos olhos do ateu...
Isto é puro materialismo.
Como diz o Ludwig, o ser humano tem sempre algo de comerciante. O ateu radica a existência humana nos bens materiais, é deles que tudo parte, é para eles que tudo regressa. Os bens materiais explicam tudo. "Money makes the world go round!".
No fundo, na base da crítica que o Ludwig faz à existência de uma relação entre os bens materiais e a Igreja, está, paradoxalmente, um amor enorme (não confessado) aos bens materiais, essa bóia de salvação existencial, essa realidade tangível (para eles, o intangível é inútil, mais, é irreal) que dá aos ateus a sua sensação de segurança ontológica.
Parte IV - A religião e os bens materiais
Para o crente, que não sofre destes dilemas existenciais insolúveis, a coisa é relativamente simples:
1. Deus criou tudo. Rigorosamente tudo, incluindo os bens materiais.
2. A vida não pertence ao Homem, mas sim a Deus: é um dom de Deus para o Homem.
3. Os bens materiais não pertencem ao Homem: são colocados por Deus à disposição do Homem.
4. Os homens entregam o fruto do seu trabalho (em géneros ou dinheiro) em oferenda a Deus, colocando-o nas mãos daqueles que vivem exclusivamente para o serviço a Deus (o clero).
5. O clero fica responsável (depositário) de bens que não lhe pertencem, e que se destinam ao serviço divino.
Quando vemos um determinado prelado a viver uma vida de luxo desnecessário, podemos indignar-nos com razão: aquele homem está a esbanjar algo que não lhe pertence, não está a aplicar os bens que lhe foram confiados para servir a Deus.
Mas, e esta é a tragédia da incompreensão do Ludwig, há um abismo enorme entre esta atitude de cupidez humana, infelizmente demasiado frequente devido à nossa fraca natureza, e a atitude do prelado responsável, que gere bem os bens que lhe são confiados, e que os usa nas variadas vertentes do serviço a Deus, que passa pela ajuda aos que não têm, pelo trabalho de evangelização, pela defesa do património cultural do cristianismo, pela defesa da Igreja face aos seus agressores externos.
Quando eu entrego a minha dádiva no cesto, durante o Ofertório, tenho a perfeita consciência de que essa deve ser a menor parte da minha dádiva à sociedade, à Igreja, e a Deus enquanto cristão. Tenho muito mais que posso dar, e devo procurar oferecer, sobretudo, bens imateriais. Mas também tenho a consciência de que estou a depositar algo de material e que tem valor, à guarda de pessoas nas quais confio. Em muitos casos, porque o sacerdote costuma dizê-lo, até posso saber o destino dessa dádiva.
Se determinadas pessoas falham nessa minha confiança, se usam mal esses bens, serão elas a responder perante o Criador, e não eu. Acima de tudo, não é o acto de oferecer que está errado. Não é quem oferece que está errado. Oferecer está certíssimo. É a forma natural e racional de proceder.
Assim, como vemos, para o crente, os bens materiais devem fluir na sociedade, não só para a subsistência material da mesma, mas também para a maior glória de Deus. É nesse sentido que todo o crente razoável sabe que o trabalho de Deus nesta Terra também requer bens materiais. Em maior ou menor quantidade, consoante o destino dos mesmos. Esse destino tem é que ser justo e proporcional, mas isso é uma questão secundária e não central ao acto de dar.
A Igreja não é gnóstica: não há nada de maligno na Criação, nem nos bens, nem sequer no ouro, na prata, ou nas pedras preciosas. O que a Igreja ensina é algo de elementar e simples: quanto mais valioso é o bem, maior a responsabilidade do seu proprietário (ou do seu guardião) em dar-lhe bom uso.
Os bens servem o Homem. Mas isto tem muitas dimensões, para além da biológica, orgânica, psicológica ou social. Para o crente, o serviço dos bens ao Homem terá que passar, indiscutivelmente, por aproximá-lo de Deus. Logo, o destino mais elevado de um bem material é o de ser empregue para a glória de Deus, para fazer a ponte entre o Homem e Deus.
Na verdade, o bom crente dá um valor relativo aos bens materiais. Um valor não nulo, um valor positivo, mas incomparavelmente menor que o valor que um ateu lhes dá. Porque o crente sabe que a sua vida é finita. Que um dia acaba. E que nada de material, nem sequer o nosso corpo, se leva desta vida para a outra. Para o ateu, tudo o que há é para ser gozado nesta vida, que para eles é a única.
Assim, o ateísmo é, na verdade, um puro materialismo. Por definição.
Sobre a cupidez dos padres, muitos e santos homens escreveram afincadamente. Por exemplo, o nosso Santo António de Lisboa dedicou-lhes muitas e duras palavras (ver, entre muitos outros, o sermão do 5º Domingo depois da Páscoa, I, 663, sobre os vícios dos sacerdotes). O sacerdote que dá mau uso aos bens ao seu cuidado, e que não se arrependa a tempo, está perdido. Pobres de tais sacerdotes, indignos servidores de Deus, traidores na causa mais nobre. O mais triste é que tais pessoas estão reféns de um bloqueio intelectual que os faz servir o senhor errado. Servem o metal em vez de servir a Deus. Mas isso não faz do metal algo de mau, nem obriga a um divórcio entre os bens materiais e o serviço a Deus.
Este conceito que procurei explicar, o da utilidade e justeza do uso dos bens materiais no serviço a Deus, é incompreensível à "luz" (que raio de luz, esta, que escurece as mentes!) da distorcida cosmovisão do "ateísmo esclarecido", nascido da defesa dos novos dogmas decretados pela soi disant "Razão" contra Deus no século XVIII.
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
domingo, 26 de agosto de 2007
sábado, 25 de agosto de 2007
Verde miséria
O desregulamento intelectual das sociedades modernas traz ao de cima, como um dos seus mais preocupantes sintomas, a multiplicação dos paradoxos morais.
Recentemente, um bando de indigentes "ecoterroristas", que usam uma fachada de pseudo-ecologia para entrar em acções agressivas, subversivas e anárquicas, destruiu parte de uma plantação de milho transgénico.
Chamar este acto analfabeto de "activismo ecológico", não passa, certamente, de um "verde" eufemismo...
O assunto foi noticiado ad nauseam pela Imprensa, ao ponto de se tornar irrelevante discutir os detalhes. Sobretudo, é precoce discutir o facto de a polícia pouco ou nada ter feito, e de os nossos "ecoterroristas" não terem sido sancionados ou obrigados a pagar os estragos físicos e psicológicos, porque o problema encontra-se mais a montante.
Quer se queira, quer não, tornou-se socialmente aceitável usar da violência em nome de certas causas "politicamente correctas" como a ecologia, a protecção dos animais, ou mesmo essa vaga e intelectualmente confrangedora luta contra o "G-8".
Os nossos políticos, independentemente do seu quadrante (sendo certamente mais presentes na extrema esquerda a tendência para a apologia e mesmo patrocínio deste tipo de violência), começam a pouco e pouco a aceitar certos actos de violência como parte da liberdade de expressão.
