Quando as ideias intelectuais são definidas na mente de uma pessoa com base em ódios antigos, ou de estimação, daí só pode advir o erro e a mentira. Estes são os filhos do ódio. Digamos que a tarefa de discernir a verdade é das mais árduas que se depara à mente humana. E irmos para essa batalha intelectual munidos de ódio só pode dar asneira. Porque mesmo que não odiemos, a tarefa não deixa de ser árdua. O ódio só a torna pior...
Carlos Esperança, corifeu do Diário Ateísta, é um desses exemplos de um ateísmo imbuído de ódio, um ódio que derivará de uma ou várias experiências pessoais que lhe moldaram o carácter, e que não tem qualquer interesse discutir aqui. Mas há poucas coisas mais desgraçadas do que deixar que as experiências pessoais nos distorçam o intelecto. Do que permitir que um ou outro episódio pessoal nos destrua o acesso intelectual à verdade.
Esta semana, Carlos Esperança voltou a cair no vício da mentira. Faz-me um bocado confusão, esta forma peculiar de defesa do ateísmo que se vale exclusivamente da demolição da crença usando falsidades. Um ateísmo pela negativa, pela anulação do outro. Como se, para a edificação do ateísmo, fosse suficiente um punhado de cinzas resultantes da queima da crença.
Quando digo que Carlos Esperança é o "regente" do Diário Ateísta, quero com isto dizer que ele não está só nesta forma miserabilista de fazer mau ateísmo usando falsidades. Mas também, de entre os seus colegas de blogue, é ele quem se destaca, porque nele tudo é extremo.
Para ele, os fins (denegrir a fé) justificam plenamente os meios (mentir). É certo que há situações em que devemos mentir, quando está em jogo, por exemplo, salvar a vida a alguém. Quando valores mais altos se levantam, então mentir torna-se numa falta menor. Mas, no caso do Carlos, e de muitos outros no Diário Ateísta, mentir pelo ateísmo é um acto menor, com vista à causa maior.
Não sem alguma pena, assisti ao propagar recente de mais uma confrangedora mentira no Diário Ateísta. Imaginei que, com as devidas correcções, haveria a possibilidade de se repetir o fenómeno do "Juramento Jesuíta", ocorrido há uns dois anos, quando um colega de blogue do Carlos, o João Vasco propagou, sem querer, uma mentira. O João Vasco será uma nobre excepção neste blogue, uma vez que, não deixando de ser ateu, detesta a mentira. Deste modo, quando eu lhe fiz ver que o "Juramento Jesuíta" (baseado num documento forjado que daria conta de um juramento secreto que os noviços teriam que proclamar, jurando matar, espezinhar, queimar e destruir todos os seus inimigos) era uma grossa mentira, João Vasco, imediatamente, se prontificou a escrever um artigo para a corrigir. E fê-lo.
Nobre gesto, que infelizmente, nunca se verifica nem nunca se verificou com Carlos Esperança.
Vamos à questão em concreto. Eis a citação que Esperança atribui ao Papa Leão X (1475-1521):
«A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria ingénuo advertir os ignorantes do seu erro»
A princípio, a má fama do seu predecessor Rodrigo Bórgia (Papa Alexandre VI) poderia fazer pensar que Leão X, e se calhar outros Papas daquele período, teria sido também uma pessoa menos recomendável. Confesso que, quando estava em ignorância acerca deste Papa Leão X, até achei plausível que tal frase tivesse saído da sua boca. Lá está: a ignorância a ajudar ao preconceito.
Tendo a perfeita noção de que a infalibilidade papal apenas se aplica a proclamações papais "ex cathedra", também não tremeria na fé se uma asneira destas fosse dita por um Papa. Não é o homem-Papa que é infalível, mas sim o Papa. É o cargo que dá a infalibilidade, e não a virtude da pessoa. Por isso, e isto é suficiente para apontar a futilidade deste esforço de Carlos Esperança, mesmo que a frase fosse historicamente verídica, não colocaria a fé em risco, visto que não se tratava de uma frase "ex cathedra". No entanto, e falo por mim, a falsidade histórica irrita-me. Qualquer uma.
Um rudimentar estudo à vida e obra de Leão X deixa-nos, porém, imediatamente com grandes dúvidas acerca da veracidade da referida citação. E, no entanto, esta citação pulula em míriades de sites ateus, ateístas ou ateízantes (sobretudo nestes últimos). Esta citação também é usada e abusada por alguns "gurus" do New Age como a detestável Acharya S ("The Christ Conspiracy"), considerada ironicamente por um jornalista da nossa praça como uma especialista em espiritualidade...
Mas, afinal, o que é que interessa para uma citação?
O principal interesse de uma citação está no facto de que, sendo verdadeira, se trata de uma frase realmente proferida por uma certa pessoa.
A frase «A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria ingénuo advertir os ignorantes do seu erro» só tem interesse como citação, só é uma citação, se o pobre Papa Leão X realmente a proferiu. Ora não há qualquer dado histórico que o permita supor. Pelo contrário, há dados históricos que permitem supor que se trata de uma falsificação que data do tempo da rainha Isabel I de Inglaterra.
Um estudo de James Patrick Holding, bem como o próprio artigo da Catholic Encyclopedia, explica a história com o necessário cuidado, pelo que remeto os detalhes para estes locais. A referência mais antiga a esta falsa citação encontra-se no dramaturgo John Bale (1495-1563), um carmelita que mais tarde abandonou a fé católica para abraçar o protestantismo. Rapidamente, a sua vida e obra foi orientada para a demolição da Igreja Católica. A sua obra para teatro está recheada de pequenas sátiras e misérias escritas com vista à tentativa de destruição moral da Igreja através de propaganda difamatória.
Na sua obra The Paegant of Popes, Bale atribui a tal pseudo-citação ao Papa Leão X. Não estamos a falar de uma referência de historiador, mas sim de um dramaturgo, ainda por cima apóstata e anti-católico.
Assim morre a miserável pseudo-citação. Contudo, não morre, nem morrerá tão cedo, na opinião pública, na "vox populi". Os leitores do Diário Ateísta adoraram a citação, até devem estar desejosos por mais "pérolas" destas. Nenhum daqueles leitores entusiastas está interessado na verdade histórica, só querem mais porcarias destas para atirar à cara dos crentes que virem pela frente. Só para verem a cara do crente quando se lhe diz que um Papa proferiu tal frase. Só pelo deleite de poderem propagar a teoria conspiratória de que a Igreja Católica é uma gigantesca mentira inventada por poucos e aceite irracionalmente por muitos.
Carlos Esperança, quando confrontado com esta mentira, não seguiu a estrada nobre do seu colega de blogue João Vasco: não corrigiu a sua asneira. Ao invés, afirmou que, perante as "mentiras" da Igreja Católica, ele achava que dizia muitas menos. No fundo, para ele, mentir não está mal, desde que se coloquem as mentiras numa balança. Perde quem tiver mais... Um claro exemplo de uma ética deficitária e de um intelecto arruinado.
Assim, esta falsidade da pseudo-citação de Leão X vai parar ao mesmo saco das muitas outras mentiras do Diário Ateísta, de onde já sairam belas pérolas como as do "Papa de Hitler" (que seria Pio XII), a farsa da "Taxa Camarae" (documento espúrio alegando à suposta venda de perdão de pecados por parte da Igreja), ou ainda a teimosa insistência na veracidade histórica da falsificação da Donatio Constantini pela Igreja Católica, conhecida como a "Doação de Constantino" (suposta atribuição, por parte do Imperador, de privilégios e primazia ao Papa).
Mas não se pense que, ao propagar estas mentiras, o Diário Ateísta é original. Sê-lo-á apenas na língua portuguesa, uma vez que o conteúdo costuma ser composto com base na enjoativa repetição das eternas mentiras anti-católicas, já presentes em milhares de sites anti-católicos, e em muitos casos, mentiras com vários séculos de idade...
Mentir é mesmo muito feio...
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
domingo, 23 de setembro de 2007
Filosofia para o ateu moderno
É bem sabido que a Filosofia pode servir de terreno fértil ao debate entre ateus e crentes, visto que pode bem ser a única área do saber que contém conceitos passíveis de serem aceites por ambos os lados.
No entanto, não tem sido fácil encontrar um diálogo filosoficamente fértil do lado de lá da barricada. Não sem uma ponta de esperança, dediquei uma referência a Boécio ao Ludwig Krippahl, que se limitou, enquanto vigiava um teste, a escamotear o texto e, por arrasto, toda a filosofia aristotélica.
Ludwig, não tanto pela incapacidade intelectual, mas sobretudo pela indisponibilidade temporal (ler Boécio enquanto se vigia um teste é uma má ideia, porque estudar Filosofia requer alguma concentração), achou por bem escamotear o meu convite ao debate filosófico.
E fê-lo de forma empobrecedora. Acerca do facto (incontestável) de que a categoria aristotélica de "relação" se aplica necessariamente a dois entes, Ludwig achou que era uma boa ideia usar a palavra "errado" em relação a este facto. Assim mesmo, sem apelo nem agravo. Como uma buzina num concurso televisivo, o veredicto ludwiguiano caiu a direito que nem uma espada sobre a cabeça de Boécio: "Errado", Boécio!
O que poderíamos dizer?
Que Ludwig não sabe que Boécio estudou Aristóteles? Que Boécio, ao usar a palavra "relação", não está a usá-la num contexto popular ou simplório, mas sim filosófico, no contexto da herança de Aristóteles? Os alunos de Filosofia sabem, desde cedo, e de cor, as dez categorias aristotélicas dos entes: lugar, tempo, relação, substância, quantidade, qualidade, estado, hábito, paixão (ou passividade) e acção (ou acitividade).
Boécio escreve, no início capítulo VI:
«Mas, como toda relação sempre se refere a outro, pois a predicação que se refere ao próprio sujeito é sem relação, a numerosidade da Trindade é garantida pela categoria relação, enquanto a unidade é preservada pelo fato de que não há diferen-ça de substância ou de operação ou de qualquer predicado substancial. Assim, a subs-tância é responsável pela unidade e a relação faz a Trindade.»
Ludwig refuta Boécio deste modo:
«A relação entre mim e os filhos do meu pai não é necessariamente uma relação que se refere a outro. Afinal, eu também sou filho do meu pai.»
