O caríssimo Helder Sanches, cuja escrita acompanho há um bom tempo, no novo espaço Portal Ateu (aproveito para elogiar o grafismo do espaço), escreveu sobre o eterno tema do "Jesus histórico", num texto de opinião intitulado Jesus e a frequência do diálogo.
Sei que vou ser injusto na medida em que não vou responder ao texto do Helder como um todo. Admito honestamente que vou implicar com uma certa frase, que me fez grande confusão (não pela frase em si mesma, mas ao constatar o facto de que uma pessoa inteligente como o Helder a escreveu, o que me faz não pouca confusão).
A certa altura, o Helder sugere, acerca de Jesus:
«Terá sido um mero produto de Paulo de Tarso?»
Se calhar, falta gente nesta frase. Sugeri, então, num comentário, ao Helder, que a frase ficaria melhor assim:
«Terá sido um mero produto de Paulo de Tarso? E do publicano Mateus? E do médico Lucas, que acompanhava Paulo? E de Marcos, discípulo de Pedro? E dos pescadores Pedro, João, André e Tiago, que pescavam no mar da Galileia? E do historiador Flávio Josefo? E do historiador Suetónio? E de Tácito? (…)»
Não sou especialista, mas tenho a sensação de que esta listazinha que compilei aqui poderia preencher largas páginas. A posição do Helder não deixa de ser curiosa. Tapar o sol com a peneira. Deve ser mais fácil provar que Cleópatra, ou Marco Aurélio, não existiram. A única diferença que estes dois já não chateiam ninguém, mas Jesus continua a ser um pouco incómodo…
Também é curiosa a forma que o Helder usa para expor o seu raciocínio. É mais ou menos assim:
a) Jesus não existiu (o Helder dissimula alguma moderação dizendo que o assunto “é polémico”)
b) mas se existiu (ou seja, se a bujarda anterior falhar o alvo), então não é o mesmo Jesus de que falam os crentes
O problema é que existe toda uma avalanche de documentação acerca do único Jesus, o histórico e o da fé, pois são o mesmo. Só que essa documentação é considerada inválida, por ter sido gerada e produzida por homens de fé. E, como todo o bom ateu sabe, é inaceitável qualquer documento escrito por um homem de fé.
A “moda” (que já data das obras de um Renan, e do melhor estilo revisionista medíocre do final do século XIX) da simultânea negação da existência de Jesus e da separação Jesus histórico - Jesus da fé, apesar de ser uma moda incoerente (porque não se decidem se Jesus existiu ou não), é uma moda que, espantosamente, ainda encontra adeptos nos dias de hoje.
Helder: por favor, não caia também nesta esparrela!
Se repararmos, por detrás destas "teorias" acerca de Jesus está um “não-raciocínio”: afirmar que Jesus não existiu, mas que se existiu era diferente deste que a Igreja fala: trata-se de um mero exercício da vontade contra a objectividade.
É por capricho pessoal que se acredita nestas coisas, indo contra todas as evidências históricas de que o Cristianismo, como fenómeno social, era impossível sem Cristo.
Recordo-me sempre, nestas ocasiões, do aviso que fazia o grande Bossuet (1627-1704) acerca dos perigos de dar primazia à vontade em detrimento da objectividade:
«Le plus grand dérèglement de l’esprit c’est de croire les choses parce qu’on veut qu’elles soient»
Ou seja, a maior avaria do espírito consiste em acreditar em certas coisas porque queremos que elas assim sejam.
É só porque o Helder QUER que Jesus não tenha existido, e curiosamente ao mesmo tempo QUER que o Jesus histórico seja diferente do Jesus da fé, que ele se recusa a receber a informação histórica objectiva de que tal homem, acredite-se ou não na sua divindade, de facto, andou sobre esta Terra.
Louvo o esforço do Helder, mas não é diferente do de um D. Quixote a combater com os moinhos, e com uma qualidade a menos. É que este notável cavaleiro era um sonhador de sonhos valiosos, enquanto que o meu caro Helder propõe um pesadelo: o do sacrifício da objectividade e da verdade às mãos tiranas da vontade.
À parte desta minha mísera contestação, quero desejar os maiores sucessos (em termos de público e de grafismo Web - porque o conceito de ateísmo não pode ter, por definição, grande sucesso) ao novo espaço ateísta na Internet lusófona.
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
O paradoxo do ateu
Um simples comentário meu a um texto do Ludwig fez com que ele escrevesse outro texto para contestar esse meu comentário. Por sua vez, esse segundo texto do Ludwig provocou trinta comentários, número que ainda poderá crescer.
No entanto, é caso para dizer que toda esta agitação está baseada, como quase todas as agitações deste mundo, num mal-entendido.
Uma pequena palavra: “trouxe”. Foi esta a palavra que eu usei, ao afirmar que o cristianismo nos “trouxe” uma boa noção de verdade. Eu pergunto se, quando temos amigos a jantar em sua casa, e algum traz uma garrafa de vinho, devemos deduzir entusiasticamente que esse excelente amigo seja produtor de vinho…
Quando eu escrevo que o cristianismo nos “trouxe” coisas boas, não estou a implicar que as tenha criado de raiz. Mesmo se eu tivesse escrito que o cristianismo “inventou” coisas boas, em sentido etimológico, seria o mesmo que escrever “trouxe”, pois o termo “inventar” vem do verbo latino que significa “descobrir”. O inventor descobre uma coisa até então nunca antes descoberta. Às vezes perdemos o sentido das palavras, e a confusão até poderia ter nascido se eu tivesse usado o termo “inventou”. Mas eu não gosto de complicar, e usei o simples e claro termo “trouxe”, que todos compreendem bem.
Se o Ludwig não me conhecesse, ele até poderia supor que eu não sabia que o conceito de verdade no tomismo é (à parte das suas especificidades únicas) decalcado do conceito aristotélico. Mas sucede que o Ludwig já teve algum tempo para me conhecer, pelo que eu não sei bem a que pode dever-se a sua suposição de que haveria confusão na minha cabeça a este respeito…
É certo que São Tomás, esse figura incontornável da intelectualidade medieval, recuperou todas as coisas boas que o aristotelismo tinha, e também descartou as más (como, por exemplo, a ideia errada de que o Universo seria eterno). É caso para supor que, se Aristóteles fosse vivo, não seria inverosímil vê-lo a correr para ser baptizado e para conhecer os ensinamentos de São Tomás, pois ambos são “almas-gémeas” no que diz respeito à procura da Verdade. São Tomás aperfeiçoa (precisamente porque cristianiza) o já por si valioso pensamento aristotélico. Aristóteles nunca conheceu Cristo, mas amou a Verdade. E quem ama a Verdade acima de todas as coisas (rigorosamente acima de todas), ama a Cristo. Aristóteles não sabia nada de Cristo, mas amava-O sem o saber.
Dito por outras palavras, o cristianismo dos homens de fé não criou nada: Cristo é que criou tudo. O conceito católico de “criação” significa fazer algo de novo sem usar nada preexistente, e tal conceito só se pode aplicar na forma verbal à acção criadora do Verbo, ou seja, Cristo. O cristianismo dos homens de fé procura defender e propagar a Fé cristã que é herança de Cristo, e quando a filosofia ou a teologia cristãs descobrem coisas até então desconhecidas, ou coisas importantes que muitos quase tinham esquecido (como a “verdade como adequação à realidade” do aristotelismo), não as estão a criar, mas sim a redescobrir. Redescobrem-nas com o tal intelecto humano que é feito à imagem e semelhança do intelecto divino, e que por isso mesmo, é um intelecto perfeitamente capaz de as descobrir. São Tomás escreve, no De veritate (I,2): «res naturalis inter duos intellectus constituta est», ou seja, a realidade natural está constituída entre dois intelectos, o divino, que cria todas as coisas através do Verbo, e o humano, capaz de as apreender intelectualmente.
É devido a uma estranha visão filosófica que o Ludwig supõe que o cristianismo pretende ter criado coisas novas, ao invés de as descobrir. Quem cria é o Criador. Aqui também se aprende muito com as crianças: os miúdos vivem fascinados com a descoberta do Mundo; por outro lado, é a alguns adultos que fascina o registo das patentes e das invenções, na euforia de quem pensa que criou algo de radicalmente novo. Quem ainda não compreende o que é o cristianismo, julga que o dito tem a pretensão de ter “criado” a verdade. Por outras palavras, com base nesta visão peculiar do cristianismo, a afirmação de que o cristianismo tinha criado a verdade (ou o conceito “verdadeiro” de Verdade, e que me seja perdoado o pleonasmo), o que é espantoso e incrível (ou seja, quase impossível de se acreditar). Mas a Verdade não é propriedade nem criação de nenhum intelecto humano.
Sobre o que acabei de escrever, seria possível objectar assim: “eu não contesto isso, contesto é que tenha sido o cristianismo a redescobrir o conceito de verdade, porque os gregos já o tinham sugerido”. Resposta simples: Aristóteles estava totalmente esquecido na Europa, durante quase todo o primeiro milénio da nossa era. O neoplatonismo dominava a intelectualidade europeia. O cristianismo, pela via (também notável e importante, mas muito diferente) de Santo Agostinho e da Patrística, era quase todo ele neoplatónico. A vasta obra de Aristóteles seduziu algumas mentes medievais persas, judaicas e islâmicas, que o traduziram e estudaram. Por via dos cordoveses do Al-Andaluz, sobretudo o judeu Maimónides e o muçulmano Averróis, mas sem esquecer o grande antecessor persa Avicena, a obra de Aristóteles entra “a matar” na Europa, primeiramente sob a forma de traduções em árabe, divulgadas a partir do Califado de Córdova. E o mérito da verdadeira redescoberta do aristotelismo, não sendo de retirar a estes três nomes não cristãos que referi, e a muitos outros nomes menores, deve-se sobretudo (pela sua defesa ardente e propagação pela cristandade) ao monge dominicano que foi São Tomás, que neles se inspirou para abrir as portas da Europa medieval à torrente de conhecimentos do Estagirita.
Queria mudar agora um pouco de tónica, e passar para algo mais genérico, que me parece que se aplica perfeitamente à posição do Ludwig…
Há uma altura na vida de cada pessoa atenta em que ela tem atrás de si metade da vida e à sua frente a outra metade. Não interpretando isto necessariamente de forma cronológica: não me refiro à metade temporal da nossa vida, ao dia que representa o meio entre o nosso nascimento e a nossa morte. Falo, isso sim, do meio da nossa vida em termos de maturação. E, como se sabe, há quem atinja a maturação bem antes do meio cronológico e quem a atinja bem depois. E há quem nunca a atinja.
Por isso, o “meio da vida” deverá ser algo como Dante o concebia (“nel mezzo del camin di nostra vita”, no início da Divina Comédia), ou ainda como aquela frase “É o meio da vida”, naquele paradigma da arte de escrever contos que é “A viagem”, de Sophia de Mello Breyner…
Eu imagino que quando se chega a esse momento (eu ainda não o vislumbro), se possa ter um perfeito equilíbrio entre o final da pulsão contestatária da juventude e o início da contenção tradicionalista da maturidade.
