terça-feira, 22 de janeiro de 2008

«Ratzinger, eu e o discurso do Papa»

(publicamos de seguida, na íntegra, um depoimento pessoal de José Maria André, com imenso interesse para a polémica actual em torno do Papa Bento XVI e da universidade "La Sapienza", em Roma, baseada numa interpretação falseada da sua conferência de 1990 - o autor agradece e promove a sua divulgação)

Ratzinger, eu e o discurso do Papa

Todos podem emitir uma opinião sobre o que aconteceu recentemente na universidade «La Sapienza», mas nem todos têm, como eu, uma história pessoal para contar, relacionada com o assunto.

Um dia, um articulista do «Diário de Notícias», que publicava regularmente longos textos sobre a clarividência intelectual da doutrina marxista, resolveu comentar uma conferência do Cardeal Ratzinger. Essa conferência, sobre o caso Galileu, merecia-lhe a condenação mais veemente, pois o cardeal defendia o desprezo pela verdade e louvava a mentira propositada. O longo texto do «Diário de Notícias» (2 de Junho de 1990, página 7) não deixava pedra sobre pedra. E, ainda mais arrasadoras que as críticas severas que se faziam ao conferencista, eram as citações da própria conferência. Por exemplo, segundo relatava o artigo do «Diário de Notícias», o cardeal teria defendido que «é legítima a recusa de resultados científicos válidos (da verdade científica) quando eles contradisserem a centralidade histórico-social de normas, crenças ou valores legados pela tradição».

A julgar pelo artigo do «Diário de Notícias», o Cardeal Ratzinger pensava como um fanático sem escrúpulos. Eu tinha lido textos dele, extraordinários, de uma abertura intelectual notável, de uma rectidão tão grande, tão respeitosos para com todos e tão empenhados na verdade... Como é que aquela erupção de desfaçatez primária se podia explicar? Fiquei com vontade de ler a conferência.

Infelizmente, os extractos da conferência eram citados de uma revista italiana, «Il Sabato» (de 31 de Março de 1990), que eu não conhecia de parte nenhuma. Na época não existia ainda o «Google», nem algumas facilidades de comunicação a que já nos habituámos, pelo que foi muito difícil localizar a revista. Finalmente, encontrei uma referência indirecta num jornal espanhol e, através do jornalista espanhol, consegui chegar à fonte e obter o texto da conferência.

O choque não podia ter sido maior, quando a revista me chegou às mãos. Nenhuma das citações, colocadas entre aspas no artigo do «Diário de Notícias», pertencia ao texto. Nalgum caso, a frase estava quase lá, mas antecedida da palavra «não», que fora omitida na transcrição. Em geral, não se conseguia encontrar relação entre a posição atribuída a Ratzinger e o texto da conferência: a invenção chegava a 100%.

Além disso, nem sequer o tema da conferência era o caso Galileu, mas a relação entre a Razão e a Fé. A primeira parte da conferência era sobre a queda do marxismo soviético e a segunda parte (que foi a publicada pela «Il Sabato», com o título geral de «o sincretismo religioso») era uma defesa da razão e da religião fundada na verdade. Ratzinger alertava para o perigo de aproximações à religião que fossem fruto do desencanto relativamente a outras doutrinas, ou do sentimentalismo. A propósito, comentava a ambivalência de autores distanciados da Igreja, como Feyerabend e outros, que, em vez de aproveitarem o processo Galileu para atacar a Igreja, se mostravam compreensivos com o que aconteceu e, nalguns casos, chegavam a considerar positiva a condenação. O fim da crispação de certos intelectuais contra a Igreja era positivo, mas aquilo não era uma base saudável para fundar a relação com Deus, a qual só podia estar ancorada na verdade. E é sobre a importância da verdade que Ratzinger falou, ao longo de toda a segunda parte da conferência.

Entrei em contacto com o Director do «Diário de Notícias», para lhe dar conta destes factos, mas o secretariado da Direcção frustrava as sucessivas tentativas (talvez o Director tivesse dado indicações nesse sentido...). Por fim, contactei um jornalista por quem tenho admiração, Pacheco de Andrade, e pedi-lhe que promovesse o encontro. Graças à sua intervenção, pude apresentar ao Director (a 7 de Setembro de 1990) a revista onde fora publicada a conferência e a respectiva tradução para português. A meu ver, o jornal tinha a obrigação moral de esclarecer os leitores e, já agora, devia publicar o texto verdadeiro da conferência, que era bem interessante.

O Director explicou-me que os jornais vivem da espuma do momento, que factos passados já não lhes interessam. Portanto, não iam desmentir a notícia e, muito menos, publicar a conferência, que era ainda mais antiga que a notícia (três meses e meio mais antiga). Não me ocorreu perguntar-lhe até onde ia o interesse de um jornal pelo passado: dias? semanas? Ao fim de quantos meses, um assunto destes se considera história remota?

O Director do «Diário de Notícias» não aceitou publicar o desmentido, nem a conferência, mas propôs que eu escrevesse um artigo sobre o assunto. Enviei-lho prontamente. Insisti para que o publicassem. Finalmente, explicaram-me que o artigo era demasiado extenso e não poderia exceder um pequeno número de linhas. Reformulei-o e enviei um novo texto. Enviei segunda via. Fui ao jornal entregar pessoalmente o artigo resumido, para ter a certeza de que não se perdia nos correios. Nunca mais consegui acesso àquele Director, nem o artigo foi publicado.