Ninguém duvidará que o Ludwig tem que ser filho do seu pai, sem deixar de ser o Ludwig. Só que a categoria "relação" não é aplicada assim, entre entes e predicados. "Relação" é uma categoria aristotélica entre dois entes. E o Ludwdig, sendo obviamente um ente, não pode ter uma relação com o predicado "filhos do seu pai", porque tal predicado cabe-lhe a si enquanto ente. Da parte que me toca, eu não tenho uma relação com o meu umbigo, com os meus 73 quilogramas, ou com o meu cabelo.
Trocado por miúdos... Se eu digo "Bernardo" e também digo "homem de 30 anos", é evidente que este predicado é parte integrante do meu ser. Por isso, não há relação, em sentido aristotélico, entre "Bernardo" e "homem de 30 anos", porque este último não é um ente, mas sim um predicado que me corresponde (transitoriamente, até ao dia 28 de Outubro deste ano) a mim enquanto ente.
Será que o Ludwig não sabe o que é "relação" para Aristóteles (e correspondentemente para Boécio)? Se calhar...
Ou será que o Ludwig quis gozar com a Filosofia?
Se calhar...
No entanto, gozos ludwiguianos à parte, a relação continua a ser uma categoria aristotélica, e continua a ser verdadeiro ontologicamente que a relação pressupõe dois entes. Era mais interessante, neste contexto intelectualmente turvo que constitui a intelectualidade hodierna, que esta verdade óbvia que acabei de referir fosse dita por um filósofo encartado, e não por mim. As pessoas que me lêem vão dar pouco crédito a isto, porque sou apenas um estudioso amador da Filosofia, sem formação académica.
Isto porque, para espíritos turvos incapazes de reconhecer uma verdade mesmo quando tropeçam nela, uma verdade torna-se sempre mais fácil de aceitar quando é dita por alguém com o canudo na mão.
Só gostava de encontrar um interlocutor interessado por Filosofia que gostasse de debater estas coisas de forma filosófica.
Por exemplo, se o Ludwig tivesse lido o texto de Boécio noutro contexto que lhe permitisse uma leitura mais atenta, poderia ter aproveitado a oportunidade para me retorquir, e levantar esta pertintente questão: "Se a relação é entre dois entes, então Boécio está a dizer que as pessoas da Trindade são entes diferentes entre si! Lá se vai a unidade!".
Mas Boécio também pensou nesta eventual contestação, e explica de forma clara que, sendo a relação sempre entre dois entes, isso não implica que tais entes sejam distintos em substância. Certamente que as criaturas, pela sua condição, são sempre distintas em substância. Já as pessoas da Trindade, possuindo relação entre si (é ela que origina a Trindade), não são entes substancialmente distintos. São entes iguais em substância.
Outro esforço para tentar refutar a Trindade, já com alguns meses, foi escrito pelo João Vasco, do Diário Ateísta. Só que o João Vasco, julgando que estávamos a falar de Matemática, limitou-se a referir o óbvio num contexto de lógica matemática. Que, aliás, se aplica à Trindade enquanto substância, curiosamente: A=B=C, enquanto Pai, Filho e Espírito Santo são idênticos e uma e a mesma substância divina.
No Instituto Superior Técnico, nobre instituição onde também me formei, ensina-se boa Matemática, e o João Vasco tem toda a razão na afirmação que faz, e que até explica a unidade das três pessoas divinas; só que ela não chega para compreender um conceito de âmbito filosófico como é o da relação, do qual deriva a trindade de pessoas divinas. E, infelizmente, faltam ao ensino da Engenharia e da Matemática umas boas bases rudimentares de Filosofia e Epistemologia, que valeriam ouro para qualquer aluno a estudar nestas faculdades.
Para o João Vasco compreender a Trindade, tem que saber o que é relação em sentido aristotélico. Ou seja, tem que compreender um conceito ontológico. Ou seja, tem que saber que estamos a falar de conceitos filosóficos e não matemáticos.
Desidério? Não nos quer dar uma mão? Como eu gostaria de ler uma refutação ao Boécio escrita pelo Desidério, usando metafísica modal...
No entanto, não tem sido fácil encontrar um diálogo filosoficamente fértil do lado de lá da barricada. Não sem uma ponta de esperança, dediquei uma referência a Boécio ao Ludwig Krippahl, que se limitou, enquanto vigiava um teste, a escamotear o texto e, por arrasto, toda a filosofia aristotélica.
Ludwig, não tanto pela incapacidade intelectual, mas sobretudo pela indisponibilidade temporal (ler Boécio enquanto se vigia um teste é uma má ideia, porque estudar Filosofia requer alguma concentração), achou por bem escamotear o meu convite ao debate filosófico.
E fê-lo de forma empobrecedora. Acerca do facto (incontestável) de que a categoria aristotélica de "relação" se aplica necessariamente a dois entes, Ludwig achou que era uma boa ideia usar a palavra "errado" em relação a este facto. Assim mesmo, sem apelo nem agravo. Como uma buzina num concurso televisivo, o veredicto ludwiguiano caiu a direito que nem uma espada sobre a cabeça de Boécio: "Errado", Boécio!
O que poderíamos dizer?
Que Ludwig não sabe que Boécio estudou Aristóteles? Que Boécio, ao usar a palavra "relação", não está a usá-la num contexto popular ou simplório, mas sim filosófico, no contexto da herança de Aristóteles? Os alunos de Filosofia sabem, desde cedo, e de cor, as dez categorias aristotélicas dos entes: lugar, tempo, relação, substância, quantidade, qualidade, estado, hábito, paixão (ou passividade) e acção (ou acitividade).
Boécio escreve, no início capítulo VI:
«Mas, como toda relação sempre se refere a outro, pois a predicação que se refere ao próprio sujeito é sem relação, a numerosidade da Trindade é garantida pela categoria relação, enquanto a unidade é preservada pelo fato de que não há diferen-ça de substância ou de operação ou de qualquer predicado substancial. Assim, a subs-tância é responsável pela unidade e a relação faz a Trindade.»
Ludwig refuta Boécio deste modo:
«A relação entre mim e os filhos do meu pai não é necessariamente uma relação que se refere a outro. Afinal, eu também sou filho do meu pai.»
Ninguém duvidará que o Ludwig tem que ser filho do seu pai, sem deixar de ser o Ludwig. Só que a categoria "relação" não é aplicada assim, entre entes e predicados. "Relação" é uma categoria aristotélica entre dois entes. E o Ludwdig, sendo obviamente um ente, não pode ter uma relação com o predicado "filhos do seu pai", porque tal predicado cabe-lhe a si enquanto ente. Da parte que me toca, eu não tenho uma relação com o meu umbigo, com os meus 73 quilogramas, ou com o meu cabelo.
Trocado por miúdos... Se eu digo "Bernardo" e também digo "homem de 30 anos", é evidente que este predicado é parte integrante do meu ser. Por isso, não há relação, em sentido aristotélico, entre "Bernardo" e "homem de 30 anos", porque este último não é um ente, mas sim um predicado que me corresponde (transitoriamente, até ao dia 28 de Outubro deste ano) a mim enquanto ente.
Será que o Ludwig não sabe o que é "relação" para Aristóteles (e correspondentemente para Boécio)? Se calhar...
Ou será que o Ludwig quis gozar com a Filosofia?
Se calhar...
No entanto, gozos ludwiguianos à parte, a relação continua a ser uma categoria aristotélica, e continua a ser verdadeiro ontologicamente que a relação pressupõe dois entes. Era mais interessante, neste contexto intelectualmente turvo que constitui a intelectualidade hodierna, que esta verdade óbvia que acabei de referir fosse dita por um filósofo encartado, e não por mim. As pessoas que me lêem vão dar pouco crédito a isto, porque sou apenas um estudioso amador da Filosofia, sem formação académica.
Isto porque, para espíritos turvos incapazes de reconhecer uma verdade mesmo quando tropeçam nela, uma verdade torna-se sempre mais fácil de aceitar quando é dita por alguém com o canudo na mão.
Só gostava de encontrar um interlocutor interessado por Filosofia que gostasse de debater estas coisas de forma filosófica.
Por exemplo, se o Ludwig tivesse lido o texto de Boécio noutro contexto que lhe permitisse uma leitura mais atenta, poderia ter aproveitado a oportunidade para me retorquir, e levantar esta pertintente questão: "Se a relação é entre dois entes, então Boécio está a dizer que as pessoas da Trindade são entes diferentes entre si! Lá se vai a unidade!".
Mas Boécio também pensou nesta eventual contestação, e explica de forma clara que, sendo a relação sempre entre dois entes, isso não implica que tais entes sejam distintos em substância. Certamente que as criaturas, pela sua condição, são sempre distintas em substância. Já as pessoas da Trindade, possuindo relação entre si (é ela que origina a Trindade), não são entes substancialmente distintos. São entes iguais em substância.
Outro esforço para tentar refutar a Trindade, já com alguns meses, foi escrito pelo João Vasco, do Diário Ateísta. Só que o João Vasco, julgando que estávamos a falar de Matemática, limitou-se a referir o óbvio num contexto de lógica matemática. Que, aliás, se aplica à Trindade enquanto substância, curiosamente: A=B=C, enquanto Pai, Filho e Espírito Santo são idênticos e uma e a mesma substância divina.
No Instituto Superior Técnico, nobre instituição onde também me formei, ensina-se boa Matemática, e o João Vasco tem toda a razão na afirmação que faz, e que até explica a unidade das três pessoas divinas; só que ela não chega para compreender um conceito de âmbito filosófico como é o da relação, do qual deriva a trindade de pessoas divinas. E, infelizmente, faltam ao ensino da Engenharia e da Matemática umas boas bases rudimentares de Filosofia e Epistemologia, que valeriam ouro para qualquer aluno a estudar nestas faculdades.
Para o João Vasco compreender a Trindade, tem que saber o que é relação em sentido aristotélico. Ou seja, tem que compreender um conceito ontológico. Ou seja, tem que saber que estamos a falar de conceitos filosóficos e não matemáticos.
Desidério? Não nos quer dar uma mão? Como eu gostaria de ler uma refutação ao Boécio escrita pelo Desidério, usando metafísica modal...
terça-feira, 18 de setembro de 2007
De Trinitate
A Trindade.
Faz confusão.
Deus uno. Mas três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.
1 = 3 ?
Esta é a pergunta.
A resposta ateísta é: não! Rapidamente, concluem que os crentes não sabem fazer contas. Que nunca ensinaram Matemática aos teólogos que escreveram sobre a Trindade.
