terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Procura-se: notícias sobre Carlos Morín em Portugal

Enquanto a Espanha se escandaliza perante os relatos de horror nas clínicas do mega-milionário do aborto, e as detenções se seguem em ritmo acelerado em Madrid e Barcelona, por aqui está tudo sossegadinho. Procurando na Internet, encontra-se alguma coisa no Correio da Manhã, e até no motor de pesquisa do Sapo.

Admito que possa estar a ver mal: agradeço a quem me enviar notícias portuguesas acerca da mega-operação policial à rede de "clínicas" abortivas de Carlos Morín.

O caso é tão grave que até Zapatero já pondera inserir limites na actual lei espanhola. Recorde-se que o aborto é legal em caso de "risco psíquico", e que já toda a gente sabia, há anos a fio, que os abortos eram feitos em qualquer fase da gravidez, mediante atestados de "risco psíquico" assinados em branco por (pseudo-)psiquiatras.

Espanha...
Já aqui ao lado, e no entanto, tão longe no que diz respeito à imparcial cobertura de certas notícias mais incómodas para o nosso país, ainda jovem na senda do aborto livre...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A última fronteira...

... para o sinistro, perdão, ministro Correia de Campos está no Código Deontológico dos Médicos, mais concretamente no artigo n.º 47 do mesmo, que considera e bem que a prática de aborto por parte de um médico é uma "falha grave". Faz todo o sentido. Qualquer aluno de Medicina sabe a razão pela qual está a estudar: para salvar e não para matar. Daí a "falha grave". Elementar...

Mas já falta pouco para a hegemonia do aborto, para a vitória da sanha anti-ética do nosso Ministro da Saúde, que ficará na história de Portugal como uma figura de triste memória.

Mais cedo ou mais tarde (eu apostaria mais tarde), quando os excessos anti-éticos se tornarem mais notórios (podemos vê-los já aqui ao lado, em Madrid, mas mais vale calar estas coisas para não melindrarem os amigos do aborto), quando o país arregalar os olhos e olhar de frente para a miséria do crime do aborto, pode ser que a Ética volte a ser o que era no nosso país.

Por enquanto, estamos bem longe disso: no que diz respeito a experiências pseudo-éticas no campo do aborto livre, Portugal ainda é jovem, ainda tem muito para testar e ensaiar em termos ideológicos. Só agora estamos a viver o nosso "Roe vs. Wade", trinta anos depois dos americanos, e caramba, temos direito a isso! Não é, senhor ministro?

Assim, Correia de Campos sabe bem que só falta uma coisa depois de enganada a opinião pública no último referendo. Convencer o português a votar "SIM" ao aborto foi fácil. Mesmo com imensa abstenção, a propaganda funcionou perfeitamente. Com enorme tranquilidade, a reboque de uma pretensa eliminação da penalização do aborto, ei-lo agora legalizado e liberalizado.

O aparato está montado. Numa boa. As mortes já são conduzidas nas melhores condições de higiene e de tranquilidade. Apoio psicológico, ar perfumado, luz ambiente suave, lençóis lavados, até existirá música "new age" relaxante. Matar já não custa. O Estado até subsidia a "cura" para este novo tipo de doença chamado "gravidez".

Mas ainda falta uma coisinha na mente maquiavélica de Correia de Campos: aqueles chatos dos médicos, que passam quase uma década a instruirem-se para salvar vidas humanas. E não é bem chato ter que convencer um profissional da saúde a matar pessoas em vez de as salvar? É complicada a argumentação. Aquela maçada da "objecção de consciência" não vem nada a calhar, sobretudo quando o Código Deontológico ainda insiste na "falha grave" do aborto...

Para alcançar o "paraíso abortivo Correia de Campos", há que transformar os médicos objectores numa minoria de fanáticos ultra-conservadores. E só há uma forma de o conseguir: mudar a ética. Mudar o Código.

O leitor mais atento interroga-se:

"mas faz sentido que a lei condicione a ética?"

Não, não faz.

"não deveria ser ao contrário?"

Pois deveria.
Há leis que não são éticas (como a actual lei do aborto). Como algumas leis raciais e eugénicas do Terceiro Reich, que eram leis "legais" (passe o pleonasmo) e nada éticas.
O que é ético, por sua vez, deve ser legal.
Já o que não é ético pode ou não ser ilegal, dependendo do contexto e da gravidade.

Um exemplo simples: mentir não é ético. Todos concordamos.
Se eu mentir num café, numa conversa de amigos, inflamando os meus dotes de pescador, isso não é ético, mas é perfeitamente legal.
Se eu mentir num Tribunal, continua a não ser ético, mas lá se vai o legal.

Mas o ético está lá, sempre a servir de referência. Mentir é feio. E o povo entende bem isto, porque é brutalmente simples. Não é preciso ter um curso de Filosofia ou de Ética Aplicada para entender que mentir é feio. Como matar é feio. Não é ético aquilo que não se deve fazer. Abortar é algo que não se deve fazer. Porque é matar. Não é ético. Ponto final.
Já ser legal ou não depende da lei, dos desvarios dos políticos, e da eficácia da sua propaganda ideológica junto das massas votantes.

O que Correia de Campos quer, e vai conseguir, é alterar o certo ou errado na deontologia médica graças à nova lei. Ou seja, a partir da vitória da sua lei iníqua abortiva, o senhor ministro quer transformar o errado (abortar) em certo. Porque mudar um Código Deontológico é, afinal, mexer no certo e no errado. Deturpar a ética dos médicos é a última fronteira para se estabelecer a hegemonia abortista de Correia de Campos.

Poderíamos discorrer sobre o "quero, posso e mando" do senhor ministro. Sobre o seu autoritarismo e prepotência.
Poderíamos interrogar-nos se tais impulsos ideológicos não serão manifestações tardias de alguns fantasmas gonçalvistas à solta no escuro armário da sua psique.

Mas a melhor interrogação é esta: que raio faz um ministro, um político, a tentar mexer no Código Deontológico de uma classe eminentemente técnica e competente com a dos médicos?

E não parece uma suprema estupidez querer mudar, por razões políticas, uma deontologia mais de duas vezes milenar, que remonta a Hipócrates, que já advogava que o médico não serve para matar mas sim para preservar o vivos?

De facto é uma suprema estupidez. Correia de Campos quer agora corrigir Hipócrates. Afinal, sinais dos tempos! É o progresso! O certo passa a errado e o errado passa a certo! Já não é o certo e o errado que definem aquilo que é legal ou não. Já não é a Lei que emana da Ética, mas sim a Ética que passa agora a ser escrava da Lei.