Lembrei-me desta história quando li que a mesma conferência do Cardeal Ratzinger, e a mesma frase de Feyerabend, retocada e tirada do contexto, era invocada em Itália, quase 20 anos depois.

Talvez tenha havido uma fonte comum, uma notícia falsa nunca desmentida, na origem do artigo do «Diário de Notícias» e na declaração do pequeno grupo da «La Sapienza». As pessoas que citam em segunda mão, sem comprovar na fonte, arriscam-se a fazer figuras tristes. Talvez tenha sido esse o caso.


José Maria C. S. André

Lisboa, 21 de Janeiro de 2007

(pode-se descarregar aqui o texto do então Cardeal Ratzinger, de 15 de Março de 1990, numa tradução de José Maria André)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Jovens (e professores) obscurantistas



Por convite do Reitor da Universidade de Roma, La Sapienza (fundada pelo Papa Bonifácio VIII), o Papa Bento XVI iria fazer uma visita e proferir um discurso no próximo dia 17 na dita universidade. No entanto, um punhado de jovens obscurantistas (e alguns professores) lançaram um programa inteiro de actividades de protesto, que culminaram na ocupação da Reitoria. Na sequência deste barbarismo, a Santa Sé cancelou a visita papal. No entanto, e felizmente, o discurso papal será enviado à Reitoria, pelo que será certamente difundido por todo o Mundo (se calhar até com mais ímpeto do que se estes protestos não tivessem tido lugar). Fotografias do acontecimento.

Estes jovens alinham com uma tendência bastante comum de juntar a ignorância à intolerância, e normalmente, perante a ameaça anti-obscurantista de um eminente discurso proferido pelo homem menos obscurantista dos nossos tempos, decidiram tomar uma decisão muito intelectual (aliás, a mais intelectual que conseguem tomar): ocupar.

Outras cabeças, essas sim pensantes, aproveitariam a visita do papa para lançar um debate público e para suscitar perguntas inteligentes que dariam lugar a respostas inteligentes. Isso poderia ter acontecido, caso uma maioria de jovens pensantes se sobrepusesse a uma minoria de jovens não pensantes.

Infelizmente, quando alguns jovens activistas não pensam, e não têm ninguém pensante para os contrariar, eles ocupam. É o melhor que sabem fazer.
Dizem eles que os protestos são em nome da laicidade, e contra o obscurantismo. E que por isso, ocuparam a Reitoria. Mas o que estes protestos representam é algo bem claro: intolerância face ao Papa, um claro bloqueio à liberdade de expressão, um triste incidente diplomático, uma enorme falta de educação e civismo, e uma triste prova de pensamento obscurantista e não dialogante.

Daqui à queima pública de livros do Papa e de fotografias suas, vai um passo curto demais, que poderá, curiosamente, ligar as atitudes destes jovens estudantes romanos às atitudes que se observam diariamente no Iraque ou na Faixa de Gaza. Podem estar separados por quilómetros e ideologias, mas em termos de mioleira, estes contestatários não são muito diferentes dos que vemos nos noticiários sobre o Médio Oriente a queimar bandeiras, fotografias, e a vandalizar propriedade alheia.

Quanto aos professores que apoiam este barbarismo, normalmente a sua mediocridade intelectual impele-os ao uso de alunos imaturos como "testas de ferro" nestes acontecimentos fortemente emotivos e nada racionais. Relativamente aos eventuais professores desta Universidade que deram mesmo a própria cara por este tipo de protesto, só há a dizer que a imaturidade não está, necessariamente, salvaguardada pela idade ou pelo currículo académico. E que não basta ter um canudo na mão, nem a autorização oficial para ensinar, para se ser tolerante e civilizado...

Também não é de descartar a possibilidade de certos professores da La Sapienza estarem verdadeiramente receosos de que as palavras razoáveis de Bento XVI, ecoadas num potente discurso papal, pudessem prejudicar uma certa ideologia laico-fanático-ateísta que eles querem impor aos seus alunos. Nas suas cabeças fanatizadas, deve ser de assustar ver um senhor imponente e inteligente como Bento XVI a dizer verdades e a meter luz nas cabeças dos jovenzinhos. Se a ignorância anda de mãos dadas com a intolerância, o medo também lá deve estar no meio! Será esta uma atitude irracional e desesperada de medo?

(os obscurantistas protestam contra Bento XVI porque ele teria, presumidamente, atacado Galileu num seu texto de 1992: eis aqui o texto, para que se comprove a falsidade do que estes obscurantistas afirmam)

(e aqui está a "bofetada de luva branca", o texto integral do discurso que o Papa iria fazer amanhã)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O solvente moderno

Na reportagem do Diário de Notícias, Badajoz é primeira opção para além das dez semanas, lêem-se as seguintes palavras de Yolanda Dominguez, a directora da "clínica" que abriu em Lisboa para dar conta dos nossos fetos, mulher moderna quiçá já preocupada com uma eventual "necessidade humana" de um aumento do prazo para se poder abortar por opção:

"Na prática, a lei foi boa para muita gente, um sinal de evolução social para Portugal. Hoje em dia temos acordos com vários hospitais públicos portugueses, para suprir as necessidades causadas pelas objecções de consciência. Mas claro que continuam a existir excepções. Por exemplo, é preciso a mulher ir a três consultas antes de fazer um aborto, e uma mulher de Coimbra, que já passou as dez semanas, tem de ir a Espanha. Depois há o facto de algumas pessoas utilizarem métodos contraceptivos que não são 100% eficazes, e por isso não têm a noção de que estão grávidas, razão pela qual deixam passar o tempo legal de que dispõem para fazer a IVG. E claro, há ainda algum preconceito social que demora tempo a dissolver-se"


Para além da inversão de valores (na qual as objecções de consciência são obstáculos, e o aborto livre é "sinal de evolução"), é curioso o uso do verbo "dissolver" mesmo no final da citação.