Por estas e por outras, nada como a refrescante leitura de uma das obras fundamentais do pensar filosófico ocidental, o De Trinitate, de Boécio (c. 480-525), numa generosa tradução on-line para português da autoria de Luiz Jean Lauand.
Como explica Lauand na sua introdução (de leitura obrigatória), uma das características mais notáveis desta obra de Boécio é a de que o autor escreve sobre um complexo tema metafísico como é o da Trindade sem se referir às Sagradas Escrituras. É certo, relembra Lauand, que já Santo Agostinho alternava os dois métodos de proceder teologicamente, per auctoritates (recurso à autoridade, a Tradição escrita e oral), ou per rationes (recurso exclusivo à razão, ao intelecto).
Mas Boécio tem a particularidade de que escreve este curto, mas profundo, tratado sobre a Trindade usando apenas argumentação filosófica. Não se deve adiar a leitura deste texto fundamental. Hoje em dia já não se encontra com tanta frequência esta forma límpida de pensar.
Para os mais curiosos e impacientes, deixo aqui a conclusão de Boécio: «A substância é responsável pela unidade; a relação faz a Trindade».
É claro que, para esta conclusão ser totalmente perceptível, há que ler tudo.
Dedico este texto ao meu caro Ludwig Krippahl, do Que Treta!.
Faz confusão.
Deus uno. Mas três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.
1 = 3 ?
Esta é a pergunta.
A resposta ateísta é: não! Rapidamente, concluem que os crentes não sabem fazer contas. Que nunca ensinaram Matemática aos teólogos que escreveram sobre a Trindade.
Por estas e por outras, nada como a refrescante leitura de uma das obras fundamentais do pensar filosófico ocidental, o De Trinitate, de Boécio (c. 480-525), numa generosa tradução on-line para português da autoria de Luiz Jean Lauand.
Como explica Lauand na sua introdução (de leitura obrigatória), uma das características mais notáveis desta obra de Boécio é a de que o autor escreve sobre um complexo tema metafísico como é o da Trindade sem se referir às Sagradas Escrituras. É certo, relembra Lauand, que já Santo Agostinho alternava os dois métodos de proceder teologicamente, per auctoritates (recurso à autoridade, a Tradição escrita e oral), ou per rationes (recurso exclusivo à razão, ao intelecto).
Mas Boécio tem a particularidade de que escreve este curto, mas profundo, tratado sobre a Trindade usando apenas argumentação filosófica. Não se deve adiar a leitura deste texto fundamental. Hoje em dia já não se encontra com tanta frequência esta forma límpida de pensar.
Para os mais curiosos e impacientes, deixo aqui a conclusão de Boécio: «A substância é responsável pela unidade; a relação faz a Trindade».
É claro que, para esta conclusão ser totalmente perceptível, há que ler tudo.
Dedico este texto ao meu caro Ludwig Krippahl, do Que Treta!.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
Existirá a Matéria?
É o título de um artigo do bravo Gustavo Corção (1896-1978), publicado no Diário de Notícias (do Rio de Janeiro) a 31 de Janeiro de 1960.
Foi notável a defesa do tomismo-aristotelismo por parte de Corção. Foi das raras mentes contemporâneas a dar-se conta de que as ciências empiristas, ditas "modernas", em nada contradiziam (como poderiam?) a velhinha filosofia cristã, plasmada no seu auge de sofisticação e veracidade na escolástica medieval, ao tempo de São Tomás de Aquino.
Neste seu artigo, Corção expõe de forma clara um dos mais importantes debates filosóficos da modernidade, o da existência e natureza da Matéria. É um artigo que merece ser impresso para ser lido e meditado com calma e várias vezes.
Opondo Berkeley ao grupo dos materialistas (Descartes, Hobbes, Locke), Corção explica porque razão ambos os lados estão errados quando comparados com a visão correcta do tomismo-aristotelismo.
Como poderá ter acontecido tal tragédia intelectual? Como se terá perdido o acesso aos conceitos mais fundamentais de Filosofia? Porque razão deitámos fora os maiores feitos intelectuais do Ocidente? Porque razão afirmam os ignorantes de hoje que Aristóteles foi refutado? Que São Tomás está caduco? Saberão eles do que falam?
Penso que a explicação se deve, como em muitas outras situações, às misérias e defeitos, tanto da memória como da inteligência do ser humano.
Vejamos porquê...
No tempo de um Descartes, de um Hobbes, de um Locke ou de um Berkeley, a escolástica estava confinada, como nos recorda Corção, aos seminários, únicos locais onde era ensinada, e, desgraça das desgraças, mal ensinada.
As misérias e os defeitos da memória humana explicam porque razão os cérebros que leccionavam nos seminários e nas universidades da Renascença e da Modernidade, encarregados de preservar, transmitir e explicar às novas gerações o legado inestimável do tomismo-aristotelismo, fizeram um péssimo trabalho, dando mau nome à esplêndida doutrina.
O tempo erodiu a qualidade da doutrina ensinada às novas gerações.
Por sua vez, as misérias e os defeitos da inteligência humana explicam porque razão os filósofos da Renascença e da Modernidade, ao lerem os clássicos de São Tomás e de Aristóteles, não compreenderam o que leram, o que degenerou no surgimento de novas e erradas ideias filosóficas.
A novidade, em Filosofia, tem-se revelado ser uma desgraça. É um mau princípio, nortear uma área do conhecimento pela novidade, em vez de o fazer pela verdade.
Hoje em dia, a esmagadora maioria dos equívocos intelectuais que estão na base da presumida incompatibilidade entre Ciência Empírica e Teologia, deve-se a graves equívocos filosóficos e epistémicos, que surgem naturalmente do abandono (voluntário ou não) da herança tomista-aristotélica, local maior, no Ocidente, da verdade filosófica.
Só tal miséria intelectual no campo da Filosofia moderna e contemporânea poderá explicar que, hoje em dia, alguns tontos pretendam que as modernas ciências empíricas refutaram a velha, mas perene, Teologia.
Foi notável a defesa do tomismo-aristotelismo por parte de Corção. Foi das raras mentes contemporâneas a dar-se conta de que as ciências empiristas, ditas "modernas", em nada contradiziam (como poderiam?) a velhinha filosofia cristã, plasmada no seu auge de sofisticação e veracidade na escolástica medieval, ao tempo de São Tomás de Aquino.
Neste seu artigo, Corção expõe de forma clara um dos mais importantes debates filosóficos da modernidade, o da existência e natureza da Matéria. É um artigo que merece ser impresso para ser lido e meditado com calma e várias vezes.
Opondo Berkeley ao grupo dos materialistas (Descartes, Hobbes, Locke), Corção explica porque razão ambos os lados estão errados quando comparados com a visão correcta do tomismo-aristotelismo.
Como poderá ter acontecido tal tragédia intelectual? Como se terá perdido o acesso aos conceitos mais fundamentais de Filosofia? Porque razão deitámos fora os maiores feitos intelectuais do Ocidente? Porque razão afirmam os ignorantes de hoje que Aristóteles foi refutado? Que São Tomás está caduco? Saberão eles do que falam?
Penso que a explicação se deve, como em muitas outras situações, às misérias e defeitos, tanto da memória como da inteligência do ser humano.
Vejamos porquê...
No tempo de um Descartes, de um Hobbes, de um Locke ou de um Berkeley, a escolástica estava confinada, como nos recorda Corção, aos seminários, únicos locais onde era ensinada, e, desgraça das desgraças, mal ensinada.
As misérias e os defeitos da memória humana explicam porque razão os cérebros que leccionavam nos seminários e nas universidades da Renascença e da Modernidade, encarregados de preservar, transmitir e explicar às novas gerações o legado inestimável do tomismo-aristotelismo, fizeram um péssimo trabalho, dando mau nome à esplêndida doutrina.
O tempo erodiu a qualidade da doutrina ensinada às novas gerações.
Por sua vez, as misérias e os defeitos da inteligência humana explicam porque razão os filósofos da Renascença e da Modernidade, ao lerem os clássicos de São Tomás e de Aristóteles, não compreenderam o que leram, o que degenerou no surgimento de novas e erradas ideias filosóficas.
A novidade, em Filosofia, tem-se revelado ser uma desgraça. É um mau princípio, nortear uma área do conhecimento pela novidade, em vez de o fazer pela verdade.
Hoje em dia, a esmagadora maioria dos equívocos intelectuais que estão na base da presumida incompatibilidade entre Ciência Empírica e Teologia, deve-se a graves equívocos filosóficos e epistémicos, que surgem naturalmente do abandono (voluntário ou não) da herança tomista-aristotélica, local maior, no Ocidente, da verdade filosófica.
Só tal miséria intelectual no campo da Filosofia moderna e contemporânea poderá explicar que, hoje em dia, alguns tontos pretendam que as modernas ciências empíricas refutaram a velha, mas perene, Teologia.
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Citação de Stepinac - Pede-se ajuda
Entre 2005 e 2006, Palmira Silva, do Diário Ateísta (agora de estatuto promovido para o mais sério e mais lido De Rerum Natura), escreveu estes dois textos, que, do que pude apurar, contêm afirmações que importa esclarecer e que poderão ser falsas:
Propaganda ateísta?
A religião e o Holocausto: II
Neles, a prolífica investigadora ateísta atribuia a seguinte frase ao então Arcebispo de Zagreb, Alojzije Stepinac:
Logo a seguir, Palmira Silva supostamente ajuda-nos, "localizando" este trecho como pertencendo a uma presumida "Carta Pastoral de 1941 do Arcebispo de Zagreb Aloysius Stepinac". Infelizmente, depois de várias tentativas com o Google, usando palavras-chave que estão na citação da Palmira, como "Hitler", "Stepinac", "Poglavnik", "1941", "Pavelic", não consigo encontrar uma só fonte fidedigna que ateste a realidade histórica da dita citação!
Note-se que não assumo nenhum tipo de posição obscurantista! Eu QUERO mesmo ler o texto dessa carta pastoral, para ver o que é que o Arcebispo Stepinac lá escreveu. Por isso, que não se leia este meu texto como uma tentativa para esconder provas, mas sim precisamente o contrário. Alguém me ajuda, publicando o texto da dita carta pastoral, e indicando convenientemente a fonte?
Ora, tal citação em inglês, sem indicação de fonte, é a única presumida prova que Palmira apresenta nestes seus dois textos para apoiar a sua tese muito pessoal de que Stepinac era "um devoto de Hitler".