Enfim, o clássico caminho satânico da tirania e do mal puro, essa estrada que tantos políticos ainda insistem em trilhar, como flautistas a encaminhar uma imensa sociedade indiferente ou confusa em direcção ao abismo...

E para quem ainda deposita esperanças em Pedro Nunes, no actual bastonário da Ordem dos Médicos, é melhor não investir muito nelas. Infelizmente, Pedro Nunes, opondo-se a Correia de Campos, não está numa sólida posição ética: opõe-se à alteração do código deontológico, mas dá uma má razão, ao afirmar que os médicos não estão contra o aborto, apenas querem alguma liberdade de objecção de consciência. Ao usar este tipo de argumentação, Pedro Nunes não parte de uma posição eticamente sólida. Logo, vai ser derrotado. E, nas próximas eleições para a Ordem, já parte em desvantagem. É o único dos três candidatos que se opõe à alteração.

Os outros dois candidatos também faltaram às aulas de Ética: Miguel Leão, perante o choque entre o Código Deontológico e a Lei do Aborto já decidiu qual vai ter que ir à vida. O Código, claro:

"Face à questão jurídica, o código deontológico deve ser revisto porque vai ao arrepio da legislação. E eu estou à-vontade, porque votei `não` no referendo", declarou à agência Lusa o candidato às eleições de 12 de Dezembro Miguel Leão.
"Não quer dizer que a Ordem não possa ter recomendações éticas que sejam contrárias à legislação do país, mas defendo que há uma contradição que deve ser resolvida", considerou.


Ainda bem que Miguel Leão está "à vontade". No bom espírito relativista, Miguel Leão lavou as suas mãos ao votar "Não" e não tem qualquer preocupação com as chatices do "certo" e do "errado": isso de debater o certo ou errado do aborto só dá amargos de boca. Mais vale alterar o artigozito que chateia o ministro! Bravo...

Vejamos o outro candidato, Carlos Santos, que também não entende que a Ética vem antes da Lei:

Também o candidato Carlos Santos considera que "o código deontológico da Ordem dos Médicos tem de respeitar a legislação actual", ao mesmo tempo que defende que podem haver recomendações éticas "para o caso de os profissionais não quererem realizar determinada intervenção".


Este caso é mais chocante: Carlos Santos chegou à idade adulta, com formação universitária numa das áreas mais exigentes em termos intelectuais, sem que lhe explicassem que a Ética precede a Lei!

Com estes "opositores", Correia de Campos tem razões de sobra para sorrir...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

"Meu amigo Judas"?

É mais um exemplo paradigmático. Se não fosse o aviso de um amigo (obrigado, Henrique Leitão!), eu não teria sabido disto.

Saiu a 1 de Dezembro, no New York Times, um artigo de April D. DeConick que dá conta de erros graves presentes no trabalho efectuado pela National Geographic, em 2006, sobre o dito "Evangelho de Judas".

Todo este assunto é um imenso novelo de erros polemizados e difundidos para provocar sensação mediática... O tratamento da questão tem sido sistematicamente mal feito, em virtude do desconhecimento dos jornalistas que o abordam.

Judas não escreveu este texto
O texto data de uns poucos séculos depois de Cristo e de Judas. Este último estaria já reduzido a ossadas quando uma comunidade gnóstica o escreveu e usou.

Este não é um texto cristão
Pode-se afirmar, não sem alguma cautela, que os textos gnósticos são de "inspiração" cristã. Mas apenas porque tais textos usam a figura de Cristo para a colocarem a afirmar coisas que nunca afirmou. Para dominar e compreender o universo doutrinal dos gnósticos, é preciso todo um vocabulário complexo e específico destas doutrinas: "pleroma", "demiurgo", "arconte", etc... O gnosticismo é uma religião totalmente diferente da de Cristo. Mostra-nos um mundo mau, criação de um maligno demiurgo. Ensina-nos que as almas estão presas aos grilhões desta vida maligna, e que só a morte é a libertação da alma em direcção ao Pleroma. O gnosticismo demoniza a existência terrena. Despreza-a. Demoniza a procriação, demoniza a natureza, demoniza a vida humana em todos os seus aspectos: é uma radical "fuga espiritual", mas equivocada porque baseada na ideia errada de que a Criação é obra demoníaca. Quando os gnósticos escreveram textos nos quais colocavam na boca de Cristo frases que Ele nunca poderia ter proferido, podemos falar tangencialmente de uma religião de inspiração cristã, mas nunca de uma religião cristã. Porque Cristo não ensinou a doutrina gnóstica (nem sequer existia no Seu tempo).

O texto não foi bem interpretado
Esta é a parte que constitui alguma novidade, e que é abordada pelo citado artigo no New York Times. Afinal, parece que a tradução "oficial" estava mal feita, e que se saltou precipitadamente para a conclusão de que Judas seria o "bom da fita". Uma das confusões mais graves da equipa da National Geographic seria a de não entender que, em grego, "daimon" tem uma conotação negativa, e que não pode ser traduzido para "espírito", pois para tal termo existe o grego "pneuma". Ao que parece, o dito "Evangelho de Judas", afinal, refere-se a Judas como um demónio!

Eventuais louvores a Judas não são estranhos neste contexto
Mesmo vendo Judas como um "daimon", como um colaborador do Mal, não é de estranhar que o grupo gnóstico cainita que escreveu este texto o visse, de alguma forma, como uma figura essencial no plano salvífico gnóstico. É que este grupo gnóstico tinha a particularidade de ver os "maus da fita", os agentes do Mal, como figuras-chave na vitória do Bem, porque as via como necessárias e indispensáveis na grande luta cósmica gnóstica entre as duas forças. O epíteto "cainita" atribuído a este grupo vem do facto de que tinham Caim em alta estima, bem como outras figuras que o judaísmo e o cristianismo consideram como más. Para o cristianismo, o Mal não é necessário nem indispensável. O Mal, no cristianismo, é uma consequência indesejada por Deus da liberdade da Criação (essa sim, desejada por Deus).

Por tudo isto, é necessária muita precaução ao analisar um texto tão antigo como este. Trata-se de uma genuína peça arqueológica de valor inestimável. Diz-nos pouco sobre o cristianismo (o de tradição apostólica, o que deriva dos ensinamentos de Cristo), mas diz-nos muito sobre os grupos heréticos gnósticos que abundavam nos primeiros séculos da nossa era, fruto do ímpeto que muitos sentiram em fazer uma fusão sincrética entre um neo-platonismo pouco consistente e uma interpretação deturpada do cristianismo emergente, inserindo ainda no caldeirão gnóstico muitas outras crenças antigas do Médio Oriente.