Gilbert Keith Chesterton estava, certamente, já para lá do meio da sua vida, no sentido atrás apresentado, quando escreveu este belo naco de maduras verdades:
Em certas maneiras peculiares de ver a História, parece que é desenhada algures uma fronteira (mesmo que não seja fixando uma data em concreto) a partir da qual o Homem se abre para a modernidade, e que essa fronteira se abriria magicamente sem qualquer influência da Igreja Católica e do catolicismo, ou porventura apenas graças ao colapso da sua influência. E até se fala na superioridade científica do “norte da Europa”, sem referir que a Reforma de Lutero, ocorrida no tal “norte da Europa” foi um passo atrás para a Razão ocidental, na medida em que o dito preconizava, de forma não pouco radical, a rejeição completa da Filosofia. Atrevo-me a citar Chesterton de novo:
De modo também estranho, o Ludwig não cita a católica Contra-Reforma como uma vigorosa manifestação da força intelectual de um catolicismo que conjuga Revelação com Razão, de um catolicismo que não se quer certamente apartar da Fé, mas também não se quer apartar da Filosofia Clássica nem da síntese escolástica.
Mas, à parte destas estranhas lacunas que desfocam implacavelmente uma visão realista da história da intelectualidade europeia, o que mais me impressiona, nas ideias do Ludwig, é que ele parece não reconhecer que, sem o cristianismo (e sem o judaísmo, que foi integrado no cristianismo), não haveria qualquer razão intelectual para supor que o Mundo seria ordenado, inteligível, que permaneceria o mesmo independentemente do observador, que não seria um Mundo enganador, ou que os nossos sentidos não seriam enganadores ou subjectivos. Sem o cristianismo, o que nos faria supor que o João vê o mesmo que a Maria ou que o Manuel? Ou que o ferro do século XIV exibiria uma resposta mecânica semelhante à do ferro do século XIX?
O Ludwig, e tantos outros, citam os grandes filósofos gregos como a prova de que a Razão que hoje usamos não se deve ao catolicismo. É como se a Igreja Católica fosse uma espécie de carcinoma histórico que teria impedido que os bons velhos filósofos gregos falassem com os bons novos cientistas ateus.
Só que o Ludwig, e tantos outros, esquecem-se que os “grandes filósofos gregos“ eram também os “poucos filósofos gregos”, visto que a esmagadora maioria da sociedade grega vivia num intelectualmente instável ambiente de superstição e paganismo. Quase toda a sociedade tinha grandes dúvidas acerca da estabilidade ou da fidelidade do Mundo e dos cinco sentidos. Como poderia surgir, dessa sociedade supersticiosa, uma nova elite científica, só com base numa mão-cheia de bons filósofos, confundidos no meio da multidão? Quase todos os gregos acreditavam que tudo poderia ser virado do avesso pelos caprichos dos Deuses. Já o Deus cristão é um Deus bom e justo, cujas acções são relativamente previsíveis (castigar os maus, recompensar os bons, e outras coisas expectáveis e razoáveis num Deus bom e justo). Não contesto que, de certo modo, todas as sociedades ao longo da História tenham possuído as suas elites, e que estas até teriam imensos pontos em comum. O que afirmo é isto: sem uma apetência social dominante, não há ambiente propício ao desenvolvimento da Ciência. O cristianismo criou essa apetência social dominante para a confiança nos sentidos, no Mundo, e para um novo entusiasmo pela Natureza.
Ora, se aceitarmos olhar de frente para o problema concreto de que o cristianismo é a própria razão de ser da modernidade, percebemos como um ateu não terá maneira de fugir a um tremendo paradoxo intelectual: ser ateu contra o cristianismo, mas ao mesmo tempo, por causa dele. É, de certo modo, o resultado expectável de uma forma reducionista de olhar para a História: o ateu olha para o ateísmo como uma revolução necessária, e olha para a Igreja Católica como o tradicionalismo caduco e desnecessário, sem se dar conta de que, por exemplo, a Contra Reforma do século XVI é, ela sim, uma revolução intelectual necessária contra um errado e falso “tradicionalismo” luterano, que pretendia distorcer a fé cristã e fazer dela uma superstição irracional ou anti-racional. Lutero estava profundamente errado, porque a própria Patrística, nos primórdios do cristianismo, era muito mais racional que Lutero e muito diferente da ideia que Lutero fazia dela.
Aqueles cristãos excessivamente neoplatónicos do primeiro milénio olhavam para a Escolástica como uma revolução perigosa, e para São Tomás de Aquino como um perigoso inovador. Passam-se as gerações, e São Tomás passa também a ser olhado pelos homens da modernidade como um conservador excessivo. Mas tudo isto é ilusão, como mostra Chesterton, pois esta tensão entre “revolução” e “tradição” é fundamental. Esta tensão deve existir em cada mente inteligente e aberta à realidade, que não fica refém de preconceitos históricos, e que procura ver através dos séculos onde se encontra a verdade última das coisas. Essa perfeita tensão, esse perfeito equilíbrio, manifesta-se em cada pessoa de boa vontade algures naquele “meio da vida” que eu referia atrás, e que se apresenta, algures na nossa vida, como uma paradoxal “selva” escura e obscura.
O que o texto do Ludwig nos mostra é uma certa rendição por não ser possível desfazer o paradoxo, esse grande paradoxo que se revela como a dificuldade mestra da nossa vida: o que fazer com a “selva”, quando ela se nos depara?
A questão mais sensível, para qualquer ateu, é a mais paradoxal de todas: o ateísmo e toda a sua apologia moderna, assentam na defesa de um mísero anão filosófico aos ombros de um gigante filosófico: defender o ateísmo como a vitória contra o obscurantismo cristão é como defender o anão que se convence de que não precisa do gigante que o sustenta.
O que fazer, perante a densa evidência de que o cristianismo foi o motor e a dinâmica de toda a cultura europeia moderna, que a razão tão enaltecida pelos ateus de hoje é consequência da Razão cristã, do Logos, que entretanto se espalhou não só por toda a Europa mas também por grande parte do globo?
Das duas uma: ou a negação, a recusa, a teimosia…
Ou então a conversão!
É que não há meio-termo: a recusa é a perpétua rebeldia adolescente, do teimoso revolucionário que quer ser revolucionário até morrer, lutando até à morte, a certa altura já de forma conservadora, contra as novas gerações que, por sua vez, já surgem com vontade de deitar fora a revolução do velho (que vêem como conservadora) para implantar a sua nova revolução…
A conversão é a aceitação da maturidade: é a realização total do ser humano. É olhar para toda a humanidade, do passado, do presente e do futuro, e ver o Homem. E não se vê o Homem como ele é sem se ver a Deus, pois Deus e o Homem são os dois “pólos intelectuais” da realidade, como ensina São Tomás. Toda a realidade, física ou metafísica, assenta entre estes dois tipos de intelecto. Por isso mesmo, toda a realidade é inteligível e compreensível. Esta seria uma forma de argumentar por uma evidente teleologia que tantos insistem em negar.
Este é o grande paradoxo, e é assim que o ateu honesto (porque o desonesto está-se nas tintas) vive tristemente a sua “selva”: ele olha para o gigante debaixo dele e diz para si mesmo algo que é totalmente absurdo: “eu não tenho nada a ver com este tipo, que representa tudo o que eu detesto e rejeito, mas no entanto ele apoia-me e não existo sem ele”.
No entanto, é caso para dizer que toda esta agitação está baseada, como quase todas as agitações deste mundo, num mal-entendido.
Uma pequena palavra: “trouxe”. Foi esta a palavra que eu usei, ao afirmar que o cristianismo nos “trouxe” uma boa noção de verdade. Eu pergunto se, quando temos amigos a jantar em sua casa, e algum traz uma garrafa de vinho, devemos deduzir entusiasticamente que esse excelente amigo seja produtor de vinho…
Quando eu escrevo que o cristianismo nos “trouxe” coisas boas, não estou a implicar que as tenha criado de raiz. Mesmo se eu tivesse escrito que o cristianismo “inventou” coisas boas, em sentido etimológico, seria o mesmo que escrever “trouxe”, pois o termo “inventar” vem do verbo latino que significa “descobrir”. O inventor descobre uma coisa até então nunca antes descoberta. Às vezes perdemos o sentido das palavras, e a confusão até poderia ter nascido se eu tivesse usado o termo “inventou”. Mas eu não gosto de complicar, e usei o simples e claro termo “trouxe”, que todos compreendem bem.
Se o Ludwig não me conhecesse, ele até poderia supor que eu não sabia que o conceito de verdade no tomismo é (à parte das suas especificidades únicas) decalcado do conceito aristotélico. Mas sucede que o Ludwig já teve algum tempo para me conhecer, pelo que eu não sei bem a que pode dever-se a sua suposição de que haveria confusão na minha cabeça a este respeito…
É certo que São Tomás, esse figura incontornável da intelectualidade medieval, recuperou todas as coisas boas que o aristotelismo tinha, e também descartou as más (como, por exemplo, a ideia errada de que o Universo seria eterno). É caso para supor que, se Aristóteles fosse vivo, não seria inverosímil vê-lo a correr para ser baptizado e para conhecer os ensinamentos de São Tomás, pois ambos são “almas-gémeas” no que diz respeito à procura da Verdade. São Tomás aperfeiçoa (precisamente porque cristianiza) o já por si valioso pensamento aristotélico. Aristóteles nunca conheceu Cristo, mas amou a Verdade. E quem ama a Verdade acima de todas as coisas (rigorosamente acima de todas), ama a Cristo. Aristóteles não sabia nada de Cristo, mas amava-O sem o saber.
Dito por outras palavras, o cristianismo dos homens de fé não criou nada: Cristo é que criou tudo. O conceito católico de “criação” significa fazer algo de novo sem usar nada preexistente, e tal conceito só se pode aplicar na forma verbal à acção criadora do Verbo, ou seja, Cristo. O cristianismo dos homens de fé procura defender e propagar a Fé cristã que é herança de Cristo, e quando a filosofia ou a teologia cristãs descobrem coisas até então desconhecidas, ou coisas importantes que muitos quase tinham esquecido (como a “verdade como adequação à realidade” do aristotelismo), não as estão a criar, mas sim a redescobrir. Redescobrem-nas com o tal intelecto humano que é feito à imagem e semelhança do intelecto divino, e que por isso mesmo, é um intelecto perfeitamente capaz de as descobrir. São Tomás escreve, no De veritate (I,2): «res naturalis inter duos intellectus constituta est», ou seja, a realidade natural está constituída entre dois intelectos, o divino, que cria todas as coisas através do Verbo, e o humano, capaz de as apreender intelectualmente.
É devido a uma estranha visão filosófica que o Ludwig supõe que o cristianismo pretende ter criado coisas novas, ao invés de as descobrir. Quem cria é o Criador. Aqui também se aprende muito com as crianças: os miúdos vivem fascinados com a descoberta do Mundo; por outro lado, é a alguns adultos que fascina o registo das patentes e das invenções, na euforia de quem pensa que criou algo de radicalmente novo. Quem ainda não compreende o que é o cristianismo, julga que o dito tem a pretensão de ter “criado” a verdade. Por outras palavras, com base nesta visão peculiar do cristianismo, a afirmação de que o cristianismo tinha criado a verdade (ou o conceito “verdadeiro” de Verdade, e que me seja perdoado o pleonasmo), o que é espantoso e incrível (ou seja, quase impossível de se acreditar). Mas a Verdade não é propriedade nem criação de nenhum intelecto humano.