Nenhum historiador acostumado com o estudo da história moderna dos Balcãs ignora que Stepinac, e quase todo o clero católico, apoiou de forma entusiasta a formação do Estado Independente da Croácia em Abril de 1941, que seria liderado por Ante Pavelic. Só que tais historiadores também sabem que, escassos meses depois, tal apoio estava a deteriorar-se bastante, e também conhecem a enorme oposição de Stepinac ao regime Ustasi do ditador Pavelic. Mas essa parte, a Palmira decidiu não revelar aos seus leitores. Supressão de provas em contrário, típico da autora...
Não estou a negar a possibilidade de tal carta pastoral laudatória a Hitler ter alguma vez sido escrita pelo Arcebispo Stepinac. Ou, porventura, uma outra possibilidade: a carta existirá e terá sido mal traduzida para inglês, sendo a fonte usada pela Palmira uma fonte distorcida. Apenas considero tal carta pouco provável (foram raras as altas figuras da Igreja que alguma vez, em determinado contexto, louvaram Hitler oficialmente) e gostaria de encontrar alguma citação fidedigna.
Tudo o que me aparece no Google, usando as palavras de pesquisa atrás referida, remete para duas ou três obras de figuras anti-católicas sobejamente conhecidas, como o bom velho Avro Manhattan (prolífico autor anti-católico, obcecado com a ideia de que a Santa Sé queria impor ao Mundo uma Nova Ordem Mundial), ou o exótico Dave Hunt com o seu livro de "profecias", A Woman Rides the Beast: The Roman Catholic Church and the Last Days.
Será que nos pode ajudar, Palmira? De que obra historiográfica, de que monografia, de que arquivo histórico, de que resenha documental retirou essa citação? Pode indicar-nos uma fonte idónea?
É que não é para menos: pelo mesmo Google, consegui identificar pelo menos meia dúzia de blogues nacionais que levaram à letra o que a Palmira escreveu (asneira, isso nunca se faz) e trataram de propagar esta citação, referindo a fonte como sendo a Palmira (eles fizeram bem, indicaram a fonte, a Palmira é que não). Com o Google, já localizei esta situação em grupos de discussão no Brasil, que também terão lido os textos da Palmira!
Importa esclarecer isto de uma vez por todas! De onde vem esta citação?
Propaganda ateísta?
A religião e o Holocausto: II
Neles, a prolífica investigadora ateísta atribuia a seguinte frase ao então Arcebispo de Zagreb, Alojzije Stepinac:
"God, who directs the destiny of nations and controls the hearts of Kings, has given us Ante Pavelic and moved the leader of a friendly and allied people, Adolf Hitler, to use his victorious troops to disperse our oppressors... Glory be to God, our gratitude to Adolf Hitler and loyalty to our Poglavnik [fuhrer], Ante Pavelic."
Logo a seguir, Palmira Silva supostamente ajuda-nos, "localizando" este trecho como pertencendo a uma presumida "Carta Pastoral de 1941 do Arcebispo de Zagreb Aloysius Stepinac". Infelizmente, depois de várias tentativas com o Google, usando palavras-chave que estão na citação da Palmira, como "Hitler", "Stepinac", "Poglavnik", "1941", "Pavelic", não consigo encontrar uma só fonte fidedigna que ateste a realidade histórica da dita citação!
Note-se que não assumo nenhum tipo de posição obscurantista! Eu QUERO mesmo ler o texto dessa carta pastoral, para ver o que é que o Arcebispo Stepinac lá escreveu. Por isso, que não se leia este meu texto como uma tentativa para esconder provas, mas sim precisamente o contrário. Alguém me ajuda, publicando o texto da dita carta pastoral, e indicando convenientemente a fonte?
Ora, tal citação em inglês, sem indicação de fonte, é a única presumida prova que Palmira apresenta nestes seus dois textos para apoiar a sua tese muito pessoal de que Stepinac era "um devoto de Hitler".
Nenhum historiador acostumado com o estudo da história moderna dos Balcãs ignora que Stepinac, e quase todo o clero católico, apoiou de forma entusiasta a formação do Estado Independente da Croácia em Abril de 1941, que seria liderado por Ante Pavelic. Só que tais historiadores também sabem que, escassos meses depois, tal apoio estava a deteriorar-se bastante, e também conhecem a enorme oposição de Stepinac ao regime Ustasi do ditador Pavelic. Mas essa parte, a Palmira decidiu não revelar aos seus leitores. Supressão de provas em contrário, típico da autora...
Não estou a negar a possibilidade de tal carta pastoral laudatória a Hitler ter alguma vez sido escrita pelo Arcebispo Stepinac. Ou, porventura, uma outra possibilidade: a carta existirá e terá sido mal traduzida para inglês, sendo a fonte usada pela Palmira uma fonte distorcida. Apenas considero tal carta pouco provável (foram raras as altas figuras da Igreja que alguma vez, em determinado contexto, louvaram Hitler oficialmente) e gostaria de encontrar alguma citação fidedigna.
Tudo o que me aparece no Google, usando as palavras de pesquisa atrás referida, remete para duas ou três obras de figuras anti-católicas sobejamente conhecidas, como o bom velho Avro Manhattan (prolífico autor anti-católico, obcecado com a ideia de que a Santa Sé queria impor ao Mundo uma Nova Ordem Mundial), ou o exótico Dave Hunt com o seu livro de "profecias", A Woman Rides the Beast: The Roman Catholic Church and the Last Days.
Será que nos pode ajudar, Palmira? De que obra historiográfica, de que monografia, de que arquivo histórico, de que resenha documental retirou essa citação? Pode indicar-nos uma fonte idónea?
É que não é para menos: pelo mesmo Google, consegui identificar pelo menos meia dúzia de blogues nacionais que levaram à letra o que a Palmira escreveu (asneira, isso nunca se faz) e trataram de propagar esta citação, referindo a fonte como sendo a Palmira (eles fizeram bem, indicaram a fonte, a Palmira é que não). Com o Google, já localizei esta situação em grupos de discussão no Brasil, que também terão lido os textos da Palmira!
Importa esclarecer isto de uma vez por todas! De onde vem esta citação?
Bibliografia sobre Pio XII e a Segunda Guerra Mundial
Eis a lista de algumas boas obras que não surgem nos sites anti-católicos e de difamação anti-Pio XII. Alguns destes livros, já os tenho, outros ainda não. Agradeço a quem me estiver a ler que me comunique se por acaso tiver alguns dos títulos marcados com um "*".
Estas obras são boa ajuda para aqueles que querem mergulhar às profundezas da questão, e escapar ao marasmo da ignorância preconceituosa que abunda na opinião pública.
* «A Santa Sé e a questão judaica (1933-1945)», da editora italiana Studium, escrito pelo professor Alessandro Duce, professor extraordinário de História das Relações Internacionais nas Faculdades de Ciências Políticas e de Jurisprudência da Universidade de Parma.
«The Pius War: Responses to the Critics of Pius XII», William Doino, 2004, Lexington Books. Doino é colaborador da revista americana «Inside the Vatican».
«Pie XII et la Seconde Guerre mondiale d'après les archives du Vatican», Pierre Blet, Perrin, 1997.
«The Conspiracy Against Hitler in the Twilight War», Harold C. Deutsch, University of Minnesota Press, 1968. Essencial para compreender o papel de Pio XII na conspiração da oposição alemã para depor Hitler.
«The Vatican in the Age of the Dictators (1922-1945)», Anthony Rhodes, Holt, Rinehart and Winston, 1973. Síntese da atitude diplomática da Santa Sé durante o período "quente" das ditaduras europeias.
* «Actes et documents du Saint Siège relatifs à la Seconde Guerre Mondiale», resenha documental, vários autores, 11 volumes, 1965-1981. Que eu saiba, não disponível para compra. A Biblioteca João Paulo II, na Universidade Católica, em Lisboa, tem uma cópia listada no seu arquivo.
«A Special Mission: Hitler's Secret Plot to Seize the Vatican and Kidnap Pope Pius the XII», Dan Kurzman, Perseus Books Group, 2007.
«The Myth of Hitler's Pope: Pope Pius XII and His Secret War Against Nazi Germany», Rabbi David Dalin, Regnery Publishing, 2005.
"Three Popes and the Jews", Pinchas Lapide, Hawthorn Books, 1967.
* «Vatican Diplomacy. A Study of Church and State on the International Plane», Robert A. Graham, Princeton University Press, 1959.
«Nothing Sacred: Nazi Espionage Against the Vatican, 1939-1945», David Alvarez, Robert A. Graham, Irish Academic Press, 1997.
A lista poderia continuar indefinidamente. Tentarei actualizá-la de tempos a tempos.
Estas obras são boa ajuda para aqueles que querem mergulhar às profundezas da questão, e escapar ao marasmo da ignorância preconceituosa que abunda na opinião pública.
* «A Santa Sé e a questão judaica (1933-1945)», da editora italiana Studium, escrito pelo professor Alessandro Duce, professor extraordinário de História das Relações Internacionais nas Faculdades de Ciências Políticas e de Jurisprudência da Universidade de Parma.
«The Pius War: Responses to the Critics of Pius XII», William Doino, 2004, Lexington Books. Doino é colaborador da revista americana «Inside the Vatican».
«Pie XII et la Seconde Guerre mondiale d'après les archives du Vatican», Pierre Blet, Perrin, 1997.
«The Conspiracy Against Hitler in the Twilight War», Harold C. Deutsch, University of Minnesota Press, 1968. Essencial para compreender o papel de Pio XII na conspiração da oposição alemã para depor Hitler.
«The Vatican in the Age of the Dictators (1922-1945)», Anthony Rhodes, Holt, Rinehart and Winston, 1973. Síntese da atitude diplomática da Santa Sé durante o período "quente" das ditaduras europeias.
* «Actes et documents du Saint Siège relatifs à la Seconde Guerre Mondiale», resenha documental, vários autores, 11 volumes, 1965-1981. Que eu saiba, não disponível para compra. A Biblioteca João Paulo II, na Universidade Católica, em Lisboa, tem uma cópia listada no seu arquivo.
«A Special Mission: Hitler's Secret Plot to Seize the Vatican and Kidnap Pope Pius the XII», Dan Kurzman, Perseus Books Group, 2007.