Vejamos um excerto do artigo:

The shocker: Judas didn’t betray Jesus. Instead, Jesus asked Judas, his most trusted and beloved disciple, to hand him over to be killed. Judas’s reward? Ascent to heaven and exaltation above the other disciples.

It was a great story. Unfortunately, after re-translating the society’s transcription of the Coptic text, I have found that the actual meaning is vastly different. While National Geographic’s translation supported the provocative interpretation of Judas as a hero, a more careful reading makes clear that Judas is not only no hero, he is a demon.

Several of the translation choices made by the society’s scholars fall well outside the commonly accepted practices in the field. For example, in one instance the National Geographic transcription refers to Judas as a “daimon,” which the society’s experts have translated as “spirit.” Actually, the universally accepted word for “spirit” is “pneuma ” — in Gnostic literature “daimon” is always taken to mean “demon.”


Vale a pena ler até ao fim. Porque, com grande probabilidade, não vai encontrar este tema tratado nos media nacionais.

É pena que, como sempre, o desmascarar das burlas seja silenciado nos media. O que vende jornais e revistas, o que preenche aberturas de noticiários, é o revisionismo anti-cristão. Informar que a National Geographic errou ou mentiu, isso já não tem interesse nenhum...
O uso do termo "mentiu" não me parece excessivo: duvido que os tradutores que fizeram parte da equipa não soubessem grego ou copta. São as suas ferramentas de trabalho. Seria como imaginar que um engenheiro civil, encarregue de uma obra de grande envergadura, não soubesse trigonometria elementar...

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Richard Leigh (1943-2007)


No passado dia 21 de Novembro, morreu em Londres o escritor Richard Leigh, ficcionista, cuja notoriedade se deve maioritariamente à sua obra Holy Blood, Holy Grail (Londres, Dell, 1982), escrita em co-autoria com Henry Lincoln e Michael Baigent.

A última aparição mediatizada de Leigh deu-se durante o processo que moveu em Fevereiro de 2006, juntamente com Baigent, contra o autor Dan Brown, alegando que a sua obra The Da Vinci Code plagiara a obra Holy Blood, Holy Grail.

A decisão do Juiz Peter Smith (7 de Abril de 2006) foi clara e justa: não havia matéria para plágio. Dan Brown inspirou-se, e de que maneira, na obra do trio. Sem a obra do trio, Dan Brown não teria escrito O Código da Vinci, porque não teria tido acesso à "tese" que estrutura o romance. Mas Dan Brown não copiou trechos da obra do trio, ou seja, não a plagiou materialmente. Se é certo que se deve ao francês Pierre Plantard (1920-2000) a autoria do mito moderno do Priorado de Sião, também é justo atribuir ao trio a autoria de uma das mais belas mistificações dos nossos tempos: a teoria do "sangue real", da pretensa descendência humana de Cristo por via de Maria Madalena.
Fazer de Madalena a "mulher" de Jesus e a mãe dos "seus filhos" é, sem dúvida, um dos grandes feitos desinformativos das últimas décadas. E deve-se a este trio.
Plantard não se promoveu a descendente de Cristo. Quem o fez foi o trio Lincoln, Baigent e Leigh (com grande indignação por parte de Plantard, diga-se de passagem).

Hoje em dia, são incontáveis os títulos que circulam no mercado literário, explorando aberta e descaradamente este filão, num novo género que surge com a designação de "história alternativa", sobretudo sob a forma de obras anglo-saxónicas.

Há muita gente em dívida para com Lincoln, Baigent e Leigh. Muitos autores, e sobretudo editores, que ganharam e ainda ganham a sua vida a explorar o filão do "sangue real", as modernas fantasias pseudo-históricas, anti-cristãs e anti-científicas.

Não sei quem terá estado presente no enterro de Leigh. Mas, certamente, muitas pessoas deveriam lá estar a prestar homenagem ao homem que deu tanto dinheiro a ganhar a tanta gente. Leigh deverá ter ficado arruinado após o desfecho do processo de 2006, gastando a simpática quantia que ganhara durante os anos oitenta e noventa com a venda do Holy Blood, Holy Grail. Duvido que o influxo positivo d'O Código da Vinci na venda da obra do trio nestes últimos anos tenha compensado a ruína dos custos judiciais. Não me espantaria se Leigh tivesse morrido deixando a família em dificuldades económicas, e talvez ainda com dívidas para pagar a advogados do processo e indemnizações da Dan Brown e à sua editora.

Contudo, a gigantesca hidra editorial continua viva, à margem destes processos, a capitalizar fortemente a invenção literária do trio.

Não basta apenas considerar a máquina financeira que alimenta e cresce sobre o filão da "tese" do "sangue real". Há também que ter em conta que influentes grupos maçónicos (não toda a Maçonaria, é certo) aproveitaram e aproveitam esta "tese". A pertença de, pelo menos, Michael Baigent à Maçonaria (presumimos que a uma filiação regular) é assumida pelo próprio. Olhando para a obra colectiva dos três, não é de estranhar a proximidade dos outros dois autores, Lincoln e Leigh, a meios maçónicos ou para-maçónicos.

A destruição do cristianismo romano, ou pelo menos, o combate à dogmática católica, continua a ser o horizonte de vida de muitos maçons. A génese da Maçonaria na Grã-Bretanha protestante (James Anderson, 1717), e o influxo jacobino durante a Revolução Francesa, explicam-no e demonstram-no cabalmente, mesmo que algumas poucas filiações maçónicas não tenham vivido, e não vivam hoje, da guerra contra Roma.

É ainda toda uma franja da sociedade, que é anti-cristã e fanaticamente laicizante, que ganha com a demolição histórica do cristianismo (com a distorção da verdade histórica), e por isso, esta franja tem que demonstrar uma dívida de gratidão para com aqueles bravos e valentes maçons que trabalharam e trabalham para construir uma "história alternativa" que sirva o actual statu quo e que promova a agenda propagandística dos nossos tempos.

Curiosamente, a "New Age" e os seus novos filões literários de "história alternativa", poderão estar a fazer bem mais pela demolição do legado de Cristo junto da maleável e influenciável opinião pública do que os esforços de Marx!