Queimar viaturas passa a ter uma causa justa: a opressão económica do G-8 sobre o Mundo!
Conspurcar e vandalizar praças de toiros passa a ter uma causa justa: defender o pobre toiro da violência humana.
Destruir colheitas passa a ter uma causa justa: lutar contra os alimentos geneticamente modificados (independentemente do gene que é modificado, até porque tal gente não sabe bem o que é isso de genética).
Contudo, os mesmos activistas, apostando numa versão invertida e perversa de "causa justa", distorcem o real significado do que é uma luta por uma causa justa.
A ética mais justa e universal considera que é justo lutar (usar da violência) em auto-defesa, ou em defesa daqueles que temos à nossa responsabilidade.
Acima de todos os direitos está o direito à vida. Quando certos activistas anti-aborto atacam os matadouros onde se pratica o aborto "legal", os mesmos defensores da violência contra o milho transgénico ou da violência contra as praças de touros, indignam-se perante actos que, segundo eles, atentam contra direitos da mulher. Chegam a chamar de fanáticos aqueles que atentam contra tais "clínicas".
Estranha distorção de conceitos...
É certamente ilegítimo matar um "médico" abortista, mesmo que durante a prática do seu vil acto, se existir uma alternativa não cruenta. Contudo, é eticamente discutível se será assim tão errado tentar impedir um aborto provocando estragos materiais, sem atentar contra a vida de ninguém.
Destruir material médico, ou partir vidros de uma clínica, como estratégia para evitar a morte de um feto humano parece-me algo que dificilmente poderá ser visto como não ético, a não ser numa nova forma "moderna" de ética que dá mais valor ético aos vidros e aos aparelhos médicos do que ao ser humano.
Mas a essência desta minha interrogação está aqui: que raio de perversão intelectual viverá na mente daqueles activistas (e respectivos protectores políticos) que usam da violência para defender o milho natural e os toiros, mas que não se sentem minimamente apiedados pela vida humana fetal ou embrionária?
Aos olhos de certos políticos da esquerda radical (mas a doença também se alastra para a direita), faz parte da moderna "kulturkampf" valorizar mais a vida animal ou vegetal do que a humana... A verdade é que a corrente utilitarista, que hoje em dia campeia no estudo da Ética, com prejuízo para a clássica ética deontológica, tem cumprido a sua função de dissolução da hierarquia de valores.
O ser humano moderno, viciado numa falsa intelectualidade, perdido na árdua batalha quotidiana para conseguir hierarquizar minimamente os seus valores éticos, está agora a ser convencido pela ética utilitarista moderna a abdicar totalmente desses mesmos valores, que são vistos pelos "novos pensantes" como algo semelhante a fósseis de uma antiga religiosidade caduca, que urge extinguir em nome do dogma do "Progresso".
Recentemente, um bando de indigentes "ecoterroristas", que usam uma fachada de pseudo-ecologia para entrar em acções agressivas, subversivas e anárquicas, destruiu parte de uma plantação de milho transgénico.
Chamar este acto analfabeto de "activismo ecológico", não passa, certamente, de um "verde" eufemismo...
O assunto foi noticiado ad nauseam pela Imprensa, ao ponto de se tornar irrelevante discutir os detalhes. Sobretudo, é precoce discutir o facto de a polícia pouco ou nada ter feito, e de os nossos "ecoterroristas" não terem sido sancionados ou obrigados a pagar os estragos físicos e psicológicos, porque o problema encontra-se mais a montante.
Quer se queira, quer não, tornou-se socialmente aceitável usar da violência em nome de certas causas "politicamente correctas" como a ecologia, a protecção dos animais, ou mesmo essa vaga e intelectualmente confrangedora luta contra o "G-8".
Os nossos políticos, independentemente do seu quadrante (sendo certamente mais presentes na extrema esquerda a tendência para a apologia e mesmo patrocínio deste tipo de violência), começam a pouco e pouco a aceitar certos actos de violência como parte da liberdade de expressão.
Queimar viaturas passa a ter uma causa justa: a opressão económica do G-8 sobre o Mundo!
Conspurcar e vandalizar praças de toiros passa a ter uma causa justa: defender o pobre toiro da violência humana.
Destruir colheitas passa a ter uma causa justa: lutar contra os alimentos geneticamente modificados (independentemente do gene que é modificado, até porque tal gente não sabe bem o que é isso de genética).
Contudo, os mesmos activistas, apostando numa versão invertida e perversa de "causa justa", distorcem o real significado do que é uma luta por uma causa justa.
A ética mais justa e universal considera que é justo lutar (usar da violência) em auto-defesa, ou em defesa daqueles que temos à nossa responsabilidade.
Acima de todos os direitos está o direito à vida. Quando certos activistas anti-aborto atacam os matadouros onde se pratica o aborto "legal", os mesmos defensores da violência contra o milho transgénico ou da violência contra as praças de touros, indignam-se perante actos que, segundo eles, atentam contra direitos da mulher. Chegam a chamar de fanáticos aqueles que atentam contra tais "clínicas".
Estranha distorção de conceitos...
É certamente ilegítimo matar um "médico" abortista, mesmo que durante a prática do seu vil acto, se existir uma alternativa não cruenta. Contudo, é eticamente discutível se será assim tão errado tentar impedir um aborto provocando estragos materiais, sem atentar contra a vida de ninguém.
Destruir material médico, ou partir vidros de uma clínica, como estratégia para evitar a morte de um feto humano parece-me algo que dificilmente poderá ser visto como não ético, a não ser numa nova forma "moderna" de ética que dá mais valor ético aos vidros e aos aparelhos médicos do que ao ser humano.
Mas a essência desta minha interrogação está aqui: que raio de perversão intelectual viverá na mente daqueles activistas (e respectivos protectores políticos) que usam da violência para defender o milho natural e os toiros, mas que não se sentem minimamente apiedados pela vida humana fetal ou embrionária?
Aos olhos de certos políticos da esquerda radical (mas a doença também se alastra para a direita), faz parte da moderna "kulturkampf" valorizar mais a vida animal ou vegetal do que a humana... A verdade é que a corrente utilitarista, que hoje em dia campeia no estudo da Ética, com prejuízo para a clássica ética deontológica, tem cumprido a sua função de dissolução da hierarquia de valores.
O ser humano moderno, viciado numa falsa intelectualidade, perdido na árdua batalha quotidiana para conseguir hierarquizar minimamente os seus valores éticos, está agora a ser convencido pela ética utilitarista moderna a abdicar totalmente desses mesmos valores, que são vistos pelos "novos pensantes" como algo semelhante a fósseis de uma antiga religiosidade caduca, que urge extinguir em nome do dogma do "Progresso".
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Raptar o "papa de Hitler"?

O jornalista Dan Kurzman, correspondente do The Washington Post, foi, em 1970, o primeiro a entrevistar o SS Karl Wolff (1900-1984), que naquele ano tinha sido libertado da sua pena de prisão, tendo regressado à sua casa em Darmstadt.