«The Myth of Hitler's Pope: Pope Pius XII and His Secret War Against Nazi Germany», Rabbi David Dalin, Regnery Publishing, 2005.
"Three Popes and the Jews", Pinchas Lapide, Hawthorn Books, 1967.
* «Vatican Diplomacy. A Study of Church and State on the International Plane», Robert A. Graham, Princeton University Press, 1959.
«Nothing Sacred: Nazi Espionage Against the Vatican, 1939-1945», David Alvarez, Robert A. Graham, Irish Academic Press, 1997.
A lista poderia continuar indefinidamente. Tentarei actualizá-la de tempos a tempos.
Embriões híbridos - núcleo humano em citoplasma animal
HFEA statement on its decision regarding hybrid embryos
Um pequeno passo para o Homem...
Um GRANDE passo para a Besta!
Um pequeno passo para o Homem...
Um GRANDE passo para a Besta!
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
Dúvidas de fé
Ainda está para nascer, se é que alguma vez nascerá, o crente sensato que nunca teve dúvidas de fé. Que nunca duvidou da existência de Deus.
Existem, e existirão sempre, pessoas que não pensam sobre estas questões metafísicas. Crentes que são crentes sem pensar. Ateus que são ateus sem pensar. Agnósticos que são agnósticos sem pensar.
Contudo, o próprio processo humano de pensar obriga à dúvida, à confrontação de ideias opostas, de respostas contraditórias para as questões essenciais da vida.
Toda a comunicação social está em êxtase com as revelações das dúvidas de fé de Madre Teresa de Calcutá. Grande choque! Tudo é hiperbolizado, como se fosse impossível que tal pessoa tivesse dúvidas de fé.
Mas quem não as tem? Só os tontos.
A atitude de fé é indissociável da confiança interpessoal. Se não confiamos em ninguém, não podemos ter fé. A fé amadurece, e aprofunda-se, partindo da semente que é a confiança, e usando da inteligência e da razão para a aprofundar.
Se repararmos, é exactamente, a mesma atitude (só o âmbito do conhecimento é diferente) que o cientista deve adoptar. Nenhum cientista tem tempo nesta vida para estudar tudo, para verificar individualmente os resultados de todos os seus colegas cientistas em todas as áreas do saber empírico moderno. Por isso, qualquer cientista tem que, dentro da razoabilidade, aceitar os resultados dos trabalhos de outros cientistas. Poderá, aqui e acolá, sobretudo se se tratar de um trabalho na sua área, querer reproduzir esse trabalho para averiguar acerca da sua justeza. Mas um especialista em biologia, por exemplo, não teria tempo suficiente na sua vida para estudar, em paralelo, tudo o que há de publicações científicas sobre meteorologia, geologia, matemática, física, química, história, geografia, entre outras.
A inteligência humana adquire conhecimento através de um processo sempre igual, e que, se seguido de forma diligente, dá normalmente bons resultados:
a) uma atitude de fé: numa pessoa, numa obra ou trabalho, numa organização
b) uma atitude de investigação e trabalho intelectual individual
As dúvidas de fé são tão legítimas, na mente do crente pensante, como as dúvidas do cientista. Não há progresso científico sem a ajuda preciosa da dúvida. E não haveria Igreja Católica como a conhecemos hoje, com a estabilidade doutrinal que esta apresenta, sem vinte séculos de dúvidas e debates intelectuais acerca de todos os mais ínfimos e infindáveis detalhes doutrinais.
Existem, e existirão sempre, pessoas que não pensam sobre estas questões metafísicas. Crentes que são crentes sem pensar. Ateus que são ateus sem pensar. Agnósticos que são agnósticos sem pensar.
Contudo, o próprio processo humano de pensar obriga à dúvida, à confrontação de ideias opostas, de respostas contraditórias para as questões essenciais da vida.
Toda a comunicação social está em êxtase com as revelações das dúvidas de fé de Madre Teresa de Calcutá. Grande choque! Tudo é hiperbolizado, como se fosse impossível que tal pessoa tivesse dúvidas de fé.
Mas quem não as tem? Só os tontos.
A atitude de fé é indissociável da confiança interpessoal. Se não confiamos em ninguém, não podemos ter fé. A fé amadurece, e aprofunda-se, partindo da semente que é a confiança, e usando da inteligência e da razão para a aprofundar.
Se repararmos, é exactamente, a mesma atitude (só o âmbito do conhecimento é diferente) que o cientista deve adoptar. Nenhum cientista tem tempo nesta vida para estudar tudo, para verificar individualmente os resultados de todos os seus colegas cientistas em todas as áreas do saber empírico moderno. Por isso, qualquer cientista tem que, dentro da razoabilidade, aceitar os resultados dos trabalhos de outros cientistas. Poderá, aqui e acolá, sobretudo se se tratar de um trabalho na sua área, querer reproduzir esse trabalho para averiguar acerca da sua justeza. Mas um especialista em biologia, por exemplo, não teria tempo suficiente na sua vida para estudar, em paralelo, tudo o que há de publicações científicas sobre meteorologia, geologia, matemática, física, química, história, geografia, entre outras.
A inteligência humana adquire conhecimento através de um processo sempre igual, e que, se seguido de forma diligente, dá normalmente bons resultados:
a) uma atitude de fé: numa pessoa, numa obra ou trabalho, numa organização
b) uma atitude de investigação e trabalho intelectual individual
As dúvidas de fé são tão legítimas, na mente do crente pensante, como as dúvidas do cientista. Não há progresso científico sem a ajuda preciosa da dúvida. E não haveria Igreja Católica como a conhecemos hoje, com a estabilidade doutrinal que esta apresenta, sem vinte séculos de dúvidas e debates intelectuais acerca de todos os mais ínfimos e infindáveis detalhes doutrinais.
domingo, 26 de agosto de 2007
Materialismo em estado puro
Parte I - Prelúdio
O Ludwig escreveu hoje uma sátira no seu blogue, sob a pena do alter-ego "Dom Mário Neto", que representa a ideia que o Ludwig faz de uma realidade que ele ainda não conhece nem compreende: a da Teologia (e do teólogo). "Dom Mário Neto" é aquilo que o Ludwig imagina ser um teólogo, e usa esse alter-ego para satirizar as crenças religiosas em geral, com especial incidência, por razões óbvias (culturais) no cristianismo.
A discussão começara ontem, quando o Ludwig satirizou um trecho do Primeiro Livro de Samuel. Os detalhes podem ser lidos aqui.
O início da discussão não é interessante por si mesmo (uma disputa acerca da tradução de um termo hebraico), mas sim pelas realidades que faz ressaltar. Devo confessar que até há um quarto de hora atrás, eu não tinha ainda compreendido a objecção do Ludwig: achava que ele queria simplesmente teimar num determinado suposto absurdo conceptual que ele teria encontrado num dos livros do Antigo Testamento. Compreensão lenta a minha, porque na realidade, o problema do Luwdig estava na eterna questão da relação entre os bens materiais e a religião. Juro que só agora é que entendi que este sempre foi o cerne da questão levantada pelo Ludwig no seu texto de Sábado.
Com este comentário do Ludwig, apresentado de seguida, fica-se com a ideia de que o capítulo em questão constitui, para ele, uma prova de algo de muito grave em termos da atitude religiosa de um crente:
«Este relato continua a revelar algo de profundamente ridículo e perturbante com estas crenças religiosas.»
Não pode ser coisa pouca!
Na mesma caixa de comentários, Ludwig escreveu:
«Mesmo com a sua explicação, cuja ideia já conhecia, a minha opinião mantém-se. Ninguém oferece os pecados. Hoje em dia oferece-se dinheiro e jóias, e antigamente era comida, dinheiro e jóias. Ou seja, coisas de valor e não as coisas más de que nos queremos livrar.
E isso é quase universal na religião humana porque todos temos uma grande costela de comerciante.»
Vemos então que, afinal, a questão sempre foi a do ouro, e não tinha propriamente a ver com problemas de tradução. Para Ludwig, o "desastre" revelado no capítulo 6 do Primeiro Livro de Samuel era o facto de que seres humanos (racionais), neste caso os Filisteus, ofereceram ouro a um deus para expiação de pecados.
Este pode bem ser definido como um dos grandes "pecados mortais" do ateísmo esclarecido. Aos olhos destes iluminados, estamos perante algo não menor do que suicídio racionalista. A morte do bom senso. O enterro da Razão.
Parte II - Uma aparente condenação do materialismo
Numa primeira abordagem, Ludwig escolhe um caminho já bem trilhado e pisado por muitos antes dele, nos últimos séculos. A crítica à relação da Igreja com os bens materiais (vou cingir-me ao cristianismo, mas sei que o Ludwig aponta para algo em sentido lato, algo que vise todas as principais religiões). Para o Ludwig, e penso não estar a fazer um juízo errado, toda a Igreja, tendo que existir (idealmente, não existiria no mundo perfeito imaginado por Ludwig, composto por pessoas inteligentes e racionais), deveria ser composta por "Sãos Franciscos", por pessoas totalmente mendicantes, que nunca tocassem em bens materiais. Só dessa forma, na cosmovisão ludwiguiana, a Igreja seria coerente com aquilo que professa.
Trocado por miúdos, esta é a catequese iluminista, defendida por Ludwig, e que hoje em dia se tornou num facto consumado para uma crescente parte dos nossos concidadãos, num verdadeiro mito moderno:
A. Deus não existe (axioma).
1. Os crentes são pessoas pouco cultivadas: uma pessoa com conhecimentos não precisa de Deus para nada.
2. Os crentes de antigamente procuravam consolo na religião porque tinham medo da morte, mas também porque não conseguiam explicar certos fenómenos, hoje explicados pela Ciência; a Ciência deveria ter tornado a Religião num fenómeno caduco e condenado a desaparecer.
3. Os crentes de hoje ainda procuram consolo na religião porque têm medo da morte, mas também porque precisam ainda de uma explicação fácil para as injustiças: a religião é, e sempre foi, uma atitude subjectiva porque totalmente sentimental.
4. As Igrejas são dirigidas por comerciantes, que trocam bens materiais por consolo psicológico.
Sem o axioma, tudo isto cai, certamente, por terra. É na firme certeza filosófica (pela sua natureza, não pode ser uma certeza científica) de que Deus não existe que eles radicam a sua visão de que a religião é um gigantesco engano (para alguns, o maior engano de todos). Há então os que enganam (o clero) e os que são enganados (o povo). A religião, vista como algo que Marx apelidou de "ópio do povo".