Enfim... Que Richard Leigh descanse em paz!
Foi uma figura charneira nesta agitação anti-católica do virar do século, mas não chegou a tirar todo o proveito (financeiro ou outro) da sua genial criação...
Ironias do destino.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Mulheres, cristianismo e honra

Mário Soares, o actual presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, teceu hoje algumas considerações curiosas acerca de religião, mais específicamente das religiões judaica e cristã, fazendo algumas interpretações pessoais acerca do Antigo e do Novo Testamento.

O texto completo da notícia pode ser lido aqui.
Também lá estava Manuela Augusto, presidente do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas, que abriu o colóquio "Mulheres na Religião".

Citando passagens avulsas dos livros sagrados, diz Soares a certa altura:

Para demonstrar a «pouca estima que as religiões têm pela mulher», Soares recitou uma das mais famosas passagens da Bíblia: «Não cobiçarás a mulher do próximo...» e, depois de uma pausa, continuou ... «nem o escravo, o boi, o burro, nem nada que lhe pertença»
(...)
Para Mário Soares, que é o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, este mandamento sagrado demonstra a "posição de inferioridade" da mulher no mundo da religião, que a iguala ao "boi e ao burro".


Não é preciso grande esforço para ler isto correctamente.
Apesar do final da frase, "nem nada que lhe pertença", falamos de pertenças muito diferentes.
Podemos dizer, sem qualquer risco de excesso machista, que a mulher pertence ao seu marido.
Como podemos dizer, sem qualquer risco de excesso feminista, que o marido pertence à sua mulher.
São dom eterno de um para o outro.
É assim que ensina a mais rudimentar teologia cristã.
E no entanto, o matrimónio é entre homem e mulher, e não entram na equação bois ou burros...
Este mandamento, distorcido por Soares, diz afinal uma coisa bem simples, que ele não compreendeu (ou não quis compreender):
o matrimónio é demasiado sagrado e sério para ser destruído por pessoas de fora.
O decálogo, entre outras coisas, proíbe a cobiça de pertences, é certo, mas proíbe a pior cobiça de todas: cobiçar a "cara-metade" do próximo!

É, sem dúvida, curiosa a leitura muito pessoal que Soares faz deste trecho, e de outros.
Deixa também por explicar um tremendo paradoxo: como é possível que, sendo as mulheres a larga maioria dos fiéis, elas aceitem em larga medida, e voluntariamente, jogar este pretenso jogo judaico-cristão do "escravo", do "boi" e do "burro"...

Há várias possibilidades:

a) as mulheres crentes em geral não sabem ler
b) as mulheres crentes em geral sabem ler, mas desconhecem a Bíblia e nunca leram os trechos indicados
c) as mulheres crentes em geral leram os trechos e aceitam a comparação que é feita
d) as mulheres crentes em geral leram os trechos e não aceitam a comparação que é feita
e) os textos em questão não devem ser lidos através das lentes de Mário Soares e de Manuela Augusto

Eu cá voto apenas na última alínea!
E parece que os nossos Mário Soares e Manuela Augusto votariam nas primeiras quatro alíneas!
Curiosamente, temos que escutar Mário Soares, e a sua colega de evento, Manuela Augusto, para vermos duas pessoas a infantilizarem profundamente as mulheres crentes, e deste modo, a faltarem-lhes ao respeito.
Ao suporem que as mulheres crentes não sabem que o decálogo as compara a escravos, bois e burros, chamam-lhes ignorantes ou iletradas.
Ao suporem que as mulheres crentes aceitam serem comparadas a escravos, bois e burros, chamam-lhes submissas e de masoquistas.
Ao suporem que as mulheres crentes não aceitam serem comparadas a escravos, bois e burros, e nada fazem de eficaz de forma a contrariar tal situação, chamam-lhes ineficientes ou passivas!

Pois, segundo a leitura errada que ambos fazem do texto sagrado, as mulheres crentes são "escravas" ignorantes num mundo de homens!

Para ler qualquer texto, basta saber ler.
Mas para o interpretar, há que ter alguma competência, alguma formação mínima, algum contexto.
Dá jeito ter coisas como catequese, leitura, estudo, seminários, formação teológica, vivência pessoal da fé e da religião, e outras coisas que nos impedem de dizer tristes asneiras sobre religião.

É caso para perguntar quais são as qualificações que se exigem a um presidente da Comissão da Liberdade Religiosa...
Talvez... perceber de religião?
A leitura primária feita por Soares faria rir um adolescente de Seminário, ou uma jovem na catequese, que antes dos quinze anos já deve saber a elevadíssima importância da Mulher na religião cristã, e já deve saber que a Bíblia, EVIDENTEMENTE, não equipara a mulher a um escravo, a um boi ou a um burro...

Diz ainda Soares:

«Se a lição que se pode extrair do Antigo Testamento é a de que 'devemos evitar as mulheres', no Novo Testamento a mulher surge como 'objecto vergonhoso'».


Algo me deve ter escapado, porque nunca recebi tais lições...
Talvez tema para uma bela lição sobre religiões judaico-cristãs para Soares leccionar, numa qualquer Faculdade de Teologia, como Doutor "honoris causa"?

Manuela Augusto ainda nos reserva esta observação:

"Manuela Augusto lembrou ainda que, apesar de as mulheres constituírem a maioria dos fiéis, estão «afastadas dos lugares de honra e glória», sendo-lhe por vezes «vedada a celebração do culto religioso» e até «proibido partilhar com os homens o mesmo espaço de culto»." (negrito meu)


O caminho do sacerdote é um caminho de serviço, e não de honra.
É certamente um caminho honrado, porque é de serviço ao outro e a Deus (que serviço mais elevado existe?), mas não existe para lhe serem prestadas honras ou prestígios.
Ser sacerdote cristão é, inegavelmente, algo de honrado.
Mas resta por demonstrar de que forma é que a honradez de um sacerdote é superior à de uma Santa Rita de Cássia, de uma Santa Clara, de uma Santa Isabel, de uma Santa Teresinha do Menino Jesus, de uma Santa Catarina, de uma Santa Teresa de Ávila,
entre tantas e tantas outras, e sobretudo de uma Santa Maria, Mãe de Deus!

Toda esta comparação entre as "honras" dos sacerdotes e as das mulheres é uma patetice!

O sacerdote representa, na Eucaristia, a própria pessoa de Cristo.
Ora todos sabem que Cristo veio ao Mundo no género masculino. Logo, o sacerdote representa melhor a figura de Cristo se for do mesmo género, ou seja, masculino. É uma contingência do cristianismo, visto que o nosso Deus veio ao Mundo nesse género. Não é porque a mulher não é digna do sacerdócio que não o pode exercer. Não falta à mulher qualquer faculdade ou competência para tal, excepto o facto de não ser do mesmo género escolhido por Cristo para incarnar. É que Cristo não veio ao Mundo como mulher, veio como homem.