Há toda uma mentalidade solvente na cabeça destas pessoas. Talvez uma associação mental aos químicos que usam para "dissolver" o "problema" da gravidez? Ou, melhor ainda, um eco instintivo do seu trabalho diário de "dissolução" social? Nota-se uma pressa em acelerar a decomposição da ética e da moral da sociedade, essas "maçadas" que impedem um bom negócio de prosperar ainda mais do que já prospera.

Para além dos fetos destruídos, as Yolandas Dominguez desta vida dissolvem a sociedade de forma impune e neutra: dir-se-ia mesmo de forma "legal". Gerações de portugueses que nunca existirão. Famílias que nunca se constituirão. Gente que nunca viverá, nunca respirará, nunca pensará, graças aos esforços diligentes dos "doutores" Mengele da modernidade...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Educação sexual moderna em quatro aulas

Programa:
«O sexo é bom em si mesmo e não tem nada a ver com compromisso ou responsabilidade»

Aula I
Professor: «Faz o sexo que quiseres, com quem quiseres, como quiseres, mas usa preservativo»

Aluno: «Onde é que se compra? São caros...»

Professor: «Não há problema! Lá fora estão a distribuí-los à borla! Basta pedir-lhes.»

Aula II
Aluno: «O preservativo falhou! O que é que faço agora?»

Professor: «Não há problema! A culpa não é tua. Essas coisas acontecem. Basta comprar a pílula do dia seguinte.»

Aula III
Aluno: «A pílula do dia seguinte não funcionou!»
ou então...
Aluno: «Não comprei a pílula do dia seguinte a tempo!»

Professor: «Não há problema! A culpa não é tua. Essas coisas acontecem. Podes abortar até às dez semanas por tua opção. Basta ires ao Centro de Saúde da tua zona.»

Aula IV
Aluno: «A gravidez já passou as dez semanas!»

Professor: «Não há problema! A culpa não é tua. Essas coisas acontecem. Podes abortar por razões psicológicas em Espanha. Basta ir lá.»


Espanha: 101.592 abortos realizados em 2006. Mais de 90% por "razões psicológicas".

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O caso "Carlos Morín": o que não se mostra por cá





El historial de Morín incluye su paso por prisión por abortos ilegales en Alicante

"Usted tiene su moral, yo la mía", dice Carlos Morín, el rey del aborto de Barcelona

Prisión para Carlos Morín, su mujer y una empleada


La red de abortos ilegales de Carlos Morín se desmonta también en Madrid


Una testigo protegida destapa una red de abortos ilegales en Barcelona

Coerência e unidade

O Prof. José Manuel Pureza escrevia ontem, em texto divulgado no Ecclesia, acerca da Mensagem de Paz do Papa Bento XVI, expressando-se nestes termos:

«As violências que marcam o nosso quotidiano, em todas as escalas - sejam físicas, estruturais ou culturais - são o avesso de uma condição familiar.»


Sem qualquer consideração moral sobre a pessoa do Prof. José Manuel Pureza, e sem colocar minimamente em causa o seu trabalho na Comissão Nacional Justiça e Paz, devo confessar que achei o seu texto perturbante, por mostrar aquilo que me parece ser uma clara contradição num católico com carreira universitária, e louvável activismo católico.

Dito de outra forma, nem pessoas como o Prof. José Manuel Pureza estão a salvo de incorrerem em gravíssimas incoerências. Refiro-me à sua conhecida posição aquando do referendo de Fevereiro passado sobre o aborto, essa clara violência física, estrutural e cultural que é o avesso de uma condição familiar.

O Prof. José Manuel Pureza, não só votou "SIM" ao aborto legal, livre e subsidiado, como fez questão de dar o seu nome para vários destes movimentos. Surge listado no blogue Eu voto SIM. Foi também mandatário do Movimento de Cidadania e Responsabilidade pelo SIM.

Esta sua posição é incompreensível. Sem colocar em questão o perfeito catolicismo daqueles que procurariam uma redução da pena para o crime de aborto, ou até a sua eliminação em circunstâncias específicas, já o voto "SIM" no referendo de Fevereiro teria necessariamente que andar às arrecuas do catolicismo.

Sem querer reproduzir aqui, de novo, os argumentos que invoquei para explicar o mal ético do aborto, e o erro fatal de um católico votar "SIM" em tal referendo, remeto os interessados nos detalhes para o documento que se encontra na parte lateral deste blogue, na secção Artigos. Na sua versão longa, chamo a atenção para o capítulo 3.4, que principia na página 33, onde se encontra a argumentação para o que vou afirmar de seguida.

Todo o votante no "SIM", para além de concordar com a despenalização do crime de aborto (o que é evidente, e relativamente inócuo), também concordou com a legalização desse crime (uma contradição nos termos), e pior ainda, concordou com o uso de dinheiros públicos do Sistema Nacional de Saúde para efectuar esses crimes.