A luta da Ciência contra a Religião, levada a cabo por estes bravos lutadores pós-Iluminismo, é então a eterna luta da Luz racionalista contra as Trevas da religião.
Em suma, o ateu esclarecido tem a resposta na ponta da língua:
a) O que quer um papa ou um bispo?
OURO e PODER
b) O que quer o crente?
CONSOLO
Supor que existam altos dirigentes da Igreja que vivem uma vida de fé sincera e devota é algo de aberrante: um alto dirigente da Igreja só lá está pelo poder e pelo ouro.
Supor que existam padres com pouco poder e crentes pobres já é algo de compreensível: são pessoas ignorantes exploradas pelo "sistema" religioso.
Para uma pessoa como o Ludwig, um mártir (que dá a sua vida por Cristo) representa uma tragédia humana enorme, não pelo sacrifício pessoal mas pelo absurdo da causa. O mártir deverá ser, para Ludwig, o supremo da loucura: uma pessoa dar a sua vida (para eles, a única) para encher a barriga e os cofres da padralhada.
Esta visão, está claro, é preconceituosa e baseia-se na ignorância. E é errada. O que é terrível, sobretudo quando tal visão é defendida por espíritos inteligentes, que deveriam ter alguma capacidade para escapar às condicionantes sociais que nos impõem esses preconceitos diariamente...
Parte III - A profissão (inconsciente) do mais arreigado materialismo
A atitude do Ludwig, disse atrás, parece à primeira vista (e parecer-lhe-á a ele mesmo) uma crítica do materialismo da Igreja. Ou seja, uma posição que teria tudo para ser anti-materialista. O Ludwig não aceita que as oferendas a Deus (por intermédio da Igreja) possam ter um significado sofisticado ou metafísico, ou possam ser gestos razoáveis ou aceitáveis. Para o Ludwig, tais significados metafísicos são normalmente "cozinhados" pelo blinólogo Dom Mário Neto de serviço. Porque não há, para o Ludwig, nenhum mistério numa oferenda destas: é apenas um crente a ir na argolada da Igreja.
Para o Ludwig, quando uma pessoa crente como eu coloca uma moeda no cestinho do ofertório, durante a Missa, está a ser burlado: a trocar consolo por dinheiro. Do lado de lá do altar, está o supremo comerciante: o padreco, esse gatuno do trabalho dos outros.
Esta visão, tão típica (será das mais típicas) do Iluminismo, do Modernismo, e ainda viva nesta época pós-modernista, longe de ser anti-materialista, é, na realidade, uma visão no extremo máximo do materialismo.
Sem modelos nem referências transcendentais, o ateu radica a sua existência no hic et nunc, no "aqui e agora" utilitarista, na fruição da experiência existencial tal qual ela é, sem grandes interrogações ou suposições metafísicas.
Por isso, a vida do ateu é explicada de forma simples: "Trabalho para obter dinheiro; uso o dinheiro para obter comida; como para me manter vivo; morro. Ponto final.".
Neste sentido, os bens materiais são preciosos para o ateu: são o combustível que mantém em movimento toda a máquina existencial ateísta: o corpo humano, esse robô sofisticado que um dia, segundo eles, a Ciência não só emulará, mas melhorará infinitamente. O ateu luta arduamente para evitar a morte. Ficar vivo só porque sim, só para aproveitar a vida, os bens materiais desta vida, é isso que o ateu quer.
Haverá então maior pecado ateísta, maior violação ética ao código comportamental do ateu, do que desperdiçar bens materiais? Do que perder a vida? Do que não procurar a satisfação sensorial? Do que perder a oportunidade de fruir destes bens numa sofreguidão individualista e epicurista?
Violar o carpe diem, este é o maior pecado do Homem aos olhos do ateu...
Isto é puro materialismo.
Como diz o Ludwig, o ser humano tem sempre algo de comerciante. O ateu radica a existência humana nos bens materiais, é deles que tudo parte, é para eles que tudo regressa. Os bens materiais explicam tudo. "Money makes the world go round!".
No fundo, na base da crítica que o Ludwig faz à existência de uma relação entre os bens materiais e a Igreja, está, paradoxalmente, um amor enorme (não confessado) aos bens materiais, essa bóia de salvação existencial, essa realidade tangível (para eles, o intangível é inútil, mais, é irreal) que dá aos ateus a sua sensação de segurança ontológica.
Parte IV - A religião e os bens materiais
Para o crente, que não sofre destes dilemas existenciais insolúveis, a coisa é relativamente simples:
1. Deus criou tudo. Rigorosamente tudo, incluindo os bens materiais.
2. A vida não pertence ao Homem, mas sim a Deus: é um dom de Deus para o Homem.
3. Os bens materiais não pertencem ao Homem: são colocados por Deus à disposição do Homem.
4. Os homens entregam o fruto do seu trabalho (em géneros ou dinheiro) em oferenda a Deus, colocando-o nas mãos daqueles que vivem exclusivamente para o serviço a Deus (o clero).
5. O clero fica responsável (depositário) de bens que não lhe pertencem, e que se destinam ao serviço divino.
Quando vemos um determinado prelado a viver uma vida de luxo desnecessário, podemos indignar-nos com razão: aquele homem está a esbanjar algo que não lhe pertence, não está a aplicar os bens que lhe foram confiados para servir a Deus.
Mas, e esta é a tragédia da incompreensão do Ludwig, há um abismo enorme entre esta atitude de cupidez humana, infelizmente demasiado frequente devido à nossa fraca natureza, e a atitude do prelado responsável, que gere bem os bens que lhe são confiados, e que os usa nas variadas vertentes do serviço a Deus, que passa pela ajuda aos que não têm, pelo trabalho de evangelização, pela defesa do património cultural do cristianismo, pela defesa da Igreja face aos seus agressores externos.
Quando eu entrego a minha dádiva no cesto, durante o Ofertório, tenho a perfeita consciência de que essa deve ser a menor parte da minha dádiva à sociedade, à Igreja, e a Deus enquanto cristão. Tenho muito mais que posso dar, e devo procurar oferecer, sobretudo, bens imateriais. Mas também tenho a consciência de que estou a depositar algo de material e que tem valor, à guarda de pessoas nas quais confio. Em muitos casos, porque o sacerdote costuma dizê-lo, até posso saber o destino dessa dádiva.
Se determinadas pessoas falham nessa minha confiança, se usam mal esses bens, serão elas a responder perante o Criador, e não eu. Acima de tudo, não é o acto de oferecer que está errado. Não é quem oferece que está errado. Oferecer está certíssimo. É a forma natural e racional de proceder.
Assim, como vemos, para o crente, os bens materiais devem fluir na sociedade, não só para a subsistência material da mesma, mas também para a maior glória de Deus. É nesse sentido que todo o crente razoável sabe que o trabalho de Deus nesta Terra também requer bens materiais. Em maior ou menor quantidade, consoante o destino dos mesmos. Esse destino tem é que ser justo e proporcional, mas isso é uma questão secundária e não central ao acto de dar.
A Igreja não é gnóstica: não há nada de maligno na Criação, nem nos bens, nem sequer no ouro, na prata, ou nas pedras preciosas. O que a Igreja ensina é algo de elementar e simples: quanto mais valioso é o bem, maior a responsabilidade do seu proprietário (ou do seu guardião) em dar-lhe bom uso.
Os bens servem o Homem. Mas isto tem muitas dimensões, para além da biológica, orgânica, psicológica ou social. Para o crente, o serviço dos bens ao Homem terá que passar, indiscutivelmente, por aproximá-lo de Deus. Logo, o destino mais elevado de um bem material é o de ser empregue para a glória de Deus, para fazer a ponte entre o Homem e Deus.
Na verdade, o bom crente dá um valor relativo aos bens materiais. Um valor não nulo, um valor positivo, mas incomparavelmente menor que o valor que um ateu lhes dá. Porque o crente sabe que a sua vida é finita. Que um dia acaba. E que nada de material, nem sequer o nosso corpo, se leva desta vida para a outra. Para o ateu, tudo o que há é para ser gozado nesta vida, que para eles é a única.
Assim, o ateísmo é, na verdade, um puro materialismo. Por definição.
Sobre a cupidez dos padres, muitos e santos homens escreveram afincadamente. Por exemplo, o nosso Santo António de Lisboa dedicou-lhes muitas e duras palavras (ver, entre muitos outros, o sermão do 5º Domingo depois da Páscoa, I, 663, sobre os vícios dos sacerdotes). O sacerdote que dá mau uso aos bens ao seu cuidado, e que não se arrependa a tempo, está perdido. Pobres de tais sacerdotes, indignos servidores de Deus, traidores na causa mais nobre. O mais triste é que tais pessoas estão reféns de um bloqueio intelectual que os faz servir o senhor errado. Servem o metal em vez de servir a Deus. Mas isso não faz do metal algo de mau, nem obriga a um divórcio entre os bens materiais e o serviço a Deus.
Este conceito que procurei explicar, o da utilidade e justeza do uso dos bens materiais no serviço a Deus, é incompreensível à "luz" (que raio de luz, esta, que escurece as mentes!) da distorcida cosmovisão do "ateísmo esclarecido", nascido da defesa dos novos dogmas decretados pela soi disant "Razão" contra Deus no século XVIII.
O Ludwig escreveu hoje uma sátira no seu blogue, sob a pena do alter-ego "Dom Mário Neto", que representa a ideia que o Ludwig faz de uma realidade que ele ainda não conhece nem compreende: a da Teologia (e do teólogo). "Dom Mário Neto" é aquilo que o Ludwig imagina ser um teólogo, e usa esse alter-ego para satirizar as crenças religiosas em geral, com especial incidência, por razões óbvias (culturais) no cristianismo.
A discussão começara ontem, quando o Ludwig satirizou um trecho do Primeiro Livro de Samuel. Os detalhes podem ser lidos aqui.
O início da discussão não é interessante por si mesmo (uma disputa acerca da tradução de um termo hebraico), mas sim pelas realidades que faz ressaltar. Devo confessar que até há um quarto de hora atrás, eu não tinha ainda compreendido a objecção do Ludwig: achava que ele queria simplesmente teimar num determinado suposto absurdo conceptual que ele teria encontrado num dos livros do Antigo Testamento. Compreensão lenta a minha, porque na realidade, o problema do Luwdig estava na eterna questão da relação entre os bens materiais e a religião. Juro que só agora é que entendi que este sempre foi o cerne da questão levantada pelo Ludwig no seu texto de Sábado.