Sobre o que acabei de escrever, seria possível objectar assim: “eu não contesto isso, contesto é que tenha sido o cristianismo a redescobrir o conceito de verdade, porque os gregos já o tinham sugerido”. Resposta simples: Aristóteles estava totalmente esquecido na Europa, durante quase todo o primeiro milénio da nossa era. O neoplatonismo dominava a intelectualidade europeia. O cristianismo, pela via (também notável e importante, mas muito diferente) de Santo Agostinho e da Patrística, era quase todo ele neoplatónico. A vasta obra de Aristóteles seduziu algumas mentes medievais persas, judaicas e islâmicas, que o traduziram e estudaram. Por via dos cordoveses do Al-Andaluz, sobretudo o judeu Maimónides e o muçulmano Averróis, mas sem esquecer o grande antecessor persa Avicena, a obra de Aristóteles entra “a matar” na Europa, primeiramente sob a forma de traduções em árabe, divulgadas a partir do Califado de Córdova. E o mérito da verdadeira redescoberta do aristotelismo, não sendo de retirar a estes três nomes não cristãos que referi, e a muitos outros nomes menores, deve-se sobretudo (pela sua defesa ardente e propagação pela cristandade) ao monge dominicano que foi São Tomás, que neles se inspirou para abrir as portas da Europa medieval à torrente de conhecimentos do Estagirita.
Queria mudar agora um pouco de tónica, e passar para algo mais genérico, que me parece que se aplica perfeitamente à posição do Ludwig…
Há uma altura na vida de cada pessoa atenta em que ela tem atrás de si metade da vida e à sua frente a outra metade. Não interpretando isto necessariamente de forma cronológica: não me refiro à metade temporal da nossa vida, ao dia que representa o meio entre o nosso nascimento e a nossa morte. Falo, isso sim, do meio da nossa vida em termos de maturação. E, como se sabe, há quem atinja a maturação bem antes do meio cronológico e quem a atinja bem depois. E há quem nunca a atinja.
Por isso, o “meio da vida” deverá ser algo como Dante o concebia (“nel mezzo del camin di nostra vita”, no início da Divina Comédia), ou ainda como aquela frase “É o meio da vida”, naquele paradigma da arte de escrever contos que é “A viagem”, de Sophia de Mello Breyner…
Eu imagino que quando se chega a esse momento (eu ainda não o vislumbro), se possa ter um perfeito equilíbrio entre o final da pulsão contestatária da juventude e o início da contenção tradicionalista da maturidade.
Gilbert Keith Chesterton estava, certamente, já para lá do meio da sua vida, no sentido atrás apresentado, quando escreveu este belo naco de maduras verdades:
«Perhaps there is really no such thing as a Revolution recorded in history. What happened was always a Counter-Revolution. Men were always rebelling against the last rebels; or even repenting of the last rebellion. This could be seen in the most casual contemporary fashions, if the fashionable mind had not fallen into the habit of seeing the very latest rebel as rebelling against all ages at once. The Modern Girl with the lipstick and the cocktail is as much a rebel against the Woman's Rights Woman of the '80's, with her stiff stick-up collars and strict teetotalism, as the latter was a rebel against the Early Victorian lady of the languid waltz tunes and the album full of quotations from Byron: or as the last, again, was a rebel against a Puritan mother to whom the waltz was a wild orgy and Byron the Bolshevist of his age. Trace even the Puritan mother back through history and she represents a rebellion against the Cavalier laxity of the English Church, which was at first a rebel against the Catholic civilisation, which had been a rebel against the Pagan civilisation. Nobody but a lunatic could pretend that these things were a progress; for they obviously go first one way and then the other. But whichever is right, one thing is certainly wrong; and that is the modern habit of looking at them only from the modern end. For that is only to see the end of the tale; they rebel against they know not what, because it arose they know not when; intent only on its ending, they are ignorant of its beginning; and therefore of its very being. The difference between the smaller cases and the larger, is that in the latter there is really so huge a human upheaval that men start from it like men in a new world; and that very novelty enables them to go on very long; and generally to go on too long. It is because these things start with a vigorous revolt that the intellectual impetus lasts long enough to make them seem like a survival. An excellent example of this is the real story of the revival and the neglect of Aristotle. By the end of the medieval time, Aristotelianism did eventually grow stale. Only a very fresh and successful novelty ever gets quite so stale as that.- G. K. Chesterton, Saint Thomas Aquinas.
When the moderns, drawing the blackest curtain of obscurantism that ever obscured history, decided that nothing mattered much before the Renaissance and the Reformation, they instantly began their modern career by falling into a big blunder. It was the blunder about Platonism. They found, hanging about the courts of the swaggering princes of the sixteenth century (which was as far back in history as they were allowed to go) certain anti-clerical artists and scholars who said they were bored with Aristotle and were supposed to be secretly indulging in Plato. The moderns, utterly ignorant of the whole story of the medievals, instantly fell into the trap. They assumed that Aristotle was some crabbed antiquity and tyranny from the black back of the Dark Ages, and that Plato was an entirely new Pagan pleasure never yet tasted by Christian men. Father Knox has shown in what a startling state of innocence is the mind of Mr. H. L. Mencken, for instance, upon this point. In fact, of course, the story is exactly the other way round. If anything, it was Platonism that was the old orthodoxy. It was Aristotelianism that was the very modern revolution. And the leader of that modern revolution was the man who is the subject of this book.»
Em certas maneiras peculiares de ver a História, parece que é desenhada algures uma fronteira (mesmo que não seja fixando uma data em concreto) a partir da qual o Homem se abre para a modernidade, e que essa fronteira se abriria magicamente sem qualquer influência da Igreja Católica e do catolicismo, ou porventura apenas graças ao colapso da sua influência. E até se fala na superioridade científica do “norte da Europa”, sem referir que a Reforma de Lutero, ocorrida no tal “norte da Europa” foi um passo atrás para a Razão ocidental, na medida em que o dito preconizava, de forma não pouco radical, a rejeição completa da Filosofia. Atrevo-me a citar Chesterton de novo:
«It came out of its cell again, in the day of storm and ruin, and cried out with a new and mighty voice for an elemental and emotional religion, and for the destruction of all philosophies. It had a peculiar horror and loathing of the great Greek philosophies, and of the scholasticism that had been founded on those philosophies. It had one theory that was the destruction of all theories; in fact it had its own theology which was itself the death of theology. Man could say nothing to God, nothing from God, nothing about God, except an almost inarticulate cry for mercy and for the supernatural help of Christ, in a world where all natural things were useless. Reason was useless. Will was useless. Man could not move himself an inch any more than a stone. Man could not trust what was in his head any more than a turnip. Nothing remained in earth or heaven, but the name of Christ lifted in that lonely imprecation; awful as the cry of a beast in pain.»- G. K. Chesterton, Saint Thomas Aquinas.
De modo também estranho, o Ludwig não cita a católica Contra-Reforma como uma vigorosa manifestação da força intelectual de um catolicismo que conjuga Revelação com Razão, de um catolicismo que não se quer certamente apartar da Fé, mas também não se quer apartar da Filosofia Clássica nem da síntese escolástica.
Mas, à parte destas estranhas lacunas que desfocam implacavelmente uma visão realista da história da intelectualidade europeia, o que mais me impressiona, nas ideias do Ludwig, é que ele parece não reconhecer que, sem o cristianismo (e sem o judaísmo, que foi integrado no cristianismo), não haveria qualquer razão intelectual para supor que o Mundo seria ordenado, inteligível, que permaneceria o mesmo independentemente do observador, que não seria um Mundo enganador, ou que os nossos sentidos não seriam enganadores ou subjectivos. Sem o cristianismo, o que nos faria supor que o João vê o mesmo que a Maria ou que o Manuel? Ou que o ferro do século XIV exibiria uma resposta mecânica semelhante à do ferro do século XIX?
O Ludwig, e tantos outros, citam os grandes filósofos gregos como a prova de que a Razão que hoje usamos não se deve ao catolicismo. É como se a Igreja Católica fosse uma espécie de carcinoma histórico que teria impedido que os bons velhos filósofos gregos falassem com os bons novos cientistas ateus.
Só que o Ludwig, e tantos outros, esquecem-se que os “grandes filósofos gregos“ eram também os “poucos filósofos gregos”, visto que a esmagadora maioria da sociedade grega vivia num intelectualmente instável ambiente de superstição e paganismo. Quase toda a sociedade tinha grandes dúvidas acerca da estabilidade ou da fidelidade do Mundo e dos cinco sentidos. Como poderia surgir, dessa sociedade supersticiosa, uma nova elite científica, só com base numa mão-cheia de bons filósofos, confundidos no meio da multidão? Quase todos os gregos acreditavam que tudo poderia ser virado do avesso pelos caprichos dos Deuses. Já o Deus cristão é um Deus bom e justo, cujas acções são relativamente previsíveis (castigar os maus, recompensar os bons, e outras coisas expectáveis e razoáveis num Deus bom e justo). Não contesto que, de certo modo, todas as sociedades ao longo da História tenham possuído as suas elites, e que estas até teriam imensos pontos em comum. O que afirmo é isto: sem uma apetência social dominante, não há ambiente propício ao desenvolvimento da Ciência. O cristianismo criou essa apetência social dominante para a confiança nos sentidos, no Mundo, e para um novo entusiasmo pela Natureza.
Ora, se aceitarmos olhar de frente para o problema concreto de que o cristianismo é a própria razão de ser da modernidade, percebemos como um ateu não terá maneira de fugir a um tremendo paradoxo intelectual: ser ateu contra o cristianismo, mas ao mesmo tempo, por causa dele. É, de certo modo, o resultado expectável de uma forma reducionista de olhar para a História: o ateu olha para o ateísmo como uma revolução necessária, e olha para a Igreja Católica como o tradicionalismo caduco e desnecessário, sem se dar conta de que, por exemplo, a Contra Reforma do século XVI é, ela sim, uma revolução intelectual necessária contra um errado e falso “tradicionalismo” luterano, que pretendia distorcer a fé cristã e fazer dela uma superstição irracional ou anti-racional. Lutero estava profundamente errado, porque a própria Patrística, nos primórdios do cristianismo, era muito mais racional que Lutero e muito diferente da ideia que Lutero fazia dela.
Aqueles cristãos excessivamente neoplatónicos do primeiro milénio olhavam para a Escolástica como uma revolução perigosa, e para São Tomás de Aquino como um perigoso inovador. Passam-se as gerações, e São Tomás passa também a ser olhado pelos homens da modernidade como um conservador excessivo. Mas tudo isto é ilusão, como mostra Chesterton, pois esta tensão entre “revolução” e “tradição” é fundamental. Esta tensão deve existir em cada mente inteligente e aberta à realidade, que não fica refém de preconceitos históricos, e que procura ver através dos séculos onde se encontra a verdade última das coisas. Essa perfeita tensão, esse perfeito equilíbrio, manifesta-se em cada pessoa de boa vontade algures naquele “meio da vida” que eu referia atrás, e que se apresenta, algures na nossa vida, como uma paradoxal “selva” escura e obscura.
O que o texto do Ludwig nos mostra é uma certa rendição por não ser possível desfazer o paradoxo, esse grande paradoxo que se revela como a dificuldade mestra da nossa vida: o que fazer com a “selva”, quando ela se nos depara?
A questão mais sensível, para qualquer ateu, é a mais paradoxal de todas: o ateísmo e toda a sua apologia moderna, assentam na defesa de um mísero anão filosófico aos ombros de um gigante filosófico: defender o ateísmo como a vitória contra o obscurantismo cristão é como defender o anão que se convence de que não precisa do gigante que o sustenta.