Não é evidente a razão pela qual qualquer pessoa de bom senso, amiga da verdade, respeitadora da vida, deveria ter votado "não"?
E, sendo tal pessoa um católico, não é de bradar aos céus tal incoerência? Tal nítida contradição, que rompe profundamente a união de tal pessoa com o catolicismo, e no seu âmago?

O Prof. José Manuel Pureza, juntamente com todos os que votaram "SIM", é co-responsável de duas graves consequências sociais:

a) a de o crime de aborto deixar de ser visto legalmente como tal (falência ética)

b) a de o crime de aborto passar a ser pago pelos impostos de todos os portugueses (perversão moral)

E também vale de pouco invocar o facto que de a pergunta do referendo não legitimaria muitas das opções políticas do governo Sócrates. Tal invocação é sinal de ingenuidade e de falta de maturidade. Os projectos-lei estavam à vista de todos, bem antes do referendo, e sabia-se bem o que significava, politicamente, um "sim" ao referendo.

Deste modo, quando Portugal se assemelhar a Espanha, e o aborto se generalizar para fetos acima das "miraculosas" dez semanas (recorde-se, para os "intelectuais" pró-aborto, essa é a idade mágica com a qual ganhamos direito a viver), e começarmos a assistir ao circo perverso dos Carlos Moríns do nosso país, também deveremos chamar à barra o Prof. José Manuel Pureza, e todos os que com ele votaram "sim", uma vez que abriram caminho, na nossa sociedade, para o relativismo moral e ético.

É que a Ética, em sociedade, respeita-se quando todos somos responsáveis pelo seu respeito. Basta que um de nós, só um, vacile nesta responsabilidade, para toda a sociedade estar eticamente em risco. Isto permite, hoje em dia, que se fale na "ética de cada um", porque deixámos de concordar na "ética de todos": o barão do aborto, Carlos Morín, responsável pela morte de milhares de seres humanos, gravado ocultamente num documentário espanhol, e perante a pergunta de se considerava éticas as suas acções, afirmava: "vocês têm a vossa ética, eu tenho a minha!".

Votar "sim" foi uma contradição ética.
E toda esta contradição ética, note-se, sob a capa de movimentos cujo nome invoca termos tão louváveis como "cidadania" e "responsabilidade".

Cada ser humano morto nas clínicas infanticidas, públicas ou privadas, na sua curta vida terminada brutal e violentamente, é um grito que ecoa até aos céus, até ao âmago divino. Nada poderá apagar tais crimes, porque não são mortes por acidente, ou mortes por outro tipo de infortúnios sem culpa humana, como doenças, ou catástrofes naturais. Tais crimes são de bradar, porque são mortes de inocentes às mãos de seres humanos conscientes do crime que cometem.

Regressando aos católicos, há quem diga que as igrejas estão a ficar mais vazias porque a Igreja Católica não permite o aborto, não sanciona a homossexualidade, não reconhece os divórcios, não ordena as mulheres, não deixa os padres casarem, entre outras tontas (porque erradas) reivindicações.

É ver o problema ao contrário: as igrejas estão a ficar vazias, e a sociedade está a perder a espiritualidade que lhe dá vida, porque os católicos cada vez mais se esquecem da relação entre coerência e unidade. Não é ideal a unidade baseada na obediência (se bem que seja sensato obedecer a quem tem razão), mas sim a unidade baseada na adesão livre a uma proposta coerente, verdadeira e radical como é a de Cristo.

Coloco-me na pele do não católico: que interesse haverá em aderir a uma doutrina cujos professantes nem sequer se entendem a respeito da ética mais básica, do crime de retirar uma vida humana? Quando um não católico olha para teólogos como um frei Bento Domingues ou Anselmo Borges, o que vê? Quando um não católico olha para o Prof. José Manuel Pureza, o que vê? Muitos vêem teólogos e leigos católicos maduros, progressistas, clarividentes. É pena. Porque se vissem mais de perto veriam que um católico que votou "sim" no referendo de Fevereiro, está terrivelmente equivocado na forma como deveria defender a sua convicção cristã mais profunda: o Amor.

Para além disto, é certo o enorme mal que tais posições incoerentes provocam na sociedade, sobretudo nos adversários da proposta cristã. Veja-se este exemplo paradigmático, intitulado Sim de Crentes.

O que torna este texto recente do Prof. José Manuel Beleza no Ecclesia espantosamente vexante, é a circunstância da sua posição contraditória face ao aborto, porque o texto está correctíssimo no seu conteúdo e forma. Ao invocar a Paz, enquanto concorda com o aborto, dá sinais evidentes de uma grave contradição ética e moral.

Dizia Madre Teresa de Calcutá que o aborto era a maior ameaça à paz mundial. O insensato Richard Dawkins, na sua recente e medíocre obra de polémica contra Deus ("The God Delusion"), perguntava porque razão teriam dado o Nobel da Paz a uma "mulher tonta" (se as palavras não são estas, o sentido é este), porque, segundo ele, o aborto nunca poderia ser a maior ameaça à Paz.

Estas palavras foram escritas pelo mesmo homem que, bem perto deste trecho, escrevia que o nascimento era o "Rubicão" do direito à vida. Ou seja, defendia que era a saída do útero materno que conferia direito a viver. Seguindo este imbecil raciocínio, na "ética Dawkins", seria legítimo dar uma injecção fatal no coração da criança de nove meses, prestes a nascer. Segundo esta lógica profundamente errada, estar para lá ou para cá do útero parece ter qualquer tipo de significado ético.