Com este comentário do Ludwig, apresentado de seguida, fica-se com a ideia de que o capítulo em questão constitui, para ele, uma prova de algo de muito grave em termos da atitude religiosa de um crente:
«Este relato continua a revelar algo de profundamente ridículo e perturbante com estas crenças religiosas.»
Não pode ser coisa pouca!
Na mesma caixa de comentários, Ludwig escreveu:
«Mesmo com a sua explicação, cuja ideia já conhecia, a minha opinião mantém-se. Ninguém oferece os pecados. Hoje em dia oferece-se dinheiro e jóias, e antigamente era comida, dinheiro e jóias. Ou seja, coisas de valor e não as coisas más de que nos queremos livrar.
E isso é quase universal na religião humana porque todos temos uma grande costela de comerciante.»
Vemos então que, afinal, a questão sempre foi a do ouro, e não tinha propriamente a ver com problemas de tradução. Para Ludwig, o "desastre" revelado no capítulo 6 do Primeiro Livro de Samuel era o facto de que seres humanos (racionais), neste caso os Filisteus, ofereceram ouro a um deus para expiação de pecados.
Este pode bem ser definido como um dos grandes "pecados mortais" do ateísmo esclarecido. Aos olhos destes iluminados, estamos perante algo não menor do que suicídio racionalista. A morte do bom senso. O enterro da Razão.
Parte II - Uma aparente condenação do materialismo
Numa primeira abordagem, Ludwig escolhe um caminho já bem trilhado e pisado por muitos antes dele, nos últimos séculos. A crítica à relação da Igreja com os bens materiais (vou cingir-me ao cristianismo, mas sei que o Ludwig aponta para algo em sentido lato, algo que vise todas as principais religiões). Para o Ludwig, e penso não estar a fazer um juízo errado, toda a Igreja, tendo que existir (idealmente, não existiria no mundo perfeito imaginado por Ludwig, composto por pessoas inteligentes e racionais), deveria ser composta por "Sãos Franciscos", por pessoas totalmente mendicantes, que nunca tocassem em bens materiais. Só dessa forma, na cosmovisão ludwiguiana, a Igreja seria coerente com aquilo que professa.
Trocado por miúdos, esta é a catequese iluminista, defendida por Ludwig, e que hoje em dia se tornou num facto consumado para uma crescente parte dos nossos concidadãos, num verdadeiro mito moderno:
A. Deus não existe (axioma).
1. Os crentes são pessoas pouco cultivadas: uma pessoa com conhecimentos não precisa de Deus para nada.
2. Os crentes de antigamente procuravam consolo na religião porque tinham medo da morte, mas também porque não conseguiam explicar certos fenómenos, hoje explicados pela Ciência; a Ciência deveria ter tornado a Religião num fenómeno caduco e condenado a desaparecer.
3. Os crentes de hoje ainda procuram consolo na religião porque têm medo da morte, mas também porque precisam ainda de uma explicação fácil para as injustiças: a religião é, e sempre foi, uma atitude subjectiva porque totalmente sentimental.
4. As Igrejas são dirigidas por comerciantes, que trocam bens materiais por consolo psicológico.
Sem o axioma, tudo isto cai, certamente, por terra. É na firme certeza filosófica (pela sua natureza, não pode ser uma certeza científica) de que Deus não existe que eles radicam a sua visão de que a religião é um gigantesco engano (para alguns, o maior engano de todos). Há então os que enganam (o clero) e os que são enganados (o povo). A religião, vista como algo que Marx apelidou de "ópio do povo".
A luta da Ciência contra a Religião, levada a cabo por estes bravos lutadores pós-Iluminismo, é então a eterna luta da Luz racionalista contra as Trevas da religião.
Em suma, o ateu esclarecido tem a resposta na ponta da língua:
a) O que quer um papa ou um bispo?
OURO e PODER
b) O que quer o crente?
CONSOLO
Supor que existam altos dirigentes da Igreja que vivem uma vida de fé sincera e devota é algo de aberrante: um alto dirigente da Igreja só lá está pelo poder e pelo ouro.
Supor que existam padres com pouco poder e crentes pobres já é algo de compreensível: são pessoas ignorantes exploradas pelo "sistema" religioso.
Para uma pessoa como o Ludwig, um mártir (que dá a sua vida por Cristo) representa uma tragédia humana enorme, não pelo sacrifício pessoal mas pelo absurdo da causa. O mártir deverá ser, para Ludwig, o supremo da loucura: uma pessoa dar a sua vida (para eles, a única) para encher a barriga e os cofres da padralhada.
Esta visão, está claro, é preconceituosa e baseia-se na ignorância. E é errada. O que é terrível, sobretudo quando tal visão é defendida por espíritos inteligentes, que deveriam ter alguma capacidade para escapar às condicionantes sociais que nos impõem esses preconceitos diariamente...
Parte III - A profissão (inconsciente) do mais arreigado materialismo
A atitude do Ludwig, disse atrás, parece à primeira vista (e parecer-lhe-á a ele mesmo) uma crítica do materialismo da Igreja. Ou seja, uma posição que teria tudo para ser anti-materialista. O Ludwig não aceita que as oferendas a Deus (por intermédio da Igreja) possam ter um significado sofisticado ou metafísico, ou possam ser gestos razoáveis ou aceitáveis. Para o Ludwig, tais significados metafísicos são normalmente "cozinhados" pelo blinólogo Dom Mário Neto de serviço. Porque não há, para o Ludwig, nenhum mistério numa oferenda destas: é apenas um crente a ir na argolada da Igreja.
Para o Ludwig, quando uma pessoa crente como eu coloca uma moeda no cestinho do ofertório, durante a Missa, está a ser burlado: a trocar consolo por dinheiro. Do lado de lá do altar, está o supremo comerciante: o padreco, esse gatuno do trabalho dos outros.
Esta visão, tão típica (será das mais típicas) do Iluminismo, do Modernismo, e ainda viva nesta época pós-modernista, longe de ser anti-materialista, é, na realidade, uma visão no extremo máximo do materialismo.
Sem modelos nem referências transcendentais, o ateu radica a sua existência no hic et nunc, no "aqui e agora" utilitarista, na fruição da experiência existencial tal qual ela é, sem grandes interrogações ou suposições metafísicas.
Por isso, a vida do ateu é explicada de forma simples: "Trabalho para obter dinheiro; uso o dinheiro para obter comida; como para me manter vivo; morro. Ponto final.".
Neste sentido, os bens materiais são preciosos para o ateu: são o combustível que mantém em movimento toda a máquina existencial ateísta: o corpo humano, esse robô sofisticado que um dia, segundo eles, a Ciência não só emulará, mas melhorará infinitamente. O ateu luta arduamente para evitar a morte. Ficar vivo só porque sim, só para aproveitar a vida, os bens materiais desta vida, é isso que o ateu quer.
Haverá então maior pecado ateísta, maior violação ética ao código comportamental do ateu, do que desperdiçar bens materiais? Do que perder a vida? Do que não procurar a satisfação sensorial? Do que perder a oportunidade de fruir destes bens numa sofreguidão individualista e epicurista?
Violar o carpe diem, este é o maior pecado do Homem aos olhos do ateu...
Isto é puro materialismo.
Como diz o Ludwig, o ser humano tem sempre algo de comerciante. O ateu radica a existência humana nos bens materiais, é deles que tudo parte, é para eles que tudo regressa. Os bens materiais explicam tudo. "Money makes the world go round!".
No fundo, na base da crítica que o Ludwig faz à existência de uma relação entre os bens materiais e a Igreja, está, paradoxalmente, um amor enorme (não confessado) aos bens materiais, essa bóia de salvação existencial, essa realidade tangível (para eles, o intangível é inútil, mais, é irreal) que dá aos ateus a sua sensação de segurança ontológica.
Parte IV - A religião e os bens materiais
Para o crente, que não sofre destes dilemas existenciais insolúveis, a coisa é relativamente simples:
1. Deus criou tudo. Rigorosamente tudo, incluindo os bens materiais.
2. A vida não pertence ao Homem, mas sim a Deus: é um dom de Deus para o Homem.
3. Os bens materiais não pertencem ao Homem: são colocados por Deus à disposição do Homem.
4. Os homens entregam o fruto do seu trabalho (em géneros ou dinheiro) em oferenda a Deus, colocando-o nas mãos daqueles que vivem exclusivamente para o serviço a Deus (o clero).
5. O clero fica responsável (depositário) de bens que não lhe pertencem, e que se destinam ao serviço divino.
Quando vemos um determinado prelado a viver uma vida de luxo desnecessário, podemos indignar-nos com razão: aquele homem está a esbanjar algo que não lhe pertence, não está a aplicar os bens que lhe foram confiados para servir a Deus.
Mas, e esta é a tragédia da incompreensão do Ludwig, há um abismo enorme entre esta atitude de cupidez humana, infelizmente demasiado frequente devido à nossa fraca natureza, e a atitude do prelado responsável, que gere bem os bens que lhe são confiados, e que os usa nas variadas vertentes do serviço a Deus, que passa pela ajuda aos que não têm, pelo trabalho de evangelização, pela defesa do património cultural do cristianismo, pela defesa da Igreja face aos seus agressores externos.
Quando eu entrego a minha dádiva no cesto, durante o Ofertório, tenho a perfeita consciência de que essa deve ser a menor parte da minha dádiva à sociedade, à Igreja, e a Deus enquanto cristão. Tenho muito mais que posso dar, e devo procurar oferecer, sobretudo, bens imateriais. Mas também tenho a consciência de que estou a depositar algo de material e que tem valor, à guarda de pessoas nas quais confio. Em muitos casos, porque o sacerdote costuma dizê-lo, até posso saber o destino dessa dádiva.
Se determinadas pessoas falham nessa minha confiança, se usam mal esses bens, serão elas a responder perante o Criador, e não eu. Acima de tudo, não é o acto de oferecer que está errado. Não é quem oferece que está errado. Oferecer está certíssimo. É a forma natural e racional de proceder.
Assim, como vemos, para o crente, os bens materiais devem fluir na sociedade, não só para a subsistência material da mesma, mas também para a maior glória de Deus. É nesse sentido que todo o crente razoável sabe que o trabalho de Deus nesta Terra também requer bens materiais. Em maior ou menor quantidade, consoante o destino dos mesmos. Esse destino tem é que ser justo e proporcional, mas isso é uma questão secundária e não central ao acto de dar.