Kurzman acaba de ver publicada (em Maio último) a sua mais recente obra A Special Mission: Hitler's Secret Plot to Seize the Vatican and Kidnap Pope Pius the XII, um refrescante livro que conta com bastantes detalhes o plano delineado por Hitler em Setembro de 1943 para raptar o Papa Pio XII, assassinando no processo toda a Curia romana.
O General Karl Wolff, ajudante de Heinrich Himmler, uma das figuras de proa das SS, recebeu de Hitler a incumbência de executar esta terrível missão. Wolff, de forma oportunista, procurou protelar durante vários meses estas ordens de Hitler, acabando por contar mais tarde todo o plano ao Papa Pio XII, de forma a aparecer aos olhos do Papa, e consequentemente dos vencedores Aliados, como amigo da Santa Sé.
Wolff, suspeitando que a Alemanha iria perder a guerra, jogou a carta certa num jogo arriscado: pelo seu papel pacífico relativamente à Santa Sé, e sobretudo pelo facto de ter entregue as forças armadas sem protesto aos Aliados na Primavera de 1945, escapou ao cadafalso, tendo recebido uma curta pena de prisão em Nuremberga.
Desobedecendo a Hitler, numa série de actos que se qualificariam de alta traição ao Terceiro Reich, Karl Wolff evitou o que seria a repetição histórica de mais um atentado contra a integridade física de um pontífice, algo que já tinha sucedido no passado, bastando recordar os actos de líderes como Napoleão e Filipe IV de França.
O mais curioso neste recente livro de Kurzman, que se lê como um policial de espionagem (contudo, bem documentado e referenciado), é a forma como esta documentação trazida à luz do dia ridiculariza de forma trágica a tese de um John Cornwell, de que Pio XII seria "o Papa de Hitler".
Há dois momentos históricos, infelizmente pouco conhecidos, que resumem o absurdo da tese do "papa de Hitler":
a) o plano de Hitler para assassinar toda a Curia e raptar (ou matar) Pio XII, revelado magistralmente nesta obra de Kurzman; porquê todo este ódio de Hitler por aquele que, segundo Cornwell, seria "o seu Papa"? Responder a esta questão implica mergulhar na verdade histórica, o que nem sempre é fácil nem desejável para certos fazedores de opinião;
b) a conspiração de altas figuras da Oposição alemã a Hitler para depor ou assassinar o ditador, que terminou em fatídico falhanço no Outono de 1939, conspiração na qual o Papa Pio XII, jogando um jogo tremendamente arriscado, fez não só de patrocinador mas também de "pombo-correio", numa cadeia de comunicação complexa, que percorria linearmente todas estas figuras:
- os líderes da Oposição alemã a Hitler (Beck, Canaris, Halder, etc.)
- o "emissário" da Oposição no Vaticano, o Dr. Joseph Muller
- o padre jesuíta Robert Leiber (homem da confiança pessoal de Pio XII)
- o Papa Pio XII
- o embaixador do Reino Unido na Santa Sé, D'Arcy Osborne
- o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Lord Halifax
A cadeia de comunicação seguia, depois, o caminho inverso, de regresso à Oposição na Alemanha. Note-se que nenhuma peça de informação acerca desta conspiração atravessava a cadeia de comunicação da Oposição em direcção ao Foreign Office, ou na direcção inversa, sem passar pelas próprias mãos de Pio XII!
Mais detalhes sobre este segundo ponto surgem explanados na obra densa e académica de Harold C. Deutsch, The Conspiracy Against Hitler in the Twilight War (1968, University of Minnesota Press). Deutsch explica bem como o Santo Padre, temendo os enormes riscos de tal operação, quis reservar estas tarefas secretas para si mesmo e para menos de meia dúzia de confidentes. Anos mais tarde, após a Guerra, o padre Leiber viria a dizer que o Papa Pio XII "fora longe demais"!
Encontrar o pontífice Pio XII na cadeia de uma conspiração para depor o ditador Hitler é algo de tão exótico e surpreendente que nos faz ver com outros olhos as teses propagandísticas daqueles autores recentes que querem convencer o mundo de que Pio XII, o maior inimigo de Hitler, era, de facto, uma espécie de "Papa de Hitler"...
As conclusões finais acerca de toda esta polémica só serão sanadas (aos olhos dos especialistas, visto que na opinião pública, o mal já está feito e é quase irremediável) quando finalmente toda a documentação da Santa Sé relativa a este período estiver catalogada e acessível aos investigadores, algo que ainda poderá demorar mais alguns anos.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
A eficiência das fábricas da morte
Artigo 17.o
Resíduos hospitalares
Os estabelecimentos de saúde onde se realize a interrupção
cirúrgica da gravidez devem assegurar, por si
ou com recurso a serviços de terceiros, a organização
e gestão global dos resíduos sólidos hospitalares.
Isto está mesmo bem pensado.
Os "resíduos hospitalares", expressão tecnicista para "pirralhos destruídos e arrancados da barriga da mãe", devem ser "organizados" e "geridos" pelo "estabelecimento de saúde". Note-se a sofisticação da linguagem e a aparência de ciência e de técnica usada para tentar esconder a perfídia. "Organizam-se" seres humanos abortados. "Gerem-se" cadáveres. Aposto que o saudoso Dr. Adolf Eichmann, SS Obersturmbannführer do Terceiro Reich, também tinha prevista uma cláusula destas para que cada Campo de Concentração se encarregasse da organização e gestão global dos resíduos sólidos que gerasse...
Estalinismo médico
ANEXO V
Certificado de comprovação do tempo de gestação
(previsto no artigo 17.º—a integrar o processo clínico)
Estabelecimento de saúde
A preencher antes da intervenção
Eu ______________________________________________________(em maiúsculas),
observei a Sra. ______________________________________________________, com
o Processo clínico n.º __________________, e atesto, de acordo com ecografia realizada
a ___/___/______, que a gravidez, nesta data, não excede as 10 semanas de gestação.
Etiqueta identificativa do médico/a
Assinatura
Data ________/____/____
Note-se a frieza científica da palavra "intervenção". Kafka não escreveria melhor.
Só falta um toque de sofisticação. Antes da assinatura do médico, a comprovar que o pirralho não cumpre a idade mínima para poder viver, deveriam constar as palavras "Mate-se", após as quais, o médico abortista poderia então assinar alegremente, antes de dar largas à sua fruição infanticida.
O ódio aos médicos e à Ética
O actual ministro (melhor seria dizer "sinistro") Correia de Campos, na sua imparável campanha de ódio contra os médicos e sanha anti-ética, mereceu ontem uma esclarecida carta aberta do Prof. Gentil Martins no Público. Foi graças a esta carta aberta que me dei conta do que a seguir vou comentar.
Um dos maiores problemas com a nova lei do aborto, como esperado, é o obstáculo da ética médica, o grande problema que constitui, para um médico competente e responsável, o atropelo ético desta nova lei.
Até hoje, os médicos, na sua formatura, juram defender a vida humana desde o seu início, algo pouco compatível com esta nova "opção" da mulher em matar a vida no seu seio.