O que fazer, perante a densa evidência de que o cristianismo foi o motor e a dinâmica de toda a cultura europeia moderna, que a razão tão enaltecida pelos ateus de hoje é consequência da Razão cristã, do Logos, que entretanto se espalhou não só por toda a Europa mas também por grande parte do globo?
Das duas uma: ou a negação, a recusa, a teimosia…
Ou então a conversão!
É que não há meio-termo: a recusa é a perpétua rebeldia adolescente, do teimoso revolucionário que quer ser revolucionário até morrer, lutando até à morte, a certa altura já de forma conservadora, contra as novas gerações que, por sua vez, já surgem com vontade de deitar fora a revolução do velho (que vêem como conservadora) para implantar a sua nova revolução…
A conversão é a aceitação da maturidade: é a realização total do ser humano. É olhar para toda a humanidade, do passado, do presente e do futuro, e ver o Homem. E não se vê o Homem como ele é sem se ver a Deus, pois Deus e o Homem são os dois “pólos intelectuais” da realidade, como ensina São Tomás. Toda a realidade, física ou metafísica, assenta entre estes dois tipos de intelecto. Por isso mesmo, toda a realidade é inteligível e compreensível. Esta seria uma forma de argumentar por uma evidente teleologia que tantos insistem em negar.
Este é o grande paradoxo, e é assim que o ateu honesto (porque o desonesto está-se nas tintas) vive tristemente a sua “selva”: ele olha para o gigante debaixo dele e diz para si mesmo algo que é totalmente absurdo: “eu não tenho nada a ver com este tipo, que representa tudo o que eu detesto e rejeito, mas no entanto ele apoia-me e não existo sem ele”.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
«Ratzinger, eu e o discurso do Papa»
(publicamos de seguida, na íntegra, um depoimento pessoal de José Maria André, com imenso interesse para a polémica actual em torno do Papa Bento XVI e da universidade "La Sapienza", em Roma, baseada numa interpretação falseada da sua conferência de 1990 - o autor agradece e promove a sua divulgação)
Ratzinger, eu e o discurso do Papa
Todos podem emitir uma opinião sobre o que aconteceu recentemente na universidade «La Sapienza», mas nem todos têm, como eu, uma história pessoal para contar, relacionada com o assunto.
Um dia, um articulista do «Diário de Notícias», que publicava regularmente longos textos sobre a clarividência intelectual da doutrina marxista, resolveu comentar uma conferência do Cardeal Ratzinger. Essa conferência, sobre o caso Galileu, merecia-lhe a condenação mais veemente, pois o cardeal defendia o desprezo pela verdade e louvava a mentira propositada. O longo texto do «Diário de Notícias» (2 de Junho de 1990, página 7) não deixava pedra sobre pedra. E, ainda mais arrasadoras que as críticas severas que se faziam ao conferencista, eram as citações da própria conferência. Por exemplo, segundo relatava o artigo do «Diário de Notícias», o cardeal teria defendido que «é legítima a recusa de resultados científicos válidos (da verdade científica) quando eles contradisserem a centralidade histórico-social de normas, crenças ou valores legados pela tradição».
A julgar pelo artigo do «Diário de Notícias», o Cardeal Ratzinger pensava como um fanático sem escrúpulos. Eu tinha lido textos dele, extraordinários, de uma abertura intelectual notável, de uma rectidão tão grande, tão respeitosos para com todos e tão empenhados na verdade... Como é que aquela erupção de desfaçatez primária se podia explicar? Fiquei com vontade de ler a conferência.
Infelizmente, os extractos da conferência eram citados de uma revista italiana, «Il Sabato» (de 31 de Março de 1990), que eu não conhecia de parte nenhuma. Na época não existia ainda o «Google», nem algumas facilidades de comunicação a que já nos habituámos, pelo que foi muito difícil localizar a revista. Finalmente, encontrei uma referência indirecta num jornal espanhol e, através do jornalista espanhol, consegui chegar à fonte e obter o texto da conferência.
O choque não podia ter sido maior, quando a revista me chegou às mãos. Nenhuma das citações, colocadas entre aspas no artigo do «Diário de Notícias», pertencia ao texto. Nalgum caso, a frase estava quase lá, mas antecedida da palavra «não», que fora omitida na transcrição. Em geral, não se conseguia encontrar relação entre a posição atribuída a Ratzinger e o texto da conferência: a invenção chegava a 100%.
Além disso, nem sequer o tema da conferência era o caso Galileu, mas a relação entre a Razão e a Fé. A primeira parte da conferência era sobre a queda do marxismo soviético e a segunda parte (que foi a publicada pela «Il Sabato», com o título geral de «o sincretismo religioso») era uma defesa da razão e da religião fundada na verdade. Ratzinger alertava para o perigo de aproximações à religião que fossem fruto do desencanto relativamente a outras doutrinas, ou do sentimentalismo. A propósito, comentava a ambivalência de autores distanciados da Igreja, como Feyerabend e outros, que, em vez de aproveitarem o processo Galileu para atacar a Igreja, se mostravam compreensivos com o que aconteceu e, nalguns casos, chegavam a considerar positiva a condenação. O fim da crispação de certos intelectuais contra a Igreja era positivo, mas aquilo não era uma base saudável para fundar a relação com Deus, a qual só podia estar ancorada na verdade. E é sobre a importância da verdade que Ratzinger falou, ao longo de toda a segunda parte da conferência.
Entrei em contacto com o Director do «Diário de Notícias», para lhe dar conta destes factos, mas o secretariado da Direcção frustrava as sucessivas tentativas (talvez o Director tivesse dado indicações nesse sentido...). Por fim, contactei um jornalista por quem tenho admiração, Pacheco de Andrade, e pedi-lhe que promovesse o encontro. Graças à sua intervenção, pude apresentar ao Director (a 7 de Setembro de 1990) a revista onde fora publicada a conferência e a respectiva tradução para português. A meu ver, o jornal tinha a obrigação moral de esclarecer os leitores e, já agora, devia publicar o texto verdadeiro da conferência, que era bem interessante.
O Director explicou-me que os jornais vivem da espuma do momento, que factos passados já não lhes interessam. Portanto, não iam desmentir a notícia e, muito menos, publicar a conferência, que era ainda mais antiga que a notícia (três meses e meio mais antiga). Não me ocorreu perguntar-lhe até onde ia o interesse de um jornal pelo passado: dias? semanas? Ao fim de quantos meses, um assunto destes se considera história remota?
O Director do «Diário de Notícias» não aceitou publicar o desmentido, nem a conferência, mas propôs que eu escrevesse um artigo sobre o assunto. Enviei-lho prontamente. Insisti para que o publicassem. Finalmente, explicaram-me que o artigo era demasiado extenso e não poderia exceder um pequeno número de linhas. Reformulei-o e enviei um novo texto. Enviei segunda via. Fui ao jornal entregar pessoalmente o artigo resumido, para ter a certeza de que não se perdia nos correios. Nunca mais consegui acesso àquele Director, nem o artigo foi publicado.
Lembrei-me desta história quando li que a mesma conferência do Cardeal Ratzinger, e a mesma frase de Feyerabend, retocada e tirada do contexto, era invocada em Itália, quase 20 anos depois.
Talvez tenha havido uma fonte comum, uma notícia falsa nunca desmentida, na origem do artigo do «Diário de Notícias» e na declaração do pequeno grupo da «La Sapienza». As pessoas que citam em segunda mão, sem comprovar na fonte, arriscam-se a fazer figuras tristes. Talvez tenha sido esse o caso.
José Maria C. S. André
Lisboa, 21 de Janeiro de 2007
(pode-se descarregar aqui o texto do então Cardeal Ratzinger, de 15 de Março de 1990, numa tradução de José Maria André)
Ratzinger, eu e o discurso do Papa
Todos podem emitir uma opinião sobre o que aconteceu recentemente na universidade «La Sapienza», mas nem todos têm, como eu, uma história pessoal para contar, relacionada com o assunto.
Um dia, um articulista do «Diário de Notícias», que publicava regularmente longos textos sobre a clarividência intelectual da doutrina marxista, resolveu comentar uma conferência do Cardeal Ratzinger. Essa conferência, sobre o caso Galileu, merecia-lhe a condenação mais veemente, pois o cardeal defendia o desprezo pela verdade e louvava a mentira propositada. O longo texto do «Diário de Notícias» (2 de Junho de 1990, página 7) não deixava pedra sobre pedra. E, ainda mais arrasadoras que as críticas severas que se faziam ao conferencista, eram as citações da própria conferência. Por exemplo, segundo relatava o artigo do «Diário de Notícias», o cardeal teria defendido que «é legítima a recusa de resultados científicos válidos (da verdade científica) quando eles contradisserem a centralidade histórico-social de normas, crenças ou valores legados pela tradição».
A julgar pelo artigo do «Diário de Notícias», o Cardeal Ratzinger pensava como um fanático sem escrúpulos. Eu tinha lido textos dele, extraordinários, de uma abertura intelectual notável, de uma rectidão tão grande, tão respeitosos para com todos e tão empenhados na verdade... Como é que aquela erupção de desfaçatez primária se podia explicar? Fiquei com vontade de ler a conferência.
Infelizmente, os extractos da conferência eram citados de uma revista italiana, «Il Sabato» (de 31 de Março de 1990), que eu não conhecia de parte nenhuma. Na época não existia ainda o «Google», nem algumas facilidades de comunicação a que já nos habituámos, pelo que foi muito difícil localizar a revista. Finalmente, encontrei uma referência indirecta num jornal espanhol e, através do jornalista espanhol, consegui chegar à fonte e obter o texto da conferência.
O choque não podia ter sido maior, quando a revista me chegou às mãos. Nenhuma das citações, colocadas entre aspas no artigo do «Diário de Notícias», pertencia ao texto. Nalgum caso, a frase estava quase lá, mas antecedida da palavra «não», que fora omitida na transcrição. Em geral, não se conseguia encontrar relação entre a posição atribuída a Ratzinger e o texto da conferência: a invenção chegava a 100%.
Além disso, nem sequer o tema da conferência era o caso Galileu, mas a relação entre a Razão e a Fé. A primeira parte da conferência era sobre a queda do marxismo soviético e a segunda parte (que foi a publicada pela «Il Sabato», com o título geral de «o sincretismo religioso») era uma defesa da razão e da religião fundada na verdade. Ratzinger alertava para o perigo de aproximações à religião que fossem fruto do desencanto relativamente a outras doutrinas, ou do sentimentalismo. A propósito, comentava a ambivalência de autores distanciados da Igreja, como Feyerabend e outros, que, em vez de aproveitarem o processo Galileu para atacar a Igreja, se mostravam compreensivos com o que aconteceu e, nalguns casos, chegavam a considerar positiva a condenação. O fim da crispação de certos intelectuais contra a Igreja era positivo, mas aquilo não era uma base saudável para fundar a relação com Deus, a qual só podia estar ancorada na verdade. E é sobre a importância da verdade que Ratzinger falou, ao longo de toda a segunda parte da conferência.
Entrei em contacto com o Director do «Diário de Notícias», para lhe dar conta destes factos, mas o secretariado da Direcção frustrava as sucessivas tentativas (talvez o Director tivesse dado indicações nesse sentido...). Por fim, contactei um jornalista por quem tenho admiração, Pacheco de Andrade, e pedi-lhe que promovesse o encontro. Graças à sua intervenção, pude apresentar ao Director (a 7 de Setembro de 1990) a revista onde fora publicada a conferência e a respectiva tradução para português. A meu ver, o jornal tinha a obrigação moral de esclarecer os leitores e, já agora, devia publicar o texto verdadeiro da conferência, que era bem interessante.