E, certamente, não há nessa decisão divina nenhuma vontade em a menosprezar ou minimizar... Nascendo em corpo humano, Cristo, teria que vir ao Mundo num dos géneros: homem ou mulher.

E quantas vezes é preciso repetir que foi uma mulher, Santa Maria Madalena, a primeira testemunha humana da Ressurreição?
Que foi ela quem trouxe a Boa Nova aos discípulos em primeira mão?
Se soubermos que a ressurreição de Cristo é o evento maior da fé cristã, e se soubermos que sem o "fiat voluntas tua" de Maria, Cristo não teria nascido, entenderemos um pouco melhor qual é o lugar de honra que Cristo consagrou, e o cristianismo consagra, à Mulher.

Para terminar, a expressão "lugar de glória", proferida por Manuela Augusto naquele contexto, é uma tragédia: lugar de Glória, no Cristianismo, é reservado a Deus, e a Deus apenas!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Milagres e a ciência empírica

Recentemente, o Ludwig escreveu:

«Ora eu não sou ateu por princípio. Sou ateu em consequência da forma como avalio qualquer hipótese, comparando-a com as alternativas e optando por aquela que melhor corresponde à informação que tenho. É isto que me faz rejeitar o deus cristão, por exemplo. Omnipotente e omnisciente, pode fazer qualquer coisa que julguemos impossível, refutando toda a ciência moderna. É contraditório, pois sabe de certeza o que vai fazer amanhã mas pode fazer o contrário. E não há vestígio dele.»

É espantoso! Como (quase) sempre, estamos a falar de conceitos diferentes.
É como eu dizer "Eu acredito no Manuel!", e o Ludwig responder "Não, o João não pode existir. Eu não acredito no João!".

Se Deus fosse como o "deus-à-Ludwig", eu não era crente. Mas, felizmente, o conceito que Ludwig usa para Deus não é o do Deus verdadeiro. É uma ideia errada de Deus.

Vamos por partes:

1. Deus é um ente metafísico: por definição, ele é O ENTE SUPREMO metafísico;

2. O possível metafísico é o real, ou seja, tudo o que é metafisicamente possível é real; o irreal não é rigorosamente nada, idem para o impossível; ou seja, não existem coisas impossíveis nem irreais, nem no mundo físico nem no metafísico;

3. Deus, não deixando de ser omnipotente, não faz o impossível, porque Deus não se ocupa a fazer o nada; o nada não foi feito, não vai ser feito, e não tem que ser feito: não existe;

4. Deus não é contraditório, nem pode ser contraditório, nem nada de contraditório tem existência real;

Argumentar que os pontos 2, 3 e 4 são limitações ao epíteto de "omnipotente" que se atribui a Deus, é insensato: Deus não é limitado de forma alguma por questões rigorosamente nulas. O "0" não limita a Possibilidade.

Deste modo, Ludwig está a negar um outro deus qualquer, o tal "deus-à-Ludwig", porque está na posse de uma definição metafisicamente incorrecta de Deus. Logo, está a falhar o alvo.

O Deus no qual acredito, o verdadeiro Deus, o Deus Criador de tudo o que existe, não viola o possível, não tem apetências pelo impossível, não é contraditório, nem ilógico (a violação das leis da lógica é um erro, e o erro é um puro nada, em termos ontológicos). Seria interessante evocar a palestra recente de Bento XVI em Regensburgo, na Alemanha. Curiosamente, o Papa referiu nessa palestra precisamente a questão que nos ocupa agora: será Deus compatível com violações à razão? Certamente que não, e o erro que mina a ideia que Ludwig faz de Deus não anda longe das confusões medievais de um Duns Escoto.

Ora, a imediata objecção que a confusa mente moderna levanta a esta exposição é: "e como justificar os milagres nos quais os crentes acreditam?".

Deus, ao contrário do que pretende o Ludwig, não refuta "toda a ciência moderna". Até podemos dizer, com toda a segurança, que Deus não refuta nem viola qualquer lei física.

Pegando num exemplo: os corpos físicos mais densos que a água não pairam sobre ela, logo é impossível um ser humano andar sobre a água. Logo, pela lógica ludwiguiana, Cristo não teria andado sobre a água.

Mas Cristo-Deus, o Deus incarnado num corpo humano, não é apenas um corpo físico. Cristo, como Ser metafísico supremo, é Senhor de tudo, inclusive da matéria.

Logo, especulando, Ele pode manifestar-Se, momentaneamente, num corpo em tudo idêntico ao corpo de um homem, mas com uma densidade inferior à da água. Ou pode, localmente, alterar a densidade da água sob os Seus pés. Ou pode, localmente, alterar as forças electromagnéticas em seu redor, para poder flutuar sobre as águas. As possibilidades são imensas, conquanto se entenda que estamos a falar de um ser que não está limitado às regras e às potencialidades estritas dos seres físicos.

Também é útil explicar o que é um milagre: trata-se de um fenómeno inesperado (tem que ser fenomenoménico, ou seja, empiricamente detectável) e extraordinário, cuja causa é metafísica.

Há três tipos diferentes de milagres (ver um estudo completo aqui), que poderíamos chamar de:

a) milagres sobre-naturais: efeitos extraordinários que seriam impossíveis a quaisquer forças naturais (por exemplo, o ressuscitar de um morto)

b) milagres extra-naturais: efeitos extraordinários que seriam possíveis a forças naturais, mas que envolvem um processo radicalmente diferente, ou mais rápido ou mais eficiente ou mais profundo (por exemplo, a cura imediata de um doente)

c) milagres contra-naturais: efeitos extraordinários que são possíveis a forças naturais, mas que se manifestam contra a tendência normal da natureza (por exemplo, andar sobre as águas, voar ou estar no meio das chamas sem perigo)

O exemplo que demos, no qual Cristo anda sobre a superfície das águas sem se afundar, é do terceiro tipo. Ao fazê-lo, Cristo não viola quaisquer regras físicas. O efeito seria o mesmo se utilizássemos estruturas compressoras que aumentassem drasticamente a pressão num dado metro cúbico de água: com a necessária pressão, e eventualmente com alterações químicas que produzissem maiores tensões superficiais no líquido, um homem poderia andar sobre a superfície dessa água. A diferença é que Cristo, ao fazê-lo, valeu-se de causas sobrenaturais que provocaram localmente um efeito contra-natural (mas sem violar as leis da física), ou seja, contrário ao comportamento esperado deste líquido na natureza, quando não estão presentes causas sobrenaturais.