No entanto, as leis vão saindo, e as portarias também. As coisas acontecem demasiado depressa, para que o país não tenha tempo para pensar. Se queremos ver mesmo o ódio do ministro aos médicos, na sua plena expressão, nada como dar uma olhada à Portaria n.º 741-A/2007.
Nela se encontra, entre outras coisas horrorosas, o triste "Anexo III", com o formulário que o médico objector de consciência deverá preencher:
«Tenho conhecimento da minha obrigação de prestar a assistência necessária às mulheres cuja saúde esteja comprometida ou em risco, em situações decorrentes da interrupção da gravidez.»
O que aqui se pergunta é se o médico vai dar assistência médica a mulheres que venham a sofrer de complicações pós-aborto. Estranho pedido, visto que isso é que é ser médico: assistir pessoas com problemas de saúde, sejam eles quais forem. Não se pergunta a um médico se ele quer assistir um homicida ou a vítima de um suicídio falhado. Por muito que o próprio médico não seja homicida, e repudie o suicídio, não deixará de assistir a vítima. Do mesmo modo, não passa pela cabeça, a não ser como estratégia de humilhação, obrigar o médico objector a afirmar que tem conhecimento da mais elementar responsabilidade médica.
«Tenho conhecimento da minha obrigação de encaminhar as mulheres grávidas que solicitem a interrupção da gravidez para os serviços competentes, dentro dos prazos legais.»
Esta frase, por sua vez, é pura e dura tirania. É violação da objecção de consciência. É obrigar o médico que não quer abortar porque vê o aborto como um mal anti-humanitário, a pedir-lhe que colabore nesse mal, encaminhando a mulher para o carniceiro de serviço. Esta frase, por si só, atropela o direito constitucional à objecção de consciência. Se eu fosse médico, nunca concordaria com tal coisa. Esta obrigação é artificial, porque desprovida de direito. É uma tirania.
«Tenho conhecimento de que me encontro impossibilitado de participar na consulta prévia e no acompanhamento das mulheres grávidas durante o período de reflexão.»
Finalmente, em tirada de mestre, o atestado de incompetência profissional do médico objector, assinado pelo mesmo. Aqui se obriga o médico a reconhecer-se profissionalmente incapaz para acompanhar uma mulher grávida, não vá dar-se a possibilidade deste médico objector vir a convencer a mulher (ah, malvada opressão aos direitos da mulher!), e do pirralho vir a nascer!
A lata, a desfaçatez, a falta de pudor, a podridão ética, tudo isto tem um nome: Correia de Campos!
Um dos maiores problemas com a nova lei do aborto, como esperado, é o obstáculo da ética médica, o grande problema que constitui, para um médico competente e responsável, o atropelo ético desta nova lei.
Até hoje, os médicos, na sua formatura, juram defender a vida humana desde o seu início, algo pouco compatível com esta nova "opção" da mulher em matar a vida no seu seio.
No entanto, as leis vão saindo, e as portarias também. As coisas acontecem demasiado depressa, para que o país não tenha tempo para pensar. Se queremos ver mesmo o ódio do ministro aos médicos, na sua plena expressão, nada como dar uma olhada à Portaria n.º 741-A/2007.
Nela se encontra, entre outras coisas horrorosas, o triste "Anexo III", com o formulário que o médico objector de consciência deverá preencher:
«Tenho conhecimento da minha obrigação de prestar a assistência necessária às mulheres cuja saúde esteja comprometida ou em risco, em situações decorrentes da interrupção da gravidez.»
O que aqui se pergunta é se o médico vai dar assistência médica a mulheres que venham a sofrer de complicações pós-aborto. Estranho pedido, visto que isso é que é ser médico: assistir pessoas com problemas de saúde, sejam eles quais forem. Não se pergunta a um médico se ele quer assistir um homicida ou a vítima de um suicídio falhado. Por muito que o próprio médico não seja homicida, e repudie o suicídio, não deixará de assistir a vítima. Do mesmo modo, não passa pela cabeça, a não ser como estratégia de humilhação, obrigar o médico objector a afirmar que tem conhecimento da mais elementar responsabilidade médica.
«Tenho conhecimento da minha obrigação de encaminhar as mulheres grávidas que solicitem a interrupção da gravidez para os serviços competentes, dentro dos prazos legais.»
Esta frase, por sua vez, é pura e dura tirania. É violação da objecção de consciência. É obrigar o médico que não quer abortar porque vê o aborto como um mal anti-humanitário, a pedir-lhe que colabore nesse mal, encaminhando a mulher para o carniceiro de serviço. Esta frase, por si só, atropela o direito constitucional à objecção de consciência. Se eu fosse médico, nunca concordaria com tal coisa. Esta obrigação é artificial, porque desprovida de direito. É uma tirania.
«Tenho conhecimento de que me encontro impossibilitado de participar na consulta prévia e no acompanhamento das mulheres grávidas durante o período de reflexão.»
Finalmente, em tirada de mestre, o atestado de incompetência profissional do médico objector, assinado pelo mesmo. Aqui se obriga o médico a reconhecer-se profissionalmente incapaz para acompanhar uma mulher grávida, não vá dar-se a possibilidade deste médico objector vir a convencer a mulher (ah, malvada opressão aos direitos da mulher!), e do pirralho vir a nascer!
A lata, a desfaçatez, a falta de pudor, a podridão ética, tudo isto tem um nome: Correia de Campos!
domingo, 8 de julho de 2007
Novo «motu proprio» do Papa Bento XVI
Ontem, 7 de Julho de 2007, foi publicado o texto (para já, apenas na língua oficial latina) do mais recente «motu proprio» do Papa Bento XVI, "Summorum pontificum", que altera a regulamentação relativa ao uso do tradicional Missal de S. Pio V, na sua última versão que incluiu modificações feitas pelo Papa João XXIII em 1962.
Este Missal tradicional passa a estar acessível aos fiéis, sem que seja, evidentemente, revogado o Missal de Paulo VI (1970), que permanece como a versão ordinária do rito católico latino.
Desde 1988, após decisão do Papa João Paulo II, era já possível usar a versão tradicional do rito latino, mas apenas após autorização episcopal. Este recente "motu proprio" do Papa Bento XVI libera agora o uso do Missal tradicional de 1962, mantendo, no entanto, o novo Missal de 1970 como o ordinário.
Summorum Pontificum (em latim)
O próprio Papa Bento XVI dá a explicação necessária a este importante acontecimento, como podemos ler neste texto explicativo (em português):
Explicação papal
Deixando explicações mais detalhadas para quando tivermos disponível o texto do "motu proprio" em português, é importante clarificar alguns mal-entendidos, previsíveis, e já bem conhecidos de quem segue a forma como alguma má Comunicação Social costuma distorcer o que não compreende, ou o que insiste em distorcer, sabe-se lá com que intenções...