O Director explicou-me que os jornais vivem da espuma do momento, que factos passados já não lhes interessam. Portanto, não iam desmentir a notícia e, muito menos, publicar a conferência, que era ainda mais antiga que a notícia (três meses e meio mais antiga). Não me ocorreu perguntar-lhe até onde ia o interesse de um jornal pelo passado: dias? semanas? Ao fim de quantos meses, um assunto destes se considera história remota?
O Director do «Diário de Notícias» não aceitou publicar o desmentido, nem a conferência, mas propôs que eu escrevesse um artigo sobre o assunto. Enviei-lho prontamente. Insisti para que o publicassem. Finalmente, explicaram-me que o artigo era demasiado extenso e não poderia exceder um pequeno número de linhas. Reformulei-o e enviei um novo texto. Enviei segunda via. Fui ao jornal entregar pessoalmente o artigo resumido, para ter a certeza de que não se perdia nos correios. Nunca mais consegui acesso àquele Director, nem o artigo foi publicado.
Lembrei-me desta história quando li que a mesma conferência do Cardeal Ratzinger, e a mesma frase de Feyerabend, retocada e tirada do contexto, era invocada em Itália, quase 20 anos depois.
Talvez tenha havido uma fonte comum, uma notícia falsa nunca desmentida, na origem do artigo do «Diário de Notícias» e na declaração do pequeno grupo da «La Sapienza». As pessoas que citam em segunda mão, sem comprovar na fonte, arriscam-se a fazer figuras tristes. Talvez tenha sido esse o caso.
José Maria C. S. André
Lisboa, 21 de Janeiro de 2007
(pode-se descarregar aqui o texto do então Cardeal Ratzinger, de 15 de Março de 1990, numa tradução de José Maria André)
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Jovens (e professores) obscurantistas

Por convite do Reitor da Universidade de Roma, La Sapienza (fundada pelo Papa Bonifácio VIII), o Papa Bento XVI iria fazer uma visita e proferir um discurso no próximo dia 17 na dita universidade. No entanto, um punhado de jovens obscurantistas (e alguns professores) lançaram um programa inteiro de actividades de protesto, que culminaram na ocupação da Reitoria. Na sequência deste barbarismo, a Santa Sé cancelou a visita papal. No entanto, e felizmente, o discurso papal será enviado à Reitoria, pelo que será certamente difundido por todo o Mundo (se calhar até com mais ímpeto do que se estes protestos não tivessem tido lugar). Fotografias do acontecimento.
Estes jovens alinham com uma tendência bastante comum de juntar a ignorância à intolerância, e normalmente, perante a ameaça anti-obscurantista de um eminente discurso proferido pelo homem menos obscurantista dos nossos tempos, decidiram tomar uma decisão muito intelectual (aliás, a mais intelectual que conseguem tomar): ocupar.
Outras cabeças, essas sim pensantes, aproveitariam a visita do papa para lançar um debate público e para suscitar perguntas inteligentes que dariam lugar a respostas inteligentes. Isso poderia ter acontecido, caso uma maioria de jovens pensantes se sobrepusesse a uma minoria de jovens não pensantes.
Infelizmente, quando alguns jovens activistas não pensam, e não têm ninguém pensante para os contrariar, eles ocupam. É o melhor que sabem fazer.
Dizem eles que os protestos são em nome da laicidade, e contra o obscurantismo. E que por isso, ocuparam a Reitoria. Mas o que estes protestos representam é algo bem claro: intolerância face ao Papa, um claro bloqueio à liberdade de expressão, um triste incidente diplomático, uma enorme falta de educação e civismo, e uma triste prova de pensamento obscurantista e não dialogante.
Daqui à queima pública de livros do Papa e de fotografias suas, vai um passo curto demais, que poderá, curiosamente, ligar as atitudes destes jovens estudantes romanos às atitudes que se observam diariamente no Iraque ou na Faixa de Gaza. Podem estar separados por quilómetros e ideologias, mas em termos de mioleira, estes contestatários não são muito diferentes dos que vemos nos noticiários sobre o Médio Oriente a queimar bandeiras, fotografias, e a vandalizar propriedade alheia.
Quanto aos professores que apoiam este barbarismo, normalmente a sua mediocridade intelectual impele-os ao uso de alunos imaturos como "testas de ferro" nestes acontecimentos fortemente emotivos e nada racionais. Relativamente aos eventuais professores desta Universidade que deram mesmo a própria cara por este tipo de protesto, só há a dizer que a imaturidade não está, necessariamente, salvaguardada pela idade ou pelo currículo académico. E que não basta ter um canudo na mão, nem a autorização oficial para ensinar, para se ser tolerante e civilizado...
Também não é de descartar a possibilidade de certos professores da La Sapienza estarem verdadeiramente receosos de que as palavras razoáveis de Bento XVI, ecoadas num potente discurso papal, pudessem prejudicar uma certa ideologia laico-fanático-ateísta que eles querem impor aos seus alunos. Nas suas cabeças fanatizadas, deve ser de assustar ver um senhor imponente e inteligente como Bento XVI a dizer verdades e a meter luz nas cabeças dos jovenzinhos. Se a ignorância anda de mãos dadas com a intolerância, o medo também lá deve estar no meio! Será esta uma atitude irracional e desesperada de medo?
(os obscurantistas protestam contra Bento XVI porque ele teria, presumidamente, atacado Galileu num seu texto de 1992: eis aqui o texto, para que se comprove a falsidade do que estes obscurantistas afirmam)
(e aqui está a "bofetada de luva branca", o texto integral do discurso que o Papa iria fazer amanhã)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
O solvente moderno
Na reportagem do Diário de Notícias, Badajoz é primeira opção para além das dez semanas, lêem-se as seguintes palavras de Yolanda Dominguez, a directora da "clínica" que abriu em Lisboa para dar conta dos nossos fetos, mulher moderna quiçá já preocupada com uma eventual "necessidade humana" de um aumento do prazo para se poder abortar por opção:
Para além da inversão de valores (na qual as objecções de consciência são obstáculos, e o aborto livre é "sinal de evolução"), é curioso o uso do verbo "dissolver" mesmo no final da citação.
Há toda uma mentalidade solvente na cabeça destas pessoas. Talvez uma associação mental aos químicos que usam para "dissolver" o "problema" da gravidez? Ou, melhor ainda, um eco instintivo do seu trabalho diário de "dissolução" social? Nota-se uma pressa em acelerar a decomposição da ética e da moral da sociedade, essas "maçadas" que impedem um bom negócio de prosperar ainda mais do que já prospera.
Para além dos fetos destruídos, as Yolandas Dominguez desta vida dissolvem a sociedade de forma impune e neutra: dir-se-ia mesmo de forma "legal". Gerações de portugueses que nunca existirão. Famílias que nunca se constituirão. Gente que nunca viverá, nunca respirará, nunca pensará, graças aos esforços diligentes dos "doutores" Mengele da modernidade...
"Na prática, a lei foi boa para muita gente, um sinal de evolução social para Portugal. Hoje em dia temos acordos com vários hospitais públicos portugueses, para suprir as necessidades causadas pelas objecções de consciência. Mas claro que continuam a existir excepções. Por exemplo, é preciso a mulher ir a três consultas antes de fazer um aborto, e uma mulher de Coimbra, que já passou as dez semanas, tem de ir a Espanha. Depois há o facto de algumas pessoas utilizarem métodos contraceptivos que não são 100% eficazes, e por isso não têm a noção de que estão grávidas, razão pela qual deixam passar o tempo legal de que dispõem para fazer a IVG. E claro, há ainda algum preconceito social que demora tempo a dissolver-se"
Para além da inversão de valores (na qual as objecções de consciência são obstáculos, e o aborto livre é "sinal de evolução"), é curioso o uso do verbo "dissolver" mesmo no final da citação.
Há toda uma mentalidade solvente na cabeça destas pessoas. Talvez uma associação mental aos químicos que usam para "dissolver" o "problema" da gravidez? Ou, melhor ainda, um eco instintivo do seu trabalho diário de "dissolução" social? Nota-se uma pressa em acelerar a decomposição da ética e da moral da sociedade, essas "maçadas" que impedem um bom negócio de prosperar ainda mais do que já prospera.
Para além dos fetos destruídos, as Yolandas Dominguez desta vida dissolvem a sociedade de forma impune e neutra: dir-se-ia mesmo de forma "legal". Gerações de portugueses que nunca existirão. Famílias que nunca se constituirão. Gente que nunca viverá, nunca respirará, nunca pensará, graças aos esforços diligentes dos "doutores" Mengele da modernidade...
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Educação sexual moderna em quatro aulas
Programa:
«O sexo é bom em si mesmo e não tem nada a ver com compromisso ou responsabilidade»
Espanha: 101.592 abortos realizados em 2006. Mais de 90% por "razões psicológicas".
«O sexo é bom em si mesmo e não tem nada a ver com compromisso ou responsabilidade»
Aula I
Professor: «Faz o sexo que quiseres, com quem quiseres, como quiseres, mas usa preservativo»
Aluno: «Onde é que se compra? São caros...»
Professor: «Não há problema! Lá fora estão a distribuí-los à borla! Basta pedir-lhes.»
Aula II
Aluno: «O preservativo falhou! O que é que faço agora?»
Professor: «Não há problema! A culpa não é tua. Essas coisas acontecem. Basta comprar a pílula do dia seguinte.»
Aula III
Aluno: «A pílula do dia seguinte não funcionou!»
ou então...
Aluno: «Não comprei a pílula do dia seguinte a tempo!»
Professor: «Não há problema! A culpa não é tua. Essas coisas acontecem. Podes abortar até às dez semanas por tua opção. Basta ires ao Centro de Saúde da tua zona.»
Aula IV
Aluno: «A gravidez já passou as dez semanas!»
Professor: «Não há problema! A culpa não é tua. Essas coisas acontecem. Podes abortar por razões psicológicas em Espanha. Basta ir lá.»
Espanha: 101.592 abortos realizados em 2006. Mais de 90% por "razões psicológicas".
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
O caso "Carlos Morín": o que não se mostra por cá
El historial de Morín incluye su paso por prisión por abortos ilegales en Alicante
"Usted tiene su moral, yo la mía", dice Carlos Morín, el rey del aborto de Barcelona
Prisión para Carlos Morín, su mujer y una empleada
La red de abortos ilegales de Carlos Morín se desmonta también en Madrid
Una testigo protegida destapa una red de abortos ilegales en Barcelona
Coerência e unidade
O Prof. José Manuel Pureza escrevia ontem, em texto divulgado no Ecclesia, acerca da Mensagem de Paz do Papa Bento XVI, expressando-se nestes termos:
Sem qualquer consideração moral sobre a pessoa do Prof. José Manuel Pureza, e sem colocar minimamente em causa o seu trabalho na Comissão Nacional Justiça e Paz, devo confessar que achei o seu texto perturbante, por mostrar aquilo que me parece ser uma clara contradição num católico com carreira universitária, e louvável activismo católico.