A interação entre objectos físicos rege-se por equilíbrios e desequilíbrios de forças. Um ser humano pode participar, ou influenciar, essa interacção provocando ele mesmo forças de equilíbrio ou de desequilíbrio. Tais perturbações são então as causas naturais para os fenómenos físicos quotidianos, ou ordinários, provocados voluntariamente pelo Homem. Contudo, é perfeitamente possível que determinadas perturbações em sistemas físicos de forças sejam causadas metafisicamente, pela vontade de agentes metafísicos. É disso que estamos a falar neste caso.

Um cientista católico pode admitir, em teoria, uma tese metafísica como a do referido milagre de Cristo, e ao mesmo tempo, estudar dinâmica de fluidos sem entrar em incoerência intelectual. E com a plena certeza de que o Deus que venera não viola leis físicas quando produz milagres, directamente, ou através de outros seres humanos.

Para terminar: é certo que a ausência de provas empíricas, úteis para o método científico, de que tais fenómenos acontecem (de que Cristo andou sobre as águas) não nos permite ter a certeza científica da realidade dos mesmos. Mas tal ausência de provas não nos pode levar a, nem nos permite, negar a possibilidade teórica dos mesmos. Basta admitir a possibilidade de causas supra-empíricas (invisíveis, extra-sensoriais) para determinados fenómenos empíricos. Tal possibilidade não pode nunca contradizer os actuais postulados físicos.

É certo que a admissão de tal possibilidade não pode ser fortuita. No caso da Igreja, apoia-se em algo muito forte chamado Revelação. O Ludwig tem razão quando diz que o crente acredita por princípio. Esse princípio acabou de ser referido. A fé é um acto de confiança: não uma confiança no vazio mas sim no legado de Cristo e dos Apóstolos. Uma confiança na Santa Madre Igreja.

Por outro lado, a opção pística do Luwdig (é o que ela é), ao decidir-se pelo ateísmo, baseando-se, entre outras coisas, numa crença apriorística na impossibilidade de fenómenos que não são empiricamente reproduzíveis em laboratório, é então uma opção de princípio. O seu ateísmo é de princípio.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Coincidência?

Eu tenho sempre a mania (involuntária) de entrar numa discussão quando ela já arrefeceu... O que é uma chatice, porque quando tenho coisas para dizer, a sala fica vazia! Mas, simplesmente, não tenho tempo para estar atento a toda a blogosfera, e é só muito de vez em quando que tropeço em coisas que chamam a minha atenção.

Ontem, deparei-me com isto, do Nuno Ramos de Almeida (do 5 dias):

Coincidências

É claro que não podia ficar calado quando se distorce, voluntaria ou involuntariamente, a verdade histórica. Mas até agora, nada! Como os comentários já estavam adormecidos, a razão do silêncio de Nuno Ramos de Almeida deverá ser a simples: ainda não leu os meus comentários. Por isso, para já, o silêncio deverá ser coincidência com o facto de que comentei já tarde. Vamos ver... O tempo dirá!

Não posso deixar de agradecer ao André, pela simpatia em me ter referido num seu comentário. Foi graças a esse comentário que descobri o texto em questão.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ditos e feitos dos padres do deserto

"Havia no deserto um anacoreta que pastava com os búfalos. Um dia dirigiu-se a Deus e perguntou-lhe: «Senhor, ensina-me aquilo que me falta». Então uma voz respondeu-lhe: «Entra num certo cenóbio e faz aquilo que te disserem». Ele dirigiu-se então a esse cenóbio e aí permaneceu. Não conhecia nada dos trabalhos dos monges, até que os pobres monges começaram a ensinar-lhe os diversos trabalhos, dizendo-lhe: «Faz isto, idiota! Faz aquilo, velho tonto». Aflito, o anacoreta disse a Deus: «Senhor, o trabalho dos homens não entendo, mandai-me novamente para junto dos búfalos». Deus consentiu e ele regressou ao campo para pastar no meio dos búfalos. Mas nesse lugar os homens tinham colocado umas redes. Alguns búfalos caíram nelas e, em certa altura, caiu também o ancião. E ele teve então o seguinte pensamento: «Tu que tens mãos, solta-te das redes». Mas depois respondeu-lhe outro pensamento: «Se és um homem, decide-te e vai viver com os homens. Mas se és búfalo, então deixa de ter mãos». E ficou envolto nas redes até ao outro dia. Quando os homens vieram apanhar os búfalos, ao verem o velho ficaram tolhidos pelo terror. Ele não disse palavra. Soltaram-no e deixaram-no partir. E ele fugiu, correndo, atrás dos búfalos."


Apotegma N. 516, de Apotegmas do manuscrito Coislin, 126, publicado em parte por F. Nau em «Revue de l'Orient chrétien» (ROC), 1907-1913. Retirado da obra Ditos e feitos dos padres do deserto, p.237, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O vício da mentira

Quando as ideias intelectuais são definidas na mente de uma pessoa com base em ódios antigos, ou de estimação, daí só pode advir o erro e a mentira. Estes são os filhos do ódio. Digamos que a tarefa de discernir a verdade é das mais árduas que se depara à mente humana. E irmos para essa batalha intelectual munidos de ódio só pode dar asneira. Porque mesmo que não odiemos, a tarefa não deixa de ser árdua. O ódio só a torna pior...

Carlos Esperança, corifeu do Diário Ateísta, é um desses exemplos de um ateísmo imbuído de ódio, um ódio que derivará de uma ou várias experiências pessoais que lhe moldaram o carácter, e que não tem qualquer interesse discutir aqui. Mas há poucas coisas mais desgraçadas do que deixar que as experiências pessoais nos distorçam o intelecto. Do que permitir que um ou outro episódio pessoal nos destrua o acesso intelectual à verdade.

Esta semana, Carlos Esperança voltou a cair no vício da mentira. Faz-me um bocado confusão, esta forma peculiar de defesa do ateísmo que se vale exclusivamente da demolição da crença usando falsidades. Um ateísmo pela negativa, pela anulação do outro. Como se, para a edificação do ateísmo, fosse suficiente um punhado de cinzas resultantes da queima da crença.

Quando digo que Carlos Esperança é o "regente" do Diário Ateísta, quero com isto dizer que ele não está só nesta forma miserabilista de fazer mau ateísmo usando falsidades. Mas também, de entre os seus colegas de blogue, é ele quem se destaca, porque nele tudo é extremo.