1. A diferença não se prende apenas com a língua latina: o missal do Papa Paulo VI (pós-conciliar) também foi editado em latim e está acessível nesta língua (a oficial da Santa Sé); da versão latina, emanam todas as versões vernaculares;
2. Em ambos os casos, trata-se do mesmo rito, o rito latino; este rito, após o novo Missal de 1970, passou a dispor de duas formas de celebração, a antiga/tradicional (1962) e a nova/pós-conciliar (1970); contudo, não existia regulamentação específica em relação à forma antiga (o Papa João Paulo II tentou corrigir a situação, que agora é rectificada pelo Papa Bento XVI);
3. O rito ordinário (o prescrito) continua a ser o novo rito do Missal do Papa Paulo VI;
4. O rito antigo e tradicional sempre teve legalidade e regularidade litúrgica: nunca poderia ser classificado de inválido ou prejudicial, uma vez que serviu (e serve) a Igreja durante a esmagadora maioria da sua História.
Parecem evidentes três vantagens desta recente decisão pontifícia:
A. Honrar a beleza e a importância do rito antigo
B. Defender e reforçar a importância do rito novo
C. Evitar divisões no interior da Igreja: ambos os ritos são importantes para a fé dos católicos
Este Missal tradicional passa a estar acessível aos fiéis, sem que seja, evidentemente, revogado o Missal de Paulo VI (1970), que permanece como a versão ordinária do rito católico latino.
Desde 1988, após decisão do Papa João Paulo II, era já possível usar a versão tradicional do rito latino, mas apenas após autorização episcopal. Este recente "motu proprio" do Papa Bento XVI libera agora o uso do Missal tradicional de 1962, mantendo, no entanto, o novo Missal de 1970 como o ordinário.
Summorum Pontificum (em latim)
O próprio Papa Bento XVI dá a explicação necessária a este importante acontecimento, como podemos ler neste texto explicativo (em português):
Explicação papal
Deixando explicações mais detalhadas para quando tivermos disponível o texto do "motu proprio" em português, é importante clarificar alguns mal-entendidos, previsíveis, e já bem conhecidos de quem segue a forma como alguma má Comunicação Social costuma distorcer o que não compreende, ou o que insiste em distorcer, sabe-se lá com que intenções...
1. A diferença não se prende apenas com a língua latina: o missal do Papa Paulo VI (pós-conciliar) também foi editado em latim e está acessível nesta língua (a oficial da Santa Sé); da versão latina, emanam todas as versões vernaculares;
2. Em ambos os casos, trata-se do mesmo rito, o rito latino; este rito, após o novo Missal de 1970, passou a dispor de duas formas de celebração, a antiga/tradicional (1962) e a nova/pós-conciliar (1970); contudo, não existia regulamentação específica em relação à forma antiga (o Papa João Paulo II tentou corrigir a situação, que agora é rectificada pelo Papa Bento XVI);
3. O rito ordinário (o prescrito) continua a ser o novo rito do Missal do Papa Paulo VI;
4. O rito antigo e tradicional sempre teve legalidade e regularidade litúrgica: nunca poderia ser classificado de inválido ou prejudicial, uma vez que serviu (e serve) a Igreja durante a esmagadora maioria da sua História.
Parecem evidentes três vantagens desta recente decisão pontifícia:
A. Honrar a beleza e a importância do rito antigo
B. Defender e reforçar a importância do rito novo
C. Evitar divisões no interior da Igreja: ambos os ritos são importantes para a fé dos católicos
sábado, 16 de junho de 2007
O dogma da Evolução
"Se o dogma, como diz Suarès, é «o contrário da prova», afirmar a evolução como um dogma é, logo à partida, reconhecer a falta de prova. Este é precisamente o reconhecimento que fazem sem rodeios vários naturalistas. Em 1879, Haeckel escrevia ao anatomista Virchow: «Não é possível imaginar nada mais absurdo, nada que demonstre melhor que não se compreende nada da nossa teoria da evolução, do que pedir que a fundemos sobre provas experimentais». E Delage, que era seguramente um espírito científico de outra envergadura que Haeckel, proclamava por sua vez, em 1903, no seu livro Hérédité et les grands problèmes de la Biologie générale: «Reconheço sem dificuldade que nunca vimos uma espécie gerar outra, nem se transformar noutra, e que não temos nenhuma observação formal que demonstre que tal coisa alguma vez teve lugar. Considero todavia que a evolução é tão certa como se tivesse sido demonstrada objectivamente. Aqueles a quem estas premissas chocam, basta-lhes fechar este livro». Bom, é nos pedido aqui um acto de fé, e é na verdade sob a forma de uma verdade revelada que cada um de nós recebeu em tempos a noção de evolução." - Louis Bounoure, Détérminisme et finalité, Flammarion, pp. 48-49.
Parece-me justo sublinhar a posição honesta de Delage: apresentar ao leitor, logo no início da obra, qual é o seu pressuposto, o seu axioma. Este é, claramente, aceitar a evolução como um facto provado, sem que o tenha sido. Nada tenho contra tal posição pística, porque o criacionista também aceita a Criação como um facto, sem a poder provar empiricamente. Mas ao menos, Delage evita o caminho fácil de muitos evolucionistas, que encarnam nos dias de hoje o pior espírito proselitista de Haeckel.
Parece-me justo sublinhar a posição honesta de Delage: apresentar ao leitor, logo no início da obra, qual é o seu pressuposto, o seu axioma. Este é, claramente, aceitar a evolução como um facto provado, sem que o tenha sido. Nada tenho contra tal posição pística, porque o criacionista também aceita a Criação como um facto, sem a poder provar empiricamente. Mas ao menos, Delage evita o caminho fácil de muitos evolucionistas, que encarnam nos dias de hoje o pior espírito proselitista de Haeckel.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Louis Bounoure - Détérminisme et finalité
A Flammarion publicou, no já longínquo ano de 1957, uma obra que deveria ser de leitura obrigatória ao nível liceal. Nesta obra, Détérminisme et finalité, o francês Louis Bounoure, Professor de Biologia na Faculdade de Ciências de Estrasburgo, consegue um feito notável: apresentar uma boa argumentação para fundamentar aquela que ele considera ser a "dupla lei da vida", o determinismo e a finalidade.
Apoiado nestes dois pilares, que o autor estuda e aprofunda ao longo da obra, Bounoure consegue a proeza intelectual de gerir um espantoso tour de force contra dois dos maiores perigos anti-científicos dos tempos modernos: o evolucionismo e o panpsiquismo.
Contra os dogmas evolucionistas, Bounoure propõe, para salvar a Ciência, a constatação da finalidade, de que todo o organismo vivo diverge profundamente da matéria inanimada no sentido em que demonstra ter um objectivo funcional estável. Bounoure não se propõe a explicar como surge esta finalidade: ele remete essa questão para uma "causa da vida" inexplicável para o cientista. Ele assume, como pressuposto, que a vida é como é. Que o ser vivo se explica pela sua embriologia, e que a embriologia de um ser vivo se explica pelo mecanismo de reprodução do ser vivo seu progenitor. Ou seja, Bounoure constata uma cadeia de causalidade que remonta até aos tempos mais recuados, sem que se possa vislumbrar como a vida surgiu.