Dito de outra forma, nem pessoas como o Prof. José Manuel Pureza estão a salvo de incorrerem em gravíssimas incoerências. Refiro-me à sua conhecida posição aquando do referendo de Fevereiro passado sobre o aborto, essa clara violência física, estrutural e cultural que é o avesso de uma condição familiar.
O Prof. José Manuel Pureza, não só votou "SIM" ao aborto legal, livre e subsidiado, como fez questão de dar o seu nome para vários destes movimentos. Surge listado no blogue Eu voto SIM. Foi também mandatário do Movimento de Cidadania e Responsabilidade pelo SIM.
Esta sua posição é incompreensível. Sem colocar em questão o perfeito catolicismo daqueles que procurariam uma redução da pena para o crime de aborto, ou até a sua eliminação em circunstâncias específicas, já o voto "SIM" no referendo de Fevereiro teria necessariamente que andar às arrecuas do catolicismo.
Sem querer reproduzir aqui, de novo, os argumentos que invoquei para explicar o mal ético do aborto, e o erro fatal de um católico votar "SIM" em tal referendo, remeto os interessados nos detalhes para o documento que se encontra na parte lateral deste blogue, na secção Artigos. Na sua versão longa, chamo a atenção para o capítulo 3.4, que principia na página 33, onde se encontra a argumentação para o que vou afirmar de seguida.
Todo o votante no "SIM", para além de concordar com a despenalização do crime de aborto (o que é evidente, e relativamente inócuo), também concordou com a legalização desse crime (uma contradição nos termos), e pior ainda, concordou com o uso de dinheiros públicos do Sistema Nacional de Saúde para efectuar esses crimes.
Não é evidente a razão pela qual qualquer pessoa de bom senso, amiga da verdade, respeitadora da vida, deveria ter votado "não"?
E, sendo tal pessoa um católico, não é de bradar aos céus tal incoerência? Tal nítida contradição, que rompe profundamente a união de tal pessoa com o catolicismo, e no seu âmago?
O Prof. José Manuel Pureza, juntamente com todos os que votaram "SIM", é co-responsável de duas graves consequências sociais:
a) a de o crime de aborto deixar de ser visto legalmente como tal (falência ética)
b) a de o crime de aborto passar a ser pago pelos impostos de todos os portugueses (perversão moral)
E também vale de pouco invocar o facto que de a pergunta do referendo não legitimaria muitas das opções políticas do governo Sócrates. Tal invocação é sinal de ingenuidade e de falta de maturidade. Os projectos-lei estavam à vista de todos, bem antes do referendo, e sabia-se bem o que significava, politicamente, um "sim" ao referendo.
Deste modo, quando Portugal se assemelhar a Espanha, e o aborto se generalizar para fetos acima das "miraculosas" dez semanas (recorde-se, para os "intelectuais" pró-aborto, essa é a idade mágica com a qual ganhamos direito a viver), e começarmos a assistir ao circo perverso dos Carlos Moríns do nosso país, também deveremos chamar à barra o Prof. José Manuel Pureza, e todos os que com ele votaram "sim", uma vez que abriram caminho, na nossa sociedade, para o relativismo moral e ético.
É que a Ética, em sociedade, respeita-se quando todos somos responsáveis pelo seu respeito. Basta que um de nós, só um, vacile nesta responsabilidade, para toda a sociedade estar eticamente em risco. Isto permite, hoje em dia, que se fale na "ética de cada um", porque deixámos de concordar na "ética de todos": o barão do aborto, Carlos Morín, responsável pela morte de milhares de seres humanos, gravado ocultamente num documentário espanhol, e perante a pergunta de se considerava éticas as suas acções, afirmava: "vocês têm a vossa ética, eu tenho a minha!".
Votar "sim" foi uma contradição ética.
E toda esta contradição ética, note-se, sob a capa de movimentos cujo nome invoca termos tão louváveis como "cidadania" e "responsabilidade".
Cada ser humano morto nas clínicas infanticidas, públicas ou privadas, na sua curta vida terminada brutal e violentamente, é um grito que ecoa até aos céus, até ao âmago divino. Nada poderá apagar tais crimes, porque não são mortes por acidente, ou mortes por outro tipo de infortúnios sem culpa humana, como doenças, ou catástrofes naturais. Tais crimes são de bradar, porque são mortes de inocentes às mãos de seres humanos conscientes do crime que cometem.
Regressando aos católicos, há quem diga que as igrejas estão a ficar mais vazias porque a Igreja Católica não permite o aborto, não sanciona a homossexualidade, não reconhece os divórcios, não ordena as mulheres, não deixa os padres casarem, entre outras tontas (porque erradas) reivindicações.
É ver o problema ao contrário: as igrejas estão a ficar vazias, e a sociedade está a perder a espiritualidade que lhe dá vida, porque os católicos cada vez mais se esquecem da relação entre coerência e unidade. Não é ideal a unidade baseada na obediência (se bem que seja sensato obedecer a quem tem razão), mas sim a unidade baseada na adesão livre a uma proposta coerente, verdadeira e radical como é a de Cristo.
Coloco-me na pele do não católico: que interesse haverá em aderir a uma doutrina cujos professantes nem sequer se entendem a respeito da ética mais básica, do crime de retirar uma vida humana? Quando um não católico olha para teólogos como um frei Bento Domingues ou Anselmo Borges, o que vê? Quando um não católico olha para o Prof. José Manuel Pureza, o que vê? Muitos vêem teólogos e leigos católicos maduros, progressistas, clarividentes. É pena. Porque se vissem mais de perto veriam que um católico que votou "sim" no referendo de Fevereiro, está terrivelmente equivocado na forma como deveria defender a sua convicção cristã mais profunda: o Amor.
Para além disto, é certo o enorme mal que tais posições incoerentes provocam na sociedade, sobretudo nos adversários da proposta cristã. Veja-se este exemplo paradigmático, intitulado Sim de Crentes.
O que torna este texto recente do Prof. José Manuel Beleza no Ecclesia espantosamente vexante, é a circunstância da sua posição contraditória face ao aborto, porque o texto está correctíssimo no seu conteúdo e forma. Ao invocar a Paz, enquanto concorda com o aborto, dá sinais evidentes de uma grave contradição ética e moral.
Dizia Madre Teresa de Calcutá que o aborto era a maior ameaça à paz mundial. O insensato Richard Dawkins, na sua recente e medíocre obra de polémica contra Deus ("The God Delusion"), perguntava porque razão teriam dado o Nobel da Paz a uma "mulher tonta" (se as palavras não são estas, o sentido é este), porque, segundo ele, o aborto nunca poderia ser a maior ameaça à Paz.
Estas palavras foram escritas pelo mesmo homem que, bem perto deste trecho, escrevia que o nascimento era o "Rubicão" do direito à vida. Ou seja, defendia que era a saída do útero materno que conferia direito a viver. Seguindo este imbecil raciocínio, na "ética Dawkins", seria legítimo dar uma injecção fatal no coração da criança de nove meses, prestes a nascer. Segundo esta lógica profundamente errada, estar para lá ou para cá do útero parece ter qualquer tipo de significado ético.
O aborto é, sem dúvida, a maior ameaça à paz mundial. Porque se permitimos que se matem inocentes, invocando apenas as tristes razões do nosso conforto ou da nossa subsistência económica (oferecendo os Estados às mães em dificuldades a "solução final" para os seus filhos), se achamos bem que se destruam vidas humanas inocentes, que nem sequer tiveram a possibilidade de errar nesta vida, então o Mal está realmente à solta, e não há razão para imaginar que poderemos ter Justiça para com os adultos, culpados ou inocentes, visto que a negamos aos mais pequenos e frágeis de entre nós.
Finalmente, um humilde pedido de exame de consciência para todos os católicos (que também se aplica a mim). Uma reflexão acerca de coerência e unidade. Cada vez que, perante outros amigos e familiares, católicos ou não, fazemos um comentário negativo acerca de um movimento católico, ou fazemos chacota da devoção ou piedade de outro católico, ou quando, receosos da reacção do Mundo, fingimos discordar das opções fundamentais da Igreja, estamos a fazer anti-evangelização. Damos um sinal de contradição. E contradição é erro. E ninguém quer seguir pessoas erradas.
Sempre que, enquanto católicos, professamos uma ideia anti-católica, estamos a minar a nossa coerência, e com ela, a unidade de todos os cristãos. Numa altura em que o Papa Bento XVI move todos os esforços no sentido de recuperar a unidade entre católicos e ortodoxos, convenhamos que é bem triste constatar que tantos ainda marcham no sentido contrário, em direcção à incoerência.
Peçamos a Deus a coragem para sermos coerentes e unos. Só assim poderemos anunciar Cristo ao Mundo de forma convincente.
«As violências que marcam o nosso quotidiano, em todas as escalas - sejam físicas, estruturais ou culturais - são o avesso de uma condição familiar.»
Sem qualquer consideração moral sobre a pessoa do Prof. José Manuel Pureza, e sem colocar minimamente em causa o seu trabalho na Comissão Nacional Justiça e Paz, devo confessar que achei o seu texto perturbante, por mostrar aquilo que me parece ser uma clara contradição num católico com carreira universitária, e louvável activismo católico.
Dito de outra forma, nem pessoas como o Prof. José Manuel Pureza estão a salvo de incorrerem em gravíssimas incoerências. Refiro-me à sua conhecida posição aquando do referendo de Fevereiro passado sobre o aborto, essa clara violência física, estrutural e cultural que é o avesso de uma condição familiar.
O Prof. José Manuel Pureza, não só votou "SIM" ao aborto legal, livre e subsidiado, como fez questão de dar o seu nome para vários destes movimentos. Surge listado no blogue Eu voto SIM. Foi também mandatário do Movimento de Cidadania e Responsabilidade pelo SIM.
Esta sua posição é incompreensível. Sem colocar em questão o perfeito catolicismo daqueles que procurariam uma redução da pena para o crime de aborto, ou até a sua eliminação em circunstâncias específicas, já o voto "SIM" no referendo de Fevereiro teria necessariamente que andar às arrecuas do catolicismo.
Sem querer reproduzir aqui, de novo, os argumentos que invoquei para explicar o mal ético do aborto, e o erro fatal de um católico votar "SIM" em tal referendo, remeto os interessados nos detalhes para o documento que se encontra na parte lateral deste blogue, na secção Artigos. Na sua versão longa, chamo a atenção para o capítulo 3.4, que principia na página 33, onde se encontra a argumentação para o que vou afirmar de seguida.
Todo o votante no "SIM", para além de concordar com a despenalização do crime de aborto (o que é evidente, e relativamente inócuo), também concordou com a legalização desse crime (uma contradição nos termos), e pior ainda, concordou com o uso de dinheiros públicos do Sistema Nacional de Saúde para efectuar esses crimes.
Não é evidente a razão pela qual qualquer pessoa de bom senso, amiga da verdade, respeitadora da vida, deveria ter votado "não"?
E, sendo tal pessoa um católico, não é de bradar aos céus tal incoerência? Tal nítida contradição, que rompe profundamente a união de tal pessoa com o catolicismo, e no seu âmago?
O Prof. José Manuel Pureza, juntamente com todos os que votaram "SIM", é co-responsável de duas graves consequências sociais:
a) a de o crime de aborto deixar de ser visto legalmente como tal (falência ética)
b) a de o crime de aborto passar a ser pago pelos impostos de todos os portugueses (perversão moral)
E também vale de pouco invocar o facto que de a pergunta do referendo não legitimaria muitas das opções políticas do governo Sócrates. Tal invocação é sinal de ingenuidade e de falta de maturidade. Os projectos-lei estavam à vista de todos, bem antes do referendo, e sabia-se bem o que significava, politicamente, um "sim" ao referendo.