O aborto é, sem dúvida, a maior ameaça à paz mundial. Porque se permitimos que se matem inocentes, invocando apenas as tristes razões do nosso conforto ou da nossa subsistência económica (oferecendo os Estados às mães em dificuldades a "solução final" para os seus filhos), se achamos bem que se destruam vidas humanas inocentes, que nem sequer tiveram a possibilidade de errar nesta vida, então o Mal está realmente à solta, e não há razão para imaginar que poderemos ter Justiça para com os adultos, culpados ou inocentes, visto que a negamos aos mais pequenos e frágeis de entre nós.

Finalmente, um humilde pedido de exame de consciência para todos os católicos (que também se aplica a mim). Uma reflexão acerca de coerência e unidade. Cada vez que, perante outros amigos e familiares, católicos ou não, fazemos um comentário negativo acerca de um movimento católico, ou fazemos chacota da devoção ou piedade de outro católico, ou quando, receosos da reacção do Mundo, fingimos discordar das opções fundamentais da Igreja, estamos a fazer anti-evangelização. Damos um sinal de contradição. E contradição é erro. E ninguém quer seguir pessoas erradas.

Sempre que, enquanto católicos, professamos uma ideia anti-católica, estamos a minar a nossa coerência, e com ela, a unidade de todos os cristãos. Numa altura em que o Papa Bento XVI move todos os esforços no sentido de recuperar a unidade entre católicos e ortodoxos, convenhamos que é bem triste constatar que tantos ainda marcham no sentido contrário, em direcção à incoerência.

Peçamos a Deus a coragem para sermos coerentes e unos. Só assim poderemos anunciar Cristo ao Mundo de forma convincente.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Procura-se: notícias sobre Carlos Morín em Portugal

Enquanto a Espanha se escandaliza perante os relatos de horror nas clínicas do mega-milionário do aborto, e as detenções se seguem em ritmo acelerado em Madrid e Barcelona, por aqui está tudo sossegadinho. Procurando na Internet, encontra-se alguma coisa no Correio da Manhã, e até no motor de pesquisa do Sapo.

Admito que possa estar a ver mal: agradeço a quem me enviar notícias portuguesas acerca da mega-operação policial à rede de "clínicas" abortivas de Carlos Morín.

O caso é tão grave que até Zapatero já pondera inserir limites na actual lei espanhola. Recorde-se que o aborto é legal em caso de "risco psíquico", e que já toda a gente sabia, há anos a fio, que os abortos eram feitos em qualquer fase da gravidez, mediante atestados de "risco psíquico" assinados em branco por (pseudo-)psiquiatras.

Espanha...
Já aqui ao lado, e no entanto, tão longe no que diz respeito à imparcial cobertura de certas notícias mais incómodas para o nosso país, ainda jovem na senda do aborto livre...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A última fronteira...

... para o sinistro, perdão, ministro Correia de Campos está no Código Deontológico dos Médicos, mais concretamente no artigo n.º 47 do mesmo, que considera e bem que a prática de aborto por parte de um médico é uma "falha grave". Faz todo o sentido. Qualquer aluno de Medicina sabe a razão pela qual está a estudar: para salvar e não para matar. Daí a "falha grave". Elementar...

Mas já falta pouco para a hegemonia do aborto, para a vitória da sanha anti-ética do nosso Ministro da Saúde, que ficará na história de Portugal como uma figura de triste memória.

Mais cedo ou mais tarde (eu apostaria mais tarde), quando os excessos anti-éticos se tornarem mais notórios (podemos vê-los já aqui ao lado, em Madrid, mas mais vale calar estas coisas para não melindrarem os amigos do aborto), quando o país arregalar os olhos e olhar de frente para a miséria do crime do aborto, pode ser que a Ética volte a ser o que era no nosso país.

Por enquanto, estamos bem longe disso: no que diz respeito a experiências pseudo-éticas no campo do aborto livre, Portugal ainda é jovem, ainda tem muito para testar e ensaiar em termos ideológicos. Só agora estamos a viver o nosso "Roe vs. Wade", trinta anos depois dos americanos, e caramba, temos direito a isso! Não é, senhor ministro?

Assim, Correia de Campos sabe bem que só falta uma coisa depois de enganada a opinião pública no último referendo. Convencer o português a votar "SIM" ao aborto foi fácil. Mesmo com imensa abstenção, a propaganda funcionou perfeitamente. Com enorme tranquilidade, a reboque de uma pretensa eliminação da penalização do aborto, ei-lo agora legalizado e liberalizado.

O aparato está montado. Numa boa. As mortes já são conduzidas nas melhores condições de higiene e de tranquilidade. Apoio psicológico, ar perfumado, luz ambiente suave, lençóis lavados, até existirá música "new age" relaxante. Matar já não custa. O Estado até subsidia a "cura" para este novo tipo de doença chamado "gravidez".

Mas ainda falta uma coisinha na mente maquiavélica de Correia de Campos: aqueles chatos dos médicos, que passam quase uma década a instruirem-se para salvar vidas humanas. E não é bem chato ter que convencer um profissional da saúde a matar pessoas em vez de as salvar? É complicada a argumentação. Aquela maçada da "objecção de consciência" não vem nada a calhar, sobretudo quando o Código Deontológico ainda insiste na "falha grave" do aborto...