Para Bounoure, o biólogo pode e deve estudar os mecanismos complexos da vida, mas está totalmente sem resposta perante o enigma de como esta terá surgido. O autor argumenta profundamente acerca da sua primeira tese, a de que a finalidade, o facto de os organismos vivos serem regidos por um objectivo final concreto, destrói totalmente a pretensão anti-científica dos evolucionistas, que procuram impor uma tese não verificável nem testável à comunidade científica apenas devido a um pressuposto emocional também ele não científico: o do materialismo.
Bounoure explica que o materialismo forma um ciclo vicioso de causalidade explicativa: o evolucionista assume que todo o real é material, sem qualquer base ou razão para tal; o evolucionista assume que a complexidade da vida tem que ter a sua origem causal apenas e exclusivamente na própria matéria, auto-organizada pelo acaso; o evolucionista vê-se forçado a partir o milagre da vida em vários pequenos milagres, esmiuçando cada vez mais estes pequenos milagres em micro-milagres, até que se atinjam passos evolutivos (usando a escala dos milhões de anos) tão pequenos que já não parece insensato supô-los. O que é insensato para um cientista, como afirma Bounoure, é supor o transformismo: que uma espécie, apresentando sempre espantosas características de estabilidade, se transforme noutra. Bounoure, é bem certo, não duvida da Selecção Natural darwinista, da sucessiva filtragem, por efeito do meio ambiente e da interacção do ser vivo com este, dos indivíduos dentro de uma população que se adaptam melhor ao contexto. Bounoure não duvida de que a matéria viva é plasmática e elástica ao ponto de permitir pequenas variações intra-espécie, refinadas pela ferramenta temporal da selecção natural.
Mas Bounoure, como bom cientista, constata que o transformismo é uma suposição gratuita, sem qualquer suporte empírico ou factual.
Contra outra ideia obstinada e errada, o panpsiquismo, Bounoure discorre bastante, tentando vincar o segundo pilar da sua tese acerca da vida, o pilar do determinismo. Para Bounoure, tentar colocar Deus, ou uma espécie de alma, no coração dos mecanismos celulares é ecoar, uma vez mais, o velho sonho do panteísmo ou do panpsiquismo. A ideia, velha como o mundo, e não obstante, uma ideia errada, de que toda a matéria está animada por uma espécie de entidade psíquica, vulgo "alma".
Bounoure deixa bem claro que não tolera que se admitam explicações divinas para os processos intracelulares, que regem espantosamente as leis da vida. Segundo Bounoure, e admita-se, cheio de razão, assim que se der esse passo, o cientista não progredirá mais no conhecimento biológico. Bounoure sustenta que, existindo uma razão puramente empírica e determinista para explicar um determinado fenómeno biológico, invocar Deus ou uma alma só irá bloquear a compreensão desse fenómeno, tornando até gnoseologicamente irrelevante a pesquisa científica.
É, então, espantosa a defesa da verdadeira Ciência por parte de Bounoure: o autor não se atreve a proclamar o criacionismo, por temer sair demasiado da sua esfera do cientista natural, mas por outro lado constata que a observação científica só pode conduzir à constatação da finalidade dos organismos vivos, algo que a matéria inanimada não possui e não é capaz de gerar por si só. O autor não se cansa de dizer que, por muito que áreas como a da cibernética tentem imitar a vida, não a conseguem reproduzir.
Por outro lado, o autor insiste no facto de que o dever do cientista natural está em procurar explicações naturais para os fenómenos naturais, mesmo que lhe esteja vedado o conhecimento de qualquer facto sobrenatural, mesmo lhe que esteja vedado o acesso à explicação final para a origem do fenómeno espantoso que é a vida.
Na minha modesta opinião, isto parece-me ser verdadeira ciência natural. Com a vantagem adicional de que Bounoure tem a sua Filosofia bem estudada, o que lhe permite ter uma ideia muito bem sedimentada acerca da Epistemologia e das fronteiras da Ciência. Algo que, obviamente, escapa ao fanatismo proselitista de muitos dos modernos arautos do Evolucionismo.
Apoiado nestes dois pilares, que o autor estuda e aprofunda ao longo da obra, Bounoure consegue a proeza intelectual de gerir um espantoso tour de force contra dois dos maiores perigos anti-científicos dos tempos modernos: o evolucionismo e o panpsiquismo.
Contra os dogmas evolucionistas, Bounoure propõe, para salvar a Ciência, a constatação da finalidade, de que todo o organismo vivo diverge profundamente da matéria inanimada no sentido em que demonstra ter um objectivo funcional estável. Bounoure não se propõe a explicar como surge esta finalidade: ele remete essa questão para uma "causa da vida" inexplicável para o cientista. Ele assume, como pressuposto, que a vida é como é. Que o ser vivo se explica pela sua embriologia, e que a embriologia de um ser vivo se explica pelo mecanismo de reprodução do ser vivo seu progenitor. Ou seja, Bounoure constata uma cadeia de causalidade que remonta até aos tempos mais recuados, sem que se possa vislumbrar como a vida surgiu.
Para Bounoure, o biólogo pode e deve estudar os mecanismos complexos da vida, mas está totalmente sem resposta perante o enigma de como esta terá surgido. O autor argumenta profundamente acerca da sua primeira tese, a de que a finalidade, o facto de os organismos vivos serem regidos por um objectivo final concreto, destrói totalmente a pretensão anti-científica dos evolucionistas, que procuram impor uma tese não verificável nem testável à comunidade científica apenas devido a um pressuposto emocional também ele não científico: o do materialismo.
Bounoure explica que o materialismo forma um ciclo vicioso de causalidade explicativa: o evolucionista assume que todo o real é material, sem qualquer base ou razão para tal; o evolucionista assume que a complexidade da vida tem que ter a sua origem causal apenas e exclusivamente na própria matéria, auto-organizada pelo acaso; o evolucionista vê-se forçado a partir o milagre da vida em vários pequenos milagres, esmiuçando cada vez mais estes pequenos milagres em micro-milagres, até que se atinjam passos evolutivos (usando a escala dos milhões de anos) tão pequenos que já não parece insensato supô-los. O que é insensato para um cientista, como afirma Bounoure, é supor o transformismo: que uma espécie, apresentando sempre espantosas características de estabilidade, se transforme noutra. Bounoure, é bem certo, não duvida da Selecção Natural darwinista, da sucessiva filtragem, por efeito do meio ambiente e da interacção do ser vivo com este, dos indivíduos dentro de uma população que se adaptam melhor ao contexto. Bounoure não duvida de que a matéria viva é plasmática e elástica ao ponto de permitir pequenas variações intra-espécie, refinadas pela ferramenta temporal da selecção natural.
Mas Bounoure, como bom cientista, constata que o transformismo é uma suposição gratuita, sem qualquer suporte empírico ou factual.
Contra outra ideia obstinada e errada, o panpsiquismo, Bounoure discorre bastante, tentando vincar o segundo pilar da sua tese acerca da vida, o pilar do determinismo. Para Bounoure, tentar colocar Deus, ou uma espécie de alma, no coração dos mecanismos celulares é ecoar, uma vez mais, o velho sonho do panteísmo ou do panpsiquismo. A ideia, velha como o mundo, e não obstante, uma ideia errada, de que toda a matéria está animada por uma espécie de entidade psíquica, vulgo "alma".