Deste modo, quando Portugal se assemelhar a Espanha, e o aborto se generalizar para fetos acima das "miraculosas" dez semanas (recorde-se, para os "intelectuais" pró-aborto, essa é a idade mágica com a qual ganhamos direito a viver), e começarmos a assistir ao circo perverso dos Carlos Moríns do nosso país, também deveremos chamar à barra o Prof. José Manuel Pureza, e todos os que com ele votaram "sim", uma vez que abriram caminho, na nossa sociedade, para o relativismo moral e ético.
É que a Ética, em sociedade, respeita-se quando todos somos responsáveis pelo seu respeito. Basta que um de nós, só um, vacile nesta responsabilidade, para toda a sociedade estar eticamente em risco. Isto permite, hoje em dia, que se fale na "ética de cada um", porque deixámos de concordar na "ética de todos": o barão do aborto, Carlos Morín, responsável pela morte de milhares de seres humanos, gravado ocultamente num documentário espanhol, e perante a pergunta de se considerava éticas as suas acções, afirmava: "vocês têm a vossa ética, eu tenho a minha!".
Votar "sim" foi uma contradição ética.
E toda esta contradição ética, note-se, sob a capa de movimentos cujo nome invoca termos tão louváveis como "cidadania" e "responsabilidade".
Cada ser humano morto nas clínicas infanticidas, públicas ou privadas, na sua curta vida terminada brutal e violentamente, é um grito que ecoa até aos céus, até ao âmago divino. Nada poderá apagar tais crimes, porque não são mortes por acidente, ou mortes por outro tipo de infortúnios sem culpa humana, como doenças, ou catástrofes naturais. Tais crimes são de bradar, porque são mortes de inocentes às mãos de seres humanos conscientes do crime que cometem.
Regressando aos católicos, há quem diga que as igrejas estão a ficar mais vazias porque a Igreja Católica não permite o aborto, não sanciona a homossexualidade, não reconhece os divórcios, não ordena as mulheres, não deixa os padres casarem, entre outras tontas (porque erradas) reivindicações.
É ver o problema ao contrário: as igrejas estão a ficar vazias, e a sociedade está a perder a espiritualidade que lhe dá vida, porque os católicos cada vez mais se esquecem da relação entre coerência e unidade. Não é ideal a unidade baseada na obediência (se bem que seja sensato obedecer a quem tem razão), mas sim a unidade baseada na adesão livre a uma proposta coerente, verdadeira e radical como é a de Cristo.
Coloco-me na pele do não católico: que interesse haverá em aderir a uma doutrina cujos professantes nem sequer se entendem a respeito da ética mais básica, do crime de retirar uma vida humana? Quando um não católico olha para teólogos como um frei Bento Domingues ou Anselmo Borges, o que vê? Quando um não católico olha para o Prof. José Manuel Pureza, o que vê? Muitos vêem teólogos e leigos católicos maduros, progressistas, clarividentes. É pena. Porque se vissem mais de perto veriam que um católico que votou "sim" no referendo de Fevereiro, está terrivelmente equivocado na forma como deveria defender a sua convicção cristã mais profunda: o Amor.
Para além disto, é certo o enorme mal que tais posições incoerentes provocam na sociedade, sobretudo nos adversários da proposta cristã. Veja-se este exemplo paradigmático, intitulado Sim de Crentes.
O que torna este texto recente do Prof. José Manuel Beleza no Ecclesia espantosamente vexante, é a circunstância da sua posição contraditória face ao aborto, porque o texto está correctíssimo no seu conteúdo e forma. Ao invocar a Paz, enquanto concorda com o aborto, dá sinais evidentes de uma grave contradição ética e moral.
Dizia Madre Teresa de Calcutá que o aborto era a maior ameaça à paz mundial. O insensato Richard Dawkins, na sua recente e medíocre obra de polémica contra Deus ("The God Delusion"), perguntava porque razão teriam dado o Nobel da Paz a uma "mulher tonta" (se as palavras não são estas, o sentido é este), porque, segundo ele, o aborto nunca poderia ser a maior ameaça à Paz.
Estas palavras foram escritas pelo mesmo homem que, bem perto deste trecho, escrevia que o nascimento era o "Rubicão" do direito à vida. Ou seja, defendia que era a saída do útero materno que conferia direito a viver. Seguindo este imbecil raciocínio, na "ética Dawkins", seria legítimo dar uma injecção fatal no coração da criança de nove meses, prestes a nascer. Segundo esta lógica profundamente errada, estar para lá ou para cá do útero parece ter qualquer tipo de significado ético.
O aborto é, sem dúvida, a maior ameaça à paz mundial. Porque se permitimos que se matem inocentes, invocando apenas as tristes razões do nosso conforto ou da nossa subsistência económica (oferecendo os Estados às mães em dificuldades a "solução final" para os seus filhos), se achamos bem que se destruam vidas humanas inocentes, que nem sequer tiveram a possibilidade de errar nesta vida, então o Mal está realmente à solta, e não há razão para imaginar que poderemos ter Justiça para com os adultos, culpados ou inocentes, visto que a negamos aos mais pequenos e frágeis de entre nós.
Finalmente, um humilde pedido de exame de consciência para todos os católicos (que também se aplica a mim). Uma reflexão acerca de coerência e unidade. Cada vez que, perante outros amigos e familiares, católicos ou não, fazemos um comentário negativo acerca de um movimento católico, ou fazemos chacota da devoção ou piedade de outro católico, ou quando, receosos da reacção do Mundo, fingimos discordar das opções fundamentais da Igreja, estamos a fazer anti-evangelização. Damos um sinal de contradição. E contradição é erro. E ninguém quer seguir pessoas erradas.
Sempre que, enquanto católicos, professamos uma ideia anti-católica, estamos a minar a nossa coerência, e com ela, a unidade de todos os cristãos. Numa altura em que o Papa Bento XVI move todos os esforços no sentido de recuperar a unidade entre católicos e ortodoxos, convenhamos que é bem triste constatar que tantos ainda marcham no sentido contrário, em direcção à incoerência.
Peçamos a Deus a coragem para sermos coerentes e unos. Só assim poderemos anunciar Cristo ao Mundo de forma convincente.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Procura-se: notícias sobre Carlos Morín em Portugal
Enquanto a Espanha se escandaliza perante os relatos de horror nas clínicas do mega-milionário do aborto, e as detenções se seguem em ritmo acelerado em Madrid e Barcelona, por aqui está tudo sossegadinho. Procurando na Internet, encontra-se alguma coisa no Correio da Manhã, e até no motor de pesquisa do Sapo.
Admito que possa estar a ver mal: agradeço a quem me enviar notícias portuguesas acerca da mega-operação policial à rede de "clínicas" abortivas de Carlos Morín.
O caso é tão grave que até Zapatero já pondera inserir limites na actual lei espanhola. Recorde-se que o aborto é legal em caso de "risco psíquico", e que já toda a gente sabia, há anos a fio, que os abortos eram feitos em qualquer fase da gravidez, mediante atestados de "risco psíquico" assinados em branco por (pseudo-)psiquiatras.
Espanha...
Já aqui ao lado, e no entanto, tão longe no que diz respeito à imparcial cobertura de certas notícias mais incómodas para o nosso país, ainda jovem na senda do aborto livre...
Admito que possa estar a ver mal: agradeço a quem me enviar notícias portuguesas acerca da mega-operação policial à rede de "clínicas" abortivas de Carlos Morín.
O caso é tão grave que até Zapatero já pondera inserir limites na actual lei espanhola. Recorde-se que o aborto é legal em caso de "risco psíquico", e que já toda a gente sabia, há anos a fio, que os abortos eram feitos em qualquer fase da gravidez, mediante atestados de "risco psíquico" assinados em branco por (pseudo-)psiquiatras.
Espanha...
Já aqui ao lado, e no entanto, tão longe no que diz respeito à imparcial cobertura de certas notícias mais incómodas para o nosso país, ainda jovem na senda do aborto livre...
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
A última fronteira...
... para o sinistro, perdão, ministro Correia de Campos está no Código Deontológico dos Médicos, mais concretamente no artigo n.º 47 do mesmo, que considera e bem que a prática de aborto por parte de um médico é uma "falha grave". Faz todo o sentido. Qualquer aluno de Medicina sabe a razão pela qual está a estudar: para salvar e não para matar. Daí a "falha grave". Elementar...
Mas já falta pouco para a hegemonia do aborto, para a vitória da sanha anti-ética do nosso Ministro da Saúde, que ficará na história de Portugal como uma figura de triste memória.
Mais cedo ou mais tarde (eu apostaria mais tarde), quando os excessos anti-éticos se tornarem mais notórios (podemos vê-los já aqui ao lado, em Madrid, mas mais vale calar estas coisas para não melindrarem os amigos do aborto), quando o país arregalar os olhos e olhar de frente para a miséria do crime do aborto, pode ser que a Ética volte a ser o que era no nosso país.
Por enquanto, estamos bem longe disso: no que diz respeito a experiências pseudo-éticas no campo do aborto livre, Portugal ainda é jovem, ainda tem muito para testar e ensaiar em termos ideológicos. Só agora estamos a viver o nosso "Roe vs. Wade", trinta anos depois dos americanos, e caramba, temos direito a isso! Não é, senhor ministro?
Assim, Correia de Campos sabe bem que só falta uma coisa depois de enganada a opinião pública no último referendo. Convencer o português a votar "SIM" ao aborto foi fácil. Mesmo com imensa abstenção, a propaganda funcionou perfeitamente. Com enorme tranquilidade, a reboque de uma pretensa eliminação da penalização do aborto, ei-lo agora legalizado e liberalizado.
O aparato está montado. Numa boa. As mortes já são conduzidas nas melhores condições de higiene e de tranquilidade. Apoio psicológico, ar perfumado, luz ambiente suave, lençóis lavados, até existirá música "new age" relaxante. Matar já não custa. O Estado até subsidia a "cura" para este novo tipo de doença chamado "gravidez".
Mas ainda falta uma coisinha na mente maquiavélica de Correia de Campos: aqueles chatos dos médicos, que passam quase uma década a instruirem-se para salvar vidas humanas. E não é bem chato ter que convencer um profissional da saúde a matar pessoas em vez de as salvar? É complicada a argumentação. Aquela maçada da "objecção de consciência" não vem nada a calhar, sobretudo quando o Código Deontológico ainda insiste na "falha grave" do aborto...
Para alcançar o "paraíso abortivo Correia de Campos", há que transformar os médicos objectores numa minoria de fanáticos ultra-conservadores. E só há uma forma de o conseguir: mudar a ética. Mudar o Código.
O leitor mais atento interroga-se:
"mas faz sentido que a lei condicione a ética?"
Não, não faz.
"não deveria ser ao contrário?"
Pois deveria.
Há leis que não são éticas (como a actual lei do aborto). Como algumas leis raciais e eugénicas do Terceiro Reich, que eram leis "legais" (passe o pleonasmo) e nada éticas.
O que é ético, por sua vez, deve ser legal.
Já o que não é ético pode ou não ser ilegal, dependendo do contexto e da gravidade.
Um exemplo simples: mentir não é ético. Todos concordamos.