Para alcançar o "paraíso abortivo Correia de Campos", há que transformar os médicos objectores numa minoria de fanáticos ultra-conservadores. E só há uma forma de o conseguir: mudar a ética. Mudar o Código.

O leitor mais atento interroga-se:

"mas faz sentido que a lei condicione a ética?"

Não, não faz.

"não deveria ser ao contrário?"

Pois deveria.
Há leis que não são éticas (como a actual lei do aborto). Como algumas leis raciais e eugénicas do Terceiro Reich, que eram leis "legais" (passe o pleonasmo) e nada éticas.
O que é ético, por sua vez, deve ser legal.
Já o que não é ético pode ou não ser ilegal, dependendo do contexto e da gravidade.

Um exemplo simples: mentir não é ético. Todos concordamos.
Se eu mentir num café, numa conversa de amigos, inflamando os meus dotes de pescador, isso não é ético, mas é perfeitamente legal.
Se eu mentir num Tribunal, continua a não ser ético, mas lá se vai o legal.

Mas o ético está lá, sempre a servir de referência. Mentir é feio. E o povo entende bem isto, porque é brutalmente simples. Não é preciso ter um curso de Filosofia ou de Ética Aplicada para entender que mentir é feio. Como matar é feio. Não é ético aquilo que não se deve fazer. Abortar é algo que não se deve fazer. Porque é matar. Não é ético. Ponto final.
Já ser legal ou não depende da lei, dos desvarios dos políticos, e da eficácia da sua propaganda ideológica junto das massas votantes.

O que Correia de Campos quer, e vai conseguir, é alterar o certo ou errado na deontologia médica graças à nova lei. Ou seja, a partir da vitória da sua lei iníqua abortiva, o senhor ministro quer transformar o errado (abortar) em certo. Porque mudar um Código Deontológico é, afinal, mexer no certo e no errado. Deturpar a ética dos médicos é a última fronteira para se estabelecer a hegemonia abortista de Correia de Campos.

Poderíamos discorrer sobre o "quero, posso e mando" do senhor ministro. Sobre o seu autoritarismo e prepotência.
Poderíamos interrogar-nos se tais impulsos ideológicos não serão manifestações tardias de alguns fantasmas gonçalvistas à solta no escuro armário da sua psique.

Mas a melhor interrogação é esta: que raio faz um ministro, um político, a tentar mexer no Código Deontológico de uma classe eminentemente técnica e competente com a dos médicos?

E não parece uma suprema estupidez querer mudar, por razões políticas, uma deontologia mais de duas vezes milenar, que remonta a Hipócrates, que já advogava que o médico não serve para matar mas sim para preservar o vivos?

De facto é uma suprema estupidez. Correia de Campos quer agora corrigir Hipócrates. Afinal, sinais dos tempos! É o progresso! O certo passa a errado e o errado passa a certo! Já não é o certo e o errado que definem aquilo que é legal ou não. Já não é a Lei que emana da Ética, mas sim a Ética que passa agora a ser escrava da Lei.

Enfim, o clássico caminho satânico da tirania e do mal puro, essa estrada que tantos políticos ainda insistem em trilhar, como flautistas a encaminhar uma imensa sociedade indiferente ou confusa em direcção ao abismo...

E para quem ainda deposita esperanças em Pedro Nunes, no actual bastonário da Ordem dos Médicos, é melhor não investir muito nelas. Infelizmente, Pedro Nunes, opondo-se a Correia de Campos, não está numa sólida posição ética: opõe-se à alteração do código deontológico, mas dá uma má razão, ao afirmar que os médicos não estão contra o aborto, apenas querem alguma liberdade de objecção de consciência. Ao usar este tipo de argumentação, Pedro Nunes não parte de uma posição eticamente sólida. Logo, vai ser derrotado. E, nas próximas eleições para a Ordem, já parte em desvantagem. É o único dos três candidatos que se opõe à alteração.

Os outros dois candidatos também faltaram às aulas de Ética: Miguel Leão, perante o choque entre o Código Deontológico e a Lei do Aborto já decidiu qual vai ter que ir à vida. O Código, claro:

"Face à questão jurídica, o código deontológico deve ser revisto porque vai ao arrepio da legislação. E eu estou à-vontade, porque votei `não` no referendo", declarou à agência Lusa o candidato às eleições de 12 de Dezembro Miguel Leão.
"Não quer dizer que a Ordem não possa ter recomendações éticas que sejam contrárias à legislação do país, mas defendo que há uma contradição que deve ser resolvida", considerou.


Ainda bem que Miguel Leão está "à vontade". No bom espírito relativista, Miguel Leão lavou as suas mãos ao votar "Não" e não tem qualquer preocupação com as chatices do "certo" e do "errado": isso de debater o certo ou errado do aborto só dá amargos de boca. Mais vale alterar o artigozito que chateia o ministro! Bravo...

Vejamos o outro candidato, Carlos Santos, que também não entende que a Ética vem antes da Lei:

Também o candidato Carlos Santos considera que "o código deontológico da Ordem dos Médicos tem de respeitar a legislação actual", ao mesmo tempo que defende que podem haver recomendações éticas "para o caso de os profissionais não quererem realizar determinada intervenção".