Bounoure deixa bem claro que não tolera que se admitam explicações divinas para os processos intracelulares, que regem espantosamente as leis da vida. Segundo Bounoure, e admita-se, cheio de razão, assim que se der esse passo, o cientista não progredirá mais no conhecimento biológico. Bounoure sustenta que, existindo uma razão puramente empírica e determinista para explicar um determinado fenómeno biológico, invocar Deus ou uma alma só irá bloquear a compreensão desse fenómeno, tornando até gnoseologicamente irrelevante a pesquisa científica.
É, então, espantosa a defesa da verdadeira Ciência por parte de Bounoure: o autor não se atreve a proclamar o criacionismo, por temer sair demasiado da sua esfera do cientista natural, mas por outro lado constata que a observação científica só pode conduzir à constatação da finalidade dos organismos vivos, algo que a matéria inanimada não possui e não é capaz de gerar por si só. O autor não se cansa de dizer que, por muito que áreas como a da cibernética tentem imitar a vida, não a conseguem reproduzir.
Por outro lado, o autor insiste no facto de que o dever do cientista natural está em procurar explicações naturais para os fenómenos naturais, mesmo que lhe esteja vedado o conhecimento de qualquer facto sobrenatural, mesmo lhe que esteja vedado o acesso à explicação final para a origem do fenómeno espantoso que é a vida.
Na minha modesta opinião, isto parece-me ser verdadeira ciência natural. Com a vantagem adicional de que Bounoure tem a sua Filosofia bem estudada, o que lhe permite ter uma ideia muito bem sedimentada acerca da Epistemologia e das fronteiras da Ciência. Algo que, obviamente, escapa ao fanatismo proselitista de muitos dos modernos arautos do Evolucionismo.
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Filosofia para a sala de aula
Naquela típica forma sua de usar palavras e conceitos simples para nos ensinar coisas profundas, G. K. Chesterton (1874-1936) fala-nos deste modo, num texto intitulado Philosophy for the schoolroom, acerca dos rudimentos do pensmento humano, coisas tão elementares que seriam passíveis de serem ensinadas nas salas de aula desde a tenra idade:
"Every argument begins with an infallible dogma, and that infallible dogma can only be disputed by falling back on some other infallible dogma; you can never prove your first statement or it would not be your first. All this is the alphabet of thinking. And it has this special and positive point about it, that it can be taught in a school, like the other alphabet. Not to start an argument without stating your postulates could be taught in philosophy as it is taught in Euclid, in a common schoolroom with a blackboard. And I think it might be taught in some simple and rational degree even to the young, before they go out into the streets and are delivered over entirely to the logic and philosophy of the Daily Mail."
Ou seja, não é possível raciocinar nem expor um raciocínio sem considerar primeiro qual é o nosso ponto de partida: qual ou quais os pressupostos que não pretendemos demonstrar. O raciocínio, movimento intelectual que está na base no pensar humano, é um movimento que necessita obrigatoriamente de ter o seu ponto de partida bem definido.
Se duvidamos dos nossos pressupostos, se os queremos esmiuçar um pouco mais antes de passar adiante no raciocínio, então temos que recuar um pouco. Mas este recuo obriga a passar a um novo quadro demonstrativo, com novos pressupostos, em princípio mais elementares que os iniciais.
Não se foge a isto: um raciocínio tem que ter sempre pressupostos, e esta noção básica deveria ser ensinada nos bancos das escolas. As crianças, antes de se dirigirem a alguém para justificar ou argumentar o que quer que seja, deveriam estar habituadas a dizer ao seu interlocutor qual é, ou quais são, os seus pressupostos.
Segundo Chesterton, esta anomalia intelectual, esta atrofia que nos faz esquecer a necessidade de fixar pressupostos, está presente ad nauseam, no espírito céptico:
"Much of our chaos about religion and doubt arises from this--that our modern sceptics always begin by telling us what they do not believe. But even in a sceptic we want to know first what he does believe. Before arguing, we want to know what we need not argue about. And this confusion is infinitely increased by the fact that all the sceptics of our time are sceptics at different degrees of the dissolution of scepticism."
Como dialogar intelectualmente com pessoas que se esqueceram da necessidade de fixar postulados, de explicitar os seus pressupostos? É certo que há cépticos e cépticos. Será impossível dialogar com um céptico fanático, que não consiga fixar um só pressuposto. Como dialogar com alguém assim?
Mas mesmo o céptico moderado deve habituar-se a fixar os seus pressupostos: a dizer em que é que acredita. Quais os seus "dogmas"? Quais os pressuspostos dos quais não duvida e que não pretende demonstrar? Quais os seus axiomas?
De seguida, Chesterton ataca o típico sofisma céptico, que consiste em afirmar que a religião está apoiada no indemonstrável. Chesterton explica que qualquer homem intelectualmente são tem que acreditar num punhado de ideias indemonstráveis, sob pena de cair em insanidade mental.
"All sane men, I say, believe firmly and unalterably in a certain number of things which are unproved and unprovable. Let us state them roughly.
(1) Every sane man believes that the world around him and the people in it are real, and not his own delusion or dream. No man starts burning London in the belief that his servant will soon wake him for breakfast. But that I, at any given moment, am not in a dream, is unproved and unprovable. That anything exists except myself is unproved and unprovable.
(2) All sane men believe that this world not only exists, but matters. Every man believes there is a sort of obligation on us to interest ourselves in this vision or panorama of life. He would think a man wrong who said, "I did not ask for this farce and it bores me. I am aware that an old lady is being murdered down-stairs, but I am going to sleep." That there is any such duty to improve the things we did not make is a thing unproved and unprovable.
(3) All sane men believe that there is such a thing as a self, or ego, which is continuous. There is no inch of my brain matter the same as it was ten years ago. But if I have saved a man in battle ten years ago, I am proud; if I have run away, I am ashamed. That there is such a paramount "I" is unproved and unprovable. But it is more than unproved and unprovable; it is definitely disputed by many metaphysicians.
(4) Lastly, most sane men believe, and all sane men in practice assume, that they have a power of choice and responsibility for action."
Seria interessante que Chesterton estivesse vivo para poder dar aulas a alguns loucos insensatos, como o fanático e maníaco Richard Dawkins, autor do recente best-seller The God Delusion, uma obra anti-científica (porque viciada pela campanha pessoal anti-religião do seu autor) que só poderia ser popular nestes nossos tristes tempos (1)...
O ponto de partida do crente cristão está assente num punhado de pressupostos elementares, estabelecidos com base na confiança entre seres humanos:
1. Jesus Cristo viveu sobre a Terra e transmitiu o seu ensinamento a várias pessoas;
2. Essas pessoas cristalizaram fielmente esse ensinamento nas Sagradas Escrituras;
3. Algumas dessas pessoas que o conheceram edificaram uma organização, chamada Igreja Católica, para perpetuar o ensinamento de Cristo.