Se eu mentir num café, numa conversa de amigos, inflamando os meus dotes de pescador, isso não é ético, mas é perfeitamente legal.
Se eu mentir num Tribunal, continua a não ser ético, mas lá se vai o legal.
Mas o ético está lá, sempre a servir de referência. Mentir é feio. E o povo entende bem isto, porque é brutalmente simples. Não é preciso ter um curso de Filosofia ou de Ética Aplicada para entender que mentir é feio. Como matar é feio. Não é ético aquilo que não se deve fazer. Abortar é algo que não se deve fazer. Porque é matar. Não é ético. Ponto final.
Já ser legal ou não depende da lei, dos desvarios dos políticos, e da eficácia da sua propaganda ideológica junto das massas votantes.
O que Correia de Campos quer, e vai conseguir, é alterar o certo ou errado na deontologia médica graças à nova lei. Ou seja, a partir da vitória da sua lei iníqua abortiva, o senhor ministro quer transformar o errado (abortar) em certo. Porque mudar um Código Deontológico é, afinal, mexer no certo e no errado. Deturpar a ética dos médicos é a última fronteira para se estabelecer a hegemonia abortista de Correia de Campos.
Poderíamos discorrer sobre o "quero, posso e mando" do senhor ministro. Sobre o seu autoritarismo e prepotência.
Poderíamos interrogar-nos se tais impulsos ideológicos não serão manifestações tardias de alguns fantasmas gonçalvistas à solta no escuro armário da sua psique.
Mas a melhor interrogação é esta: que raio faz um ministro, um político, a tentar mexer no Código Deontológico de uma classe eminentemente técnica e competente com a dos médicos?
E não parece uma suprema estupidez querer mudar, por razões políticas, uma deontologia mais de duas vezes milenar, que remonta a Hipócrates, que já advogava que o médico não serve para matar mas sim para preservar o vivos?
De facto é uma suprema estupidez. Correia de Campos quer agora corrigir Hipócrates. Afinal, sinais dos tempos! É o progresso! O certo passa a errado e o errado passa a certo! Já não é o certo e o errado que definem aquilo que é legal ou não. Já não é a Lei que emana da Ética, mas sim a Ética que passa agora a ser escrava da Lei.
Enfim, o clássico caminho satânico da tirania e do mal puro, essa estrada que tantos políticos ainda insistem em trilhar, como flautistas a encaminhar uma imensa sociedade indiferente ou confusa em direcção ao abismo...
E para quem ainda deposita esperanças em Pedro Nunes, no actual bastonário da Ordem dos Médicos, é melhor não investir muito nelas. Infelizmente, Pedro Nunes, opondo-se a Correia de Campos, não está numa sólida posição ética: opõe-se à alteração do código deontológico, mas dá uma má razão, ao afirmar que os médicos não estão contra o aborto, apenas querem alguma liberdade de objecção de consciência. Ao usar este tipo de argumentação, Pedro Nunes não parte de uma posição eticamente sólida. Logo, vai ser derrotado. E, nas próximas eleições para a Ordem, já parte em desvantagem. É o único dos três candidatos que se opõe à alteração.
Os outros dois candidatos também faltaram às aulas de Ética: Miguel Leão, perante o choque entre o Código Deontológico e a Lei do Aborto já decidiu qual vai ter que ir à vida. O Código, claro:
Ainda bem que Miguel Leão está "à vontade". No bom espírito relativista, Miguel Leão lavou as suas mãos ao votar "Não" e não tem qualquer preocupação com as chatices do "certo" e do "errado": isso de debater o certo ou errado do aborto só dá amargos de boca. Mais vale alterar o artigozito que chateia o ministro! Bravo...
Vejamos o outro candidato, Carlos Santos, que também não entende que a Ética vem antes da Lei:
Este caso é mais chocante: Carlos Santos chegou à idade adulta, com formação universitária numa das áreas mais exigentes em termos intelectuais, sem que lhe explicassem que a Ética precede a Lei!
Com estes "opositores", Correia de Campos tem razões de sobra para sorrir...
Mas já falta pouco para a hegemonia do aborto, para a vitória da sanha anti-ética do nosso Ministro da Saúde, que ficará na história de Portugal como uma figura de triste memória.
Mais cedo ou mais tarde (eu apostaria mais tarde), quando os excessos anti-éticos se tornarem mais notórios (podemos vê-los já aqui ao lado, em Madrid, mas mais vale calar estas coisas para não melindrarem os amigos do aborto), quando o país arregalar os olhos e olhar de frente para a miséria do crime do aborto, pode ser que a Ética volte a ser o que era no nosso país.
Por enquanto, estamos bem longe disso: no que diz respeito a experiências pseudo-éticas no campo do aborto livre, Portugal ainda é jovem, ainda tem muito para testar e ensaiar em termos ideológicos. Só agora estamos a viver o nosso "Roe vs. Wade", trinta anos depois dos americanos, e caramba, temos direito a isso! Não é, senhor ministro?
Assim, Correia de Campos sabe bem que só falta uma coisa depois de enganada a opinião pública no último referendo. Convencer o português a votar "SIM" ao aborto foi fácil. Mesmo com imensa abstenção, a propaganda funcionou perfeitamente. Com enorme tranquilidade, a reboque de uma pretensa eliminação da penalização do aborto, ei-lo agora legalizado e liberalizado.
O aparato está montado. Numa boa. As mortes já são conduzidas nas melhores condições de higiene e de tranquilidade. Apoio psicológico, ar perfumado, luz ambiente suave, lençóis lavados, até existirá música "new age" relaxante. Matar já não custa. O Estado até subsidia a "cura" para este novo tipo de doença chamado "gravidez".
Mas ainda falta uma coisinha na mente maquiavélica de Correia de Campos: aqueles chatos dos médicos, que passam quase uma década a instruirem-se para salvar vidas humanas. E não é bem chato ter que convencer um profissional da saúde a matar pessoas em vez de as salvar? É complicada a argumentação. Aquela maçada da "objecção de consciência" não vem nada a calhar, sobretudo quando o Código Deontológico ainda insiste na "falha grave" do aborto...
Para alcançar o "paraíso abortivo Correia de Campos", há que transformar os médicos objectores numa minoria de fanáticos ultra-conservadores. E só há uma forma de o conseguir: mudar a ética. Mudar o Código.
O leitor mais atento interroga-se:
"mas faz sentido que a lei condicione a ética?"
Não, não faz.
"não deveria ser ao contrário?"
Pois deveria.
Há leis que não são éticas (como a actual lei do aborto). Como algumas leis raciais e eugénicas do Terceiro Reich, que eram leis "legais" (passe o pleonasmo) e nada éticas.
O que é ético, por sua vez, deve ser legal.
Já o que não é ético pode ou não ser ilegal, dependendo do contexto e da gravidade.
Um exemplo simples: mentir não é ético. Todos concordamos.
Se eu mentir num café, numa conversa de amigos, inflamando os meus dotes de pescador, isso não é ético, mas é perfeitamente legal.
Se eu mentir num Tribunal, continua a não ser ético, mas lá se vai o legal.
Mas o ético está lá, sempre a servir de referência. Mentir é feio. E o povo entende bem isto, porque é brutalmente simples. Não é preciso ter um curso de Filosofia ou de Ética Aplicada para entender que mentir é feio. Como matar é feio. Não é ético aquilo que não se deve fazer. Abortar é algo que não se deve fazer. Porque é matar. Não é ético. Ponto final.
Já ser legal ou não depende da lei, dos desvarios dos políticos, e da eficácia da sua propaganda ideológica junto das massas votantes.
O que Correia de Campos quer, e vai conseguir, é alterar o certo ou errado na deontologia médica graças à nova lei. Ou seja, a partir da vitória da sua lei iníqua abortiva, o senhor ministro quer transformar o errado (abortar) em certo. Porque mudar um Código Deontológico é, afinal, mexer no certo e no errado. Deturpar a ética dos médicos é a última fronteira para se estabelecer a hegemonia abortista de Correia de Campos.
Poderíamos discorrer sobre o "quero, posso e mando" do senhor ministro. Sobre o seu autoritarismo e prepotência.
Poderíamos interrogar-nos se tais impulsos ideológicos não serão manifestações tardias de alguns fantasmas gonçalvistas à solta no escuro armário da sua psique.
Mas a melhor interrogação é esta: que raio faz um ministro, um político, a tentar mexer no Código Deontológico de uma classe eminentemente técnica e competente com a dos médicos?
E não parece uma suprema estupidez querer mudar, por razões políticas, uma deontologia mais de duas vezes milenar, que remonta a Hipócrates, que já advogava que o médico não serve para matar mas sim para preservar o vivos?
De facto é uma suprema estupidez. Correia de Campos quer agora corrigir Hipócrates. Afinal, sinais dos tempos! É o progresso! O certo passa a errado e o errado passa a certo! Já não é o certo e o errado que definem aquilo que é legal ou não. Já não é a Lei que emana da Ética, mas sim a Ética que passa agora a ser escrava da Lei.
Enfim, o clássico caminho satânico da tirania e do mal puro, essa estrada que tantos políticos ainda insistem em trilhar, como flautistas a encaminhar uma imensa sociedade indiferente ou confusa em direcção ao abismo...
E para quem ainda deposita esperanças em Pedro Nunes, no actual bastonário da Ordem dos Médicos, é melhor não investir muito nelas. Infelizmente, Pedro Nunes, opondo-se a Correia de Campos, não está numa sólida posição ética: opõe-se à alteração do código deontológico, mas dá uma má razão, ao afirmar que os médicos não estão contra o aborto, apenas querem alguma liberdade de objecção de consciência. Ao usar este tipo de argumentação, Pedro Nunes não parte de uma posição eticamente sólida. Logo, vai ser derrotado. E, nas próximas eleições para a Ordem, já parte em desvantagem. É o único dos três candidatos que se opõe à alteração.
Os outros dois candidatos também faltaram às aulas de Ética: Miguel Leão, perante o choque entre o Código Deontológico e a Lei do Aborto já decidiu qual vai ter que ir à vida. O Código, claro:
"Face à questão jurídica, o código deontológico deve ser revisto porque vai ao arrepio da legislação. E eu estou à-vontade, porque votei `não` no referendo", declarou à agência Lusa o candidato às eleições de 12 de Dezembro Miguel Leão.
"Não quer dizer que a Ordem não possa ter recomendações éticas que sejam contrárias à legislação do país, mas defendo que há uma contradição que deve ser resolvida", considerou.
Ainda bem que Miguel Leão está "à vontade". No bom espírito relativista, Miguel Leão lavou as suas mãos ao votar "Não" e não tem qualquer preocupação com as chatices do "certo" e do "errado": isso de debater o certo ou errado do aborto só dá amargos de boca. Mais vale alterar o artigozito que chateia o ministro! Bravo...
Vejamos o outro candidato, Carlos Santos, que também não entende que a Ética vem antes da Lei:
Também o candidato Carlos Santos considera que "o código deontológico da Ordem dos Médicos tem de respeitar a legislação actual", ao mesmo tempo que defende que podem haver recomendações éticas "para o caso de os profissionais não quererem realizar determinada intervenção".
Este caso é mais chocante: Carlos Santos chegou à idade adulta, com formação universitária numa das áreas mais exigentes em termos intelectuais, sem que lhe explicassem que a Ética precede a Lei!
Com estes "opositores", Correia de Campos tem razões de sobra para sorrir...
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