Este caso é mais chocante: Carlos Santos chegou à idade adulta, com formação universitária numa das áreas mais exigentes em termos intelectuais, sem que lhe explicassem que a Ética precede a Lei!

Com estes "opositores", Correia de Campos tem razões de sobra para sorrir...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

"Meu amigo Judas"?

É mais um exemplo paradigmático. Se não fosse o aviso de um amigo (obrigado, Henrique Leitão!), eu não teria sabido disto.

Saiu a 1 de Dezembro, no New York Times, um artigo de April D. DeConick que dá conta de erros graves presentes no trabalho efectuado pela National Geographic, em 2006, sobre o dito "Evangelho de Judas".

Todo este assunto é um imenso novelo de erros polemizados e difundidos para provocar sensação mediática... O tratamento da questão tem sido sistematicamente mal feito, em virtude do desconhecimento dos jornalistas que o abordam.

Judas não escreveu este texto
O texto data de uns poucos séculos depois de Cristo e de Judas. Este último estaria já reduzido a ossadas quando uma comunidade gnóstica o escreveu e usou.

Este não é um texto cristão
Pode-se afirmar, não sem alguma cautela, que os textos gnósticos são de "inspiração" cristã. Mas apenas porque tais textos usam a figura de Cristo para a colocarem a afirmar coisas que nunca afirmou. Para dominar e compreender o universo doutrinal dos gnósticos, é preciso todo um vocabulário complexo e específico destas doutrinas: "pleroma", "demiurgo", "arconte", etc... O gnosticismo é uma religião totalmente diferente da de Cristo. Mostra-nos um mundo mau, criação de um maligno demiurgo. Ensina-nos que as almas estão presas aos grilhões desta vida maligna, e que só a morte é a libertação da alma em direcção ao Pleroma. O gnosticismo demoniza a existência terrena. Despreza-a. Demoniza a procriação, demoniza a natureza, demoniza a vida humana em todos os seus aspectos: é uma radical "fuga espiritual", mas equivocada porque baseada na ideia errada de que a Criação é obra demoníaca. Quando os gnósticos escreveram textos nos quais colocavam na boca de Cristo frases que Ele nunca poderia ter proferido, podemos falar tangencialmente de uma religião de inspiração cristã, mas nunca de uma religião cristã. Porque Cristo não ensinou a doutrina gnóstica (nem sequer existia no Seu tempo).

O texto não foi bem interpretado
Esta é a parte que constitui alguma novidade, e que é abordada pelo citado artigo no New York Times. Afinal, parece que a tradução "oficial" estava mal feita, e que se saltou precipitadamente para a conclusão de que Judas seria o "bom da fita". Uma das confusões mais graves da equipa da National Geographic seria a de não entender que, em grego, "daimon" tem uma conotação negativa, e que não pode ser traduzido para "espírito", pois para tal termo existe o grego "pneuma". Ao que parece, o dito "Evangelho de Judas", afinal, refere-se a Judas como um demónio!

Eventuais louvores a Judas não são estranhos neste contexto
Mesmo vendo Judas como um "daimon", como um colaborador do Mal, não é de estranhar que o grupo gnóstico cainita que escreveu este texto o visse, de alguma forma, como uma figura essencial no plano salvífico gnóstico. É que este grupo gnóstico tinha a particularidade de ver os "maus da fita", os agentes do Mal, como figuras-chave na vitória do Bem, porque as via como necessárias e indispensáveis na grande luta cósmica gnóstica entre as duas forças. O epíteto "cainita" atribuído a este grupo vem do facto de que tinham Caim em alta estima, bem como outras figuras que o judaísmo e o cristianismo consideram como más. Para o cristianismo, o Mal não é necessário nem indispensável. O Mal, no cristianismo, é uma consequência indesejada por Deus da liberdade da Criação (essa sim, desejada por Deus).

Por tudo isto, é necessária muita precaução ao analisar um texto tão antigo como este. Trata-se de uma genuína peça arqueológica de valor inestimável. Diz-nos pouco sobre o cristianismo (o de tradição apostólica, o que deriva dos ensinamentos de Cristo), mas diz-nos muito sobre os grupos heréticos gnósticos que abundavam nos primeiros séculos da nossa era, fruto do ímpeto que muitos sentiram em fazer uma fusão sincrética entre um neo-platonismo pouco consistente e uma interpretação deturpada do cristianismo emergente, inserindo ainda no caldeirão gnóstico muitas outras crenças antigas do Médio Oriente.

Vejamos um excerto do artigo:

The shocker: Judas didn’t betray Jesus. Instead, Jesus asked Judas, his most trusted and beloved disciple, to hand him over to be killed. Judas’s reward? Ascent to heaven and exaltation above the other disciples.

It was a great story. Unfortunately, after re-translating the society’s transcription of the Coptic text, I have found that the actual meaning is vastly different. While National Geographic’s translation supported the provocative interpretation of Judas as a hero, a more careful reading makes clear that Judas is not only no hero, he is a demon.

Several of the translation choices made by the society’s scholars fall well outside the commonly accepted practices in the field. For example, in one instance the National Geographic transcription refers to Judas as a “daimon,” which the society’s experts have translated as “spirit.” Actually, the universally accepted word for “spirit” is “pneuma ” — in Gnostic literature “daimon” is always taken to mean “demon.”


Vale a pena ler até ao fim. Porque, com grande probabilidade, não vai encontrar este tema tratado nos media nacionais.