Para ele, os fins (denegrir a fé) justificam plenamente os meios (mentir). É certo que há situações em que devemos mentir, quando está em jogo, por exemplo, salvar a vida a alguém. Quando valores mais altos se levantam, então mentir torna-se numa falta menor. Mas, no caso do Carlos, e de muitos outros no Diário Ateísta, mentir pelo ateísmo é um acto menor, com vista à causa maior.

Não sem alguma pena, assisti ao propagar recente de mais uma confrangedora mentira no Diário Ateísta. Imaginei que, com as devidas correcções, haveria a possibilidade de se repetir o fenómeno do "Juramento Jesuíta", ocorrido há uns dois anos, quando um colega de blogue do Carlos, o João Vasco propagou, sem querer, uma mentira. O João Vasco será uma nobre excepção neste blogue, uma vez que, não deixando de ser ateu, detesta a mentira. Deste modo, quando eu lhe fiz ver que o "Juramento Jesuíta" (baseado num documento forjado que daria conta de um juramento secreto que os noviços teriam que proclamar, jurando matar, espezinhar, queimar e destruir todos os seus inimigos) era uma grossa mentira, João Vasco, imediatamente, se prontificou a escrever um artigo para a corrigir. E fê-lo.

Nobre gesto, que infelizmente, nunca se verifica nem nunca se verificou com Carlos Esperança.
Vamos à questão em concreto. Eis a citação que Esperança atribui ao Papa Leão X (1475-1521):

«A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria ingénuo advertir os ignorantes do seu erro»

A princípio, a má fama do seu predecessor Rodrigo Bórgia (Papa Alexandre VI) poderia fazer pensar que Leão X, e se calhar outros Papas daquele período, teria sido também uma pessoa menos recomendável. Confesso que, quando estava em ignorância acerca deste Papa Leão X, até achei plausível que tal frase tivesse saído da sua boca. Lá está: a ignorância a ajudar ao preconceito.

Tendo a perfeita noção de que a infalibilidade papal apenas se aplica a proclamações papais "ex cathedra", também não tremeria na fé se uma asneira destas fosse dita por um Papa. Não é o homem-Papa que é infalível, mas sim o Papa. É o cargo que dá a infalibilidade, e não a virtude da pessoa. Por isso, e isto é suficiente para apontar a futilidade deste esforço de Carlos Esperança, mesmo que a frase fosse historicamente verídica, não colocaria a fé em risco, visto que não se tratava de uma frase "ex cathedra". No entanto, e falo por mim, a falsidade histórica irrita-me. Qualquer uma.

Um rudimentar estudo à vida e obra de Leão X deixa-nos, porém, imediatamente com grandes dúvidas acerca da veracidade da referida citação. E, no entanto, esta citação pulula em míriades de sites ateus, ateístas ou ateízantes (sobretudo nestes últimos). Esta citação também é usada e abusada por alguns "gurus" do New Age como a detestável Acharya S ("The Christ Conspiracy"), considerada ironicamente por um jornalista da nossa praça como uma especialista em espiritualidade...

Mas, afinal, o que é que interessa para uma citação?
O principal interesse de uma citação está no facto de que, sendo verdadeira, se trata de uma frase realmente proferida por uma certa pessoa.

A frase «A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria ingénuo advertir os ignorantes do seu erro» só tem interesse como citação, só é uma citação, se o pobre Papa Leão X realmente a proferiu. Ora não há qualquer dado histórico que o permita supor. Pelo contrário, há dados históricos que permitem supor que se trata de uma falsificação que data do tempo da rainha Isabel I de Inglaterra.

Um estudo de James Patrick Holding, bem como o próprio artigo da Catholic Encyclopedia, explica a história com o necessário cuidado, pelo que remeto os detalhes para estes locais. A referência mais antiga a esta falsa citação encontra-se no dramaturgo John Bale (1495-1563), um carmelita que mais tarde abandonou a fé católica para abraçar o protestantismo. Rapidamente, a sua vida e obra foi orientada para a demolição da Igreja Católica. A sua obra para teatro está recheada de pequenas sátiras e misérias escritas com vista à tentativa de destruição moral da Igreja através de propaganda difamatória.

Na sua obra The Paegant of Popes, Bale atribui a tal pseudo-citação ao Papa Leão X. Não estamos a falar de uma referência de historiador, mas sim de um dramaturgo, ainda por cima apóstata e anti-católico.

Assim morre a miserável pseudo-citação. Contudo, não morre, nem morrerá tão cedo, na opinião pública, na "vox populi". Os leitores do Diário Ateísta adoraram a citação, até devem estar desejosos por mais "pérolas" destas. Nenhum daqueles leitores entusiastas está interessado na verdade histórica, só querem mais porcarias destas para atirar à cara dos crentes que virem pela frente. Só para verem a cara do crente quando se lhe diz que um Papa proferiu tal frase. Só pelo deleite de poderem propagar a teoria conspiratória de que a Igreja Católica é uma gigantesca mentira inventada por poucos e aceite irracionalmente por muitos.

Carlos Esperança, quando confrontado com esta mentira, não seguiu a estrada nobre do seu colega de blogue João Vasco: não corrigiu a sua asneira. Ao invés, afirmou que, perante as "mentiras" da Igreja Católica, ele achava que dizia muitas menos. No fundo, para ele, mentir não está mal, desde que se coloquem as mentiras numa balança. Perde quem tiver mais... Um claro exemplo de uma ética deficitária e de um intelecto arruinado.

Assim, esta falsidade da pseudo-citação de Leão X vai parar ao mesmo saco das muitas outras mentiras do Diário Ateísta, de onde já sairam belas pérolas como as do "Papa de Hitler" (que seria Pio XII), a farsa da "Taxa Camarae" (documento espúrio alegando à suposta venda de perdão de pecados por parte da Igreja), ou ainda a teimosa insistência na veracidade histórica da falsificação da Donatio Constantini pela Igreja Católica, conhecida como a "Doação de Constantino" (suposta atribuição, por parte do Imperador, de privilégios e primazia ao Papa).

Mas não se pense que, ao propagar estas mentiras, o Diário Ateísta é original. Sê-lo-á apenas na língua portuguesa, uma vez que o conteúdo costuma ser composto com base na enjoativa repetição das eternas mentiras anti-católicas, já presentes em milhares de sites anti-católicos, e em muitos casos, mentiras com vários séculos de idade...