A Igreja não é gnóstica: não há nada de maligno na Criação, nem nos bens, nem sequer no ouro, na prata, ou nas pedras preciosas. O que a Igreja ensina é algo de elementar e simples: quanto mais valioso é o bem, maior a responsabilidade do seu proprietário (ou do seu guardião) em dar-lhe bom uso.
Os bens servem o Homem. Mas isto tem muitas dimensões, para além da biológica, orgânica, psicológica ou social. Para o crente, o serviço dos bens ao Homem terá que passar, indiscutivelmente, por aproximá-lo de Deus. Logo, o destino mais elevado de um bem material é o de ser empregue para a glória de Deus, para fazer a ponte entre o Homem e Deus.
Na verdade, o bom crente dá um valor relativo aos bens materiais. Um valor não nulo, um valor positivo, mas incomparavelmente menor que o valor que um ateu lhes dá. Porque o crente sabe que a sua vida é finita. Que um dia acaba. E que nada de material, nem sequer o nosso corpo, se leva desta vida para a outra. Para o ateu, tudo o que há é para ser gozado nesta vida, que para eles é a única.
Assim, o ateísmo é, na verdade, um puro materialismo. Por definição.
Sobre a cupidez dos padres, muitos e santos homens escreveram afincadamente. Por exemplo, o nosso Santo António de Lisboa dedicou-lhes muitas e duras palavras (ver, entre muitos outros, o sermão do 5º Domingo depois da Páscoa, I, 663, sobre os vícios dos sacerdotes). O sacerdote que dá mau uso aos bens ao seu cuidado, e que não se arrependa a tempo, está perdido. Pobres de tais sacerdotes, indignos servidores de Deus, traidores na causa mais nobre. O mais triste é que tais pessoas estão reféns de um bloqueio intelectual que os faz servir o senhor errado. Servem o metal em vez de servir a Deus. Mas isso não faz do metal algo de mau, nem obriga a um divórcio entre os bens materiais e o serviço a Deus.
Este conceito que procurei explicar, o da utilidade e justeza do uso dos bens materiais no serviço a Deus, é incompreensível à "luz" (que raio de luz, esta, que escurece as mentes!) da distorcida cosmovisão do "ateísmo esclarecido", nascido da defesa dos novos dogmas decretados pela soi disant "Razão" contra Deus no século XVIII.
sábado, 25 de agosto de 2007
Verde miséria
O desregulamento intelectual das sociedades modernas traz ao de cima, como um dos seus mais preocupantes sintomas, a multiplicação dos paradoxos morais.
Recentemente, um bando de indigentes "ecoterroristas", que usam uma fachada de pseudo-ecologia para entrar em acções agressivas, subversivas e anárquicas, destruiu parte de uma plantação de milho transgénico.
Chamar este acto analfabeto de "activismo ecológico", não passa, certamente, de um "verde" eufemismo...
O assunto foi noticiado ad nauseam pela Imprensa, ao ponto de se tornar irrelevante discutir os detalhes. Sobretudo, é precoce discutir o facto de a polícia pouco ou nada ter feito, e de os nossos "ecoterroristas" não terem sido sancionados ou obrigados a pagar os estragos físicos e psicológicos, porque o problema encontra-se mais a montante.
Quer se queira, quer não, tornou-se socialmente aceitável usar da violência em nome de certas causas "politicamente correctas" como a ecologia, a protecção dos animais, ou mesmo essa vaga e intelectualmente confrangedora luta contra o "G-8".
Os nossos políticos, independentemente do seu quadrante (sendo certamente mais presentes na extrema esquerda a tendência para a apologia e mesmo patrocínio deste tipo de violência), começam a pouco e pouco a aceitar certos actos de violência como parte da liberdade de expressão.
Queimar viaturas passa a ter uma causa justa: a opressão económica do G-8 sobre o Mundo!
Conspurcar e vandalizar praças de toiros passa a ter uma causa justa: defender o pobre toiro da violência humana.
Destruir colheitas passa a ter uma causa justa: lutar contra os alimentos geneticamente modificados (independentemente do gene que é modificado, até porque tal gente não sabe bem o que é isso de genética).
Contudo, os mesmos activistas, apostando numa versão invertida e perversa de "causa justa", distorcem o real significado do que é uma luta por uma causa justa.
A ética mais justa e universal considera que é justo lutar (usar da violência) em auto-defesa, ou em defesa daqueles que temos à nossa responsabilidade.
Acima de todos os direitos está o direito à vida. Quando certos activistas anti-aborto atacam os matadouros onde se pratica o aborto "legal", os mesmos defensores da violência contra o milho transgénico ou da violência contra as praças de touros, indignam-se perante actos que, segundo eles, atentam contra direitos da mulher. Chegam a chamar de fanáticos aqueles que atentam contra tais "clínicas".
Estranha distorção de conceitos...
É certamente ilegítimo matar um "médico" abortista, mesmo que durante a prática do seu vil acto, se existir uma alternativa não cruenta. Contudo, é eticamente discutível se será assim tão errado tentar impedir um aborto provocando estragos materiais, sem atentar contra a vida de ninguém.
Destruir material médico, ou partir vidros de uma clínica, como estratégia para evitar a morte de um feto humano parece-me algo que dificilmente poderá ser visto como não ético, a não ser numa nova forma "moderna" de ética que dá mais valor ético aos vidros e aos aparelhos médicos do que ao ser humano.
Mas a essência desta minha interrogação está aqui: que raio de perversão intelectual viverá na mente daqueles activistas (e respectivos protectores políticos) que usam da violência para defender o milho natural e os toiros, mas que não se sentem minimamente apiedados pela vida humana fetal ou embrionária?
Aos olhos de certos políticos da esquerda radical (mas a doença também se alastra para a direita), faz parte da moderna "kulturkampf" valorizar mais a vida animal ou vegetal do que a humana... A verdade é que a corrente utilitarista, que hoje em dia campeia no estudo da Ética, com prejuízo para a clássica ética deontológica, tem cumprido a sua função de dissolução da hierarquia de valores.
O ser humano moderno, viciado numa falsa intelectualidade, perdido na árdua batalha quotidiana para conseguir hierarquizar minimamente os seus valores éticos, está agora a ser convencido pela ética utilitarista moderna a abdicar totalmente desses mesmos valores, que são vistos pelos "novos pensantes" como algo semelhante a fósseis de uma antiga religiosidade caduca, que urge extinguir em nome do dogma do "Progresso".
Recentemente, um bando de indigentes "ecoterroristas", que usam uma fachada de pseudo-ecologia para entrar em acções agressivas, subversivas e anárquicas, destruiu parte de uma plantação de milho transgénico.
Chamar este acto analfabeto de "activismo ecológico", não passa, certamente, de um "verde" eufemismo...
O assunto foi noticiado ad nauseam pela Imprensa, ao ponto de se tornar irrelevante discutir os detalhes. Sobretudo, é precoce discutir o facto de a polícia pouco ou nada ter feito, e de os nossos "ecoterroristas" não terem sido sancionados ou obrigados a pagar os estragos físicos e psicológicos, porque o problema encontra-se mais a montante.
Quer se queira, quer não, tornou-se socialmente aceitável usar da violência em nome de certas causas "politicamente correctas" como a ecologia, a protecção dos animais, ou mesmo essa vaga e intelectualmente confrangedora luta contra o "G-8".
Os nossos políticos, independentemente do seu quadrante (sendo certamente mais presentes na extrema esquerda a tendência para a apologia e mesmo patrocínio deste tipo de violência), começam a pouco e pouco a aceitar certos actos de violência como parte da liberdade de expressão.
Queimar viaturas passa a ter uma causa justa: a opressão económica do G-8 sobre o Mundo!
Conspurcar e vandalizar praças de toiros passa a ter uma causa justa: defender o pobre toiro da violência humana.
Destruir colheitas passa a ter uma causa justa: lutar contra os alimentos geneticamente modificados (independentemente do gene que é modificado, até porque tal gente não sabe bem o que é isso de genética).
Contudo, os mesmos activistas, apostando numa versão invertida e perversa de "causa justa", distorcem o real significado do que é uma luta por uma causa justa.
A ética mais justa e universal considera que é justo lutar (usar da violência) em auto-defesa, ou em defesa daqueles que temos à nossa responsabilidade.
Acima de todos os direitos está o direito à vida. Quando certos activistas anti-aborto atacam os matadouros onde se pratica o aborto "legal", os mesmos defensores da violência contra o milho transgénico ou da violência contra as praças de touros, indignam-se perante actos que, segundo eles, atentam contra direitos da mulher. Chegam a chamar de fanáticos aqueles que atentam contra tais "clínicas".
Estranha distorção de conceitos...
É certamente ilegítimo matar um "médico" abortista, mesmo que durante a prática do seu vil acto, se existir uma alternativa não cruenta. Contudo, é eticamente discutível se será assim tão errado tentar impedir um aborto provocando estragos materiais, sem atentar contra a vida de ninguém.
Destruir material médico, ou partir vidros de uma clínica, como estratégia para evitar a morte de um feto humano parece-me algo que dificilmente poderá ser visto como não ético, a não ser numa nova forma "moderna" de ética que dá mais valor ético aos vidros e aos aparelhos médicos do que ao ser humano.
Mas a essência desta minha interrogação está aqui: que raio de perversão intelectual viverá na mente daqueles activistas (e respectivos protectores políticos) que usam da violência para defender o milho natural e os toiros, mas que não se sentem minimamente apiedados pela vida humana fetal ou embrionária?
Aos olhos de certos políticos da esquerda radical (mas a doença também se alastra para a direita), faz parte da moderna "kulturkampf" valorizar mais a vida animal ou vegetal do que a humana... A verdade é que a corrente utilitarista, que hoje em dia campeia no estudo da Ética, com prejuízo para a clássica ética deontológica, tem cumprido a sua função de dissolução da hierarquia de valores.
O ser humano moderno, viciado numa falsa intelectualidade, perdido na árdua batalha quotidiana para conseguir hierarquizar minimamente os seus valores éticos, está agora a ser convencido pela ética utilitarista moderna a abdicar totalmente desses mesmos valores, que são vistos pelos "novos pensantes" como algo semelhante a fósseis de uma antiga religiosidade caduca, que urge extinguir em nome do dogma do "Progresso".
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