É pena que, como sempre, o desmascarar das burlas seja silenciado nos media. O que vende jornais e revistas, o que preenche aberturas de noticiários, é o revisionismo anti-cristão. Informar que a National Geographic errou ou mentiu, isso já não tem interesse nenhum...
O uso do termo "mentiu" não me parece excessivo: duvido que os tradutores que fizeram parte da equipa não soubessem grego ou copta. São as suas ferramentas de trabalho. Seria como imaginar que um engenheiro civil, encarregue de uma obra de grande envergadura, não soubesse trigonometria elementar...

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Richard Leigh (1943-2007)


No passado dia 21 de Novembro, morreu em Londres o escritor Richard Leigh, ficcionista, cuja notoriedade se deve maioritariamente à sua obra Holy Blood, Holy Grail (Londres, Dell, 1982), escrita em co-autoria com Henry Lincoln e Michael Baigent.

A última aparição mediatizada de Leigh deu-se durante o processo que moveu em Fevereiro de 2006, juntamente com Baigent, contra o autor Dan Brown, alegando que a sua obra The Da Vinci Code plagiara a obra Holy Blood, Holy Grail.

A decisão do Juiz Peter Smith (7 de Abril de 2006) foi clara e justa: não havia matéria para plágio. Dan Brown inspirou-se, e de que maneira, na obra do trio. Sem a obra do trio, Dan Brown não teria escrito O Código da Vinci, porque não teria tido acesso à "tese" que estrutura o romance. Mas Dan Brown não copiou trechos da obra do trio, ou seja, não a plagiou materialmente. Se é certo que se deve ao francês Pierre Plantard (1920-2000) a autoria do mito moderno do Priorado de Sião, também é justo atribuir ao trio a autoria de uma das mais belas mistificações dos nossos tempos: a teoria do "sangue real", da pretensa descendência humana de Cristo por via de Maria Madalena.
Fazer de Madalena a "mulher" de Jesus e a mãe dos "seus filhos" é, sem dúvida, um dos grandes feitos desinformativos das últimas décadas. E deve-se a este trio.
Plantard não se promoveu a descendente de Cristo. Quem o fez foi o trio Lincoln, Baigent e Leigh (com grande indignação por parte de Plantard, diga-se de passagem).

Hoje em dia, são incontáveis os títulos que circulam no mercado literário, explorando aberta e descaradamente este filão, num novo género que surge com a designação de "história alternativa", sobretudo sob a forma de obras anglo-saxónicas.

Há muita gente em dívida para com Lincoln, Baigent e Leigh. Muitos autores, e sobretudo editores, que ganharam e ainda ganham a sua vida a explorar o filão do "sangue real", as modernas fantasias pseudo-históricas, anti-cristãs e anti-científicas.

Não sei quem terá estado presente no enterro de Leigh. Mas, certamente, muitas pessoas deveriam lá estar a prestar homenagem ao homem que deu tanto dinheiro a ganhar a tanta gente. Leigh deverá ter ficado arruinado após o desfecho do processo de 2006, gastando a simpática quantia que ganhara durante os anos oitenta e noventa com a venda do Holy Blood, Holy Grail. Duvido que o influxo positivo d'O Código da Vinci na venda da obra do trio nestes últimos anos tenha compensado a ruína dos custos judiciais. Não me espantaria se Leigh tivesse morrido deixando a família em dificuldades económicas, e talvez ainda com dívidas para pagar a advogados do processo e indemnizações da Dan Brown e à sua editora.

Contudo, a gigantesca hidra editorial continua viva, à margem destes processos, a capitalizar fortemente a invenção literária do trio.

Não basta apenas considerar a máquina financeira que alimenta e cresce sobre o filão da "tese" do "sangue real". Há também que ter em conta que influentes grupos maçónicos (não toda a Maçonaria, é certo) aproveitaram e aproveitam esta "tese". A pertença de, pelo menos, Michael Baigent à Maçonaria (presumimos que a uma filiação regular) é assumida pelo próprio. Olhando para a obra colectiva dos três, não é de estranhar a proximidade dos outros dois autores, Lincoln e Leigh, a meios maçónicos ou para-maçónicos.

A destruição do cristianismo romano, ou pelo menos, o combate à dogmática católica, continua a ser o horizonte de vida de muitos maçons. A génese da Maçonaria na Grã-Bretanha protestante (James Anderson, 1717), e o influxo jacobino durante a Revolução Francesa, explicam-no e demonstram-no cabalmente, mesmo que algumas poucas filiações maçónicas não tenham vivido, e não vivam hoje, da guerra contra Roma.

É ainda toda uma franja da sociedade, que é anti-cristã e fanaticamente laicizante, que ganha com a demolição histórica do cristianismo (com a distorção da verdade histórica), e por isso, esta franja tem que demonstrar uma dívida de gratidão para com aqueles bravos e valentes maçons que trabalharam e trabalham para construir uma "história alternativa" que sirva o actual statu quo e que promova a agenda propagandística dos nossos tempos.

Curiosamente, a "New Age" e os seus novos filões literários de "história alternativa", poderão estar a fazer bem mais pela demolição do legado de Cristo junto da maleável e influenciável opinião pública do que os esforços de Marx!

Enfim... Que Richard Leigh descanse em paz!
Foi uma figura charneira nesta agitação anti-católica do virar do século, mas não chegou a tirar todo o proveito (financeiro ou outro) da sua genial criação...
Ironias do destino.