Mentir é mesmo muito feio...

domingo, 23 de setembro de 2007

Filosofia para o ateu moderno

É bem sabido que a Filosofia pode servir de terreno fértil ao debate entre ateus e crentes, visto que pode bem ser a única área do saber que contém conceitos passíveis de serem aceites por ambos os lados.

No entanto, não tem sido fácil encontrar um diálogo filosoficamente fértil do lado de lá da barricada. Não sem uma ponta de esperança, dediquei uma referência a Boécio ao Ludwig Krippahl, que se limitou, enquanto vigiava um teste, a escamotear o texto e, por arrasto, toda a filosofia aristotélica.

Ludwig, não tanto pela incapacidade intelectual, mas sobretudo pela indisponibilidade temporal (ler Boécio enquanto se vigia um teste é uma má ideia, porque estudar Filosofia requer alguma concentração), achou por bem escamotear o meu convite ao debate filosófico.

E fê-lo de forma empobrecedora. Acerca do facto (incontestável) de que a categoria aristotélica de "relação" se aplica necessariamente a dois entes, Ludwig achou que era uma boa ideia usar a palavra "errado" em relação a este facto. Assim mesmo, sem apelo nem agravo. Como uma buzina num concurso televisivo, o veredicto ludwiguiano caiu a direito que nem uma espada sobre a cabeça de Boécio: "Errado", Boécio!

O que poderíamos dizer?
Que Ludwig não sabe que Boécio estudou Aristóteles? Que Boécio, ao usar a palavra "relação", não está a usá-la num contexto popular ou simplório, mas sim filosófico, no contexto da herança de Aristóteles? Os alunos de Filosofia sabem, desde cedo, e de cor, as dez categorias aristotélicas dos entes: lugar, tempo, relação, substância, quantidade, qualidade, estado, hábito, paixão (ou passividade) e acção (ou acitividade).

Boécio escreve, no início capítulo VI:

«Mas, como toda relação sempre se refere a outro, pois a predicação que se refere ao próprio sujeito é sem relação, a numerosidade da Trindade é garantida pela categoria relação, enquanto a unidade é preservada pelo fato de que não há diferen-ça de substância ou de operação ou de qualquer predicado substancial. Assim, a subs-tância é responsável pela unidade e a relação faz a Trindade.»

Ludwig refuta Boécio deste modo:

«A relação entre mim e os filhos do meu pai não é necessariamente uma relação que se refere a outro. Afinal, eu também sou filho do meu pai.»

Ninguém duvidará que o Ludwig tem que ser filho do seu pai, sem deixar de ser o Ludwig. Só que a categoria "relação" não é aplicada assim, entre entes e predicados. "Relação" é uma categoria aristotélica entre dois entes. E o Ludwdig, sendo obviamente um ente, não pode ter uma relação com o predicado "filhos do seu pai", porque tal predicado cabe-lhe a si enquanto ente. Da parte que me toca, eu não tenho uma relação com o meu umbigo, com os meus 73 quilogramas, ou com o meu cabelo.

Trocado por miúdos... Se eu digo "Bernardo" e também digo "homem de 30 anos", é evidente que este predicado é parte integrante do meu ser. Por isso, não há relação, em sentido aristotélico, entre "Bernardo" e "homem de 30 anos", porque este último não é um ente, mas sim um predicado que me corresponde (transitoriamente, até ao dia 28 de Outubro deste ano) a mim enquanto ente.

Será que o Ludwig não sabe o que é "relação" para Aristóteles (e correspondentemente para Boécio)? Se calhar...
Ou será que o Ludwig quis gozar com a Filosofia?
Se calhar...

No entanto, gozos ludwiguianos à parte, a relação continua a ser uma categoria aristotélica, e continua a ser verdadeiro ontologicamente que a relação pressupõe dois entes. Era mais interessante, neste contexto intelectualmente turvo que constitui a intelectualidade hodierna, que esta verdade óbvia que acabei de referir fosse dita por um filósofo encartado, e não por mim. As pessoas que me lêem vão dar pouco crédito a isto, porque sou apenas um estudioso amador da Filosofia, sem formação académica.

Isto porque, para espíritos turvos incapazes de reconhecer uma verdade mesmo quando tropeçam nela, uma verdade torna-se sempre mais fácil de aceitar quando é dita por alguém com o canudo na mão.

Só gostava de encontrar um interlocutor interessado por Filosofia que gostasse de debater estas coisas de forma filosófica.

Por exemplo, se o Ludwig tivesse lido o texto de Boécio noutro contexto que lhe permitisse uma leitura mais atenta, poderia ter aproveitado a oportunidade para me retorquir, e levantar esta pertintente questão: "Se a relação é entre dois entes, então Boécio está a dizer que as pessoas da Trindade são entes diferentes entre si! Lá se vai a unidade!".

Mas Boécio também pensou nesta eventual contestação, e explica de forma clara que, sendo a relação sempre entre dois entes, isso não implica que tais entes sejam distintos em substância. Certamente que as criaturas, pela sua condição, são sempre distintas em substância. Já as pessoas da Trindade, possuindo relação entre si (é ela que origina a Trindade), não são entes substancialmente distintos. São entes iguais em substância.

Outro esforço para tentar refutar a Trindade, já com alguns meses, foi escrito pelo João Vasco, do Diário Ateísta. Só que o João Vasco, julgando que estávamos a falar de Matemática, limitou-se a referir o óbvio num contexto de lógica matemática. Que, aliás, se aplica à Trindade enquanto substância, curiosamente: A=B=C, enquanto Pai, Filho e Espírito Santo são idênticos e uma e a mesma substância divina.

No Instituto Superior Técnico, nobre instituição onde também me formei, ensina-se boa Matemática, e o João Vasco tem toda a razão na afirmação que faz, e que até explica a unidade das três pessoas divinas; só que ela não chega para compreender um conceito de âmbito filosófico como é o da relação, do qual deriva a trindade de pessoas divinas. E, infelizmente, faltam ao ensino da Engenharia e da Matemática umas boas bases rudimentares de Filosofia e Epistemologia, que valeriam ouro para qualquer aluno a estudar nestas faculdades.

Para o João Vasco compreender a Trindade, tem que saber o que é relação em sentido aristotélico. Ou seja, tem que compreender um conceito ontológico. Ou seja, tem que saber que estamos a falar de conceitos filosóficos e não matemáticos.

Desidério? Não nos quer dar uma mão? Como eu gostaria de ler uma refutação ao Boécio escrita pelo Desidério, usando metafísica modal...