É certo que o crente interessado pode ainda esmiuçar estes postulados, pode recuar atrás no raciocínio e procurar demonstrar os pressupostos 1, 2 e 3. Mas terá sempre que assumir novos pressupostos. Terá sempre que ter "fé", que aceitar como indiscutível ou não provado, qualquer coisa de axiomático localizada mais atrás no pensamento. O mesmo fará o cientista no seu trabalho demonstrativo de uma determinada realidade ou fenómeno natural.
É este tipo de bom senso do crente, este tipo de sensatez pística, que convinha explicar e fazer entender a um histérico como Dawkins, que além de ser invencivelmente ignorante em matéria de religião, não está habituado a ver o crente como um ser humano perfeitamente normal, capaz de pensar e de raciocinar de forma elementar, como qualquer outro ser humano. E capaz, como qualquer cientista, de basear as suas convicções em pressupostos que não demonstra.
(1) O maior problema de Dakwins, e este seu livro é o melhor exemplo disto mesmo, é a fraca preparação filosófica e teológica de Dawkins. Vale a pena ler a crítica que é feita a este livro pelo filósofo Alvin Plantinga, um dos actuais investigadores e estudiosos no campo filosófico dos argumentos ontológicos.
"Every argument begins with an infallible dogma, and that infallible dogma can only be disputed by falling back on some other infallible dogma; you can never prove your first statement or it would not be your first. All this is the alphabet of thinking. And it has this special and positive point about it, that it can be taught in a school, like the other alphabet. Not to start an argument without stating your postulates could be taught in philosophy as it is taught in Euclid, in a common schoolroom with a blackboard. And I think it might be taught in some simple and rational degree even to the young, before they go out into the streets and are delivered over entirely to the logic and philosophy of the Daily Mail."
Ou seja, não é possível raciocinar nem expor um raciocínio sem considerar primeiro qual é o nosso ponto de partida: qual ou quais os pressupostos que não pretendemos demonstrar. O raciocínio, movimento intelectual que está na base no pensar humano, é um movimento que necessita obrigatoriamente de ter o seu ponto de partida bem definido.
Se duvidamos dos nossos pressupostos, se os queremos esmiuçar um pouco mais antes de passar adiante no raciocínio, então temos que recuar um pouco. Mas este recuo obriga a passar a um novo quadro demonstrativo, com novos pressupostos, em princípio mais elementares que os iniciais.
Não se foge a isto: um raciocínio tem que ter sempre pressupostos, e esta noção básica deveria ser ensinada nos bancos das escolas. As crianças, antes de se dirigirem a alguém para justificar ou argumentar o que quer que seja, deveriam estar habituadas a dizer ao seu interlocutor qual é, ou quais são, os seus pressupostos.
Segundo Chesterton, esta anomalia intelectual, esta atrofia que nos faz esquecer a necessidade de fixar pressupostos, está presente ad nauseam, no espírito céptico:
"Much of our chaos about religion and doubt arises from this--that our modern sceptics always begin by telling us what they do not believe. But even in a sceptic we want to know first what he does believe. Before arguing, we want to know what we need not argue about. And this confusion is infinitely increased by the fact that all the sceptics of our time are sceptics at different degrees of the dissolution of scepticism."
Como dialogar intelectualmente com pessoas que se esqueceram da necessidade de fixar postulados, de explicitar os seus pressupostos? É certo que há cépticos e cépticos. Será impossível dialogar com um céptico fanático, que não consiga fixar um só pressuposto. Como dialogar com alguém assim?
Mas mesmo o céptico moderado deve habituar-se a fixar os seus pressupostos: a dizer em que é que acredita. Quais os seus "dogmas"? Quais os pressuspostos dos quais não duvida e que não pretende demonstrar? Quais os seus axiomas?
De seguida, Chesterton ataca o típico sofisma céptico, que consiste em afirmar que a religião está apoiada no indemonstrável. Chesterton explica que qualquer homem intelectualmente são tem que acreditar num punhado de ideias indemonstráveis, sob pena de cair em insanidade mental.
"All sane men, I say, believe firmly and unalterably in a certain number of things which are unproved and unprovable. Let us state them roughly.
(1) Every sane man believes that the world around him and the people in it are real, and not his own delusion or dream. No man starts burning London in the belief that his servant will soon wake him for breakfast. But that I, at any given moment, am not in a dream, is unproved and unprovable. That anything exists except myself is unproved and unprovable.
(2) All sane men believe that this world not only exists, but matters. Every man believes there is a sort of obligation on us to interest ourselves in this vision or panorama of life. He would think a man wrong who said, "I did not ask for this farce and it bores me. I am aware that an old lady is being murdered down-stairs, but I am going to sleep." That there is any such duty to improve the things we did not make is a thing unproved and unprovable.
(3) All sane men believe that there is such a thing as a self, or ego, which is continuous. There is no inch of my brain matter the same as it was ten years ago. But if I have saved a man in battle ten years ago, I am proud; if I have run away, I am ashamed. That there is such a paramount "I" is unproved and unprovable. But it is more than unproved and unprovable; it is definitely disputed by many metaphysicians.
(4) Lastly, most sane men believe, and all sane men in practice assume, that they have a power of choice and responsibility for action."
Seria interessante que Chesterton estivesse vivo para poder dar aulas a alguns loucos insensatos, como o fanático e maníaco Richard Dawkins, autor do recente best-seller The God Delusion, uma obra anti-científica (porque viciada pela campanha pessoal anti-religião do seu autor) que só poderia ser popular nestes nossos tristes tempos (1)...
O ponto de partida do crente cristão está assente num punhado de pressupostos elementares, estabelecidos com base na confiança entre seres humanos:
1. Jesus Cristo viveu sobre a Terra e transmitiu o seu ensinamento a várias pessoas;
2. Essas pessoas cristalizaram fielmente esse ensinamento nas Sagradas Escrituras;
3. Algumas dessas pessoas que o conheceram edificaram uma organização, chamada Igreja Católica, para perpetuar o ensinamento de Cristo.
É certo que o crente interessado pode ainda esmiuçar estes postulados, pode recuar atrás no raciocínio e procurar demonstrar os pressupostos 1, 2 e 3. Mas terá sempre que assumir novos pressupostos. Terá sempre que ter "fé", que aceitar como indiscutível ou não provado, qualquer coisa de axiomático localizada mais atrás no pensamento. O mesmo fará o cientista no seu trabalho demonstrativo de uma determinada realidade ou fenómeno natural.
É este tipo de bom senso do crente, este tipo de sensatez pística, que convinha explicar e fazer entender a um histérico como Dawkins, que além de ser invencivelmente ignorante em matéria de religião, não está habituado a ver o crente como um ser humano perfeitamente normal, capaz de pensar e de raciocinar de forma elementar, como qualquer outro ser humano. E capaz, como qualquer cientista, de basear as suas convicções em pressupostos que não demonstra.
(1) O maior problema de Dakwins, e este seu livro é o melhor exemplo disto mesmo, é a fraca preparação filosófica e teológica de Dawkins. Vale a pena ler a crítica que é feita a este livro pelo filósofo Alvin Plantinga, um dos actuais investigadores e estudiosos no campo filosófico dos argumentos ontológicos.
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